testeRedes antissociais

O filósofo digital Jaron Lanier explica porque as mídias sociais se tornaram um parasita que tomou conta de seu hospedeiro – a própria internet.

Por Alexandre Matias*

Se os tempos parecem deprimentes, a vida, inútil, as perspectivas, péssimas, e o fim, iminente, o cientista da computação e filósofo digital Jaron Lanier tem a resposta exata para essa perturbação sem fim: as redes sociais. Um dos pioneiros da realidade virtual e um dos principais críticos da produtização do usuário na internet por meio do uso gratuito de serviços cujos termos de uso todos concordamos sem ler, Lanier entende que a busca por atenção que movimenta financeiramente todos os sites da chamada web 2.0 pode, de fato, destruir a sociedade como a conhecemos.

Autor de livros como Gadget: Você não é um aplicativo!, de 2010, e Who Owns the Future? (Quem é o dono do futuro?), de 2013, ele agora lança Dez argumentos para você deletar agora suas redes sociais, cujo título resume suas intenções. E se o alerta urgente não o deixa cabreiro, talvez o título de alguns capítulos o façam: “Você está perdendo seu livre-arbítrio”, “As redes sociais estão tornando você um babaca” e “As redes sociais deixam você infeliz”. Tudo é bem argumentado e defendido por Lanier, que entende os serviços on-line como a forma mais avançada de vício digital, comparada a um parasita que toma conta de seu hospedeiro. Veja mais na entrevista feita com exclusividade para a Intrínseca.

Antes de falarmos sobre seu livro, queria que você comentasse a influência das redes sociais nas eleições brasileiras.

Jaron Lanier – Isso tem acontecido em todo o mundo. Estamos vendo a ascensão de candidatos descritos como populistas de direita ou como novos fascistas, mas não considero essa uma descrição adequada. Acho que o melhor jeito de descrever esses candidatos é tratá-los como pessoas apoiadas por pessoas mal-humoradas, paranoicas, irritáveis, invejosas, nervosas e de personalidade insegura que estão associadas às mídias sociais modernas.

Vemos essas pessoas ganhando poder no mundo inteiro, em países bem diferentes uns dos outros. Podemos arrumar todo o tipo de explicação para o que está acontecendo no Brasil, mas o Brasil é muito diferente, em vários aspectos, dos Estados Unidos, que por sua vez é diferente da Suécia, que é diferente da Hungria. Mas o que estes países têm em comum é o novo problema tecnológico. Acredito que entramos em uma corrida para ver se conseguimos mudar os padrões das tecnologias on-line antes que elas destruam a nossa sociedade.

No passado, era possível dizer que a ascensão de um fascista ou de um populista talvez tivesse relação com a situação do país, talvez fosse resultado de uma guerra ou de um terrível problema econômico. Por exemplo, podemos dizer que a Alemanha dos anos 1930 tinha um sério problema econômico, como a hiperinflação. Mas, quando vemos [a ascensão de fascistas] acontecendo em diferentes lugares, isso significa que não diz mais respeito apenas às circunstâncias específicas desses países, mas à tecnologia. O que significa em último caso que o problema pode continuar se repetindo. E não acho que o mundo é capaz de sobreviver a isso.

Uma das coisas que sei sobre o presidente recém-eleito no Brasil é que ele poderia tornar o país o segundo no mundo, depois dos Estados Unidos, a negar completamente a mudança climática no planeta e a sair dos acordos internacionais destinados a conter o problema. Dessa forma, teríamos dois dos maiores países do mundo contribuindo para um risco que envolve não apenas a civilização, mas toda a espécie. É extremamente sério. Estive no Brasil há pouco tempo, conversei com alguns jornalistas brasileiros e muitos deles acreditavam que o problema não era só o WhatsApp, mas que era necessário regular melhor o Facebook e o Twitter. O problema é que essas tecnologias são tão sorrateiras que as pessoas não percebem ou acham muito difícil perceber que estão sendo manipuladas, não notam como a sociedade está sendo envenenada. É realmente muito sério.

 

Mas como sair das redes sociais uma vez que elas entraram de vez em nossas vidas?

Jaron Lanier – Escrevi esse livro pensando no contexto norte-americano — e em algum nível no contexto europeu. O contexto brasileiro é muito diferente porque, em muitos casos, as pessoas são viciadas no WhatsApp. Ele praticamente monopoliza a atenção de muitas pessoas. E eu reconheço essas diferenças. Mas acho que há coisas que precisam ser ditas. Primeiro, mesmo nos Estados Unidos ou na Europa, fazer com que as pessoas saiam dessas plataformas de uma vez só é impossível. Mas, quando lidamos com esse vício em massa, um bom começo seria fazer com que algumas pessoas, e depois mais pessoas, começassem a se reconhecer como viciadas.

É consenso a diminuição dos espaços para fumantes em todo o mundo, mesmo que o cigarro seja um produto altamente viciante que gera muito dinheiro para algumas empresas. O aumento de regulação dos espaços reservados a fumantes e da propaganda de cigarro aconteceu porque houve um número suficientemente grande de pessoas viciadas em nicotina que se dispôs a conversar sobre isso e ser racional. Então as coisas começaram a mudar: é possível ser cool sem ter um cigarro na boca, é possível ser criativo sem ter um cigarro na boca. Da mesma forma, precisamos ter um número grande de pessoas que queira abandonar o vício nas redes sociais para podermos falar sobre ele.

No caso do Brasil, me parece que a situação é um pouco diferente, porque, no geral, não há alternativas. Nos Estados Unidos é possível mandar mensagens de texto de um telefone para outro sem pagar, ou seja, você consegue entrar em contato com outras pessoas sem necessariamente usar plataformas de empresas, e, além disso, as pessoas ainda usam muito e-mail. Mas isso não significa que os brasileiros precisam considerar isso uma falha tecnológica do país, porque é uma sabotagem: uma empresa veio de fora e fez tudo isso. É como se uma empresa de fora roubasse recursos ou fizesse algo terrível com o país.

Eu realmente não tenho uma resposta definitiva para o problema, mas, de certa forma, acredito que os brasileiros devem impedir o WhatsApp de prejudicar ainda mais o país. É possível que o Brasil volte a ser como na época da ditadura militar e depois de um tempo a população se sinta incomodada a ponto de permitir que forças democráticas e progressistas retomem o poder e tratem essa tecnologia de forma mais humana e racional, sem a manipulação, as teorias da conspiração e as mentiras. Mas, como nos Estados Unidos, e talvez de forma pior, não será fácil.

Há também o fato de as pessoas acreditarem que as rede sociais são a própria internet, que não existe internet fora desses domínios.

Jaron Lanier – É muito triste que no Brasil um aplicativo como o WhatsApp seja considerado fundamental. Claro que não é. É mais um invasor que tomou conta da internet do que a internet em si. É muito fácil ter algo similar ao WhatsApp que não venha com toda a manipulação, todo o veneno. Um outro aplicativo poderia existir — e por si só, não ser algo ruim —, só não existe porque as corporações tomaram conta da internet. Todas as coisas boas do WhatsApp — a possibilidade de mandar mensagens, por exemplo — podem ser alcançadas, tecnologicamente falando, sem a necessidade de que haja manipulação. Isso é um plug-in criado por essas empresas, não tem nenhum motivo de estar lá.

 

Podemos dizer que o Facebook é a pior rede social por ser a mais presente?

Jaron Lanier – Por enquanto me parece que as redes sociais que são propriedades do Facebook, enquanto corporação, são as que fazem mais mal ao mundo, em particular Instagram, Messenger, WhatsApp e o próprio Facebook. O Facebook propriamente dito talvez tenha mais influência nos Estados Unidos, enquanto Instagram, WhatsApp e Messenger são piores no resto do mundo. As redes sociais do Google, como o YouTube, também têm sido problemáticas de certa forma. Não sei se faz sentido dizer qual delas é a pior, pois todas usam o mesmo plano de negócios corrupto e horrível e funcionam mais ou menos da mesma forma. Todas precisam mudar.

 

Você vê alguma possibilidade de o Facebook ser ultrapassado, como aconteceu no passado com outras redes sociais?

Jaron Lanier – Acho difícil, porque essas antigas redes sociais, como Friendster e MySpace, pertenceram a outro tempo, um em que menos gente tinha acesso a internet e se vivia menos tempo conectado; e as pessoas não estavam tão presas a essas redes. O Facebook tem sido muito paranoico e preocupado com a possibilidade de que outras redes tomem seu lugar, por isso a corporação comprou empresas novas, que já tivessem algum poder, ou tentou destruir quem pudesse crescer. Como sabemos, WhatsApp e Instagram foram compradas exatamente por medo de que alguma delas chegasse a ter um momentum. Não foram muitas empresas que conseguiram aproveitar o embalo de crescimento e se dar bem, e é até surpreendente que agências reguladoras tenham permitido que isso acontecesse. É claro que ainda há outras empresas por aí, como o Twitter, mas elas são muito pequenas e vulneráveis.

Um dos criadores do The Pirate Bay, Peter Sunde, escreveu artigos dizendo que a guerra da internet foi perdida e que as corporações venceram. O que você acha disso?

