testeCinco coisas que toda mulher deve saber

Nós convocamos livreiras para compartilharem suas impressões sobre Somos guerreiras, relato inspirador de Glennon Doyle Melton que reflete os desafios das mulheres do mundo todo em aceitar seus corpos, repensar seus relacionamentos, a maternidade e a busca por autoconhecimento.
 

1 – Você não precisa ser perfeita para ser feliz

Vivemos em uma sociedade em que os padrões de aceitação estão cada vez mais rígidos e impostos, e o Somos guerreiras aparece como aquele bote salva-vidas que diz “Ei, você não precisa ser perfeita para ser feliz e isso é bom, acredite”.

A história pode ser dela, mas as experiências, as dores e a autodescoberta acabam sendo de todas. A Glennon sou eu, que já sofri bullying, é aquela vizinha com problemas no casamento, é a amiga com problemas com o corpo, é a colega de trabalho que caiu de paraquedas na maternidade… Existe uma Glennon por todos os lados, em cada uma de nós.

Amanda Villanova (Saraiva Rio Sul)

 

2 – Você não precisa ter passado por uma situação para entender

A cada frase consegui imaginar alguém conhecido passando por determinada situação, e isso doeu. Doeu, pois sei que é real, doeu, pois me lembrei de todas as vezes que engoli palavras para agradar a alguém.

Ninguém deve dizer como devo rir, sentar ou me comportar, e a Glennon me mostrou que essa coragem de dizer basta quando tudo começa a me sufocar é o que me mantém de pé, me faz ainda ser minha.

Nara Peres (Nobel West Shopping)

 

3 – Você não precisa seguir um padrão para ser “aceita”

O que é padrão? Quem inventou isso? Por que tenho que segui-lo para ser aceita? Aceita por quem?

A questão de todo o desabafo é relatar o quanto estamos contaminados por uma sociedade ilusória onde ser magro resume tudo o que você é. Você poder ser um ph.D., mas se você estiver acima do peso ninguém te leva a sério (lembrando que isso serve para tudo que foge do “padrão”). Você pode ser uma pessoa incrivelmente cruel e desumana, porém, se estiver no “padrão”, ok, relevem, está tudo bem… Sério, é ridículo…

Somos todas guerreiras porque travamos uma luta contra nós mesmas e o mundo todos os dias e no final de cada dia sobrevivemos!

Isis Silva  (Nobel Top Shopping)

 

4 – Todas as mulheres são guerreiras. Admire e respeite suas lutas

Somos guerreiras é um livro que toca e emociona, pois aborda assuntos que toda mulher vivencia ou já vivenciou alguma vez na vida. É impossível ler e não sentir empatia pela autora, seguida de muita admiração pela sua força. É aquele livro que, mesmo depois de tê-lo finalizado, não desgruda de você.

Isabella (Saraiva Rio Sul)

 

5 – Seja SEMPRE você mesma

Somos guerreiras é um livro de superação de vida, de autoconhecimento, de descobertas. A Glennon é uma mulher que lutou por sua família e por ela mesma. E ela descobriu que a beleza exterior não é o que mais importa na vida da mulher. E de nada adianta ser o que os outros querem que você seja, se você não é feliz assim, porque é preciso que você se ame primeiro e que seja feliz consigo mesma.

Virgínia Farias (Saraiva Rio Sul)

 

Já leu Somos guerreiras? Mande nos comentários seu depoimento.

testeComo não abrir mão de ser você mesma

Por Fabiane Pereira*

Glennon Doyle Melton por Amy Paulson

A vida de Glennon Doyle Melton nunca mais foi a mesma depois que ela participou de uma dessas correntes que, vira e mexe, aparecem no Facebook. Na lista de 25 “segredos”, ela escreveu logo no número 1 algo que nunca tinha dito a ninguém, nem mesmo ao marido e pai de seus filhos:

Sou uma bulímica e alcoólatra em recuperação, mas ainda me pego sentindo falta de comer compulsivamente e do álcool da mesma forma perturbada com que uma mulher pode sentir falta de alguém que a espanca quase até a morte repetidamente.

A lista chocante acabou sendo sua salvação. Ao se expor nas redes sociais, Glennon começou a receber mensagens de mulheres que também sofriam em segredo. Depois do post, ela criou um blog para compartilhar sua jornada de dor, amor e autodescoberta e passou a ganhar a simpatia, o afeto e a solidariedade de milhares de pessoas espalhadas pelo planeta.

