testeComo desarmar um número (ou comprar pasta de dente)

Por Bernardo Barbosa*

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Ilustração de Irving Geis

Se alguém perguntar a você o que vem à cabeça quando se fala em defesa pessoal, seu pensamento provavelmente formará imagens de um golpe certeiro para desarmar um assaltante com uma faca ou de uma aula de krav maga. Mas devo dizer que o livro Como mentir com estatística, relançado agora pela Intrínseca, talvez lhe seja mais útil.

Calma, querida leitora, querido leitor: não é o caso de recorrer ao seu exemplar para afugentar um trombadinha ou coisa do tipo. No entanto, quando números de origem obscura partem para o ataque e você não é um faixa preta da estatística, os ensinamentos desta obra clássica, escrita em 1954 e que desde então nunca saiu das livrarias, devem ajudá-lo a escapar são e salvo.

untitledComo mentir com estatística é assinado por Darrell Huff (1913-2001), um jornalista e escritor americano que nunca foi especialista em números. Isso não o impediu de fazer um livro leve, educativo e bem-humorado sobre um tema tão árido, levando ninguém menos que Bill Gates a dizer, em pleno 2015, que a obra era “mais relevante que nunca”. Segundo o magnata, o livro é um “lembrete oportuno, dado o quão frequentemente infográficos aparecem no seu Facebook e no seu Twitter atualmente”.

De fato, somos confrontados com estatísticas a todo momento, e não só nas redes sociais. Quem nunca se deparou com a proverbial propaganda da pasta de dente recomendada por oito entre dez dentistas? Ou abriu uma reportagem e leu que uma cidade está 20% mais violenta?

Huff mostra que fazer os números falarem o que se deseja pode ser tão tentador quanto colocar “espanhol intermediário” no currículo. Claro, isso pode acontecer por má-fé (a pessoa sabe que só fala portunhol, e mal) ou por um desconfiômetro baixo (a pessoa realmente crê que fala espanhol, apesar de não conseguir pedir um bife de chorizo em Buenos Aires). Seja qual for o motivo, quem acredita naquela informação errada será igualmente prejudicado, e o escritor explica passo a passo como isso acontece quando lidamos com estatísticas.

Por exemplo, no caso da propaganda da pasta de dente: é possível saber quantos dentistas foram entrevistados ou qual foi a pergunta feita a eles? Sobre a violência, que tipo de delito está sendo levado em conta? Que definições de “violência” estão sendo usadas? Qual a base de comparação?

Desconfiar de números tão certeiros, mostra Huff, nunca é demais – especialmente quando eles vêm acompanhados por um gráfico. Ah, os gráficos… Quase sempre coloridos, às vezes até animados, volta e meia cheios de nada. Os capítulos sobre gráficos são um ponto alto de Como mentir com estatística, e não é preciso voltar à década de 1950 para ver o que pode acontecer com leitores desprevenidos.

Em 2014, a renomada agência de notícias Reuters publicou um gráfico para mostrar o impacto de uma nova lei no estado americano da Flórida sobre o número de mortes por armas de fogo. Uma mera inversão de eixo fez com que ficasse praticamente impossível entender o que a ilustração queria mostrar. Além disso, como apontaram críticos, “a redução de uma estrutura causal complexa a apenas um fator é insatisfatória”.

Viaje mais alguns anos no tempo para chegar a 1982, quando Leonel Brizola e Moreira Franco eram os favoritos na corrida pelo governo do Rio de Janeiro. Naquele ano, pela primeira vez, a apuração dos votos seria informatizada. Em paralelo, veículos de imprensa montaram uma estrutura própria, com base nos dados oficiais, para chegar ao resultado da disputa.

