testeComo a vida de uma mãe pode mudar em 5 anos?

Toda mãe gosta de acompanhar as transformações pelas quais passa um filho ou filha ao longo dos anos. Dos primeiros passos às formaturas, das primeiras palavras às grandes conquistas, esses dias marcantes sempre serão lembrados, seja na memória ou por registro através de fotos, vídeos e posts em redes sociais.

Mas e quanto aos momentos simples, que passam despercebidos, sem um espaço no álbum?

Em Uma pergunta por dia para mães, as pequenas situações do cotidiano são registradas todos os dias ao longo de cinco anos, criando um livro de memórias único. Entre as perguntas que as leitoras encontrarão, estão desde as mais corriqueiras, como Do que seu filho/sua filha não gosta? até as mais complexas, como O que mudou na sua geração na maneira de criar os filhos?.

Uma pergunta por dia para mães chega às livrarias em 6 de abril.

testeCriando os filhos para o mundo

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Na imagem, meu avô no passaporte que o trouxe até o Brasil, há exatos oitenta anos.

A Brigada Militar de Porto Alegre postou um tuíte pedindo que a população circule pelas ruas “carregando somente o necessário”, porque, claro, não há segurança para ninguém. Você pode ser assaltado a qualquer hora do dia na esquina de casa, com arma na cabeça, e lá se vai sua bolsa, seu celular, seu carro, seu casaco, sua esperança, sua paz de espírito e, dependendo do desfecho, sua vida.

Como todo mundo, deixei de fazer muitas coisas que outrora fazia com tranquilidade: evito andar de carro à noite, sair a pé depois que escurece, carregar cartões bancários à toa, estacionar na rua… Deixei de ir a eventos em lugares distantes quando não tenho companhia.

Triste lembrar que houve um tempo, quando morei fora, em que eu sonhava com Porto Alegre. Agora, vejam só: roubaram Porto Alegre de nós. Roubaram-na dos nossos filhos, que tiveram de aprender a entrar e sair correndo do carro, a não falar com estranhos e a não dar informações pela rua por causa dos sequestros-relâmpagos que grassam por aqui.

A verdade é que roubaram o Brasil dos brasileiros. Mas o mais triste é saber que roubaram o país dos nossos filhos. Um país que era para ser deles, com um futuro bonito. Um país onde um cidadão de bem pagaria seus impostos em dia — impostos altos, vá lá — para ter um suporte estatal à altura do seu investimento cotidiano.

Lembro, com uma pontada de tristeza, que meu avô polonês atravessou meio mundo na terceira classe de um navio — com uma das mãos à frente e a outra atrás —, levando consigo nada mais do que sonhos, em busca de uma vida boa aqui nesta terra. Hoje, quero que meus filhos façam o caminho inverso ao do velho Jan W.

“Aqui, não”, eu lhes digo (com um nó no peito). Pode parecer egoísta, mas prefiro ser egoísta com o país a ser com meus meninos. Quero-os acreditando que pode dar certo, que existem leis e que elas regulam a sociedade em todas as instâncias. Quero-os andando pela rua com tranquilidade, não como andamos por aqui, onde a própria polícia — que nem salários em dia recebe — avisa que devemos levar “somente o necessário”.

Acontece que necessito de muitas coisas. Necessito sair de casa com a alma leve. Necessito saber que meus filhos, andando pela rua, não vão cruzar com um maluco armado, capaz de fazer qualquer coisa por um par de tênis. Porém, não temos mais lugares seguros: arrastões em supermercados, em restaurantes, até em igrejas. Relatos horríveis.

Onde estão nossos governantes? O que têm feito de efetivo? Aqui no estado, ou aparecem para dar explicações de salários parcelados, ou postam fotos supérfluas de eventos supérfluos enquanto a cidade é devastada por uma onda de violência sem limites. Lá em cima, no Planalto, a turma está mais ocupada com a distribuição de cargos fundamentais da República, nessa queda de braço desavergonhosa pelo poder.

Já perdi Porto Alegre, meus filhos já a perderam (sem nem sabê-lo, coitadinhos, que houve um tempo em que a gente brincava na calçada até a hora do jantar). Do futuro do Brasil, só o tempo dirá. Do futuro dos meus filhos, digo que trabalharei para que seja longe daqui. E digo com tristeza, podem acreditar.

testePai real, pai imaginário

Aos oito anos, o menino andava quase trinta minutos para chegar ao colégio. Eram os anos 1980 — outros tempos. Os pais se preocupavam menos; tinham filhos demais para tratar cada um como se fosse uma peça de porcelana ou preservá-los como o ser humano que viria a salvar o mundo de uma epidemia rara. Então, na segunda série, andava doze quarteirões até a escola. Passinhos pequenos, um diante do outro.

