testeComo seria se você deletasse seus perfis e levasse uma vida diferente?

Quase um segundo documento de identidade, as redes sociais ganharam uma importância absurda na nossa sociedade. Com as novas mídias, podemos curtir, comentar e compartilhar os mais diversos tipos de conteúdo com o restante do mundo em questão de segundos.

Porém, nem sempre essas tecnologias são boas para a gente: vivemos em bolhas personalizadas, controladas pelos algoritmos, que utilizam as informações que compartilhamos para controlar nosso comportamento diariamente sem que a gente perceba. Mas como seria se você deletasse seus perfis e levasse uma vida diferente? Essa é a proposta de Dez argumentos para você deletar agora suas redes sociais.

O autor Jaron Lanier, uma das maiores referências do Vale do Silício, busca conscientizar e explicar com clareza o lado perverso das mídias sociais. E, mesmo que você não saia definitivamente delas, pode aprender a utilizá-las de uma maneira melhor.

Leia um trecho do livro:

Vamos começar com gatos. Os gatos estão por toda parte na internet. Estão nos memes mais difundidos e nos vídeos mais fofinhos. Por que mais os gatos do que os cachorros? Os cachorros não foram até os humanos antigos implorando para viver conosco; nós os domesticamos. Eles foram criados para serem obedientes. Aceitam ser treinados, são previsíveis e trabalham para nós. Isso não é nenhum demérito para os cachorros. É ótimo que sejam leais e confiáveis. Os gatos são diferentes. Eles apareceram e, em parte, domesticaram a si próprios. Não são previsíveis. Os vídeos populares de cachorros costumam mostrar treinamentos, ao passo que a maioria dos vídeos absurdamente populares de gatos são aqueles que expõem comportamentos estranhos e surpreendentes.

Embora inteligentes, os gatos não são uma boa escolha para quem quer um animal que aceite o treinamento de maneira confiável. Basta assistir a um vídeo de circo de gatos na internet: o mais comovente é que fica claro que os animais estão decidindo se colocam em prática o truque que aprenderam, não fazem nada ou saem andando em direção à plateia.

Os gatos fizeram o que parecia impossível: se integraram ao mundo moderno, de alta tecnologia, sem se entregarem. Eles ainda estão no controle. Você não precisa se preocupar que algum meme furtivo produzido por algoritmos, pago por um oligarca sinistro e oculto, passe a dominar seu gato. Ninguém domina seu bichano; nem você, nem ninguém.

Ah, como gostaríamos de ter essa segurança não apenas em relação a nossos gatos, mas a nós mesmos! Os gatos na internet representam nossas esperanças e sonhos para o futuro das pessoas na grande rede.

Ao mesmo tempo, ainda que a gente adore os cachorros, não queremos ser como eles, pelo menos no que se refere à relação de poder com as pessoas. Tememos, porém, que o Facebook e redes afins estejam nos transformando em cachorros. Quando do nada fazemos alguma coisa desagradável na internet, podemos considerar isso uma resposta a um “apito de cachorro”, daquele tipo que só pode ser ouvido por eles. Temos medo de ficar sob algum tipo de controle obscuro.

Este livro é sobre como ser um gato, à luz das seguintes perguntas: como permanecer independente em um mundo onde você está sob vigilância contínua e é constantemente estimulado por algoritmos operados por algumas das corporações mais ricas da história, cuja única forma de ganhar dinheiro é manipulando o seu comportamento? Como ser um gato, apesar disso tudo? O título não mente: este livro apresenta dez argumentos para você deletar todas as suas contas nas redes sociais. Espero que ajude. E mesmo que você concorde com todo o meu raciocínio, pode ser que ainda queira manter algumas contas. Enquanto gato, você está no seu direito. Ao apresentar os dez argumentos, discutirei algumas maneiras pelas quais você pode pensar sobre sua situação para decidir o que é melhor para a sua vida. Mas só você é capaz de saber.

testeAssista agora Tom vs Time, série original do Facebook com Tom Brady!

“Do que você está disposto a abrir mão para ser o melhor que você pode ser?”

Aos quarenta anos, Tom Brady tem tudo: carreira de sucesso, uma bela família e mais títulos mundiais de futebol americano do que qualquer outro jogador em atividade na NFL. Com tanto sucesso, quais desafios Brady ainda pretende enfrentar?

Em uma série exclusiva do Facebook, Tom Vs Time explora a mente de um dos atletas mais importantes dos Estados Unidos, e um exemplo de dedicação e foco para pessoas do mundo inteiro. Nos três documentários, a série mostra a tentativa de Brady de se manter no auge da carreira, sem abrir mão de sua família e valores.

