testeDo que você mais sentiria falta se o mundo como o conhecemos hoje desaparecesse?

Por Mirelle Candeloro*

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Imaginem o mundo que conhecemos devastado por uma epidemia de gripe. Bilhões de pessoas morrem e as que restam precisam sobreviver em locais inóspitos, desprovidos de qualquer conforto ou tecnologia com que estejamos acostumados. Com o tempo, as lembranças da humanidade vão desaparecendo. Imagine perder os elos com a nossa história, deixando para trás conquistas e realizações não só científicas, como também artísticas.

Foram questionamentos como esses que inspiraram Estação Onze, de Emily St. John Mandel. Na distopia, a autora cria um enredo inusitado e reflexivo, que convida a analisar as consequências de uma grande catástrofe.

Quando a Intrínseca propôs aos seus parceiros que discutissem sobre o que mais sentiriam falta caso uma calamidade assolasse o planeta e qual objeto levariam para o Museu da Civilização, local em Estação onze que mantém resquícios da sociedade perdida, minha mente começou a ferver.

CapaFrente_EstacaoOnze_16x23cm.inddFiquei horas e horas atrás de uma resposta. De imediato, tudo me pareceu imprescindível, mas acabei escolhendo um objeto bem óbvio para uma bibliófila: um celular recheado com milhares de livros digitais, pois, para mim, seria impossível optar por um único exemplar físico.

Levando a minha decisão em consideração, pensei no que outras pessoas responderiam, principalmente as que também são ligadas ao universo literário. Será que todas sentiriam falta da mesma coisa? Como seria o  Museu da Civilização, composto por objetos de indivíduos tão diferentes, mas, ao mesmo tempo, com tantas coisas em comum?

Assim, decidi escrever para vários autores publicados pela Intrínseca! Reuni uma autora brasileira apaixonada por faróis, uma jornalista muito preocupada com a supervalorização da fama, uma artista que adora destruir e recriar e um autor perito em mundo pós-apocalíptico. Confiram abaixo o que eles disseram sobre o assunto:

“Sentiria falta dos meus amigos e família e levaria um laptop com a Wikipedia salva nele.”
Hugh Howey, autor da trilogia Silo

“Eu levaria um livro: Memórias de Adriano, de Margarete Yourcenar.”
Leticia Wierzchowski, autora de Navegue a lágrima e Sal

“Sentiria falta da natureza e levaria Folhas de Relva, de Walt Whitman.”
Keri Smith, criadora de Destrua este diário, Termine este livro e O mundo imaginário de…

“Eu sentiria falta de Nova York e levaria comigo as obras de Shakespeare.”
Nancy Jo Sales, autora de Bling Ring: a gangue de Hollywood

E você, do que mais sentiria falta?

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Leia um trecho de Estação onze
Uma distopia para aprender a sonhar 

*Mirelle Candeloro é blogueira, youtuber e escritora. Troca o dia pela noite, está sempre conectada nas redes sociais e ama tudo relacionado a livros, filmes e séries, comida e maternidade.

testeUma distopia para aprender a sonhar

Por Bruno Lages*

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“Shakespeare at Dusk”, Edward Hopper (1935)

Distopias revelam o que há de pior em nós e no mundo, materializam no presente o futuro mais sombrio possível — por mais improvável que ele possa parecer.  E embora possam ser lidas em qualquer momento da vida, são fundamentais para leitores em formação. Quando alguém me pede para indicar um livro para a irmã mais nova, o filho ou para o sobrinho adolescente, minha resposta é sempre a mesma: quais distopias ele já leu?

Mais do que as utopias — gênero marcado pela composição de cenários e organizações sociais ideais, como A República, de Platão, e Utopia, de Thomas More —, são as histórias distópicas que têm grande potencial de exercer sobre nós o papel que Kafka atribuía à boa literatura: deixar uma cicatriz.

Entre meus livros preferidos, tenho uma lista de distopias. Ela começava com Aldous Huxley e acabava com Cormac McCarthy. Isso foi até eu conhecer o quarto romance da escritora canadense Emily St. John Mandel, Estação Onze.

CapaFrente_EstacaoOnze_16x23cm.inddO romance de St. John Mandel parte do momento em que, na Toronto dos dias de hoje, um vírus altamente contagioso (mais mortal do que o Ebola) se espalha e dizima 90% da população mundial. Em poucos meses, a Terra mergulha nas trevas e na precariedade de um mundo pré-civilizatório. Os sobreviventes são nômades e vivem sem nenhum tipo de energia (elétrica, atômica ou criada a partir de combustíveis fósseis) e tudo o que ela possibilita (de banho quente a aviões, de analgésicos a internet).

