testeO medo que fica à espreita

Por Ilana Goldfeld*

Ilustração: Verena Antunes

Stalker. Para quem trabalha com traduções, existem algumas palavras que você bate o olho e pensa: “Hmm, vai ser difícil passar isso para o português.” Stalker é uma delas.

Não que a prática seja desconhecida aqui no Brasil. Atire a primeira pedra quem nunca “stalkeou” alguém no Facebook, Instagram, Twitter ou até no falecido Orkut. Sim, amigos, esta prática já se infiltrou no nosso cotidiano. Mas todos os exemplos dados são do mundo virtual. Na vida real, quando se trata de ser um stalker (ou “perseguidor”), as coisas podem assumir outro tom…

Eu sei onde você está mostra o que é sentir isso na pele. É uma obra de ficção que faz o leitor agradecer aos céus por essa história ter sido inventada (e, se você souber de algo que indique o contrário, por favor, não me diga).

Clarissa tem um perseguidor, Rafe. Os dois trabalham no mesmo lugar, o Departamento de Literatura Inglesa da Universidade de Bath, o que significa que ela não tem muito como fugir dele. E não é por falta de tentativa. Então, quando ela é chamada para participar de um júri, tendo que se afastar do emprego por um tempo, fica animadíssima com a perspectiva de alguns dias de paz.

Porém, não é apenas no trabalho que eles se veem. Rafe parece segui-la em todos os lugares. Sabe aquela música: “Jogue suas mãos para o céu e agradeça se acaso tiver/ Alguém que você gostaria que / estivesse sempre com você / Na rua, na chuva, na fazenda / ou numa casinha de sapê”? Então, imagina o contrário. Tudo o que ela quer é distância dele e está determinada a conseguir isso, ainda que, às vezes, esse objetivo pareça impossível de ser alcançado.

Muitos autores escrevem livros como aranhas tecem teias: estabelecem um ponto inicial e a partir dele desenrolam fios (no caso dos escritores, narrativos). Claire Kendal faz diferente: sua trama já começa com Clarissa e o leitor, juntos, presos na teia de Rafe. Esta história começa pela metade. Logo de cara, nas primeiras páginas, dá para notar quão desesperadora é a situação. Aos poucos, flashbacks e as anotações que Clarissa faz numa espécie de diário em que relata como é ser perseguida revelam como tudo começou e se desenvolveu. Pensamentos, emoções, traumas: nada deixa de ser registrado. A agonia e o nervosismo criam o clima do suspense psicológico.

O jogo de gato e rato construído pela autora está presente até no título Eu sei onde você está. O original em inglês é The Book of You porque faz referência ao diário que Clarissa passa a escrever enquanto é alvo da obsessão de Rafe. A tradução literal, O livro sobre você, não funcionaria muito bem — o leitor poderia, a princípio, até achar que se trata de um guia de autoajuda, oferecendo determinado número de passos para alcançar o autoconhecimento. Gosto de Eu sei onde você está porque acho que funciona em relação aos dois personagens: Rafe parece sempre saber onde Clarissa está, o que faz com que, consequentemente, o oposto também seja verdade — ela sabe que ele está vigiando, à espreita. A protagonista pode estar completamente sozinha, mas o medo se infiltra em seus ossos a ponto de ela passar a ver seu perseguidor, ele estando lá ou não.

Na história, enquanto tem que lidar com seus problemas, Clarissa se vê às voltas com o caso do qual é jurada. A vítima é uma mulher, Carlotta Lockyer, e o banco dos réus é ocupado por cinco homens acusados de, entre outras coisas, agredi-la. Quanto mais envolvida fica com o julgamento, mais ela passa a se identificar com a moça. Ao se deparar com violência na vida alheia, ela tem uma nova perspectiva com a qual era obrigada a lidar em seu dia a dia. E mais decidida fica a não se deixar dominar pelo medo.

Um dos maiores triunfos do livro é conseguir fazer com que o leitor se sinta como Clarissa. Até certo ponto, os temores dela viram um pouco os seus. Para ilustrar isso, compartilho um episódio pessoal (e um tanto constrangedor): considero a madrugada um momento excelente para trabalhar: tudo é silencioso e não há tantas distrações — leia-se mensagens de grupos no WhatsApp —, então consigo me concentrar melhor. Eis que eram três horas da manhã e eu me encontrava absorta no drama da vida da nossa protagonista. Dei uma parada rápida no texto, só para ir à cozinha beber água. Voltando para o quarto, vejo um rosto na janela. Dou um salto olímpico de três metros e derramo o líquido por tudo que é lado. Milésimos de segundos depois, percebo que era meu próprio reflexo no vidro. É este o nível de tensão provocado por Eu sei onde você está. É capaz de deixar você com medo da própria sombra — ou, no caso, do próprio reflexo.

