testeA batalha entre Davi e Golias

Senadora democrata por Massachusetts, Elizabeth Warren mescla em livro dilemas da vida pessoal à emaranhada batalha que decidiu travar contra Wall Street por uma Lei de Falências justa

Por Marsílea Gombata*

A senadora americana Elizabeth Warren

A senadora americana Elizabeth Warren (Fonte: Vogue)

A falência pessoal não é fruto do fracasso de um indivíduo, mas culpa de um sistema que se aproveita da ignorância e da dificuldade de muitas pessoas. Agentes de uma das crises financeiras mundiais mais catastróficas da história, os bancos foram em 2008 os grandes vilões, responsáveis — somente nos Estados Unidos — por mais de cinco milhões de americanos terem perdido suas casas, nove milhões terem ficado sem emprego e quase 13 trilhões de dólares de economias familiares terem ido para o ralo.

chancedelutargrandeÉ à luta contra esse monstro encarnado nas grandes instituições financeiras que a senadora americana Elizabeth Warren dedicou mais de vinte anos de sua vida. Antes mesmo de os jovens ouvirem Bernie Sanders vociferar contra Wall Street nas primárias da eleição americana, Elizabeth já empunhava a bandeira contra privilégios que as organizações financeiras mantêm sobre os cidadãos comuns. Apesar de não ser candidata à corrida democrata para disputar a Casa Branca neste ano, Elizabeth, há quem diga, tem influenciado o pensamento e o discurso de Hillary Clinton, que dentro do Partido Democrata dispõe de mais recursos.

Especialista na Lei de Falências americana, Elizabeth se projetou nos círculos acadêmico e político comprovando através de pesquisas qualitativas e outros dados que a falência não é fruto exclusivamente das escolhas erradas daqueles que estão endividados, mas também é culpa dos abusos cometidos pelas instituições financeiras. Sua trajetória pode ser encarada por muitos como uma verdadeira ousadia: na terra do capitalismo selvagem, a luta de um indivíduo contra todo o sistema, ou a batalha entre Davi e Golias — imagem que ela própria gosta de resgatar ao dimensionar a “encrenca” na qual resolveu se meter desde os tempos em que dava aulas de direito na Universidade do Texas.

De lá para cá, o envolvimento com a situação dos endividados só cresceu: além de atuar como professora entusiasmada em ensinar a questão da falência, ela passou a integrar o grupo de trabalho responsável por supervisionar as atividades do Congresso na área, o Congressional Oversight Panel (COP, ironicamente a mesma palavra usada para se referir a “policial” em inglês). Depois, tornou-se professora em Harvard e foi chamada pela Casa Branca para atuar como consultora do Congresso e assistente do presidente Barack Obama na implantação da Agência de Proteção Financeira ao Consumidor, órgão com autoridade e poder para garantir que regulamentações de proteção ao consumidor fossem elaboradas de maneira justa e fiscalizadas com rigor. Em 2012, aos 62 anos, elegeu-se senadora pelo estado de Massachusetts.

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Em seu Uma chance de lutar, a senadora mescla vida pessoal (com direito a trechos detalhados sobre, por exemplo, o ataque cardíaco que fez com que seu pai descesse na hierarquia da empresa em que trabalhava e levou a família à derrocada econômica) com trajetória profissional para dar corpo a uma obra na qual se retrata como a perfeita realização do sonho americano: filha de um zelador e uma dona de casa que se viu obrigada a trabalhar fora como telefonista, Elizabeth venceu as limitações financeiras da família e desafiou padrões de uma época em que o principal objetivo da maioria das mulheres era conseguir um bom casamento. “Eu queria ser uma boa esposa e uma boa mãe, mas também desejava fazer algo mais. Sentia-me profundamente envergonhada por não querer ficar em casa o dia inteiro com minha alegre e adorável filha”, conta no livro.

É, portanto, ao fazer um retrospecto do passado meritocrático, mas também de uma vida virtuosa embalada por um tipo de proteção social que o Estado americano se preocupava em ofertar outrora, que Elizabeth é taxativa: “Hoje o jogo está viciado — viciado para beneficiar quem tem dinheiro e poder. Grandes empresas contratam exércitos de lobistas para obter brechas de bilhões de dólares no sistema fiscal e convencer seus amigos no Congresso a apoiar leis que mantenham o jogo vantajoso para elas”, alerta. “A classe média americana está sob ataque. E, o que é pior, não está sendo atacada por uma força incontrolável da natureza. Ela se encontra em apuros porque o jogo está sendo deliberadamente fraudado.”