Jaron Lanier – Li vários comentários e análises recentes que chegavam a essas conclusões derrotistas. “Nós perdemos”, “não há nada mais a ser feito”, “agora vai ser sempre assim ou pior”, “não conseguimos fazer mais nada”, “acabou”. Talvez isso seja verdade, mas acho que sou um maluco e não acredito que seja hora de dizer isso. Insisto em trabalhar continuamente em alternativas, continuo a acreditar que encontraremos uma saída e que vale a pena imaginar soluções melhores e inventar novas opções que permitam que o trabalho seja melhor. Desistir é meio que um paradoxo filosófico: se você chegar à conclusão que não vale mais a pena fazer nada, nada será feito — é uma profecia que se cumpre automaticamente.

É claro que não há garantias de que seja possível fazer isso, mas eu realmente acredito que precisamos buscar alternativas. Acho que a resposta correta tem a ver com a mudança do modelo de negócio, de forma que essas empresas não precisem negociar nossa busca por atenção.

Realmente acho que não devemos entrar em pânico ou ficar desesperados, especialmente agora. Estamos entrando em uma era em que o mundo será comandado por esses caras mal-humorados e paranoicos e ela pode durar muito tempo; talvez seja uma época em que não tenhamos democracia. E a única coisa que podemos fazer de verdade por ora é tentar nos preparar para a próxima época, quando as coisas talvez melhorem. Esse é um projeto meu. É o que estamos tentando fazer aqui nos Estados Unidos e vocês precisam fazer no Brasil e os europeus na Europa. Todos temos que tentar atravessar este período e não podemos perder a fé nem nossa imaginação para encontrar o caminho para a nova era.

 

Você está escrevendo um novo livro?

Jaron Lanier – Não me decidi ainda. Queria escrever sobre instrumentos musicais. Mas estou em conflito. Se estivéssemos em outra época, mais comum, acho que eu escreveria menos sobre política e mais sobre algo de que gosto, porque acho que é importante deixar espaço para essas coisas. Ainda estou decidindo sobre isso.

 

Obrigado, Jaron, foi uma boa conversa.

Jaron Lanier – Boa sorte para vocês. Esperamos o melhor para o Brasil.

 

 

>> Leia um trecho de Dez argumentos para você deletar agora suas redes sociais

Alexandre Matias é jornalista e cobre cultura e tecnologia há vinte anos, com base em seu site, o Trabalho Sujo (www.trabalhosujo.com.br).

testeMulheres são perigosas quando colocam uma ideia na cabeça

Confira a entrevista com a criadora de As viúvas, livro que inspirou o novo filme com Viola Davis

Photo Credit: Courtesy Twentieth Century Fox.

Antes de existirem maratonas na Netflix, de showrunners se tornarem celebridades (alô, Shonda Rhimes!), do torrent e da internet, Lynda La Plante já fazia barulho nos corredores das emissoras de TV da Inglaterra. Formada em teatro shakespeariano, Lynda desistiu da carreira de atriz quando percebeu que era mais interessante escrever: “Começou como uma brincadeira. Escrevia papéis que gostaria de interpretar.”

Após desenvolver minisséries e sitcoms para o público infantojuvenil, ela ganhou fama internacional com a série de 1983 As Viúvas. Dividida em seis episódios, a trama acompanha mulheres que seguem um arriscado plano, deixado pelos falecidos maridos, de roubar um banco. Movidas por vingança e orgulho, essas viúvas ultrapassam todos os limites para conseguir o que desejam.

Desde a estreia da série, a autora lançou outros projetos de sucesso para a TV, como Prime Suspect, estrelado por Helen Mirren e vencedor de dois prêmios Emmy de Melhor Minissérie. Personagens femininas fortes são a marca registrada de Lynda. Décadas antes de a discussão sobre o problema dos estereótipos na TV e no cinema tomar a proporção que tem hoje, Lynda já defendia a dignidade das atrizes com quem trabalhava. “Me recuso a escrever cenas vulgares que não acrescentam nada à história. As atrizes sofrem muito abuso nos sets de filmagem. Sempre tentei protegê-las.”

Agora, trinta e cinco anos após o sucesso da série que tornou La Plante conhecida, As viúvas está de volta em uma versão atualizada. A trama original foi adaptada para o cinema pelo diretor Steve McQueen (12 Anos de Escravidão) e pela roteirista e escritora Gillian Flynn (Garota Exemplar). O longa ainda é protagonizado pela vencedora do Oscar Viola Davis. Precisa dizer mais?

Lynda, que manteve contato com a produção do filme, entrega: “A adaptação acrescenta um tom político e racial para a história original.” A autora aproveita então para relançar o livro escrito com base na série da década de 1980 e espera assim conquistar um novo público de leitores. “Na verdade, ainda escrevo porque tenho fãs maravilhosos. Eles sempre querem mais e eu me alimento dessa energia. Muitos até acham que me conhecem. O que mais eu poderia querer?”

Lynda La Plante conversou com a Intrínseca por telefone.

Hoje há uma grande discussão sobre a necessidade de as mulheres desempenharem papéis que não reproduzam os mesmos velhos estereótipos. Você é uma das roteiristas pioneiras a escrever personagens femininas fortes e realistas. O que a motivou?

Eu era atriz antes de ser escritora e sempre ficava frustrada com os papéis que recebia. De certa forma, comecei a escrever intuitivamente. Primeiro pensava em mim e nos papéis que gostaria de interpretar. Logo, percebi que gostava mais de escrever do que de atuar. Quando As Viúvas surgiu na década de 1980, tive a sorte de ter ao meu lado uma produtora que apostou em mim e em quatro atrizes desconhecidas. Hoje, grandes redes de televisão estão mais preocupadas com o peso dos nomes, não com o conteúdo.

 

Algo ainda a  incomoda na forma como as mulheres são retratadas na TV e no cinema?

Ainda submetemos as mulheres a papéis que beiram a pornografia leve. Chega um ponto que acabamos nos perguntando: “Por que essa jovem atriz precisa estar nua? Qual a necessidade de mais uma cena de sexo?” Os empresários deveriam proteger melhor seus clientes. Em Prime Suspect, nas cenas de autópsia, eu evitava focar no corpo nu das vítimas. Já percebeu que é sempre uma mulher nua na mesa fria da autópsia? O corpo do homem é protegido, enquanto o da mulher é explorado. Prefiro provocar o telespectador por meio de gestos sutis, não com algo explícito. Às vezes, a atriz é jovem e faz tudo que o diretor pede. Essa relação é perigosa, pois é assim que as histórias de abuso se proliferam nessa indústria. Precisamos trabalhar por essas mudanças.

 

Alguns showrunners, como Shonda Rhimes e Ryan Murphy, se tornaram tão conhecidos quanto as séries que criaram. Como você encara esse momento na TV?

Esse é um ponto interessante. Hoje, o escritor ou o roteirista chega com uma ideia para uma série de TV. Se ela se torna um sucesso, logo as emissoras pedem por mais temporadas, novas histórias. Agora com a nova tecnologia do streaming e o surgimento das “maratonas”, os escritores de série carregam uma pressão absurda. As séries só acabam quando elas param de dar dinheiro. Antes não era assim, pois sabíamos a hora de respeitar a história e parar. Ainda acredito que um dia vamos voltar a buscar qualidade acima de quantidade e deixar um pouco de lado o status de nomes de atrizes, roteiristas e produtores.

 

 

 Quais as principais diferenças entre escrever um romance e uma série para a TV?

A grande diferença é que o romance pertence a você e não há restrições de orçamento. Quando você produz coisas para a TV, tudo muda. Em um dos meus romances havia um criminoso que fugia em um helicóptero com duas crianças. Quando adaptamos isso para a TV, o orçamento não permitia alugar um helicóptero. Então, lembrei que um amigo tinha um jatinho e o convenci a me emprestar — mas não havia como filmar essa cena com as crianças. Ou seja, aprendi trabalhando na TV a ser uma escritora com mais recursos. É uma troca.

 

As Viúvas foi escrito para a TV na década de 1980. Agora, a série se transformou em livro e filme. Como foi revisitar essa história? E o que podemos esperar do filme?

Assim como o livro, o filme do Steve McQueen também é um thriller. A força do filme está nas mulheres, mas ele conseguiu adicionar um tom político e racial para a história. Claro, o filme também é mais violento. Mas, no final, ele respeitou a trama e as mulheres têm destaque. No filme, torcemos para que o crime seja perfeito. Já o livro oferece um melhor entendimento do psicológico de cada mulher, até onde elas se arriscam para alcançar um objetivo. Espero ganhar uma nova leva de fãs, pois a série foi lançada há muito tempo.

 

O sucesso de As Viúvas tem muito a ver com o fato de o crime ser cometido por mulheres, não por homens. Como você chegou a essa ideia?

Li uma matéria pequena em um jornal local que me deixou perturbada por dias. Tratava-se de uma viúva que acumulou muitas dívidas do marido. Para pagar as contas, ela tentou roubar uma agência dos correios. Imagino a pressão que essa mulher sentiu para ter se colocado nessa posição. Ela não era uma criminosa com passagem pela polícia, mas uma mulher comum; poderia ser minha vizinha. Foi a partir disso que surgiu a ideia para As Viúvas.

 

Vingança é um dos assuntos-chave de As Viúvas. Seria esse um tema atemporal?

