testeQuem eram esses jovens capazes de arriscar suas vidas

Meu pai caminhava apreensivo e tenso pelas ruas de Vitória, no Espírito Santo, numa noite de 1969. Ele estava indo se encontrar com uma pessoa que impactaria sua vida: o líder regional de um partido clandestino durante o regime militar.

Era seu primeiro “ponto” — como eram chamados os encontros secretos dos esquerdistas contrários à ditadura — de dezenas que se tornariam cada vez mais frequentes. À medida que Marcelo Netto crescia como líder estudantil, mais ele faria caminhadas perigosas.

Escolhi começar meu livro Em nome dos pais assim porque costumava pensar nessas andanças solitárias. Em 1969, ninguém tinha dúvida: a extrema direita estava no poder e a linha dura dentro dela havia vencido. Era o tempo do Ato Institucional Número 5 (AI-5), que durou dez anos.

Milhares de jovens fizeram caminhadas solitárias e arriscadas num tempo em que os militares torturaram, assassinaram e ocultaram cadáveres de opositores. Que tipo de jovens eram eles?

Entrevistei vários, e cada um tem sua maneira de ver aquele momento da história brasileira, mas todos concordam sobre os absurdos do período mais opressivo do regime, após a instauração do AI-5, que entrou em vigor em dezembro de 1968 e só deixou de vigorar em janeiro de 1979.

Na produção do livro, e também no lançamento na capital capixaba, encontrei vários desses jovens da década de 1970. Em determinado momento da noite de autógrafos, minha mãe, Míriam Leitão, me chamou para uma foto com muitos deles. Instintivamente, agachei-me, em sinal de respeito.

Hoje eles têm mais de sessenta anos e vivem vidas das mais distintas: atuam como médicos no interior do país, engenheiros em grandes empresas de construção e jornalistas de destaque, como minha mãe, que trabalha na imprensa nacional há mais de quarenta anos.

O médico Guilherme Lara Leite, por exemplo, me emocionou bastante durante uma entrevista para o livro. Quando o encontrei na sua sala de paredes brancas e com ampla varanda, o ex-militante se lembrou de uma história importante e que o marcou. Um dia, seu neto, ainda muito jovem, o perguntou sobre o motivo de sua prisão durante a ditadura. “Você já foi preso? O senhor é bandido?”, perguntou ao avô. Nesse instante da entrevista, Guilherme começou a chorar, a fala travou e ele soltou a seguinte frase:

— Fico até emocionado. Falei para ele que tinha sido preso e que não era nenhum bandido, que tinha lutado pela liberdade do Brasil e o que eu tinha feito era isto: escrever “Abaixo a ditadura”, trazer alguns filmes e shows para Vitória.

Quando descobri que meus pais haviam sido presos e torturados, ainda um pré-adolescente, a notícia me atordoou. Também fiz a pergunta a mim mesmo: será que eles fizeram algo de errado?

Em nome dos pais parte de uma história familiar e faz um retrato de parte de uma geração que viveu o dilema entre se calar diante das arbitrariedades da ditadura, o cerceamento de direitos civis, ou resistir. O grupo de Vitória decidiu gritar em meio ao deserto.

Nenhum deles pegou em armas para lutar contra o regime militar. Eram muito novos. Faziam reuniões, greves, panfletagens, pichações, atendimentos médicos em favelas e peças de teatro “engajadas”, com leitura de versos clássicos de Castro Alves.

Por isso, foram presos por meses, torturados por dias e, alguns, punidos novamente, como meu pai, expulso de todas as universidades por três anos, além de perder para sempre os quatro anos de estudos de medicina que cursara. Tudo debaixo do guarda-chuva da Lei de Segurança Nacional, sob a justificativa de que eram subversivos.

Às vezes, tento imaginar o que eles pensavam nessas caminhadas solitárias ao encontro do risco. Será que tinham noção do perigo que os rondava? Eles dizem que sabiam, mas eram muito jovens.

Na música daquela época há vários sinais, em linguagem cifrada, de um tempo áspero, como na canção de Tom Jobim cantada por Elis Regina: “É pau, é pedra, é o fim do caminho. É o resto de toco, é um pouco sozinho”. As águas de março fecharam o verão por 21 anos e eles perceberam que eram “um pouco sozinhos”.

testeVozes dissonantes

FOTO: KAORU/CPDoc JB

A impressão de longe, tanto tempo passado, é a de que a geração dos meus pais era algo monolítico e que todos pensavam da mesma forma. Engano. Nos anos 1972 e 1973, o movimento de rua já havia terminado. Os sequestros e assaltos a banco também. O milagre econômico, a propaganda maciça e o apelo ao “patriotismo” alienavam a maioria dos jovens. O AI-5 calara a maioria das vozes. 

