testePor que o livro de Cara Delevingne é o espelho dos Millennials

*Por João Lourenço 

Ela vem de família influente. Check. Ela é amiga de Taylor Swift e das irmãs Kardashian. Check. Ela já namorou Michelle Rodriguez e Harry Styles. Check. Ela é uma das top models mais bem pagas e requisitadas da atualidade. Check. Ela poderia ser apenas mais uma celebridade que muitos invejam, mas ela é Cara Delevingne: uma mulher inquieta que recusa rótulos.

Foi na Vogue Itália que ela apareceu pela primeira vez em um editorial de moda. Tinha 10 anos. Em seguida, foi descoberta no colégio pela mesma agente responsável pela carreira da top Kate Moss. Desde então, o rosto da inglesa, conhecido por sobrancelhas expressivas, estampou capas de revistas pelo globo. Ela também é garota propaganda de marcas como Burberry, Chanel e Dolce & Gabbana. Em 2012, após ser considerada a modelo do ano pelo badalado British Fashion Awards, sua carreira ganhou novo patamar.

Delevingne aproveitou a popularidade para se arriscar no cinema. Chegou a fazer teste para o papel de Anastasia Steele em Cinquenta Tons de Cinza. Após participação ligeira no drama histórico Anna Karenina, de Joe Wright, deu vida a Margo Roth, protagonista de Cidades de papel — longa baseado no livro homônimo de John Green. Na época do lançamento do filme, Green disse que ninguém entendeu a personagem como Cara Delenvigne. De designers a diretores, todos que trabalham com a modelo a elogiam. Delevingne tem humor contagiante. Em menos de um ano, teve papel de destaque em dois blockbusters: Esquadrão Suicida e Valerian e a Cidade dos Mil Planetas.

Aos 25 anos, Delevingne já viveu várias “personagens”. A mais recente: escritora de ficção. O romance Jogo de espelhos foi assinado em parceria com a escritora de best-sellers Rowan Coleman. Nele, Delevingne apresenta um retrato honesto sobre os conflitos existenciais da geração Millennials. Jogo de espelhos começa com quatro adolescentes desajustados que aparentemente não têm muito em comum. Leo, Rose, Naomi e Red se encontram naquele período chato e desconfortável de autodescoberta. Apesar das diferenças, formam uma banda para um projeto escolar: Mirror, Mirror. O som da banda é o bom e velho rock’n’roll, com covers de AC/DC e composições próprias (letras de algumas canções estão no livro). Mirror, Mirror conquista fãs e seguidores. Os quatro deixam de ser “invisíveis”. E, por meio da música, formam uma turma incomum: da gostosona à esquisitona, eles são muito diferentes um do outro.  

Como diz o ditado, “tudo que é bom dura pouco”. E a carreira da banda segue outro rumo quando a baixista, Naomi, desaparece. Depois de quase um mês de buscas, ela é encontrada entre a vida e a morte no rio Tâmisa. Teria sido uma tentativa de suicídio? Ou foi jogada lá? Naomi era um elo forte entre os integrantes da Mirror, Mirror. Agora, com a baixista em coma, os três precisam se virar. Rose se joga em festas e Leo começa a apresentar um humor sombrio. Resta a Red a missão de descobrir o que aconteceu com a amiga. Inicia-se, então, uma investigação marcada pela revelação dos segredos mais íntimos de cada um.

Em Jogo de espelhos, Delevingne revela mais um talento, a literatura. A sensação é de que ela aprendeu alguns truques com o amigo John Green. Assim como o autor, ela desenvolve personagens adolescentes complexos e de fácil identificação. Com estrutura simples e acessível, o livro tem humor, suspense e plot twists capazes de surpreender até os leitores mais atentos.

Prisão, pais ausentes, alcoolismo, bullying, automutilação, estupro, crises de identidade e conflitos de sexualidade são alguns dos temas abordados pela autora. O pulo do gato de Delevingne é saber equilibrar assuntos “tabus” com o bom humor inglês, o que ajuda o leitor a respirar em meio a tantas reviravoltas.

