testeAs mentiras que contamos para sobreviver

Confira a entrevista com Michelle Sacks, autora de Você nasceu para isso.

Por João Lourenço*

Shakespeare já disse lá no século XVI: “O mundo inteiro é um palco. E todos os homens e mulheres não passam de meros atores. Eles entram e saem de cena, e cada um no seu tempo representa diversos papéis.”

Em tempos de redes sociais, nós, os atores, viramos avatares belos e felizes, representando papéis que não permitem demonstração de fraqueza e vulnerabilidade. Essa pressão por uma vida perfeita (ainda que de mentira) gera ansiedade, estresse, distúrbios emocionais… Afinal, quem aguenta ser feliz o tempo todo?

O romance de estreia de Michelle Sacks aborda exatamente essas questões. Em Você nasceu para isso, os personagens vivem uma felicidade difícil de sustentar. “Interpretamos papéis, seja de esposa, marido, amigo. Esse tipo de performance está ligado à ideia de felicidade. Muitas vezes interpretamos papéis de pessoas felizes, e o resultado disso pode ser devastador”, acredita a autora. 

Você nasceu para isso acompanha a crise de identidade de um jovem casal americano. Após um escândalo, eles deixam Nova York e se mudam para uma casa modesta no interior da Suécia. Nesse novo ambiente, Sam e Merry se esforçam para ser a família perfeita. Merry procura ser tudo que o marido espera que ela seja e assume o papel de esposa-modelo. Cuida do bebê, da casa, do jardim e das refeições da família. Sam é o “homem alfa”, forte e orgulhoso. A performance de família feliz é abalada quando eles recebem a visita de Frank, a melhor amiga de Merry. Segredos são revelados, e, quando as máscaras caem, a verdade se impõe.

O livro é narrado em três perspectivas diferentes. Os diálogos não são marcados por aspas ou travessões. E a autora cria mecanismos que permitem ao leitor entrar na consciência de cada um dos personagens. A ideia para o romance surgiu quando Michelle estava de férias em um chalé na Suécia. Ali, tudo parecia “perfeito demais”, e ela começou a refletir sobre o que poderia existir por baixo daquela superfície tranquila. A autora acredita que um dos maiores problemas em nossa vida é a ilusão. “Precisamos contar histórias para sobreviver. Histórias que nos ajudam a enfrentar as dificuldades do presente. Essa negação da verdade é responsável por nos colocar em apuros o tempo todo.”

Michelle Sacks conversou com a Intrínseca por telefone. Confira:

 

Intrínseca: As personagens de Você nasceu para isso são pessoas difíceis e, ao mesmo tempo, geram empatia. Como foi o processo de escrever um livro marcado por sentimentos conflitantes?

Michelle Sacks: O livro me causou um esgotamento emocional. Meu humor oscilou bastante. Durante o processo, percebi que me transformei também em uma pessoa difícil de conviver. Fiz uma pesquisa sobre trauma e li vários relatos horríveis. Foi um livro difícil de escrever, os personagens carregam bastante bagagem emocional. Apesar de se tratar de personagens fictícios, no limite do comportamento humano, em alguns momentos cheguei a acreditar que aquelas pessoas fossem reais. 

 

I: A protagonista está presa em uma espécie de “tirania da felicidade”. Ela vive uma performance difícil de sustentar. Essa questão identitária também afeta os outros personagens. Comente um pouco sobre isso. 

MS: Ela quer ser a pessoa que todo mundo espera que ela seja. Merry é uma tela em branco, pois não confia muito em si mesma. Ela passou muito tempo flutuando pela vida, esperando alguém dizer quem ela era. Quando casa, assume a personalidade imposta pelo marido: a dona de casa e mãe perfeita. Em geral, ainda vivemos em uma sociedade que desconfia da mulher solteira e sem filhos. Esses rótulos trazem vergonha para a mulher. Muitas passam a acreditar que nunca serão felizes sem filhos e solteiras.

 

As redes sociais tornaram esse fenômeno ainda pior. Nossas vidas são editadas ao extremo.