Glennon é uma mulher como sua mãe, ou vizinha, ou amiga, ou como a irmã de um amigo. Talvez seja você mesma. É uma mulher que passou por “poucas e boas” — como diria minha avó —, mas que não se deu por vencida. Ao narrar sua história, sem filtros, no livro Somos guerreiras, ela pode ajudar muitas de nós a repensar nossos papéis na sociedade como mãe, esposa e mulher.

As regras secretas, incontestáveis, sobre como ser uma mulher são: Seja Magra. Seja Bonita. Seja Discreta. Seja Invulnerável. Seja Popular Seguindo a Liderança dos Homens Respeitados. Sexo, álcool e distúrbios alimentares são apenas formas de uma mulher honrar as regras ocultas e chegar a algum lugar. Da infância à idade adulta. Da invisibilidade à relevância. Há um estilo de vida que se espera de uma mulher bem-sucedida, e a bulimia, a bebida e o sexo são apenas ferramentas necessárias para o desenvolvimento desse estilo de vida.

Apesar do apoio incondicional da irmã e dos pais, escrever salvou Glennon. Foi assim, primeiro sozinha e depois em contato com outras mulheres, que ela entendeu que a autoestima que procurou por toda a vida não dependia de nenhum aditivo nem de ninguém, mas somente dela. “Quando termino e olho para o texto, a sensação é a de olhar para um espelho mais cristalino do que qualquer espelho de verdade em que já tenha me olhado”, conta Glennon nas páginas de Somos guerreiras.

É com essa escrita honesta que ela narra as passagens desafiadoras de sua vida: a luta precoce para vencer a bulimia, a baixa autoestima, as traições pelas quais passou, os relacionamentos abusivos em que esteve; divide as dificuldades da maternidade, as crises no casamento e seus vícios — tudo com uma linguagem coloquial e, acredite se quiser, bem-humorada. “Sou cria da Disney, então aprendi logo cedo que o casamento é a linha de chegada de uma mulher”, diz Glennon para logo depois narrar a disputa que travou com seu corpo, mente e espírito para permanecer casada.

Aliás, permanecer casada foi uma de suas maiores vitórias. Não por acreditar que estar casada traz alguma vantagem, mas por crer que criar uma família estruturada é um trabalho diário, árduo e em parceria. Craig Melton, seu marido, não foi uma muleta mas a mola propulsora e paciente que ajudou Glennon nesse processo de cura.

Para conhecer mais sobre Glennon, não perca a participação dela na ótima série documental apresentada pela comediante Chelsea Handler, disponível na Netflix. Ali, ela se mostra, mais uma vez, de corpo e alma. Assim como eu, tenho certeza de que você também vai querer compartilhar seus posts com a hashtag #MEREPRESENTA.  Uma última dica: após ler este artigo (e o livro), ouça “Hero”, na voz de Mariah Carey, bem alto porque, como diz Glennon, “a música é sempre um lugar seguro para a prática de ser humana”.

 

>> Leia um trecho de Somos guerreiras

 

Fabiane Pereira é jornalista, pós-graduada em Jornalismo Cultural pela ESPM e em Formação do Escritor pela PUC-Rio. É mestranda em Comunicação, Cultura e Tecnologia da Informação no Instituto Universitário de Lisboa. É curadora do projeto literário Som & Pausa e toca vários outros projetos pela sua empresa, a Valentina Comunicação. Foi apresentadora do programa Faro MPB, na MPB FM.

testeComo ser uma guerreira

Toda mulher sabe que ainda hoje é uma luta quase impossível escapar do conjunto de regras culturais que definem o que uma mulher deve ser: magra, bonita, discreta e forte. Uma mulher de sucesso se cuida, é amável, constrói uma bela família, é paciente e não deixa de cumprir com suas obrigações como esposa. Da infância à idade adulta, uma mulher sabe o que se espera dela, sabe que deve ser humilde quanto à sua inteligência e ambições.

Ao se esforçar para seguir todas essas “obrigações”, uma mulher às vezes passa a vida inteira sem se conhecer e, não raramente, busca refúgios para a frustração diária de não poder ser honesta, de não ser ouvida. Sexo sem consentimento ou prazer, distúrbios alimentares e alcoolismo são apenas algum deles.  

