testeAssista agora Tom vs Time, série original do Facebook com Tom Brady!

“Do que você está disposto a abrir mão para ser o melhor que você pode ser?”

Aos quarenta anos, Tom Brady tem tudo: carreira de sucesso, uma bela família e mais títulos mundiais de futebol americano do que qualquer outro jogador em atividade na NFL. Com tanto sucesso, quais desafios Brady ainda pretende enfrentar?

Em uma série exclusiva do Facebook, Tom Vs Time explora a mente de um dos atletas mais importantes dos Estados Unidos, e um exemplo de dedicação e foco para pessoas do mundo inteiro. Nos três documentários, a série mostra a tentativa de Brady de se manter no auge da carreira, sem abrir mão de sua família e valores.

Dividida em três partes — Mental, Social e Físico —, a série mostra o jogador usando as técnicas que apresenta em seu livro O método TB12. Tom Vs Time já está disponível (em inglês). Assista ao primeiro episódio abaixo.

Saiba mais sobre O método TB12.

testeCrimes de paixão: a construção de Por trás de seus olhos

Entrevistamos a autora de Por trás de seus olhos, o livro mais surpreendente do ano.

Por André de Leones*

 

Sarah Pinborough

Jornalistas adoram rótulos. Ainda que Rebecca, romance de Daphne Du Maurier, tenha sido lançado em 1938 (e adaptado para o cinema dois anos depois por ninguém menos que Alfred Hitchcock, em um longa que faturou o Oscar de Melhor Filme), deram um jeito de apelidar os recentes thrillers psicológicos, narrados por personagens femininas nada confiáveis e coroados por reviravoltas incríveis, de Grip-Lit (ou gripping psychological thrillers). É onde se encaixam obras como Garota exemplar, de Gillian Flynn, e Por trás de seus olhos, romance de Sarah Pinborough que vem cativando muito leitor calejado com sua narrativa escorregadia, cujo desfecho, mais do que imprevisível, é fantasticamente perturbador — aliás, escrevemos sobre o livro aqui.

Nascida em 1972, na pequena cidade de Milton Keynes, a uns setenta quilômetros de Londres, Pinborough já tinha uma carreira estabelecida como autora de ficção young adult, fantasia e terror antes de investir no (vá lá) gênero Grip-Lit. Deu muito certo: Por trás de seus olhos chegou sem demora às listas dos mais vendidos e vem sendo traduzido e lançado em dezenas de países. Uma adaptação para cinema ou TV não deve demorar. Foi com simpatia e bom humor que ela cedeu a entrevista que se segue, na qual fala um pouco sobre a escrita do livro, as circunstâncias em que bolou seu desfecho marcante, os próximos planos e outras coisas.

 

Li que Por trás de seus olhos tem elementos autobiográficos. Isso é verdade? Se for, em que sentido?

Sarah Pinborough: Não há tantos [elementos autobiográficos] assim! Mas, como mulher solteira na casa dos quarenta, fui estúpida o bastante para ter aquele caso equivocado e estranho (no romance, a personagem Louise se envolve com seu chefe, David, um homem casado). E eu bebo vinho branco e tenho um cigarro eletrônico. Mas as semelhanças param por aí!

 

A primeira coisa que chamou a minha atenção foram as vozes dos personagens. Você realmente fez um ótimo trabalho ao distinguir essas vozes, o que é imprescindível para que o romance funcione apropriadamente. Como foi o processo?

SP: Ah, obrigada! Eu realmente não levo as vozes tão em conta, mas, considerando que havia duas narradoras principais em primeira pessoa, ambas mulheres, quis diferenciá-las da melhor maneira possível. Adele é uma pessoa bastante meticulosa e controlada e eu tentei fazer com que sua linguagem refletisse isso, enquanto que Louise, que Deus a abençoe, é mais dispersa, bagunçada, então seus pensamentos expressam isso. Mas, acima de tudo, assim que você conhece o personagem, a voz dele simplesmente aparece — ainda que isso soe um pouco pretensioso.

 

Além de ser um thriller psicológico, o romance explora temas importantes como atração, infidelidade, ciúmes etc. Na verdade, se esses temas não fossem abordados de forma realista, o suspense e as reviravoltas não seriam tão impactantes. Você tinha a intenção de abordar esses temas desde o começo?

SP: Sim, sem dúvida. Eu realmente queria escrever sobre um caso amoroso e todos os pormenores e emoções que vêm à tona, e quis brincar com o estereótipo da amante mais jovem e bonita, por isso era importante Adele ter uma beleza mais padrão. Acho que, no mundo moderno, com todos tão conectados via redes sociais, celulares e e-mail de uma forma que não éramos há vinte anos, é bem mais fácil sermos atraídos pela infidelidade. A maioria dos relacionamentos começa com as pessoas dizendo que jamais voltarão a trair e quase sempre termina porque alguém fez isso, e então eu quis explorar esse mundo.

Você também escreve para a televisão. Esta experiência influencia seu trabalho como romancista?

SP: Por certo me ajudou nos diálogos. Além disso, na televisão e no cinema cada cena tem um propósito a cumprir — tem que conduzir a história de alguma forma —, então eu continuo tentando trazer isso para a escrita dos meus romances. Nem sempre funciona — é muito mais fácil pesar a mão num romance que num roteiro para a TV.

