testeJBS: a ousadia e os limites do “por que não”

Bernardo Almeida*

Why Not traz bastidores inéditos da atuação dentro e fora da lei dos irmãos Joesley e Wesley Batista, donos da JBS, para o estabelecimento da maior processadora de proteína animal do planeta. O título do livro (que em português significa Por que não?) é o mesmo nome do iate de Joesley e resume bem a trajetória da dupla no mundo dos negócios e da política.   

Livro de estreia da jornalista Raquel Landim, repórter especial da Folha de S. Paulo, a obra é resultado de dois anos de intensa investigação. A autora mostra como o frigorífico JBS virou um colosso internacional construído à base de propinas, tino empresarial, e anabolizantes estatais — até o momento em que Joesley e Wesley foram, digamos, flagrados no antidoping das autoridades brasileiras.

A decisão de tornar a JBS a maior doadora eleitoral nas eleições de 2014 — mais de R$ 500 milhões foram distribuídos entre 1.829 candidatos — e de buscar, muitas vezes mediante acordos escusos, fortunas junto aos cofres públicos (BNDES, Caixa Econômica, fundos de pensão) foram dois dos grandes “por que não” dos Batista.

A simbiose da empresa com o Estado brasileiro aparece com riqueza de detalhes em Why Not, servindo como valioso retrato da política de “campeões nacionais” adotada nos governos do PT e do capitalismo de compadrio no Brasil (vale muito ler o que a própria Raquel fala sobre isso na entrevista que acompanha este texto).

A pergunta do título do livro, entretanto, não se aplica exclusivamente a mutretas milionárias. São também numerosos os relatos de jogadas de risco de Joesley e Wesley como empresários, indo desde a abertura de uma mesa de operações financeiras até a diversificação dos negócios, passando por expansões e aquisições dentro e fora do Brasil. Uma história que começa na década de 1950, quando o pai da dupla, José Batista Sobrinho (sim, JBS vem destas iniciais), abriu um simples açougue em Anápolis (GO).

O “por que não” mais ousado, no entanto, foi o acordo de delação premiada com a Procuradoria-Geral da República (PGR). Nos porões de Brasília, Joesley gravou — e quase derrubou — o presidente Michel Temer. Seu áudio inscreveu a frase “tem que manter isso aí” no dicionário político-popular brasileiro. Em troca dessas e outras aventuras, o grande prêmio em vista era se safar da cadeia.

Mas nem todas as apostas deram certo. Os irmãos Batista tiveram algumas passagens pela prisão, e a manutenção do acordo de delação ainda passará pelo crivo do Supremo Tribunal Federal (STF).

Why Not, o iate, foi parar em águas menos revoltas. Como contou a própria Raquel Landim em reportagem para a Folha ainda naquele maio de 2017, Joesley despachou-o para Miami dois dias antes de seguir para Nova York em seu jato particular. À época, a JBS declarou que a embarcação seria colocada à venda.

 

Raquel Landim (Foto: Paulo Vitale)

Leia a seguir a entrevista com Raquel Landim, autora de Why Not.

 

Em coluna recente publicada na revista Época sobre Why Not, o jornalista Helio Gurovitz trata o grupo J&F como “o símbolo maior” do capitalismo de compadrio no Brasil. Você concorda com essa afirmação?

A J&F é um dos maiores exemplos do capitalismo de compadrio no Brasil, mas infelizmente não é o único. A rede de relações entre a Odebrecht e outras construtoras com o poder público ao longo do tempo também é bastante impressionante. E isso para falar apenas dos casos desvendados pelas investigações da Polícia Federal. Certamente existem outros por aí.

 

Why Not traz detalhes sobre a relação entre políticos, empresários e os cofres públicos. O que o livro revela de mais importante sobre a forma como se faz negócios no Brasil — ou ao menos sobre como se fazia negócios até pouco tempo atrás?   

Um dos fatos mais impressionantes de se aprofundar nesse tipo de apuração é perceber que o governo brasileiro virou um enorme balcão de negócios. De um lado, os empresários, que, dado o peso do Estado em seus negócios, estão sempre em busca de reduções de impostos e crédito barato nos bancos públicos. Do outro, os políticos, responsáveis por aprovar leis e, até recentemente, por indicar diretores para estatais, pedindo propina para caixa 2 de campanha e para benefício próprio.

 

O livro também traz bastidores inéditos da história dos irmãos Batista, principalmente sobre as tratativas deles com o Ministério Público para o acordo de delação premiada. Das histórias que apurou, qual delas mais marcou você durante a investigação para o livro?

