testePor que é tão difícil editar séries de fantasia?

Por Flora Pinheiro*

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Traduzir séries de fantasia é um desafio. (Fonte)

Quando a Intrínseca resolveu apostar na série A Roda do Tempo, a felicidade foi grande. Não só da parte dos fãs que já conheciam a obra, mas também dentro da própria editora. Trabalhar com livros sempre foi o sonho de muitos de nós. Trabalhar com os livros que a gente sempre teve vontade de ler é melhor ainda.

Entretanto, não é simples editar uma série de 14 volumes. Não só pelo tamanho de cada livro, mas principalmente pela riqueza do universo. Como optar pela tradução específica de um termo fictício, que pode repercutir três ou cinco livros depois, quando ainda estamos nos familiarizando com esse novo mundo? Além disso, autores de fantasia amam profecias que aparecem no comecinho da história e só vão se concretizar lá nos últimos volumes. E elas não podem ser claras e compreensíveis, óbvio, ou seriam spoilers, não profecias. E aí, como se resolve isso?

rodadotempo5-copiaNossa saída foi a seguinte: além de escolher com todo o cuidado a equipe “tradicional” que trabalha no livro (tradutor, preparador de texto, revisores etc.), decidimos investir também em uma consultoria técnica para a série. Às vezes, nem as maravilhosas enciclopédias dão conta de todas as nossas dúvidas, então é importante ter o pitaco de alguém que ama e conhece profundamente a série. Isso já nos salvou muitas vezes!

Um desafio ainda maior neste caso são as padronizações. Temos muitas pessoas trabalhando juntas com o objetivo de levar o melhor livro possível para o leitor. Às vezes, algum termo ou nome de personagem está traduzido de um jeito e, depois de debatermos o assunto, a gente encontra uma solução mais adequada e muda de ideia. E lá vamos nós de novo, passar mais um pente-fino no texto para que não escape nenhuma ocorrência antiga. Depois do tradutor, pelo menos mais três pessoas leem o livro, prestando atenção nesse tipo de detalhe. Afinal, se no primeiro livro a Nynaeve pede para ser poupada desses homens que pensam com os cabelos do peito, a expressão não pode mudar no volume seguinte (se dependesse de mim, essa expressão dela apareceria até na capa dos livros, logo embaixo do título).

Sempre apareço creditada como editora nos livros de Roda do Tempo. Isso significa que, além de trabalhar no texto, também faço a ponte entre todas as outras pessoas envolvidas no projeto (tradutores, preparadores de texto, revisores, diagramadores, designer…), e costumo dialogar com os colaboradores as dificuldades que aparecem durante o trabalho. Depois da faculdade de produção editorial, minha especialização foi em tradução. E lá nas minhas aulas de tradução, havia um tema muito discutido: o intraduzível. Sotaques, muitas vezes, ficam pelo caminho. Afinal, não dá para botar uma pessoa da área rural dos Estados Unidos falando com o sotaque do interior do Brasil, por exemplo. E os teóricos da tradução diziam (de um modo bem mais acadêmico): aceita que dói menos. Algumas coisas sempre se perdem de uma língua para a outra. Vida (e livro) que segue.

Só que a nossa equipe é teimosa. E então pensamos: e se a gente tentar traduzir os sotaques? Não é sempre que as editoras fazem isso. Mas nosso raciocínio foi: uma das coisas mais legais nos livros do Jordan é o próprio universo construído pelo autor. Cada povo tem um sotaque, cada personagem tem seu jeitinho de se expressar. Alguns falam piratês (ao contrário dos países de língua inglesa, nós não temos piratês consolidado em português, infelizmente), outros vivem citando ditados populares envolvendo peixes (meu conhecimento sobre peixes, reais ou imaginários, aumentou muito desde que comecei a trabalhar na série) e certos povos adoram “falar bonito” e soam meio pedantes.

Isso faz com que a nossa equipe troque e-mails meio inusitados. “Que tal se o povo tal não começar as frases pelo sujeito? E se aquele povo que erra a negativa no original em inglês não usar a palavra ‘não’? Vocês acham que ficar repetindo “no caso” é um bom vício de linguagem? “O senhor, no caso, é um cabeça de lã!” E assim por diante.

Parece meio detalhista e esquisito, né? Bem-vindos ao mundo editorial! Já são três anos dedicados à série, imersa em todos esses detalhes. Fico muito feliz por poder me aprofundar no universo do Jordan a cada livro (e ouvir novos ditados da Nynaeve). Assim como os fãs, mal posso esperar pelo próximo.

 

*Flora Pinheiro é editora, revisora, tradutora e, ora ora, escritora.

teste14 coisas que você precisa saber antes de começar a ler A Roda do Tempo

Por Flora Pinheiro e Rayssa Galvão*

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Os livros de Robert Jordan compõem uma das maiores séries de fantasia de todos os tempos, literalmente: são 14 volumes que narram uma jornada cheia de reviravoltas, em que heróis e anti-heróis enfrentam um grande desafio — parar de brigar entre si e se unir para salvar o mundo. Aqui estão 14 coisas que você precisa saber antes de começar a leitura:

 

1) George Martin é fã

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Martin fez várias homenagens a Jordan em seus livros. A mais conhecida é a Casa Jordayne, cujo brasão é uma pena de escrever em um fundo verde. O nome de seu lorde é Trebor, ou seja, “Robert” ao contrário.

 

2) Está entre as dez séries de fantasia mais populares de todos os tempos

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A Roda do Tempo vendeu mais de 80 milhões de exemplares ao redor do mundo. Apesar de ser considerado “o Tolkien americano”, Jordan criou seu próprio universo, sem reaproveitar elfos, anões e dragões, além de não se limitar a influências da mitologia europeia. Se tiver receio de encarar uma série tão longa, lembre-se: não é à toa que Jordan é referência em literatura fantástica.