Estação Onze é antes de mais nada um livro muito bem escrito. Tanto pelo apuro da linguagem quanto pela estratégia de contar uma história a partir de três tramas que se desenvolvem de forma simultânea, em camadas que se sobrepõem, se influenciam mutuamente e conferem beleza e profundidade à narrativa.

link-externoLeia um trecho de Estação Onze

Cada trama se desenrola em um tempo diferente. Em um passado recente, pré-epidêmico, entramos em contato com o ator Arthur Leander, sua primeira esposa, Miranda, e seu melhor amigo, Clark. No presente pós-apocalíptico, o livro retrata a Sinfonia Itinerante: um grupo de jovens atores e músicos que viaja em carroças pela região dos Grandes Lagos, no norte dos Estados Unidos. A missão da trupe é apresentar peças de Shakespeare e concertos de música erudita. Além do desafio de sobreviver em um mundo hostil, eles têm de lidar com uma seita fanática liderada pelo autointitulado “profeta” de uma pequena comunidade que os ameaça.

A terceira narrativa do romance é uma história dentro da história. Um dos personagens, Miranda, passa anos escrevendo uma graphic novel de ficção científica chamada (por que não?) Estação Onze. A narrativa ilustrada — cujo título remete à uma estação espacial para onde os humanos fogem quando o planeta se torna inabitável — passa a ser lida e cultuada por vários dos sobreviventes que vagam num mundo quase desabitado, fascinados por tudo o que for anterior à catástrofe.

Camada após camada, vamos nos transformando em arqueólogos de nosso próprio tempo. A nostalgia dos personagens sobre o estilo de vida que levamos hoje, no começo do século XXI, nos leva a sentir falta do que ainda não perdemos. E dessa forma a autora analisa uma condição humana universal: a ausência. Fruto de uma sociedade e da sua cultura, o ser humano é marcado pela falta.

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“Freight Car at Truro” Edward Hopper (1931)

O que torna Estação Onze uma distopia peculiar é a forma como essa ausência é preenchida: com algo que poderíamos chamar de instinto de arte. As montagens da Sinfonia Itinerante de Sonho de uma noite de verão ou suas performances de Bach se contrapõem radicalmente à decadência crua, violenta e, muitas vezes, escatológica que costumamos encontrar em outros livros do gênero.

As distopias que costumo recomendar para leitores que não temem pesadelos não descrevem apenas a perturbadora desconstrução das estruturas físicas da civilização e o colapso quase total das conquistas tecnológicas; expõem também uma raspagem radical da fina camada de verniz civilizatório que recobre nossas interações sociais. No entanto, pode-se argumentar que toda distopia tem um ponto de luz em meio à escuridão: o persistente amor entre pai e filho em A Estrada, de Cormac McCarthy, a mulher do médico em Ensaio sobre a cegueira, de José Saramago, a coragem em estado puro de Winston em 1984, de George Orwell, e o selvagem Shakespeariano — uma referência que não saiu da minha cabeça durante a leitura de Estação Onze — em Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley.

Emily St. John Mandel vai além da oposição entre luz e sombra. Na sua versão do apocalipse, a destruição desse verniz civilizatório revela mais do que brutamontes escondidos pelas telas de smartphones e casas inteligentes: para lidar com o mundo precisamos de música, construímos histórias, colecionamos objetos inúteis por sua simples beleza. Em Estação Onze não há maniqueísmo. Somos assassinos e artistas, somos capazes de manejar a faca e a rabeca com a mesma naturalidade. Mesmo sem o verniz, ainda somos o médico e o monstro.

Nesse sentido, Estação Onze se assemelha a Fahrenheit 451, de Ray Bradbury, que retrata um futuro distópico em que livros são caçados e queimados. Para fugirem da pena de morte reservada aos que insistem em possuir e ler livros, os rebeldes de Bradbury escolhem um livro e, depois de decorarem seu conteúdo palavra por palavra, destroem-no e abandonam seu nome de batismo para adotar o do título. Tornam-se pessoas-livro cuja missão é recitar o conteúdo da obra e mantê-la viva. Se estivéssemos vivendo na Londres de Faherenheit 451, não me causaria espanto esbarrar com um ou outro Estação Onze por aí.

link-externoLeia também:
Curiosidades sobre Estação Onze ou “Porque sobreviver não é suficiente”
A bondade nos tempos de guerra

Bruno Lages, 39 anos, tem mestrado em linguística aplicada e trabalha como editor de livros didáticos há 8 anos.

testeCuriosidades sobre Estação Onze ou “Porque sobreviver não é suficiente”

Por João Lourenço*

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Shakespeare no fim do mundo

Apaixonada por cinema e teatro, a escritora canadense Emily St. John Mandel pretendia escrever sobre a vida de um ator em Hollywood. Mas uma ideia insistente a fez mudar de planos: como seria um mundo sem eletricidade e tecnologia? Intrigada, Mandel passou a perguntar aos amigos: “Do que você mais sentiria falta se o mundo como o conhecemos hoje desaparecesse?” A resposta da autora para a própria pergunta foi: “Eu sentiria falta da obra de Shakespeare.” E foi assim — numa intrincada mistura de Shakespeare, vida das celebridades e fim do mundo — que nasceu seu premiado romance Estação Onze.