Dividida em três partes — Mental, Social e Físico —, a série mostra o jogador usando as técnicas que apresenta em seu livro O método TB12. Tom Vs Time já está disponível (em inglês). Assista ao primeiro episódio abaixo.

Saiba mais sobre O método TB12.

testeSorteio Facebook – Mais destaques Bienal do Livro Rio (Encerrado)

 

Vamos sortear 3 livros que são destaques na Bienal do Livro Rio!

Para participar, compartilhe essa imagem em seu Facebook PUBLICAMENTE e preencha o formulário abaixo!

Atenção:
– Caso a mesma pessoa se inscreva mais de uma vez ela será desclassificada. Atenção: ao terminar de preencher o formulário aparece a mensagem “agradecemos a inscrição”. Espere a página carregar até o final para confirmar a inscrição
– Se você já ganhou um sorteio nos últimos 7 dias no FACEBOOK, você não poderá participar deste sorteio.
– O resultado será anunciado no dia 11 de setembro, Segunda-feira, em nosso perfil no Facebook. Boa sorte! 😉

Confira os vencedores abaixo:

 

testeNovas ideias, antigos ideais

Sede do Banco Boavista (Fonte)

Sede do Banco Boavista (Fonte)

Andei conversando com ex-funcionários do extinto banco Boavista. Tenho uma ligação afetiva com a casa, pois foi na agência da rua Voluntários da Pátria, em Botafogo, que abri minha primeira conta-corrente. Ao contrário dos estabelecimentos bancários de hoje, o Boavista dos anos 1970 tinha um clima familiar, todo mundo se conhecia pelo nome.

Em uma página do Facebook, ex-funcionários despejam saudosos elogios ao banco: “Não era trabalho, era uma casa de amigos e irmãos”; “Tempo bom demais!”; “Uma grande experiência.” Por meio dos relatos percebe-se que a empresa estimulava o crescimento profissional. Datilógrafas viraram gerentes de conta, telefonistas ascenderam ao Departamento de Cobranças, boys foram parar no setor de Valores. Segundo uma ex-bancária, a política de valorização dos empregados era única no setor bancário brasileiro.

Boa parte dessas histórias aconteceu no século XX, quando ainda não havia informatização e diversos procedimentos eram resolvidos por telefone. Então, como as pessoas não se conheciam pessoalmente, o banco organizava confraternizações. Há emocionados depoimentos de gente que se conheceu em festas no Canecão, no Tivoli Park, na Lagoa, no prédio da Candelária, no Centro, ou na sede campestre do município de Miguel Pereira (RJ). Um post resume bem o espírito da gerência: “O banco fazia de tudo para ver seus funcionários felizes.”

Não seria justo ignorar os elogios feitos ao dr. Linneu de Paula Machado, o grande timoneiro do Boavista. Ele ligava para os funcionários no dia do aniversário de cada um. Em 1994, no entanto, ele precisou se afastar para acompanhar a esposa aos Estados Unidos para um tratamento de saúde. Uma nova concepção de gestão foi inaugurada e a passagem do bastão parece não ter sido bem realizada. Os rigorosos critérios de concessão de crédito foram abandonados e os descaminhos foram de tal ordem que nem com o retorno do dr. Linneu, em 1998, foi possível reverter o quadro.

O Boavista me remete mais ao bairro Botafogo da minha juventude do que à família Guinle, proprietária do banco. Tanto que em Os Guinle não deixei clara minha relação afetiva com o banco. Porém, bastou entrar em uma única rede social para que uma ex-gerente me relembrasse que quase toda a minha família foi correntista do Boavista.

testeNovo livro de Clarice Freire

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Quando a noite fica mais escura e as ruas se calam, a maior parte das pessoas dorme e sonha. Algumas, porém, preferem o silêncio para sonhar acordadas. Clarice Freire, autora do best-seller Pó de lua, faz parte desse grupo. É nessa hora que costuma criar suas poesias e seus desenhos. Em seu segundo livro, Pó de lua nas noites em claro, ela vira a madrugada ao avesso em palavras e imagens, dedicando uma hora a cada capítulo, da meia-noite ao amanhecer. Além dos versos que conquistam o público desde 2013, quando foi criada a página Pó de lua no Facebook, Clarice alterna passagens em prosa e poesia, acompanhando sua personagem durante um longo e mágico passeio pela cidade quase deserta.