 

Adele e Louise são fascinadas uma pela outra. É justo dizer que esse fascínio transcende o personagem masculino, de tal forma que David é meramente instrumental? Ele, por exemplo, não tem uma voz.

SP: Sem dúvida. Descobri pela minha própria experiência e pelas experiências de amigos que, se uma mulher dorme com um homem casado, ela quase sempre fica fascinada pela esposa, e a esposa, pela amante, e o homem se torna quase irrelevante. Mulheres foram condicionadas por séculos a competir umas com as outras, e todas pensamos que as outras são melhores nisso de “ser mulher”. Nós constantemente nos comparamos com outras mulheres e nos achamos inferiores. Sobretudo quando somos jovens. Eu quis explorar esse fascínio. É um livro mais sobre elas do que sobre ele, ainda que seja ele quem as aproxime.

 

Como você vê o desenvolvimento e o protagonismo de personagens femininos na literatura contemporânea, especialmente em thrillers?

SP: É realmente incrível como personagens femininas passaram ao primeiro plano e deixaram de ser algo mais do que apenas calculistas ou vítimas. Amo Rebecca, de Daphne Du Maurier, e penso que Amy, de Garota exemplar, abriu a porta para que nos thrillers as mulheres possam ser mulheres, boas e más, e assumam o lugar central. Não sei quanto tempo a bolha Grip-Lit vai durar, há tantos livros desse gênero já publicados, mas estou curtindo, e espero que ela tenha mudado para valer a maneira como escrevemos sobre mulheres na literatura policial.

 

Você poderia, por favor, falar um pouco sobre como surgiu a ideia para o final? Quer dizer, você já começou a escrever o romance sabendo como ele terminaria?

SP: Eu com certeza já tinha o final em mente antes de começar. Sabia que queria escrever um thriller sobre um affaire, algo claustrofóbico e com uma pegada Polanski/Hitchcock, mas não conseguia encontrar algo, uma ideia, que não parecesse corriqueira. Comecei a me sentir bastante frustrada, então fui a um bar, pedi uma taça de vinho, abri o notebook e passei a rascunhar meus personagens: quem eram, o que acontecia com eles – e então foi como se uma lâmpada se acendesse, o momento em que pensei “E se?”, e foi isso. O fim estava lá.

 

Li que você mora em Milton Keynes. Não sei se você curte futebol (caso não curta, apenas ignore isto), mas, como torcedor do Liverpool, gostaria de agradecer o Milton Keynes Dons por destroçar o Manchester United na Copa da Liga anos atrás. Aquilo foi quase tão emocionante quanto Por trás de seus olhos.

SP: (Risos.) Vai, Dons!

 

Para terminar, você poderia dizer o que vem a seguir? Está trabalhando em algum novo projeto?

SP: Estou trabalhando em outro thriller que se concentra em personagens femininas e tem uma reviravolta, mas é bem diferente de Por trás de seus olhos. Estou bastante satisfeita com ele, que será lançado em maio do ano que vem. Não sei ao certo se posso dizer qual é o título, então não vou revelar!

 

*André de Leones é autor do romance Abaixo do paraíso, entre outros. Página pessoal: andredeleones.com.br.

testeArnaldo Guinle e as arenas do futebol brasileiro

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(O “novo” Maracanã: Modelo não funciona – Fonte)

Já escrevi aqui que, em 1919, o então presidente do Fluminense, Arnaldo Guinle, inaugurou uma fase importante na história do futebol brasileiro com a construção de estádios com capital privado. O modelo foi copiado por diversos clubes em todo o país. Nos anos 1950, com o Maracanã criou-se um segundo paradigma: a edificação de grandes estádios financiados com dinheiro público. De certa forma, os dois modelos contribuíram para o desenvolvimento do esporte. O primeiro, popularizando-o; o segundo, consagrando o Brasil como um gigante do ramo.

No início do século XXI, surgiu um terceiro paradigma, o das arenas atuais. Os antigos estádios foram modernizados e, por medida de segurança, perderam a capacidade de receber grandes multidões. Nos últimos dias, a sociedade brasileira ficou sabendo o que se passava nos bastidores da construção e/ou reforma de alguns estádios. No dia da prisão do ex-governador do Rio de Janeiro Sérgio Cabral, a imprensa revelou com destaque que a reforma do Maracanã, com custo de R$ 1,3 bilhão, havia gerado uma mesada ao ex-governador de R$ 300 mil ao longo de um ano.

Mesmo antes da prisão de Cabral, a jornalista Gabriela Moreira já revelara em seu blog que a administração do Maracanã ainda é feita por apaniguados de Cabral. Seu ex-chefe de Segurança, coronel Anderson Fellipe Gonçalves, explora os serviços de segurança e de limpeza no local por preços muito acima do mercado.

