testeMorcegos ressuscitam borboletas?

Esse é o título do último capítulo de Como matar a borboleta-azul: uma crônica da era Dilma. O livro narra, passo a passo, como o Brasil chegou à gravíssima crise econômica dos últimos dois anos valendo-se da dramática história do inseto do sul da Inglaterra como metáfora para o crescimento brasileiro. Nos anos 1970, a borboleta-azul desapareceu de seu habitat natural devido a uma série de intervenções do governo britânico para proteger as lavouras de uma infestação de coelhos. Tais medidas bagunçaram o frágil e complexo ecossistema, levando à extinção do animal. Entre 2011 e 2014, as ações econômicas promovidas pelo governo da ex-presidente Dilma Rousseff desordenaram o frágil ecossistema econômico brasileiro, levando à extinção o crescimento. A obra analisa de que maneira foram sendo destruídos os pilares da economia brasileira, traçando como chegamos à atual situação de completo desarranjo.

Embora o livro trate dos anos Dilma, o último capítulo aborda o afastamento da presidente, a crise política e as chances de que os morcegos liderados por Michel Temer — os homens brancos de ternos pretos de Brasília — fossem capazes de estancar a terrível recessão e a alta do desemprego que tomaram conta do país. O desafio não era pequeno. Eis um trecho do livro:

Economistas valem-se de artifícios diversos para medir o bem-estar de diferentes sociedades: do PIB à distribuição de renda, dos subjetivos “índices de felicidade” ao concreto índice de desenvolvimento humano. Do mesmo modo, há formas de medir o mal-estar, a malaise que assolava (e continua a assolar) toda a população brasileira, principalmente a classe média vulnerável […]. O índice de mal-estar, ou Misery Index, foi criado pelo economista americano Arthur Okun com o intuito de medir a qualidade de vida do cidadão médio de um país. Trata-se de um indicador simples, da soma entre a taxa média de inflação de determinado período com a taxa de desemprego do mesmo período.

Em 2015, o índice de mal-estar no Brasil chegara a 19,7, quase o dobro do que se viu em 2014, sobretudo por causa da alta inflacionária. Hoje, o índice de mal-estar soma 17,3 — a queda reflete a forte redução da inflação. A taxa de desemprego, contudo, subiu dos 9% para os 12%, e nesse nível permanece. Eis, portanto, a falácia do índice de mal-estar: o poder de compra pode ter melhorado com a redução da inflação de 10,7% para 5,3% entre 2015 e o início de 2017. Se a pessoa está desempregada, porém, de nada adianta a melhora do poder de compra.

Outro dia me disseram: “As pessoas vão sentir a melhora da economia brasileira quando a taxa de desemprego parar de subir.” Ao ouvir isso, pensei: “Quer dizer que se meu interlocutor perdesse o emprego e assim permanecesse ficaria satisfeito porque, mesmo estando desempregado, não há número crescente de desempregados à sua volta?” É evidente que tal colocação não faz o menor sentido. A melhora da economia será percebida pela população não quando a taxa de desemprego parar de subir, mas quando começar a cair, isto é, quando meu suposto interlocutor desempregado finalmente conseguir trabalho. Mas os morcegos enturvecem a visão. Querem inventar borboletas-azuis de suas negras asas, como alquimistas da realidade. A realidade está difícil.

Até o momento, não há resposta para o título do capítulo e da coluna.

testeAs entranhas do populismo econômico

Quando comecei a escrever Como matar a borboleta-azul, não imaginava que o livro e as reflexões que lá estão serviriam como referência para entender a onda de populismo que se alastra mundo afora. A era Dilma ficará para sempre marcada como mais uma tentativa fracassada do “populismo econômico” na América Latina, mas não apenas isso. Servirá, por exemplo, para compreender as consequências e alertar para os perigos do populismo econômico que pode vir a ser característica da era Trump. Populismo econômico, afinal, não é invencionice latino-americana, tampouco está restrito a “de esquerda” ou “de direita”.

Em livro clássico publicado em 1991, os renomados economistas Rudiger Dornbusch e Sebastian Edwards desenvolveram o conceito do populismo econômico baseado nas experiências latino-americanas dos anos 1980. O livro, intitulado The Macroeconomics of Populism in Latin America, é uma coletânea de artigos que retratam casos de diversos países, porém conta com uma apresentação primorosa dos autores, em que definem com clareza os princípios das políticas populistas.

