testeUma vida de aventuras pelas ondas e culturas ao redor do mundo

Você não precisa ser surfista para gostar de Dias bárbaros, de William Finnegan, o livro mais fascinante sobre surfe já publicado

Por Adrian Kojin*

 Finnegan surfando em Fiji [Foto: Arquivo Pessoal]

Um livro sobre surfe premiado com o prestigioso Prêmio Pulitzer? Um dos mais renomados jornalistas políticos da conceituada revista americana The New Yorker contando como desbravou algumas das melhores ondas do planeta e viveu o auge da cultura hippie numa ilha havaiana? Sem dúvida soa um pouco estranho, meio fora de lugar. O próprio William Finnegan admitiu ao jornal inglês The Guardian no lançamento de sua autobiografia que “estava relutante em sair do armário como surfista”.

Surfista dos bons, é importante ressaltar, daqueles que “botam pra baixo” em ondas enormes e cruzam o globo em busca do efêmero prazer que só quem já experimentou a sensação de deslizar sobre uma onda perfeita entende. Algo tão obsessivo que permeou toda a vida do autor de Dias bárbaros, ao ponto de se tornar o fio condutor de sua autobiografia. Seus dias como correspondente de guerra e repórter investigativo que denunciou o racismo na África do Sul, os cartéis da droga no México e a pobreza nos Estados Unidos, entre outros assuntos de forte cunho social, estão no livro, mas o que prevalece é sua paixão por uma atividade que ele mesmo classifica como “deliberadamente inútil, um improdutivo culto à natureza, uma devoção a deuses estranhos”.

Pois é justamente esse paradoxo entre a trajetória de surfista itinerante e a de jornalista premiado que faz de Dias bárbaros um relato tão especial. Tendo passado a infância na Califórnia e no Havaí, berço do surfe, ele desde cedo surfava o máximo possível. O surfe acabou por guiá-lo por uma vida repleta de aventuras, mas que apesar disso, ou talvez por isso mesmo, era permeada por um constante questionamento sobre qual deveria ser seu papel na sociedade e no mundo.

Em Maui, ele flertou com a morte surfando a icônica baía de Honolua sob efeito de drogas psicodélicas. Nas ilhas do Pacífico Sul, acumulou um vasto conhecimento antropológico sobre os povos locais de forma empírica. Ao aportar em Fiji, foi um dos pioneiros de Tavarua, uma minúscula ilha com duas das ondas mais perfeitas do planeta. Por anos ele manteria segredo sobre a valiosa informação de como chegar a Cloudbreak e Restaurants, picos que hoje em dia estão entre os mais cobiçados do mundo. Já na Indonésia ele faria parte da primeira leva de surfistas a experimentar o poder dos tubos de Grajagan, onde pôde sentir o gosto do inferno em pleno paraíso.

Enquanto descreve a intimidade quase sensual que tinha com o oceano, Finnegan também envolve o leitor nas suas relações amorosas e na dificuldade em mantê-las quando as ondas o chamavam. Quem desejasse viver ao seu lado deveria aceitar sua condição de surfista, já que ele mesmo não conseguia escapar dela. A honestidade do autor em não querer fazer do surfe mais do que ele é, mas ao mesmo tempo deixando claro que continuar surfando era imprescindível para sua própria existência, é um dos grandes trunfos do livro.

Certamente foi esse olhar inteligente, capaz de oferecer uma visão de dentro e de fora da bolha do surfe, que fez com que Dias bárbaros conquistasse um feito de certa maneira até mais desafiador do que receber o Prêmio Pulitzer de melhor biografia/autobiografia de 2016. A aprovação dos ilustres jurados indicados pela Universidade de Colúmbia, de Nova York, é prova da indiscutível qualidade literária de qualquer obra que seja agraciada com essa distinção, mas o livro de William Finnegan foi mais longe ainda, ao agradar ao mesmo tempo leitores surfistas e leigos, algo muito difícil de acontecer quando o assunto é surfe. A impressão que costuma ficar na leitura de outras obras sobre o tema é a de que elas são tão específicas que se tornam restritas aos iniciados, ou tão genéricas que estes as desprezam. Não dessa vez. Essa onda é para todos.

