testeA lista perfeita para quem gosta de investigação

 

Geralmente tudo começa com um crime, policiais determinados, alguns suspeitos e muitas dúvidas no ar. Mas, apesar desses elementos já conhecidos do público, é quase impossível não se surpreender, ficar tenso e soltar gritinhos quando as peças parecem se encaixar. Para aqueles que adoram romances policiais, investigações intrigantes, mistérios e quebra-cabeças aparentemente impossíveis, preparamos uma lista de livros, séries e filmes imperdíveis! Confira:

 

1. O desaparecimento de Stephanie Mailer

Joël Dicker, autor do aclamado A verdade sobre o caso Harry Quebert, está de volta! Em seu novo romance policial, O desaparecimento de Stephanie Mailer, vamos conhecer a pequena e pacata cidade de Orphea, localizada nos Hamptons. Apesar das aparências, um crime chocante abala a vida de seus moradores: em 1994, no dia da estreia do primeiro festival de teatro da região, quatro pessoas são brutalmente assassinadas, entre elas o prefeito. O caso é solucionado por dois jovens policiais, Jesse Rosenberg e Derek Scott, e o responsável vai parar atrás das grades.

O problema é que, vinte anos depois, quando Jesse está prestes a se aposentar, a obstinada jornalista Stephanie Mailer afirma que houve um terrível erro na investigação. Quando ela desaparece misteriosamente, os policiais precisam reabrir o caso e desvendar segredos enterrados há décadas. Com uma narrativa que mistura passado e presente, essa é a leitura perfeita para os fãs do gênero.

 

2. True Detective

Falando em narrativas que misturam passado e presente, não podemos deixar de fora uma série que é mestre no assunto: True Detective. Na primeira temporada, protagonizada por Matthew McConaughey e Woody Harrelson, acompanhamos ao longo de 17 anos a busca de dois policiais por um serial killer na Louisiana. Na segunda, com um elenco completamente diferente, a história é outra: três detetives estão envolvidos em uma conspiração após um assassinato. Já na terceira, o ganhador do Oscar Mahershala Ali é um policial que investiga o desaparecimento de duas crianças ao longo de três linhas temporais distintas. O criador e roteirista da produção da HBO é Nic Pizzolatto, que publicou Galveston pela Intrínseca.

 

3. Sharp Objects (Objetos cortantes)

A HBO também é responsável por umas das minisséries mais faladas de 2018: Sharp Objects. Inspirada no livro de estreia de Gillian Flynn, autora de Garota exemplar, a trama narra a história da repórter Camille Preaker (Amy Adams), uma mulher enigmática que acabou de sair de um hospital psiquiátrico. Ela é obrigada a voltar à sua cidade natal, Wind Gap, para investigar o assassinato de uma menina e o desaparecimento de outra. Além dos crimes, ela também precisa lidar com as lembranças nada agradáveis de sua infância e adolescência, que envolvem uma mãe neurótica e uma meia-irmã que praticamente não conhece.

 

4. Zodíaco

Já que falamos em Gillian Flynn, é impossível não lembrar a excelente adaptação cinematográfica de Garota exemplar, dirigida por David Fincher. O diretor, famoso por seus ótimos filmes de suspense, como o grande sucesso Se7ven, não poderia ficar de fora dessa lista. Por isso, escolhemos Zodíaco, a produção de 2007 que conta a história real do assassino que matou sete pessoas em São Francisco entre dezembro de 1968 e outubro de 1969. Fincher passou dois anos estudando o caso, que, apesar de não ter respostas, ainda é um dos enigmas investigativos mais famosos de todos os tempos.

