testeConheça a coletânea com doze contos de terror da aclamada Mariana Enriquez

Histórias curtas, sombrias e perturbadoras: assim são os doze contos de As coisas que perdemos no fogo, da aclamada Mariana Enriquez. Com cenas fortes que não saem da cabeça, o livro mistura terror e suspense em narrativas que parecem normais no primeiro momento, mas são macabras e emocionantes.

Na coletânea, o leitor encontra histórias sobre um menino assassino, uma garota que arranca as unhas e os cílios na sala de aula, amigos que parecem destinados à morte, mulheres violentadas que ateiam fogo em si mesmas, casas abandonadas, magia negra e sumiços inexplicáveis. Os personagens e os lugares enganam o leitor o tempo todo ao se mostrarem comuns, mas revelam o horror do cotidiano.

Os contos também abordam temas como desigualdade e violência com um forte teor político. Nascida e criada em Buenos Aires, na Argentina, Mariana Enriquez não ignora fatos do passado — como a ditadura militar no país — e o contexto local em suas obras.  

Considerada uma das principais jovens autoras contemporâneas da América Latina, Mariana vem conseguido destaque internacional. Além de As coisas que perdemos no fogo, traduzido para mais de vinte países, já publicou outros setes livros que conquistaram o público e a crítica. Veículos internacionais como New Yorker, Granta e Electrice Literature já a elegeram como uma das escritoras mais corajosas e surpreendentes da atualidade.

Em entrevistas, Mariana costuma afirmar que suas inspirações vêm de autores como Henry James, Lafcadio Hearn, Emily Brontë e Stephen King, mas também das experiências que vivencia como jornalista. Por isso suas obras mesclam elementos de horror e sobrenatural com o cotidiano.

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testeOs melhores jovens escritores americanos da década

A cada dez anos, a revista Granta seleciona os autores mais promissores dos Estados Unidos e do Reino Unido com menos de 40 anos. Dentre os 21 escritores da lista divulgada esta semana, três são publicados pela Intrínseca.

 

Aos 28 anos, Emma Cline foi aclamada pela crítica por sua estreia literária. De acordo com a vencedora do Pulitzer Jennifer Egan, As garotas “reverbera com uma prosa surpreendente, brilhante e repleta de vitalidade”. O livro já foi publicado em mais de 35 países e será lançado no Brasil em maio.

A narrativa de Cline foi inspirada no impacto causado pelos assassinatos cometidos pelo culto de Charles Manson nos Estados Unidos na década de 1960 e narra o processo de crescimento pessoal de um grupo de jovens. As garotas é um retrato atemporal das turbulências, das vulnerabilidades e da força das mulheres em sua passagem à maturidade — e de como, com apenas um passo errado, tudo pode acabar terrivelmente mal.

Nascida na Califórnia, Emma Cline tem trabalhos de ficção publicados em importantes veículos como Tin House, Granta e The Paris Review. Em 2014, foi agraciada com o Paris Review Plimpton Prize.

 

Aos 38 anos, Lauren Groff já recebeu diversos prêmios literários e é autora de Destinos e fúrias, romance finalista do National Book Award e que figurou na lista de melhores livros de 2015 do ex-presidente americano Barack Obama.

Publicado no Brasil em 2016, Destinos e fúrias narra, a partir de duas perspectivas, as verdades e as mentiras de um casamento e como os segredos podem ser a chave para o sucesso de uma relação. Na obra, Lotto e Mathilde se conhecem ainda jovens, nos últimos meses da faculdade. Perdidamente apaixonados e destinados ao sucesso, antes da formatura já estão casados. Seguem-se anos difíceis, mas românticos. Uma década depois, o caminho torna-se mais sólido: ele é um dramaturgo famoso e ela se dedica integralmente ao sucesso do marido. Mas a vida dos dois, invejada por muitos como a verdadeira definição de parceria bem-sucedida, não é exatamente o que parece.

Nascida em Nova York, Lauren Groff é autora de outros três best-sellers e foi finalista do Orange Prize para Novos Escritores e do L.A. Times Book Prize. Seus contos foram publicados em revistas como The New Yorker, Harper’s Bazaar, Tin House e The Atlantic, assim como em diversas antologias.

 

Anthony Marra tem 32 anos e é autor de Uma constelação de fenômenos vitais. Publicado pela Intrínseca em 2014, o livro narra a vida de um grupo de pessoas que passa por situações extremas.

Interessado em contar uma história de superação, amizade e amor que se passasse em um local devastado pela violência — a Chechênia no período entreguerras —, Marra criou um romance em que nenhum personagem é desprezado e conexões complexas interligam os passados de companheiros extremamente improváveis.

Nascido em Washington, Marra recebeu o Pushcart Prize, o Narrative Prize (ambos em 2010) e o Whiting Award (2012). Em 2014 recebeu o prêmio John Leonard oferecido pelo National Book Critics Circle, além de ter sido finalista em 2013 do National Book Award e do Flaherty-Dunnan First Novel Prize.

Confira a lista completa da Granta.

testeOs afetos, as memórias

Por Elisa Menezes*blogafetos

“Ser pago para ler”, como costuma ser simplificado o ofício de fazer livros, nem sempre é tão divertido quanto pode parecer à primeira vista. Muitas vezes não se tem o privilégio ou a sorte de trabalhar com o seu gênero ou autor favorito, e às vezes é impossível conjugar desejo e realidade: a vontade é de poesia, mas o que nos cabe é ficção científica, ou vice-versa.