Diferentemente dos outros dois, o novo paradigma das arenas ainda não trouxe nenhum benefício ao esporte. Muito pelo contrário. Poucas arenas são rentáveis, os ingressos são caros e as plateias, escassas. Não sou adepto da tese de que a história serve para exaltar o passado e dar bons exemplos, mas o sonho de Arnaldo Guinle, que via o futebol como uma atividade civilizatória, precisa ser resgatado o mais rapidamente possível.

testeNo Fla-Flu, “é o ai, Jesus”

Como todos sabem, o Fluminense questionou na Justiça o resultado do último Fla x Flu, ocorrido no dia 13 de outubro, quando o Flamengo venceu o jogo por 2 a 1. O caso gerou intenso debate, já que nos últimos anos o Fluminense tem lançado mão dos tribunais para rever derrotas esportivas. E sempre com sucesso. Dessa vez alegam que o juiz resolveu não validar um determinado gol por influência do delegado da partida, algo proibido pelas leis do futebol.

Como rubro-negro, não tenho o Fluminense como o maior rival. O futebol do Clube de Regatas do Flamengo nasceu de uma briga, em 1911, com os jogadores do Fluminense. Liderada pelo capitão Alberto Borgerth, metade do time participou da criação do Departamento Terrestre do Flamengo. Assim nasceu o Mengo.

Como autor de Os Guinle, estudei muito a história do Fluminense. Até fui ao clube para realizar uma fase da pesquisa. A família Guinle, em especial Arnaldo, foi fundamental para a construção do Fluminense Football Club. Logo, conheço mais a história do Flu que a do Fla.

Todo tricolor deveria saber sobre que bases morais o seu clube foi fundado. O escritor Coelho Netto, um dos grandes ideólogos do Fluminense, escreveu: “O Fluminense foi o verdadeiro guia e modelo de todos os clubes cariocas. A ele se deve o desenvolvimento do foot-ball no Rio de Janeiro. É uma sociedade que vem trabalhando pelo aprimoramento moral e cultural da mocidade.”

Exemplos da tradição do clube: em 1905, num jogo contra o Paulistano, a torcida tricolor se comportou com o gol do adversário gritando “Bravo! Bravíssimo!” Segundo Arnaldo Guinle, o “sportmen [torcedor] tricolor era sinônimo de cavalheirismo e fair-play”. E Arnaldo disse mais: o “equilíbrio moral e democrático – é a alma do Fluminense Foot-ball Club”.

Em um dos versos do primeiro hino do clube se dizia: “Adestra a força e doma o impulso.” O Fluminense precisa se reencontrar com a sua história. Tentar ganhar um jogo no tribunal valendo-se de um gol irregular é simplesmente romper com os postulados de criação da agremiação. Todo sócio do clube deveria ter isso em mente na hora de votar nas próximas eleições do Fluminense Foot-ball Club.

testeUm século de conquistas

maracana_finalcopadasconfederacoes_reuEstádio Maracanã  (Foto: Agência Reuters)

Foi com muita alegria que li a notícia de que a Confederação Sul-Americana de Futebol (Conmebol) decidiu que a Copa América de 2019 será disputada no Brasil. Além de ocupar os estádios construídos para a última Copa do Mundo, verdadeiros elefantes brancos, o evento trará novo fluxo de turistas ao país. Sem contar que será uma boa oportunidade para se celebrar o centenário da primeira grande conquista internacional do futebol brasileiro, o Sul-Americano de 1919.

Será ainda uma excelente ocasião para o Brasil — em especial, o Rio de Janeiro — reverenciar a memória de um dos maiores desportistas de nossa história: Arnaldo Guinle. Patrono e figura de proa do Fluminense F.C., Arnaldo foi também mecenas do Sul-Americano de 1919. Seus esforços pelo desenvolvimento de atividades esportivas diversas no país até hoje não foram devidamente reconhecidos.

Arnaldo foi o primeiro dirigente brasileiro do Country Club do Rio de Janeiro, agremiação da elite carioca. Fundado em agosto de 1915, na praia de Ipanema, Zona Sul do Rio de Janeiro, o clube era frequentado basicamente por estrangeiros. No dia de sua inauguração, segundo o jornal A Notícia, o Country estava perfeitamente equipado para a prática dos seguintes esportes: football, lawn-tennis, baseball e cricket. Graças ao dedo de Arnaldo, outra modalidade entrou no cardápio da festa inaugural: uma apresentação de jiu-jítsu, feita pelo professor Mário Aleixo e seu discípulo Ernesto Goeth.

Cinco anos depois, em 1920, lá estava Arnaldo fundando o Iate Clube do Rio de Janeiro. Nunca é demais lembrar que, além da parte náutica, na proposta original de fundação do clube dava-se um papel relevante à aviação (até 1939 funcionou uma pista de pouso no local) e ao tiro, com a criação de um estande.

Portanto, qualquer semelhança com o atual panorama das práticas esportivas mais expressivas no Brasil de hoje não é mera coincidência. Arnaldo Guinle e seus irmãos ficaram de fora do livro oficial comemorativo dos 450 anos de fundação do Rio de Janeiro. Em 2019, a prefeitura terá a chance de fazer justiça e festejar a memória desses cariocas que tanto ajudaram a construir a maravilhosa fama da cidade.

testeAlex Ferguson e o padrão da vitória

Por Manoel Magalhães*

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O antes e depois da geração que ficou conhecida como Classe de 92. Na primeira foto: Eric Harrison, responsável pelas categorias de base do United em 1992, Giggs, Butt, Beckham, Gary Neville, Phill Neville, Scholes e Cook. Na segunda: Ferguson, Giggs, Butt, Beckham, Gary Neville, Phill Neville e Scholes (Foto: divulgação / Site Oficial do Manchester United)