 

5. Mindhunter

Para finalizar, Mindhunter, a série da Netflix também dirigida por David Fincher. Nela, acompanhamos John Douglas, uma figura lendária no FBI que ajudou a revolucionar as investigações em uma época em que a expressão serial killer sequer existia. Ao longo de sua carreira, o agente especial que inspirou personagens como Jack Crawford de O Silêncio dos Inocentes, confrontou, entrevistou e estudou Charles Manson, Ted Bundy, Ed Gein, entre outros. A produção ­– cuja segunda temporada já foi confirmada – é inspirada no livro homônimo publicado pela Intrínseca.

testeSugestões para pais de diversos estilos

DiaDosPais_Intrinseca

Com a chegada do Dia dos Pais, preparamos uma lista com sugestões de presentes para pais de diversos estilos. Confira as opções:

Pai ligado em guerras:

Toda luz que não podemos verMarie-Laure, cega aos seis anos, vive em Paris com o pai, chaveiro responsável pelas fechaduras do Museu de História Natural. Na Alemanha, o curioso órfão Werner se encanta pelo rádio. Combinando lirismo e uma observação atenta dos horrores da guerra, Anthony Doerr constrói um tocante romance sobre o que há além do mundo visível.

Brasil: Os frutos da guerra — O historiador Neill Lochery revela a história do envolvimento do Brasil na Segunda Guerra Mundial, mostrando como a habilidade política e o oportunismo econômico de Getúlio Vargas e sua equipe transformaram o país numa potência regional graças ao conflito.

Pais tecnológicos:

O clique de 1 bilhão de dólares — O jornalista Filipe Vilicic conta a história do Instagram e de Mike Krieger, o brasileiro fundador de um dos aplicativos mais bem-sucedidos do mundo.

Como a música ficou grátisO jornalista Stephen Witt investiga a fundo a história secreta da pirataria de músicas na internet, partindo dos engenheiros alemães criadores do mp3, passando por uma fábrica de CDs na Carolina do Norte da qual um funcionário vazou cerca de dois mil álbuns e revelando o submundo dos piratas das mídias que revolucionaram o universo digital.

Pais empreendedores:

Como o Google funciona Eric Schmidt e Jonathan Rosenberg reúnem as valiosas lições que transformaram a start-up em uma das maiores empresas do mundo. A partir da história e de curiosidades do dia a dia do Google, eles mostram o caminho para que gestores e empreendedores abracem o espírito de inovação e atrair e manter talentos em suas equipes.

Pais bem-humorados:

Ele está de volta — As coisas mudaram: não há mais Eva Braun, nem partido nazista, nem guerra. Hitler mal pode identificar sua amada pátria, infestada de imigrantes e governada por uma mulher. As pessoas, claro, o reconhecem como um imitador talentoso que se recusa a sair do personagem. Até que o impensável acontece: o discurso de Hitler torna-se um viral, um campeão de audiência no YouTube, ele ganha o próprio programa de televisão e todos querem ouvi-lo. Tudo isso enquanto tenta convencer as pessoas de que sim, ele é realmente quem diz ser, e, sim, ele quer mesmo dizer o que está dizendo.

Pais que gostam de escândalo:

Nêmesis — O aclamado escritor e jornalista investigativo Peter Evans revela detalhes surpreendentes sobre um dos triângulos amorosos mais polêmicos da história: Jackie O, Aristóteles Onassis e Bobby Kennedy. Após vários anos de pesquisas e entrevistas com espiões e terroristas, parentes, amigos e amantes dos Kennedy e de Onassis (além de muitos encontros com o próprio Ari), Evans descortinou a rede de subornos, encontros sexuais, mentiras e traições que teriam culminado na morte de Bobby.

Pais que curtem um mistério:

Galveston — Romance de estreia de Nic Pizzolatto, criador da série True Detective, o livro é um romance violento e ágil, com o máximo da atmosfera noir.

Lugares escuros — Da mesma autora de Garota exemplar e Objetos cortantes, o livro conta a história de Libby Day, uma mulher que testemunhou o brutal assassinato da mãe e das duas irmãs aos sete anos de idade.

Pais descolados:

O árabe do futuro — Filho de mãe francesa e de pai sírio, o quadrinista Riad Sattouf conta o choque cultural que viveu quando foi, ainda bem criança, para a Síria e a Líbia, e fala também do retorno da família à França. Depois de viver em lugares tão diferentes, Riad se tornou um completo estrangeiro, com uma visão crítica, afiada e muito bem-humorada sobre o mundo.

