testeAdeus, Buenos Aires

Depois de dez meses escrevendo neste espaço semanalmente, chegou, junto com a virada do ano, a hora da despedida. É o momento de me dedicar a uma nova história, a diferentes personagens e de ter a coragem de me arriscar novamente a começar um novo livro. Testei algumas possibilidades de trama para este novo projeto aqui no blog da Intrínseca. As reações foram tão boas que tenho segurança de estar com mais uma boa história em mãos.

Um autor fica um pouco órfão de seus personagens quando publica um livro. Este blog foi especial porque tive a oportunidade de revisitar e trocar impressões sobre Hugo, Eduardo, Carolina, Charlotte, Pedro, Daniel e Martín com os leitores. Cada e-mail que recebo, cada contato no Facebook, mostra que as pessoas entenderam a proposta de celebrar todas as formas de amor em um livro. Sinto que dei uma pitada de leveza ao pesado ano de 2016.

Acho que O amor segundo Buenos Aires será sempre um marco em minha vida. Nunca recebi tantas mensagens positivas relativas a algo que tenha feito. Tive a oportunidade de falar sobre os personagens em rede nacional, na última temporada do Programa do Jô. O livro foi analisado por um professor de literatura no jornal O Estado de S. Paulo. Blogueiros de literatura fizeram lindas declarações de amor ao livro. E, pela primeira vez, pude entrar numa livraria e ver algo escrito por mim na seção de mais vendidos.

Este post é, para mim, uma despedida emocionante e também uma oportunidade de agradecer todo o carinho que recebi. E, para fechar esse ciclo, retorno aqui ao começo. Deixo meu “até logo” com as palavras que abrem O amor segundo Buenos Aires. Creio nelas profundamente.

“Se você já amou demais

Brigou e perdoou

E conseguiu esquecer um grande amor

Mas ainda se lembra quando ouve aquela música

(E é uma lembrança doce)

Se de vez em quando se permite mais do que o necessário

Se não resiste a um chocolate

Se já encontrou Jesus

Ou o deus das pequenas coisas

Se já se revoltou e renegou o divino

Só para se arrepender no momento seguinte

Se acredita que todo amor vale a pena

Que todos têm o direito de amar

Que cada um é de alguma forma especial

E percebe detalhes bonitos

Mesmo em um mundo que pode ser muito feio

Se acredita que as pessoas são eminentemente boas

Se teve a coragem de se desculpar com um beijo

Ou de se abrir ao poder de um abraço

E já sentiu tanto amor que teve vontade de chorar

Se pensou sobre todas essas coisas

Em muitas delas, em algumas delas ou mesmo em uma só delas

Este livro é para você

Ele foi feito com amor e é sobre todas as formas de amor”

testeExiste amor em Cabul

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Cabul nos anos 1960. (Fonte)

Parece um tempo muito distante, mítico, irreal. Às vezes penso que o inventei. Mas não. Eu, Miriam, vivi numa era de minissaias e vestidos tubinho, cabelos bem arrumados e brincos, homens e mulheres sentados lado a lado nos ônibus sempre apinhados de Cabul. Uma cópia contrabandeada de Dr. Strangelove (Dr. Fantástico) de Kubrick, com um dos rolos faltando, para ser exibida em um cineclube. O homem que se apaixonou pela bomba. Era 1969. As possibilidades pareciam infinitas, mas não demoraria muito para que o Afeganistão logo vivesse seu próprio caso de amor com as bombas.

Pinto meu cabelo de vermelho desde que me lembro. Foi uma tradição que comecei e nunca mais larguei. Primeiro por gosto, depois como sinal de resistência. Era como se essa decisão tão trivial, tomada em 1967 — a de usar a hena com a qual os homens tingiam a barba para mudar meu cabelo e realçar o meu rosto —, fosse uma forma de me segurar ao passado. Hoje, com as  pernas cheias de varizes, reflexo de anos de trabalho em pé nessas joalherias de Manhattan, decidi voltar às origens.