A grande briga da senadora democrata, no entanto, não é apenas contra os bancos, mas contra o fato de eles terem carta branca para destruir a vida de milhões de cidadãos ao destilar fraudes e mentiras (vide os títulos podres na crise das hipotecas subprime) e levar o país e boa parte do mundo para o buraco. A guerra pelo retorno a um contexto no qual os banqueiros passavam por muitas salvaguardas para que não emprestassem dinheiro a quem não pudesse devolver, dinâmica que ficou em vigor até o fim dos anos 1980, quando a usura e a falta de regulamentação voltaram a imperar, levando instituições a terem como público-alvo indivíduos que mal se sustentavam. Essa situação já pavimentava a crise de 2008, quando milhares de americanos se afundaram em financiamentos de hipotecas de alto risco, o que culminou no estouro da bolha imobiliária.

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Recentemente, em discurso no Senado em 21 de janeiro, Elizabeth Warren fez um apelo pela erradicação da influência do dinheiro na política. “Temos um problema: o dinheiro. O dinheiro inunda o nosso sistema político, o dinheiro que permite que um punhado de bilionários decida quem entra no Congresso, e talvez decida quem se senta na Casa Branca”, afirmou ao acusar o Congresso de favorecer os bilionários em vez de escutar as necessidades do povo americano. Em 29 de janeiro, voltou a polemizar ao publicar um artigo no The New York Times no qual lembrava falhas do governo federal, como a falta de punição adequada a grandes corporações e executivos quando infringem a lei: “Justiça não pode significar uma sentença de prisão para um adolescente que rouba um carro e simplesmente nada para um CEO que na surdina arquiteta o roubo de bilhões de dólares.”

O recado de Elizabeth é claro e parece fazer eco em uma das atuais bandeiras da legenda democrata. Além de Sanders, que fala em quebrar os grandes bancos, Hillary também quer maior controle sobre as grandes instituições financeiras.  “Meu plano propõe uma legislação que imponha uma nova taxa de risco em dezenas dos maiores bancos — aqueles com mais de 50 bilhões de dólares em ativos — e outras instituições financeiras sistemicamente importantes para desencorajar o tipo de comportamento perigoso que poderia induzir a uma nova crise”, escreveu em dezembro no The New York Times.

O artigo lhe rendeu o apoio de Elizabeth, que, no Facebook, disse concordar com o seu plano. O objetivo, afinal, parece retomar aquilo que norteia a senadora e é exposto em Uma chance de lutar: “Nós, o povo, precisamos de um governo que trabalhe para as pessoas. Não estou falando da diferença entre um governo centralizador, intervencionista, e outro liberal, pouco regulador. Estou falando da diferença entre um governo que só trabalhe para os ricos e poderosos e outro que trabalhe para todos.”

 

Marsílea Gombata é jornalista e doutoranda em ciências políticas na USP, onde estuda política social como instrumento de política externa na América Latina. Foi chefe de reportagem no jornal O Estado de S. Paulo e editora no Jornal do Brasil. Atualmente edita o Carta Educação, site de CartaCapital dirigido a educadores, estudantes e interessados no tema.

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Tudo tem uma primeira vez, de Vitória Moraes (Viih Tube) — Como foi o seu primeiro beijo? E a primeira vez que teve coragem de dizer “eu te amo” para alguém? Ou que vacilou feio com uma amiga? Em Tudo tem uma primeira vez, Vitória Moraes, a Viih Tube, fala abertamente e com muito bom humor sobre os grandes (e primeiros) momentos da adolescência.

Viih tem posições firmes e um jeito só seu de contar histórias de meninos e meninas que estão conectados à internet 24 horas por dia e usam as redes sociais para tudo. Com suas palavras, faz um retrato divertido de quem é o adolescente da atualidade. [Leia +]

Todos envolvidos, de Ryan Gattis Na tarde de 29 de abril de 1992, um júri absolveu três policiais brancos do Departamento de Polícia de Los Angeles acusados de usarem força excessiva para controlar um civil negro chamado Rodney King. Menos de duas horas depois, a cidade explodiu em violência. Em seis dias, sessenta pessoas morreram. Mas muitas mortes não foram contabilizadas: fora da zona principal de protestos, algumas gangues se aproveitaram dos tumultos para acertar as próprias contas.