Pais saudáveis:

Sal, açúcar, gordura — Neste livro-reportagem, o jornalista vencedor do Pulitzer Michael Moss mostra como os alimentos nas prateleiras dos supermercados são cuidadosamente projetados pela indústria alimentícia para nos viciar, fazendo uso de estratégias que levam ao aumento alarmante de casos de obesidade, hipertensão e diabetes. A obra cita algumas das empresas e marcas mais conhecidas do planeta, incluindo Coca-Cola, Kellogg, Nestlé e Oreo.

Pais intelectuais:

História do futuro — A jornalista Míriam Leitão apresenta o resultado de quatro anos de pesquisas, entrevistas, viagens, análises de dados e depoimentos de especialistas sobre as tendências do futuro do país.

Notícias: Manual do usuário — O aclamado escritor e filósofo Alain de Botton elabora um Manual definitivo da nossa era viciada em informação oferecendo um parâmetro de sanidade para as nossas interações diárias (e às vezes ininterruptas) com a máquina de notícias.

Pais que gostam de esportes:

Moneyball — O livro atrai tanto os interessados em esportes quanto em negócios. Com uma narrativa repleta de personagens fascinantes e questionamentos inteligentes, Michael Lewis mostra a luta de um administrador para levar seu empreendimento à máxima performance pelo menor custo e impor racionalidade num universo dominado por favorecimentos, desperdício e vícios. É a história de superação de um time medíocre de beisebol e a biografia de um homem que se destacou num dos negócios mais ferozes e competitivos dos Estados Unidos.

testeO mundo cão de Nic Pizzolatto

Por Pablo Rebello*

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A primeira temporada de True Detective ia pela metade quando descobri o universo criado por Nic Pizzolatto. Não esbarrei com a série por acaso. Fui atraído até ela por seus laços com uma obra obscura da literatura: O Rei de Amarelo, de Robert W. Chambers, personagem que também aparece em diversos contos de H. P. Lovecraft, de quem sou fã. A possibilidade de assistir a influências lovecraftianas na televisão foi o que me atraiu a princípio, mas o texto cru e filosófico de Pizzolatto acabou me segurando. Por isso fiquei muito interessado quando descobri que a Intrínseca lançaria Galveston, o primeiro romance do autor.

Obviamente, a linguagem televisiva não poderia ser mais diferente da literária. A transposição de uma mídia para outra muitas vezes não é satisfatória. Além disso, alguns autores se dão melhor na página escrita enquanto outros brilham por trás das câmeras. Embora a longa investigação de Rust Cohle (Matthew McConaughey) e Marty Hart (Woody Harrelson) se assemelhasse na apresentação a um romance policial, eu ainda tinha dúvidas se Pizzolatto seria capaz de repetir o truque na mídia impressa. No entanto, a leitura do primeiro capítulo de Galveston sanou esse problema. E também me pegou de jeito, levando-me para outro passeio pelo submundo americano.

Galveston - CAPA E LOMBADA.inddTodos os elementos que me impressionaram no seriado estão lá. As vidas despedaçadas dos protagonistas, o rolo compressor da rotina esmagando os dias em busca de um sentido, a ausência de saídas fáceis e a violência desmedida para alcançar objetivos imediatos. Até mesmo os bonequinhos metálicos feitos com latas vazias de Lone Stars estão em Galveston. Enfim, não faltam detalhes para agradar tanto aos fãs da série como a quem nunca assistiu ao programa. Tudo pontilhado por uma narrativa crua e visceral, com uma pegada noir preocupada em não perder a verossimilhança com a realidade.
À primeira vista, Roy Cody parece ser só mais um matador de aluguel durão, sem nada a perder, como tantos outros que encontramos em thrillers policiais. Uma consulta ao médico confirma que ele não está nada bem: câncer espalha-se por seus pulmões. Roy Cody é um homem marcado para morrer. E não é só a doença que ameaça levá-lo. Seu chefe, Stan Pitko, ordena que ele faça um serviço desarmado que logo se revela uma armadilha mortal.