Quando disseram que eu poderia mudar de nome, logo que cheguei, pedi algumas sugestões e decidi por Jones — afinal, Jennifer Jones era minha atriz favorita quando eu era menina. Tinha um fogo que as outras estrelas de cinema não conseguiam forjar, nem Grace Kelly nem Marilyn Monroe. Mas estou perdendo o fio da meada. Vou voltar para a minha terra. Quando disse ao rapaz da agência de viagens que queria comprar uma passagem para Cabul, ele não conseguiu esconder o espanto. “Por quê?”, perguntou. “Porque nasci lá.”

Não tenham pena de mim, juro que não foi nada mau. Sim, todos os problemas estavam lá. Mas havia rios e montanhas e também esperança. Um Parlamento que funcionava. Mulheres que votavam e que, justamente no ano em que completei 13 anos, ganharam direitos idênticos aos dos homens. Eu poderia ser o que quisesse: médica, advogada, deputada e até dona de casa. Pai e mãe sorriam. Como não tiveram filhos homens, estavam resolutos a dar tudo o que estivesse disponível no mundo para mim e para a pessoa mais linda que jamais vi, minha irmã Soraya.

Um jornalista britânico veio certa vez à nossa escola secundária para nos entrevistar, falar sobre o futuro do país. O Afeganistão, com uma boa dose de licença poética, foi descrito na revista como a “Paris do Oriente”. Dois anos depois, ingressei na Universidade de Cabul. Queria ser jornalista. A imprensa ainda não era exatamente livre, mas tudo indicava que um dia seria. Na loja de discos, as músicas que anunciavam um novo tempo chegavam com um pouco de atraso, de dois ou três anos. Foi lá que conheci Abbas. Ele me disse que essa espera era boa. Depurava o que era ruim. Assim, só precisávamos gastar nosso dinheiro com o que realmente viera para ficar.

À medida que os anos 1970 avançavam, no entanto, o nosso mundo andava para trás, no lugar de seguir adiante. Acho que nós, jovens e descuidados, fomos longe demais e despertamos a ira dos fundamentalistas. Eu trabalhava como fotógrafa e Abbas editava um jornal escrito em inglês. Reuniões políticas, bebida alcoólica e saias acima do joelho. Tudo o que antes estava às claras passou a ficar escondido, cada vez mais escondido, sem que nos déssemos conta. Envoltos pelo cotidiano, aceitamos quase tudo como normal. Abbas, Soraya e eu. De repente, tínhamos os três uma opção ou outra: ficar ou sair. Abbas decidira-se por Cabul, eu fui obrigada a deixar o país. Não digo que não tive alternativa, pesei todas as variáveis — medo, amor e compaixão, por Soraya e por meus pais — e segui o meu caminho.

Era 1978. De repente, vestidos curtos e cabelos vermelhos eram um pecado passível de punição máxima. Revoluções internas, intervenções externas. Tudo rápido demais, não havia mais tempo para observar a placidez do rio. Tudo era desespero, era preciso agir, fazer escolhas. Decisões de vida e morte em um só minuto, sem tempo de preparação. Sim e não. Casamento, filhos, pedras preciosas, viuvez, netos. Passou tanto tempo e só uma coisa não mudou: comprei a passagem ainda pensando em Abbas. Sei que é insano, mas é essa busca que me move. A procura por uma época em que existiu amor em Cabul.

testeEscrever é construir barreiras para o infinito

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Cena do filme Mestre dos Gênios (Fonte)

Toda vez que se começa o livro, a página em branco representa o infinito. Tendo escrito dois – um de não ficção e outro de ficção –, posso dizer que o desafio do segundo foi muito maior. Na ficção, todas as possibilidades estão à mão. E um autor precisa tomar decisões o tempo todo. Definir um começo, um meio e um fim para esse infinito.

Não consigo começar a escrever sem ter uma ideia clara sobre o meu ponto de partida e o de chegada. Essas fronteiras são sempre maleáveis, mas o fato é que o início e o fim precisam estar bem definidos para que o recheio possa ser preenchido com tempo e paciência, idas e voltas, escrita e revisão.