Glennon Doyle Melton é a mulher que talvez você conheça, a vizinha, a colega, a irmã de um amigo. Talvez seja você. É uma mulher que passou pelo que muitas passam, mas que decidiu falar abertamente sobre suas experiências e redefinir para si mesma o que é ser mãe, esposa e mulher.

Foi a partir dessa decisão que ela criou a comunidade on-line Momastery, através da qual, diariamente, se comunica com mais de um milhão de mulheres, e escreveu Somos guerreiras, um relato inspirador selecionado por Oprah Winfrey para fazer parte de seu Clube do Livro. Ao anunciar a escolha, Oprah afirmou: “Você vai amar este livro. Não importa se você é solteira ou casada. Se tem filhos ou não. Toda mulher se reconhecerá nessas páginas.”

Uma história de dor, amor e autodescoberta, em Somos guerreiras Glennon conta não só a própria jornada, mas a guerra diária travada pela mulher que busca simplesmente ser quem ela é — um relato corajoso que chama a atenção para o fato de que nascer mulher e existir plenamente é quase um ato revolucionário.

Somos guerreiras chega às livrarias a partir de 3 de abril.

testeEspecial de Amy Schumer estreia na Netflix

“No último ano fiquei muito rica, famosa e humilde”, provoca Amy Schumer na abertura de Amy Schumer: The Leather Special, produzido pela Netflix.

De fato, muita coisa mudou na vida de Amy nos últimos tempos: ela se tornou a primeira mulher a entrar para o ranking de comediantes mais bem pagos dos Estados Unidos segundo a revista Forbes, sua série de TV, Inside Amy Schumer, levou dois Emmys, seu último filme, Descompensada, foi um sucesso de bilheteria e recebeu duas indicações ao Globo de Ouro e suas histórias mais marcantes foram reunidas em um delicioso livro, A garota com a tribal nas costas.

Na atração, que já está disponível na grade da Netflix, Amy usa de seu humor peculiar para lamentar o fato de que as mulheres não são criadas como os homens, dividir sua experiência sobre nudes que viralizam, e fazer outras confidências sobre sexo e os absurdos da fama.

Lançado no fim de 2015, A garota com a tribal nas costas é uma hilária e muitas vezes comovente conversa entre amigas em que Amy narra suas experiências como filha, namorada, mulher e comediante. No livro, ela fala abertamente sobre como se tornou quem é hoje e reflete sobre temas vividos por muitas outras mulheres, como abuso sexual, o longo caminho para entender como confiança e autoestima não devem vir da pessoa com quem você está transando e a conflituosa relação com a mãe.

>> Leia um trecho

testeA presença feminina no girar da Roda do Tempo

Por Flora Pinheiro e Rayssa Galvão*

Como amantes da literatura de fantasia, para nós é sempre um prazer trabalhar com esse gênero, sobretudo com um clássico como A Roda do Tempo. Como editoras, é sempre muito gratificante trabalhar com livros realmente bons, com uma base de fãs tão envolvida e envolvente. E, por fim, como mulheres, é sempre um momento de alegria encontrar livros com personagens femininas bem-construídas.

Em muitas das histórias de fantasia mais tradicionais (estamos falando com você, O Senhor dos Anéis!), a mulher é relegada a um papel secundário, como a donzela elfa que decide esperar pelo marido humano, a feiticeira poderosa que só aparece para resolver um pequeno enigma sobrenatural e depois desaparece ou a mulher figurante que só dá as caras no final da trama para se casar com um dos protagonistas depois que ele retorna de suas aventuras.

Esse, felizmente, não é o caso de A Roda do Tempo – algo tão revolucionário para a época que, no começo da publicação da série, corria o boato de que Robert Jordan era o pseudônimo de uma escritora. Em entrevistas, o próprio autor declarou ter feito o possível para criar mulheres realistas e de personalidade forte, como as que o cercavam. Sua esposa, Harriet, foi editora da série e teve um papel fundamental na publicação, pois Jordan sempre ouvia seus conselhos. (Ao contrário de certos personagens masculinos de A Roda do Tempo…)

Jordan não teve medo de dar protagonismo às personagens femininas fortes, que aparecem como narradoras em todos os livros e têm sempre falas maravilhosas. Um de nossos momentos favoritos é quando um dos personagens principais vem pedir conselhos para a amiga, Egwene, e comenta que nunca conversou sobre qual era o papel do homem com seus amigos, e ela logo responde: “Então é por isso que vocês fazem um péssimo trabalho”.