A delação premiada dos irmãos Batista e a promessa de perdão judicial por parte da Procuradoria-Geral da República (PGR) geraram muita polêmica. A validade ou não da delação será devidamente analisada pelo Supremo Tribunal Federal (STF) em breve, que é o fórum adequado para isso. Por conta disso, essa parte da história demandou uma apuração minuciosa. Mas o que mais me marcou foram os relatos das ações controladas em que funcionários dos Batista entregavam malas de dinheiro para emissários dos políticos. A naturalidade com que o crime ocorria — uma das pessoas chegou para buscar o dinheiro com a filha pequena — é realmente de assustar.

 

Muito do que está em Why Not é bastante recente, o que torna até compreensível a opção das fontes pelo anonimato. Mesmo assim, você conseguiu fazer mais de 100 entrevistas. Como foi o trabalho para convencer as fontes a darem declarações? Que tipo de dificuldade você enfrentou na apuração?

Trabalhei como repórter à moda antiga porque as pessoas tinham muito receio de falar. Em todas as vezes que tentei usar o gravador, a entrevista fracassava. Por isso, tive que confiar nas anotações, na minha memória e garantir o anonimato para que as pessoas se sentissem à vontade para contar a verdade. Fui muito transparente na abordagem das fontes e consegui que conversassem comigo porque se tratava de um trabalho jornalístico sério e imparcial.

 

Com base na sua apuração para o livro e no que você vê hoje como repórter, já é possível avaliar se a Operação Lava Jato e o caso da JBS mudaram a forma como o Estado brasileiro e empresas privadas se relacionam? Se sim, como?

Sem dúvida, o caso da JBS é um marco. É muito importante que essas histórias de corrupção finalmente estejam vindo à tona graças ao trabalho de procuradores, policiais e jornalistas. Acredito que muitos empresários hoje devem ter medo de oferecer propina a políticos e funcionários públicos por receio de serem presos. Mas a profissão me fez cética: não acredito que é o fim da corrupção, nem que todos os políticos corruptos estão presos.

 

Que futuro você enxerga para as relações entre o Estado e empresas no Brasil? Podemos ver uma nova tentativa de criar “campeões nacionais” nos moldes da JBS?  

Num futuro próximo, não consigo imaginar a política de campeões nacionais sendo retomada. Foi um trauma para o país. Todavia duvido que essa cultura deixe de existir de uma hora para outra. Se não formos vigilantes, outros políticos podem retomar a ideia em alguns anos.

 

*Bernardo Almeida é jornalista.

 

testeA economista Monica de Bolle analisa o mergulho brasileiro na crise

Rennan da Rocha*

debolle_preview-54Foto: Leo Aversa

O título já dá o tom do novo livro da economista Monica Baumgarten de Bolle. Como matar a borboleta-azul: uma crônica da era Dilma é uma história de fôlego jornalístico contada ao sabor da sucessão dos fatos na qual recursos da narrativa, como metáforas e fábulas, têm ascendência sobre a análise econômica. É uma escolha, claro. Aos 44 anos, a professora da Universidade Johns Hopkins, em Washington, prefere falar para além do círculo de colegas economistas, profissão que, admite, sofre de certa crise existencial desde o colapso financeiro de 2008 e é dada hoje à pirotecnia técnica. Monica optou por escrever para o leitor que não faz ideia do que significa “quantitative easing” (ela explica no livro, a propósito), mas que se pergunta cotidianamente por que, em apenas cinco anos, o Brasil deixou de ser um farol emergente para submergir em recessão traumática. É desse tombo surpreendente que trata o livro.

A narrativa começa quando Dilma Rousseff assume a Presidência, em 2011, e termina quando sofre impeachment, em 2016. Para a autora, o calor de fatos tão recentes, em vez de impor a necessidade de mais tempo e distanciamento, inspirou a missão de esclarecer desentendimentos “que ainda são fonte de rancores e de visões apaixonadas”.

“Por esses motivos, ela (a história) fascina. Eu sabia que, ao publicá-la, correria o risco de ser rotulada de golpista, ou de ultradireita, ou de neoliberal, ou de tantas outras coisas que tenho dificuldade de entender e definir”, conta Monica.  “Entendo que, para alguns, essa história é ferida aberta, e que eu estou colocando o dedo nessa ferida. Para esses leitores, em especial, quero dizer que esse livro não é um tratado político anti-PT, nem é a favor de qualquer partido ou posicionamento ideológico. Eu teria escrito fosse Dilma petista ou não”, esclarece na entrevista a seguir.

