testeA era da destruição chega a Black Hammer

Em maio, a Intrínseca vai lançar Black Hammer: Era da destruição ­– Parte 1, terceiro volume da série de Jeff Lemire e Dean Ormston.

Eleita a Melhor Série Original de 2017 pelo Eisner Awards, principal prêmio internacional de quadrinhos, Black Hammer é uma das HQs mais bem-sucedidas dos últimos tempos. A história dos cinco heróis decadentes que se veem presos em uma cidade fora dos limites do tempo — e de suas tentativas de escapar desse purgatório — conquistou muitos fãs no Brasil e no mundo.

Na primeira parte de Era da destruição, grandes segredos começam a ser revelados quando os ex-heróis recebem uma visita inesperada que tanto pode lhes mostrar o caminho para casa, como ser um prenúncio do caos e da destruição que estão por vir.

E se você ficou ansioso para a segunda parte dessa história, pode ficar tranquilo: ela já está garantida aqui no Brasil! Ainda não temos previsão de publicação, mas garantimos que vai ser tão eletrizante quanto os outros volumes da série.

Black Hammer: Era da destruição ­– Parte 1 chega às livrarias no dia 2 de maio.

testeAs origens secretas de Black Hammer

 
Black Hammer é recheado de referências e todo mundo sabe disso. A criação de Jeff Lemire é uma ode aos quadrinhos clássicos de super-heróis, seja com homenagens diretas ou com pequenos easter eggs. Porém, o mais interessante na obra é o diálogo histórico que o autor constrói entre as gerações de personagens ao explorar a evolução psicológica dos superseres – das eras mais inocentes dos gibis até o niilismo e a questionamentos filosóficos da pós-modernidade.

Em 1938, Superman fazia sua primeira aparição, em Action Comics #1, dando início à era de popularização dos super-heróis. Um ano depois surgia o Capitão Marvel, posteriormente renomeado Shazam — fonte de inspiração para o alter ego de Gail Gibbons, a Menina de Ouro. Ao contrário do Shazam, Gail não se transforma em adulta ao dizer a palavra mágica: ela retorna a sua forma infantil, e isso a deixa completamente transtornada. Fruto do otimismo e da bravura de sua década, a heroína entra em conflito consigo mesma logo que os anos começam a passar, cada vez querendo ficar mais tempo em sua forma heroica para conservar o vigor da infância.


 
Mas a maior parte dos personagens de Black Hammer vem da era de prata: Abraham Slam, Libélula e Coronel Weird, por exemplo. Apesar de Abe ser inspirado em dois heróis de épocas distintas (Capitão América e Demolidor), sua personalidade é um claro reflexo do herói idealista. Ele é a encarnação do sonho americano: acredita que, com esforço suficiente, tudo é possível. Talvez por isso seja o único conformado com a vidinha pacata na fazenda. A satisfação de ter ganhado a última grande batalha é o suficiente para Slam.

A história da origem de Libélula está fortemente ligada ao Homem-Coisa e ao Monstro do Pântano, heróis criados para aproveitar a onda dos quadrinhos pulp de terror que inundou o mercado americano nos anos 1970. A quebra da quarta parede, recurso utilizado por Lemire no primeiro volume, é uma narrativa típica das antologias de contos do gênero.


 
Por fim, como representante da era de bronze temos o Guerreiro de Marte, claramente inspirado no Caçador de Marte, da DC. O desenvolvimento de personagem além da persona heroica remete diretamente ao clima noir das histórias do Batman, que nesse período recuperava o clima soturno após a série de TV de sucesso dos anos 1960. Sua sexualidade e sua relação com Gail também remetem aos temas polêmicos desse período, como o uso de drogas e o surgimento de personagens declaradamente homossexuais.

A união de todos no exílio resulta na narrativa gráfica pós-moderna: uma família disfuncional dividindo o mesmo espaço, com uma narrativa baseada quase exclusivamente em diálogos e nos conflitos internos de cada ex-herói, sem um foco tão grande nos vilões ou na ameaça do mês. O desenvolvimento de personagens está acima da ação, e isso irrita alguns deles.