 

Técnicos de futebol não costumam durar muito. O tempo médio do trabalho de um profissional no Brasil é de cinco meses e a cada rodada do Campeonato Brasileiro pelo menos um treinador saca seu FGTS. Na Inglaterra, país que abriga o mais lucrativo campeonato de futebol do mundo, a Premier League, essa média é um pouco maior: 11 meses de trabalho. Em um emprego de alto risco e rotatividade garantida, Sir Alex Ferguson é a mosca branca. Permaneceu à frente do Manchester United por 26 anos e transformou a história do clube, conquistando impressionantes 38 títulos (é o maior vencedor do futebol inglês) e ajudando a talhar uma das mais valiosas marcas do esporte mundial. Independentemente das particularidades do universo do futebol, a façanha é digna de estudo para qualquer um que queira aprender sobre liderança e gestão de projetos vitoriosos.

Liderança, livro nascido da parceria entre Ferguson e Michael Moritz (presidente da Sequoia Capitol, empresa de investimentos que ajudou a moldar companhias como Apple, Google, PayPal, YouTube, WhatsApp e Airbnb), é um prato cheio para os que buscam um guia que ajude na construção de um padrão de sucesso para o trabalho. Ferguson e Moritz esmiúçam detalhes de planejamento e gestão que levaram o Manchester United a marcas históricas de produtividade. E este é o ponto essencial: com a preparação adequada, a vitória pode até não chegar sempre, mas passa perto tantas e tantas vezes que acaba por se tornar inevitável.

O argumento é comprovado pelos números: desde que a Premiere League foi criada, em 1992, o time de Ferguson sempre esteve entre os três primeiros colocados, conquistando 13 títulos em 21 edições do torneio. Na temporada 2013-2014, a primeira sem o técnico, o Manchester United caiu para a inédita sétima colocação, e até hoje não se recuperou. Mesmo com grandes investimentos nas contratações de astros como Ángel Di María (€ 75 milhões) e Bastian Schweinsteiger (€ 30 milhões), o clube não conseguiu ainda resultados sequer próximos aos do trabalho de Ferguson.

Sempre olhei o caso do Manchester United com admiração. Nos últimos trinta anos o clube prezou pela identificação genuína com seus atletas (Roy Keane e Rio Ferdinand permaneceram no elenco por mais de uma década, Wayne Rooney já está há mais de 12 anos no time) e formou talvez a geração de base mais prodigiosa do futebol, a Classe de 92. Em uma só tacada, Sir Alex Ferguson tirou dos campos de treinamentos para jovens atletas como David Beckham, Ryan Giggs, Paul Scholes e Gary Neville — todos com lugar cativo entre os maiores ídolos do clube.

Ferguson mostra que renovar é a essência para inovar. Um dos pontos que brilham em Liderança é justamente a importância de uma equipe apostar em um sistema de captação de jovens talentos. Em sua primeira década no comando do Manchester United, o técnico trabalhou exaustivamente para montar um grande esquema envolvendo olheiros (que mapearam boa parte do Reino Unido) e treinadores especializados para as categorias de base. Sobre isso, Ferguson resume no livro: “Todo impacto do nosso programa de categorias de base ficou claro no início da temporada de 1995-1996, quando seis dos treze jogadores que usei no jogo contra o Aston Villa — que perdemos — eram oriundos do sistema. Alan Hansen, comentarista de televisão, avaliou o resultado e concluiu, anunciando ao público britânico naquela noite: ‘Não se pode vencer nada com garotos.’ Sempre pensei o contrário — você nunca poderá vencer nada sem garotos.”

999-sir-alex-ferguson-presenting-cristiano-ronaldo-manchester-united-2003Sir Alex Ferguson e Cristiano Ronaldo durante a apresentação do atleta ao time em 2003 (Foto: Reuters)

A linha de pensamento do técnico converge com a adotada nas maiores empresas de tecnologia, como Apple, Facebook, Google, Amazon e LinkedIn, formadas por funcionários jovens, com idade média entre 28 e 31 anos. Da dedicação de Ferguson em lapidar joias, veio o resultado. Em 1999, o clube conquistou todos os principais títulos da temporada, na Inglaterra e na Europa, feito realizado antes apenas por três clubes na história. Era o fruto do trabalho dos jovens selecionados em 1992 e promovidos ao elenco principal na temporada 1995-1996.

A preocupação com a análise de dados, outro pilar do padrão de liderança de Sir Alex Ferguson, pode ser identificada especialmente na vitória que marcou o auge dessa geração de 92, a conquista da Liga dos Campeões da UEFA (UEFA Champions League) de 1999 sobre o Bayern de Munique. Ferguson não deixa dúvidas no livro: “Havíamos previsto que Alexander Zickler e Mario Basler seriam substituídos. Não havia bola de cristal; simplesmente assistimos a fitas dos jogos do Bayern e sabíamos que eles tirariam esses jogadores. Zickler foi substituído aos 26 minutos do segundo tempo, enquanto Basler saiu aos 42. Essas substituições privaram o Bayern de grande parte de sua capacidade de penetrar nossas defesas, e assim eles passaram a ser uma ameaça menor e nós pudemos avançar mais em busca do gol.”