Vingança é algo bastante pessoal. Não importa o quão evoluído você seja, uma hora ou outra você vai se sentir vingativo. Em As Viúvas, temos essa protagonista obcecada pelo marido. Ela ficou ao lado dele, mesmo nos momentos mais difíceis, por vinte anos. Ao contrário das outras personagens, a protagonista tem dinheiro suficiente para viver tranquilamente. Ou seja, ela se arrisca não pelo dinheiro, mas para mostrar que é capaz de fazer um trabalho tão bom ou melhor do que o do marido. Não sei como vocês falam no Brasil, mas aqui tem um velho ditado: “Mulheres são perigosas quando colocam uma ideia na cabeça.”

testeCrimes de paixão: a construção de Por trás de seus olhos

Entrevistamos a autora de Por trás de seus olhos, o livro mais surpreendente do ano.

Por André de Leones*

 

Sarah Pinborough

Jornalistas adoram rótulos. Ainda que Rebecca, romance de Daphne Du Maurier, tenha sido lançado em 1938 (e adaptado para o cinema dois anos depois por ninguém menos que Alfred Hitchcock, em um longa que faturou o Oscar de Melhor Filme), deram um jeito de apelidar os recentes thrillers psicológicos, narrados por personagens femininas nada confiáveis e coroados por reviravoltas incríveis, de Grip-Lit (ou gripping psychological thrillers). É onde se encaixam obras como Garota exemplar, de Gillian Flynn, e Por trás de seus olhos, romance de Sarah Pinborough que vem cativando muito leitor calejado com sua narrativa escorregadia, cujo desfecho, mais do que imprevisível, é fantasticamente perturbador — aliás, escrevemos sobre o livro aqui.

Nascida em 1972, na pequena cidade de Milton Keynes, a uns setenta quilômetros de Londres, Pinborough já tinha uma carreira estabelecida como autora de ficção young adult, fantasia e terror antes de investir no (vá lá) gênero Grip-Lit. Deu muito certo: Por trás de seus olhos chegou sem demora às listas dos mais vendidos e vem sendo traduzido e lançado em dezenas de países. Uma adaptação para cinema ou TV não deve demorar. Foi com simpatia e bom humor que ela cedeu a entrevista que se segue, na qual fala um pouco sobre a escrita do livro, as circunstâncias em que bolou seu desfecho marcante, os próximos planos e outras coisas.

 

Li que Por trás de seus olhos tem elementos autobiográficos. Isso é verdade? Se for, em que sentido?

Sarah Pinborough: Não há tantos [elementos autobiográficos] assim! Mas, como mulher solteira na casa dos quarenta, fui estúpida o bastante para ter aquele caso equivocado e estranho (no romance, a personagem Louise se envolve com seu chefe, David, um homem casado). E eu bebo vinho branco e tenho um cigarro eletrônico. Mas as semelhanças param por aí!

 

A primeira coisa que chamou a minha atenção foram as vozes dos personagens. Você realmente fez um ótimo trabalho ao distinguir essas vozes, o que é imprescindível para que o romance funcione apropriadamente. Como foi o processo?

SP: Ah, obrigada! Eu realmente não levo as vozes tão em conta, mas, considerando que havia duas narradoras principais em primeira pessoa, ambas mulheres, quis diferenciá-las da melhor maneira possível. Adele é uma pessoa bastante meticulosa e controlada e eu tentei fazer com que sua linguagem refletisse isso, enquanto que Louise, que Deus a abençoe, é mais dispersa, bagunçada, então seus pensamentos expressam isso. Mas, acima de tudo, assim que você conhece o personagem, a voz dele simplesmente aparece — ainda que isso soe um pouco pretensioso.

 

Além de ser um thriller psicológico, o romance explora temas importantes como atração, infidelidade, ciúmes etc. Na verdade, se esses temas não fossem abordados de forma realista, o suspense e as reviravoltas não seriam tão impactantes. Você tinha a intenção de abordar esses temas desde o começo?

SP: Sim, sem dúvida. Eu realmente queria escrever sobre um caso amoroso e todos os pormenores e emoções que vêm à tona, e quis brincar com o estereótipo da amante mais jovem e bonita, por isso era importante Adele ter uma beleza mais padrão. Acho que, no mundo moderno, com todos tão conectados via redes sociais, celulares e e-mail de uma forma que não éramos há vinte anos, é bem mais fácil sermos atraídos pela infidelidade. A maioria dos relacionamentos começa com as pessoas dizendo que jamais voltarão a trair e quase sempre termina porque alguém fez isso, e então eu quis explorar esse mundo.

Você também escreve para a televisão. Esta experiência influencia seu trabalho como romancista?

SP: Por certo me ajudou nos diálogos. Além disso, na televisão e no cinema cada cena tem um propósito a cumprir — tem que conduzir a história de alguma forma —, então eu continuo tentando trazer isso para a escrita dos meus romances. Nem sempre funciona — é muito mais fácil pesar a mão num romance que num roteiro para a TV.

 

Adele e Louise são fascinadas uma pela outra. É justo dizer que esse fascínio transcende o personagem masculino, de tal forma que David é meramente instrumental? Ele, por exemplo, não tem uma voz.

SP: Sem dúvida. Descobri pela minha própria experiência e pelas experiências de amigos que, se uma mulher dorme com um homem casado, ela quase sempre fica fascinada pela esposa, e a esposa, pela amante, e o homem se torna quase irrelevante. Mulheres foram condicionadas por séculos a competir umas com as outras, e todas pensamos que as outras são melhores nisso de “ser mulher”. Nós constantemente nos comparamos com outras mulheres e nos achamos inferiores. Sobretudo quando somos jovens. Eu quis explorar esse fascínio. É um livro mais sobre elas do que sobre ele, ainda que seja ele quem as aproxime.

 

Como você vê o desenvolvimento e o protagonismo de personagens femininos na literatura contemporânea, especialmente em thrillers?

SP: É realmente incrível como personagens femininas passaram ao primeiro plano e deixaram de ser algo mais do que apenas calculistas ou vítimas. Amo Rebecca, de Daphne Du Maurier, e penso que Amy, de Garota exemplar, abriu a porta para que nos thrillers as mulheres possam ser mulheres, boas e más, e assumam o lugar central. Não sei quanto tempo a bolha Grip-Lit vai durar, há tantos livros desse gênero já publicados, mas estou curtindo, e espero que ela tenha mudado para valer a maneira como escrevemos sobre mulheres na literatura policial.

 

Você poderia, por favor, falar um pouco sobre como surgiu a ideia para o final? Quer dizer, você já começou a escrever o romance sabendo como ele terminaria?

SP: Eu com certeza já tinha o final em mente antes de começar. Sabia que queria escrever um thriller sobre um affaire, algo claustrofóbico e com uma pegada Polanski/Hitchcock, mas não conseguia encontrar algo, uma ideia, que não parecesse corriqueira. Comecei a me sentir bastante frustrada, então fui a um bar, pedi uma taça de vinho, abri o notebook e passei a rascunhar meus personagens: quem eram, o que acontecia com eles – e então foi como se uma lâmpada se acendesse, o momento em que pensei “E se?”, e foi isso. O fim estava lá.

 

Li que você mora em Milton Keynes. Não sei se você curte futebol (caso não curta, apenas ignore isto), mas, como torcedor do Liverpool, gostaria de agradecer o Milton Keynes Dons por destroçar o Manchester United na Copa da Liga anos atrás. Aquilo foi quase tão emocionante quanto Por trás de seus olhos.

SP: (Risos.) Vai, Dons!

 

Para terminar, você poderia dizer o que vem a seguir? Está trabalhando em algum novo projeto?

SP: Estou trabalhando em outro thriller que se concentra em personagens femininas e tem uma reviravolta, mas é bem diferente de Por trás de seus olhos. Estou bastante satisfeita com ele, que será lançado em maio do ano que vem. Não sei ao certo se posso dizer qual é o título, então não vou revelar!

 

*André de Leones é autor do romance Abaixo do paraíso, entre outros. Página pessoal: andredeleones.com.br.

testeCinco perguntas para Jenny Han

Confira a entrevista com Jenny Han, autora da série Para todos os garotos que já amei

Nos seus livros, quanto do que acontece é inspirado na sua vida pessoal?

Todos os meus livros têm a ver comigo de alguma forma. Acho que as três irmãs Song têm características minhas, mas Kitty, em particular, é parcialmente inspirada na minha irmã mais nova, Susan, quando tinha a mesma idade da personagem. Susan costuma aparecer bastante nas minhas tramas. No fundo, a série Para todos os garotos que já amei também trata da história de amor de três irmãs.

Originalmente, Para todos os garotos que já amei seria uma série com dois livros. Em que momento você percebeu que desejava escrever uma terceira história?

Quando tentei começar a trabalhar no livro seguinte, eu continuava pensando em Lara Jean o tempo todo, querendo escrever sobre ela em vez de outra coisa. Quanto mais eu refletia a respeito, mais crescia a certeza de que havia mais a dizer sobre ela. No início do primeiro livro, Margot, a mais velha das irmãs Song, vai para a faculdade, o que deixa Lara Jean muito insegura. No terceiro livro, o ciclo se completa e é a vez da própria Lara Jean descobrir como dizer adeus.