link-externoOuça a playlist de Galveston, por Marcelo Costa

Como um bom matador de aluguel, Roy consegue escapar das garras dos inimigos e despachá-los para o além em um confronto breve e violento. Quando os sons pneumáticos dos revólveres se calam e o cheiro de pólvora se dissipa, ele se vê em uma casa repleta de cadáveres e sangue espalhado pelo chão. Pior: ele não está sozinho. Uma garota de programa sobreviveu à chacina e viu o seu rosto. Sem estômago para eliminar a última testemunha, Roy decide levá-la em sua fuga de Nova Orleans para Galveston, no Texas. E é a partir daí que a história se desenvolve de verdade.

Com o cenário montado, Pizzolatto dedica-se a nos apresentar os infortúnios de Roy e de sua nova cúmplice, Raquel “Rocky” Arceneaux. O relacionamento conflituoso do matador de aluguel com a prostituta foge do convencional, revelando a riqueza dos personagens que vivem às margens da sociedade, perdidos em hotéis de beira de estrada e que alimentam sonhos pueris de um amanhã melhor. Roy não aceita as mentiras de Rocky, que, por sua vez, aproveita-se da proteção oferecida pelo matador para cometer seus próprios pecados.

O livro é marcado pela tentativa dos dois personagens de escapar do passado e dar um novo rumo para suas vidas. No entanto, por mais que tentem, por mais que se esforcem, ambos conhecem bem demais a realidade para se enganarem por muito tempo. Galveston é um romance de partir corações, escrito com maestria e frieza por um autor que merece o destaque que tem. Não espere por finais felizes. Ilusões não sobrevivem debaixo do sol abrasador do Texas. Só as memórias amargas de tudo que foi e do que poderia ter sido resistem para contar a história até o final.

link-externoLeia um trecho de Galveston

Cena de "True Detective"

Cena de “True Detective”

 

Pablo Rebello é assistente de Comunicação na Intrínseca e escritor nas horas vagas. Tem histórias publicadas nas coletâneas Contos da Confraria (Ed. Bookmakers) e Dragões (Ed. Draco) e é autor do e-book Deserto dos desejos (disponível na Amazon).

testeSonhamos com Hollywood quando a vida, na verdade, é Galveston

Por Marcelo Costa*

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Em 1980, Nic Pizzolatto tinha apenas 5 anos e vivia com os pais em Lake Charles, cidade na Louisiana a cerca de três horas de Nova Orleans. A infância difícil com a família em uma região notadamente pobre deixou marcas profundas, algumas delas facilmente visíveis na obra de maior sucesso do hoje escritor, produtor e roteirista: a série de  TV True Detective, que estreou em 2014 e acaba de retornar com novo elenco para a sua segunda temporada. Os cenários decadentes e melancólicos que os detetives Rust (Matthew McConaughey) e Marty (Woody Harrelson) percorreram no primeiro ano da série também ambientam a boa trama de Galveston, romance de estreia de Nic Pizzolatto, lançado em 2010 nos Estados Unidos e publicado agora no Brasil.

Galveston é uma cidade real de pouco mais de 50 mil habitantes localizada na região da Costa do Golfo, no estado do Texas, próxima da fronteira com a Louisiana — a cerca de três horas da Lake Charles da infância de Pizzolatto e, também, de alguns crimes estranhos que acontecem na primeira temporada de True Detective. A trama do livro, porém, começa em Nova Orleans na segunda metade dos anos 1980. É lá que vive Roy Cody, um caubóis texano de 1,90m que “trabalha” como cobrador (uma forma poética de se referir a um matador de aluguel) e alterna seus dias entre cervejas (Coors, Lone Star, Miller High Life e Budweiser), uísques (Johnny Walker… ele odeia Jim Bean, mas bebe se for preciso) e lembranças de um coração partido.