Com um humor delicado e muita sensibilidade, a autora desvenda a angústia e a alegria daqueles que preferem a noite ao dia. Sua personagem insone se rende ao desejo de sair da cama e andar pelas ruas em busca de si mesma. Descobre que não está sozinha. Os sentimentos e as lembranças ganham vida, e ela esbarra em personagens como um homem que vaga por viadutos, um vigia noturno e até um misterioso carteiro que lhe entrega correspondências às três da manhã. Com lápis de cor e tinta nanquim, Clarice ilumina a escuridão e continua fiel à missão de Pó de lua: diminuir a gravidade das coisas.

O novo livro chega às livrarias a partir de 14 de julho.

testeA caligrafia na era digital

 

e92a4fd1-f9a7-4197-8bc2-61000ce48eabUltimamente, tenho notado o constante surgimento de novas páginas nas redes sociais voltadas à poesia visual. Gostaria de evidenciar que falo aqui exclusivamente das páginas com conteúdo autoral, e não daquelas que buscam simplesmente colecionar likes ou contabilizar compartilhamentos. Reforço ainda que é possível, sim, ter muitos leitores e apresentar conteúdo de qualidade. Mas, para isso, deve-se primeiro criar algo que faça sentido para você e depois dividir esse sentimento honesto com o mundo. Caso contrário, você estará contribuindo apenas para colocar todos os poetas que surgem na internet no mesmo saco. Ou melhor, no mesmo dislike. Isso faz mal à poesia.

Por causa de páginas com frases soltas, pensamentos aleatórios, imagens escolhidas gratuitamente, sem propósito algum, todas as criações que ganham espaço no ambiente virtual acabam sendo chamadas pejorativamente de poesia fast-food. Particularmente, tenho dificuldade em engolir esse rótulo e acredito que um verso curto precisa de mais tempo para ser digerido do que um poema tradicional. Para se expandir, um sentimento condensado precisa muito mais da imaginação atenta do leitor do que qualquer outra manifestação escrita. Uma ideia reduzida engrandece o espaço para incontáveis interpretações.

Dentro dessa onda, há os que querem somente o aval do polegar erguido ao céu — e não os culpo por isso; todos devem seguir o que acreditam —, e também os que usam a internet como ferramenta para apresentar um trabalho conceitual, autoral e consistente. E é nesses que devemos nos concentrar. Um ponto em comum é que boa parte dessa nova geração, mesmo resultante de uma era digital, ainda tem uma preocupação em valorizar a palavra escrita: a caligrafia. Não que a palavra escrita tenha um peso ou um valor superior ao de uma palavra digitada. Tenho percebido que esses artistas estão usando a própria caligrafia ou valorizando alguma fonte já existente para apresentar suas criações. Isso é lindo. Num mundo onde as pessoas parecem cada vez mais perdidas, sem rumo, sem identidade própria, encontrar poemas, versos e desenhos feitos à mão é um respiro de esperança.

A caligrafia é sua personalidade. A caligrafia é você em forma de palavra. Se você pedir para cem pessoas digitarem a palavra AMOR, terá um amor padronizado: com a mesma fonte, o mesmo corpo. Faltará sempre uma alma! Agora, se pedir que essas mesmas pessoas escrevam essa mesma palavra à mão, terá cem amores diferentes. Cada uma terá seu próprio amor. Não que uma ame mais que a outra, mas, sem dúvida, escrever à mão a palavra amor mostra quanto se colocou de personalidade (alma!) naquele amor. A Liberdade manuscrita parece ser mais livre do que a liberdade digitada. A Esperança manuscrita parece esperar mais do que a esperança digitada. A Coragem manuscrita parece sentir menos medo do que a coragem digitada. A Poesia manuscrita parece domar melhor nossos gritos do que a poesia digitada. O Silêncio manuscrito parece dizer mais do que o silêncio digitado.

Tenho muito medo de que as pessoas não percebam a importância de um simples lápis e passem uma vida inteira sem ousar desafiar uma página em branco com as próprias mãos. Não estou dizendo que a tecnologia seja um atraso. Longe disso. (Sem ela, eu não estaria digitando este texto.)  Mas acredito que podemos juntar o analógico e o digital com criatividade e dar origem a algo realmente nosso. Então, prezado leitor, prezada leitora, use a tinta de sua história e escreva um poema, uma carta, um verso ou uma simples lista de compras. Mas, por favor, me dê sua palavra: use sua letra.

testeConectados anônimos

Ando apavorado com ladrões que invadiram minha vida. Quadrilha organizada, bem armada, treinada nas artes mais sórdidas da ilusão. Dotada de um arsenal ardiloso, de fazer inveja a qualquer gangue que já ousou cruzar meu caminho. Age nas sombras e rouba de forma sub-reptícia meus mais caros valores. Desde o instante em que abro os olhos, pela manhã, ela começa a agir, oprime e me deprime na cama por muito tempo. Medo, é o que tenho sentido.