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(Ba dum tsss – Fonte)

Mas não basta ter meia dúzia de personagens bacanas para nos impressionar, não. Nós já discutimos um pouco sobre a riqueza de culturas e variedade nos povos de A Roda do Tempo, mas, ao construir seu mundo, Jordan fez mais do que apenas basear os costumes dos povos em um mashup interessante do mundo real: ele criou novas dinâmicas sociais que, no mínimo, nos fazem refletir sobre o mundo em que vivemos. Ou seja, não só não faltam personagens femininas fortes na série como também, logo no começo, somos surpreendidos por algo ainda mais incomum: uma sociedade em que as mulheres não são vistas como inferiores aos homens. Muitos leitores aceitam com facilidade dragões, magia e personagens que vivem centenas de anos, mas um mundo no qual as mulheres não são “cidadãs” de segunda classe parece ser automaticamente descartado como inverossímil. Não tomar o machismo como “natural” e explorar os papéis sociais torna a obra de Jordan mais rica.

O primeiro exemplo começa logo no início da história, quando somos apresentados a uma pequena vila rural onde, como tantas outras, além da figura de prefeito há uma mulher conhecida como Sabedoria, uma espécie de guia e curandeira. O poder nessas pequenas cidades é dividido entre dois conselhos: o de homens, que cuida de assuntos muitas vezes secundários, e o círculo das mulheres, que resolve tudo o que há para ser resolvido e, de vez em quando, passa por cima do conselho dos homens.

Isso mostra que, além de incluir sociedades matriarcais (não vamos entrar em mais detalhes sobre elas para não dar spoilers), Jordan também criou inversões interessantes nas culturas tradicionais do livro: em vez de privilégio masculino, há privilégio feminino. Mesmo no caso dos Aiel, uma cultura guerreira em que os clãs estão sempre em conflito, com pilhagens frequentes, as mulheres têm uma sensação de segurança maior do que os homens. Elas não são as mais vulneráveis da sociedade e não precisam temer andar desacompanhadas, pois não correm um risco maior de sofrer violência sexual. Ou seja: exatamente o oposto do que vivemos.

É claro que Jordan criou uma explicação para que mesmo as sociedades tradicionais tenham “privilégio feminino”. Centenas de anos antes de a narrativa principal começar, os homens capazes de canalizar o Poder Único (ou seja, “fazer magia”) enlouqueceram e quase destruíram o mundo. As mulheres continuaram sãs. Isso repercute até o momento atual da história, no reino de Andor, governado sempre por rainhas. Em todo o universo, as mulheres são mais ouvidas, dominam as conversas e a política. Não é possível ter Aes Sedai, figuras poderosas que manipulam o destino das nações, sem que se crie um preconceito velado contra os homens dessa sociedade, fazendo com que as mulheres sejam consideradas mais confiáveis, competentes e perigosas. Alguns leitores se irritam com as personagens “mandonas” do livro por falta de costume, mas, para nós, qualquer obra em que as mulheres não ocupem apenas um papel submisso na trama é muito bem-vinda.

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(“Acha que tem direito de dizer como eu devo me vestir? Homem nenhum tem esse direito, nem sobre mim e nem sobre qualquer outra mulher! Se eu decidisse sair nua, isso não seria da sua conta!” Nynaeve, arrasando no quinto livro, As Chamas do Paraíso.” – Fonte)

* Flora e Rayssa são amigas, amantes de fantasia, feministas de carteirinha e fãs de A Roda do Tempo

testeO que você precisa saber sobre Amy Schumer, uma garota com mais do que uma tatuagem duvidosa nas costas

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Uma das grandes estrelas do show business americano, Amy Schumer é a primeira mulher a entrar para o ranking de comediantes mais bem pagos dos Estados Unidos da revista Forbes. Autora e estrela da série de TV Inside Amy Schumer, premiada com dois Emmys, e do filme Descompensada, indicado a dois Globos de Ouro, a americana de 35 anos confessa: é introvertida. Adora sexo e adora falar sobre sexo, embora seu rol de experiências possa ser um pouco decepcionante para quem está acostumado a assistir suas apresentações de stand-up: foram 28 caras. Nenhuma mulher. Apenas um episódio (fantástico, diga-se de passagem) de sexo casual. E nenhum ato anal.