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As eleições de 1982 no Rio de Janeiro, que quase foram fraudadas por estatísticas. (fonte)

O Tribunal Regional Eleitoral do Rio contratou a empresa Proconsult para processar os dados das urnas. Ao mesmo tempo, o Jornal do Brasil e a Rádio JB tinham uma estrutura própria de contagem dos votos. A Proconsult deu prioridade às zonas eleitorais do interior, onde Moreira Franco era tido como favorito, e a TV Globo se fiou nos dados da empresa em sua cobertura. Já a Rádio JB investiu na capital, onde estavam a maioria dos votos no estado. Notou que ali Brizola liderava e depois conseguiu atestar sua vitória. A Globo nega ter dado favorecimento a Moreira Franco – então candidato do PDS, sucessor da Arena, o partido da ditadura militar. Suspeitas à parte, o fato é que a confusão colocou a apuração em xeque. No fim, após denúncias, admissão de erros e recontagens, Brizola foi reconhecido como vencedor do pleito.

Seja para ler corretamente um gráfico, entender o resultado de uma eleição ou não cair em armadilhas publicitárias, Como mentir com estatística é daqueles livros que mudam nossa forma de ver o mundo. Ainda tem a vantagem de contar com as ilustrações divertidíssimas de Irving Geis (também conhecido por seu trabalho na ilustração de livros e artigos científicos) e poder ser lido numa tarde na praia ou no parque. Melhor que krav maga.

 

Bernardo Barbosa é jornalista e agora pensa duas vezes na hora de comprar uma pasta de dente. Trabalhou no jornal O Globo e na agência de notícias Efe.

testeO preço da vitória

Por Bernardo Barbosa*

Michael Lewis

Michael Lewis

Havia o beisebol, e havia o Moneyball. Pelo menos essa foi a impressão de quem acompanhava o esporte em 2002, quando um time modesto usou as estatísticas do jogo para montar uma equipe com jeitão de Frankenstein, mas que conseguiu uma das maiores sequências de vitórias da história da MLB (a liga profissional americana). O legado desse feito ultrapassou a fronteira do esporte, virou filme indicado ao Oscar e protagonizado por Brad Pitt, e tem no livro Moneyball: O homem que mudou o jogo, de Michael Lewis, seu mais rico relato.

Em resumo, o drama do gerente-geral do Oakland Athletics, Billy Beane, era o seguinte: o clube seguia rumo à temporada de 2002 com o terceiro menor orçamento dos 30 times da MLB, na casa dos US$ 40 milhões. O New York Yankees, com mais de US$ 120 milhões à disposição, era a equipe mais rica daquele ano. Ao fim dos 162 jogos da primeira parte da temporada, Athletics e Yankees foram as melhores franquias, ambas com 103 vitórias, sendo que os atletas de Oakland tinham conseguido uma sequência de 20 triunfos. Na fase de mata-mata, o Athletics perdeu logo na primeira rodada — um prato cheio para a parte da velha guarda do esporte e da imprensa especializada que na época abominava os métodos de Beane. Mas ficara claro que ali havia algo eficiente, que barateava o preço da vitória. O truque? Explorar as ineficiências do mercado e saber quais números realmente importavam.

“OK, mas isso eu vi no filme”, você pode estar pensando agora. O que você não viu no filme e está no livro de Michael Lewis é o detalhamento das trajetórias de Beane, uma ex-promessa do beisebol que enxergou as deficiências de um esporte cujos olheiros selecionavam atletas com uma “cara boa”, e de Bill James, que empunhava quase solitariamente a bandeira de que os números do beisebol deveriam ser estudados mais a fundo isso numa época em que Nate Silver, o atual grande guru da estatística, ainda usava fraldas. Mais ainda, o texto de Lewis conta uma história que torna Moneyball um livro sedutor mesmo para quem não faz ideia do que seja beisebol: um gestor, pressionado pela falta de dinheiro, desafia o senso comum de seus pares, busca especialistas de outras áreas, resgata as ideias de estudiosos discriminados pelo status quo de seu mercado e alcança uma grande façanha. Não por acaso, o conceito de Beane vem desde então sendo aplicado, ou ao menos defendido, também fora do beisebol.