É nesse silêncio que um grupo pequeno no Espírito Santo decide manter um movimento improvável, incluindo meus pais: Marcelo Netto e Míriam Leitão. É nesse contexto que a história de Em nome dos pais se passa. Por isso, digo no livro que eles pareciam alienígenas. 

Gal Costa lançara seu Fa-Tal – Gal a todo vapor em novembro de 1971. O disco estourou, quebrando o silêncio imposto pelo regime. As músicas de Gal tinham versos fortes, e sua voz cristalina como água era um protesto lírico e triste: “No fundo do peito esse fruto, apodrecendo a cada dentada”, ou “Oh, sim, eu estou tão cansada, mas não pra dizer que eu não acredito mais em você”, ou “Assum preto, seu cantar é tão triste quanto o meu”.

 

 
O ambiente era o terror do governo Emílio Garrastazu Médici, o pior do regime militar e no auge de sua força. 

Eu os descrevo solitários, andando nas ruas, escrevendo nas paredes alguns recados como “Abaixo a ditadura” ou fazendo reuniões secretas com um importante diretor da União Nacional dos Estudantes. Reunião é modo de dizer, porque apresento um encontro do meu pai com o então líder estudantil Ronald Rocha, com tudo o que um contato clandestino tem: andavam e conversavam por vários quarteirões de Copacabana olhando para os pés.

Havia poucas válvulas de escape, e a maioria nem entendia o que estava de fato acontecendo no país. Mesmo na universidade. Por isso cada ato era tão valioso. Como fazer uma greve universitária num momento assim? Meu pai, Marcelo, conseguiu liderar uma greve na medicina da Universidade Federal do Espírito Santo. 

Certa vez, Míriam foi fazer sua primeira ação na rua com uma fita-cola. Tinham, ela e uma colega, que passar um algodão molhado atrás e pregar. E passaram. E colaram. Mas um agente da área de inteligência percebeu o movimento e foi se aproximando até que, pimba! Segurou o braço de minha mãe. Ela gritou pedindo socorro, fazendo-se de vítima. Virou uma confusão. O homem soltou e elas correram.

Na ditadura, quatro anos fizeram uma enorme diferença de clima e ambiente. Quem viveu 1968 viu passeatas, manifestações, o movimento de rua. De certa forma havia esperança. Em 1972 era outra história, e é essa que conto em nome dos meus pais e dos amigos deles de Vitória. Eles eram poucos.

>> Leia um trecho de Em nome dos pais

testeA incansável busca de um filho pela história dos pais

Em nome dos pais chega às livrarias a partir de 10 de maio

 

Desde pequeno, Matheus Leitão ouvia as expressões “perseguição”, “prisão” e “porão” sussurradas por seus pais, os jornalistas Marcelo Netto e Míriam Leitão. A assustadora palavra “tortura” apareceu bem mais tarde. Movido pela curiosidade de compreender o passado, o jovem perguntador passou a recolher retalhos de uma história dolorosa, que se iniciou em 1972, no Espírito Santo, quando os pais militavam no PCdoB. Delatados por um companheiro, foram presos e torturados. Na ocasião, Míriam estava grávida de Vladimir, o primeiro filho do casal.

Matheus também seguiu a carreira de jornalista, dedicando-se a reportagens sobre direitos humanos e ditadura. Em nome dos pais é resultado de suas incansáveis investigações, que começam pela busca do delator e seguem com a localização dos agentes que teriam participado das sessões de tortura de seus pais. Passado e presente se entrelaçam nessa obra, que reconstitui com rigor eventos do início dos anos 1970 e, ao mesmo tempo, apresenta a emocionante peregrinação do autor pelo Brasil atrás de respostas.