Meu terceiro livro – claro que não vou entregar os detalhes agora – está começando a ser colocado no papel neste momento. Foram muitas escolhas a fazer antes da primeira frase. Os personagens terão conhecimento prévio de todos os acontecimentos ou vão descobri-los junto com o leitor? Eles serão acompanhados durante todo o decorrer de sua vida ou somente num período específico? Quem dará voz à narrativa: o próprio personagem ou um observador?

Para este novo livro, testei algo que nunca havia feito antes. Dei-me ao luxo de fazer ensaios de texto com diferentes estilos de narração para entender o que funcionava melhor nesse caso específico. Preciso revelar, contudo, que tenho uma queda por obras que tragam como narrador alguém envolvido na trama, e não externo a ela.

Está em cartaz nos cinemas um filme bastante acadêmico e tradicional, mas que discute literatura de maneira realista, abordando as concessões que um autor precisa (e deve) fazer para tornar seu trabalho melhor. Trata-se de Mestre dos gênios, sobre o editor Max Perkins e sua relação com o escritor Thomas Wolfe. No elenco, só feras: Colin Firth, Jude Law, Nicole Kidman e Laura Linney.

No caso de Mestre dos gênios, além do relacionamento próximo com o intempestivo Wolfe e dos conflitos domésticos de ambos, o roteiro ainda lança mão de personagens secundários como F. Scott Fitzgerald (vivido por Guy Pearce) e Ernest Hemingway (Dominic West). É uma espécie de versão bem mais dramática das negociações (e discussões) entre um autor e um editor.

Mestre dos gênios me fez recordar de outro filme sobre literatura que me agrada muito: Garotos incríveis, em que o diálogo “escrever é fazer escolhas” me marcou muito. Quinze anos depois de ter assistido ao filme, sempre que estou em dúvida sobre uma solução narrativa, agarro-me à convicção de que é necessário parar e refletir: o que faz sentido dentro do mundo particular que está sendo criado?

Fazer escolhas e desapegar de boas ideias que não fazem sentido em uma narrativa é um bom ponto de partida. A vantagem de se construir um mundo particular composto de palavras é que sempre dá para corrigir o destino no meio do caminho.

testeAs canções que você escolheu para mim

Parecia impossível, uma mentira. Mas aconteceria. Selma realmente iria se mudar do apartamento das Laranjeiras, aquele em que eu havia passado metade da minha adolescência e juventude, logo no começo da nova década. Era dia 31 à tarde, e fazia o calor infernal típico da véspera de Réveillon. Não estávamos preocupados com os fogos da meia-noite, era hora de fechar as contas.

Selma vivera diferentes encarnações em uma só existência — dizia que, ao aposentar-se e mudar para o interior com o novo namorado, estava começando sua nona vida. Estava chegando à última etapa de uma existência felina, que fora repleta de reinvenções: normalista apaixonada por Roberto, mulher e dona de casa, professora universitária, mãe e ativista, doutoranda e não mais mãe.

Entendia que ela desejava se livrar de tudo, dos livros e dos discos. Pensara em chamar um sebo para que tudo fosse rápido, mas sabia que esses vinis foram minha educação musical. Marina, Caetano, Bowie, Rolling Stones, Abba, ACDC. Selma não podia escolher, tinha de levar todos ou nenhum. Escolheu abandonar tudo, deixar as memórias para mim. O namorado havia trazido um aparelho de CD dos Estados Unidos. O futuro é compacto.

Em seus poucos anos, Otávio acumulou muita coisa. Vários discos comprados por mês, livros que a mãe o incentivava a ler. Decidi jogar no lixo os livros antigos que Roberto deixara para trás e que, por algum motivo, foram parar no quarto do filho. Devem estar obsoletos. Ao longo dos anos, a vida é um pouco como o direito: leis antes imprescindíveis, escritas em pedra, tornam-se vetustas. Convicções antigas caem por terra, quase todas.