Galveston - CAPA E LOMBADA.inddSim, Nic Pizzolatto defende em Galveston que mesmo no peito (repleto de fumaça cancerígena de cigarro) de um matador de aluguel bate um coração. No caso do nosso amigo Roy Cody, a última garota se chamava Carmen e acabou de trocá-lo por seu patrão, Stanislaw Pitko, o polaco que chefia a máfia em Nova Orleans. Imagine a situação: você é um matador de aluguel texano [para auxiliá-lo: “Sou do leste do Texas, do Triângulo Dourado, e esses caras (da turma de Stan) sempre pensaram em mim como lixo, o que é bom, porque também têm medo de mim”, conta Roy], vive um romance com uma garçonete gostosa e ela o troca pelo chefão da máfia local. Se você pressentiu confusão, está correto. E muita.

Roy e outro capanga (que por um “simples acaso” também viveu um romance com Carmen) são enviados para pressionar um homem, e o que seria um servicinho rotineiro (“Sem armas”, recomendou o chefão Stan) termina numa carnificina. Roy consegue se safar, mas, uma pessoa viu seu rosto, e ele decide levá-la consigo para tentar descobrir algo sobre aquela emboscada. O nome da garota é Raquel Arceneaux, mas ela prefere ser chamada de Rocky. É uma jovem prostituta que estava na hora errada, no lugar errado. Roy tem como lema que cada pessoa é responsável pelos próprios pecados, não dá para ficar tentando resolver os dramas dos outros, mas as duas almas errantes seguem juntas noite adentro.

Em uma velha caminhonete, com o som do cantor texano Billy Joe Shaever sobrepondo-se ao silêncio, Roy e Rocky fogem de Nova Orleans em direção ao Texas, não sem antes dar uma parada em um bar de uma pequena cidade: “Lake Charles era um dos lugares da Costa do Golfo onde era mais fácil arrumar uma briga. E qualquer lugar ao sul dali era um campo de terror caipira”, explica Roy, com a sabedoria de quem conhece muito bem a região. De Lake Charles, o road book passa por Orange, cidade em que Rocky precisa fazer uns acertos financeiros e familiares, e segue até Galveston, balneário cuja lembrança de bons dias permanece no âmago de Roy, que viveu ali um romance intenso que, algum tempo depois, fracassou.

Fracasso aparenta ser o tema preferido de Nic Pizzolatto. Seus personagens (no livro e na série) são pessoas comuns que parecem sentir algum tipo de prazer inconsciente com o erro. Se viver é acumular tristezas, Roy e Rocky estão carregando peso extra, porque a pobreza, a tragédia e a infelicidade seguem com eles como genes passados de pais para filhos. Ambos carregam todos os dramas de uma longa herança familiar de perdedores, e a mágica da vida é tentar dar algum sentido ao caos em que eles foram jogados sem opção de escolha. Reféns invisíveis de uma América que finge não vê-los, Roy e Rocky sofrem ainda mais porque foram ensinados — pelos descaminhos da vida — que não se pode confiar em ninguém, nem em si próprio.

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Woody Harrelson e Matthew McConaughey em cena de “True Detective”

Pizzolatto consegue criar suspense e expectativa sem soar óbvio ao ponderar, com sabedoria, quais informações quem lê precisa receber naquele momento da trama. O resultado funciona a contento (a busca pela obviedade, inclusive, pode passar uma rasteira em alguns) e se expande quando aliado ao universo da série True Detective. Até porque soa tentador (para quem está lendo o livro pela primeira vez agora) imaginar Matthew McConaughey no papel do matador Roy, aproximação que o brilhante Killer Joe, filme de 2011, de William Friedkin, também permite e valoriza — aliás, Juno Temple também soa uma bela alternativa para Rocky.

A narrativa de Galveston é alternada entre passado e presente, fazendo com que o leitor se sinta preso à trama conforme a história se desenrola. No começo, ele acompanha Roy e Rocky na fuga pós-emboscada. Um pouco depois, o texano é visto em uma praia brincando com uma cachorra. Ele está bem mais velho, anda mancando e usa um tapa-olho que assusta as crianças do balneário. Também parou de beber (até participa de reuniões dos AA) e adquiriu gosto pela leitura, não porque ela o torna mais inteligente, mas porque ler um livro é, segundo ele, a melhor forma de passar o tempo sem pensar em besteira. E para um homem com o extenso currículo de confusões de Roy, não pensar em besteira é um grande avanço.