 

O que motivou você a se referir a Margot, Lara Jean e Kitty como as irmãs Song, em vez de Covey?

Acho que foi uma forma de as três reivindicarem a parte coreana da família. E também uma forma de conectá-las à mãe, que mesmo não estando mais presente, ainda é o elo entre as três.

Se Lara Jean casasse com Peter, qual seria a música do casamento? E qual seria se ela casasse com John Ambrose McClaren?

Acho que “Sweet Child O’Mine” seria a música de Peter e Lara Jean, mas não na versão original do Guns N’Roses. Na versão do Taken by Trees a música tem certa inocência, uma doçura que me faz lembrar da história deles. Se ela se casasse com John Ambrose McClaren, eu escolheria “At Last”, mas também na versão do Kevin Michale em vez da Etta James.

Lara Jean adora cozinhar, especialmente para os outros. Quais são as suas sobremesas favoritas?

Bem, eu dediquei muito tempo a aperfeiçoar minha receita de cookies com gotas de chocolate. Até que esse ano eu finalmente senti que cheguei lá, como vocês podem reparar com toda essa história dos cookies no livro! Muitos amigos e conhecidos meus ganharam cookies de presente esse ano. Também adoro presenteá-los com travessas de pão de canela, scones de cranberry com nozes-pecã, pão doce de abóbora com chocolate, cupcakes e biscoitos amanteigados de canela. Cozinhar me ajuda a desestressar; ao mesmo tempo me relaxa e me deixa satisfeita.  

testeTudo em Família

Em entrevista ao blog, Tatiana de Rosnay, autora do best-seller A chave de Sarah e do lançamento A outra história, discute o perigo dos segredos familiares, bloqueio criativo na era digital e defende uma literatura livre de rótulos.

Por João Lourenço*

tatiana_blogTatiana de Rosnay (Foto: Charlotte Jolly de Rosnay)

Durma mais, leia o jornal, caminhe na natureza, marque um jantar com os amigos, converse com pessoas criativas, assista a uma palestra do TED Talks — e tente novamente. Essas são algumas dicas que aparecem no Google para quem procura meios para combater o bloqueio criativo. Mas, no caso do jovem Nicolas Duhamel, mudar de cenário foi a melhor saída para lutar contra o mal que atormenta escritores.

Em busca de inspiração, ele se refugia, acompanhado da namorada, em um resort de luxo na costa da Toscana, mas nem o ambiente exclusivo e paradisíaco é capaz de interromper a procrastinação do autor. Após o sucesso internacional de seu livro de estreia, O envelope — que se transformou em filme com direito a indicação ao Oscar, Nicolas passa horas monitorando o tráfego de suas redes sociais.

Para vencer o bloqueio criativo e encontrar inspiração para o próximo romance, o jovem escritor precisa enfrentar um passado assombroso e lidar com um futuro assustador. Além de alto e bonito, Nicolas é o protagonista de A outra história, novo romance de Tatiana de Rosnay. “Sem dúvida, você vai achá-lo irritante no início do livro. Ele é um escritor best-seller cuja vaidade não conhece limites. Mas debaixo dessa camada de superficialidade, preguiça e procrastinação, Nicolas é um jovem carismático que está prestes a enfrentar novos desafios”, conta a autora.

Às vezes a ficção imita a vida real. Quando se trata das conveniências da fama, Tatiana de Rosnay também enfrentou situação parecida com a de Nicolas. Em 2007, ela chegou à lista de best-sellers internacionais com a publicação de A chave de Sarah, romance que revisita a participação e o papel da França na Segunda Guerra Mundial. O livro vendeu mais de 5 milhões de cópias e foi traduzido para mais de 30 idiomas; ganhou adaptação cinematográfica, em 2010, tendo como estrela a atriz Kristin Scott Thomas. Em seguida, Tatiana entrou para a lista dos 10 autores mais importantes de ficção na Europa, ao lado de nomes como Dan Brown, Stephenie Meyer e Stieg Larsson. “Devo admitir que a experiência de Nicolas com a fama e suas desvantagens é muito parecida com a minha. A diferença é que não sou tão vaidosa como ele, claro. Meu conselho para os escritores: mantenham uma distância saudável da fama!”

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Além de abordar importantes questões relacionadas à fama, à procrastinação e ao processo criativo na era digital, A outra história também é um livro sobre como lidamos com os segredos de família e seus mistérios. A trama é impulsionada por memórias e flashbacks de Nicolas. Certas reviravoltas, em um primeiro instante, parecem óbvias, mas Tatiana apresenta uma maneira inteligente de manter o leitor interessado no curso da história, mesmo quando o protagonista não é uma pessoa fácil de simpatizar. “Segredos de família são incrivelmente românticos e inspiradores. No entanto, sei do sofrimento e da dor que segredos de longa data podem causar quando são finalmente revelados. A outra história é um livro bastante pessoal, resultado de minhas experiências como escritora.”

Tatiana de Rosnay, que também colabora com jornais e revistas como Elle e Vanity Fair, conversou por e-mail com a Intrínseca.

 

Intrínseca: Certa vez, um escritor me disse que escrevia para a página em branco, que o importante é não pensar em um leitor específico enquanto escreve. E você, para quem escreve?

Tatiana de Rosnay: Comecei a escrever quando tinha 10 anos, pois gostava muito de ler. Eu era um típico rato de biblioteca. Acredito que escrevo porque sinto necessidade de compartilhar uma grande variedade de emoções. Mas não penso em um leitor em particular enquanto escrevo; isso é algo que limita o fluxo narrativo.

 

I: A autora Joyce Carol Oates disse em entrevista à Paris Review que existem algumas desvantagens para mulheres na ficção. Ela disse, por exemplo, que pelo simples fato de ser mulher ela não é levada a sério por alguns críticos do sexo oposto. Porém, Oates fez essa declaração na década de 1970. Para você, a afirmação dela permanece verdadeira?

TR: A declaração de Joyce Carol Oates, autora que admiro, infelizmente ainda é válida. Mulheres e homens são considerados de formas diferentes. Por quê? Nosso trabalho ainda não é levado tão a sério. Algumas vezes, nosso trabalho é rotulado como “ficção feminina”. Particularmente, além do fato de soar pejorativo, eu não entendo o que querem dizer com esse termo. Será que isso significa que para algumas pessoas as mulheres não escrevem com a mesma potência e habilidade que os homens? Não concordo com esse ponto de vista. Não acredito que o trabalho de um escritor deve ser julgado com base em gênero, sexualidade, raça, religião e opiniões políticas.

 

I: A outra história acompanha a trajetória de Nicolas Duhamel, um escritor autocentrado que ganha fama após a publicação de um livro de sucesso. Você também alcançou sucesso internacional com a publicação do romance A chave de Sarah, que, assim como o livro de Nicolas, teve uma adaptação cinematográfica. Como você encarou esse período de fama internacional?

TR: Sou o tipo de escritora que gosta de mudar de estilo a cada novo romance. A outra história é um livro muito diferente dos meus romances anteriores, explorei novos caminhos, novas aventuras. Eu diria que se trata de um livro moderno, porque explora como os escritores escrevem hoje em dia, onde eles vão atrás de inspiração e como essas ideias são utilizadas para criar romances. O livro também é sobre como lidamos com segredos de família e seus mistérios. E, finalmente, é um livro sobre identidade, como podemos forjar a nossa identidade quando estamos on-line.

Não escrevo sobre mim diretamente, mas gosto de começar com algo pessoal e, em seguida, transformo isso na história de outra pessoa, que é exatamente o que aconteceu nesse livro.

 

I: Nicolas sofre de bloqueio criativo, o que costuma ser uma experiência comum para o escritor após um enorme sucesso comercial. A obsessão de Nicolas com redes sociais e dispositivos eletrônicos não o ajudou a superar o bloqueio. Como as novas tecnologias impactam o processo criativo?

TR: Meu herói é um jovem moderno que passa mais tempo na frente de telas do que interagindo com pessoas na vida real. Sem dúvida, você vai achá-lo irritante no início do livro; ele é um escritor best-seller cuja vaidade não conhece limites. Debaixo dessa camada de superficialidade, preguiça e procrastinação, Nicolas é um jovem carismático.

Estou interessada em entender como as redes sociais transformam a vida de um escritor, como podemos ficar presos nessas plataformas, como Facebook e Twitter podem reduzir nossas inspirações. Gastar muito tempo on-line é algo perigoso para muitos escritores. Eu, por exemplo, não posso escrever em um computador que esteja ligado à internet. Preciso desligar meu telefone e me retrair em uma bolha de silêncio. Vivemos em um mundo onde estamos constantemente ligados a nossos celulares e nossas telas e, às vezes, nós nem sequer conversamos uns com os outros.

image1Tatiana de Rosnay e a atriz Julia Roberts, que participará da adaptação de Extraordinário para os cinemas  (Foto: Alexi Lubomirski )

I: Você tem uma presença forte nas redes sociais. Qual a importância dessas plataformas digitais para você?

TR: Sim, sou uma grande fã das redes sociais e meus leitores sabem disso! Mas, ao contrário do Nicolas, que desperdiça muito tempo na internet, aprendi a ter cautela. A minha rede social favorita é o Instagram. Às vezes, imagens falam muito mais do que palavras!