Fruto da geração que cresceu com as mídias digitais, Delevingne consegue trazer para as páginas do livro a linguagem instantânea da web. Ela tem sensibilidade para retratar com franqueza a vulnerabilidade emocional e física de uma geração que gosta de se expor nas redes sociais e, ao mesmo tempo, tenta esconder suas fragilidades. Na apresentação de Jogo de espelhos, a autora explica: “Nunca foi tão difícil ser jovem, principalmente com a pressão cada vez maior de parecer perfeito.Vivemos em um mundo onde as pessoas julgam antes de tentar entender ou ao menos considerar o que o outro está passando.”

Sobre sua vida pessoal, a modelo/atriz/autora costuma falar com naturalidade. Assim como os personagens de Jogo de espelhos, ela enfrentou problemas de depressão e crise de identidade. Aos 20 anos, se assumiu bissexual. E, hoje, não perde a oportunidade de defender os direitos das mulheres e das minorias em entrevistas e nas redes sociais. Porém, haters gonna hate. E sempre aparece um para mostrar o quanto ainda precisamos evoluir enquanto civilização.

Ao mesmo tempo em que está sempre sorrindo e fazendo piadas, Delevingne não tem medo de expor medos e fraquezas. A mulher brincalhona que vejo ao abrir seu Instagram (@caradelevingne) passa a mensagem de que devemos ser gentis uns com os outros. Afinal, desconhecemos as batalhas alheias. Jogo de espelhos segue essa mesma ideia: fala sobre abraçar a si mesmo e aos outros, independentemente das diferenças.

Vida longa à nova autora.

 

>> Leia um trecho de Jogo de espelhos

 

*João Lourenço é jornalista. Passou pela redação da FFWMAG, colaborou com a Harper’s Bazaar e com a ABD Conceitual, entre outras publicações estrangeiras de moda e design. Atualmente está em Nova York tentando escrever seu primeiro romance.

testeEm que as novas gerações são diferentes das anteriores? SPOILER: Em nada.

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Há um extenso debate — que por vezes some e noutras, como tem ocorrido agora, esquenta — sobre como a geração Y, a dos Millennials, seria completamente diferente da X, esta tão distinta da dos baby boomers — todas completamente atrasadas frente à Z, dos que estão nascendo agora. A Y, a qual eu, nascido em 1985, pertenço, seria a dos trintões que começam a dominar e liderar o mercado de trabalho e consumo. Nos Estados Unidos, ela é maioria — em comparação com as outras na ativa — no quadro das empresas.

O que caracterizaria os agora não-tão-jovens membros da geração Y: não aturariam um emprego estável (tendem a pular como pipoca de um para outro); intencionariam montar um negócio próprio, normalmente ligado às maravilhas da internet; seriam egocêntricos — a geração do “me, me, me” (ou “eu, eu, eu”), segundo a revista Time —, mas também preguiçosos, incapazes de se ater a um só projeto. Porém, numa contradição com a onda “me, me, me”, há quem defenda que eles aprimoraram o trabalho em grupo, na era das redes sociais, e que são avessos ao conceito de “fazer por dinheiro”, sendo mais adeptos da onda de “fazer para mudar o mundo”. Sim, há esses elementos. Mas será que eles não definem qualquer jovem, de qualquer século?

Vamos lá: preguiçosos e convencidos, mas com vontade de transformar o mundo e proativos quando o assunto lhes interessa. Isso descreve gerações de seus 30 e poucos anos (ou menos) de qualquer período da história. Muda-se o contexto, surgem inovações tecnológicas, há transformações culturais, mas o jovem continua a ser jovem. Então, o que fez surgir essa história de gerações X, Y e Z? Quando os mais velhos chegam perto da aposentadoria e veem jovens cheios de gás e novas ideias é, como diziam (expressão célebre de Nelson Rodrigues), batata: olham para baixo, para a juventude, e julgam com a devida superioridade adquirida com a experiência.

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Seria esta a geração do “me me me” (“eu eu eu”), ou o egocentrismo seria apenas uma característica da juventude, seja de qual época for?