Malditos ladrões de tempo!

Bandidos qualificados, nos becos escuros, como “redes sociais”. Patifes que têm se apropriado de conversas saudáveis durante cafés da manhã. Vigaristas que têm ocultado o prazer de dirigir olhando a paisagem. Meliantes que vêm bloqueando os outrora impagáveis momentos em família. Traficantes de ideias prontas e rasas, que oferecem seus produtos a incautos e não poupam nem sequer criancinhas inocentes e indefesas. O que será dessa geração de viciados, meu Deus?

A tática de oferecer o produto em doses cavalares, sem que tenhamos tempo para digerir a droga, ou vontade de trocá-la por algo não nocivo, é avassaladora. Um dia quase impensável sem usá-la, e então todo o carregamento já estará ali, novamente à mão, para que não precisemos passar por outras indesejáveis crises de abstinência. A prova de minha dependência: se esqueço o celular em casa, é delirium tremens na certa. Desculpas para voltar não faltam.

Para sair dessa, entretanto, não cabe recorrer a ninguém, senão a mim mesmo. Por isso, fiz uma adaptação do programa dos doze passos para todas as pessoas que, como eu, são conectados anônimos:

  1. Admito que sou impotente perante o WhatsApp.
  2. Acredito que um poder superior a mim vai me livrar do Facebook.
  3. Não vou entregar minha vontade aos cuidados do Messenger.
  4. Farei minucioso e destemido inventário dos livros na minha estante e vou ler todos que comprei e não li.
  5. Admitirei a natureza das minhas falhas e não mais navegarei por sites de notícia quando for hora de escrever uma história.
  6. Voltarei a entender que um filme no cinema é mais prazeroso do que no Netflix.
  7. Humildemente, postarei no Instagram fotos imperfeitas e sem tratamento.
  8. Farei uma relação de todas as pessoas que bloqueei nas redes e as encontrarei pessoalmente para um chope.
  9. Não perderei mais preciosos minutos bolando a frase de efeito demolidora em 140 caracteres no Twitter.
  10. Voltarei a escutar grandes músicas, deitado numa rede, sem precisar assistir ao clipe no YouTube ou procurar a letra no Vagalume.
  11. Por meio da meditação, não vou registrar cada passo meu no Snapchat.
  12. Após experimentar um despertar espiritual, graças a esses passos, procurarei transmitir essa mensagem aos conectados anônimos e praticar esses princípios em todas as minhas atividades.

Só por hoje.

testeLaudo de um viciado em internet

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O paciente começou com o hábito de assistir a vídeos de gatos na internet. Logo, dançava, com o fone nos ouvidos e os ombros imóveis, entre videoclipes no YouTube. O caminho foi curto para o Pornhub. Piorou com o nascente impulso de olhar tudo que amigos postavam no Facebook. Ele não se contentava com a Timeline comum. Tinha de percorrer todas as publicações, no canto superior direito da rede social, onde se vê cada passo das pessoas: o que curtem, o que compartilham, a quem respondem ou mesmo se estão interessadas em comparecer a um pré-bloco de Carnaval on-line — limito-me a dizer que não tenho ciência do que se trata tal evento.

— Cheguei a confirmar presença numa manifestação pela continuidade do churrasco na laje. Também curti o post de um amigo que escreveu “Só agora resolveram falar de David Bowie”. Compartilhei até um de um conhecido on-line que afirmou “Será que só eu tenho nojo de brigadeiro?”. E mantenho um perfil no MySpace. Tenho vergonha.

Quando deitou no divã, a situação havia progredido. Estava impossibilitado de direcionar a palavra ao interlocutor. Ao menos não sem uma microtela à frente. Com o aprofundamento da situação clínica, o paciente desenvolveu o hábito de percorrer posts no Facebook ou assistir a um protesto de artistas num vídeo de quinze segundos no Instagram, ao mesmo tempo que denunciava em palavras o próprio vício:

— Não consigo parar de rolar a barra para baixo.

Ele me apresentou ao Tor, um navegador clandestino de internet, na quinta sessão. Seu vício se estendia até ao que não gostava. Ganhou o costume de adquirir produtos ilegais, normalmente relacionados a drogas, no Silk Road. É notável que ele jamais tenha usufruído do que comprava nem tivesse vontade de usar drogas. Muitas vezes, recusava-se a abrir o pacote de entrega.