 
Se Alan Moore desconstruiu o gênero ao dar profundidade aos heróis urbanos em Watchmen e Kurt Busiek narrou com maestria o ponto de vista de pessoas comuns em um mundo habitado por deuses em Marvels, Lemire desmistifica todos os conceitos construídos em 80 anos de indústria e eleva o desenvolvimento de personagens a um novo patamar.

testeConfira a capa e a data de lançamento do segundo volume de Black Hammer

Vocês pediram e nós ouvimos! Em outubro, a Intrínseca vai lançar a continuação de Black Hammer: Origens secretas, a premiada graphic novel de Jeff Lemire, Dean Ormston e Dave Stewart.

Em Black Hammer: O evento, uma visita inesperada consegue romper as barreiras invisíveis que levam até a fazenda e começa a investigar o passado da cidade misteriosa. Enquanto descobrimos mais sobre o episódio que levou os heróis ao exílio, essa visita traz consigo a chance de o supergrupo finalmente escapar do purgatório.

O segundo volume da série conta ainda com a arte do espanhol David Rubín em uma história que mostra como o Coronel Weird conheceu sua companheira robô, Talky Walky.

Eleita a Melhor Série Original de 2017 pelo Eisner Awards, principal prêmio internacional de quadrinhos, Black Hammer faz referências aos heróis da era de ouro das HQs e subverte estereótipos clássicos os colocando em situações dos dias atuais.

Black Hammer: O evento chega ao Brasil no dia 25 de outubro.

Animados com a novidade?

testeA reinvenção dos super-heróis

Por Érico Assis*

Superman completou oitenta anos em 2018. Com ele nasceram os gibis de super- heróis, misto de YouTube, Playstation e Netflix na infância dos nossos bisavós, só que em revistinhas de papel fuleiro ao preço de um saco de balas. Oito décadas depois, gibis de super-heróis custam tanto ou mais que uma caixa de bombons finos e atendem sobretudo a um pequeno grupo de marmanjos. As editoras desses gibis ainda existem porque viraram fazendinhas onde estúdios de cinema colhem ideias para fazer bilhões.

E aí vêm Jeff Lemire e Dean Ormstron e criam um gibi sobre super-heróis numa fazendinha.

 

Black Hammer, lançado em maio pela Intrínseca, é um fenômeno de crítica. E não só aos olhos dos tais marmanjos, mas também de outros leitores e outras leitoras de outros quadrinhos mundo afora. Todos encontraram algo de inovador na criação de Lemire e Ormstron.

O que sabemos da história é o seguinte: os maiores heróis de Spiral City sumiram depois de salvar a cidade de um monstrão. Foram parar numa fazenda que ninguém tem ideia de onde fica, onde funciona uma força invisível que só os deixa ir de seu lar até a cidadezinha mais próxima. Eles sabem que não podem sair dali porque um deles tentou – e teve uma morte horrível. Dez anos depois, eles continuam na fazenda, ainda sem entender o que aconteceu.

Os heróis de Black Hammer são decalcados de figuras conhecidas para quem já deu uma espiada em gibis – ou nos filmes e desenhos animados – de super-herói. Abraham Slam era tipo um Capitão América. Barbalien é referência direta ao Caçador de Marte, o alien da Liga da Justiça que pode assumir qualquer forma. A Menina de Ouro é uma inversão dupla do Shazam, o garoto que se transformava em super-adulto com uma palavra mágica. Madame Libélula é daquelas figuras espectrais que servia de mestre de cerimônias em gibi de terror. Coronel Weird segue a moda Adam Strange, aventureiro espacial da DC Comics. E tem ainda Talky-Walky, uma robô inteligente da categoria genérica dos robôs inteligentes.

Some a cada um deles dez anos de frustração, a troca da antiga vida de aventuras pela existência bucólica, o mistério de sua condição e a morte do colega – cujo nome, macabramente, dá título à série – e você perceberá a nuvem de desesperança que paira sobre a trama. Quando entramos na história, porém, há algum sinal de que as coisas vão mudar…

O que se encontra de inovador em Black Hammer está justamente no conceito: super-heróis numa fazendinha. Por mais que os flashbacks mostrem as carreiras heroicas dos personagens – em pastiches dos estilos narrativos de gibis de várias épocas –, o presente deles é um tempo de tédio, de tempo morto, de vidinha cotidiana em que nada acontece. E a sensação de que não há nada a fazer porque uma barreira invisível (literalmente) não os deixa seguir com a vida.

