testeO amor à guerra

Em É isso que eu faço, a fotógrafa Lynsey Addario explica como curiosidade e coragem moldaram sua carreira e vida pessoal mundo afora

Por Marsílea Gombata*

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Cena do Afeganistão enquanto o país estava sob o regime Talibã, maio de 2000.

Uma explosão. A janela do carro estourada, restos humanos espalhados na parte de trás. Pedaços de um cérebro no banco do passageiro, e a tampa interna do porta-malas cravejada com fragmentos de crânio. Poderia ser mais uma entre tantas fotografias documentando atrocidades em zonas de conflito. Mas não. Em 2011, na cidade de Ajdabiyah, na costa da Líbia, a Primavera Árabe havia se transformado em guerra contra o ditador Muammar al-Kadafi. E Lynsey Addario, fotógrafa de guerra havia mais de dez anos, não conseguiu ir adiante. “Quando cobria guerras, em alguns dias eu tinha uma coragem sem limites, mas em outros, como aqueles na Líbia, eu me sentia aterrorizada desde o momento em que acordava”, lembra no início de seu livro de memórias.

Talvez por se tratar de um momento raro, foi a cena marcada por sua fraqueza a escolhida por Lynsey para abrir É isso que eu faço: Uma vida de amor e guerra. O livro, que retrata com minuciosidade um dos trabalhos mais arriscados e importantes do mundo, expõe também a coragem e as privações necessárias para se viver em busca do melhor clique, muitas vezes nas piores situações.

grandeitswhatidoPublicada em fevereiro do ano passado nos Estados Unidos, a obra que chega este mês às livrarias brasileiras é dividida em quatro partes e mescla relatos profissionais com episódios da vida pessoal — como quando o pai de Lindsey sai de casa para se casar com um amigo em 1982 ou a maternidade que a fotógrafa adiou por tanto tempo. A gravidez de Lukas, no entanto, não a impediu de trabalhar em zonas de conflito. Em outubro de 2011, quando a gestação se aproximava da 27ª semana, o The New York Times a enviou a Gaza para cobrir a troca de 1.027 prisioneiros palestinos em troca do soldado israelense Gilad Shalit, sequestrado havia cinco anos pelo Hamas. “Parecia um trabalho bastante simples, mesmo grávida”, lembra Lynsey, que em artigo para a The New York Times Magazine defendeu: “Não há cobertura que uma fotojornalista grávida não possa fazer.”

Em É isso que eu faço, Lynsey relata como foi documentar inúmeros momentos históricos. Ao chegar à recém-libertada Benghazi, na Líbia, conta como sentiu uma atmosfera que lembrava muito a curda Kirkuk depois da queda de Saddam Hussein ou a afegã Kandahar quando caía o governo talibã. As fotos ajudam a testemunhar essa sensação: os rebeldes líbios, que trabalhavam como médicos, engenheiros e eletricistas antes de empunhar AK-47s e pular na traseira de caminhões com lançadores de foguetes e granadas, aparecem atirando contra um helicóptero do governo. Em um cenário no qual o cinza-escuro da fumaça de explosões contrasta com o azul intenso do céu, suas fotos mostram combatentes rebeldes avançando na linha de frente após intenso dia de combate em Ras Lanuf, cidade estratégica considerada um complexo portuário e petrolífero na Líbia.

art #24_blogMulheres afegãs cobrem os rostos no hospital feminino de Cabul, maio de 2000.

Seu cotidiano pautado por conflitos internacionais começara dez anos antes, quando o 11 de Setembro mudou a geopolítica mundial e ela ainda tentava se estabelecer no fotojornalismo. Por ser um dos poucos profissionais com alguma experiência no Afeganistão, ela foi chamada para cobrir a invasão americana no sul da Ásia e depois no Oriente Médio.

Na escolha por abrir mão do conforto e da previsibilidade a fim de correr o mundo escancarando verdades com sua câmera, a americana de ascendência italiana percebeu que o mais importante em uma guerra era capturar de que maneira as escolhas em política externa influenciavam diretamente o cotidiano das pessoas. É por isso que suas fotografias evidenciam o drama humano acima dos desdobramentos do conflito.