 

3) Foge do eurocentrismo

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É verdade que a série tem muitos elementos que lembram a Idade Média europeia, inclusive cavaleiros, inquisição religiosa e outras analogias, mas dá para notar a influência de muitas outras culturas e religiões. Diversas palavras e nomes foram tirados da cultura árabe e da religião hebraica — como um dos nomes do vilão principal, Shai’tan —, e o próprio conceito de tempo cíclico, a tal roda do tempo, vem do hinduísmo.

4) Não é só descrição de paisagem

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Nós amamos fantasia, mas quem nunca suspirou de exaustão diante de um longo parágrafo descrevendo toda a flora de um continente imaginário que atire a primeira pedra. Para nossa sorte, Jordan traz personagens interessantes que quebram a monotonia das descrições. Um queridinho dos fãs é Mat, que prefere se manter longe dos conflitos. Durante um discurso dramático, com um de seus amigos tentando mergulhar de cabeça em uma situação perigosa, Mat aparece ao fundo com dois cavalos, gesticulando, desesperado, para que o amigo monte no animal e fuja com ele.

 

5) Lugar de mulher é… no livro de fantasia

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Jordan não limita as personagens femininas a papéis secundários e donzelas indefesas. Apesar de o primeiro livro ter sido lançado há 26 anos, não faltam mulheres fortes. Um dos reinos, por exemplo, é governado exclusivamente por rainhas, e há também uma sociedade de mulheres guerreiras.

 

6) Não é só mais uma fantasia medieval

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Sim, A Roda do Tempo tem aspectos parecidos com a série de TV Game of Thrones e a trilogia O Senhor dos Anéis. Mas também possui inúmeras diferenças marcantes. Uma delas é que o universo não corresponde à Idade Média. Segundo Jordan, é como se a história se passasse no fim do século XVII, mas a pólvora jamais tivesse sido inventada.

 

7) É uma distopia

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Como a história se passa num mundo aparentemente medieval, é fácil pensar que se refere ao passado, mas os acontecimentos de A Roda do Tempo na verdade se passam no futuro! O tempo da roda se divide em 7 Eras, que passam em ciclos. Nossa Era já passou, e tudo o que resta dela são resquícios e ruínas. Ao longo dos livros, é possível encontrar várias dicas de “objetos mitológicos”, de lâmpadas a usinas nucleares. Dá até para brincar de caçar referências!

 

8) É muito mais que uma história

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Como todo bom gênio da fantasia, Jordan criou mais do que uma história: ele construiu um mundo. As complexidades são tantas e seu universo é tão bem-feito que existe até um sistema de RPG baseado na série. Os povos são muito diversos, e você vai se divertir aprendendo as particularidades de cada um ao longo dos livros.

 

9) Apesar da fantasia, nem tudo tem solução mágica

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Jordan não quis criar saídas fáceis, e representou muito bem temas realistas e polêmicos, como a loucura, a escravidão e o preconceito. A falta de comunicação e a demora em enviar mensagens nesse mundo praticamente medieval afetam a política, as guerras e o humor das pessoas ao redor.

 

10) A magia não funciona da forma que estamos acostumados

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Uma das coisas mais legais da série é o uso do Poder Único: a força que alimenta a magia nos livros. Existem diferenças no uso para homens e mulheres (e o uso por homens é considerado tabu). Além disso, o mecanismo é mais complexo que simplesmente decorar feitiços: as Aes Sedai aprendem a “tecer” fios de elementos do Poder Único de forma a criar uma trama que traga os resultados desejados.

 

11) As intrigas políticas vão ganhando destaque

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Com o passar dos livros, o universo da obra se amplia e as maquinações aumentam. O Jogo das Casas, porém, nem sempre tem um final sangrento. Enquanto a política do mundo real nos faz chorar, a do universo de Jordan muitas vezes é motivo de riso, com críticas veladas muito bem-humoradas.

 

12) Você vai passar a entender um monte de referências espalhadas por aí

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A série é tão querida pelos amantes de fantasia que George Martin não é o único a incluir referências em sua obra. Isso acontece em vários jogos, como o primeiro da série Dragon Ages, e a Blizzard já incluiu referências em World of Warcraft e Diablo. Além disso, algumas bandas já fizeram músicas em homenagem à série. A mais famosa é do Blind Guardian:

13) Nem todos os livros foram escritos por Robert Jordan

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Após a morte de Jordan, Brandon Sanderson assumiu a série. Com a ajuda da viúva de Jordan, Harriet Ridgney, que trabalhava como editora do marido, Sanderson escreveu três livros a partir das anotações do autor. Sanderson já era fã convicto da série e afirma que cresceu lendo e relendo os livros lançados até então. Ele é mais conhecido pela série Mistborn, mas não decepcionou os fãs de A Roda do Tempo.

 

14) Vai ter série!

Harriet Ridgney, viúva de Jordan, anunciou este ano que os direitos de adaptação de A Roda do Tempo foram vendidos e a obra será transformada em uma série de TV. Para quem acha que “o livro é melhor porque tem mais detalhes”, a hora de começar a ler é agora. Afinal, A Roda do Tempo gira, e as Eras vêm e vão, mas a internet continua cheia de spoilers.

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Flora e Rayssa se conheceram através do amor mútuo por livros de fantasia. Para editar a série A Roda do Tempo, as duas abriram mão do contato com amigos e família. Elas trocam GIFs quando sentem falta de conviver em sociedade.