Um dos maiores problemas que vivemos é a ilusão. Os seres humanos são propensos ao delírio. Muito disso tem a ver com nossa ferramenta evolutiva de sobrevivência. Precisamos contar histórias para sobreviver, precisamos contar histórias para acreditar que as coisas vão ficar bem no futuro. Essas histórias nos ajudam a enfrentar as dificuldades do presente. Somos bons em não ver o que está diante de nós, então inventamos desculpas para sustentar nossas narrativas. Essa negação da verdade é responsável por nos colocar em apuros o tempo todo. 

 

 

I: Além de rigoroso, o inverno na Suécia é marcado por dias curtos. Há vários estudos que afirmam que esse tipo de clima pode enlouquecer uma pessoa. Você explorou esse fenômeno no livro. Fale um pouco sobre isso. 

MS: Essas mudanças no clima afetam nossa personalidade. Pessoas em climas tropicais, como vocês no Brasil, costumam ser mais amigáveis. Pense o contrário. O lugar do livro tem um inverno difícil, que força as pessoas a se isolarem. Essa ideia de alienação, de pessoas exiladas, longe de casa, foi algo que me guiou. Queria explorar a ideia de ser uma pessoa em um lugar que não é o seu.

 

I: O livro foi escrito na mesma época em que você pensava em ser mãe. Como essa experiência se refletiu na narrativa? 

MS: Não foi algo consciente, mas hoje percebo que explorei meus maiores medos sobre a maternidade usando as vozes dos meus personagens. Fiquei presa nesse loop infinito entre ser ou não mãe. Coloquei todas as dúvidas na mesa: a questão emocional, racional, biológica, tudo que uma criança pode vir a representar. Cheguei a ler um livro de um psicólogo francês sobre mães que se arrependeram da maternidade. Essas questões delicadas encontraram espaço no livro. 

 

I: Hoje costuma-se discutir bastante sobre o lugar de fala do autor. Você escreveu sobre maternidade, mas ainda não teve filhos. De alguma forma você se sentiu julgada por abordar esse assunto?

MS: Até o final do livro cheguei à conclusão de que gostaria de ter filhos, mas tive alguns problemas de saúde que atrasaram um pouco as coisas. Agora, estou no estágio de aceitar que talvez isso não aconteça da forma que imaginei. Não me sinto julgada por não ter filhos e escrever sobre maternidade. Na verdade, recebi comentários positivos de mães de todas as idades. Elas se sentiram representadas nas questões de isolamento e de tédio que abordo no livro. 

 

I: As relações entre as personagens são carregadas de segundas intenções. Há um clima enorme de competição entre elas, muitas vezes uma competição destrutiva. Toda relação humana é acompanhada de competição? 

MS: Tenho fascínio por assuntos como a biologia evolutiva. Muitos assuntos que discutimos hoje têm a ver com isso. Competição não é ideal para nenhum tipo de relacionamento, incluindo a amizade. Porém, não podemos ignorar que a natureza do ser humano é bastante competitiva. Temos essa necessidade de preservar nossos recursos, que podem variar de status social a até mesmo a água de um poço. Como amigos, como parceiros ou como nós mesmos, progredimos melhor quando eliminamos o espírito competitivo.

 

I: Merry e Frank são amigas de infância. Apesar de ser uma relação tóxica, elas insistem em manter essa amizade. Você se encontrou em uma situação parecida? 

MS: Já estive em uma amizade em que não me sentia bem. Tinha a sensação de que estava sendo enganada, de que eu era uma pessoa descartável. Muitas vezes sabemos o que é bom para a gente, mas a gente vive em uma bolha de ilusão. Não sei se o mesmo acontece entre homens, mas a amizade feminina é bastante curiosa. As mulheres podem ser muito amorosas entre si, mas, ao mesmo tempo, elas podem manipular e fazer jogos emocionais.

 

Nós, mulheres, temos dificuldades em encerrar uma amizade. Muitas vezes as pessoas simplesmente mudam, estão em fases diferentes da vida. Nada de ruim precisa acontecer para acabar uma amizade. Ou seja, acho que é saudável deixar algumas pessoas no passado em vez de continuar insistindo em uma conexão que não existe. 