Em uma delas, Lynsey oferece um sensível contraste entre liberdade e restrição ao compor um garoto em uma bicicleta com uma mulher vestindo burca pedindo esmolas em uma rua deserta no Afeganistão. A impactante foto do garoto Khalid, por sua vez, mostra um rosto de criança ferido por estilhaços, provavelmente, de bombas da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte) no Vale de Korengal, fronteira entre Paquistão e Afeganistão.

Kahindo, vinte anos, sentada em casa com os dois filhos, nascidos de estupros, na aldeia de Kanyabayonga, Kivu do Norte, leste do Congo, 12 de abril de 2008.

Depois de cobrir parte da Guerra ao Terror do governo George W. Bush para veículos de prestígio como The New York Times e Life no Afeganistão e no Iraque, Lynsey decide mudar o foco para ampliar seu trabalho para além das exigências diárias da fotografia de pautas urgentes. “Aprendera a trabalhar de maneira rápida e eficiente, mas seria sempre difícil experimentar coisas novas e crescer como fotógrafa atuando sob as condições violentas e restritivas do Iraque. Eu queria ver o que mais poderia fazer e, para isso, precisava tentar uma região diferente”, conta.

Em 2004 viaja para Darfur, que vivia um conflito étnico também motivado pelo acesso à terra e à água. “As guerras com frequência eram causadas tanto por recursos quanto pelo ódio tribal, religioso ou nacional”, lembra. Foi lá, inclusive, que fez uma das mais impressionantes fotos do livro: soldados circulam em uma área de vigília perto de um corpo há muito em decomposição, no qual restos de pele nas mãos agonizam ao lado de um crânio.

Nos anos seguintes, faria viagens frequentes a outros lugares da África, como Kivu do Norte, na República Democrática do Congo, onde passou a retratar vidas marcadas por guerras, como a de Kahindo, com vinte anos e dois filhos nascidos de estupros. A jovem retratada com uma lágrima gritando dor e iluminando sua face havia sido sequestrada e mantida em cativeiro durante quase três anos por soldados ruandeses. Teve um filho na floresta e estava grávida do segundo quando fugiu.

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A fotógrafa em ação

Formada em relações internacionais pela Universidade de Wisconsin-Madison, Lynsey cultivou o hábito de fotografar quando ficou um ano fora estudando economia e ciência política na Universidade de Bolonha, na Itália. Mas a grande inspiração para percorrer o mundo em busca de vidas em meio a guerras veio quando visitou uma exposição de Sebastião Salgado, em 1996, em Buenos Aires. “As fotos eram um enigma para mim: como ele capturara a dignidade dos fotografados?”, lembra no livro. “O que eu tinha considerado até aquele momento um simples meio de capturar belas imagens tornou-se algo completamente diferente: era uma maneira de contar uma história. Era o casamento entre viagens, culturas estrangeiras, curiosidade e fotografia. Era fotojornalismo.”

Nascida em Connecticut, Lynsey viveu na Argentina, no México e passou também por lugares como Cuba, Índia e Paquistão. Descobriu que, quanto mais conhecia o mundo, mais sua coragem e curiosidade aumentavam. Além de ter presenciado as ofensivas de tropas americanas no sul da Ásia e no Oriente Médio, foi sequestrada no Iraque em 2004 e na Líbia em 2011, e sofreu um grave acidente de carro no Paquistão em 2009, sete semanas antes de se casar no sudoeste da França com o também jornalista Paul de Bendern.

A trajetória de Lynsey e sua paixão pelo que faz serão transformadas em filme pelas mãos de Steven Spielberg. Depois de uma disputa envolvendo pesos pesados como George Clooney e Darren Aronofsky, a Warner Bros. obteve os direitos para filmar o livro de memórias da fotojornalista vencedora do Pulitzer em 2009, que será interpretada por Jennifer Lawrence no cinema.

>> Leia um trecho de É isso que eu faço

 

* Marsílea Gombata é jornalista e doutoranda em ciência política na USP, onde estuda política social como instrumento de política externa na América Latina. Foi chefe de reportagem no jornal O Estado de S. Paulo e editora no Jornal do Brasil. Atualmente edita o Carta Educação, site de CartaCapital dirigido a educadores, estudantes e interessados no tema.