Uma caixa grande, cheia de fitas cassete, uma para cada humor. Ninguém sabe o trabalho que dava fazer uma boa fita mixada. O gravador em pausa esperando a música começar no rádio, os primeiros acordes cortados. Havia tantas delas, que Otávio preparava uma para cada ocasião. Em caneta vermelha, cada música listada, com o respectivo nome do artista. E um título, como de um álbum: “Dia de sol na praia”, “Relax”, “Dor de cotovelo” e, bem no fim da pilha, “Inácio — set/86”.

Ele havia selecionado músicas pensando em mim. Decido que ficarei com o walkman amarelo da Sony, um dos bens mais preciosos de Otávio. Acho que ainda poderá ser usado por alguns anos. O gravador de mesa também levarei, assim como o cartaz de A Lagoa Azul, agora meio amarelado pelo passar dos anos. Objetos podem ser um testamento da vida de alguém. De como somos atemporais e, ao mesmo tempo, datados.

Ao contrário das demais fitas, a minha não tinha as músicas listadas. Seria preciso ouvi-la. Quando a coloco no tocador, faz um som estranho, a fita se solta do cassete. Retiro-a com cuidado e, com a ajuda de uma caneta, rebobino o conteúdo de volta. Aperto bem. Quero saber seu conteúdo. Lembro-me que, um dia, Otávio me disse que logo o esqueceria. Estava quase sempre certo, porém se enganara sobre isso. Não passa um dia sem que eu não queira comentar alguma coisa com ele, contar-lhe algo.

As canções que Otávio escolheu para mim começam a tocar. As músicas são bem antigas, a compilação foi feita  três meses antes de sua morte. Pergunto-me se ficou inacabada. Apenas nove canções.

“The crying game”, Culture Club

“Poema”, Ney Matogrosso

“London, London”, Gal Costa

“A menina dança”, Novos Baianos

“Tempo perdido”, Legião Urbana

“You are”, Lionel Ritchie

“When doves cry”, Prince

“Todo amor que houve nessa vida”, Barão Vermelho

“Esse outro mundo”, Heróis da Resistência

testeO livro, o filme, a peça

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Cena do filme Laços de Ternura (Fonte)

Nada melhor do que uma boa história. E Laços de ternura (Terms of endearment), livro de Larry McMutry ambientado no estado americano do Texas, com a clássica trama sobre o relacionamento entre mãe e filha, certamente venceu o teste do tempo. Lançada originalmente em 1975, a obra, que virou filme oito anos depois (com Shirley MacLaine, Jack Nicholson e Debra Winger), vencendo cinco Oscar, acaba de ser adaptada como peça de teatro em Nova York. Tive o prazer de vê-la semana passada.

Larry McMutry é um autor de grandes sucessos, entre eles O indomado (Hud, que virou filme com Paul Newman em 1963) e Os pistoleiros do Oeste (no original, Lonesome dove, ou Pomba solitária, adaptado para a TV com Robert Duvall em 1989), além de A última sessão de cinema (The last picture show, de 1971), um dos melhores filmes dos anos 1970.  Apesar de seus livros terem sempre sido adaptados para o cinema por terceiros, ele escreveu o roteiro de O segredo de Brokeback Mountain (Brokeback Mountain), a partir de conto de Annie Proulx.

Tenho de ser sincero e dizer que não li Laços de ternura – a última edição que circulou no Brasil, ainda nos tempos do Círculo do Livro da Abril, é de meados dos anos 1980. Mas, graças à internet, acabei de comprar um exemplar bem antigo pela bagatela de sete reais. A ideia é colocá-lo na minha lista de leituras programadas para o fim do ano.

Para escrever este artigo revi o filme, que agora faz parte da minha coleção de DVDs. Lendo algumas resenhas que saíram à época do lançamento do livro, percebi que a trama original era ainda mais “novelesca” do que a do filme. Entre os itens eliminados estão casos de amor que não adicionavam nada à trama principal e diversos personagens secundários.