Abraham Slam começa um romance com a garçonete do café local. Barbalien engata uma amizade com algo a mais com o pároco local (e faz a gente pensar se conceitos como homossexualidade ou bissexualidade se aplicam a um alienígena). Coronel Weird, pelo jeito, enlouqueceu – mas talvez já fosse louco.

A Menina de Ouro tem a história mais cruel: antes uma criança que ganhava superpoderes ao dizer sua palavra mágica, agora é uma mulher de 55 anos travada na versão infantil. Ela envelheceu, mas em Black Hammer não consegue voltar a sua forma original.

 

Menina de Ouro

Barbalien: O guerreiro de Marte

Madame Libélula

Abraham Slam

Coronel Weird

Jeff Lemire, que concebeu a série, tem uma carreira sui generis. Cresceu numa fazendinha no Canadá, formou-se em cinema e entrou para o mundo dos quadrinhos perto dos 30 anos. Hoje com 42, ele acumulou um currículo gigante: escreveu X-Men, Liga da Justiça, Wolverine, Homem-Animal, Arqueiro Verde, Gavião Arqueiro, John Constantine, Thanos e outros. Chegou a escrever oito revistas mensais simultaneamente – duas das quais ele desenhava. Também manteve uma carreira paralela aos super-heróis em HQs que tanto escreve quanto desenha, geralmente com personagens sem capas, garras ou raios, como Condado de Essex, Sweet Tooth, O Soldador Subaquático, Trillium, Nada a Perder e Royal City.

Lançada em 2016 nos EUA, Black Hammer ganhou o Prêmio Eisner de melhor série estreante no ano seguinte e concorre em cinco categorias no Eisner 2018 (os resultados serão anunciados em 20 de julho). A resposta positiva da crítica e dos leitores fez a série virar um universo: a revista mensal se encerrou e a narrativa foi desmembrada em minisséries com nomes de inspiração pulp, como Sherlock Frankenstein and the Legion of Evil, Doctor Star and the Kingdom of Lost Tomorrows. A Intrínseca já confirmou que vai lançar os dois próximos volumes: The Event e Age of Doom (ainda sem título em português definido).

Muitos esperam que aconteça com Black Hammer o que tem acontecido com todo gibi de sucesso: um bom contrato para virar filme ou série da Netflix. O que seria bastante irônico. Não há nada anunciado até o momento, e Lemire nem tem essa perspectiva de que sua criação é uma crítica aos gibis de heróis como fazendinha de Hollywood. Como escreve nos posfácio do primeiro volume, ele só quer escrever “histórias humanas e realistas sobre famílias e cidades pequenas”. Famílias e cidadezinhas com aliens, raios nos olhos, vacas a ordenhar e superdoses de depressão – como toda família, como toda cidadezinha.

Se interessou? Leia um trecho de Black Hammer: Origens secretas

Érico Assis é tradutor e jornalista especializado em quadrinhos. Foi editor convidado de O Fabuloso Quadrinho Brasileiro de 2015 (editora Narval). 

 

testeBlack Hammer terá continuações publicadas no Brasil

A Intrínseca vai lançar o segundo e o terceiro volumes de Black Hammer, a premiada graphic novel de Jeff Lemire, Dean Ormston e Dave Stewart. The Event e Age of Doom ainda não possuem data nem título em português confirmados. O primeiro volume, Origens secretas, chegou às livrarias brasileiras no início de maio.

Abraham Slam, Menina de Ouro, Coronel Weird, Madame Libélula e Barbalien eram os maiores heróis do mundo, mas depois da grande batalha final ficaram presos em uma cidade rural. Mesmo depois de dez anos, eles ainda não descobriram como chegaram lá e, principalmente, por que não conseguem sair. Seu antigo líder tentou escapar desse misterioso purgatório, mas teve um trágico fim.

No segundo volume, The Event, uma jovem consegue atravessar as barreiras invisíveis da cidade e, enquanto remexe o passado de cada um, dá uma nova esperança aos heróis.