 

Características:

  1. Condições iniciais – O populismo econômico surge de insatisfação generalizada da população com os rumos da economia. Na raiz desse sentimento está a desigualdade da distribuição de renda, que cria atritos políticos e socioeconômicos, induzindo à ideia de que é possível fazer melhor com medidas radicalmente diferentes.
  2. Sem amarras – No populismo econômico não há restrições: o governo pode gastar o que for preciso para melhorar a vida das pessoas. O argumento é que, ao induzir o crescimento, não há o que temer. Déficits não explodirão, a inflação não sairá do controle e o governo não haverá de quebrar.
  3. Políticas econômicas – Todas têm por objetivo reativar a economia, reestruturá-la e distribuir renda. Tudo pelo emprego, tudo pelos salários, ainda que se tenha de intervir no funcionamento dos mercados — essa é a reestruturação resultante.

 

Fases:

  1. Glória e reivindicação – Uma vez posto em prática, o populismo econômico gera crescimento, empregos e renda, glorificando seus proponentes e destituindo seus opositores.
  2. Sinais de alerta – As políticas começam a dar sinais de desgaste. O crescimento cai, a inflação sobe, a população começa a ficar inquieta com os efeitos percebidos no cotidiano: a queda na qualidade de vida. Nessa fase, o governo normalmente redobra a aposta no populismo econômico.
  3. Desarranjo – Os desarranjos da segunda fase ficam mais evidentes. Déficits fora de controle e a alta contínua da inflação levam o governo a adotar medidas cada vez mais disparatadas, piorando os desequilíbrios.
  4. Colapso – A economia entra em recessão, o emprego encolhe, os salários caem, déficits e dívidas explodem. Aumenta a turbulência política, muitas vezes resultando na queda de governos.
  5. Ajuste – O colapso requer doloroso processo de ajuste, em que as perdas ficam evidentes, a desigualdade de renda aumenta devido aos desarranjos anteriores e a insatisfação popular cresce continuamente. O agravamento das tensões políticas e sociais pode desaguar no recrudescimento das condições que levaram ao populismo econômico. Ou seja, é comum que o populismo econômico clame por mais populismo econômico, reiniciando o ciclo.

 

Como matar a borboleta-azul está estruturado exatamente dessa forma, e não por acaso. A lição é que a redistribuição de renda populista se dá mais para aqueles que têm poder político e econômico do que para os realmente necessitados. Foi assim no Brasil, poderá vir a ser assim nos Estados Unidos de Trump.

testeLançamentos de outubro

capawide_martelodethor_600x500blog

Confira as sinopses e trechos dos livros que publicaremos neste mês:

O martelo de Thor, de Rick Riordan: No segundo livro da série Magnus Chase e os deuses de Asgard, o filho do deus Frey descobrirá que casamentos arranjados ainda não saíram de moda: para recuperar o martelo de Thor, que está nas mãos dos inimigos, Loki, o deus da trapaça, propõe uma aliança entre semideuses e gigantes. [Leia +] [Leia um trecho]

estanteintrinseca_agosto16_blog_pa%c2%a6uginasinternas4

Deuses americanos, de Neil Gaiman: Deuses americanos é, acima de tudo, um livro estranho. E foi essa estranheza que tornou o romance, publicado pela primeira vez em 2001, um clássico imediato. Nesta nova edição, preferida do autor, o leitor encontrará capítulos revistos e ampliados, artigos, uma entrevista com Gaiman e um inspirado texto de introdução. [Leia +] [Leia um trecho]

estanteintrinseca_agosto16_blog_pa%c2%a6uginasinternas2

A filha perdida, de Elena Ferrante: Lançado originalmente em 2006 e ainda inédito no Brasil, o romance da autora que se consagrou por sua série napolitana acompanha os sentimentos conflitantes de Leda, uma professora universitária de meia-idade que, aliviada depois de as filhas já crescidas se mudarem para o Canadá com o pai, decide passar férias no litoral sul da Itália. [Leia +] [Leia um trecho]