Mais interessante, porém, é como o escritor consegue retratar de forma astuta um tipo de pessoa que se apega cegamente (e tolamente) a um momento da vida e o transforma em amuleto, como se todos os dias seguintes a serem vividos fossem menores. Como uma droga, a sensação inicial é de euforia, afinal a pessoa viveu aquilo. Conforme o tempo passa, porém, a memória se desgasta, e o que era um momento agradável começa a soar como um fantasma que caçoa da realidade. O passado deixa de ser real para se transformar em algo que a pessoa acredita que viveu, e a confusão nubla os pensamentos, que acabam por fim desejando algo que nunca houve. Roy é uma dessas pessoas.

Porém, o que seria de nossas vidas se não restasse uma fagulha de esperança? Nic Pizzolatto simboliza esse sentimento de forma precisa, afinal viveu uma infância pobre e traumática, mas sobreviveu aos fantasmas (dele e da família), algo que parece gostar de compartilhar com seus personagens. Matador sem remorso, mas de coração partido, que deixa (com pesar) uma coleção completa de filmes de John Wayne para trás durante a fuga, Roy Cody consegue despertar empatia porque é vítima de si mesmo e de sua própria história, ainda que a redenção seja um sonho praticamente impossível de realizar. Afinal, redenção é por demais Hollywood, e não Texas e Louisiana.

link-externoLeia um trecho de Galveston

Playlist de Galveston, de Nic Pizzolatto, por Marcelo Costa by Intrinseca on Mixcloud

01 – Billy Joe Shaver – “Good Ol’ USA”
02 – Roy Orbison – “Uptown”
03 – Glen Campbell – “Lovesick Blues”
04 – Conway Twitty & Loretta Lynn – “Louisiana Woman, Mississippi Man”
05 – Hank Williams – “Lost Highway”
06 – Willie Nelson – “I Gotta Get Drunk”
07 – Johnny Cash – “I Walk the Line [Alternate Take]”
08 – Merle Haggard – “The Fugitive”
09 – Loretta Lynn – “Trouble In Paradise”
10 – Waylon Jennings – “Just To Satisfy You”
11 – Billy Joe Shaver – “When Fallen Angels Fly”
12 – Patsy Cline – “Poor Man’s Roses”
13 – Roy Orbison – “Love Hurts”

link-externoLeia também: A metáfora da esperança de Jennifer Egan ou “Tudo começou aqui”

Marcelo Costa é editor do site Scream & Yell, um dos principais veículos independentes de cultura pop do país. Já passou pelas redações do jornal Noticias Populares, e dos portais Zip.NetUOL, Terra e iG, além de ter colaborado com as revistas Billboard BrasilRolling Stone e GQ Brasil, entre outras. Participou da Academia do VMB MTV, do júri do Prêmio Multishow e do júri do Prêmio Bravo. Desde 2012 integra a APCA (Associação Paulista dos Críticos de Arte).

testeLançamentos de junho

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O clique de 1 bilhão de dólares, de Filipe Vilicic — Aos 26 anos, o paulistano Mike Krieger tornou-se milionário. A trajetória de um dos idealizadores do Instagram e os bastidores da compra do aplicativo pelo Facebook em 2012 são detalhados pelo jornalista Filipe Vilicic, editor de Ciência e Tecnologia da revista e do site de Veja. [Leia +]

Quem é você, Alasca? (Edição comemorativa de 10 anos), de John Green — Publicado pela primeira vez nos Estados Unidos em 2005, o romance de estreia de John Green ganha agora uma edição comemorativa, com um revelador texto de apresentação assinado pelo autor, cenas extras cortadas do manuscrito original, detalhes do processo de edição do romance e respostas de John às perguntas dos fãs. [Leia +]