A primeira lembrança que Amy tem de qualquer momento de sua vida é a comida disponível. Teve experiências para lá de frustradas na carreira de garçonete, cresceu em uma família rica que perdeu tudo e passou um bom período da faculdade vivendo a base de bolinhos chineses. O pai dela tem esclerose múltipla. Amy roubava lojas de departamento durante a adolescência e teve alguns relacionamentos abusivos — e algumas transas memoráveis.

 
untitledEm uma hilária e muitas vezes comovente conversa entre amigas, Amy Schumer narra em A garota com a tribal nas costas, suas experiências como filha, amiga, namorada, mulher e comediante. Expõe em detalhes as experiências que a tornaram quem é, e reflete sobre temas vividos por muitas outras garotas, como abuso sexual, o longo caminho para entender como confiança e autoestima não devem vir da pessoa com quem você está transando e a conflituosa relação com a mãe.

Com a inteligência e o humor ácido que conquistaram plateias no mundo inteiro, Amy Schumer prova, nessa reunião divertida e honesta de crônicas extremamente pessoais, ser uma pessoa destemida, dona de um coração generoso, e uma criativa contadora de histórias.

A garota com a tribal nas costas chega às livrarias a partir de 17 de outubro.

testeAs vantagens de “ficar para titia”

Por Julia Wähmann*

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(fonte)

Quase toda família, tradicional ou não, tem em seu elenco a “tia solteirona”. Ela é aquela que não se casou, não teve filhos, e que provavelmente passou a vida escutando dos avós, tios e primos a pergunta mais temida por todas as mulheres que chegam sozinhas — ou ao menos sem a lacuna “casada” preenchida em formulários que pedem informações sobre estado civil — a celebrações de Páscoa, Natal ou a qualquer almoço de domingo: “Mas como você ainda está sozinha?” Estão implícitas certa pena, desconfiança e a constatação de que, em algum nível, determinados status de relacionamento são uma sentença de fracasso. Se você é ou está prestes a se tornar a solteirona da família, ou se de alguma maneira já se percebe como depositária dessa herança, então precisa conhecer Kate Bolick.

Jornalista e editora americana, Bolick despertou em mim empatia imediata, assim como Bridget Jones o fez, mais de uma década atrás. Se a britânica e atrapalhada Bridget — lutando contra os quilos a mais e desafinando em frente à TV em um pijama ridículo num sofá soterrado por lenços de papel e vodca — é a personagem fictícia que deu a mão a várias mulheres solteiras, Bolick é uma figura real que repete o gesto através de Solteirona: O direito de escolher a própria vida, seu primeiro livro.

capasolteironagrandeEla começa por esclarecer as origens do termo solteirona, ou spinster, em inglês: na Europa do século XV, o termo era usado para descrever as tecelãs não casadas. O ofício era um dos poucos destinados às mulheres que impunha respeito, e a partir do século XVII outras mulheres que não exerciam a profissão também passaram a ser chamadas, honrosamente, de spinsters. É na América Colonial que a designação muda de tom e que a palavra solteirona começa a soar pejorativa e ofensiva. Atualmente, boa parte dos dicionários americanos reconhece o caráter depreciativo do termo. Ao resgatar a etimologia da palavra, Kate Bolick já estabelece que não há por que se envergonhar de pertencer a esse grupo.

O caminho literário de Kate foi marcado por cinco escritoras, sendo a mais velha nascida em 1860 e a mais nova em 1917, que ela considera suas “despertadoras”. Neith Boyce, Maeve Brennan, Charlotte Perkins Gilman, Edna St Vincent Millay e Edith Wharton deixaram obras em prosa e verso, inspiraram movimentos feministas e tiveram vidas que jamais poderiam ser definidas ou regidas por um casamento, ainda que algumas delas tenham sido casadas. As “despertadoras” são pontos de partida para que Kate desenvolva uma pesquisa mais ampla sobre o casamento no decorrer dos séculos XIX e XX e sobre como a instituição trata os gêneros masculino e feminino com uma diferença que acaba por atuar como uma sentença cruel para o segundo.