Com base nessas informações, o técnico fez história. Colocou os atacantes Teddy Sheringham e Ole Gunnar Solskjær, que marcaram os dois gols da virada do Manchester United nos três minutos de acréscimo da partida. Até o último minuto regulamentar do segundo tempo o time estava perdendo o jogo.


O terceiro pilar no padrão de Ferguson é o trabalho cotidiano para a melhoria dos processos. Seja por meio de seus auxiliares técnicos, escolhidos a dedo pelo esmero na evolução do rendimento dos atletas, ou cuidando pessoalmente de detalhes como a relação dos jogadores com a imprensa, o que os atletas vestem, a qualidade dos gramados ou qualquer tipo de minúcia relacionada à construção da marca da instituição ou ao rendimento esportivo. A dedicação exacerbada aos mínimos detalhes era também a marca de outro grande líder: Steve Jobs. O fundador da Apple ficou conhecido por exigir excelência em cada pixel.

Nesse aspecto, um caso em especial chama a atenção: Cristiano Ronaldo. O português chegou às mãos de Ferguson aos 18 anos como uma promessa de craque, mas com certa dificuldade em marcar gols. Em 2003-2004, sua primeira temporada no Manchester United, Cristiano marcou apenas seis. Com o esforço do técnico em desenvolver suas qualidades e após treinos sistemáticos, em 2005-2006 a marca dele saltou para 12 gols, depois para 23 em 2006-2007, chegando aos 42 gols marcados na temporada 2007-2008, que também coroou seu trabalho no Manchester United com o título da Liga dos Campeões da UEFA, conquistado sobre o rival Chelsea.

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Sir Alex Ferguson e Cristiano Ronaldo em 2009 (Foto: divulgação / Site Oficial do Manchester United)

Cristiano Ronaldo credita sua evolução atlética, esportiva e até de caráter ao treinador. Recentemente, o jogador foi muito exaltado por sua liderança no inédito título de Portugal na Eurocopa 2016 e recebeu um abraço de Ferguson ao final da partida. O nível de exigência estabelecido pelo padrão de um líder vitorioso é fundamental para a formação de novos líderes.

“Aos poucos, fui entendendo que o meu trabalho era diferente. Era estabelecer padrões elevados. Era ajudar todos os outros a entenderem que podiam alcançar coisas que não se consideravam capazes de fazer. Era traçar um caminho que ainda não havia sido seguido. Era fazer todo mundo entender que o impossível era possível. Essa é a diferença entre liderança e administração.” As palavras do próprio Sir Alex Ferguson resumem o valor de Liderança, livro que flui muito fácil entre histórias envolvendo craques como Éric Cantona e Ryan Giggs, mas também busca aprofundar lições fundamentais sobre gestão de equipes de trabalho, traço que pode ser aproveitado no cotidiano de qualquer tipo de projeto, de iniciativas artísticas a empresas de pequeno ou grande porte.

Ouvir alguém que construiu tão sólida carreira, baseada não só em resultados, mas em relações humanas perenes, é uma oportunidade de repensar a forma como nos colocamos nos projetos aos quais escolhemos dedicar nosso precioso tempo de vida. As amizades que o treinador construiu e a enorme influência positiva que teve na vida de dezenas de seus comandados talvez expliquem a longevidade em um emprego que raramente passa de uma temporada. O trabalho de Ferguson marcou uma era do futebol inglês, seus conselhos foram fundamentais para a carreira de jogadores de diversas nacionalidades e suas considerações sobre liderança reunidas no livro são preciosas. Não é todo líder que sai pela porta da frente. Ferguson deixou seu posto de trabalho ovacionado por 75 mil pessoas que lhe agradeceram por marcas históricas de orgulho e superação. Vale ouvi-lo.

 >> Leia um trecho de Liderança
Manoel Magalhães é músico e jornalista. Vive no Rio de Janeiro, mas sonha com a Premier League todo sábado pela manhã.

testeUm banho de futebol

* Por Pedro Staite

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A ciência tem tarefas mais importantes a desempenhar, mas, se estivesse com tempo e ideias inúteis de sobra, comprovaria que eu sou um caso excepcional do futebol. Excepcionalmente lamentável. Minha coordenação tem lacunas constrangedoras, já perdi o fôlego uma vez jogando Banco Imobiliário (mesmo tendo ficado seis rodadas seguidas descansando na cadeia) e não tenho aquela gana animal para executar desarmes no ponto futuro. Na verdade, às vezes me falta gana até para atravessar a rua.

A introdução é só para deixar bem claro que eu sou péssimo em futebol. É imprescindível que a raça humana nunca dependa dos meus gols.

Mas, por algum motivo, adoro futebol. A vida tem disso mesmo, é sempre muito revelador acompanhar alguém fazendo alguma coisa que você não sabe fazer. É por isso que eu adoro reality shows de culinária, shows de rock e pessoas que enriquecem.