estanteintrinseca_agosto16_blog_pa%c2%a6uginasinternas3

Uma noite na praia, de Elena Ferrante: Após ganhar um gatinho de presente do pai, a pequena Mati fica tão fascinada que acaba esquecendo na praia a sua melhor amiga: a boneca Celina. Deixada para trás na areia deserta e sem saber como voltar para casa, Celina vai enfrentar uma noite interminável, cheia de sustos e surpresas, além da companhia indesejada de um salva-vidas cruel e seu terrível ancinho. [Leia +]

estanteintrinseca_agosto16_blog_pa%c2%a6uginasinternas7

A garota com a tribal nas costas, de Amy Schumer: A atriz, roteirista, comediante vencedora do Emmy e estrela de um filme indicado ao Globo de Ouro Amy Schumer expõe seu passado em histórias sobre a adolescência, a família, relacionamentos e sexo, e divide as experiências que a tornaram quem ela é – uma mulher com a coragem de desnudar a própria alma e se colocar diante do que acredita, tudo isso enquanto faz as pessoas rirem. [Leia +] [Leia também: O que você precisa saber sobre Amy Schumer]

estanteintrinseca_agosto16_blog_pa%c2%a6uginasinternas6

O hotel na Place Vendôme, de Tilar J. Mazzeo: Em O hotel na Place Vendôme, Tilar Mazzeo investiga a história do Hôtel Ritz, marco cultural desde a sua inauguração na Paris de fin de siècle até a era moderna. Além disso, faz uma crônica extraordinária da vida no Ritz durante a Segunda Guerra Mundial, quando o hotel serviu ao mesmo tempo de quartel-general dos mais graduados oficiais alemães e de lar dos milionários que permaneceram na cidade. [Leia +]

estanteintrinseca_agosto16_blog_pa%c2%a6uginasinternas5

Como matar a borboleta-azul: Uma crônica da era Dilma, de Monica Baumgarten de Bolle: Conta-se que, na década de 1970, atormentados por uma superpopulação de coelhos, os ingleses adotaram uma política tão bem-intencionada quanto equivocada, que culminou com a extinção da borboleta-azul no sul do país. O triste fim da bela borboleta é a metáfora escolhida pela economista Monica Baumgarten de Bolle para descrever a desconstrução do Brasil durante os anos de Dilma Rousseff (2011-2016) à frente da nação. [Leia +] [Leia também: Por que Borboleta-azul?]

estanteintrinseca_agosto16_blog_pa%c2%a6uginasinternas

O guia essencial do vinho: Wine Folly, de Madeline Puckette e Justin Hammack: Com explicações claras e acessíveis, O guia essencial do vinho: Wine Folly reúne informações imprescindíveis sobre as uvas mais cultivadas do planeta, apresenta as características de cada uma – afinal, qual é a diferença entre Cabernet Sauvignon e Pinot Noir? –, ensina sobre harmonização com alimentos e até mesmo a degustar e a servir a bebida. Tudo isso com um projeto gráfico inteligente e intuitivo que é um verdadeiro convite a uma taça. [Leia +]

estanteintrinseca_agosto16_blog_pa%c2%a6uginasinternas8

Tony e Susan, de Austin Wright: Há vinte e cinco anos, Susan Morrow deixou Edward Sheffield, seu primeiro marido. Certo dia, ela recebe um embrulho que contém o manuscrito do primeiro romance de Edward, que pede que ela o leia. Susan se vê às voltas com seu passado, obrigada a encarar a própria escuridão e a dar um nome para o medo que corrói seu futuro e que vai mudar sua vida. O livro será adaptado para os cinemas em Animais Noturnos. [Leia +][Leia um trecho]

Sully – o herói do rio Hudson, de Chesley B. “Sully” Sullenberger com Jeffrey Zaslow: Em 15 de janeiro de 2009, o comandante Sullenberger habilidosamente deslizou um Airbus sobre o rio Hudson, em Manhattan, após perder os dois motores da aeronave, salvando todas as 155 vidas a bordo. O incidente inspirou o comandante a contar a própria história: uma trajetória de dedicação, esperança e prontidão, que revela as importantes lições aprendidas por ele na infância, durante o serviço militar e depois, trabalhando como piloto da aviação civil.

estanteintrinseca_agosto16_blog_paginasinternas99

testePor que borboleta-azul?

capa_comomataraborboletaazul_web

Esta é a primeira de uma série de colunas sobre Como matar a borboleta-azul. O livro trata da era Dilma, mas não consigo referir-me a ele de outra forma. Para mim, trata-se da borboleta, a linda borboleta-azul, que não resistiu à pesada interferência humana no frágil e complexo ecossistema do sul da Inglaterra.