 Eleita a Melhor Série Original de 2017 pelo Eisner Awards, principal prêmio internacional de quadrinhos, Black Hammer faz referências aos heróis da era de ouro de HQs. Seus personagens são complexos e humanos, e a maestria de Dave Stewart ao brincar com cores fortes e impactantes acompanha os dilemas dos personagens.

O primeiro volume, Origens secretas, reúne os primeiros seis fascículos originais e conta ainda com posfácio do autor, perfis da construção de personagens e esboços originais.

testeO verso da criação – uma abertura sonora

IMG_20160511_194917 (1)Imagens do processo de criação de Ilustre Poesia

No começo do livro, a ideia foi apresentar aos que ainda não conhecem ou aprofundar um pouco mais aos que já conhecem a história do personagem Antônio. A linguagem das primeiras páginas — a letra da música — é uma espécie de graphic novel em guardanapos.

Nessa abertura, eu quis manter uma linguagem bem próxima dos meus dois primeiros livros para que o leitor fosse percebendo aos poucos o meu amadurecimento tanto na junção dos traços quanto na formação das sílabas. O livro marca o início de uma nova fase criativa sem perder a mesma sensibilidade de sempre. Minha intenção ao unir o silêncio de uma página impressa com a sonoridade da palavra cantada foi oferecer aos meus leitores uma nova experiência com o universo de Eu me chamo Antônio.

ilustre poesia

Essa nova experiência só foi possível graças aos amigos que encontrei pelo caminho. A composição é uma parceria musical com a banda Versos que Compomos na Estrada. Eu já era fã do Versos antes de eles me chamarem para desenhar a capa do primeiro disco, de 2014. Logo depois veio o convite para ilustrar a arte do novo compacto do grupo, “Desate” (2015). Nossa relação deu muito certo porque temos uma sensibilidade muito parecida ao valorizar as coisas simples da vida.  Usamos a linguagem da alma; acreditamos que só ela é capaz de tocar o coração dos meus leitores e/ou dos ouvintes do Versos. No meio da canção, o ator e poeta Gero Camilo faz uma participação mais do que especial.

A letra da música é a apresentação do personagem Antônio. É como se as primeiras páginas do livro (da 7 a 37) fossem musicadas. Nela, falo de como o personagem nasceu, o que ele representa, o que deseja, o que sonha. Espero que gostem 😉

>> Leia um trecho de Ilustre Poesia


Letra: Pedro Gabriel
Música: Pedro Gabriel e Versos que Compomos na Estrada
Vozes: Lívia Humaire, Markus Thomas e Gero Camilo
Violão: Markus Thomas
Violino: Nicolas Krassik
Violoncelo: Bruno Serroni
Produção musical e mixagem: Lucas Mayer
Masterização: Rodrigo Deltoro
Gravado no Studio Dahouse, São Paulo

testeTirania e nostalgia em quadrinhos

Por Alexandre Sayd*

árabefacebook

Nos anos 1980, bem antes do Estado Islâmico, da crise migratória ou mesmo do 11 de Setembro, o ditador da Líbia já era Kadafi, enquanto o tirano no governo da Síria era Hafez al-Assad, pai do atual presidente. Assim, apesar da distância de três décadas, ao lermos O árabe do futuro, do francês Riad Sattouf, temos a sensação de que o tema e o cenário escolhidos pelo quadrinista continuam estranhamente contemporâneos.

Na premiada trilogia, Sattouf narra em forma de quadrinhos sua infância e juventude. De pai sírio e mãe francesa, ele passou seus primeiros anos na Líbia e na Síria após o pai, doutor em história pela Universidade de Sorbonne, em Paris, conseguir emprego como professor nos dois países.

A partir das memórias, experiências e sensações de uma criança, o autor nos dá a oportunidade de vivenciar, sem preconceitos, esses dois universos. Este é o primeiro de vários aspectos geniais e talvez seja o grande trunfo da obra de Riad Sattouf: ele não tem a pretensão de nos ensinar nada, não pretende apresentar um ensaio geopolítico ou uma aula de história. Aprendemos muito com a obra, mas de forma natural e reflexiva.

É impressionante como a memória do autor é prodigiosa. Ela se apresenta com uma riqueza de detalhes que transcende em muito o meramente visual, com cheiros, sabores e impressões pessoais de quando Riad tinha pouquíssima idade. Ele se lembra de minúcias como o cheiro da França — em oposição ao cheiro da Líbia —, seus pratos preferidos e até mesmo de sonhos.