Rei Lear e a Gripe da Geórgia

Arthur Leander sofre um ataque cardíaco no palco, durante a apresentação da peça Rei Lear. Na mesma noite, uma pandemia de gripe se espalha pelo Canadá e pelo mundo. A doença aniquila rapidamente 99% da população do planeta. Assim começa Estação Onze, romance que intercala a trajetória de Arthur em Hollywood com outros personagens relacionados a ele. Um deles é Kirsten Raymonde, atriz mirim que presenciou a morte do ator. Quase vinte anos depois, vivendo no mundo pós-catástrofe, Kirsten integra a trupe Sinfonia Itinerante, que viaja por cidades ocupadas por pequenos grupos de sobreviventes apresentando peças clássicas, assinadas sobretudo por Shakespeare, e números musicais.

Um inusitado romance apocalíptico

A narrativa de Emily St. John Mandel parte da epidemia para explorar as consequências e as reações à catástrofe. Para a autora, o caos é a resposta automática ao medo, mas, com o tempo, as coisas podem voltar ao “normal”. Com uma visão positiva (e lírica) da humanidade, Mandel defende que certas coisas jamais desaparecerão, como a arte, a solidariedade e a esperança.

Os gatos caolhos

Nascida e criada na costa oeste do Canadá, Mandel passou a infância cuidando de um casal de gatos com um olho só. O começo de sua carreira como escritora não foi nada fácil: foram 16 tentativas até conseguir fechar um contrato com uma editora independente, pela qual lançou seus três primeiros livros. Em 2014, após a publicação de Estação Onze, Emily St. John Mandel entrou para a lista de autores mais comentados e lidos da literatura contemporânea. Apesar da fama e do reconhecimento, ela acredita que um escritor precisa de uma renda fixa e continua trabalhando como auxiliar administrativa. Mandel também já foi performer de dança contemporânea e entre seus livros favoritos estão Suíte Francesa, de Irène Némirovsky, e 2666, de Roberto Bolaño.

link-externoLeia um trecho de Estação Onze

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De Neil Gaiman a Star Trek

Além das peças de Shakespeare, Mandel passou muito tempo pesquisando sites de fofoca sobre celebridades para a construção de Estação Onze. Ela também se inspirou na graphic novel Sandman, de Neil Gaiman, e no romance A Estrada, de Cormac McCarthy. Outra influência foi a série Star Trek, da qual pescou a frase: “Porque sobreviver não é suficiente.” A citação é o lema da Sinfonia Itinerante e está tatuada no antebraço esquerdo da personagem Kirsten Raymonde.

Mix de gêneros 

Emily St. John Mandel não gosta de classificações de gêneros literários e acredita que separar obras por categorias fixas é limitador e antiquado. Estação Onze venceu o Arthur C. Clarke Award, importante prêmio do Reino Unido dedicado à ficção científica, e foi finalista do PEN/Faulkner Award e do National Book Award. O título ficou por oito semanas consecutivas na lista de mais vendidos do The New York Times e os direitos para a adaptação cinematográfica já foram adquiridos por Scott Steindorff, produtor do filme Chef. 

Ilustres admiradores

Para George R. R. Martin, autor de A Guerra dos Tronos, Estação Onze é o melhor livro de 2014. Já Ann Patchett, autora de Estado de graça e Bel Canto, afirmou em entrevista para a Entertainment Weekly: “Não consegui largar esse livro por nada neste mundo.” Ao fim da leitura, a grande mensagem deixada por Emily St. John Mandel talvez seja a de que sempre encontramos uma forma de sobreviver, não importa a dimensão da catástrofe que enfrentamos. Assim como o personagem Arthur Leander, não queremos apenas ser vistos e apreciados, queremos ser lembrados. Estação Onze é uma emocionante carta de amor sobre a condição humana.

link-externoLeia também: Os lugares escuros de Gillian Flynn

 

João Lourenço é jornalista. Passou pela redação da FFWMAG, colaborou com a Harper’s Bazaar e com a ABD Conceitual, entre outras publicações estrangeiras de moda e design. Atualmente está em Nova York tentando escrever seu primeiro romance.

