testeBoy Erased: Sua história pode mudar o mundo

Boy Erased nara a história real de um jovem obrigado a frequentar um programa de “conversão” sexual. A jornada mostra as consequências de tentar aniquilar uma parte de si mesmo e serve como mensagem de esperança para todos que vivem situações semelhantes de repressão. Garrard Conley escreveu sua história de sobrevivência como um pedido de tolerância e para evitar que situações semelhantes se repitam ao redor do mundo.

Você já precisou apagar uma parte de si mesmo? Conte sua história.

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testeBoy Erased: A luta de Garrard Conley contra a cura gay

Por João Lourenço*

Garrard Conley, autor de Boy Erased, e Lucas Hedges, ator que o interpretou na adaptação cinematográfica do livro

Em 17 de maio de 1990, a Organização Mundial da Saúde (OMS) retirou a homossexualidade da lista internacional de doenças. Ou seja, ser gay deixou de ser considerado um transtorno ou alguma perturbação à saúde.

De lá para cá, passaram-se quase 30 anos, chegamos ao século XXI e, por mais absurdo que seja, a homossexualidade continua incomodando muita gente. Pior. Os incomodados seguem afirmando que se trata de doença e, sendo “doença”, pode ser “curada”. Só nos Estados Unidos, pesquisas mostram que mais de 700 mil pessoas já passaram por algum “tratamento” de terapia reparativa ou de conversão — termos pomposos para a famigerada “cura gay”. E quase metade desse número é formado por adolescentes. Além disso, a Associação Americana de Psicologia elaborou uma lista abrangente dos males causados por esse tipo de programa: ansiedade, confusão, depressão, desesperança, perda da fé e, até mesmo, suicídio.

Garrard Conley foi um desses adolescentes. Sobreviveu à experiência e, para ajudar pessoas que enfrentam situações parecidas, escreveu Boy Erased. No livro de memórias, ele relata com detalhes o período em que frequentou um dos maiores e mais controversos programas de reorientação sexual dos Estados Unidos, o “Amor em Ação” (AEA).

Vindo de uma família de classe média que vivia em uma cidade conservadora e religiosa no interior do Arkansas, Conley passou grande parte da infância dentro de uma igreja Batista, onde o pai era um dos pastores. O autor teve infância e adolescência normais, sem sofrer nenhum tipo de bullying na escola. Os problemas começaram quando ele foi para a faculdade. Longe dos pais, ele se sentiu livre para ser quem era e logo se envolveu com um colega de classe, que também vinha de uma família religiosa. O jovem estuprou Conley e, temendo ser denunciado, ligou para os pais do autor se passando por um coordenador da faculdade e o “tirou do armário”.

A primeira reação de Conley foi negar a acusação. Mas, sob pressão, resolveu confessar que sentia atração por homens. O pai convidou pastores e ministros da igreja para decidir o futuro do filho. E a decisão foi a pior possível: enviá-lo para um polêmico programa chamado “Refúgio”, que reúne adolescentes e adultos que sofrem de “vícios sexuais”.

Conley viajou para o estado do Tennessee, sede do AEA, com a mãe. Lá, recebeu inúmeras instruções: qual hotel deveriam ficar hospedados durante o tratamento, quais roupas Conley poderia usar, qual seria o seu corte de cabelo e até a altura da barba. No AEA, a maioria dos funcionários é formada por “gays convertidos”, pessoas sem formação acadêmica ou experiência em tratamentos psicológicos. Conley então teve aulas de como “ser homem”: exercícios de postura, voz, atividades esportivas etc. Com interpretações equivocadas da Bíblia, o lugar é movido à tortura psicológica, induzindo os “pacientes” ao medo, arrependimento e, por fim, à tal “conversão”. Os participantes também são forçados a assistir a filmes pornográficos.

Durante esse processo, a relação de Conley com a mãe foi fundamental para mantê-lo são e conservar alguma esperança. Ao contrário do pai, ela não era tão rígida e estava disposta a entender a orientação sexual do filho. No tempo livre, por exemplo, os dois compartilhavam livros e discutiam títulos com teor homossexual, como O retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde.

A maioria dos “pacientes” do AEA precisa ficar pelo menos três meses em tratamento. Mas, com a ajuda da mãe, que enfrentou o marido, Conley permaneceu no lugar por apenas duas semanas. Hoje, ela lembra o período como “o ano em que fomos abduzidos por alienígenas”.