Impressiona em Sattouf, também, o domínio da arte de narrar em quadrinhos. Os personagens têm expressões hilárias e contagiantes, totalmente adequadas às cenas em que estão inseridos. O desenho lembra um pouco o dos Peanuts (“Charlie Brown”), de Charles M. Schulz, e Calvin e Haroldo, de Bill Watterson; porém com um uso muito diferente das cores, que, em O árabe do futuro, variam de acordo com o país retratado — na Líbia predomina o amarelo, na França, o azul, e na Síria, o rosa.

A história certamente perderia muito se transportada para outro formato que não o da graphic novel, e a qualidade da narrativa, somada à força da temática — que é crescer sob a tirania das ditaduras árabes —, coloca O árabe do futuro no mesmo patamar que Maus, de Art Spiegelman, sobre o holocausto, e Persépolis, de Marjane Satrapi, que expõe a opressão da mulher no mundo islâmico, em especial no Irã.

Na infância, Riad era louro e bem diferente do árabe médio, o que fazia dele um outsider instantâneo, com frequência excluído e hostilizado pelas outras crianças, que o tratavam por “judeu” e “filho do cão”. Nos ambientes mais isolados e remotos, sua família, em especial ele e a mãe, eram vistos pelos demais como extraterrestres. Isso não o impediu de fazer alguns amigos, que normalmente acabavam fascinados por seu exotismo e seus brinquedos do primeiro mundo.

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Riad tinha como grande herói e maior referência o pai, Abdel-Razak. Como leitor, vi no personagem um homem cheio de contradições e preconceitos, que se opõe ao obscurantismo religioso e às superstições do mundo árabe ao mesmo tempo que exalta figuras como Kadafi e al-Assad, incapaz de admitir os danos que esses tiranos causam aos países que governam. Enquanto critica o “atraso” de seus próprios pares e defende que o ensino deve ser livre do dogma religioso, Abdel afirma a todo instante a superioridade dos países islâmicos, defende o pan-arabismo e se recusa a enxergar a precariedade e a violência à qual expõe a si mesmo e a sua família.

As contradições presentes no pai de Sattouf se mostram, de certo modo, um reflexo de seu ambiente de origem. Especialmente na Síria, onde a família de Riad vive em uma pequena vila próxima à cidade de Homs, fica claro o contraste cultural entre a cidade grande e o interior, assim como entre os ricos e os mais pobres. Nos dois casos, os primeiros são muito mais ocidentalizados e livres das superstições e limitações religiosas.

Ao longo da história de Riad e sua família, somos introduzidos às particularidades desses dois mundos, ambos retratados de forma exótica. As crianças francesas são muito mais dependentes, imaturas e desinteressantes do que seus novos colegas árabes. No entanto, a comida na França é abundante e há lojas cheias de brinquedos, enquanto na Líbia, a comida é gratuita, mas escassa e pouco variada, e a distribuição dos alimentos ocorre em dias alternados para homens e mulheres, de modo a evitar contato entre os dois sexos. Já na Síria muitas crianças utilizam roupas de plástico que são réplicas das roupas verdadeiras: sapatos de plástico, no formato de tênis, com cadarços e tudo; uniformes escolares de plástico, com uma pintura que reproduz o cinto dos uniformes verdadeiros.

ArabeDoFuturo2_capa_MAINO segundo livro, lançado recentemente no Brasil, nos revela ainda mais sobre a Síria. Riad começa a frequentar a escola, onde encontra uma educação violenta e altamente doutrinária, com castigos físicos e cheia de leituras do Corão e exaltações ao presidente al-Assad. Lentamente ele passa a compreender melhor o mundo ao seu redor, até mesmo adquirindo uma visão crítica, e nós o acompanhamos nesse processo. Para leitores ocidentais, parece clara a maneira como a violência da sociedade se reflete no comportamento das crianças, que vivem brigando entre si e massacram animais como cães e sapos por esporte.