Um dos livros com os quais entrei em contato nos últimos meses aqui na Intrínseca foi o Liderança, de Sir Alex Ferguson, treinador escocês que fez história no Manchester United. A obra foi produzida pela Luana Luz, uma fonte cristalina de conhecimento a um braço meu de distância. Fiz uma das revisões do livro: a ideia era verificar termos futebolísticos, porque, embora a obra discorra sobre liderança e as experiências de gestão do autor, o estofo é todo envolto no relvado. É recheado de bastidores, números e causos de futebol, e isso é lindo.

untitledAlex Ferguson foi técnico do Manchester United por quase 27 anos, ou 1.500 jogos, e o que ele tem de títulos eu não chego a ter de dentes (sim, ele conseguiu a proeza de ganhar mais de 32 títulos no Manchester, e eu tirei os sisos). Isso sem contar a carreira de sucesso que ele já tinha na Escócia, onde treinou a seleção do país e o Aberdeen na década de 1980 — um raro momento no século passado em que algum time ofuscou o brilho dos gigantes Celtic e Rangers. Dos quatro títulos que o Aberdeen tem em sua história no Campeonato Escocês, Ferguson conquistou três. O pessoal de lá deve amar muito o cara. Ainda mais se esmagarmos os números para observarmos suas entranhas:

— O Campeonato Escocês já teve 121 edições.

— O Celtic e o Rangers ganharam, juntos, 101 vezes. (Sim, só há 16,53% de chances de qualquer outro time ganhar o Escocesão. Não sei de onde os torcedores tiram esperança no início de cada temporada.)

— O maior intervalo NA HISTÓRIA sem título de um dos dois foi de apenas três anos (da temporada 1982-83 até a 1984-85). Ali, o Aberdeen de Ferguson conseguiu dois títulos. Na verdade, depois disso, nenhum outro time foi campeão, só o Celtic e o Rangers.

Ou seja, Sir Alex Ferguson sempre pareceu saber o que estava fazendo. E muitas das estratégias que comprovam isso estão nos causos de Liderança.

 

O banho de banheira que trouxe Cantona

Em 1992, depois de um jogo contra o Leeds, alguns jogadores do Manchester United fizeram algo que a maioria das pessoas vão morrer sem fazer (como se jogar no Manchester United já não fosse o suficiente): tomaram um banho de banheira com o chefe. É por isso que o futebol é maravilhoso; isso nunca aconteceria num escritório de arquitetura.

Durante o banho pós-jogo, Steve Bruce e Gary Pallister, dois pilares do time na época, contaram para Ferguson que o Leeds tinha um atacante francês muito perigoso chamado Éric Cantona. “De algum modo, esses comentários plantaram uma semente que pouco depois nos levou a comprar o atacante francês”, conta Ferguson no livro.

Foi um banho de banheira abençoado: Cantona fez mais de oitenta gols e ajudou o time a ganhar nove títulos nos quatro anos seguintes. Portanto, a moral do parágrafo é a seguinte: escute os conselhos de quem toma banho com você.

 

O mesmo Cantona e a bicuda de kung fu

O francês sempre foi conhecido por ter um pavio inexistente. Em um jogo inesquecível contra o Crystal Palace, Cantona se irritou com um torcedor do time adversário. Em vez de dizer “Meu senhor, suas ofensas são injustificadas e não me agradam, por favor, pare com a bravata”, Cantona correu até o cara e desferiu uma VOADORA nele (e ainda tentou dar uns socos, eu vi no YouTube).

A completa falta de verniz social do francês lhe rendeu uma suspensão de oito meses. O sábio Ferguson, depois das broncas que devem ter balançado o Paraíso e o Inferno, reforçou a importância da lealdade no time: “Foi natural ele se sentir isolado e esquecido. Eu me esforcei muito para que soubesse que nos importávamos com ele, e, no fim das contas, quando ele estava prestes a se transferir para a Itália, nossa lealdade o fez ficar no Manchester United.”

 

Bons, bonitos, ricos e pelo menos um sem caspa (segundo o anúncio)

Cristiano Ronaldo e David Beckham são duas traduções do sucesso completo no futebol. Estão entre os melhores jogadores da história, são as coisas mais bonitas em que já pus os olhos, viraram chamarizes das marcas mais conceituadas do planeta e não entram no cheque especial desde o início da década de 1990. À semelhança de Sérgio Chapelin em frente ao telão do Globo Repórter, me pergunto: “Qual é o segredo deles?”

(Evidentemente várias pessoas talentosas seguem os mesmos caminhos, mas acabam não vicejando na profissão, então devemos complementar com o fator “sorte” tudo o que vier escrito em seguida.)

Ferguson tem algumas respostas sobre Cristiano Ronaldo: “Ele tinha uma verdadeira ânsia de se tornar o melhor jogador do mundo e estava determinado a alcançar tal objetivo. Também tinha um cuidado tremendo com a alimentação, um hábito anterior à sua mudança para a Inglaterra (…) [Cristiano Ronaldo] Não chega nem perto de bebidas alcoólicas.” Se eu jogasse bem assim, também ficaria longe de bebidas alcoólicas. Mas eu — esquisito, beberrão, pereba, usuário do xampu do anúncio dele e simpático — sou o completo oposto do Cristiano Ronaldo.

Beckham, que chegou molequinho ao Manchester United, também é conhecido por sua dedicação febril. Nas palavras do autor de Liderança, “[ele] também era extraordinário. Quando se juntou a nós, morava em um alojamento, e não treinava apenas de manhã e à tarde, mas também aparecia à noite para praticar com os meninos da escolinha”. Poucos são os que usam tão bem a sorte a favor.