Inspirado nesse momento e narrado do ponto de vista de dezessete personagens, o romance de Ryan Gattis apaga as fronteiras entre vítimas e criminosos e transforma a história dos protestos em uma vívida e eletrizante obra de ficção. Uma narrativa ambiciosa e arrebatadora, um épico sobre crime e oportunismo, vingança e lealdade. [Leia +]

Temporada de acidentes, de Moïra Fowley-Doyle — Acontece todo ano, na mesma época. Todo mês de outubro, inexplicavelmente, Cara e sua família se tornam vulneráveis a acidentes. Algumas vezes, são apenas cortes e arranhões — em outras, acontecem coisas horríveis.  A temporada de acidentes faz parte da vida de Cara desde que ela se entende por gente. E esta promete ser uma das piores.

No meio de tudo, ainda há segredos de família e verdades dolorosas, que Cara está prestes a descobrir. Neste outubro, ela vai se apaixonar perdidamente e mergulhar fundo na origem sombria da temporada de acidentes. Por quê, afinal, sua família foi amaldiçoada? E por que eles não conseguem se livrar desse mal? [Leia +]

 

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Uma chance de lutar, de Elizabeth Warren — Um dos nomes mais relevantes na corrida presidencial dos Estados Unidos em 2016, a senadora Elizabeth Warren é um retrato perfeito da realização do sonho americano: filha de um zelador e uma telefonista, venceu as dificuldades da família e o lugar-comum da época de que o principal objetivo de toda mulher era conseguir um bom casamento. Ela tornou-se professora em Harvard, atuou como consultora do Congresso americano e assistente do presidente Barack Obama.

Neste relato, Elizabeth deixa transparecer a fibra que a fez chegar aonde está e expõe a abrangência de seus conceitos sobre o endividamento e o sistema financeiro, que extrapolam o cenário norte-americano. [Leia +]

Os irmãos Tapper declaram guerra (um contra o outro), de Geoff RodkeyOs gêmeos Claudia e Reese, de 12 anos, não poderiam ser mais diferentes, mas em uma coisa eles são realmente idênticos: a determinação em sair ganhando na terrível guerra travada entre os dois! No primeiro volume da série, tudo começa com uma polêmica no refeitório da escola, quando Claudia sofreu um ataque cruel e covarde do próprio irmão. Aos poucos, a guerra se acirra e, das ruas de Nova York, passa para o universo ficcional de um jogo on-line.

Com uma narrativa totalmente original, incluindo fotos, capturas de tela dos jogos, registros de chats e muitas mensagens trocadas pelo celular entre os pobres pais dos beligerantes, Os irmãos Tapper declaram guerra (um contra o outro) mostra, de forma autêntica e hilária, os conflitos entre dois irmãos adolescentes numa era saturada de recursos visuais e digitais. [Leia +]

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O árabe do futuro 2: Uma juventude no Oriente médio (1984-1985), de Riad Sattouf — Segundo volume da trilogia que narra o choque cultural vivido por uma criança nascida na França que passou os primeiros anos de vida dividida entre a Líbia, a Bretanha e a Síria. Nessa sequência, o premiado quadrinista Riad Sattouf, ex-colaborador do jornal Charlie Hebdo e que participou da última edição da Flip, relata seu primeiro ano como aluno de uma escola síria, onde enfim aprendeu a ler e escrever em árabe enquanto enfrentava um ambiente rígido e violento.

Comparado aos aclamados Maus e PersépolisO árabe do futuro exibe uma visão reveladora sobre o conflito entre culturas que está definindo o século XXI. Com traço simples e narrativa fluida e divertida, Riad fornece ao mesmo tempo uma análise do embate entre o Ocidente e o mundo árabe e um autorretrato de uma infância tão plural e de cores tão fortes. [Leia +]

Aceitação, de Jeff VanderMeer —  É inverno na Área X, a misteriosa região selvagem que há trinta anos desafia explicações e repele pesquisadores de expedição após expedição, recusando-se a revelar seus segredos. Enquanto sua geografia impenetrável se expande, a agência responsável por investigar e supervisionar a área — o Comando Sul — entra em colapso. Uma última e desesperada equipe atravessa a fronteira, determinada a alcançar uma remota ilha que pode conter as respostas que eles tanto procuram.

Último livro da trilogia de ficção científica Comando Sul, Aceitação conecta os dois livros anteriores, Aniquilação e Autoridade, em capítulos breves e acelerados, narrados da perspectiva de personagens cruciais. Página após página, os mistérios são aos poucos solucionados, mas as consequências e as implicações dos acontecimentos passados jamais serão menos profundas ou aterrorizantes. [Leia +]

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