 

I: Você voltou à Suécia para passar três meses no mesmo lugar que a inspirou a escrever o livro. Quais as melhores características do país? 

Em geral, as pessoas parecem viver muito bem. Você não encontra pessoas estressadas. Do motorista de ônibus até a caixa do supermercado, todos trabalham felizes, têm uma vida decente. Isso tem muito a ver com as políticas sociais do país. Eles parecem ter compreendido a real importância da vida. Também admiro como eles se preocupam com a natureza e com a igualdade de gênero. Há um clima de esperança no ar e isso me surpreende, ainda mais quando você vem de um país caótico como a África do Sul. 

 

*João Lourenço é jornalista. Passou pela redação da FFWMAG, colaborou com a Harper’s Bazaar e com a ABD Conceitual, entre outras publicações estrangeiras de moda e design. Atualmente está em Nova York escrevendo seu primeiro romance.

testePelo fogo ou pela água, segredos de família sempre vêm à tona

Crises familiares, passados ocultos, mentiras, tribunais e incêndios criminosos: esses são alguns dos temas de Pequenos incêndios por toda parte, novo livro da autora de Tudo o que nunca contei.

Celeste Ng é uma escritora americana de origem asiática que está conquistando milhares de leitores ao explorar os conflitos de família que costumam ficar por baixo dos panos. Em uma linguagem clara, porém sensível, ela aborda assuntos delicados sem a pretensão de causar polêmica, muitas vezes trazendo referências da própria infância nos Estados Unidos. Seus dois trabalhos já publicados alcançaram o topo das listas de livros mais vendidos pelo mundo afora e em breve ganharão versões audiovisuais. Tudo o que nunca contei será adaptado para o cinema pelo produtor Michael De Luca (de A Rede Social) e Pequenos incêndios por toda parte se tornará uma série produzida e estrelada por Reese Witherspoon (de Big Little Lies).

Seu novo romance, Pequenos incêndios por toda parte, chega às livrarias no dia 2 de maio e narra a cadeia de eventos que abalou as estruturas de uma cidade planejada para ser o lugar ideal. Com ênfase nos Richardson – uma família tradicional com pais conservadores –, as relações entre mães e filhos, locatários e inquilinos, mães adotivas e biológicas e entre amigos de diferentes classes sociais trilham o tortuoso caminho repleto das faíscas que levam ao ponto de partida da história: um devastador incêndio criminoso na casa da família protagonista. Confrontando a aparente perfeição que permeia a cidade de Shaker Heights, Celeste explora os fios soltos dos personagens para entender as razões por trás do acontecimento até então inexplicável.

O livro de estreia da autora, Tudo o que nunca contei, foi publicado pela Intrínseca em 2017 e será relançado no próximo mês com uma nova capa. Ele conta a história de uma família de ascendência chinesa nos Estados Unidos da década de 1970 que tem seus segredos mais profundos revelados após o corpo da filha mais nova ser encontrado em um lago.

testeO que te faz #AlucinadamenteFeliz?

Alucinadamente feliz não é apenas o título do sensacional livro de Jenny Lawson, é também o nome de um movimento criado pela autora em seu blog pessoal. A ideia é que você busque maximizar os momentos de alegria, para que, quando os momentos ruins chegarem, tenha sempre a lembrança de que fez coisas incríveis.

No espírito do movimento, perguntamos aos nossos leitores no Twitter e Instagram o que os faziam Alucinadamente feliz(es). Confira algumas das respostas:

@wannamomsen – “Muitas coisas. Desde contemplar o nascer do sol, passando pelo cheirinho de livros novos e até mesmo um bom dia de descanso 💕”

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@ps_ticreu – “Saber q esse mês o quinto volume da Roda do Tempo vai chegar”

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@Crlhmanu – “Estar com quem me quer bem, me faz bem e me traz o bem 🍃💞”

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@isistomie – “Um abraço e muitas cócegas na minha filha 💖 me deixa #AlucinadamenteFeliz 😘”

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@sarahkaroline_ – “A simplicidade de cada momento, seja em casa, na rua, em uma roda de amigos 💛”

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@ccarvalhoss – “Coisas simples, como passar momentos em família, e claro passar o dia lendo.”