>> Leia um trecho de Dias bárbaros
>> Confira detalhes sobre a participação de William Finnegan na Flip e pós-Flip

 

Adrian Kojin é jornalista especializado em surfe. Foi editor da versão brasileira da conceituada publicação californiana The Surfer’s Journal e por mais de uma década dirigiu a revista Fluir. Também colaborou com diversas outras publicações, como as revistas Surfer e Surfing, da Califórnia. Traduziu para o português as biografias de Kelly Slater, Mick Fanning e Shaun Tomson, e editou os livros Arpoador Surf Club, Pororoca — A onda da Amazônia, entre outros. Atualmente é o editor para o Brasil do maior site especializado em surfe no mundo, o Surfline.com, e colaborador do site da World Surf League. É autor de Alma panamericana.

testeConfira a programação da Intrínseca na Flip e pós-Flip

Ilustração : Fernanda Pio
Fotografia : Alexandra Jaguaribe
 

Com mais escritoras mulheres do que homens e 30% de autores negros entre os convidados, a edição de 2017 promete ser a de maior diversidade da Festa Literária de Paraty em 15 anos. O homenageado da vez será o escritor Lima Barreto. A Flip acontece entre os dias 26 e 30 de julho, em Paraty, e traz entre os destaques dois autores que são publicados pela Intrínseca.

 

Marlon James na Flip:

Primeiro escritor jamaicano a vencer o Man Booker Prize, principal prêmio da literatura britânica e um dos mais reconhecidos da literatura internacional, Marlon James é autor do monumental Breve história de sete assassinatos. A partir da tentativa de assassinato a Bob Marley, ocorrida às vésperas das eleições jamaicanas em 1976, a obra explora o instável período histórico do país e apresenta uma sucessão de personagens — assassinos, traficantes, jornalistas e até mesmo fantasmas — que andaram pelas ruas de Kingston nos anos 1970, dominaram o submundo das drogas de Nova York na década de 1980 e ressurgiram em uma Jamaica radicalmente transformada nos anos 1990.

Na Flip, o autor divide a mesa “O grande romance americano” com Paul Beatty, autor originalmente publicado pela mesma editora independente de James e que também recebeu o Man Booker Prize. Na conversa marcada para sábado, 29, às 21h30, eles discutem a renovação da tradição americana do romance a partir de seus pontos de vista particulares, o de um americano negro e o de um jamaicano negro que migrou para os Estados Unidos, onde ambos lecionam escrita criativa. 

Após a Festa Literária, Marlon James participa de bate-papo e sessão de autógrafos na terça-feira, 1º de agosto, às 19h, na Saraiva do Pátio Paulista, em São Paulo. O autor conversa com o tradutor de seu romance, André Czarnobai, com mediação do jornalista Álvaro Pereira Jr. Confirme sua presença.

 

William Finnegan na Flip:

Repórter da revista The New Yorker, o premiado correspondente de guerra William Finnegan chega ao Brasil junto com a publicação de sua autobiografia vencedora do Prêmio Pulitzer. Em Dias bárbaros, o escritor americano narra, a partir de sua trajetória no surfe, as histórias da época em que pertencia a uma gangue de meninos brancos no Havaí, a loucura que impregnou jovens e adultos na década de 1960, sua vivência das ondas mais famosas do mundo e tudo o que aprendeu com elas — do pesar de ter usado LSD para desbravar a baía de Honolua, em Maui, à satisfação intensa de atravessar os recifes da Polinésia de mapa em punho para descobrir uma das maiores ondas que existem.