Percebemos também com maior nitidez como as mulheres são oprimidas e limitadas, reduzidas a cidadãs de segunda categoria — não há meninas nas escolas, e uma parente de Riad acaba assassinada por seus familiares após engravidar fora do casamento. Por fim, as contradições internas da Síria ficam mais evidentes em momentos como quando Riad e o pai vão ao bairro cristão para comprar carne de porco, ilegal no país, ou quando em uma visita à casa de um general importante os adultos consomem álcool, também proibido.

A obra é viciante, daquelas que nos deixam com pena de terminar a leitura. A parte boa é que os dois primeiros volumes estão disponíveis no Brasil, e já há um terceiro a caminho.

Riad Sattouf é cartunista e cineasta. Ele é mais conhecido por seu trabalho ao longo de dez anos no jornal de humor francês Charlie Hebdo, que foi alvo de um ataque terrorista orquestrado pelo Estado Islâmico em janeiro de 2015. Seu filme Les Beaux gosses recebeu o César de melhor filme em 2010, e o primeiro volume de O árabe do futuro ganhou em 2015 o prêmio principal do Festival de Angoulême, considerado o mais importante do mundo dos quadrinhos. Com a crise migratória, Sattouf ajudou seus familiares da Síria a conseguir refúgio na França.

Alexandre Sayd é jornalista e descendente de franceses e libaneses.

testeRevivendo o passado através de O árabe do futuro

Por José Messias*

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Trecho de “O árabe do futuro”

Carl Sagan, astrofísico e divulgador científico, certa vez afirmou que “é preciso conhecer o passado para compreender o presente”. Dita em seu programa de TV, Cosmos, de 1980, a frase poderia muito bem servir de premissa para O árabe do futuro, autobiografia em quadrinhos de Riad Sattouf. Filho de pai sírio que se mudou para Paris para cursar o doutorado na Sorbonne, o artista francês de apenas 37 anos poderia ser considerado precoce por lançar uma biografia nessa idade (Justin Bieber à parte, claro). Poderia, não fosse a potência e a relevância de seu relato, que aborda algo mais do que o choque cultural de ter saído da Europa aos dois anos para morar com a família primeiro na Líbia e depois na Síria.

Pelo olhar de uma criança, relações familiares, religião, ideologia e política ganham contornos mais palpáveis. Tal qual Sagan ao traduzir para o grande público a ciência avançada na série Cosmos – que tinha o peculiar subtítulo “uma viagem pessoal”–, o quadrinista, ao empreender uma jornada a priori extremamente particular, acaba revelando aspectos pouco explorados de um mundo polarizado. História em quadrinhos com H maiúsculo.

capa_arabe do futuro_miniatura_blogSatouff, como alude o título de seu livro, fala de um futuro que nunca se concretizou. No primeiro volume dos três que compõem a autobiografia, ele coloca em contexto fatos históricos da Líbia e da Síria para contar sua vida. A narrativa apresenta sua visão do mundo árabe a partir da infância dividida entre duas culturas, ou melhor, entre diversos contrastes político-culturais: Ocidente e Oriente, religião e secularismo, democracia e totalitarismo, tradição e reforma, entre outros. O interessante é notar como muitas dessas definições vão sendo inteligentemente questionadas/desconstruídas, ou pelo menos debatidas, pelo viés da inocência e da relativa pureza da ótica infantil.

Materializado pelo conceito de pan-arabismo, que prega a união dos povos árabes, e pelas ditaduras que governavam a Líbia e a Síria desde os anos 1960 – respectivamente, a do recém-deposto (e morto) Muamar Kadafi e a de Hafez al-Assad, pai do atual presidente Bashar al-Assad –, a ideia de um árabe do futuro teria em seu cerne a educação, o progresso e até certo afastamento do islamismo tradicionalista (rígido, mas não necessariamente fundamentalista). Com certa ironia, Sattouf aponta como governos hoje considerados tirânicos surgiram como uma proposta de renovação ou reforma.

Em suas memórias, os golpes de Estado, a pobreza e a escassez de recursos dos países em que viveu e o bullying que sofria dos primos misturam-se às lembranças da primeira visita de sua avó, dos amigos que fez e das brincadeiras do período, nem sempre tão inocentes. Cada uma com seu grau de felicidade e de angústia. Como toda criança.