Por vários motivos, Boy Erased parece mais um livro de ficção do que de memórias. Conley escreve com ritmo fluido e opta por contar a sua história de forma não linear, utilizando linguagem clara e objetiva, além de abordar com leveza as passagens mais dolorosas. As técnicas utilizadas pelo AEA e os diálogos dos funcionários são tão absurdos que, às vezes, tudo beira o inverossímil. E, assim como na ficção, nem tudo é preto ou branco. Conley oferece ao leitor histórias secundárias sobre os personagens, principalmente sobre os pais, em uma tentativa de torná-los merecedores de empatia e compaixão.

Os pais de Conley, Hershel e Martha, representam o típico casal americano. Eles se conheceram e casaram-se muito jovens. Hershel era quarterback quando conheceu Martha, líder de torcida. Antes de ser ordenado como pastor, Hershel gerenciava uma concessionária de carros. Foi com o pai que Garrard aprendeu a se expressar com confiança e charme. No entanto, Garrard conta, por exemplo, episódios de violência que marcaram a vida do pai: Hershel presenciou a mãe apanhar do pai diversas vezes. Em relação à mãe, ele a apresenta como uma mulher engraçada e espontânea. São diversos os episódios que retratam o amor entre a família — relação que se desgastou após a entrada de Conley no programa de conversão.

Boy Erased foi dedicado aos pais do autor. Ou seja, mesmo após passar por uma experiência traumática, Conley decidiu perdoá-los. Ele defende que os pais vêm de uma geração em que a diversidade era apenas uma palavra perdida no dicionário. Hoje, Conley mora em Nova York com o marido. A relação dele com os pais melhorou. A mãe o acompanhou durante o lançamento do livro, mas o pai, embora tenha admitido que o AEA foi uma péssima escolha, ainda acredita que a homossexualidade não faz parte dos “planos de Deus”.

O livro ganhou adaptação cinematográfica de peso. Nicole Kidman e Russel Crowe interpretam os pais de Conley, e o papel do autor ficou com Lucas Hedges. Ao contrário do livro, o filme não alcançou o mesmo sucesso de público, além de ter gerado polêmica no Brasil. A distribuidora decidiu não exibir o filme nos cinemas por questões comerciais, mas parte do público foi às redes sociais reclamar de censura.

Em época de fake news, verdades alternativas, pós-verdade, todos que acreditam em direitos iguais precisam ajudar a esclarecer a diferença entre fato e crença. Talvez assim finalmente possamos trilhar o caminho da diversidade. Boy Erased é a história de uma família que se ama, mas, assim como outras famílias, enfrenta problemas. E, às vezes, com a melhor das intenções, escolhe o pior caminho para ajudar aquele a quem ama.

*João Lourenço é jornalista. Passou pela redação da FFWMAG, colaborou com a Harper’s Bazaar e com a ABD Conceitual, entre outras publicações estrangeiras de moda e design. Atualmente está em Nova York escrevendo seu primeiro romance.

testeLeia um trecho de Boy Erased

Boy Erased: Uma verdade anulada acompanha a emocionante jornada de Garrard Conley ao ser matriculado em um programa de conversão sexual. Imersos na comunidade conservadora em que vivem, os pais de Garrard acreditavam que sua homossexualidade poderia ser curada.

Essa história real mostra as consequências de tentar aniquilar uma parte de si mesmo. É uma mensagem de esperança e um pedido de tolerância para todos que vivem situações semelhantes de repressão. O livro deu origem ao filme homônimo com Nicole Kidman, Russell Crowe e Lucas Hedges, que chega no Brasil em formato digital ainda em 2019.

Leia um trecho:

 

segunda-feira, 7 de junho de 2004

John Smid estava de pé, as costas retas, sorrindo com seus óculos de armação fina, usando a calça cáqui e a camisa de botão listrada que haviam se tornado o uniforme dos homens evangélicos de todo o país. As costuras da camiseta que usava por baixo se esticavam, rígidas, sob a camisa, e o cabelo louro e grisalho estava domado por um corte máquina cinco, comum em todos os barbeiros do Sul dos Estados Unidos. O resto de nós estava sentado em um semicírculo voltado para ele, todos vestidos de acordo com as regras determinadas em nossos manuais de instruções de 274 páginas.