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Eu sou o Peregrino, de Terry HayesUma mulher é brutalmente assassinada em um hotel decadente de Manhattan, seus traços dissolvidos em ácido. Um pai é decapitado em praça pública sob o sol escaldante da Arábia Saudita. Na Síria, um especialista em biotecnologia tem os olhos arrancados ainda vivo. Restos humanos ardem em brasas na cordilheira Hindu Kush, no Afeganistão. Uma conspiração perfeita, arquitetada para cometer um crime terrível contra a humanidade, e apenas uma pessoa é capaz de descobrir o ponto exato em que todas essas histórias se cruzam.

Romance de estreia do renomado roteirista britânico Terry Hayes (Mad Max 2 e Mad Max 3: Além da Cúpula do Trovão), Eu sou o Peregrino é uma narrativa ágil, com ritmo alucinante, cujos personagens são construídos de forma primorosa em toda a sua complexidade psicológica. Uma jornada épica e imprevisível contra um inimigo implacável. [Leia +]

 

O amor segundo Buenos Aires, de Fernando Scheller — Com largas avenidas, cafés em estilo europeu e bairros charmosamente decadentes, Buenos Aires é o lugar perfeito para histórias de amor inesquecíveis. A capital argentina é cenário e, ao mesmo tempo, personagem do primeiro romance de Fernando Scheller, repórter do jornal O Estado de S. Paulo que já passou pelas redações de Gazeta do Povo, TV Globo e Deutsche Welle, na Alemanha.

É por amor que Hugo deixa o Brasil rumo à capital argentina. Embora o relacionamento com Leonor não sobreviva, seu fascínio pela cidade resiste à dor da separação e à descoberta de que sofre de uma grave doença. Hugo cria laços com o arquiteto Eduardo e com a comissária de bordo Carolina, que evidenciam o poder regenerador das amizades verdadeiras. Ele se reaproxima de seu pai, Pedro, que troca a rotina de um casamento desgastado por uma vida em que é possível encontrar profundos afetos. [Leia +]

Em O amor segundo Buenos Aires, Scheller oferece a cada personagem a chance de narrar suas escolhas e percepções sobre diferentes formas de amor, como entre pai e filho, um homem e uma mulher, dois homens e também entre amigos.

Leia as colunas de Fernando Scheller no blog

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Alucinadamente feliz: Um livro engraçado sobre coisas horríveis, de Jenny Lawson Longe de ser uma pessoa comum, Jenny Lawson se considera uma colecionadora de transtornos mentais: depressão altamente funcional com transtorno de ansiedade grave, depressão clínica moderada, distúrbio de automutilação brando, transtorno de personalidade esquiva e um ocasional transtorno de despersonalização, além de tricotilomania (que é a compulsão de arrancar os cabelos). Por essa perspectiva, sua vida pode parecer um fardo insustentável. Mas não é.

Após receber a notícia da morte prematura de mais um amigo, Jenny decide não se deixar levar pela depressão e resolve revidar com intensidade, lutando para ser alucinadamente feliz. Mesmo ciente de que às vezes pode acabar uma semana inteira sem energia para se levantar da cama, ela resolve que criará para si o maior número possível de experiências hilárias e ridículas a fim de encontrar o caminho de volta à sanidade. [Leia +]

 

É isso que eu faço: Uma vida de amor e guerra, de Lynsey Addario — Após os atentados de 11 de Setembro, a fotojornalista Lynsey Addario foi chamada para cobrir a invasão americana ao Afeganistão. Nesse momento, ela fez uma escolha que se repetiria muitas vezes depois: abrir mão do conforto e da previsibilidade a fim de correr o mundo confrontando com sua câmera as mais duras verdades.

As imagens captadas pelas lentes de Lynsey parecem buscar sempre um propósito maior. No livro, ela retrata os afegãos antes e depois do regime talibã, os cidadãos vitimados pela guerra e os insurgentes no Iraque, expõe a cultura de violência contra a mulher no Congo e narra a ocasião do próprio sequestro, orquestrado pelas forças pró-Kadafi durante a guerra civil na Líbia.