Através do olhar do menino Riad, é possível ver como o estranhamento dos valores e costumes daquele que apesar de distante também era seu povo, sua família, vai dando lugar à aceitação, com ajuda do pai, seu ídolo, e dos poucos mas estimados amigos. Mesmo que a adaptação possa ser conturbada. E até brutal.

link-externoLeia também: Riad Sattouf participa da Flip 2015

 

Nem todas as tradições são ruins

Em termos literários, O árabe do futuro pode ser colocado facilmente num contexto maior, inserido entre as obras que quebram barreiras de gênero ou definições arbitrárias do mercado, como “público-alvo”. Afinal, já passou e muito o tempo em que ainda se acreditava que quadrinho é coisa de criança.

De um lado, estão os mangás japoneses e os blockbusters inspirados em revistas em quadrinhos, como Os Vingadores, que mostram como essa indústria movimenta bilhões de dólares anualmente e gera lucros astronômicos com vendas e licenciamento, atingindo públicos de todas as idades. De outro, temos obras como Um contrato com Deus, de Will Eisner (que, lançada em 1978, apresentou para o grande público o conceito de graphic novel), responsáveis por pensar o formato como meio de expressão mais artística e comprovar o potencial do gênero para narrativas sem capas esvoaçantes ou superpoderes.

O termo graphic novel, aliás, surgiu nos Estados Unidos justamente como uma resposta ao inadequado comic book (e sua abreviação comics), considerado por pesquisadores e entusiastas como Richard Kyle uma herança das tiras de jornal, as comic strips, que teriam o humor como elemento principal. Vale ressaltar que trabalhos pioneiros de autores brasileiros como Laerte Coutinho, Lourenço Mutarelli e dos gêmeos Fábio Moon e Gabriel Bá têm desafiado essas definições reducionistas, sendo chamadas de tiras livres por pesquisadores como Paulo Ramos.

No campo literário, há ainda Maus, na qual o norte-americano Art Spiegelman retrata a vida de seu pai, um judeu polonês, durante o Holocausto. A obra foi a primeira do gênero a ganhar o prêmio Pulitzer. Sobre o Oriente Médio, não há como deixar de mencionar o trabalho de Joe Sacco, com suas reportagens investigativas em quadrinhos sobre o conflito entre Palestina e Israel. Com Palestina, de 1996, Sacco foi agraciado com o American Book Award.

Embora a polêmica ocorra principalmente em países anglófonos, essa discussão influencia a forma como o gênero é visto e, principalmente, o imaginário a seu respeito, dentro e fora dos Estados Unidos. Em lugar de proporcionar a unificação em torno do termo graphic novel (romance gráfico) – mais preciso e sem a estigmatização do humor como essência –, a comunidade acadêmica e a opinião pública acabaram por atribuí-lo a um tipo específico de quadrinhos, voltado para o público adulto (como os trabalhos de Eisner) e, sobretudo, de narrativa fechada, mesmo que serializada. Acaba-se por recriar a mesma mentalidade reducionista: comics, os super-heróis, são pra crianças, graphic novels são pra adultos.

Curiosamente, o termo também se ramificou, gerando correlatos como graphic storytelling (narrativa gráfica). Além disso, quando o meio se desenvolveu e atingiu certo prestígio por causa de seus realizadores, acabou sendo reconhecido como arte, gerando novas definições, como nona arte e arte sequencial. Ainda assim, existe certo preciosismo em torno desses termos que novamente são apenas relegados a um tipo específico de quadrinhos (adultos, poéticos, filosóficos, políticos etc.).

O potencial expressivo dos quadrinhos, seja como arte, reportagem jornalística ou crítica cultural, vem sendo explorado de formas inovadoras desde o surgimento do meio. No entanto, sendo historicamente identificados como entretenimento, sobretudo para o público infantil, os quadrinhos acabam sofrendo ora com certo preconceito de parte do público ora com o protecionismo de estudiosos e de parte do mercado, o que pode afastar leitores em potencial.