Uma história sobre pais e filhos, e também sobre um país que ainda reluta em acertar as contas com um passado obscuro, Em nome dos pais chega às livrarias a partir de 10 de maio. A obra será lançada, com sessão de autógrafos, nas cidades de Brasília, Vitória e Caratinga. Confira abaixo as informações completas:

 

Sessão de autógrafos em Brasília/DF

Data: 16 de maio, terça-feira
Horário: 19h
Local: Livraria Cultura – Shopping Iguatemi
Endereço: SHIN CA 4 Lote A – Lago Norte
Confirme sua presença no evento

 

Sessão de autógrafos em Vitória/ES

Data: 25 de maio, quinta-feira
Horário: 19h
Local: Saraiva – Shopping Vitória
Endereço: Av. Américo Buaiz, 200 – 601 – Enseada do Suá
Confirme sua presença no evento

 

Sessão de autógrafos em Caratinga/MG
Data:
26 de maio, sexta-feira
Horário: 19h
Local: Casarão das Artes
Endereço: R. João Pinheiro, 154
Confirme sua presença no evento

Sessão de autógrafos no Rio de Janeiro/RJ
Data:
30 de maio, terça-feira
Horário: 19h
Local: Livraria Travessa Leblon
Endereço: Av. Afrânio de Melo Franco, 290
Confirme sua presença no evento

testeA ditadura acabada, de Elio Gaspari, chega às livrarias em 1º de junho

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A mais aclamada obra sobre o regime militar no Brasil chega à conclusão com o livro A ditadura acabada. No quinto volume da Coleção Ditadura, o jornalista Elio Gaspari examina com riqueza de detalhes o período de 1978 a 1985, desde o final do governo do presidente Ernesto Geisel e a posse de seu sucessor, o general João Baptista Figueiredo, até a eleição de Tancredo Neves pelo Colégio Eleitoral. São os anos da abertura política, momento decisivo na história de nosso país e repleto de acontecimentos, como o fim do AI-5, as manifestações políticas pela anistia e pela volta das eleições diretas para a presidência, os atentados promovidos por aqueles que se opunham à redemocratização, como o episódio da bomba no Riocentro em 1981, e uma crise econômica sem precedentes.

Com uma narrativa fluida e pesquisa profunda, Elio Gaspari compõe um painel fascinante de um país em plena ebulição, em que muitos dos protagonistas se mantêm como parte do noticiário atual. No epílogo, denominado “500 vidas”, o autor acompanha o destino de quinhentos personagens que sobreviveram ao fim da ditadura, entre militares e militantes, empresários e sindicalistas, torturados e torturadores. Alguns desses sobreviventes chegaram à presidência da República, como a presa política Dilma Rousseff, o metalúrgico Luiz Inácio Lula da Silva e o professor Fernando Henrique Cardoso. É uma conclusão impactante para uma obra fundamental sobre a história recente do Brasil.

A ditadura acabada estará disponível em duas versões de e-book, uma delas com áudios e vídeos acrescentados pelo autor, ambas contendo mais de trinta documentos históricos.

A Coleção Ditadura, com seus cinco volumes, poderá ser encontrada também em um luxuoso box em versão impressa e digital.

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Conheça o site Arquivos da ditadura

testeOde à alegria

Esplanada murada - Maurício Gomyde

Esplanada murada – Foto por Maurício Gomyde

Não adianta fugir, não adianta fingir que não é comigo, menos ainda tentar tapar o sol com a peneira. Estamos na semana mais importante do Brasil desde o fim do período militar, e é impossível ficar indiferente a tudo o que está acontecendo. Para um escritor em temporada de escrita de livro, é mortal. Semana passada, falei aqui sobre como as redes sociais roubam nossa atenção. Pois a conjuntura política e social tem sido o capo da operação Ladrões de Tempo deflagrada. Para cada parágrafo escrito, dez sites de política acessados. Não sei quanto tempo vai durar, e espero que tudo seja resolvido logo, de um jeito ou de outro, da melhor maneira possível e sem convulsão social, para que voltemos a pensar em todas as outras coisas importantes que fazem parte da vida.

Moro em Brasília e, diariamente, vou para o trabalho pela Esplanada dos Ministérios. Puseram um muro ali, ao longo do enorme gramado. Dividiram-na, literal e ideologicamente, em “lado esquerdo” e “lado direito”. Os pró do lado esquerdo e os contra do lado direito. Ou vice-versa, dependendo do foco que dermos ao tema. Jamais imaginei que veria isso. Para mim, esse muro é uma vergonha, uma tristeza inenarrável. Como chegamos a esse ponto? Não adianta culparmos um ou outro. A culpa é nossa, é de todo mundo. A autocrítica deve ser feita o quanto antes. Olhando para aquele muro, eu me pergunto: “Tem como voltar atrás?” Infelizmente, vai ser difícil. Já houve a ruptura. Mas, ainda que haja para sempre uma cicatriz, o machucado há de ser curado. Temos o mesmo sangue, não nos esqueçamos.