Apesar da presumível bravura, Lynsey não é de todo destemida. Do medo, ela tira o olhar de empatia essencial à profissão. Quando entrevista vítimas de estupro, fotografa um soldado alvejado em combate ou documenta a trágica vida das crianças famintas na Somália, é essa empatia que nos transporta para os lugares onde ela esteve, e então começamos a entender como o ímpeto de retratar a verdade triunfa sobre o terror. [Leia +]

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A agenda antiplanos, de Keri Smith — Com espaços sem data e distribuídos aleatoriamente para você fazer um resumo do mês que desejar, o novo projeto da autora de Destrua este diário funciona como um diário criativo, que vai ajudar o leitor a estruturar os pensamentos de uma forma nada limitada nem previsível.

A agenda antiplanos parte do princípio de que a busca pela organização e pelo perfeccionismo, tão exaltada na cultura moderna, é na verdade um grande empecilho ao processo criativo. O estilo, a forma e a proposta pouco convencional do livro entretêm e levam à reflexão. Capturando momentos e estados de espírito, ele convida o leitor a controlar menos e experimentar mais, a deixar de levar tudo tão a sério e, simplesmente, viver. E o principal: a se divertir! [Leia +]

 

Baía da Esperança, de Jojo Moyes No quinto romance da autora de Como eu era antes de você, a melancólica e reservada Liza McCullen é a responsável por um barco de observação de baleias e golfinhos em Silver Bay, na Austrália, onde também administra com a tia o Hotel Baía da Esperança, que já viu dias melhores.

Hospedado no hotel de Liza, Mike Dormer está lá a negócios: depende dele o pontapé inicial do projeto de um resort de luxo. Enquanto sua noiva, em Londres, finaliza os planos do casamento, Mike tem de conseguir a licença para a construção do empreendimento, algo que terá profundo impacto na fauna de Silver Bay e consequências drásticas para a vida dos moradores.

Quando o mundo de Mike e Liza colidem de forma irremediável, eles precisam encarar os próprios medos para salvar o que amam. Com personagens cativantes em um cenário encantador, Baía da Esperança é um romance comovente e irresistível, repleto do humor e da generosidade que marcam as obras de Jojo Moyes.

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O mistério do mapa (volume 1 da série Poptropica), de Kory Merritt e Jack Chabert — Quando decidiram embarcar em um passeio de balão, Oliver, Mya e Jorge nunca poderiam imaginar que acabariam caindo em uma ilha desconhecida habitada por animais exóticos e uma horda de vikings raivosos. Bem-vindo a Poptropica: um arquipélago completamente fora dos mapas, cuja existência é mantida em segredo do restante do mundo.

Neste primeiro volume da história, inspirada no jogo infantil educativo on-line, os três amigos encontram um mapa mágico e se aventuram em uma perigosa jornada para tentar encontrar o caminho de volta para casa. Porém, os habitantes da ilha — incluindo o assustador líder dos vikings, Erik, o Vermelho — estão nos calcanhares deles, e Octavian, o capitão do balão, responsável por estarem presos naquela ilha, quer seu mapa de volta. Será que Oliver, Mya e Jorge vão conseguir fugir das garras dos sanguinários vikings e encontrar um jeito de escapar da ilha e de Octavian? [Leia +]

 

Solteirona: O direito de escolher a própria vida, de Kate Bolick — “Com quem se casar e quando: essas duas questões definem a existência de toda mulher”, provoca a autora logo no início de Solteirona. Em uma análise inteligente e bem-vinda dos prazeres e possibilidades de ficar solteira, a jornalista e crítica cultural Kate Bolick parte da própria experiência para ponderar o porquê de mais de cem milhões de americanas hoje preferirem ficar solteiras.

No livro, Bolick também apresenta um elenco de personalidades femininas do último século que, pela genialidade e determinação, são inspirações para sua escolha: a colunista Neith Boyce, a ensaísta Maeve Brennan, a visionária social Charlotte Perkins Gilman, a poeta Edna St. Vincent Millay e a escritora Edith Wharton. Ao destacar a trajetória nada convencional dessas mulheres, Bolick faz lembrar quão atemporal é o dilema a respeito de se casar e ter filhos e levanta uma pauta ainda mais crucial nessa discussão: o direito da mulher de escolher a própria vida. [Leia +]

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