Poucas sessões depois o paciente já se dividia entre o Facebook, páginas pornô — deixava os vídeos em “play” mesmo quando não visava à autossatisfação; afirmava que era apenas pelo “prazer em ver a tela em movimento” — e canais diversos, e adversos, do navegador Tor. Por indicação de um amigo — contatado por um chat sobre vídeos de gatos —, tinha interesse crescente numa página especializada em imagens de acidentes de carros. Também demonstrava gosto por outra na qual um grupo de garotos filmava casas mal-assombradas. Contudo, evitava o que denominava de “bizarrices extremas”, a exemplo dos sites que contratavam pessoas para serem perfuradas com objetos pontudos de várias sortes, por livre vontade.

Na oitava sessão, contou que tinha reparado no sumiço de seu gato. Um real, não virtual. Parece que havia desaparecido fazia um tempo. O paciente, entretanto, declarava não lhe sobrar tempo para procurá-lo pelo condomínio de prédios onde morava.

Na décima segunda sessão, enquanto passeava por fotos de mulheres no aplicativo Tinder — tinha o hábito de também olhar retratos de homens, apesar de não se interessar sexualmente por eles —, lembrou-se de que havia tempo não conversava com a mãe por WhatsApp. Também relatou ter perdido a conta de dias que não marcava um encontro com um, aqui transcrito da forma narrada, “representante do sexo oposto”.

Na décima terceira sessão, disse ter descoberto que uma prima havia falecido 48 dias antes. Não sabia relatar se alguém o avisara da morte. Pesquisou em seu Gmail. Não achou e-mails relacionados ao assunto.

Na décima quinta, compartilhou que havia semanas faltava disposição para o trabalho. Fazia meses que adotara o home office. Agora, porém, nem matinha a produção em casa, conectado a dois smartphones, um tablet, um MacBook Air, um PC, uma Smart TV, um Apple Watch, um Google Glass, duas pulseiras de exercícios e três videogames.

Na décima sétima, soube que ele havia se divorciado. Isso alguns anos antes. Tínhamos nos esquecido de conversar sobre a questão, concluímos. O paciente falava pouco, por ter de revezar o olhar com um número crescente de dispositivos móveis.

Na vigésima, disse ter acabado o dinheiro que recebera pela rescisão de seu último contrato de trabalho. Tivemos de encerrar as consultas.

Voltei a saber do paciente num fórum sobre fãs de simuladores de aviação. Ele me reconheceu pela foto do perfil. Falamos “oi”. Ele não curtia simuladores de aviação.

 

***

 

Filipe Vilicic é autor de O clique de 1 bilhão de dólares e colunista no site da Veja. Twitter: @FilipeVilicic / Facebook: fvilicic

teste14 livros para as férias

Confira nossa seleção com 14 livros imperdíveis!

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Toda luz que não podemos ver, de Anthony Doerr — Nesse romance vencedor do Prêmio Pulitzer de Ficção de 2015, você vai conhecer Marie-Laure, uma garota que ficou cega aos seis anos e que vive em Paris com o pai, chaveiro responsável pelas fechaduras do Museu de História Natural, e Werner, um menino alemão, órfão, que se encanta por um rádio encontrado em uma pilha de lixo e cuja trajetória o leva a uma escola nazista. Combinando lirismo e uma observação atenta dos horrores da guerra, Toda luz que não podemos ver é um tocante romance sobre o que há além do mundo visível.

S., de J.J. Abrams e Doug Dorst — Para os fascinados por mistério, J.J. Abrams, a mente por trás de séries como Lost, Fringe e o diretor do último episódio de Star Wars, apresenta um quebra-cabeça literário. Resultado de sua parceria com Doug Dorst, S. vem em uma caixa lacrada, repleta de códigos. Além do enigmático romance O Navio de Teseu, a obra contém, em suas margens, as anotações e investigações de dois leitores sobre V. M. Straka — um escritor cuja biografia nebulosa é repleta de boatos que envolvem conspirações, sabotagens e assassinatos.

História do futuro: O horizonte do Brasil no século XXI, de Míriam Leitão — Em um cenário de crise, a premiada jornalista Míriam Leitão é categórica: em vez de nos abatermos pelo pessimismo, temos que fazer um balanço racional dos muitos acertos e dos vários erros para construir um futuro melhor para o país. Em seu terceiro livro de não ficção, a vencedora do Jabuti apresenta tendências que não podem ser ignoradas em áreas como meio ambiente, demografia, educação, economia, política, saúde, energia, agricultura e tecnologia. Leitura fundamental para entendermos o presente e planejarmos o futuro do Brasil.