 

I: Você pode compartilhar um pouco do seu processo criativo? 

TR: Escrevo ficção desde os 10 anos, então posso dizer que escrita é parte da minha vida. Trabalho toda manhã e, às vezes, também escrevo no fim da tarde. Edito a mim mesma sem piedade. Geralmente, tudo surge com um esboço, mas na hora de realmente sentar para escrever um livro outras ideias aparecem e, então, me permito certa liberdade para fugir um pouco do esboço inicial. Descrevi todo esse processo em A outra história, o tema principal do livro é sobre essa exploração do processo de escrita e como isso se diferencia de escritor para escritor. Não sofro de bloqueio criativo na hora de escrever. Concordo com o que o Stephen King diz: “O momento mais assustador é sempre pouco antes de você começar [a escrever]. Depois disso, as coisas só podem melhorar.”

>> Leia um trecho de A outra história

 

João Lourenço é jornalista. Passou pela redação da FFWMAG, colaborou com a Harper’s Bazaar e com a ABD Conceitual, entre outras publicações estrangeiras de moda e design. Atualmente está em Nova York tentando escrever seu primeiro romance.

testeEdição especial: a maior treta do Olimpo dos últimos tempos

Por Rachel Rimas *ImagensBlogApolo-06

Por essa o Olimpo não esperava: acabamos de ser informados de que Apolo, também conhecido como deus-sol, deus da cura, da arquearia, das vacas e de quase tudo que existe, acabou de ser despejado do Olimpo pelo próprio pai, Zeus. Sim, você leu certo! DESPEJADO. Fontes afirmam que o imbróglio foi resultado da guerra com Gaia (ver nossa edição especial “Gaia gaiata” e nossa entrevista exclusiva com Octavian), que deixou Zeus chateadíssimo com o deus-sol. E o que ele fez? Expulsou Apolinho do Olimpo, cortou o 4G divino dele e, PIOR: anulou seus poderes. NÃO! O PIOR VEM AGORA: Zeus, em toda a sua fúria, transformou o majestoso e sublime deus em MORTAL. Pelas barbas de Poseidon! Sabe toda aquela beleza, graciosidade e esbelteza? Esqueça! Apolo agora é um adolescente de dezesseis anos, com espinhas horrendas e uma pancinha de fazer inveja a Dioniso. Parece que o jogo virou, não é mesmo?

Nesta edição especial e urgentíssima, você ficará por dentro da maior treta do Olimpo dos últimos tempos, com direito a uma entrevista exclusiva com Zeus, Meg McCafrey (ninguém a conhece, mas ela é importante, acreditem) e com o próprio — o agora ex-deus — Apolo.

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O deus dos deuses aceitou nos receber em seu duplex no Monte Olimpo para uma entrevista rápida, já que ele e Hera haviam marcado uma sessão de drenagem linfática com a melhor massagista da SPArta Coiffeur.

P: Zeus, me conta: você…

Zeus: O SENHOR.

P: O senhor considera que talvez, por acaso, sua decisão tenha sido um pouco… precipitada?

Z: PRECIPITADA? COMO É QUE É?

P: É que expulsar um deus do Olimpo foi bem… ousado.

Z: BOM, EU SOU O DEUS DOS DEUSES, ACHO QUE MEU CURRÍCULO ME PERMITE SER… COMO FOI QUE VOCÊ FALOU?

P: Ousado?

Z: ISSO. OUSADO. ENFIM. MINHA JOVEM, SE VOCÊ TIVESSE UM FILHO COMO APOLO, ENTENDERIA PERFEITAMENTE MINHA DECISÃO. SABE POR QUÊ? PORQUE ESSES DEUSES DA GERAÇÃO Y SÓ QUEREM SABER DE MOLEZA. NÃO ASSUMEM A RESPONSABILIDADE POR NADA, NEM POR SEUS DESCENDENTES, ORA VEJA. ACHAM QUE SÃO UM FLOQUINHO DE ICOR ESPECIAL. SÓ QUEREM FICAR POR AÍ TOCANDO HARPA, COMENDO AMBROSIA, TRAÇANDO DESTINOS CRUÉIS PARA MORTAIS DESAVISADOS, ESTOURANDO O PLANO DE DADOS COM FACEBOOK, INSTAGRAM…

P: Snapchat…

Z: SNAP… NÃO, SNAPCHAT NÃO. SNAPCHAT É TUDO. AMO/SOU. INCLUSIVE, O MEU É: ZEUS.TDPODEROSO.

P: É, faz sentido. Mas o senhor não acha que Apolo merece uma segunda chance?

Z: MINHA JOVEM, SABE QUEM TEVE UMA SEGUNDA CHANCE? MEUS IRMÃOS, QUE FORAM DEVORADOS POR MEU PAI, CRONOS, NO ALMOÇO. DEVORADOS. MAS EUZINHO AQUI FUI LÁ E ACABEI COM AQUELA PALHAÇADA E SALVEI MEUS MANOS. ENFIM, APOLO ESTÁ SÓ PLANTANDO O QUE COLHEU. E OLHA QUE FUI BONZINHO. PODERIA TER DADO UM CASTIGO BEM PIOR.

P: E há uma previsão de quando Apolo poderá retornar ao Olimpo?

Z: BOM, O FUTURO A ZEUS PERTENCE.  OU SEJA, A MIM. E AGORA TENHO OUTRAS PRIORIDADES.

[Voz ao fundo: Senhor Zeus, a massagista chegou.]

Z: ENTÃO É ISSO. VOU-ME. PODE IR EMBORA AGORA, MOCINHA.

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Exatamente, caros leitores. Também nos perguntamos quem era essa tal de Meg McCaffrey na fila do néctar, mas parece que ela veio para ficar. Sabemos apenas que é uma semideusa, filha de Deméter, com ligações escusas com o pessoal de Roma. Mas por que ela está aqui? Porque agora Apolo serve a essa menina de doze anos, depois de eventos complicados envolvendo caçambas, frutas podres e trombadinhas. Por Skype, conversamos com a menina.

P: Oi, Meg. Pode nos contar um pouco mais sobre como Apolo virou seu servo? O que aconteceu?

Meg: Não aconteceu nada, pô. Que mania de ficar perguntando tudo! Só estávamos no mesmo lugar, na mesma hora. Ele caiu no lixo, estava fora de si, desnorteado, eu vi uma oportunidade ali e pronto.

P: E como está sendo a convivência?

M: Bom, fora as choradeiras dele (sério. TODO. SANTO. DIA. Hoje foi por causa do wi-fi, que não funcionava de jeito nenhum, e ele queria porque queria jogar Pokémon Go), o ego maior do que o do Kanye West e um desmaio aqui e ali, está indo tudo bem.

[Voz esganiçada ao fundo: Meeeeg, você acha que essa blusa realça meus olhos?]

P: Epa, esse foi o Apolo? Quer dizer, o Lester?  Pode chamá-lo?

M: AFF. Chega. Vou desligar. Tchau.

Nota do editor: depois de alguns xingamentos da entrevistada e de prometermos um ano de McDonald’s de graça para ela, a menina concordou em convencer Apolo/Lester a nos dar uma entrevista exclusiva.

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Em sua primeira entrevista como mortal adolescente, Apolo nos conta como tem sido sua temporada na Terra e o que está disposto a fazer para voltar ao Olimpo.

P: Apolo, como está sendo a vida humana, a tão falada mortalidade?

Apolo: Um embuste! Um verdadeiro horror!

P: Mas não tem nenhuma vantagem?

A: Querida, eu era um deus. UM DEUS. Eu só tinha que me preocupar em dirigir minha Carruagem do Sol, me bronzear, tocar meu ukulele, escrever meus haicais, amaldiçoar mortais, me apaixonar por mortais, essas coisas. Agora é espinha, é pança, é dilema existencial, ponta dupla… NÃO DÁ PARA VIVER SENDO TROUXA ASSIM.

P: Mas você até fez amigos!

A: Mas é claro que eu fiz amigos. Continuo com minha personalidade cativante e envolvente. Claro, uma bad aqui e ali, mas ainda sou Apolo, ainda que sem poderes e sem a beleza estonteante.

[Apolo começa a chorar.]

A: É muita coisa, sabe? (Chorando.) É oráculo que não funciona, é semideus perdido, é gente estranha atrás de mim… Eu só queria comer minha uvinha sem caroço e ver Gilmore Girls! (Agora aos prantos.)

[Cinco minutos depois.]

A: Ok, estou melhor agora.  Enfim, minha querida, não está sendo fácil. Mas resolvi tirar algo bom disso tudo. Já estou trabalhando em meu livro, uma história de superação em cinco volumes com caderno de fotos e uma seção de haicais motivacionais. Pensei em algo como As provações de Apolo, mas ainda estou vendo isso.

[Meg sussurra algo no ouvido dele.]

A: Bem, fui informado de que um tal de Rick Riordan está escrevendo uma série de livros com esse título e que o segundo volume será lançado em maio de 2017. Como ele ousa? AFF. Vou mandar meus advogados entrarem em contato com esse senhor. Bom, querida, eu tenho mais o que fazer, tipo, SALVAR O MUNDO DE FORÇAS MALIGNAS. Então você me dá licença, ok? Beijos de luz divina.