Na década de 1970, os coelhos infestavam as plantações do país europeu e os homens resolveram matá-los — não todos, mas alguns. A população dos animais caiu, a grama que os bichinhos mantinham baixa cresceu. Na grama baixa vivia uma formiga especial, responsável por carregar os ovos da borboleta-azul para os formigueiros e cuidar das larvas até que se tornassem adultas. Com a relva alta, as formigas especiais foram sumindo. Com elas, foi-se a proteção, até que um dia não havia mais borboletas.

Os homens não queriam matar o belo inseto, mas acabaram por fazê-lo ao insistir em controlar os coelhos. Da mesma forma, Dilma não queria matar o crescimento da economia brasileira, mas acabou por fazê-lo ao adotar medidas que desarrumaram o país.

O governo Dilma foi marcado por tentativas e mais tentativas, espécie de hiperatividade econômica, cujo objetivo era manter a economia aquecida, os empregos abundantes e a renda em alta. A cada nova interferência, eu pensava na borboleta-azul. Cheguei a usá-la como metáfora num artigo escrito em 2012 que tratava do aumento de impostos sobre produtos importados que o governo anunciara na ocasião.

Quando vi a lista de produtos, fiquei impactada com o grau de detalhamento, a ingerência levada às últimas consequências, o micróbio da pulga da orelha do coelho. Espironolactona. Na lista do governo havia Espironolactona. Evidentemente, eu não sabia o que era a substância nem o motivo pelo qual o governo deveria taxá-la. Hoje sei que se trata de um diurético. Continuo sem entender, contudo, por que o governo Dilma, com tantos problemas para resolver, achou que devia dar atenção especial ao produto.

O que sei é que a forma como Dilma atuou para ajudar o Brasil a seu modo levou à destruição de outro ecossistema frágil e complexo: a economia brasileira. É esse mistério que o livro procura desvendar em bom português, fugindo do insondável economês. Torço para que leitores e leitoras o considerem útil para a compreensão da tragédia brasileira.

testeA economista Monica de Bolle revela os bastidores da era Dilma

Como matar a borboleta-azul: Uma crônica da era Dilma chega às livrarias a partir de 3 de outubro

capa_comomataraborboletaazul_web

Conta-se que, na década de 1970, atormentados por uma superpopulação de coelhos, os ingleses adotaram uma política tão bem-intencionada quanto equivocada, que culminou com a extinção da borboleta-azul no sul do país. O triste fim da bela borboleta é a metáfora escolhida pela economista Monica Baumgarten de Bolle para descrever a desconstrução do Brasil durante os anos de Dilma Rousseff (2011-2016). Depois de o Plano Real reduzir a inflação a patamares suportáveis e permitir a implantação de um conjunto de políticas sociais mais inclusivas, a presidente chegou ao poder determinada a reformular tudo. Na prática, sua gestão levou a economia brasileira a uma situação catastrófica cujos efeitos se farão sentir por muito tempo.

Em texto fluente, Monica de Bolle acompanha erros e desacertos da presidente, ano a ano, passo a passo, desvendando cada um de seus desatinos. Porém, no lugar de gráficos e tabelas, o leitor encontra drama, uma história de suspense e terror, com vilãs, vilões e pouquíssimos heróis, narrada com pitadas de surrealismo e saborosas citações a filmes e obras da literatura. A dura realidade ganha contornos humanos e compreensíveis mesmo para quem não tem nenhuma familiaridade com o chamado economês.

Tradutora de O Capital no Século XXI, de Thomas Piketty, no Brasil, Monica nasceu no Rio de Janeiro e vive em Washington D.C. Trabalhou no FMI, foi professora da PUC-Rio, atuou como diretora do Instituto de Estudos de Política Econômica da Casa das Garças e como sócia-diretora da Galanto MBB Consultoria. Atualmente é professora da School for Advanced International Studies da Johns Hopkins University e pesquisadora sênior do Peterson Institute for International Economics.