Se o filme, com suas duas horas e quinze minutos, já resumia muita coisa, a peça, que tem pouco mais de cem minutos, vai ainda mais direto ao essencial: Laços de ternura é uma história de amizade, amor, brigas e redenção. E o que importa é a dupla central: Aurora Greenway, uma viúva teimosa, voluntariosa e irredutível, e sua filha Emma, que só quer ter uma vida normal ao lado do marido e dos filhos. É justamente a parte “normal” da vida que Aurora não consegue aceitar.

Da tela para o palco, muita coisa foi eliminada: os vários “pretendentes” de Aurora, o amante de Emma (que agora é mencionado apenas de passagem), enquanto outros personagens perderam relevância, como Patsy, melhor amiga da filha. Ainda vitais para Laços de ternura são duas figuras masculinas: o marido de Emma, Flap (que no filme foi vivido por Jeff Daniels), e o astronauta aposentado Garrett (uma interpretação marcante de Jack Nicholson).

No fim das contas, o teatro acaba sendo o meio do ator. Emma, que no filme foi defendida com um pouco de exagero por Debra Winger, agora é interpretada pela novata Hannah Dunne – correta, mas pouco intensa. O grande personagem de Laços de ternura, no entanto, é Aurora. Na peça, quem assume o lugar de Shirley MacLaine é nada menos do que Molly Ringwald. Sim, a atriz que, quando jovenzinha, protagonizou Clube dos Cinco e A garota de rosa-shocking.

Aos 48 anos, Molly “encarna” Aurora de uma forma diferente — e, acreditem, mais eficaz — do que Shirley MacLaine. No filme, Aurora tem um início caricato, quase estridente, e se humaniza somente quando vive uma tragédia. Na peça, Molly busca outro registro: apesar de manter Aurora um pouco acima do tom, tem a sabedoria de interpretá-la com uma pitada de vulnerabilidade, como se toda a confiança que ela exibe fosse uma espécie de mecanismo de defesa.

Resta dizer que, como no filme, as cenas finais são de cortar o coração — e Molly, pegando fogo, entrega-se a cada uma delas. Entre os outros atores, destaque também para Jeb Brown, veterano da Broadway que traz alívio cômico como o ex-astronauta Garrett. Embora carismático, o ator às vezes parece estar quase incorporando Jack Nicholson como Garrett, e não o personagem em si.

Tendo saboreado o filme e a peça, mal posso esperar para que o livro chegue pelo correio. Quarenta anos depois, Laços de ternura se mantém relevante, pois trata de temas atemporais. Além disso, tem um elemento vital para o tipo de literatura que aprecio: preocupa-se sobretudo em emocionar para, posteriormente, fazer o leitor refletir.

 

testeMorrer de amor

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Tracei tantos cenários para o dia em que reencontrasse Roberto que, quando isso finalmente aconteceu, não soube o que fazer. Como resumir o que se passou em oito anos? O fato é que ele desistira e eu permanecera. Ele não pôde aguentar a destruição dos planos, a reversão das expectativas. Era fraco e, em retrospecto, sempre havia sido.

No primeiro sinal de adversidade, foi procurar o ideal, o que sonhara, o que planejara em sua mente de advogado tributarista. Mulher que não trabalhasse, dois filhos loiros, emprego público. Segurança era a palavra-chave. Ao cruzar aquela mesa no restaurante, ver os enteados dele quase adultos, não pude deixar de achar que ele parecia um intruso naquele grupo.

Trocara a experiência dos seus pela mentira de uma outra vida, inventada. Laranjeiras pela Barra da Tijuca. O filho real por postiços. A mulher que o amara desde os dezesseis anos por outra, genérica (nem nisso ele foi original: casou-se com a antiga secretária). Mas sei que Roberto não deixou a mim. Fugiu de Otávio, tão rápido quanto pôde.

Nenhuma comunicação, a não ser documentos judiciais, depósitos mensais da pensão em minha conta-corrente, pensão sempre em dia. Nunca o procurei. Quis  confrontá-lo, mas nunca o fiz. Pode ter sido um erro. Ou talvez ele tenha previsto o sofrimento, tenha antevisto o que eu não poderia adivinhar. Passei por tudo, apostei. Ganhei e perdi. Mas, agora, somos iguais: ambos vivos, no mesmo restaurante.