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E essa foi nossa edição especial sobre os deuses e suas tretas. Quer mais? Percy Jackson e os deuses gregos, o GRANDE LIVRO DAS TRETAS, já está disponível nas melhores livrarias do Olimpo.

 

* Rachel Rimas é editora assistente do setor de ficção jovem da Intrínseca e é uma voyeur nata de tretas, ainda mais se envolverem deuses do Olimpo, rivalidades homéricas e algum chororô.

 

testeO noturno mundo de Clarice Freire

Por Pedro Martins*

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Lançado em 2014, após o sucesso de Eu me chamo Antônio, de Pedro Gabriel, Pó de lua foi outra aposta bem-sucedida da editora Intrínseca, vendendo mais de 70 mil cópias em todo o Brasil. Após o intervalo de quase dois anos e com quase 1,5 milhão de seguidores on-line, a recifense Clarice Freire volta às prateleiras de lançamentos com Pó de lua nas noites em claro, que promete encantar não só os antigos, como também os futuros leitores.

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A concentração de arte no sangue da família Freire sempre foi alta. Wilson, o pai, é um médico apaixonado pela escrita. A mãe, Lúcia, além da assistência social, também se dedica à arte de ilustrar. Sofia, a irmã, é musicista. O primo, Marcelino Freire, foi ganhador do Prêmio Jabuti. E Clarice? Ela, sem dúvidas, não negou seus genes:

— Comecei a escrever poesia na infância. Quando chegava da escola, meu pai estava sempre escrevendo ou compondo com seu amigo Antônio Carlos Nóbrega e eu ficava em cima. Ele me dava uma poesia e dizia: “Termina ela para mim.” Isso me incentivou. Eu era muito tímida e me lembro de sempre estar no meu quarto escrevendo. Desde aquela época, tudo saía em forma de poesia.

 

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“Escritora de poesia desenhada”: Para mim, palavras são muito mais do que várias letras juntas formando uma semântica. Elas podem ser um desenho, um objeto, qualquer coisa. Nunca consegui separar uma coisa da outra.

 

Conhecendo_a_Lua

Apesar de poetisa desde criança, Clarice fez sua primeira viagem à lua somente em 2010.

Formada em publicidade e propaganda, trabalhou por sete anos na área. Entre uma tarefa e outra na agência, fazia sua poesia desenhada despretensiosamente, “para respirar”, mas ritualmente jogava tudo fora antes de ir embora. Certo dia, ao chegar ao trabalho, viu tudo de volta à mesa:

— Pensei que alguém estivesse com raiva de mim e tivesse feito pirraça.

Na realidade, era Elisa Lacerda, sua diretora de arte, que nada tinha de pirracenta:

— Fiquei nervosa, disse que ela não tinha o direito de mexer no meu lixo, mas todos começaram a contra-argumentar. Elisa, então, criou um blog para mim: “Pelo menos agora você terá onde guardar suas ideias, e os desenhos levaremos para casa” — conta, brincando que hoje os amigos se recusam a devolvê-la seu “lixo”.

— Escolhi publicidade e propaganda porque era o curso que mais conseguia comportar esse meu lado criativo. Mas se agora estivesse começando do zero, faria tudo de novo — confessa.

Logo, a publicidade foi como uma madrasta do bem, que a “permitiu ter uma visão de mundo extraordinária”, ajudando-a a lapidar suas habilidades:

— Antes, minha escrita era muito prolixa, e a redação publicitária me fez consertar isso. Também estudei muito sobre criatividade. Cheguei até a fazer cursos na Argentina e na Espanha sobre isso. Hoje me dedico inteiramente à literatura, o que tem sido incrível. Mas ainda aplico todos os ensinamentos daquela área no meu processo artístico, algo que se deu muito bem com a internet. Devemos sempre ter sede de aprender e sermos bons, independentemente de qualquer coisa — diz a autora.

Para encerrar, cita Fernando Pessoa:

—Tudo vale a pena se a alma não é pequena.

 

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Clarice Freire: A literatura para mim sempre foi um meio de sobrevivência. Não é fácil morar dentro de mim, então para não enlouquecer coloco para fora tudo o que está em ebulição.

 

— Só conseguimos ser felizes quando investimos nos nossos sonhos.

Cedo ou tarde, foi isso que ela fez.

— Seja nos livros, seja na internet, Pó de lua faz parte tanto da minha vida quanto da dos leitores, que se veem nas poesias. Muitas vezes queremos dizer alguma coisa e não sabemos como fazê-lo, mas os escritores sabem, pois passam pelas mesmas angústias da alma que nós. É por isso que os amamos.

 

Viagens

Viajar à lua rotineiramente para coletar tanto não é uma tarefa fácil. A diversão ganhou ares de trabalho, e, em época de produção dos livros, ela segue uma rotina rigorosa:

— Raimundo Carrero, grande autor de Pernambuco, diz que o escritor é um operário como qualquer outro, mas um operário das palavras. Há momentos em que ou você fica horas sentado tendo em mente a necessidade de produzir, ou não produz nada.

 

A dedicação exclusiva à carreira artística mudou tudo:

— Apesar do material básico não ter mudado (papel e caneta nanquim), as diferenças são notórias. Substituí o rabisco rápido por algo mais complexo, estou sempre estudando para aprimorar o traço e a escrita e experimentando outros materiais. É um trabalho muito meticuloso.

Todos os originais são produzidos no Recife e, de tempos em tempos, voam junto com Clarice para o Rio de Janeiro, onde está sediada a Intrínseca. Em reuniões de até oito horas, passam pelas mãos dos editores e dos designers, que discutem “como podemos trabalhar aquilo da melhor forma”. Às vezes a editora também vai ao Recife:

— Uma vez chegamos a imprimir tudo em preto e branco no papel sulfite e fizemos um trabalho de colagem, literalmente, para depois mostrar ao designer, que reproduziu digitalmente.

Para ser produzido, o primeiro livro levou pouco mais de seis meses. O segundo, em contrapartida, foi matutado durante quase dois anos:

— Foi um desafio imenso, mas extremamente prazeroso. Há uma mistura de poesia e prosa, e uma linha narrativa mais definida, então tínhamos de fazer com que o leitor conseguisse aproveitar aquilo. É mais uma conquista — orgulha-se.

Noites_em_claro

À parte da técnica, as madrugadas antes usadas para descanso hoje são para trabalho:

— Confesso que muitas vezes me bate certa culpa por preferir as madrugadas. Somos julgados, chamados até de vagabundos, mas é quando minha cabeça mais trabalha.

Tão forte é essa relação que chegou até a inspirá-la. Seu segundo livro é dividido em capítulos-horas: à meia-noite, “as ruas se calam”; à 1h, “a boca se cala”; às 2h, “o pensamento fala”; às 3h, conhecemos “os moradores da noite”; as 4h, surgem “os primeiros raios do Sol”; e, às 5h, os “sentimentos dourados”.

— Quando o planejei, entrei no mundo noturno e comecei a pensar numa personagem, que no início do livro foge de casa, aventura-se explorando o subjetivismo introspectivo da noite e surpreende-se por descobrir que, apesar de passarmos pelas noites (algumas difíceis, escuras), sempre amanhecemos.

 

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Clarice Freire: Os livros são dois retratos diferentes de uma mesma alma. O segundo é algo novo. O leitor pode esperar um mergulho numa madrugada muito viva.

 

Afluências

Apesar de não escrever literatura infantil, em seu reino permeado por muito Pó de lua, Clarice está sempre acompanhada de grandes fadas-madrinhas e padrinhos mágicos da literatura, da música e do cinema:

— Sem dúvidas, os poetas contemporâneos são meus melhores amigos. Durante a produção do segundo livro, estive acompanhada de Cecília Meireles e Paulo Leminski (a irreverência dele me ensina muito e a delicadeza dela me encanta). Na prosa, sou apaixonada por Jostein Gaarder, autor de O mundo de Sophia e A garota das laranjas, um dos melhores livros que já li. Aliás, é um desejo enorme publicar um romance. Quero investir nisso, estudar. Mas jamais abrirei mão da poesia. No cinema, sempre achei a estética de Tim Burton fabulosa: ao mesmo tempo que é sombria, tem uma delicadeza sem igual. A vida é assim também — diz, usando o personagem Edward, mãos de tesoura como exemplo, que a maravilhou por ser, a princípio, repulsivo, mas, quando conhecido a fundo, demonstrar “uma pureza e uma doçura enorme”.

No campo musical, Clarice também se aventura. Influenciada pelo pai e por Nóbrega, já compôs em parceria com diversos musicistas. Um dos seus últimos trabalhos foi a letra “Leveza”, inspirada num dos seus próprios poemas, para o álbum de estreia de sua irmã, Sofia:


Ao ser solicitada para escolher uma música que representasse o conceito de Pó de lua (“diminuir a gravidade das coisas”), entretanto, a autora diz ser impossível:

— Cada poesia tem uma trilha sonora específica, na realidade.

 

Os desejos de Clarice

— Desejo que nosso país um dia invista verdadeiramente na cultura e na produção artística, para que tenhamos artistas realizados compartilhando todas as maravilhas de que são capazes — almeja a artista.