 

Futebol não é só bola

E isso é uma das razões que tornam Liderança tão divertido. No livro a gente acompanha, por exemplo, como o Manchester (que, embora bem estruturado, não conta com o macete de dinheiro infinito que Chelsea, Real Madrid e Manchester City têm) lutou para contratar vários craques. Um spoiler da vida real: em várias ocasiões, Ferguson levou a pior. O Lucas, por exemplo, que jogou no São Paulo (no Google, é o segundo Lucas que aparece na caixa de buscas. O primeiro é o Lucas Lucco), quase foi para o Manchester, mas acabou preferindo o dinheiro infinito do Paris Saint-Germain. Esse jogo de xadrez chamado “janela de transferência junto com muito time rico por perto” é esmiuçado várias vezes, e sempre dá uma sensação de “ooolha isso, gente, eu não sabia!”.

Brigas de bastidores, reviravoltas impossíveis dentro de campo, rivalidades e lealdades para uma vida inteira, as impressões sobre os melhores jogadores da história… A vida de Sir Alex Ferguson no Manchester United é um recorte não só de uma lenda da bola, como também da bola em si. É ao mesmo tempo um relato autobiográfico e uma biografia do futebol. Uma homenagem ao futebol, para falar a verdade.

>> Leia um trecho de Liderança

 

Pedro Staite é editor-assistente de livros estrangeiros da Intrínseca e é uma lenda do handebol amador, pena que a editora não tem livros sobre esse esporte. Escreveu um livro chamado Memorial leve, que não tem nada a ver com futebol (nem handebol, claro).

testeA Copa América, cem anos depois

Não curto a ideia de festejar o centenário da Copa América nos Estados Unidos. Os americanos do Norte não têm nenhuma intimidade com o torneio.  Tanto que quando ele foi criado, em 1916, era chamado de Campeonato Sul-Americano de Futebol. De sua primeira edição, em Buenos Aires, na Argentina, participaram apenas Uruguai, Chile, Brasil e os donos da casa.

Somente na edição de 1921, realizada de novo em solo argentino, uma nova equipe, a do Paraguai, foi aceita no seleto grupo. No torneio de 1927, Peru e Bolívia já eram participantes. Em 1928, aconteceu pela primeira vez um encontro futebolístico com o nome Copa América, mas o torneio que seguia hegemônico no continente era o Sul-Americano.

A Copa América, nos moldes contemporâneos, só começou a ser disputada em 1975. Na edição de 1993, entraram os mexicanos e os norte-americanos. São tão estranhos ao ninho que até hoje nenhum deles conseguiu erguer o troféu.

A história do futebol sul-americano sempre foi marcada por idas e vindas.  Hiatos na realização das competições, brigas e boicotes de algumas seleções, inclusive a nossa, mas nada comparável aos escândalos de hoje.

Neste momento, por exemplo, a AFA, federação argentina de futebol, está mergulhada em um enorme escândalo eleitoral. Em 2015, foram indiciados por corrupção sistemática, pela Justiça americana, Juan Ángel Napout (presidente da Confederação Sul-Americana de Futebol, Conmebol), Manuel Burga (ex-presidente da Federação de Futebol do Peru), Carlos Chavez (Federação da Bolívia), Luis Chiriboga (Equador), Eduardo Deluca (secretário-geral da Conmebol), Jose Luis Meiszner (ex-secretário da Conmebol), Romer Osuna (auditor da Federação da Bolívia), além do presidente da CBF, Marco Polo Del Nero, e do seu ex-presidente Ricardo Teixeira.

Mas como dizia o ex-presidente da antiga Confederação Brasileira de Desportos (CBD), Arnaldo Guinle, o futebol é civilizatório. O melhor da atual Copa América é saber que a alta cúpula do futebol cucaracha não poderá participar da festa. Muitos de seus dirigentes, quase todos, são procurados pela Justiça norte-americana.

Que a Copa América Centenário sirva de lição para os gestores do nobre esporte bretão. Só com uma gestão civilizada, e honesta, voltaremos a ocupar o posto de melhor escola de futebol do mundo.

testeFutebol e civilização

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Faixa levantada pela torcida do Borussia Dortmund diz: “Refugiados, sejam bem-vindos”.

No início do século XX, o futebol ainda lutava para se firmar como esporte popular no Brasil. E, com a conquista do Campeonato Sul-Americano de 1919, realizado no Rio de Janeiro, isso começou a acontecer: a Seleção ganhou a final contra o Uruguai e o jogo caiu nas graças do povo, contagiando o país inteiro. Era também uma vitória pessoal de Arnaldo Guinle, que foi fundamental nas negociações para receber o certame e financiou a construção do estádio do Fluminense, palco da competição, em Laranjeiras.

Arnaldo acreditava no poder “civilizatório do futebol”. Ele achava que o “nobre esporte bretão” poderia ser um caminho para se educar e disciplinar os jovens. Porém, mesmo após o Brasil se tornar o país do futebol e a Copa do Mundo se consagrar internacionalmente, poucas vezes vimos o jogo como fator de civilização. Muito pelo contrário, são comuns as cenas de violência nos estádios, com jogadores usando seu fair play para levar vantagem, e as suspeitas de manipulação de resultados por máfias de apostas na Ásia. Aliás, como se sabe, a Fifa virou uma entidade de má fama.