Todos estamos em contagem regressiva para a morte — uma vez meu filho me disse isso. A única diferença é que, no caso de Otávio, os ponteiros estavam acelerados, era necessário correr muito, sugar o mundo todo de uma vez. Como nas tragédias gregas, nosso filho morreu de amor. No fim, porém, os minutos passavam devagar. Falta de ar e feridas. Febre e delírio. Pele e osso. Dores e vômitos.

Nosso filho, como os heróis (ou heroínas) das tragédias gregas, morreu de amor. Amou tanto — mas não o suficiente. Amou muitos corpos, perdeu-se entre braços, pernas, torsos e órgãos genitais. Peitos peludos e pés grandes, masculinos. Foi dizimado pela praga. Tantos outros corpos também desapareceram, sugados pela doença e pelo medo.

Eu, por outro lado, sobrevivi. Como uma ninfa mágica, ou uma fênix, me reinventei. Experimentei maconha, beijei um aluno e comecei a ouvir reggae. É como se o sofrimento, os reveses e o impensável tivessem me dado uma profundidade que eu não tinha. Os olhos ganharam mistério, e eu mostro minhas rugas com orgulho. Elas validam minha história.

E, então, estamos aqui. Eu e Roberto, mais uma vez. Ele está mais gordo, mas não muito. Pude ver em seu rosto que ele não aprendeu nada. Pensei em enfrentá-lo, em dizer o que estava óbvio: ele não pertencia àquela família, aqueles jamais seriam seus filhos. O filho dele estava enterrado no cemitério de Botafogo, um funeral sob o sol de quarenta graus de um dia de Ano-Novo. Ele poderia fugir para o outro lado do planeta que nada mudaria a verdade.

Pensei em dizer-lhe isso. Eu já quis gritar, quis entender, mas hoje tudo isso me parece supérfluo. A vida é muito rica, e dura demais, para que Roberto seja capaz de suportá-la sem criar a própria redoma. Minha companhia me esperava para o almoço, mesmo assim me detive por mais alguns segundos, tentando chegar a uma conclusão, decifrar o enigma.

A resposta era simples. Roberto agora fazia parte de um passado distante, meio cor-de-rosa e um tanto imbecil, uma espécie de sonho que não se quer que vire realidade. A melhor coisa que ele fez por mim foi partir. Fui testada e superei todas as fases. O jogo continuava, a vida seguia, estávamos ambos aqui. Só havia uma diferença: ele ainda era o mesmo e eu, outra.

testePara reencontrar Buenos Aires

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Cena de O Último Tango (Fonte)

Há duas oportunidades no cinema para reencontrar Buenos Aires sem sair do Brasil. Nos últimos dias, dois filmes me transportaram diretamente para a cidade que ambientou meu primeiro romance, O amor segundo Buenos Aires. Matei saudades de lá assistindo a No fim do túnel e O último tango, mais dois belos exemplares da cinematografia argentina.

No fim do túnel, embora se passe em apenas um ambiente — um casarão em um bairro de classe média alta de Buenos Aires —, lembrou-me da cadência da linguagem dos portenhos e foi uma incrível diversão. Trata-se de um thriller, gênero considerado comercial, mas vi o filme com muito mais satisfação do que qualquer produção brasileira a que tenha assistido este ano (incluindo o bom, contudo longo demais, Aquarius).

Como indicam meu romance e os comentários sobre outros livros que tenho postado aqui, sou atraído mais por trama do que por estilo. Pois No fim do túnel tem os dois. Leonardo Sbaraglia (que já havia sido destaque em um dos episódios de Relatos selvagens) interpreta aqui o dono do casarão, um homem que perdeu o movimento das pernas após o acidente automobilístico que matou sua mulher e sua filha.

Em uma noite de chuva, uma misteriosa mulher (Clara Lago, um estouro) chega, acompanhada da filha, para alugar um quarto que ele havia anunciado na internet. Mais ou menos ao mesmo tempo, ele se dá conta de que criminosos estão cavando um túnel sob a casa para assaltar um banco próximo bem no dia de Natal.