A espada do verão, de Rick Riordan — Trolls, gigantes e outros monstros horripilantes estão se unindo para o Ragnarök, o Juízo Final. Para impedir o fim do mundo, Magnus Chase deve empreender uma importante jornada a fim de encontrar uma poderosa arma perdida há mais de mil anos. Com personagens já conhecidos do público, como Annabeth Chase, prima de Magnus, e deuses como Thor e Loki, Rick Riordan nos apresenta uma nova série, agora sobre mitologia nórdica. Mais uma aventura surpreendente, repleta de ação e humor!

Elon Musk: Como o CEO bilionário da SpaceX e da Tesla está moldando nosso futuro, de Ashlee Vance — Se você quer ter alguma ideia de como será o futuro, precisa conhecer Elon Musk. O empreendedor mais ousado de nosso tempo, que inspirou o Homem de Ferro dos cinemas, decidiu investir sua fortuna gerada em empresas digitais para mudar o mundo. Com a SpaceX, o inventor sul-africano está revolucionando os voos espaciais. Com a Tesla Motors, está trabalhando para popularizar os carros elétricos. Musk, que também está investindo em energia sustentável por meio de painéis solares, é um CEO diferente de todos os outros. Ao apostar em empreendimentos de alto risco, tem se dedicado a criar um futuro ao mesmo tempo magnífico e próximo de uma fantasia de ficção científica.

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Lugares escuros, de Gillian Flynn — Aos sete anos, Libby Day sobreviveu ao terrível assassinato de sua família e testemunhou contra o irmão, que acabou condenado à prisão perpétua. Vinte e quatro anos depois, a ambígua personagem criada por Gillian Flynn, autora de Garota exemplar e Objetos cortantes, é procurada por um grupo de pessoas obcecadas pelo crime e começa a investigar o passado. A história chegou aos cinemas no ano passado, protagonizada por Charlize Theron, e recentemente ganhou uma nova edição, com capa seguindo o padrão dos livros da autora.

Caçadores de trolls, de Guillermo del Toro e Daniel Kraus  Um dos artistas mais visionários da atualidade — diretor, produtor e roteirista que assina sucessos como A Espinha do Diabo, O Labirinto do Fauno e Hellboy —, Guillermo del Toro conta em Caçadores de trolls como o medo pode tomar conta das pessoas. Repleto de monstros assustadores e do encanto de um jovem com um mundo novo, o livro, que tem 10 belíssimas ilustrações de Sean Murray, será adaptado para uma série produzida pelo Netflix.

Crepúsculo/Vida e morte, de Stephenie Meyer — Publicado inicialmente nos Estados Unidos em 2005, o livro que originou a série best-seller mundial e uma franquia de filmes que bateu recordes de bilheteria, completou 10 anos! Para comemorar o aniversário da inesquecível história de amor entre Bella e Edward, Stephenie Meyer presenteou os leitores com uma edição dupla. Além de Crepúsculo, a edição especial contém quase 400 páginas de conteúdo extra que inclui Vida e morte, versão em que a autora inverte o gênero dos protagonistas.

A sexta extinção, de Elizabeth Kolbert — Ao longo dos últimos quinhentos milhões de anos, o mundo passou por cinco extinções em massa. Hoje, a sexta extinção vem sendo monitorada, e a causa não é um asteroide ou algo similar, e sim a própria raça humana. Vencedor do Prêmio Pulitzer de Não Ficção de 2015, A sexta extinção explica de que maneira o ser humano tem alterado a vida no planeta como absolutamente nenhuma espécie fez até hoje. Para isso, Kolbert apresenta trabalhos de dezenas de cientistas em diversas áreas e viaja aos lugares mais remotos em busca de respostas.

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Grey, de E L James — Christian Grey controla tudo e todos a seu redor: seu mundo é organizado, disciplinado e terrivelmente vazio — até o dia em que Anastasia Steele surge em seu escritório, uma armadilha de pernas torneadas e longos cabelos castanhos. Conheça a história que dominou milhares de leitores ao redor do mundo agora sob um novo e apaixonante ponto de vista.
Mosquitolândia, de David Arnold — Mim Malone não está nada bem. Após o inesperado divórcio dos pais, a apaixonante protagonista de Mosquitolândia é obrigada a ir morar com o pai e a madrasta no árido Mississippi. Para fugir dessa nova vida e buscar seu verdadeiro lugar, o lar de sua mãe, ela embarca em uma jornada de mais de mil quilômetros até Ohio e encontra companheiros de viagem muito interessantes pelo caminho, numa odisseia contemporânea tão hilária quanto emocionante.