O jornalista, que cobriu conflitos na África enquanto, nas horas vagas, praticava obsessivamente o surfe, participa da mesa “Por que escrevo” ao lado da sul-africana Deborah Levy. No debate, que acontece na sexta-feira, 28, às 21h30, eles discutem as diferentes motivações de um escritor e a entrega ao ofício. 

Após a Flip, Finnegan participa de sessão de autógrafos e de bate-papo com Rafael Mellin e Arnaldo Bloch na segunda-feira, 31 de julho, a partir das 19h, na Livraria da Travessa do Shopping Leblon, no Rio de Janeiro. Confirme sua presença

Clarice Freire na Flip:

A autora de Pó de Lua, participa de bate-papo com Rafael Coutinho, no Centro Cultural Sesc Paraty na quinta-feira, 27, a partir das 14h.

testeLançamentos de junho

Confira as sinopses dos lançamentos do mês: 

Até que a culpa nos separe, de Liane Moriarty — No novo livro da autora de Pequenas grandes mentiras, obra que inspirou a série Big Little Lies, a história começa com um convite inesperado para um churrasco de domingo em Sydney, na Austrália. Três famílias resolvem passar uma tarde tranquila em uma bela casa sem imaginar como suas vidas mudariam para sempre a partir daquele dia.

Sem conhecer direito os anfitriões, Clementine, uma mulher casada e com duas filhas, está com a amiga de infância, Erika, quando um episódio assustador acontece no evento. [Saiba mais]

 

 

Dias bárbaros, de William Finnegan Vencedor do Pulitzer de Biografia de 2016,  a obra é uma autobiografia de William Finnegan, jornalista da The New Yorker, que viajou o mundo em busca das melhores ondas. Amante de livros e de aventuras, Finnegan se tornou escritor e correspondente de guerra. No livro, ele conta a sua trajetória no surfe, as histórias da época em que pertencia a uma gangue de meninos brancos no Havaí, a loucura dos jovens nos anos 1960, as viagens e outras experiências que viveu por causa do esporte. [Saiba mais]

Apenas uma garota, de Meredith Russo Tudo que Amanda mais quer é viver como uma garota comum. Prestes a entrar na vida adulta, ela mudou de cidade após passar pela cirurgia de mudança de sexo e agora está buscando a afirmação de sua identidade.  Embora acredite firmemente que toda mudança traz a promessa de um recomeço, ela ainda não se sente livre para criar laços afetivos — até conhecer Grant, um garoto diferente de todos os outros.

Em seu romance de estreia, a autora retrata a transição de uma adolescente transexual,  parcialmente inspirada nas próprias experiências. [Saiba mais]

 

Geekerela, de Ashley Poston — Quando Elle, nerd de carteirinha, descobre que sua série favorita vai ganhar uma refilmagem hollywoodiana, ela fica dividida. Antes de morrer, o pai lhe transmitiu a paixão por aquele verdadeiro clássico da ficção científica, e agora ela não quer que suas lembranças sejam arruinadas por astros pop e fãs que nunca ouviram falar da série. [Saiba mais]

O divertido romance traz a clássica história de Cinderela para os dias de hoje e aborda temas como internet, independência da mulher, indústria do cinema e cultura nerd.

As Mães, de Brit Bennett — Em uma comunidade negra e cristã dos Estados Unidos, Nadia, uma garota bonita, obstinada e ainda marcada pelo recente suicídio da mãe, será a primeira da família a cursar uma universidade, mas, antes de deixar sua cidade natal, ela se envolve com o filho do pastor da igreja. Os dois são jovens e não oficializam o relacionamento, mas o segredo que resulta desse romance terá consequências maiores do que eles imaginam.