testeLançamentos de junho

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O clique de 1 bilhão de dólares, de Filipe Vilicic — Aos 26 anos, o paulistano Mike Krieger tornou-se milionário. A trajetória de um dos idealizadores do Instagram e os bastidores da compra do aplicativo pelo Facebook em 2012 são detalhados pelo jornalista Filipe Vilicic, editor de Ciência e Tecnologia da revista e do site de Veja. [Leia +]

Quem é você, Alasca? (Edição comemorativa de 10 anos), de John Green — Publicado pela primeira vez nos Estados Unidos em 2005, o romance de estreia de John Green ganha agora uma edição comemorativa, com um revelador texto de apresentação assinado pelo autor, cenas extras cortadas do manuscrito original, detalhes do processo de edição do romance e respostas de John às perguntas dos fãs. [Leia +]

Estação Onze, de Emily St. John Mandel Vencedor do Arthur C. Clarke Award, importante prêmio do Reino Unido dedicado à literatura de ficção científica, e finalista do National Book Award, Estação Onze, de Emily St. John Mandel, reflete sobre arte, fama e efemeridade, e sobre como os relacionamentos nos ajudam a superar tudo, até mesmo o fim do mundo. [Leia +]

Os Guinle, de Clóvis Bulcão — Sinônimo de luxo, glamour e opulência, as lendas em torno do sobrenome Guinle obscureceram a atuação da família como empreendedores pioneiros no século XX. Clóvis Bulcão resgata o papel da dinastia no processo de industrialização brasileira, na exploração de petróleo e até mesmo na popularização do futebol como preferência nacional. [Leia +] Confira as colunas de Clóvis Bulcão para o blog

Moneyball: O homem que mudou o jogo, de Michael Lewis — No comando de um dos times de menor orçamento da liga de beisebol americana, Billy Beane mudou a história do esporte ao empregar alto conhecimento em matemática para determinar o modo de jogar e selecionar os atletas contratados pela equipe. A saga, narrada por Michael Lewis, também chegou ao cinema protagonizada por Brad Pitt[Leia +]

Isla e o final feliz, de Stephanie Perkins — Isla é uma menina tímida que estuda em uma escola americana em Paris. Ela é apaixonada por Josh, mas nunca teve contato com ele. Um dia, os dois se encontram por acaso em Nova York, e o sonho de Isla começa a se tornar realidade. Mas, para ficarem juntos, eles terão que enfrentar desafios como dramas familiares, dúvidas quanto ao futuro e a possibilidade de seguirem caminhos diferentes. [Leia +]

Galveston, de Nic Pizzolatto — Diagnosticado com uma doença terminal, Roy pressente que o chefe, um mandachuva em Nova Orleans, quer vê-lo morto. Conhecido entre os membros da gangue pelo apelido de Big Country, ele desconfia de que o serviço de rotina para o qual foi enviado possa ser uma emboscada. E de fato é. Do criador, roteirista e produtor executivo da série True Detective, Galveston é um romance brutal e envolvente. [Leia +]

Os Dois Terríveis (Série Os Dois Terríveis — Vol. 1), de Jory John e Mac Barnett | Ilustrado por Kevin Cornell — Miles era o garoto mais terrível de sua escola, mas acaba de se mudar para a entediante cidade de Vale do Bocejo, conhecida unicamente por suas muitas vacas. Só que Vale do Bocejo já tem um rei das travessuras. E dos bons. Se quiser roubar o posto, Miles vai ter que se superar. [Leia +]

Como não ser um babaca: Guia de etiqueta para o cotidiano, de Meghan Doherty — Com exemplos bem-humorados e ilustrações divertidíssimas, a designer e ilustradora Meghan Doherty apresenta inúmeros cenários em que há potencial para “comportamento babaca”, como no trânsito, nos relacionamentos e até na internet, e nos convida a refletir sobre como nossas ações podem afetar os outros. [Leia +]

Bebês submarinos, de Seth Casteel — Seth Casteel provocou alvoroço na internet e nas livrarias ao apresentar suas fotos divertidas e inusitadas de cães adultos e filhotes mergulhando na água para abocanhar bolinhas e brinquedos. Nesse terceiro livro, o autor de Cachorros submarinos e Filhotes submarinos fotografa os bebês mais fofos de todos os tempos debaixo d’água. [Leia +]

Serena, de Ron Rash — Pemberton e Serena são um casal ambicioso, determinado a derrubar todas as árvores das montanhas da Carolina do Norte para aumentar sua fortuna durante a Grande Depressão. Mas um projeto de parque nacional ameaça esses planos. Pemberton passa a subornar as pessoas mais influentes para manter sua propriedade e seu poder. Já Serena recorre a outros argumentos. Para sustentar o grande império, os dois vão passar por cima de tudo. Até deles próprios. [Leia +]