O clique de 1 bilhão de dólares, por Filipe Vilicic — O Instagram, aplicativo de compartilhamento de fotos, é uma febre mundial desde seu lançamento em 2010. Comprado pelo Facebook em 2012 pela estonteante quantia de 1 bilhão de dólares, hoje em dia já mobiliza mais de 400 milhões de usuários ativos. O que poucos sabem é que Mike Krieger, um de seus idealizadores, é brasileiro, nascido em São Paulo. A trajetória meteórica do aplicativo e de Krieger, que se tornou milionário aos 26 anos, são detalhadas em O clique de 1 bilhão de dólares pelo jornalista Filipe Vilicic, editor de Ciência e Tecnologia da revista e do site de Veja.

Para todos os garotos que já amei, de  Jenny Han — Lara Jean guarda suas cartas de amor em uma caixa que ganhou da mãe. Não são cartas que ela recebeu de alguém, mas que ela mesma escreveu. São confissões sinceras, sem joguinhos ou fingimentos. Até que, um dia, elas são misteriosamente enviadas aos destinatários e, de repente, sua vida amorosa se transforma. Se você ainda não conhece Lara Jean, é melhor correr: a continuação do romance, P.S.: Ainda amo você, chega às livrarias nas próximas semanas.

A guerra dos consoles: Sega, Nintendo e a batalha que definiu uma geração, de Blake J. Harris — Na década de 1990, a Nintendo praticamente monopolizava o mercado de video games. A Sega, por outro lado, era apenas uma empresa instável de fliperamas com grandes aspirações e egos maiores ainda. Mas tudo isso iria mudar com as táticas arrojadas de Tom Kalinske, ex-executivo da Mattel, que transformaram a Sega por completo e levaram a companhia a travar um confronto impiedoso com a Nintendo. Um livro fascinante sobre a guerra que mudou o futuro dos video games e o mercado de entretenimento.

testePor que é tão difícil inovar no Brasil

l_img8_instagram_blog_01a_semtextoUm típico empreendedor brasileiro: preso no labirinto da burocracia

Repare que o título desta coluna é uma afirmação, não uma pergunta. Afinal, tal constatação já se tornou praxe. Mas é raro encontrar explicações. Vamos a elas.

Tentei empreender dois projetos: o primeiro com uma startup de impressão 3D e o segundo com uma empresa de mapeamento indoor. Desisti de ambos no meio do caminho. O primeiro foi para a frente, de forma tímida, depois da minha saída. O segundo desapareceu. Independentemente do sucesso ou do fracasso posterior, por que caí fora, sem arrependimentos?


1.

Por um fator simples: é difícil fazer negócios éticos no Brasil. Por exemplo, no meio do caminho para lançar a startup de impressoras 3D, que seriam acopladas à mão, surgiu um problema. Como tudo no país, mesmo para uma empresa tida como startup — logo, como seria no Vale do Silício, algo meio que “de garagem”, que mereceria facilidades —, é preciso, antes de operar, ter aprovações mirabolantes, que passam por contadores, advogados, cartórios… No meu caso, descobrirmos vários obstáculos.

Em teoria, precisaríamos de uma licença específica para instalar uma empresa de fabricação de qualquer coisa, de qualquer escala. E a nossa não poderia ser na região de São Paulo em que estávamos (o Centro!). Tudo isso custaria MUITO para ser superado. Algo que uma startup não conseguiria encarar. Em meio ao papo com outros sócios, surgiram formas de se esquivar da questão. A maioria exigia o “jeitinho brasileiro”. Sou contra “jeitinho” e achava adequado não correr o risco, ainda mais por ser tão apaixonado por escrita e jornalismo — não queria que essas minhas facetas fossem afetadas pelos problemas de empreendedor. Logo, optei por não me meter em qualquer provável futura lama.


2.

Rixas entre os sócios é algo típico em startups, mas que poderia ser superado. Porém, olhando agora com a devida distância temporal, percebi que as brigas tinham muito a ver com o fato de não podermos nos dedicar ao que queríamos, ao nosso trabalho, às nossas ideias. Na maior parte do tempo só discutíamos empecilhos burocráticos, leis e por aí vai. A parte chata. Nada a ver com o core do negócio. Isso não só me desmotivou como fez nascerem as rixas. Esse panorama brasileiro, de 70%, 80%, por vezes 90% do tempo — e da massa cerebral — do empreendedor iniciante ser gasto com cartórios e afins, por meses, destrói vontades e parcerias.

 

3.

