testePor uma vida menos ordinária

Por Bruno Capelas*

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“O Sol nas bancas de revista/ me enche de alegria e preguiça/ quem lê tanta notícia?”, já cantava Caetano Veloso em 1967. Se na época meia dúzia de jornais e algumas poucas dezenas de revistas já abarrotavam as bancas brasileiras, de lá para cá a quantidade de informação disponível aumentou drasticamente. Da hora em que acordamos até o último apagar das luzes (ou da tela sensível ao toque do celular), somos atordoados com notícias em diversos formatos. Seja pelo rádio, pela TV, pelos jornais ou pela internet, sempre há alguma coisa para se saber, e, por vezes, a sensação é de que estamos prestes a nos afogar em um mar inesgotável de novidades. Em Notícias: Manual do usuário, o filósofo anglo-suíço Alain de Botton faz uma pausa e atira um colete salva-vidas aos leitores. Mais do que um convite para repensar a nossa relação com o noticiário, Botton propõe um novo jornalismo.

Um dos mais interessantes pensadores contemporâneos, Alain de Botton é o que se pode chamar de filósofo pop. O escritor já versou sobre religião (Religião para ateus), relacionamentos (Ensaios de amor), arte (Arte como terapia), arquitetura (A arquitetura da felicidade), turismo (A arte de viajar), literatura (Como Proust pode mudar sua vida) e até mesmo sobre sexo (Como pensar mais sobre sexo). Seus textos dialogam com conceitos de outros filósofos usando uma linguagem cotidiana e acessível, distante das cátedras acadêmicas, temperada com muito bom humor e pitadas de otimismo. Em Notícias, ele parte de exemplos de inúmeros jornais, canais de TV e revistas ao redor do mundo para conduzir o leitor em uma viagem pelo jornalismo: das seções de política às manchetes garrafais dos escândalos de celebridades, passando pelos índices indecifráveis dos cadernos de economia e pela cobertura internacional pautada pela neutralidade e pela aparente imparcialidade jornalística.

capa_AB_Noticias_150707.inddO que o filósofo quer, desde as primeiras páginas, é ajudar o leitor a extrair do noticiário os melhores exemplos e referências para uma vida mais feliz, tranquila, bondosa e plena. Na contemporaneidade, segundo De Botton, o jornalismo ocupa o lugar de duas instituições importantíssimas no mundo ocidental: a escola e a religião.

É por meio de reportagens e entrevistas que a maioria dos indivíduos faz novas descobertas sobre o mundo após deixar as carteiras e os cadernos de lado. Além disso, até algumas décadas atrás, parte significativa da população frequentava uma igreja ou templo; era assim que, seguindo o sermão de um padre ou de um pastor, as pessoas obtinham as informações necessárias para guiar seus próximos dias. Agora a tarefa de educar e fornecer dados para uma vida mais tranquila cabe aos jornalistas.

No entanto, as informações veiculadas pelo noticiário nem sempre são suficientes para suprir as necessidades da maioria dos leitores. Valores jornalísticos como “isenção” e “neutralidade” e a tentativa de direcionamento do conteúdo a públicos específicos acabam tornando-o, muitas vezes, quase incompreensível. É fácil notar isso quando percorremos as páginas de um caderno de economia — normalmente voltado a investidores ou a empresários de alto calibre. Atire a primeira pedra quem nunca se sentiu perdido na sopa de letrinhas desse tipo de manchete, recheado de siglas como PIB, INSS, IPI, IGP-M, Caged ou Bacen. Para De Botton, o noticiário econômico deveria destrinchar como cada uma dessas siglas interfere na vida do cidadão, bem como mostrar, por exemplo, que por trás dos preços muito baratos dos produtos chineses que compramos todos os dias há uma realidade humana perigosa, que envolve condições de trabalho e qualidade de vida degradantes. “No fim das contas, os negócios são interessantes e significativos demais para serem descritos apenas para quem quer investir”, conclui o autor.

Ao mesmo tempo, às vezes parece difícil que o leitor se sensibilize com manchetes do noticiário internacional a respeito de conflitos armados, atentados ou crises políticas de regiões do planeta que mal conhecemos — como Uganda, Macedônia ou Iêmen. Em nome da neutralidade geopolítica (e para se afastar dos tempos exagerados da literatura de viagens tão popular no século XIX), o jornalismo global costuma nos oferecer apenas reportagens duras, secas e pouco ligadas ao cotidiano de um país específico. Para o filósofo, seria muito mais fácil nos solidarizarmos ou entendermos a crise político-econômica de um país como o Zimbábue, afundado em corrupção e inflação, se soubéssemos como é a vida de um adolescente ou jovem adulto por lá, como são os casamentos na nação africana ou o que seus habitantes gostam de fazer aos domingos — especialmente com a ajuda de boas fotografias.

O mesmo vale para o noticiário político. De Botton acredita que uma cobertura que explique, por exemplo, as raízes da corrupção no Brasil seria mais edificante e educativa para os leitores do que simplesmente acompanhar, como uma novela, os escândalos dos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário.