A partir da década de 1950, as mulheres solteiras começam a ser mais duramente estigmatizadas e passam a constituir uma dentre diversas outras minorias. Kate observa algumas possíveis categorias para elas. Amo o fato de que a Estátua da Liberdade é citada como exemplo do modelo de solteirona “abnegada” (assim como adoro a observação de Kate a respeito do poliéster inflamável de que são feitas as fantasias de princesas para crianças, e o livro está repleto desses trechos de humor sutil e afiado).

Entre as “excêntricas adoráveis”, rol em que provavelmente também transita a “louca dos gatos”, está Mary Poppins. A Mulher Maravilha e Joana d’Arc são reconhecidamente as “poderosas”. Independentemente do rótulo, a solteirona é com frequência vista como uma anomalia, afinal desde cedo as mulheres aprendem que ter um marido é tão natural quanto possuir dentes. Parecia antinatural, portanto, que Kate evitasse o casamento, mesmo quando estava seriamente envolvida com candidatos ideais e portadores de excelentes credenciais.

Ao revelar a própria trajetória profissional em paralelo a suas histórias afetivas, Kate recorre às “despertadoras”, cujas biografias pouco atenderam às expectativas convencionais de épocas distintas, e mostra como os padrões culturais e sociais de comportamento aprisionaram e ainda aprisionam mulheres que não compartilham dos sonhos da maioria. A certa altura do livro, ela afirma que “quase toda escritora que conheço teve de decidir em algum ponto se aceitaria um trabalho para escrever sobre sua vida afetiva, um dilema que quase nunca é apresentado aos homens”. As imposições de um pensamento arraigado em valores machistas e patriarcais atuam com a mesma violência com que os espartilhos machucavam os corpos das mulheres, levando-as a acreditar que o problema está nelas mesmas, e não nas pressões externas.

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Felizmente, ao optar por retraçar o próprio caminho, Kate o faz com o objetivo de desmistificar as lendas, dosando memórias e experiências pessoais com uma pesquisa de grande relevância para se pensar o lugar da mulher hoje. Gosto muito da passagem em que ela mostra como uma maior autonomia pode ser enriquecedora, e como o estilo de vida de uma solteira pode ser bem mais complexo e interessante do que parece: “Ser solteira é como ser artista, não porque criar uma vida de solteira funcional seja uma arte, mas porque requer a mesma atenção detalhada às necessidades singulares da pessoa, além de vontade e foco para supri-las. Assim como a artista ajusta sua vida em torno da criatividade, sacrificando confortos convencionais e até aceitação social, sono e alimentação de acordo com seus próprios ritmos (…), uma pessoa solteira precisa pensar muito para decifrar o que a deixa mais feliz e satisfeita. Estudos mostram que uma mulher que vive sozinha tem mais probabilidade de ter uma vida social ativa e de manter laços familiares do que suas colegas casadas, não apenas porque ela tem mais tempo à disposição, mas porque são exatamente esses laços que a sustentam.” Não se trata de defender uma existência autocentrada ou reclusa, ao contrário. Trata-se de buscar um autoconhecimento a fim de estabelecer relações (de qualquer natureza) mais sólidas.

Além disso, o livro é uma bela homenagem  às “despertadoras” (de quem quero ler absolutamente tudo), e pode ser interpretado como uma tradução precisa da ideia de sororidade, termo bastante presente em artigos e estudos que tratam de feminismo. Como leitora, me senti convidada a conhecer as obras dessas autoras quase como se fizesse parte de um clube de leitura, de um coro de vozes.

Já faz anos que, em um jantar com casais de amigos em que eu era a única solteira — e por diversas razões venho reafirmando essa escolha —, um dos rapazes fez a piada corriqueira, até por saber do meu gosto por animais de estimação, dizendo que no futuro eles iriam me visitar numa casa espaçosa habitada por muitos gatos. Respondi dizendo que os felinos me dão alergia, e que ficava feliz de ele achar que seria bem-sucedida o suficiente para ter um imóvel que pudesse abrigar uma porção de cachorros. Hoje rimos da história. Meu exemplar de Solteirona, marcado com post-its e dobras, ganhou um lugar especial na estante, colado ao Diário de Bridget Jones, minha solteirona ficcional preferida que, tenho certeza, teria muito o que conversar com Kate.