Anos depois, eles ainda vivem à sombra das escolhas da juventude e da insistente dúvida: e se tivessem feito diferente? As possibilidades do caminho não tomado se tornam uma sombra implacável. [Saiba mais]

Robô selvagem, de Peter Brown — Roz é uma robô que, ao abrir os olhos pela primeira vez, se vê sozinha em uma ilha. Ela não tem a menor ideia de como foi parar ali, mas está programada para sobreviver. Tudo parece melhorar quando Roz consegue, aos poucos, se aproximar dos bichos e criar um elo com um filhote de ganso abandonado. Mas sua natureza é diferente, e o misterioso passado da robô, que a levou até ali, está prestes a retornar para assombrá-la. [Saiba mais]

Peter Brown é autor também de Minha professora é um monstro (Não sou, não) e Sr. Tigre solto na selva.

Eu sei onde você está, de Claire Kendal— Rafe está em todos os lugares, sempre atrás de Clarissa. Ele vai encontrá-lo na estação de trem, no portão do prédio onde mora, e as suas mensagens lotam a secretária eletrônica dela. Desde a noite que passaram juntos, Clarissa se vê numa armadilha da qual não consegue escapar. [Saiba mais]

testeMarlon James e William Finnegan na Flip de maior diversidade

O escritor Marlon James (foto: Jeffrey Skemp)

Com mais escritoras mulheres do que homens e 30% de autores negros entre os convidados, a edição de 2017 promete ser a de maior diversidade da Festa Literária de Paraty em 15 anos.

“Esperamos que o aumento de autoras e autores negros no programa seja um ponto de virada e que a Flip possa influenciar não apenas outros eventos literários do país, mas o próprio mercado editorial, ajudando a torná-lo mais diverso”, afirma Joselia Aguiar, jornalista baiana que assumiu a curadoria do evento.

O homenageado deste ano será o escritor Lima Barreto. A Flip acontece entre os dias 26 e 30 de julho, em Paraty, e traz entre os destaques dois autores que serão publicados pela Intrínseca.

Primeiro escritor jamaicano a vencer o Man Booker Prize, principal prêmio da literatura britânica e um dos mais reconhecidos da literatura internacional, Marlon James é autor do monumental Breve história de sete assassinatos. A partir da tentativa de assassinato a Bob Marley, ocorrida às vésperas das eleições jamaicanas em 1976, a obra explora o instável período histórico do país e apresenta uma sucessão de personagens — assassinos, traficantes, jornalistas e até mesmo fantasmas — que andaram pelas ruas de Kingston nos anos 1970, dominaram o submundo das drogas de Nova York na década de 1980 e ressurgiram em uma Jamaica radicalmente transformada nos anos 1990.

Marlon James divide a mesa “O grande romance americano” com Paul Beatty, autor originalmente publicado pela mesma editora independente de James e que também recebeu o Man Booker Prize. Na conversa marcada para sábado, 29, às 21h30, eles discutem a renovação da tradição americana do romance a partir de seus pontos de vista particulares, o de um americano negro e o de um jamaicano negro que migrou para os Estados Unidos, onde ambos lecionam escrita criativa. Breve história de sete assassinatos chega às livrarias a partir de 6 de julho.

 

Repórter da revista New Yorker, o premiado correspondente de guerra William Finnegan chega ao Brasil junto com a publicação de sua autobiografia vencedora do Prêmio Pulitzer. Em Dias bárbaros, o escritor americano narra, a partir de sua trajetória no surfe, as histórias da época em que pertencia a uma gangue de meninos brancos no Havaí, a loucura que impregnou jovens e adultos na década de 1960, sua vivência das ondas mais famosas do mundo e tudo o que aprendeu com elas — do pesar de ter usado LSD para desbravar a baía de Honolua, em Maui, à satisfação intensa de atravessar os recifes da Polinésia de mapa em punho para descobrir uma das maiores ondas que existem.

O jornalista, que cobriu conflitos na África enquanto, nas horas vagas, praticava obsessivamente o surfe, participa da mesa “Por que escrevo” ao lado da sul-africana Deborah Levy. No debate, que acontece na sexta-feira, 28, às 21h30, eles discutem as diferentes motivações de um escritor e a entrega ao ofício. Dias bárbaros será publicado em 30 de junho.

Confira a programação completa da Flip.