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O filósofo de Alain de Botton

O jornalismo de celebridades também está na mira do livro. Em vez de dar destaque a figuras sedentas pela fama, sempre com perguntas óbvias sobre “dieta e novos projetos”, a cobertura da vida das celebridades deveria se pautar em acompanhar figuras notáveis capazes de transmitir bons exemplos de bondade, paciência e atenção. “Os famosos nos fariam sentir uma inveja produtiva e equilibrada, e, dando exemplos de ousadia e perseverança, nos ajudariam a perceber nossos talentos genuínos, ainda que tímidos.”

Nos dois últimos capítulos de Notícias, o autor investiga nossa relação com pautas de acidentes — encaradas por ele como uma forma recorrente de nos lembrar como a humanidade é pequena diante do acaso e da natureza — e do consumo. Nesse último caso, De Botton faz uma incursão em editorias como gastronomia, moda, cultura e viagem, acreditando que por trás de uma matéria sobre um prato ou um destino turístico poderia haver uma discussão sobre quais valores ou adjetivos queremos ter ao consumir o objeto da reportagem.

Mas os preceitos propostos por Alain de Botton não o levam a considerar o jornalismo algo que deve ser usado pelos leitores a todo e qualquer momento. Verdadeiro discípulo do filósofo romano Sêneca (que certa vez disse: “Devemos misturar e alternar a solidão e a comunicação”), o autor prega que, às vezes, não há nada melhor que desligar o celular, a TV e jogar o jornal para o lado e prestar atenção em nossas próprias vidas de forma introspectiva. Para encerrar este texto com outra música, talvez a principal lição de Notícias seja a que o cantor Walter Franco já entoava nos anos 1970: “Tudo é uma questão de manter/ a mente quieta/ a espinha ereta/ e o coração tranquilo.”

Leia um trecho de Notícias: Manual do Usuário
Leia também: Com quanto suor e lágrimas se faz uma criação de Steve Jobs

Bruno Capelas é repórter do IGN Brasil, a versão brasileira do maior site de games do mundo. Formado em jornalismo pela Universidade de São Paulo (USP), já foi repórter do portal IG e do Link, a editoria de tecnologia do jornal O Estado de S. Paulo. Além disso, edita o blog Pergunte ao Pop e colabora desde 2010 com o Scream & Yell, um dos principais veículos independentes de cultura pop do país.

testePor que o mundo existe?

Café de Flore, 6º arrondissement, Paris Crédito: Dennis Stock

Na década de 1970, para aplacar as inseguranças habituais da adolescência, Jim Holt mergulhou no existencialismo. E foi nas primeiras páginas de Introdução à metafísica, de Martin Heidegger, que ele se deparou com o mistério existencial que o fascina há mais de 40 anos: por que existe algo e não apenas o nada? Anos depois, uma tragédia pessoal levou Holt direto para a estrada. A missão: descobrir as pistas com grandes pensadores contemporâneos, como o escritor John Updike, o filósofo Adolf Grünbaum, o teólogo Richard Swinburne, o matemático Roger Penrose e o físico Andrei Linde. O resultado dessa jornada intelectual, que passa pelo famoso Café de Flore, reduto dos existencialistas em Paris, frequentado por Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir, é o lançamento Por que o mundo existe? — um mistério existencial.

Jim Holt por Michael Todd

Considerada por Heidegger a “mais profunda”, “abrangente” e “fundamental de todas as perguntas”, a questão divide opiniões ao longo da história. William James a identificava como a “mais sombria de toda a filosofia”. O astrofísico Sir Bernard Lovell observou que se deter nela pode “estraçalhar a mente de um indivíduo”. Já Arthur Schopenhauer ataca: “Quanto menos um homem é dotado do ponto de vista intelectual, menos intrigante e misteriosa lhe parece a própria existência.”

Leia um trecho de Por que o mundo existe?   um mistério existêncial

Em termos conceituais, a pergunta por que o mundo existe? rima com por que eu existo? São esses, na visão de John Updike, os dois grandes mistérios existenciais. A ambivalência de Updike a respeito do ser foi canalizada para seu alter ego fictício, o romancista judeu Henry Bech, priápico, propenso ao desespero e sempre sofrendo de bloqueio criativo.

Já para Adolf Grünbaum, destacado pensador no terreno das sutilezas do espaço e do tempo que pode ser considerado o maior filósofo da ciência ainda vivo, essa pergunta não leva a Deus ou a coisa alguma. Dotado de implacável hostilidade à crença religiosa, Grünbaum a vê apenas como um pseudoproblema.

O jornalista, filósofo e matemático Jim Holt é categórico: não será possível entender o mundo até compreender por que ele existe e por que há um universo do qual fazemos parte. Na entrevista concedida ao programa Milênio, Holt explica sua grande obsessão e conta como se divertiu ao escrever o livro. “Fiz como se fosse uma história de detetive e fui atrás dos melhores suspeitos cósmicos, conversei com os maiores pensadores do mundo, e os fiz pensar alto. É ótimo ouvir um grande físico, filósofo, teólogo ou romancista pensando alto. Eles dizem as coisas mais extraordinárias.” Assista aqui.