    Homens: Sempre usar camisas, inclusive para dormir. Camisetas sem manga não são permitidas, seja como roupa comum ou de baixo, inclusive regatas. A barba deve ser feita todos os dias. Costeletas nunca devem ficar abaixo da ponta da orelha.

    Mulheres: Usar sutiã o tempo todo, a não ser para dormir. Saias devem ficar na altura dos joelhos ou abaixo deles. Tops permitidos apenas se usados sob blusas. Pernas e axilas devem ser raspadas pelo menos duas vezes por semana.

— A primeira coisa que vocês precisam fazer é reconhecer o quanto se tornaram dependentes de sexo, de coisas que não são de Deus — disse Smid.

Estamos no Primeiro Passo do Amor do programa de Doze Passos para a Ação, uma série de princípios que põe os pecados da infidelidade, da brutalidade, da pedofilia e da homossexualidade no mesmo patamar de vícios como o alcoolismo e o jogo: um tipo de Alcoólicos Anônimos para o que os conselheiros chamam de “desvio sexual”.

Algumas horas antes, sentado sozinho em sua sala, eu havia visto um homem diferente: um Smid mais bondoso e brincalhão, um palhaço de meia-idade disposto a usar todo tipo de técnica para me fazer sorrir. Ele havia me tratado como criança, e eu tinha relaxado naquele papel, apesar de ter dezenove anos na época. Smid disse que eu tinha ido ao lugar certo, que a Amor em Ação me curaria, me tiraria do pecado e me levaria à luz da glória de Deus. O escritório dele parecera iluminado o bastante para sustentar aquela afirmação, as paredes nuas a não ser por alguns recortes de jornal e versos da Bíblia bordados dispostos em molduras. A janela dava para um terreno baldio, raro naquela área dos arredores da cidade: um gramado abandonado, pontuado por dentes-de-leão coloridos e seus milhares de sementes que se espalhariam pela rodovia até o fim da semana.

— Nós tentamos misturar vários modelos de tratamento aqui — garantira Smid, girando a cadeira de escritório para olhar pela janela.

Um sol alaranjado se erguia atrás dos prédios mal caiados ao longe. Esperei que a luz do sol os tomasse, mas, quanto mais observava, mais ela parecia demorar. Eu me perguntei se era assim que o tempo funcionaria naquele lugar: minutos pareceriam horas, horas pareceriam dias, dias pareceriam semanas.

— Assim que você entra no grupo, já está caminhando para a recuperação — dissera Smid. — O importante é se lembrar de manter a cabeça aberta.

Eu estava ali por escolha própria, apesar do meu ceticismo crescente, apesar da vontade secreta de fugir para não encarar a vergonha que sentia desde que meus pais haviam descoberto que eu era gay. Tinha investido demais em minha vida para deixá-la para trás: em minha família e naquele Deus cada vez menos definido que conhecia desde pequeno.

Deus, eu havia pedido em oração, deixando a sala de Smid e seguindo pelo corredor estreito até o salão principal, as luzes fluorescentes estalando em seus suportes de metal, não sei mais quem é o Senhor, mas, por favor, me dê sabedoria para sobreviver a tudo isso.

 Algumas horas depois, sentado no meio do semicírculo de Smid, eu esperava que Deus se juntasse a mim.

— Vocês não são melhores nem piores do que os outros pecadores do mundo — disse Smid.

Ele mantinha os braços cruzados atrás das costas, o corpo todo tenso, como se tivesse sido amarrado a uma tábua invisível.

— Deus vê todos os pecados sob a mesma luz.