Se quisesse chegar à uma, precisava sair ao meio-dia e meia. Mochila jeans nas costas, cheia de cartilhas e cadernos recheados de parabéns e notas dez, e uma lancheira do papa-léguas. Destacava-se tanto nas aulas que, à noite, ao contrário de todas as crianças do mundo, rezava para tirar 82 na prova, em vez de 99. Às vezes encontrava uns amigos no meio do caminho; às vezes o primo de segundo grau, alcoólatra, se oferecia para levá-lo de carro. Ele, claro, aceitava.

Em regra, o garoto fazia o trajeto a pé, sozinho. A caminhada diária, no entanto, jamais era em vão. Todos os dias, naqueles idos de 1985, tinha uma missão: encontrar seu pai verdadeiro. Decidira, em silêncio, que havia algo de errado com a história que lhe contaram. Era impossível ter um pai de 57 anos. Fizera e refizera as contas: era quase o dobro da idade da maioria dos outros pais. Além do mais, não se achava parecido com ele. Talvez fossem apenas semelhantes o suficiente para que ninguém pudesse desvendar a trama.

Desenvolveu algumas teorias. Na primeira delas ele era fruto de uma relação ilícita de um dos tios, o irmão mais novo de sua mãe. A família, naquela cidade pequena, não queria saber de escândalo e resolveu acobertar a história, oferecendo um novo filho para seus pais. Depois de pensar um pouco no assunto — na verdade, após dedicar-se bastante ao tema —, essa hipótese passou a não lhe agradar tanto.

A família quase inteira morava no mesmo quintal, e um segredo cabeludo não seria guardado por muito tempo. Na primeira discussão, alguém ia dar com a língua nos dentes. E as brigas eram constantes. Sem falar nada a ninguém, descartou a própria teoria. Mas não desistira de encontrar seu pai verdadeiro, e usava o caminho até a escola para desvendar o mistério.

Era um jogo de adivinhação diário. Seria o homem que, com a caminhonete estacionada, fazia a barba dentro do carro, usando um barbeador elétrico? Seria o dono da loja de materiais de construção? Será que, com o dinheiro que todas aquelas pessoas compravam sacos de cimento, ele ajudava a pagar a mensalidade da escola? Podia ser ainda o Amintas, da mercearia, que lhe dera uma paçoca de graça outro dia.

De uma coisa tinha certeza: era nessas caminhadas que seu pai verdadeiro o acompanhava, só para certificar-se de que ele estava bem. Um dia, no momento correto, contaria toda a verdade. O tempo passou e, no entanto, o pai — fosse quem fosse — parecia não ter reunido as forças para se aproximar. Aos poucos, a ideia da busca acabou se dissipando na cabeça do garoto. Até que abandonou o assunto, sem se dar conta.

O menino cresceu e, embora tenha se esquecido da procura pelo pai imaginário, nunca chegou a ser realmente próximo do pai  real. Não havia brigas, mas os dois pareciam ser diferentes em tudo. Eram opostos. Um gostava de fazenda; o outro, de cidade. Um era caladão, o outro falava sem parar. O voto de um era no Maluf e o de outro, no Lula.

Foi o garoto já grande o último a ver o pai vivo, no hospital, uma hora antes que partisse. Pressionado pelas enfermeiras para deixar a UTI, sentiu que era o fim. Pediu ao pai que se lembrasse da infância na fazenda e do longo caminho que percorria para ir à escola, pelo mato, quando pequeno. Recordar a montanha em que morava e os jogos que inventava nas três horas que tinha de andar para receber educação. Afagou a cabeça do pai como se aquele velhinho fosse filho seu.

Mesmo nesse último momento no hospital, as caminhadas em busca daquele pai jovem, tão diferente do seu, não lhe voltaram à mente. Recordou suas aventuras quando mal conseguiu abafar o riso enquanto literalmente babava dentro de um tubo de plástico, para colher o material para um teste de DNA.

O tal teste não tinha relação com qualquer dúvida de infância. Foi um pedido de uma prima paterna, que queria descobrir se a família carregava o gene de determinada doença. A resposta só viria se o teste fosse feito num parente da mesma geração, do sexo masculino.

O resultado do exame não foi de muita ajuda. Inconclusivo. No entanto, o DNA revelou que ele realmente era primo de sua prima. O que também fazia dele filho inconteste de seu pai.

testeHistória numa noite de verão

Para fazer meu Tobias dormir, leio-lhe um livro que conta uma história que conheci de perto, sobre uma menina, sua avó e as miraculosas coisas que viveram juntas. É um livrinho curto, de texto delicado, que termino segurando o choro — difícil menino dormir com mamãe chorando no fim da história, né?