Daqui em diante, não cabe revelar mais, mas é necessário dizer que o desenrolar da história é exemplar: inventivo, surpreendente e carregado de humor negro. O escritor e roteirista Rodrigo Grande sabe se desvencilhar rapidamente dos ganchos óbvios da narrativa, revelando “charadas” que são meio fáceis de adivinhar em questão de poucos minutos. Ele sabe deixar o melhor para o fim.

Outra delícia em cartaz é O último tango, do argentino radicado na Alemanha German Kral. Ainda que seja um documentário,  amarra muito bem os conflitos do mais famoso casal de dançarinos de tango da Argentina. O enredo coleciona sentimentos: amor, ressentimento, mágoas e paixão pela dança.

Além disso, o filme tem tomadas plásticas de Buenos Aires, costuradas com cenas de dança de tirar o fôlego. Com mais de oitenta anos, Juan Carlos Copes e principalmente María Nieves Rego mostram que ainda corre sangue muito quente em suas veias.

testeLiteratura sem vaidade

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(Fonte: Slate.com)

Nesta semana, a notícia que mais repercutiu no meio cultural foi a revelação do rosto por trás da escritora italiana Elena Ferrante, um dos mais famosos pseudônimos da literatura atual. Ao que tudo indica, Elena Ferrante seria, na verdade, Anita Raja, 63 anos, tradutora responsável pela publicação, entre outros, de autores como Franz Kafka em italiano.

O jornalista italiano Claudio Gatti foi fundo para tentar revelar quem é Elena Ferrante. Ele cruzou os dados de vendas dos livros da autora com o aumento nos repasses feitos pela editora a Anita. Descobriu que, dado o sucesso global de todos os livros de Elena, os depósitos bancários cresciam na mesma proporção dos ganhos da editora.

Seja ou não Anita a verdadeira Elena, tudo o que tenho a dizer é: não importa. O que me é claro é que a pessoa por trás desses livros optou por um caminho raro no mundo das artes, onde todo mundo parece estar em busca de reconhecimento. Elena Ferrante, com todo o sucesso que atingiu, abriu mão da fogueira das vaidades.

Ao concentrar-se na mais importante fase da literatura — a criação em si —, deixando a promoção e o lançamento por conta de seus editores, Elena conseguiu formar uma legião de fãs e também conceber suas histórias em uma velocidade muito maior. Ampliou sua base de leitores da melhor forma possível: encantando-os.

Neste momento, dois livros de Elena Ferrante fazem parte da minha lista de leituras: A amiga genial, primeiro capítulo de uma tetralogia, e Dias de abandono. Em ambos, encontrei personagens femininas fortes, uma prosa direta e um estilo discreto que, sem firulas, joga o leitor em histórias absorventes e bem observadas.

A Intrínseca está publicando um título novo de Elena — A filha perdida — que, certamente, entrará na minha lista de futuras leituras. A fluidez da narrativa de Elena certamente deverá ser, a partir de agora, uma fonte de inspiração para meus próximos livros.

testeQuando um livro nos atropela…

…É a melhor coisa que pode nos acontecer. Fazemos tudo o mais rapidamente possível e ficamos só aguardando o momento de o trabalho acabar e de terminar de preparar o jantar para poder voltar àqueles minutos preciosos do dia em que não há vozes nem imagens, só letras e imaginação.

Isso está acontecendo comigo enquanto escrevo esta coluna. É que estou quase no fim, bem no finzinho mesmo, da leitura de Tony & Susan, de Austin Wright, lançado há alguns anos pela Intrínseca no Brasil. O livro foi publicado originalmente em inglês em 1993, e eu comprei a versão para o Kindle.

Confesso que não tinha ouvido falar do livro. O que me levou a procurá-lo foi o filme Animais noturnos, baseado em Tony & Susan, que deve chegar às telas no fim do ano, com Amy Adams e Jake Gyllenhaal. A direção é de Tom Ford (sim, o estilista), que já fez bonito no passado com A single man (no Brasil, a produção recebeu um título horrível: Direito de amar).