Estação Onze, de Emily St. John Mandel Vencedor do Arthur C. Clarke Award, importante prêmio do Reino Unido dedicado à literatura de ficção científica, e finalista do National Book Award, Estação Onze, de Emily St. John Mandel, reflete sobre arte, fama e efemeridade, e sobre como os relacionamentos nos ajudam a superar tudo, até mesmo o fim do mundo. [Leia +]

Os Guinle, de Clóvis Bulcão — Sinônimo de luxo, glamour e opulência, as lendas em torno do sobrenome Guinle obscureceram a atuação da família como empreendedores pioneiros no século XX. Clóvis Bulcão resgata o papel da dinastia no processo de industrialização brasileira, na exploração de petróleo e até mesmo na popularização do futebol como preferência nacional. [Leia +] Confira as colunas de Clóvis Bulcão para o blog

Moneyball: O homem que mudou o jogo, de Michael Lewis — No comando de um dos times de menor orçamento da liga de beisebol americana, Billy Beane mudou a história do esporte ao empregar alto conhecimento em matemática para determinar o modo de jogar e selecionar os atletas contratados pela equipe. A saga, narrada por Michael Lewis, também chegou ao cinema protagonizada por Brad Pitt[Leia +]

Isla e o final feliz, de Stephanie Perkins — Isla é uma menina tímida que estuda em uma escola americana em Paris. Ela é apaixonada por Josh, mas nunca teve contato com ele. Um dia, os dois se encontram por acaso em Nova York, e o sonho de Isla começa a se tornar realidade. Mas, para ficarem juntos, eles terão que enfrentar desafios como dramas familiares, dúvidas quanto ao futuro e a possibilidade de seguirem caminhos diferentes. [Leia +]

Galveston, de Nic Pizzolatto — Diagnosticado com uma doença terminal, Roy pressente que o chefe, um mandachuva em Nova Orleans, quer vê-lo morto. Conhecido entre os membros da gangue pelo apelido de Big Country, ele desconfia de que o serviço de rotina para o qual foi enviado possa ser uma emboscada. E de fato é. Do criador, roteirista e produtor executivo da série True Detective, Galveston é um romance brutal e envolvente. [Leia +]

Os Dois Terríveis (Série Os Dois Terríveis — Vol. 1), de Jory John e Mac Barnett | Ilustrado por Kevin Cornell — Miles era o garoto mais terrível de sua escola, mas acaba de se mudar para a entediante cidade de Vale do Bocejo, conhecida unicamente por suas muitas vacas. Só que Vale do Bocejo já tem um rei das travessuras. E dos bons. Se quiser roubar o posto, Miles vai ter que se superar. [Leia +]

Como não ser um babaca: Guia de etiqueta para o cotidiano, de Meghan Doherty — Com exemplos bem-humorados e ilustrações divertidíssimas, a designer e ilustradora Meghan Doherty apresenta inúmeros cenários em que há potencial para “comportamento babaca”, como no trânsito, nos relacionamentos e até na internet, e nos convida a refletir sobre como nossas ações podem afetar os outros. [Leia +]

Bebês submarinos, de Seth Casteel — Seth Casteel provocou alvoroço na internet e nas livrarias ao apresentar suas fotos divertidas e inusitadas de cães adultos e filhotes mergulhando na água para abocanhar bolinhas e brinquedos. Nesse terceiro livro, o autor de Cachorros submarinos e Filhotes submarinos fotografa os bebês mais fofos de todos os tempos debaixo d’água. [Leia +]

Serena, de Ron Rash — Pemberton e Serena são um casal ambicioso, determinado a derrubar todas as árvores das montanhas da Carolina do Norte para aumentar sua fortuna durante a Grande Depressão. Mas um projeto de parque nacional ameaça esses planos. Pemberton passa a subornar as pessoas mais influentes para manter sua propriedade e seu poder. Já Serena recorre a outros argumentos. Para sustentar o grande império, os dois vão passar por cima de tudo. Até deles próprios. [Leia +]