Meu conselho? Se for ler de madrugada, feche as cortinas. Mas aviso: existe grande chance de você não se sentir seguro para abri-las na manhã seguinte.

>> Leia um trecho de Eu sei onde você está

 

Ilana Goldfeld gosta tanto de ler que entrou na Faculdade de Comunicação para fazer Publicidade, mas se formou em Produção Editorial. Como se isso não bastasse, acabou indo fazer mestrado em Literatura. Trabalha para o mercado editorial há mais de cinco anos.

testeLançamentos de junho

Confira as sinopses dos lançamentos do mês: 

Até que a culpa nos separe, de Liane Moriarty — No novo livro da autora de Pequenas grandes mentiras, obra que inspirou a série Big Little Lies, a história começa com um convite inesperado para um churrasco de domingo em Sydney, na Austrália. Três famílias resolvem passar uma tarde tranquila em uma bela casa sem imaginar como suas vidas mudariam para sempre a partir daquele dia.

Sem conhecer direito os anfitriões, Clementine, uma mulher casada e com duas filhas, está com a amiga de infância, Erika, quando um episódio assustador acontece no evento. [Saiba mais]

 

 

Dias bárbaros, de William Finnegan Vencedor do Pulitzer de Biografia de 2016,  a obra é uma autobiografia de William Finnegan, jornalista da The New Yorker, que viajou o mundo em busca das melhores ondas. Amante de livros e de aventuras, Finnegan se tornou escritor e correspondente de guerra. No livro, ele conta a sua trajetória no surfe, as histórias da época em que pertencia a uma gangue de meninos brancos no Havaí, a loucura dos jovens nos anos 1960, as viagens e outras experiências que viveu por causa do esporte. [Saiba mais]

Apenas uma garota, de Meredith Russo Tudo que Amanda mais quer é viver como uma garota comum. Prestes a entrar na vida adulta, ela mudou de cidade após passar pela cirurgia de mudança de sexo e agora está buscando a afirmação de sua identidade.  Embora acredite firmemente que toda mudança traz a promessa de um recomeço, ela ainda não se sente livre para criar laços afetivos — até conhecer Grant, um garoto diferente de todos os outros.

Em seu romance de estreia, a autora retrata a transição de uma adolescente transexual,  parcialmente inspirada nas próprias experiências. [Saiba mais]

 

Geekerela, de Ashley Poston — Quando Elle, nerd de carteirinha, descobre que sua série favorita vai ganhar uma refilmagem hollywoodiana, ela fica dividida. Antes de morrer, o pai lhe transmitiu a paixão por aquele verdadeiro clássico da ficção científica, e agora ela não quer que suas lembranças sejam arruinadas por astros pop e fãs que nunca ouviram falar da série. [Saiba mais]

O divertido romance traz a clássica história de Cinderela para os dias de hoje e aborda temas como internet, independência da mulher, indústria do cinema e cultura nerd.

As Mães, de Brit Bennett — Em uma comunidade negra e cristã dos Estados Unidos, Nadia, uma garota bonita, obstinada e ainda marcada pelo recente suicídio da mãe, será a primeira da família a cursar uma universidade, mas, antes de deixar sua cidade natal, ela se envolve com o filho do pastor da igreja. Os dois são jovens e não oficializam o relacionamento, mas o segredo que resulta desse romance terá consequências maiores do que eles imaginam.

Anos depois, eles ainda vivem à sombra das escolhas da juventude e da insistente dúvida: e se tivessem feito diferente? As possibilidades do caminho não tomado se tornam uma sombra implacável. [Saiba mais]

Robô selvagem, de Peter Brown — Roz é uma robô que, ao abrir os olhos pela primeira vez, se vê sozinha em uma ilha. Ela não tem a menor ideia de como foi parar ali, mas está programada para sobreviver. Tudo parece melhorar quando Roz consegue, aos poucos, se aproximar dos bichos e criar um elo com um filhote de ganso abandonado. Mas sua natureza é diferente, e o misterioso passado da robô, que a levou até ali, está prestes a retornar para assombrá-la. [Saiba mais]

Peter Brown é autor também de Minha professora é um monstro (Não sou, não) e Sr. Tigre solto na selva.

Eu sei onde você está, de Claire Kendal— Rafe está em todos os lugares, sempre atrás de Clarissa. Ele vai encontrá-lo na estação de trem, no portão do prédio onde mora, e as suas mensagens lotam a secretária eletrônica dela. Desde a noite que passaram juntos, Clarissa se vê numa armadilha da qual não consegue escapar. [Saiba mais]