>> Leia um trecho de Solteirona: O direito de escolher a própria vida

 

Julia Wähmann é escritora. Em 2015 publicou Diário de Moscou (Megamíni/7 Letras) e André quer transar (Pipoca Press). Em 2016 publica Cravos (Record, no prelo).

testeLista de autoras que tratam do universo feminino

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Quantos livros escritos por mulheres vocês leram recentemente? No Dia Internacional da Mulher, convidamos os nossos leitores a conhecer obras de autoras publicadas pela Intrínseca. Os livros abordam questões como empoderamento feminino, violência doméstica, igualdade de gênero e maternidade, temas importantes para discutirmos a data, além de histórias de ficção com personagens femininas fortes.

 

Confira a lista:

A arte de pedir, de Amanda Palmer — Amanda é cantora, produtora, compositora e artista plástica. Nesse livro, ela levanta a bandeira do feminismo, questiona a maneira como lidamos com o casamento e fala abertamente sobre a liberdade das mulheres para fazer o que quiserem com seus corpos. A obra foi inspirada em uma palestra ministrada no TED Talk e narra também a experiência bem-sucedida da autora em campanhas de financiamento coletivo para projetos artísticos. Leia também: A arte de ser Amanda Palmer

Pequenas grandes mentiras, de Liane Moriarty — O livro mais recente da autora aborda temas como violência doméstica e sexual e bullying. A obra conta a história de três mulheres que aparentemente têm uma vida perfeita em uma pequena cidade da Austrália. Madeline é forte e passional, Celeste é dona de uma beleza estonteante e Jane é uma mãe solteira recém-chegada na cidade. Os filhos dessas três mulheres estudam na mesma escola, onde acontece uma misteriosa tragédia que as envolve.

Precisamos falar sobre o Kevin, de Lionel Shriver — Nesse livro, Lionel constrói uma personagem muito forte e humana, que emocionou milhares de pessoas. Na obra, uma mãe escreve cartas ao pai do seu filho Kevin, na tentativa de compreender o motivo do assassinato em massa cometido pelo adolescente na escola. Ela rememora cada minúcia da vida conjugal e faz o antielogio da maternidade ao explicitar os instintos sombrios, diariamente menosprezados, por trás dos sagrados laços de família.

Não sou uma dessas, de Lena Dunham — Lena já foi considerada a voz de sua geração por falar abertamente de assuntos polêmicos. Criadora, produtora e atriz de Girls, ela conta a história da sua vida e aborda temas como sexo, culto ao corpo, violência sexual, amizade e a luta para ser reconhecida na carreira aos vinte e poucos anos. Leia também: As causas de Lena

P.S.: Ainda amo você, de Jenny Han — SPOILER!
Na continuação de Para todos os garotos que já amei, Lara Jean está em um relacionamento de verdade pela primeira vez na vida, mas ainda está aprendendo a lidar com as dificuldades de um namoro. Nesse segundo livro, Jenny Han aborda o feminismo de uma forma sutil e levanta a questão sobre o vazamento de imagens íntimas.

Primatas da Park Avenue, de Wednesday Martin — Wednesday é ph.D. e lecionou estudos culturais em Yale, onde concluiu o doutorado em literatura comparada e estudos culturais com foco em antropologia e história da psicanálise. No livro, ela analisa a região do Upper East Side, área mais rica de Nova York, e aponta o comportamento das moradoras que sofrem com depressão, vícios e ansiedade por serem as principais responsáveis pela criação dos filhos e terem que se adequar aos padrões rígidos de beleza e status social. Wednesday utiliza seus conhecimentos para questionar a obrigação da mulher de estar sempre perfeita e se dedicar 100% às crianças. Leia também: A tribo escondida por trás dos luxuosos prédios de Nova York

História do Futuro: O Horizonte do Brasil no Século XXI, de Míriam Leitão — A premiada jornalista apresenta dados que ajudam a compreender o atual cenário brasileiro. Resultado de quatro anos de pesquisa, a obra indica tendências e aponta reflexões sobre demografia, política, economia, educação, meio ambiente, temas importantes para as leitoras que querem estar informadas.