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Cena de Animais Noturnos (fonte)

O que mais me chamou a atenção em Tony & Susan foi a sua intertextualidade, que nada mais é do que uma palavra bonita para designar o que Susan, a personagem principal, passa boa parte da trama fazendo e o que o leitor também faz. É isso mesmo: ler.

Tony, na realidade, é o personagem central da obra enviada a Susan por Edward, seu ex-marido. O título do livro: Animais noturnos (que, na minha opinião, deveria estar estampado na capa, pois é bem mais forte do que Tony & Susan). A partir daí, descortina-se um clima de suspense impactante. A conexão do leitor com Susan é direta, pois ela também tenta se livrar do dia a dia para voltar à leitura.

Wright tem uma prosa fluida, mas evita clichês, em especial na descrição das relações entre os personagens, que são elucidadas a partir de informações liberadas aos poucos, como num quebra-cabeça. O próprio “livro dentro do livro” subverte expectativas, pois foge do estilo “desejo de vingança”, que parece ser norma em histórias de suspense.

Animais noturnos, o filme, ganhou o Prêmio do Júri no Festival de Cinema de Veneza deste ano e muitos estão apostando em Amy Adams como indicada ao Oscar 2017 na categoria Melhor Atriz. Tudo o que posso desejar é que o filme faça mesmo jus à sua fonte.

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testeVida em comunidade

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Cena do filme A Comunidade (Fonte)

Anarquistas, graças a Deus. O incrível título do romance de Zélia Gattai, que acerta em cheio nas contradições humanas, poderia também se aplicar ao filme A comunidade, a que assisti com prazer dias atrás. Seu diretor, Thomas Vinterberg, é um dos criadores do movimento cinematográfico Dogma e responsável por outros filmes de que gosto bastante, como Festa de família e A caça.

O que mais me interessou na história, muito bem interpretada, foi a desconstrução do que seja moderno e descolado. Se a vida a dois já é cheia de desafios, o dia a dia em uma comuna parece quase impossível de se aguentar.

A trama de A comunidade pode ser resumida assim: é um Cenas de um casamento, de Bergman, transportado para uma casa compartilhada por um grupo. O casal de protagonistas – um professor universitário e uma jornalista – decide convidar amigos para morar em uma casa que ganharam de herança. A relação, porém, não resiste ao mais trivial dos conflitos: uma traição.

Talvez tenha gostado do filme porque ele me despertou um sentimento nostálgico. Visitei várias vezes a comuna Niederkaufungen, na Alemanha, mais de uma década atrás, para escrever sobre seu dia a dia. A comuna fica nas proximidades de Kassel, na região central do país, onde eu morava na época.

Agora, ao pensar nos meus passeios por aquela comunidade para lá de organizada – toda a renda dos membros era dividida de forma igualitária –, também me vem à mente o livro Entre amigos, do israelense Amoz Oz, sobre a vida num kibutz. Em todos os casos (o livro, o filme e minha visita à comuna de verdade), percebo que a rotina em uma comunidade é marcada por competições e hierarquias, o que, teoricamente, não deveria existir.

No caso da comunidade de Kassel, a vida financeira era compartilhada, mas a amorosa seguia o modelo tradicional. Lembro-me que crianças no livro de Amós Oz “pertenciam” à comunidade; em Niederkaufungen, os pais biológicos eram responsáveis pela educação dos filhos, recebendo ajuda externa quando necessário (ou seja: o sistema não é muito diferente do que acontece com todo mundo).

Ao visitar a comuna, conheci uma brasileira que morava lá (a seu pedido, ela não foi retratada na reportagem que escrevi para a Deutsche Welle). No entanto, fiquei com a nítida impressão de que ela estava pronta para voltar ao mundo real. Fora para aquele lugar atrás de um amor. Como os personagens de A comunidade e de Entre amigos, estava em busca, no fim das contas, do mais trivial dos sentimentos.