Como julgam? Egocêntricos, desrespeitosos, irresponsáveis… Sempre aplicam os mesmos adjetivos. Então, nós, jornalistas e escritores, que adoramos categorizar para compor uma boa narrativa, aproveitamos a histórica rivalidade “mais velhos versus mais novos” para bolar nomenclaturas. Como disse o sociólogo Thomas DiPrete, da Universidade de Columbia, para o site da The Wire: “Essas fronteiras [entre gerações] acabam sendo desenhadas pela mídia, que quer definições. A história não é sempre tão bem pontuada assim.”

Eu disse “histórica rivalidade” e aposto que você, caro leitor, quer provas. Na Grécia Antiga, Platão reclamava de jovens que “desrespeitavam os mais velhos”. Na Idade Média, o monge francês Pedro de Amiens definia assim a juventude: “Só pensam em si mesmos.” Portanto, lá no século XI já existia uma geração “me, me, me”. Como afirmava o icônico cartunista Al Capp (1909-1979): “A geração de jovens de hoje não é pior do que era a minha. Éramos tão ignorantes e repulsivos quanto eles são.” Toda geração diz o mesmo sobre a que a substitui: que “não há esperança para os jovens”. Nada marca mais um ser humano do que ouvir algo como: “A juventude de hoje é tão decrépita…”

Foi essa constatação que levou a The Wire a responder à matéria “me, me, me” da Time apontando: “Toda, toda, toda geração tem sido a geração eu, eu, eu.” Como argumento, usou matérias diversas sobre o tema (como a da Time), mas publicadas há (até) mais de um século. Em 1907, a The Atlantic chamava a atenção, com preocupação, para “o atual culto ao individualismo”. Abordagem similar teve a revista Life de 1968, com a chamada “The Generation Gap”. Passado menos de uma década, em 1976, “The ‘ME’ decade” (ou “A década do ‘EU’”) estampava a revista New York.

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O time do Instagram visita o Facebook em 2012, logo após a startup ser adquirida pelo irmão-maior: os jovens do Vale do Silício se comportam como “visionários” (e alguns raros são), mas a maioria só quer é trabalhar 8 horas por dia e ganhar um bom salário (as ambições de seus pais e avôs quando mais novos).

O exagero da estereotipagem fica ainda mais evidente ao mergulhar no mundo jovial do Vale do Silício. Há um mito de que todos os funcionários de empresas como Facebook, Google e Twitter seriam garotos geniais, arrogantes, que não sabem se ater a um projeto, mas donos de mirabolantes ideias que eventualmente podem render milhões, por vezes bilhões, de dólares. Só que, quando se tem intimidade com os habitantes desse universo, percebe-se que todos não passam de indivíduos, cada um com suas características e ambições. É óbvio? Sim. Mas não é o que se divulga por aí. Mesmo quando se observa o cenário geral, nota-se que, entre jovens, há mais carreiristas, que querem um salário razoável pelas velhas oito horas de lida, do que candidatos a visionários — mesmo que muitas vezes eles se comportem, por marketing pessoal, como “visionários”. Isso se restringe ao papo de bar. Na prática, querem o que seus pais e avôs buscavam quando jovens: uma vida boa e estável. Ainda que se frustrem e abandonem sonhos pelo caminho até atingirem a conquista.

Trata-se de uma cena refletida em levantamento da consultoria americana CEB com 90 mil americanos. O estudo revelou, objetivamente, que os Millennials (59% deles) são mais individualistas que os baby boomers (50%) e que os trintões de hoje confiam menos no trabalho em equipe (37% não confiam) do que os de antigamente (26%), além de serem mais carreiristas (33%) do que gerações anteriores (21%). Em teoria, é uma compilação de números que contradizem o que se acha sobre os Millennials. Na prática, identificam — até por quão próximas são as porcentagens comparadas —  que jovens são os mesmos jovens ao longo do tempo.

É verdade que nos últimos anos surgiram internet, smartphones e redes sociais, assim como no passado apareciam fábricas, carros, telefones e TVs — elementos que transformaram a vida de todos, não só da juventude, que naturalmente tem mais paciência, ou mesmo plasticidade do cérebro, para se adaptar às novidades. Mas usar isso como prova de que a geração de hoje é diferente da anterior é como dizer, em espanto: “Nossa, como os bebês contemporâneos são diferentes. Eles babam muito, ficam cheios de si quando aprendem a andar e não querem largar a mamadeira!”

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