A garota que você deixou para trás, de Jojo Moyes — Nessa obra, Jojo apresenta personagens corajosas e determinadas.  O romance conta a história de Sophie, uma francesa obrigada a se separar do marido, o jovem pintor francês Édouard Lefèvre, durante a Primeira Guerra Mundial.  Vivendo com os irmãos e os sobrinhos em sua pequena cidade natal, agora ocupada pelos soldados alemães, ela apega-se às lembranças admirando um retrato seu pintado pelo marido. Quando o quadro chama a atenção do novo comandante alemão, Sophie arrisca tudo — a família, a reputação e a vida — na esperança de rever Édouard, agora prisioneiro de guerra.

Quase um século depois, na Londres dos anos 2000, a jovem viúva Liv Halston mora sozinha numa moderna casa com paredes de vidro. Ocupando lugar de destaque, um retrato de uma bela jovem, presente do seu marido pouco antes de sua morte prematura, a mantém ligada ao passado. Quando Liv finalmente parece disposta a voltar à vida, um encontro inesperado vai revelar o verdadeiro valor daquela pintura e sua tumultuada trajetória. Ao mergulhar na história da garota do quadro, Liv vê, mais uma vez, sua própria vida virar de cabeça para baixo.

Operação impensável, de Vanessa Barbara — Vanessa é uma jovem e premiada autora brasileira. Com humor ácido e muitas referências sobre cinema, ela narra o fim de um casamento entre a historiadora Lia e o programador Tito marcado por e-mails espirituosos, vocabulário próprio, muitas sessões de cinema e longas e disputadas partidas de jogos de tabuleiro.

Objetos cortantes, de Gillian Flynn — Gillian é conhecida por criar personagens femininas ambíguas e perturbadoras. Em seu livro de estreia, a autora conta a história de uma jovem repórter que investiga casos de assassinato ao mesmo tempo em que tenta sobreviver a uma família completamente disfuncional.

testePare de sentir culpa: a mulher perfeita não existe

Por Vanessa Mello*


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“Dez passos para perder aquela gordurinha localizada” ou “cinco dicas para estar linda em qualquer situação”. Quantas vezes já nos deparamos com chamadas como essas em revistas femininas? Quantas vezes já nos sentimos mal por estar fora do padrão estético imposto pela sociedade? A busca infinita para ser a “mulher ideal” traz sérios problemas e só causa frustração.

Em defesa das mulheres de verdade — sem retoques de Photoshop —, as irmãs gêmeas Anne-Sophie Marie-Aldine Girard decidiram escrever um livro para falar do assunto. E foi essa descrição que chamou a minha atenção na reunião que fazemos na editora para discutir os lançamentos do mês.

Decidi ler o livro porque fiquei curiosa com o título. No primeiro momento, parecia ofensivo. Porém eu estava disposta a entender como as autoras poderiam falar de um tema tão sério com ironia. Já perdi a conta de quantas vezes estive em uma mesa de bar com as minhas amigas e ouvi: “Preciso perder uns cinco quilos.” Para não ser hipócrita, assumo que também já falei (e falo) que eu deveria perder peso para me sentir melhor.

Capa_mulherperfeitavaca_300dpiMas é cansativo viver assim. Ter um corpo maravilhoso, resistir aos doces, estar sempre arrumada e lutar o tempo inteiro para ser perfeita só nos deixa… chatas! Nunca seremos como as modelos ou como as blogueiras do Instagram que acordam às 5h para “treinar”. Eu, por exemplo, não tenho a menor vocação. Sou baixinha, como chocolate todos os dias, pago os maiores micos, nunca faço as unhas e ainda não sei me equilibrar em sapatos de salto.

E por que eu teria que saber? Com muito bom humor, as autoras mostram que eu sou normal, e isso é incrível! Elas apresentam situações com que qualquer garota pode se identificar. Quem nunca inventou uma desculpa para ficar em casa assistindo ao reality show preferido? Quem nunca disse que ia começar a academia na segunda-feira, desistiu e ficou tudo bem depois?

Com testes, listas e frases engraçadíssimas (e algumas impublicáveis aqui), as gêmeas nos lembram de como é importante aceitar nossas bizarrices e celulites. E o principal: ensinam a se divertir, sem medo, porque a mulher perfeita não existe. Ela é uma vaca.

Confira as listas:
Lista de músicas vergonhosas, mas que amamos mesmo assim
Como saber se você tem uma vida de merda


Vanessa Mello
é assistente de mídias sociais no departamento de Marketing. Ama Nutella, praia, histórias emocionantes e viagens. E só quer continuar sendo uma mulher normal quando crescer!