 

capa_comomataraborboletaazul_webSeu livro conta como a ex-presidente Dilma Rousseff chegou ao poder disposta a fazer tudo de um modo diferente para alcançar resultados também inauditos: civilizar os juros, erradicar a pobreza etc. A história sobre a morte da borboleta-azul fala justamente disto: ideias mirabolantes, aparentemente bem-intencionadas, que resultam em desastre. Depois de mergulhar nessa trajetória, que motivos você aponta como os principais para a debacle dos anos Dilma? 

Há duas maneiras de refletir sobre o desastre econômico da gestão Dilma, complementares e não substitutas. A primeira é que Dilma, ao contrário de seu antecessor, enfrentou ambiente internacional absolutamente hostil. Tudo o que havia ajudado o Brasil ao longo dos anos Lula — matérias-primas em alta, China pujante, comércio global galopante, forte impulso do crescimento mundial — mudara.

Quando assumiu a Presidência, os preços das matérias-primas começavam a resfolegar em razão da perda de tração da China; os países afetados pela crise de 2008 davam sinais alarmantes; o crescimento mundial estava na berlinda. Diante desse quadro, Dilma mirou alto demais. Tentou o impossível, que era manter a economia brasileira crescendo e gerando empregos, no mesmo ritmo dos anos anteriores, sem adequá-la à nova realidade. A outra reflexão é que Dilma realmente tinha ideias diferentes sobre como promover o desenvolvimento do Brasil. E algumas de suas ideias já haviam sido tentadas no passado com resultados desastrosos. Exemplo: a ideia de que para crescer é preciso tolerar um pouco mais de inflação. A inflação ascendente foi para nós como a grama que cresceu, dizimando as formigas que protegiam os ovos da borboleta. A inflação, a grama. As formigas, os trabalhadores. A inflação, a queda da renda dos trabalhadores, a morte do crescimento.

 

Seu livro também usa, como apoio, alguns textos contemporâneos aos fatos, como posts e artigos seus publicados em jornais. Ao contrário de outras crises, em que economistas e a própria imprensa são acusados de falhar em prevê-las, essa parece ter sido documentada como um folhetim, não?

Por isso trata-se de uma grande crônica. Comecei a escrever com regularidade para jornais e para meu blog na segunda metade de 2010. Durante todo o governo Dilma, fui fazendo artigos, anotações, paralelos com a literatura, com filmes e músicas. Isso permitia que juntasse meus interesses pessoais com os profissionais — aliás, a grande liberdade da escrita. Sempre trabalhei com crises. Minha tese de doutorado foi sobre crises; minha experiência no FMI [Fundo Monetário Internacional] foi em resolvê-las — a da Argentina e a do Uruguai; hoje leciono sobre crises na Johns Hopkins. Crises são fascinantes, têm suspense, clímax, ambiente, personagens interessantes. São, enfim, trama para ninguém botar defeito.

A ideia de escrever um livro sobre os anos Dilma que trouxesse essa essência das crises vem, portanto, de muito tempo. Esse livro começou a ser elaborado em 2014, mas naquele ano eu já havia juntado tanto material de minhas análises que não foi difícil transformá-lo em uma narrativa com tom jornalístico.

Vejo essa forma de contar a história dos anos Dilma como o ponto forte do livro, que é sobre economia, mas sobre economia como coisa da vida, de todos os dias.


Trata-se também de um livro publicado no calor dos fatos. Por que contar essa história enquanto ela ainda está “quente”?   

Exatamente porque ela ainda pulsa, ainda provoca muitos desentendimentos, ainda é fonte de rancores e de visões apaixonadas. Por esses motivos, fascina. Eu sabia que, ao publicá-la, correria o risco de ser rotulada de golpista, ou de ultradireita, ou de neoliberal, ou de tantas outras coisas que tenho dificuldade de entender e definir. Hoje moro em Washington, mas escrevi a maior parte do livro enquanto morava no Brasil. Vivi as angústias e frustrações de cada momento, vivi a deterioração do debate entre as pessoas, a rixa entre “direita” e “esquerda”, que turva visões, dilacera corações, acaba com longas amizades.