Um bate-papo descontraído de pouco mais de uma hora deixou evidente que Clarice Freire é, sem dúvidas, uma personagem tridimensional: sonha “amar até o fim”, tem medo de “passar nula pelo mundo”, arrepende-se de todas as vezes que deixou de fazer algo por medo e, se tudo correr bem, em dez anos quer “ser plena”.

Pó de lua nas noites em claro já está disponível nas livrarias físicas e on-line. Em breve, Clarice viajará por todos os cantos do país para se encontrar com os leitores e autografar.

— A editora Intrínseca faz questão de que o primeiro lançamento seja na cidade do autor. É uma delicadeza muito bonita.

 

Pedro Martins, viciado em livros, filmes e séries, descobriu a magia por meio dos escritos de J.K. Rowling aos oito anos. Com muita dedicação, essa paixão o tornou webmaster do Potterish.com e o possibilitou escrever sobre literatura para diversos portais, incluindo o britânico The Guardian. Agora, ele tem mais um lugar onde se aventurar: o blog da Intrínseca.

testePara ler sem vergonha de chorar

Jojo Moyes fala ao blog sobre seu processo criativo, o que a inspira a escrever e porque decidiu escrever uma sequência para Como eu era antes de você

Por Vanessa Corrêa*

Jojo Moyes, Meet the Author

Se Jojo Moyes não chorar enquanto escreve um livro, é sinal de que não está fazendo um bom trabalho. Autora do best-seller Como eu era antes de você, a escritora inglesa é especialista em criar histórias centradas em mulheres fortes que enfrentam situações-limite.

Pode ser a perspectiva da morte do homem que ama (em Como eu era antes de você), a ameaça de soldados inimigos durante uma guerra (em A garota que você deixou para trás) ou a dificuldade de criar dois filhos sozinha e sem dinheiro (em Um mais um). As heroínas de Moyes passam por todo tipo de obstáculo e muitas vezes sentem suas forças se esgotarem, vivendo momentos de grande sobrecarga emocional. Confira abaixo a entrevista exclusiva que ela concedeu ao blog:

“Eu sempre choro enquanto escrevo uma cena emocionante. Se eu não chorar, sei que a história não está funcionando. Depois de escrever me sinto menos afetada pelos problemas dos personagens, mas apenas quando a história está fluindo bem. Se não estiver, posso ficar muito mal-humorada”, explica Moyes.

A julgar pelo sucesso de seus últimos livros, a escritora passa por um longo período de bom humor. Com 12 obras publicadas, mais de nove milhões de cópias vendidas pelo mundo e ao menos dois romances sendo adaptados para o cinema, é difícil acreditar que Jojo Moyes quase desistiu da carreira de escritora.

Formada em jornalismo, ela trabalhou na imprensa britânica durante dez anos antes de se dedicar integralmente à literatura, em 2002. O sucesso só veio em seu oitavo livro, Como eu era antes de você, que conta a história de Louisa, uma garota que não sabe bem o que quer da vida e acaba se tornando cuidadora de Will, jovem empresário que, após ficar tetraplégico em um acidente, não vê mais razões para viver.

Centrado no difícil tema da eutanásia, o livro vendeu mais de três milhões de cópias e emocionou pessoas em todo o mundo. É comum encontrar em fóruns de leitores na internet depoimentos de pessoas contando como choraram durante quase toda leitura ou como sofreram com as dificuldades enfrentadas por Will e Louisa.

Nem mesmo os críticos saíram incólumes das cenas mais emocionantes da história, como atesta a jornalista Liesl Schillinger, que escreveu uma resenha do romance para o jornal The New York Times. “Quando terminei de ler, não queria escrever a crítica; queria reler o livro. O que pode parecer perverso, se você considerar que na maior parte das últimas cem páginas eu estava me desfazendo em lágrimas”, escreveu Schillinger.

A história de Louisa e Will será levada para o cinema em 2016. O filme tem direção da britânica Thea Sharrock e terá como protagonistas Emilia Clarke, uma das estrelas de Game of Thrones, e Sam Claflin, de Jogos Vorazes.

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Bastidores da adaptação cinematográfica de Como eu era antes de você

Responsável pelo roteiro do filme, Moyes conta que escrevê-lo foi um processo difícil, mas que ela amou. “É uma arte muito diferente — você tem que aprender a pensar de outra forma e realmente levar em conta o que o público está vendo a cada momento. Tive sorte porque Thea Sharrock e o estúdio, MGM, viram a história essencialmente do jeito que a vejo, então não tivemos nenhuma dessas brigas espetaculares que acontecem na indústria do cinema.”

Além da adaptação cinematográfica, Como eu era antes de você ganhou uma sequência, Depois de você, que será lançada pela Intrínseca em fevereiro. Moyes tomou a decisão de continuar a história por conta da reação dos leitores ao primeiro livro.

“Desde o dia em que Como eu era antes de você foi publicado as pessoas me mandam e-mails e mensagens nas redes sociais para falar sobre os personagens, especialmente sobre Lou, me perguntando o que ela fez após o fim da história. Essas questões e o trabalho no roteiro do filme fizeram com que ela nunca saísse da minha cabeça como outros personagens saem, e me vi fazendo a mesma pergunta: o que ela teria feito em seguida? Louisa passou por algo grandioso, e deixei o final em aberto. Um dia acordei com uma ideia e então soube que tinha que escrever a continuação”, diz Moyes.

Louisa pode ser a personagem que passou mais tempo na cabeça de Moyes, mas, segundo sua melhor amiga, a escritora se parece mais com Jess, protagonista de Um mais um. Talvez por ser tão batalhadora quanto a personagem, que mesmo sem dinheiro faz de tudo para dar uma vida melhor para seus dois filhos, ou por ser uma otimista incorrigível, que sempre acredita que as coisas ficarão bem.

Moyes, no entanto, vê um pouco de si em cada personagem que cria. “Você só pode escrever sobre um personagem se for capaz de realmente se colocar no lugar dele”, declara, acrescentando que se considera tão desastrada quanto Louisa. “Estou sempre caindo e dizendo as coisas erradas.”

A história de Jess e seus filhos, Tanzie e Nick, e sua jornada rumo à Escócia acompanhados do atormentado Ed, retratadas em Um mais um, também será levada aos cinemas. O elenco e a data de estreia do filme ainda não estão definidos, mas o roteiro foi escrito pela própria Moyes.

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Ela conta que normalmente demora entre um e dois anos para escrever um livro e não segue uma rotina fixa de trabalho. “Eu costumava acordar às seis da manhã para escrever antes que as crianças levantassem para ir à escola, mas agora elas também despertam mais cedo. Por causa disso não tenho mais uma rotina — escrevo toda vez que posso, e, quando entro em pânico por sentir que estou com o trabalho atrasado, viajo por alguns dias para outro lugar de modo a me dedicar totalmente à escrita, sem distrações. Costumo fazer isso três ou quatro vezes por ano. Felizmente minha família não se importa — deve ser melhor do que ter uma escritora rabugenta em casa!”, brinca ela.

Entre suas inspirações literárias, Moyes cita Liane Moriarty, autora de O segredo do meu marido e Pequenas grandes mentiras, Marian Keyes, Nora Ephron e George R.R. Martin, criador da saga que inspirou a série Game of Thrones.

Atualmente a escritora trabalha em outro roteiro, mas tem dedicado a maior parte do tempo ao marido e aos três filhos. “Os últimos três anos foram bastante caóticos, por isso prometi a eles que em 2016 iria diminuir um pouco o ritmo”, conta Moyes, que mora com a família em uma fazenda em Essex, na Inglaterra.

Quanto às próximas histórias e heroínas, a escritora faz mistério. “Não posso contar nada sobre o próximo livro. Não contaria nem se pudesse — sou supersticiosa!”

 

Vanessa Corrêa é jornalista, já trabalhou na Folha de S.Paulo e no portal UOL e é apaixonada por livros, cinema e fotografia.

testePor trás das #câmeras

Uma entrevista com Filipe Vilicic, autor de O clique de 1 bilhão de dólares

Por Bruno Capelas*

FOTO PAULO VITALE ALL RIGHTS RESERVED

Steve Jobs e Steve Wozniak fundaram a Apple dentro de uma garagem. Mark Zuckerberg criou o Facebook dentro de seu quarto na Universidade Harvard. A história recente da tecnologia é cheia de empreendedores que transformaram em realidade suas visões de mundo, como uma jornada do herói pós-moderna. Em O clique de 1 bilhão de dólares, o jornalista Filipe Vilicic adiciona uma nova história a essa prateleira ao contar a vida do brasileiro Michel, que nasceu numa família abastada de São Paulo e deixou seu país para se tornar Mike Krieger, um dos cofundadores do Instagram, rede social na qual mais de 300 milhões de pessoas compartilham fotos e vídeos de seus momentos íntimos.

Ao longo de 240 páginas, o editor de Ciência e Tecnologia da revista Veja mostra a trajetória de Mike Krieger passo por passo: dos dias de colégio na Graded, escola para poucos de São Paulo, passando pelas madrugadas incessantes trabalhando para lançar a primeira versão do Instagram, até a venda do aplicativo ao Facebook por US$ 1 bilhão na Páscoa de 2012. “A maioria das pessoas não se interessa pelas histórias do Vale do Silício. Meu desafio no livro foi tirar essas informações de um nicho e deixá-las acessíveis para qualquer leitor”, diz Vilicic, em entrevista ao blog da Intrínseca.

capa_OCliqueDeUmBilhaoDeDolares_destaque_pAo mesmo tempo que desmistifica o mundo das startups e das redes sociais, o escritor também procura relativizar a “pose de rockstars” que muitos empreendedores ostentam. “A formação e a riqueza do Mike Krieger obviamente ajudaram a trajetória dele, mas a obstinação é o maior exemplo. A palavra gênio não se aplica muito bem ao Vale do Silício”, completa.