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@_bookhunter – “Você está na seção de casacos de uma loja e sempre quis saber se conseguiria vestir mais de cinco de uma vez? Vá em frente! (A menos que um funcionário furioso se aproxime, aí é melhor abortar a missão e bater em retirada.) Ser feliz é viver sem se preocupar com o que os outros vão pensar de você. É não ficar se policiando e reprimindo vontades apenas por não querer ‘pagar mico’ na frente de estranhos. Ser feliz é não ter medo de ser quem você é.”

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Foto por @_bookhunter

>> Leia um trecho de Alucinadamente feliz

 

testeVerdadeira história de pescador

Estive no médico dia desses. O doutor, mapeando meu passado, quis saber se eu ainda tinha os avós vivos e, se não os tinha mais, qual havia sido o motivo da mortes e em que idade haviam falecido. Fiquei ali alguns minutos rememorando as desditas familiares (meus quatro avôs já se foram), e por instantes me senti traçando as linhas gerais de um romance. Fui embora um pouco pesarosa de saudade.

Meu avô materno morreu aos 65 anos. Minha avó materna, não conheci — morreu antes do casamento dos meus pais e deixou aura de “santa”, como todas as pessoas que morriam cedo antigamente. Minha avó paterna era uma senhora que viu de tudo neste mundo até morrer, por engano, aos 87, quando baixou no hospital para fazer exames e uma enfermeira desatenta ministrou-lhe o remédio da paciente da cama ao lado. Nisso eu já era moça e me lembro bem do desconsolo ¾ a avó Maria certamente chegaria aos 100.

Meu avô paterno era catarinense e tinha um nome que sempre me evocou fantasias: Bertuíno. Apesar do nome que faz lembrar aqueles homens do deserto, nada tinha de brutal ou selvagem. Ao contrário, era calado, custando para cuspir uma palavra, mas olhava o mundo com olhos meio tristes. Gostava mesmo era de pescar, e foi pescando que teve a premonição de que iria morrer no inverno seguinte.

Bertuíno pescava de tarrafa, aquelas redes circulares que se lançam à mão. Todo verão, no fim de março, ele chamava um dos netos e dizia: “Meu filho, pegue esta tarrafa pra ti; o avô está velho e não passa deste inverno.” No verão seguinte, estava o avô outra vez, e sem tarrafa ¾ lá se ia meu pai a comprar-lhe outra para as pescarias. Foi assim durante muitos anos. O avô Bertuíno chamava um neto e passava adiante a rede porque estava velho, e, para ele, tempo de velho morrer era no inverno. Distribuiu fartamente suas tarrafas, pois tinha dezenas de netos dos seis filhos que fez na mulher — eram sete, mas um deles, em criança, afogou-se num açude.

Numa pescaria noturna, no fim de um verão, uma veia se lhe rebentou dentro do nariz e ele prosseguiu pescando, pescando, enquanto seu sangue se esvaía no escuro e tingia o mar. O avô, depois de muito sangue perdido, caiu na água sem sentir e foi levado ao pequeno hospital praiano, onde, já em estado de choque, recebeu precário atendimento. Não iria morrer ali, mas aquele foi o começo de sua morte. Para um velho pescador, tinha lá seu encanto, derramar o sangue no mar… Ele morreu alguns anos depois, num começo de outono. Depois de tantos verões, não teve decerto paciência de esperar a chegada de outro inverno.

testeBrigas em família

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Dolores Sherwood e Jorginho Guinle (fonte)

Em uma confraternização de fim de ano tipo Clube do Bolinha, ou seja, com homens apenas, escutei uma longa e variada lista de relatos de brigas familiares. O tema se justificava, pois no Réveillon as famílias em geral se reúnem e o ambiente muitas vezes fica propício a arreglo de velhos contenciosos.