Entendo que, para alguns, essa história é ferida aberta, e que eu estou colocando o dedo nessa ferida. Para esses leitores, em especial, quero dizer que esse livro não é um tratado político anti-PT, nem é a favor de qualquer partido ou posicionamento ideológico. Eu teria escrito fosse Dilma petista ou não. Digo a esses leitores: eu não votei em Dilma, mas um dia já votei no PT. Agora, que venham as pedradas do outro lado, como já as tomei quando traduzi o livro de Thomas Piketty!

 

Há alguns dias você escreveu sobre os “vitupérios internáuticos” que tem recebido por causa do livro. Por que nos anos Dilma o Brasil parece ter passado por um processo apressado de polarização? 

Vemos isso por toda parte. Aqui nos Estados Unidos os vitupérios internáuticos proliferam com a campanha sórdida de Donald Trump. Já fui atacada aqui por apoiar a candidata democrata. Na verdade, já fui atacada por achar Obama um exemplo de líder e de ser humano em um mundo que carece de gente extraordinária. Incomodo-me muito com a facilidade que algumas pessoas têm de atacar as outras sem conhecê-las, sem saber de seu histórico, do que as fez formar certas opiniões. Eu, por exemplo, acredito que o Estado tem um papel a cumprir, mas não pode querer tomar conta de tudo, como fez o governo Dilma. Ao mesmo tempo, também defendo políticas sociais que ajudem a quebrar o ciclo nefando da desigualdade de renda.

Acho que no Brasil, como no mundo, perdemos a capacidade de enxergar o que há de bom naqueles que pensam diferente de nós. Em minhas redes, converso com pessoas que acham que houve um golpe no Brasil, que preferem lembrar-se do Lula que moveu esperanças, ao mesmo tempo que falo com pessoas que vão votar em Trump porque acham Hillary Clinton muito pior. Hoje, esse tipo de postura, a busca por um meio-termo, ganhou conotação para lá de negativa. Trata-se do tal do “isentão”. É triste.

Ninguém cresce intelectualmente sem trocar ideias, refugiando-se em suas tribos. O mundo está tribal, o Brasil não é exceção.

 

Como se deu o seu processo de apuração e escrita? No meio dele você se mudou para Washington. Esse afastamento do Brasil no auge do drama ajudou a olhar a situação mais friamente?  

O livro cobre toda a era Dilma, de 2011 até o impeachment, que chamei de “impeachment de coalizão” pela forma inusitada que tomou. Portanto, vivi a era Dilma quase na sua totalidade. Saí do Brasil em meados de 2014, antes das eleições, quando já havia começado a escrever o livro. Por um momento, em 2015, quase desisti de escrevê-lo, tão profundamente perturbada estava com os acontecimentos e com as pedras que as pessoas atiravam umas nas outras. Mas já tinha dedicado tanto tempo a ele que acabei decidindo seguir em frente depois de uma interrupção de quase um ano. A distância ajudou a escrever sobre o desfecho da era Dilma com olhar mais clínico, menos movido pelas emoções do momento. Confesso que senti tristeza quando Dilma foi reeleita, pois já estava claro para mim que a economia acabaria mal. Mas também confesso ter sentido desalento no seu afastamento definitivo. O trauma e as feridas são muitas para essa nossa democracia ainda tão jovem.

 

Uma das pimentas sobre a derrocada econômica do governo Dilma é o fato de ela própria ser economista. Essa aparente contradição a espanta?  

Não. A Economia com “E” maiúsculo não é uma ciência exata. Às vezes me pergunto se é mesmo ciência, se meu PhD vale alguma coisa. Crises deveriam tornar os economistas mais humildes, capazes de enxergar as limitações de seus modelos. Alguns, como eu, estão passando por um certo tipo de crise existencial, sobretudo depois de 2008. Outros seguem a insistir que tudo o que aprendemos é imutável, que há regras que, se forem descumpridas, criarão problemas. Até certo ponto isso é verdade, mas só até certo ponto. A economia é analítica, rigorosa, possuiu instrumental matemático e quantitativo valioso. Contudo, é, antes de mais nada, ciência social, sujeita a subjetividades e contradições. A base da economia, como de qualquer ciência social, somos nós, as pessoas. Nós, as pessoas, temos viés, somos por vezes irracionais, nos deixamos levar por emoções e instintos equivocados. A economia tal qual é ensinada hoje perdeu essa essência humanista. Por todas essas razões, acho perfeitamente razoável que Dilma economista pense completamente diferente da Monica economista, ou nem tanto assim.

 

Lá fora, existe uma tradição de livros de economia voltados para o público em geral, consolidada por autores como Milton Friedman, Paul Krugman, Joseph Stiglitz e, mais recentemente, o fenômeno Thomas Piketty. Por que o país de economistas de texto tão brilhante como o de um Celso Furtado ainda publica tão pouco sobre o assunto para leigos? 