Leia um trecho do livro:

Como matar a borboleta-azul

Artigo publicado em O Globo A Mais em setembro de 2012

 

Final dos anos 1970, sul da Inglaterra. Uma infestação inédita de coelhos ameaçava os prados verdejantes e as plantações das fazendas da região, levando os produtores a declarar que uma crise ambiental estava prestes a ocorrer e a pedir socorro ao governo. Para evitar um massacre possivelmente infrutífero de coelhos, já que a taxa de reprodução dos animais é quase inigualável na natureza, as autoridades encontraram uma solução “brilhante”: inocularam os bichinhos com o vírus da mixomatose, uma doença que ataca sobretudo os coelhos, deixando-os letárgicos, mais suscetíveis aos seus predadores naturais, menos inclinados a se reproduzir. Inicialmente, o experimento foi um sucesso. A população de coelhos caiu vertiginosamente, preservando as plantações e evitando a temida catástrofe. Contudo, a estrada para o inferno é pavimentada de boas intenções, como diz o famoso aforismo.

Com menos coelhos a mordiscar a vegetação, ervas daninhas proliferaram e a grama cresceu mais do que o normal. O crescimento da grama acabou aniquilando a população de um tipo de formiga que só sobrevivia alimentando-se da grama mais baixa. Infelizmente, essa formiga tinha laços estreitos com a borboleta-azul que ilustra este artigo, carregando seus ovos para o formigueiro e cuidando de suas larvas até que se tornassem lagartas adultas. Sem a proteção das formigas, os ovos da borboleta-azul ficaram expostos aos predadores. Um dia, a borboleta-azul sumiu para sempre do sul da Inglaterra.

A história verídica da borboleta-azul inglesa, a Maculinea arion, é um exemplo das consequências indesejáveis provocadas pelas supostas boas intenções. A boa intenção do governo brasileiro é proteger os produtos confeccionados no país da concorrência daqueles que vêm de fora, imaginando que, como os coelhos ingleses, possam causar um desastre ambiental na indústria nacional, já fragilizada por outros fatores. Para isso, inoculam os importados com a variante local da mixomatose: as tarifas de importação. Na semana passada, as autoridades divulgaram uma lista de cem produtos que ficariam sujeitos a impostos mais elevados até o fim de setembro. O ministro de Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Fernando Pimentel, disse também que a negociação de acordos bilaterais de livre comércio, como os que estavam em andamento com o Canadá e a União Europeia, terá de aguardar até que o setor industrial doméstico possa ser consultado.

Na lista de produtos cujas tarifas serão elevadas estão as famosas batatas, pneus, autopeças, produtos siderúrgicos, materiais de construção, plásticos, utensílios de cozinha, e por aí vai. Da lista consta também a Espironolactona, um diurético especial que previne a absorção de sal pelo organismo, ao mesmo tempo que preserva os níveis de

potássio normalmente expelidos na urina. Controlar a absorção de sal é fundamental para os hipertensos e as pessoas com problemas cardiovasculares. Preservar os níveis de potássio no organismo também é essencial para os doentes do coração, pois a deficiência do mineral pode causar arritmias cardíacas, além de provocar fraqueza muscular e fadiga. Ou seja, o aumento da tarifa de importação da Espironolactona pode ter o efeito perverso de levar a um aumento dos preços dos medicamentos que a utilizam como princípio ativo, quem sabe fazendo com que os doentes e seus médicos a substituam por remédios menos

eficazes no tratamento de suas patologias.

Há uma vasta literatura que documenta os efeitos adversos das medidas protecionistas sobre a atividade econômica. De modo geral, essas medidas privam a economia das transferências tecnológicas possibilitadas pela abertura do comércio, transferências que aumentam a produtividade e enaltecem a vitalidade econômica. A tarifa de importação sobre a Espironolactona é a metáfora perfeita para os efeitos adversos do protecionismo supostamente bem-intencionado. Ao suprimir a oferta desse componente químico, as medidas protecionistas podem acabar gerando na economia um estado de fadiga crônica e fraqueza muscular perene, a letargia da mixomatose.

Mata-se a borboleta-azul do crescimento. Sobra a lagarta vermelha, que, na melhor das hipóteses, se transforma apenas numa mariposa cinza.