Enfim, à propósito do livro, fiquei pensando na minha própria avó. Lá se vão mais de vinte anos desde que ela faleceu. Mas parece que veio aqui hoje, nessa imprevisível noite de verão, dar um “oizinho” para a neta. Deveria eu, talvez, escrever sobre um livro ou um filme. Acontece que o mundo anda cheio de opiniões e gosto mais é de sugerir pessoas, isso, sim.

Sabedora disso, a recordação da minha avó veio me fazer companhia. Teve muitos netos, ela. E bisnetos também — a última conta familiar já alcançava algumas dezenas. Estava sempre em visita, flanando pelas ruas da cidade com seus vestidinhos abotoados, a carteira de mão, seus sorrisos e suas receitas de remédios caseiros. Era humilde e elegante como poucas; bastava que um parente interiorano adoecesse para que ela o trouxesse à sua casa na capital, peregrinando com ele de hospital em hospital. Embora morássemos perto, eu a via menos do que deveria. Foi uma avó como um vinho: para ser compreendida com o tempo. Quando fiquei mocinha, sempre me presenteava com lencinhos brancos de cambraia. Talvez soubesse, pela experiência da vida, que se chora muito pelos anos afora. Por isso dava lencinhos e nada dizia deles… Engraçado é que nunca a vi chorar, mesmo tendo dado adeus a um filho, ao marido e a um neto — era inacabável, a sua doçura. Vivia para atender ao avô, até que uma tarde, já iam ambos bem passados de anos, ele pediu: “Me busca um copo d’água.” “Vá buscar você”, retrucou ela sem altear a voz. Assim, emancipou-se sem alardes, e daquele dia em diante não atrasava visitas nem perdia a hora da manicure por causa dos gostos do marido.

Chamava-se Maria, um nome simples, como toda ela. Morreu por engano ao internar-se para fazer uns exames de rotina; não reclamou do azar supremo durante seus últimos dias. Era uma mulher como um sopro de brisa. Entrou pela minha janela faz pouco, enquanto eu cerrava os vidros para a noite estrelada de verão. “Tantos lencinhos eu te dei”, pareceu ter-me dito. Na vida se chora muito, mas também se ri. Depois sumiu entre as constelações; decerto tinha tantas outras visitas a fazer.

testeDas amoras

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Esses condomínios modernos têm de tudo (espaço gourmet, fitness,  playground), mas se esquecem das amoreiras. Que tristeza! (Fonte)

Moro numa rua pequena em Porto Alegre. Antes das sete da manhã, a obra em frente à minha casa começa a dar sinal de vida, como um ogro gigantesco que acorda fazendo barulhos odiosos: plact, pluft, bum. Todos os dias, menos aos domingos, aguentamos uma sinfonia de placts, plufts, buns amplificada pelas buzinas (não aqui na rua, mas no entorno) do horário de pico ou por qualquer intercorrência que para o trânsito por alguns segundos — estranhamente, à vezes alguns segundos parecem ser cruciais para a vida de todos.

Sou mais uma entre milhões — até que não posso me queixar, pois minha profissão um pouco excêntrica me livra de estar na rua nos horários de rush. Mas ando por avenidas, me estresso, tenho horror aos placts, plufts, buns da vizinhança. Sinto falta de natureza. Mesmo. Somos animais um pouquinho mais espertos do que os outros, mas somos animais (ouvi isso um dia desses). Precisamos de um verdinho, de um pouco de sol, de um retalho de vida natural.

Fiz uma coisa bem prosaica que me levou de volta aos seis anos de idade e aliviou minha alma: no meu prédio, temos um pequeno pátio, simples, honesto e simpático — nada que mereça um nome em inglês, como nos condomínios modernos. Nele, há uma figueira centenária que amo — embora alguns reclamem da sujeira que ela faz (tsk, tsk) — e uma grande amoreira. A amoreira fica bem no fundo do quintal e está no auge da sua produção. Como ninguém dá muita bola — todos vivem correndo, presos no trânsito, olhando a agenda no celular —, as frutas têm caído no chão, uma espécie de buffet muito apreciado pelos passarinhos.

Ontem, meu filho e eu nos intrometemos por ali e colhemos um pote cheio de amoras. Por alguns minutos, fiquei pendurada nos galhos da árvore, tomando cuidado para não encostar na cerca elétrica e não transformar nosso pequeno idílio natural em tragédia, e colhi frutas do pé — amoras lindas, enormes, negras de tão maduras! Voltei à infância, quando colhia frutas no quintal da minha tia-avó. Foi tão bom… Saí dali mais leve, feliz e lambuzada, o que eu não ficava havia muito tempo. E depois, em meio aos buns, tuns e platcs, pois a obra em frente não para, almoçamos felizes e tivemos amoras de sobremesa. Com que orgulho meu filho e eu comemos aquelas frutinhas! Amanhã, quero descer lá, encher um novo pote e, talvez, preparar uma geleia.