Não sei, é uma lacuna terrível, porque ajuda a enraizar percepções equivocadas sobre a profissão, sobre os economistas. Os autores americanos que você citou foram ou são todos vencedores do Nobel de Economia (que não é Nobel de verdade). Talvez isso tenha lhes dado o aval pessoal e a envergadura para tratar da economia como ela é, fugindo do excesso de pirotecnia que hoje predomina na profissão. É um pouco assim: como todos têm o selo de grandes acadêmicos, podem descer do pedestal. O erro é achar que existe pedestal. Não são muitos os que não enxergam pedestal algum. Eu jamais o vi, mas sou mulher numa profissão predominantemente masculina, o que ajuda, talvez, a ver a economia como ela é.


>> Leia um trecho de Como matar a borboleta-zul

 

*Rennan da Rocha é jornalista.

testeA economista Monica de Bolle revela os bastidores da era Dilma

Como matar a borboleta-azul: Uma crônica da era Dilma chega às livrarias a partir de 3 de outubro

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Conta-se que, na década de 1970, atormentados por uma superpopulação de coelhos, os ingleses adotaram uma política tão bem-intencionada quanto equivocada, que culminou com a extinção da borboleta-azul no sul do país. O triste fim da bela borboleta é a metáfora escolhida pela economista Monica Baumgarten de Bolle para descrever a desconstrução do Brasil durante os anos de Dilma Rousseff (2011-2016). Depois de o Plano Real reduzir a inflação a patamares suportáveis e permitir a implantação de um conjunto de políticas sociais mais inclusivas, a presidente chegou ao poder determinada a reformular tudo. Na prática, sua gestão levou a economia brasileira a uma situação catastrófica cujos efeitos se farão sentir por muito tempo.

Em texto fluente, Monica de Bolle acompanha erros e desacertos da presidente, ano a ano, passo a passo, desvendando cada um de seus desatinos. Porém, no lugar de gráficos e tabelas, o leitor encontra drama, uma história de suspense e terror, com vilãs, vilões e pouquíssimos heróis, narrada com pitadas de surrealismo e saborosas citações a filmes e obras da literatura. A dura realidade ganha contornos humanos e compreensíveis mesmo para quem não tem nenhuma familiaridade com o chamado economês.

Tradutora de O Capital no Século XXI, de Thomas Piketty, no Brasil, Monica nasceu no Rio de Janeiro e vive em Washington D.C. Trabalhou no FMI, foi professora da PUC-Rio, atuou como diretora do Instituto de Estudos de Política Econômica da Casa das Garças e como sócia-diretora da Galanto MBB Consultoria. Atualmente é professora da School for Advanced International Studies da Johns Hopkins University e pesquisadora sênior do Peterson Institute for International Economics.

Leia um trecho do livro:

Como matar a borboleta-azul

Artigo publicado em O Globo A Mais em setembro de 2012

 

Final dos anos 1970, sul da Inglaterra. Uma infestação inédita de coelhos ameaçava os prados verdejantes e as plantações das fazendas da região, levando os produtores a declarar que uma crise ambiental estava prestes a ocorrer e a pedir socorro ao governo. Para evitar um massacre possivelmente infrutífero de coelhos, já que a taxa de reprodução dos animais é quase inigualável na natureza, as autoridades encontraram uma solução “brilhante”: inocularam os bichinhos com o vírus da mixomatose, uma doença que ataca sobretudo os coelhos, deixando-os letárgicos, mais suscetíveis aos seus predadores naturais, menos inclinados a se reproduzir. Inicialmente, o experimento foi um sucesso. A população de coelhos caiu vertiginosamente, preservando as plantações e evitando a temida catástrofe. Contudo, a estrada para o inferno é pavimentada de boas intenções, como diz o famoso aforismo.

Com menos coelhos a mordiscar a vegetação, ervas daninhas proliferaram e a grama cresceu mais do que o normal. O crescimento da grama acabou aniquilando a população de um tipo de formiga que só sobrevivia alimentando-se da grama mais baixa. Infelizmente, essa formiga tinha laços estreitos com a borboleta-azul que ilustra este artigo, carregando seus ovos para o formigueiro e cuidando de suas larvas até que se tornassem lagartas adultas. Sem a proteção das formigas, os ovos da borboleta-azul ficaram expostos aos predadores. Um dia, a borboleta-azul sumiu para sempre do sul da Inglaterra.