Não estarei em Brasília no domingo, e sim em Belo Horizonte. Quis o destino que minha tarde de autógrafos na Bienal de Minas fosse exatamente durante a votação. Entenderei como uma dica para minha vida: há outras coisas que podem deixá-lo imensamente feliz. Ficar no meio dos leitores, respirar livros, trocar ideias sobre romances, dar risada, reencontrar amigos escritores. Somos muitos, todos empurrando para a frente a roda da vida. Porque é disto que se trata, em última instância: viver.

Somos brasileiros! Não combinamos com muros. Já temos que matar um leão por dia e, agora, derrubar um muro por dia? Tenho fé em que vamos superar as imensas dificuldades, não importa como nem com quem. Só o que desejo, hoje, é que daqui a um ano eu esteja lançando meu novo livro num contexto de paz, esperança e harmonia. E que tudo o que esteja acontecendo agora seja apenas parte de um profundo processo de transformação, principalmente interior.

Meu novo livro trata disto: felicidade genuína. Talvez todo esse período seja uma lição e me forneça elementos maravilhosos para incorporar à minha história. Escritores somos assim: tentamos captar as coisas no ar, e, quanto mais “ao vivo e agora”, melhor. No que depender de mim, esse livro será uma ode à alegria, assim como minha vida.

testeJosé Serra e os Guinle

1967 José Serra em Santiago do Chile

José Serra no Chile (Fonte)

Quando Guilherme Guinle morreu, em 1960, alguns veículos da imprensa disseram que ele era o Nelson Rockefeller brasileiro. O norte-americano Nelson, como Guilherme, tinha muito dinheiro, mas o motivo maior para a comparação era a generosidade de ambos. Verdadeiros mecenas, eles patrocinaram educação, artes, esportes, ciência. Mas havia algo que os separava de forma decisiva: a paixão pela política. Nelson, filiado ao Partido Republicano, foi governador de Nova York e ocupou a vice-presidência da República no mandato de Gerald Ford (1974-1977). A família Guinle, grosso modo, passava ao largo do mundo político.

Esse estilo de vida não impediu, no entanto, que o clã mantivesse algumas relações decisivas com políticos até hoje bastante influentes. O caso mais relevante envolveu Octavinho Guinle, um dos herdeiros e ex-proprietários do Copacabana Palace, e o senador paulista pelo PSDB José Serra. Quis o destino que eles se encontrassem no Chile, logo após a instalação da ditadura do general Augusto Pinochet (1973-1990).

Octavinho era diplomata de carreira e José Serra, refugiado político. Quando os militares chilenos derrubaram o presidente eleito Salvador Allende, em 1973, o Chile se tornou um local nada convidativo para os que fugiam do governo do Brasil. Até então, o Chile recebia inúmeros brasileiros que fugiam da truculência da ditadura brasileira.

Com o golpe de Pinochet, José Serra precisava sair o mais rápido possível do Chile. Seu nome, porém, como o de centenas de outros refugiados, constava de uma lista do serviço secreto brasileiro, o famigerado SNI (Serviço Nacional de Inteligência), dando conta de que ele contestava o regime militar brasileiro e por isso não poderia receber passaporte de nenhuma embaixada brasileira.

O fato é que, de forma ainda um tanto nebulosa, José Serra acabou recebendo o seu passaporte, podendo fugir do Chile. Ao longo da pesquisa que empreendi para tentar entender esse episódio, conversei com o diplomata Octavinho, que teria sido o mentor do corajoso gesto. Ele me disse que o passaporte foi concedido, oficialmente, por um suposto descuido da burocracia do serviço diplomático brasileiro no Chile. Só que as autoridades militares brasileiras não engoliram esse descuido. E Octavinho acabou pagando caro, sendo simplesmente afastado do Ministério das Relações Exteriores.

Por meio da intermediação do deputado Pedro Índio da Costa, tentei falar com José Serra sobre o caso, mas o senador nunca me respondeu. Como ele lançou um livro de memórias na mesma época em que nascia Os Guinle, penso que preferiu não me passar uma informação que incluiria em seu livro.

Octavinho, apesar de ser claramente uma vítima da ditadura, não foi beneficiado pela Lei da Anistia, que indenizou os que sofreram perseguições  durante o período dos militares no poder. Algo me diz que nunca nenhum governo brasileiro se sentiria confortável em indenizar uma família que já foi riquíssima. Acho que a exploração do porto de Santos por quase cem anos conferiu aos Guinle, no meio político, uma certa “má fama”.