Quando a Rebeca Bolite me perguntou se eu toparia fazer o copidesque de espanhol [língua adorada] de um livro de literatura contemporânea [fome com vontade de comer] chamado Os afetos [que título lindo], de um autor latino-americano [sempre bom ler os vizinhos] inédito no Brasil e eleito pela revista Granta, em 2010, um dos 22 melhores escritores de língua espanhola [¡la hostia!], traduzido pelo José Geraldo Couto [craque], com um prazo bastante confortável para a entrega [Rebeca, te amo], é claro que eu disse sim. De antemão o trabalho parecia ser dos melhores.

Assim que comecei a trabalhar no material de Os afetos, editora e leitora comemoraram dentro de mim, pois esse é um daqueles casos em que é possível se sentir privilegiado por ser pago para ler. E como a produção de um livro leva tempo, passei meses comentando com os mais próximos como havia gostado da escrita elegante e concisa de Rodrigo Hasbún, o quanto adoraria ler outras obras suas, como ele merecia ser descoberto por mais gente, ser convidado para a Flip.

Os afetos é um romance curto, narrado por diferentes vozes, que acompanha durante cinquenta anos a família Ertl, formada pelo documentarista e explorador Hans, sua mulher, Aurelia, e as três filhas: Monika, Heidi e Trixi. Por meio de seus relatos, assim como os de outros personagens relacionados a eles, como maridos e amantes, Rodrigo Hasbún cria um mosaico de memórias desbotadas que aos poucos revela ao leitor a saga da família de origem alemã radicada na Bolívia a partir de 1955. Uma combinação improvável e irresistível como as tortilhas com chucrute que os personagens comem durante uma expedição andina.

Quando acaba um capítulo, uma memória, sentimo-nos órfãos, queremos seguir com aqueles personagens, mas logo vem a recompensa, passamos então a enxergar pelos olhos de outro narrador, outro ponto de vista, só que agora imbuídos de sentimentos e recordações. E, assim, de relato em relato, Hasbún vai construindo a história dos Ertl e da Bolívia, com as suas desigualdades sociais, a ditadura e a guerrilha.

A escrita concisa e elegante de Hasbún, aquela que me conquistou, consegue condensar em 128 páginas características de um romance de formação, dados biográficos e fatos históricos – os Ertl realmente existiram, embora o autor advirta que ele apenas se inspirou na família e na história de seu país natal. Tudo isso em uma ficção envolvente, que mantém o leitor submerso nos pensamentos dos personagens.

A ausência de travessões e aspas para falas, diálogos e pensamentos contribui para essa imersão e também para a sensação de estarmos vivenciando um fluxo de ideias e de sentimentos que, claro, nem sempre são precisos, e sim sorrateiros como costumam ser as lembranças que guardamos e reinventamos ao longo da vida. “Não é certo que a memória seja um lugar seguro. Nela também as coisas se desfiguram e se perdem. Nela também terminamos nos afastando das pessoas que mais amamos.”

Assim, acompanhamos o crescimento das filhas, a descoberta do primeiro amor, o despertar para o outro, para a vida adulta, a deterioração das relações e como memória e sentimentos vão sendo corroídos pelo tempo. A desintegração dos laços familiares, a distância gigantesca que podemos sentir em relação àqueles que são mais próximos e também os elos que construímos com estranhos e com o mundo permeiam toda a história.

Contar tanto em um espaço tão curto é antes uma tentativa – muito bem realizada – de demonstrar como a memória é construída e ressignificada do que uma escolha arbitrária de alguém que não quis se aventurar em um romance de maior fôlego. As memórias desbotadas que Hasbún nos apresenta são valiosas tanto por aquilo que revelam quanto pelas lacunas que oferecem.

É muito simbólico que justo esses exploradores que viveram anos às voltas com câmeras e registros, preparando e documentando expedições, sejam incapazes de precisar ou entender suas próprias trajetórias. Há filmes que se perdem durante a história e há também a decisão voluntária de uma das personagens, “que nunca foi nostálgica”, de deixar para trás fotografias, cartas e diários. Para outra, no entanto, que possui uma extrema dificuldade em se “ancorar à realidade”, a nostalgia servia “para sentir que havia valido a pena viver e para dar maior densidade ao presente”.

Nesse jogo de imprecisões, a nostalgia e a melancolia dos narradores vão amarelando as páginas do livro, lembrando-nos o tempo inteiro que aqueles relatos não são totalmente confiáveis. “Disse a mim mesma que era natural deixar de amar. Disse a mim mesma que na realidade o que era pouco natural era continuar amando. Ou talvez não, talvez eu tenha me dito isso muito depois.”

Dessa forma, Os afetos oferece diferentes camadas de leitura, e, ao final do livro, nos sentimos “manchados” – para usar uma das expressões tão bonitas e precisas que o autor emprega – por aqueles personagens, levamos conosco suas lembranças e esquecimentos.

*Elisa Menezes é editora e em 2015 publicou Oceanário, pela Pipoca Press. É autora ainda do blog bissexto O céu do Tejo.