link-externoLeia um trecho de Moneyball: O homem que mudou o jogo, de Michael Lewis

Em Hollywood, o produtor Ryan Kavanaugh se tornou um dos bilionários mais jovens do mundo ao escolher a dedo projetos de filmes de baixo custo com alto retorno financeiro, inspirado nos ensinamentos de Beane. Esses conceitos poderiam ser empregados no mercado de ações? Aplicados em empresas ou no governo, como sugerem livros lançados no rastro do fenômeno? Ou até mesmo utilizados no futebol, talvez o mais rebelde e imprevisível dos esportes de massa? Para todas essas perguntas, há quem responda sim. Mesmo no Brasil, onde imperam as mesas-redondas — as das TVs e as dos bares — frente ao debate sobre as estatísticas do futebol, já há alguns anos os clubes, a seleção brasileira e os veículos de mídia obtêm números por meio de empresas especializadas, como a brasileira Footstats e a inglesa Opta. E Billy Beane, um autodeclarado fanático pelo maior esporte da Terra, está trabalhando atualmente com futebol no clube holandês AZ Alkmaar.

Moneyball - capa 1.inddO livro de Lewis, no entanto, é um retrato de seu tempo — e é com isso em mente que ele deve ser lido. Dez anos depois da façanha do time de Oakland, Nate Silver mostra em O sinal e o ruído que o Athletics e outras franquias da MLB aumentaram seu orçamento para o uso de olheiros, cujo trabalho à época do lançamento de Moneyball acabou sendo tratado como sinônimo de achismo. Por outro lado, noticiou a The Economist, um time da MLB que não quis se revelar comprou um supercomputador para análise de estatísticas. O brinquedo vale US$ 500 mil, montante próximo ao salário mínimo anual de um jogador da elite do esporte, notou a Newsweek. Se estivéssemos falando de futebol, o supercomputador seria um 12º jogador (ou 13º, já que a torcida é tida como o 12º). Tudo isso indica que a mistura entre a experiência dos que vivenciam uma atividade na linha de frente e o conhecimento nerd nos bastidores pode ser a chave para se formar times — ou empresas, governos, produtoras de filmes… — mais vitoriosos e rentáveis.

Mesmo nos Estados Unidos, os méritos e o hype do Moneyball não foram suficientes para tornar o aproveitamento das estatísticas uma unanimidade. O beisebol e o basquete abraçaram os modelos matemáticos com gosto, e as ligas profissionais inclusive subsidiam tal estrutura para equipes menos abastadas. Já a aparente resistência do futebol americano — e das TVs que o transmitem — em adotar esse tipo de análise é assunto recorrente em sites especializados. “Ouve-se falar muito mais sobre estatísticas avançadas no beisebol porque é assim que muitos dos times da MLB, senão a maioria, avaliam seus jogadores. Se os times da NFL (a liga profissional de futebol americano) começarem a usar as estatísticas como os da MLB, não teremos opção a não ser segui-los”, disse John Entz, produtor da Fox Sports nos Estados Unidos, à Sports Illustrated em novembro passado.

A tentação de aplicar a ideia do Moneyball a tudo e a todos parece grande. Ainda hoje, o termo quase sempre surge como sinônimo de eficiência, inovação, precisão; da vitória dos fatos e do estudo sobre a opinião; de ver o que outros não veem e pagar menos por isso. Seja como for, a experiência do beisebol ensina que aplicar o Moneyball a um outro esporte ou mercado pode não ser a solução definitiva para se gastar menos e ser mais eficiente, mas coloca novas perguntas em nossa cabeça. Em entrevista à revista New Republic, Bill James ensina: “A maior barreira para entender as coisas é a convicção de que você já as entende.”

link-externoLeia também: Glossário sobre beisebol

Bernardo Barbosa é jornalista e gostaria de ver mais Moneyball no jornalismo e no Flamengo. Trabalhou no jornal O Globo e na agência de notícias Efe.