A história verídica da borboleta-azul inglesa, a Maculinea arion, é um exemplo das consequências indesejáveis provocadas pelas supostas boas intenções. A boa intenção do governo brasileiro é proteger os produtos confeccionados no país da concorrência daqueles que vêm de fora, imaginando que, como os coelhos ingleses, possam causar um desastre ambiental na indústria nacional, já fragilizada por outros fatores. Para isso, inoculam os importados com a variante local da mixomatose: as tarifas de importação. Na semana passada, as autoridades divulgaram uma lista de cem produtos que ficariam sujeitos a impostos mais elevados até o fim de setembro. O ministro de Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Fernando Pimentel, disse também que a negociação de acordos bilaterais de livre comércio, como os que estavam em andamento com o Canadá e a União Europeia, terá de aguardar até que o setor industrial doméstico possa ser consultado.

Na lista de produtos cujas tarifas serão elevadas estão as famosas batatas, pneus, autopeças, produtos siderúrgicos, materiais de construção, plásticos, utensílios de cozinha, e por aí vai. Da lista consta também a Espironolactona, um diurético especial que previne a absorção de sal pelo organismo, ao mesmo tempo que preserva os níveis de

potássio normalmente expelidos na urina. Controlar a absorção de sal é fundamental para os hipertensos e as pessoas com problemas cardiovasculares. Preservar os níveis de potássio no organismo também é essencial para os doentes do coração, pois a deficiência do mineral pode causar arritmias cardíacas, além de provocar fraqueza muscular e fadiga. Ou seja, o aumento da tarifa de importação da Espironolactona pode ter o efeito perverso de levar a um aumento dos preços dos medicamentos que a utilizam como princípio ativo, quem sabe fazendo com que os doentes e seus médicos a substituam por remédios menos

eficazes no tratamento de suas patologias.

Há uma vasta literatura que documenta os efeitos adversos das medidas protecionistas sobre a atividade econômica. De modo geral, essas medidas privam a economia das transferências tecnológicas possibilitadas pela abertura do comércio, transferências que aumentam a produtividade e enaltecem a vitalidade econômica. A tarifa de importação sobre a Espironolactona é a metáfora perfeita para os efeitos adversos do protecionismo supostamente bem-intencionado. Ao suprimir a oferta desse componente químico, as medidas protecionistas podem acabar gerando na economia um estado de fadiga crônica e fraqueza muscular perene, a letargia da mixomatose.

Mata-se a borboleta-azul do crescimento. Sobra a lagarta vermelha, que, na melhor das hipóteses, se transforma apenas numa mariposa cinza.

 

testeA ditadura acabada, de Elio Gaspari, chega às livrarias em 1º de junho

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A mais aclamada obra sobre o regime militar no Brasil chega à conclusão com o livro A ditadura acabada. No quinto volume da Coleção Ditadura, o jornalista Elio Gaspari examina com riqueza de detalhes o período de 1978 a 1985, desde o final do governo do presidente Ernesto Geisel e a posse de seu sucessor, o general João Baptista Figueiredo, até a eleição de Tancredo Neves pelo Colégio Eleitoral. São os anos da abertura política, momento decisivo na história de nosso país e repleto de acontecimentos, como o fim do AI-5, as manifestações políticas pela anistia e pela volta das eleições diretas para a presidência, os atentados promovidos por aqueles que se opunham à redemocratização, como o episódio da bomba no Riocentro em 1981, e uma crise econômica sem precedentes.

Com uma narrativa fluida e pesquisa profunda, Elio Gaspari compõe um painel fascinante de um país em plena ebulição, em que muitos dos protagonistas se mantêm como parte do noticiário atual. No epílogo, denominado “500 vidas”, o autor acompanha o destino de quinhentos personagens que sobreviveram ao fim da ditadura, entre militares e militantes, empresários e sindicalistas, torturados e torturadores. Alguns desses sobreviventes chegaram à presidência da República, como a presa política Dilma Rousseff, o metalúrgico Luiz Inácio Lula da Silva e o professor Fernando Henrique Cardoso. É uma conclusão impactante para uma obra fundamental sobre a história recente do Brasil.

A ditadura acabada estará disponível em duas versões de e-book, uma delas com áudios e vídeos acrescentados pelo autor, ambas contendo mais de trinta documentos históricos.

A Coleção Ditadura, com seus cinco volumes, poderá ser encontrada também em um luxuoso box em versão impressa e digital.

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