Todos assentimos. O jargão do ex-gay já havia se tornado familiar para mim, apesar de ter sido um choque quando o lera pela primeira vez no site da instituição, quando ficara sabendo que a homossexualidade que eu tinha tentado ignorar durante grande parte da minha vida estava “fora de controle”, que eu podia acabar tendo relações com o cachorro de alguém se não me curasse. Por mais absurda que a ideia possa parecer neste momento, eu não tinha muitas informações em que me basear na época. Ainda era jovem o suficiente para ter tido apenas casos passageiros com outros homens. Antes da faculdade, eu só havia conhecido um homem que dizia abertamente que era gay: o cabeleireiro da minha mãe, um cara grande e peludo que passava a maior parte do tempo dando sinais do que eu considerava um estereótipo — elogiava minha aparência, fofocava sobre os colegas de trabalho, discutia os planos para sua próxima festa de Natal maravilhosa, a barba branca impecável já esculpida para encarnar o papel de Papai Noel Safado. O restante do preconceito eu havia aprendido em pantomimas: punhos frouxos e gestos exagerados de membros da igreja fazendo piada; frases que chamavam atenção em virtude daquela cadência melódica comum na TV — “Ai, não precisaaava” —; petições da igreja que tinham que ser assinadas para manter o país a salvo dos “pervertidos”. O brilho de uma legging neon, o agitar de um boá, um bumbum durinho rebolando para a câmera. O que eu via na TV parecia corroborar que ser gay era estranho, não natural.

— Vocês precisam entender uma coisa muito importante — disse Smid, a voz tão próxima que pude senti-la em meu peito. — Estão usando um pecado sexual para preencher o vazio que sentem pela falta de Deus em suas vidas.

Eu estava ali. Ninguém podia dizer que eu não estava tentando.

O salão principal era pequeno, iluminado por lâmpadas fluorescentes e tinha uma porta de correr que dava para uma varanda de concreto desbotada pelo sol. Nosso grupo estava sentado em cadeiras dobráveis acolchoadas, perto da frente da sala. Nas paredes atrás de nós, havia folhas plastificadas com os Doze Passos que prometiam uma cura lenta, mas duradoura. Além desses pôsteres, as paredes não tinham basicamente nada. Não havia crucifixos nem estações da via crucis. Ali, tal iconografia era considerada idolatria, assim como a astrologia, o jogo Dungeons & Dragons, as religiões orientais, os tabuleiros de Ouija, o satanismo e a ioga. A Amor em Ação tinha uma posição mais extrema contra o mundo secular do que as igrejas da minha infância, embora eu já estivesse familiarizado com o modo de pensar dos conselheiros. (…)

— Harry Potter não passa de um sedutor das almas das crianças — dissera certa vez um pastor batista que fora visitar a igreja da nossa família.

Não duvido que meus conselheiros da AEA também tivessem descartado qualquer menção a Harry Potter e que, portanto, o tempo que passei em Hogwarts tivesse que continuar sendo um prazer secreto. Eu havia selado um pacto ainda mais sério com Deus ao ir até ali, algo que exigia que abstraísse a maior parte do que acontecera antes da AEA. Antes de entrar naquela sala, tinham me pedido para deixar tudo para trás, com exceção de minha Bíblia e meu manual.

testeBoy Erased: a história que precisa ser contada

 

Infelizmente, a exibição no Brasil do filme Boy Erased foi cancelada por questões comerciais. Estrelado por Lucas Hedges, Nicole Kidman e Russell Crowe, o longa é inspirado no livro de memórias de Garrard Conley. Filho de um pastor batista e criado em uma cidade conservadora no interior dos Estados Unidos, o jovem foi matriculado em uma terapia de conversão sexual após ser exposto para seus pais por um colega de faculdade. Confira abaixo a nota dos nossos editores:

Garrard narra em Boy Erased sua comovente história de sofrimento e superação ao ser forçado a participar do processo que prometia pretensa cura para algo que não precisava ser tratado. Quando decidimos publicar o livro no Brasil, acreditamos que junto com a adaptação cinematográfica de suas memórias poderíamos levar uma mensagem necessária de tolerância para todos que vivem situações semelhantes de repressão a suas sexualidades. Avaliamos que o livro seria uma importante contribuição para debates e que ajudaria a tornar pública a situação que muitos sofrem em silêncio. 

Nossa edição de Boy Erased: Uma verdade anulada foi lançada no início de janeiro com boa recepção por leitores, pela mídia e influenciadores. Como muitos, lamentamos a notícia recente de que o filme não será mais exibido nos cinemas do Brasil. Mesmo assim, nossa crença na relevância do relato de Conley e nosso empenho para divulgá-lo permanecem inalterados. Manteremos nossos esforços para a promoção do livro como inicialmente planejado, com a certeza da importância do tema e de sua contribuição para uma sociedade plural e livre de preconceitos.