Daí a importância de obras como O árabe do futuro que em sua relativa simplicidade são capazes de pôr em perspectiva nossa visão de mundo e de balançar algumas ideias pré-concebidas. E no final das contas, é isso que deve contar na hora de escolher uma próxima leitura.

link-externoLeia um trecho de O árabe do futuro

 

José Messias é doutorando em Comunicação pela ECO/UFRJ e mestre na mesma área pelo PPGCom/Uerj. O tema de sua dissertação foram as representações de herói presentes nas histórias em quadrinhos estadunidenses e japonesas, com um estudo de caso sobre Superman, Batman, Samurai X e Vagabond. Possui artigos científicos publicados em periódicos tanto sobre quadrinhos, representação e imaginário quanto sobre videogames, pirataria e cognição, seu atual tema de estudo. Também é um dos editores e redator do site Iluminerds.

testeEstante Intrínseca: lançamentos de julho

Bling Ring: A gangue de Hollywood, de Nancy Jo Sales — Obcecado por celebridades, um grupo de adolescentes nascidos em um endinheirado subúrbio de Los Angeles seguia seus ídolos bem de perto: arrombava suas casas e roubava objetos íntimos, preferencialmente aqueles que estampavam marcas como Chanel, Gucci, Tiffany, Cartier e Marc Jacobs. Entre 2008 e 2009, a gangue furtou o equivalente a 3 milhões de dólares em roupas, joias e obras de arte de jovens ícones pop como Paris Hilton, Lindsay Lohan e Audrina Patridge.

A história real da audaciosa gangue de Hollywood, retratada pela premiada jornalista norte-americana Nancy Jo Sales inspirou o novo filme de Sofia Coppola. Estrelado por Emma Watson, Katie Chang, Israel Broussard e Leslie Mann, a produção chegará aos cinemas brasileiros em 16 de agosto, com distribuição da Diamond Films Brasil.
[Leia um trecho.]

Veja também: Os bastidores de Bling Ring: A gangue de Hollywood
 Ouça a trilha sonora


Sal,
de Leticia Wierzchowski — Um farol enlouquecido deixa desamparados os homens do mar que circulam em torno da pequena e isolada ilha de La Duiva. Sob sua luz vacilante, a matriarca da família Godoy reconstitui as cicatrizes do passado. Em sua interminável tapeçaria, Cecília entrelaça as sinas de Ivan, seu marido, e de seus filhos ausentes, elegendo uma cor para cada um.

Com uma linguagem poética, a premiada escritora gaúcha Leticia Wierzchowski, autora de A casa das sete mulheres, dá voz e vida a cada um dos integrantes da família Godoy, criando uma história delicada e surpreendente, enriquecida por múltiplos e divergentes pontos de vista.

Leia também: Perfil de Leticia Wierzchowski
Os personagens de Sal

 

O substituto, de David Nicholls — Nova comédia do escritor e roteirista David Nicholls, autor do inesquecível romance Um dia — sucesso absoluto de público e crítica, que teve mais de 300 mil exemplares vendidos no Brasil.

Para Josh Harper, ser ator significa ter dinheiro, fama, mulheres aos seus pés e o papel principal nos palcos de Londres. Para Stephen C. McQueen (que não é parente de Steve McQueen), trata-se de uma longa e desastrosa carreira como figurante e substituto de Josh Harper, o 12º Homem mais Sexy do Mundo. [Leia um trecho]

A garota que eu quero, de Markus Zusak — No novo livro de Markus Zusak, autor de A menina que roubava livros, conhecemos Cameron, o caçula e o mais quieto entre os três irmãos Wolfe. Ele não é nada parecido com Steve, o mais velho e astro do futebol, nem com Rube, o do meio, cheio de charme e coragem e com uma garota nova a cada semana.

Cameron daria tudo para se aproximar de uma garota daquelas, para amá-la e tratá-la bem — especialmente a mais recente namorada de Rube, Octavia. Mas por que alguém como ela se interessaria por um perdedor como ele? [Leia um trecho] Leia também: Notas do set de A menina que roubava livros

O Mar de Monstros, de Rick Riordan (edição especial com capa inspirada no filme) e O Mar de Monstros: Graphic novel, de Rick Riordan, Robert Venditti, Attila Futaki e Tamás Gáspár

Na segunda aventura da série Percy Jackson e os olimpianos, Percy e seus amigos estão em busca do Velocino de Ouro, único artefato capaz de restaurar as fronteiras mágicas do Acampamento Meio-Sangue, até então, o lugar mais seguro do mundo para os semideuses. [Leia mais]