Cunhados e cunhadas, parentes e agregados incorporados ao clã por decisão de terceiros podem, em tese, causar muita confusão. Sua má fama foi eternizada pelos humoristas Hubert e Marcelo Madureira, que criaram o personagem Agamenon Mendes Pedreira, que, além de esposa, a Isaura, tem um cunhado esquisitão, o Enéas.

Mas nada deve ser tão chato quando duas cunhadas que se detestam e se tornam rivais. Foi o caso das esposas dos irmãos Carlinhos e Jorginho Guinle, um dos maiores playboys da época. O primeiro foi casado, entre 1951 e 1955, com a egípcia Irene Arbib; o segundo, com a americana Dolores Sherwood, de 1945 até 1955.

Irene estudou em Londres e era poliglota. Dolores, de acordo com a sogra, Gilda, era uma “reles garçonete”. A egípcia, morena; a outra, loira. Dolores chamava a rival de “Cleópatra dos pobres”, enquanto Irene dizia que Dolores fora manicure, para insinuar que a americana era suburbana.

Para o jornalista Antonio Maria, Dolores era parâmetro de beleza. Em 1954, para alegria de Irene, a rival ficou fora da lista das dez mais da prestigiada coluna do jornalista carioca Jacinto de Thormes. A vingança de Dolores, porém, foi implacável, já que acabou sendo eleita pela coluna do americano Gigi Cassini (20 milhões de leitores) uma das dez mais elegantes do mundo.

Dolores e Jorginho tinham um casamento diferente, que hoje talvez fosse chamado de casamento aberto. No Rio de Janeiro, especialmente nas colunas de fofoca, pipocavam histórias curiosas sobre seu comportamento. Mas ela não fugia da briga e passou a espalhar que Irene também não era nenhuma santa e fizera parte do harém do rei Farouk, do Egito. E mais: dizia que ele precisava ingerir pó de chifre de rinoceronte, ovos de pombos e outras esquisitices para dar conta de Irene.

Os Guinle conviveram com essa contenda ao longo de quatro anos. Irene chegara ao Rio de Janeiro em 1951 e ficou casada com Carlinhos até a morte dele, em 1955. No mesmo ano, Dolores se separou de Jorginho e foi morar na Europa. Sua saída intempestiva do Brasil causou certo desconforto na família. Não só porque saiu levando o filho, Jorginho, sem a autorização do pai, mas também porque pôs na mala um casaco de pele e um colar de esmeralda da sogra, Gilda, que jamais foram devolvidos.

testeDos amores

A amizade, um dos amores mais sábios. (via)

A amizade, um dos amores mais sábios. (fonte)

Amar alguém não é entender uma pessoa. A compreensão está bem mais perto da amizade — que é um tipo de amor, claro, mas que não guarda a ânsia do amor.

Existem, porém, amores profundos, atávicos — filhos, amantes, certas pessoas da família a quem queremos especialmente bem —, os quais, por mais fortes que sejam, passam muito longe da compreensão. A gente ama e fim. Temos que lidar com a enormidade abstrata desse afeto.

Passamos a vida cuidando dos nossos amores, daqueles verdadeiramente importantes para nós. Com o correr do tempo, na maioria dos casos, vemos que eles precisam de coisas muitas vezes inalcançáveis, e que estas coisas — sonhos, projetos, ambições — podem não nos dizer absolutamente nada. Porque o amor não nos torna iguais. Existem amores intrínsecos, que levamos pela vida afora, como um fardo, uma alegria, uma dor, uma saudade…

Quase nunca podemos compreender as pessoas mais próximas a nós, assim como o que temos para lhes oferecer nem sempre é o que elas realmente querem. A vida é difícil. As relações sentimentais são cheias de arestas, que espetam aqui e ali. Deveríamos, no entanto, esquecer essa necessidade de satisfazer ao outro, entendê-lo e esmiuçá-lo. Poderíamos então abrir mão de que o objeto amado seja igual a nós.

Seria muito mais bonito querer as pessoas que nos são importantes com um amor mais simples, mais sóbrio, que humildemente dispensasse a necessidade da compreensão.