Surpreendentemente, o meio futebolístico acaba de dar uma pequena mostra de que o sonho de Arnaldo Guinle ainda é possível. Antes mesmo de a divulgação da trágica foto do menino sírio afogado em uma praia na Turquia sensibilizar o mundo, alguns clubes na Alemanha, na Itália e no Brasil se mobilizaram para chamar a atenção para a crise dos refugiados na Europa.

Na Alemanha, o grito de apoio veio das arquibancadas. Torcidas do Wolfsburg, Frankfurt, Bayern de Munique e Borussia Dortmund prestaram sua  solidariedade aos refugiados. Na Itália, alguns jogadores, como Totti, Dzeko e Pjanic, doaram camisas para serem leiloadas.

No Brasil, o Atlético Mineiro foi a primeira agremiação a se movimentar em torno da questão. Em setembro de 2014, na 19a rodada do Campeonato Brasileiro, em jogo contra o Botafogo carioca, refugiados sírios de Belo Horizonte foram convidados de honra do clube local. Foi uma atitude isolada, mas que pode representar uma esperança de que um dia o futebol no Brasil, e no mundo, seja realmente civilizatório.

Esse não é apenas o sonho de Arnaldo Guinle, mas, certamente, de todos os amantes do futebol.

link-externoLeia um trecho de Os Guinle

 

testeA biografia: da concepção ao nascimento

Cosme Velho

A casa do Cosme Velho

Logo após me formar em história na PUC, fui trabalhar em um projeto patrocinado pela Xerox do Brasil. O então presidente da empresa, Sergio Gregóri, pretendia adquirir a propriedade de Marcos Carneiro de Mendonça, um enorme casarão no bairro do Cosme Velho, Zona Sul do Rio de Janeiro. O objetivo era transformar o local em um centro cultural. A casa era um verdadeiro museu, com muitos objetos de grande valor artístico e histórico, e abrigava uma biblioteca espetacular.

Marcos Carneiro de Mendonça gostava de dizer que era um “heurista”, ou seja, um estudioso de fontes históricas. Mas eu o via, muito mais, como o mítico goleiro da seleção brasileira dos anos 1910. Ao longo de alguns anos, tive a chance de escutar muitos relatos sobre o futebol brasileiro. Marcos jogou pelo América-RJ e pelo Fluminense. Foi em uma conversa sobre os bastidores da organização do campeonato Sul-Americano de 1919 que o nome da família Guinle surgiu pela primeira vez. O Brasil, no início do século, era um saco de pancadas do futebol regional. Após o fiasco do torneio de 1917, realizado no Uruguai, foi feito um esforço para que o próximo Sul-Americano acontecesse em nosso país.

Quando ficou decidido que o Brasil sediaria o campeonato do ano seguinte (seria em 1918, mas a pandemia de gripe espanhola adiou o projeto) começou uma nova batalha: em que cidade? A briga ficou entre Rio e São Paulo. Segundo os relatos de Marcos, ele e Arnaldo Guinle teriam tido um papel de destaque para que o Fluminense recebesse o evento.

Até que um belo dia, a conversa sobre os Guinle tomou uma direção surpreendente. Com uma pontada de ironia, Marcos Carneiro contou que Cândido Gaffrée, seu sócio Eduardo P. Guinle e sua esposa Guilhermina protagonizavam um ménage à trois. Essa informação só insuflou a minha tese de que os Guinle mereciam um livro. Talvez um romance, uma espécie de O Tempo e o Vento carioca. Várias gerações, traições, ascensão e queda.

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Estádio do Fluminense em 1919 (Flu-Memória)

Durante muitos anos essa ideia ficou hibernando em algum canto da minha cabeça. Em meados de 2010, comprei um livro (Entre os salões e o laboratório: Guilherme Guinle, a saúde e a ciência no Rio de Janeiro –  1920-1940) de Gisele Sanglard. Na sequência, comprei a biografia de Guilherme Guinle, uma publicação de 1982. Aos poucos, a velha vontade foi sendo retomada.

Por coincidência, na mesma época, a Intrínseca me chamou para conversar. Eles estavam prospectando histórias nacionais com bom potencial. Assim que falei em um romance sobre os Guinle, o publisher Jorge Oakim disse: não um romance, mas uma biografia. Faro fino de editor! Um romance não seria capaz de contar uma história tão absurdamente surpreendente. Ao longo de três gerações, a família Guinle viveu as mais insólitas situações. Saíram pobres da França e foram para o Uruguai. No país vizinho, escaparam de uma sangrenta guerra civil. Se estabeleceram em Porto Alegre, se afirmaram no Rio de Janeiro e fizeram fortuna no porto de Santos. Além do insólito padrão de vida de Guilhermina e seu marido, os Guinle tiveram uma trajetória empresarial e social ímpar.

Os Guinle foram muito mais do que uma família bilionária. Eles já foram muitas vezes comparados aos Rockefeller, mas nunca tiveram pretensões políticas. Diferentes dos Rothschild, além de contribuírem com instituições culturais em diversas cidades brasileiras, foram mecenas de artistas populares. Na vizinha Argentina, o reinado da família Fortabat é insignificante se comparado aos nossos biografados. Talvez não exista no mundo uma família que tenha feito tanto por uma nação quanto eles.

link-externoConheça Os Guinle: A história de uma dinastia