Na entrevista a seguir, Vilicic conta como se interessou pela história de Mike Krieger e como foi escrever uma biografia sem a participação de seu principal personagem — O clique de 1 bilhão de dólares, por sinal, é um dos primeiros trabalhos publicados no país após a queda da lei que proibia biografias não autorizadas. “Acho que livros como o meu mostram como essa lei era arcaica. A história do Mike é de interesse público, porque o que ele criou impacta a vida de muita gente.”

Além disso, Filipe Vilicic comenta as mudanças que as redes sociais causaram no mundo. “Elas deixaram muito claro que a vida privada não é mais a mesma. Não adianta nada você colocar fotos do seu filho no Facebook e depois reclamar que não tem privacidade”, diz o jornalista, que acredita que a internet e as redes sociais não causaram uma grande revolução na vida moderna. “Nossa comunicação na internet é tal como era na Ágora grega. Apenas aceleramos esse processo”, diz, sem deixar de pensar nas #selfies e nas fotos de #comida.

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Leia um trecho de O clique de 1 bilhão de dólares

Bruno Capelas: Como você chegou à história do Mike Krieger?
Filipe Vilicic: Meu primeiro contato com o Mike foi profissional. Em 2012, estava fazendo uma matéria para a Veja sobre brasileiros que se destacavam na área digital, e o Mike era um dos caras sobre quem eu precisava falar. Consegui o contato dele e, logo na primeira entrevista, percebi que tinha uma grande história. Pelo faro de jornalista, continuei ligando para ele, mesmo sem saber o que ia fazer com aquele material.

Por coincidência, a última vez que falei com o Mike naquela época foi dias antes da Semana Santa. Era uma época turbulenta: o Instagram tinha acabado de sair para Android e recusado duas ofertas de compra — uma do Twitter e outra do Facebook. Dias depois, no domingo de Páscoa, o aplicativo acabaria sendo vendido para o Facebook por US$ 1 bilhão. Depois que o WhatsApp foi vendido por US$ 19 bilhões ao Facebook, esse valor pode parecer baixo. Mas o Instagram foi a primeira grande aquisição da empresa, mesmo sendo um negócio que nunca tinha dado lucro.

Ali, percebi que tinha uma história para contar — e foi assim que a Intrínseca me procurou para saber se eu queria fazer um livro. Duas semanas depois, mostrei o projeto ao Mike, que se empolgou no início, mas logo começou a dar para trás. Fui comendo pelas beiradas, conversando com funcionários do Instagram, com amigos dele, professores, colegas de profissão. Depois de quase dois anos de pesquisa, por meio da assessoria de imprensa do Facebook, Mike acabou me dando uma resposta negativa sobre a participação dele no livro. Tem gente que acredita que é porque ele tem medo de sequestros na família, mas outros pensam que foi o Facebook que barrou o projeto. Eles não têm uma experiência muito boa com livros, né? (risos) [referência a Bilionários por acaso, de Ben Mezrich, que conta a história do Facebook, também publicado pela Intrínseca].

Capelas: Apesar da popularidade do Instagram, são poucas as pessoas que sabem que o Mike é brasileiro. Por que você acha que isso acontece?
Vilicic: Há vários motivos. O primeiro é o nome: apesar de se chamar Michel, ele adotou Mike quando se mudou para os Estados Unidos, por causa da pronúncia — Michel, em inglês, se parece muito com Michelle, que é um nome feminino. Além disso, Krieger não é um sobrenome que soa brasileiro. O segundo motivo é que a maioria das pessoas não se interessa pelas histórias do Vale do Silício. Tem muita gente que não sabe que foi um brasileiro, o Eduardo Saverin, que ajudou a fundar o Facebook. Meu desafio, no livro, foi tirar essas informações do nicho e deixá-las acessíveis para qualquer leitor. E ainda existe uma terceira razão: Mike não é o porta-voz do Instagram. Essa função cabe ao Kevin Systrom, sócio de Mike — enquanto Kevin fica com os negócios, Mike ficou com a engenharia e o design. Faz sentido. Se você olhar o perfil do Kevin no Instagram, vai ver fotos dele dando uma de DJ em festas ou retratos com outros famosos. Já o Mike publica muitas fotos de praias e do cachorro, como é de se esperar de um cara mais reservado.

Working late into the night to make Instagram even better. All we require: little heaters. It’s freezing in here!

Uma foto publicada por Kevin Systrom (@kevin) em

O brasileiro Michel e seu sócio, Kevin Systrom, no começo do Instagram

Capelas: Mike Krieger é um cara que veio de família rica, estudou em colégios caros, morou fora e fez faculdade em Stanford. Qual é o exemplo que ele pode dar para o brasileiro comum que quer empreender?
Vilicic: A formação e a riqueza do Mike Krieger obviamente ajudaram a trajetória dele. Não é qualquer um que faz faculdade em Stanford. Colocando os benefícios de lado, o exemplo é a persistência e a determinação. A palavra gênio não se aplica bem ao Vale do Silício — quem consegue fazer sua ideia dar certo é alguém obstinado. Ao se formar em Stanford, Mike teve dificuldades para conseguir o green card e ficar nos Estados Unidos. Ele poderia muito bem ter voltado para o Brasil e conseguido um emprego de alto nível, mas quis continuar no país porque acreditava que lá era o lugar onde conseguiria criar algo. Essa obstinação serve de exemplo para qualquer um, independentemente de quanto dinheiro você tenha na conta.

Capelas: Para você, quais são as principais mudanças que o Instagram causou no mundo?
Vilicic: Existe certo exagero hoje ao dizer que tudo está mudando o mundo. Concordo com Peter Thiel, cofundador do PayPal e investidor do Facebook. Para ele, a internet, as redes sociais e os aplicativos não mudam o mundo, mas aceleram algumas coisas. Acelerar o processamento e a rapidez de comunicação é algo que facilita nossa vida, mas não transforma nosso modo de ser. Por outro lado, acredito que o Instagram, bem como o Facebook e outras redes sociais, ajuda a aproximar pessoas, encurtando distâncias que, há mais de um século, já tinham sido aproximadas pelo telégrafo e pelo telefone. Acredito que um dia você poderá conversar com qualquer pessoa no planeta pelo Facebook. Além disso, o Instagram fomentou a exibição da vida privada — é só pensar nas selfies ou nas fotos de comida por todo lado. As redes sociais deixaram muito claro que a vida privada não é mais a mesma. Não adianta nada você colocar fotos do seu filho no Facebook e depois reclamar que não tem privacidade. Hoje, é preciso ter uma nova doutrina quanto à vida privada . Mas as redes sociais não são uma revolução. Nossa comunicação na internet é tal como era na Ágora grega. Apenas aceleramos esse processo.

Fotos de viagens de Vilicic pelas sedes do Facebook, Instagram e Twitter (Via @FilipeVilicic )

Fotos de viagens de Vilicic pelas sedes do Facebook, Instagram e Twitter (Via @FilipeVilicic )

Capelas: As startups são as bandas de rock de hoje em dia?
Vilicic: Sim, mais pela visão do público do que pela dos próprios membros das startups. O público vê os empreendedores como rockstars. Ainda é um nicho, porque não é todo mundo que se interessa por tecnologia e sabe o nome do Mike Krieger ou mesmo o do Mark Zuckerberg. Quer dizer: os empreendedores ainda não são roqueiros como os Beatles.

Capelas: O clique de 1 bilhão de dólares é uma das primeiras biografias não autorizadas a serem publicadas no Brasil após a decisão do Supremo Tribunal Federal. Como você se sente quanto a isso?
Vilicic: O clique seria publicado mesmo que a lei arcaica que existia no Brasil não caísse. A data já estava marcada antes da decisão do Supremo Tribunal Federal. A história do Mike é de interesse público, porque o que ele criou impacta a vida de muita gente. As pessoas precisam ter senso crítico antes de começar a digitar ideias no Facebook e postar fotos no Instagram. Por outro lado, não acredito que o Mike entraria na Justiça para que o livro não fosse publicado. Ele vem de uma tradição democrática e liberal; pegaria muito mal para ele, nos Estados Unidos, tentar proibir a publicação de uma biografia no Brasil. A queda da lei acabou sendo uma boa coincidência. Acho que livros como o meu mostram como essa lei era arcaica, porque as pessoas querem ler e se interessam pelo conhecimento. Isso é o mais importante.

 

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Bruno Capelas é repórter do IGN Brasil, a versão brasileira do maior site de games do mundo. Formado em jornalismo pela Universidade de São Paulo (USP), já foi repórter do portal IG e do Link, a editoria de tecnologia do jornal O Estado de S. Paulo. Além disso, edita o blog Pergunte ao Pop e colabora desde 2010 com o Scream & Yell, um dos principais veículos independentes de cultura pop do país.