Ah, e o principal. Descobri que não queria me dedicar tanto assim a impressoras 3D e mapeamento indoor. Minha praia é comunicação (e contar histórias: escritas, visuais, como forem). Se um dia regressar a esse mundo empreendedor — sobretudo se for para enfrentar as chatices brasileiras —, provavelmente me voltarei a áreas relacionadas a essa paixão. Entre nós, esse foi o fator decisivo. Se não fosse por isso, teria enfrentado, com muita raiva e inveja dos colegas americanos do Vale do Silício — com suas devidas facilidades que fazem de lá o maior polo de inovação do planeta —, as questões 1 e 2.

 

Porém, vamos sair do pessoal

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Graava, uma câmera que edita automaticamente os vídeos feitos: mais uma bela ideia de brasileiros, mas realizada no Vale do Silício

É regra.: todo empreendedor que conheço reclama da estupidez da burocracia brasileira. Municipal, estadual ou federal. Tanto faz. Há burrice em todas as alçadas. E o ecossistema nacional de negócios, principalmente os digitais — que exigem agilidade para se adequar, garantir a inovação e competir de igual para igual com a concorrência —, sofre com isso. Até os gigantes.

Vejamos, por exemplo, o caso do Google. Há dois anos, em papo com Hugo Barra, mineiro de grande renome em sua área e então vice-presidente da marca (hoje está na chinesa Xiaomi), perguntei: “Por que, apesar do interesse das grandes empresas pelo mercado brasileiro, os melhores smartphones e tablets demoram a chegar por aqui?” A resposta: “Queremos entrar no Brasil e vender produtos baratos. Mas é extremamente difícil fazer negócios neste país. A complicada e burocrática legislação brasileira coloca barreiras únicas no mundo para quem quer investir ou empreender. Há práticas fiscais e logísticas, além de leis protecionistas exageradas, que não são vistas em outras nações. Nesses quesitos negativos, o Brasil é incomparável.”

Sim, é de chorar. E a visão cruel sobre o ambiente de empreendedorismo brasileiro é uniforme entre os que aqui batalham para inovar.

Em almoço com Alex Tabor, CEO do Peixe Urbano, ele recordou como foi uma tormenta abrir seu negócio inovador de vendas on-line de cupons de ofertas. “No Brasil, às vezes demora meses só para conseguir o CNPJ (o registro inicial da empresa; ou seja, só para dar o start)”. Agora, quando ele foi abrir uma holding nos Estados Unidos, tudo se mostrou fácil. “Lá são exigidos só os documentos que fazem sentido serem apresentados e o processo leva dias”, completou.

Não é coincidência eu ter ouvido algo similar de Nelson Mattos, brasileiro que foi vice-presidente do Google e que hoje atua como consultor no Vale do Silício, sendo membro da renomada BayBrazil, organização que promove conversas entre inovadores brasileiros e californianos. Para ele, “não faltam mentes criativas em nosso país”. O problema é que “essas cabeças não conseguem trabalhar no Brasil devido a tantos impedimentos governamentais. Muitas vezes, as pessoas precisam se mudar para criar uma empresa inovadora”.

capa_OCliqueDeUmBilhaoDeDolares_WEBEm outras palavras, os labirintos surrealistas à la Franz Kafka à frente de qualquer empresário iniciante acabam expulsando os brasileiros de sua própria nação. Para onde eles levam suas ideias criativas — e, muitas vezes, fonte de milhões de dólares (que poderiam ser reais)? Vão para os Estados Unidos, para Israel, para a Inglaterra, para o Canadá etc. — ambientes que recebem os inovadores de portas abertas.

É para onde foi, por exemplo, Marcelo do Rio, outro brasileiro inovador, que criou em terras tupiniquins a cervejaria Devassa, vendida depois para a Schincariol. Após se admirar com o mundo tecnológico, ele se mudou para o Vale do Silício. Lá, com dois brasileiros, fundou a Graava, que fabrica uma interessante câmera filmadora capaz de editar automaticamente os vídeos feitos. Se for um fracasso, ou um sucesso maior que o da GoPro, pouco importa para o contexto desta coluna. O fato é que o Brasil perdeu Marcelo do Rio e a bela ideia da Graava. Disse ele em conversa que tivemos: “Não tenho a menor dúvida da competência do empreendedor brasileiro, extremamente criativo, habilidade que usa até para compensar a ineficiência do Estado. Não faltam mentes no Brasil. Falta estrutura.”

Não à toa há mãos brasileiras em diversas empreitadas reconhecidas em todo o mundo como de extrema criatividade. Caso do Facebook e do Instagram, sobre o qual escrevi este livro . Pena que esses cérebros não sobreviveriam — ao menos não da mesma forma saudável — em sua terra natal.

link-externoLeia um trecho de O clique de 1 bilhão de dólares