testeAmerican Gods: uma (excelente) oferenda para a deusa da televisão

Toda vez que uma adaptação para a televisão ou para o cinema é anunciada, bate aquele medo de que nossos livros favoritos não sejam retratados da forma que esperávamos. O medo fica ainda maior quando o projeto é adiado, muda de canal de TV e é rescrito diversas vezes. Deuses americanos é um desses casos.

Desde 2011 em um limbo dos roteiros que nunca ficam prontos, e após mudar de produtoras, roteiristas e emissoras, a série finalmente chegou a nós, mortais, em 2017, e todo o receio que os leitores tinham foram dissipados nos primeiros segundos da série. Shadow e Wednesday estão perfeitos na série, que narra suas desventuras por uma América de deuses esquecidos.

Se no livro a placidez e a apatia de Shadow Moon irritaram alguns leitores, na televisão o ex-presidiário é um personagem muito mais pró-ativo, que reage ao mundo absurdo que descobre quando aceita trabalhar como guarda-costas de um Sr. Wednesday praticamente saído das páginas de Gaiman, ardiloso e sempre com cara de que sabe muito mais do que aparenta. Juntos os dois são apresentados aos novos deuses, que passaram por algumas atualizações em relação ao livro, escrito no final da década de 1990.

A deusa da mídia, que originalmente aparecia em aparelhos de TV antigos de motéis de beira de estrada, agora aparece em telas de LED com alta resolução, assumindo a forma de diferentes personagens da cultura pop, como Marilyn Monroe e David Bowie, sempre nos alertando sobre a quantidade inestimável de tempo que perdemos vidrados em nossos celulares e tablets. No livro, o deus da tecnologia se assemelha muito mais a um personagem de Matrix do que o da série, uma espécie de Youtuber com milhões de seguidores.

A deusa da Mídia, como David Bowie (Fonte)

Já os deuses clássicos retratam a decadência dos seres que só existem enquanto são louvados. Uns encontraram formas de sobreviver nos tempos modernos, como o deus da forja e do fogo, que criou um culto em torno de uma fábrica de armamentos – como o próprio diz, a forma mais fácil de colocar um vulcão na mão de cada fiel é dar a ele uma arma. Outros, como Odin e Czernobog, querem enfrentar as novas divindades e recuperar a glória do passado. Não por acaso, boa parte dos deuses antigos é representada por imigrantes —  idosos, cansados, que não mais desfrutam do esplendor e juventude que outrora tiveram em sua terra natal.

Até agora já foram exibidos seis episódios da primeira temporada – que vai abordar aproximadamente um terço do livro –, e os produtores puderam mostrar com calma a chegada à América de deuses como Odin, Anansi, entre outros. Além disso, o ritmo mais lento da produção em relação ao material original permitiu que todas as esquisitices, as cenas polêmicas e os detalhes que apenas imaginávamos lendo o livro saíssem das páginas e inundassem a tela, sem nenhum tipo de corte ou censura. (É importante lembrar: a série não é indicada para menores de 18 anos)

Muito mais do que uma história sobre a guerra entre deuses novos e velhos, American Gods é uma história sobre imigração, preconceitos e a descoberta de nós mesmos. A série é exibida na Amazon Prime Video, com novos episódios todas as segundas-feiras. E, enquanto a segunda temporada não tem data de estreia confirmada, os fãs podem continuar a jornada na edição preferida do autor de Deuses americanos, lançada pela Intrínseca no ano passado e que traz diversos conteúdos extras, incluindo uma entrevista hilária com Neil Gaiman.

testeO ano da inocência

Lembro-me bem daquele dia. Os detalhes, odores, o vento, o vazio das ruas. Recém-aprovado no vestibular, ainda antes dos dezessete anos, sentia-me superior, como se pudesse esmagar o resto do mundo com meus pés. Embora muitos achassem que eu era motivo de piada — e, em retrospecto, não posso culpá-los por isso —, a verdade era que eu me achava invencível.

Uma autoestima nas alturas meio sem razão de ser. Magro e alto, de uma maneira desajeitada, era apenas mais um adolescente que não sabia o que fazer com as pernas, os braços e as orelhas que haviam crescido rápido demais. Estudaria, no ano seguinte, engenharia na universidade federal. Era o orgulho do meu pai, parecia tudo tão certo, predestinado, exato.

Naquele verão, do último dia das provas até aquela comemoração do resultado do vestibular, eu havia ficado no meu quarto ouvindo músicas em inglês para treinar o idioma. Nada de viagens, praia. Só ar condicionado ligado 24 horas por dia naquele quarto cheio de pôsteres imbecis. A aprovação no vestibular operara milagres: meu pai havia se esquecido da conta de luz e me deu um grande presente — deixou-me em paz.

Gastei todo o início de janeiro aprimorando meu inglês. Enquanto todo mundo ouvia John Lennon, The Doors ou Rolling Stones, eu exercitava o idioma com a canção preferida da minha professora quarentona naquele verão: Lost in love, do Air Supply. Ouvi tanto que passei a gostar. Parecia falar do que eu sentia por Baby: “You know you can’t fool me, I’ve been loving you too long…”

O telefone, que andara mudo lá em casa por dias, tocou com Baby gritando “passeeeeei” com todas as forças de seus pulmões (eu já sabia, tinha ouvido o nome dela no rádio). Ela me perguntou se eu iria à festa — claro que eu não havia sido convidado, mas fingi que mal podia esperar. Sim, precisava de uma carona. Baby havia ganhado um Fusca do pai. Não era nada especial, tinha um bege desbotado e um retrovisor só do lado do motorista.

À medida que acelerávamos pelas praias cada vez mais desertas naquele dia de verão nublado, mas não menos calorento, minha felicidade aumentava. Colaborava para o clima o gosto musical muito mais apurado de Baby. No toca-fitas, rodava um cassete mixado a partir dos melhores discos dos amigos. Um dos lados fora dedicado a David Bowie. Nunca tinha ouvido falar dele, para espanto de minha melhor amiga e também amor secreto.

— Em que planeta você vive? — perguntou Baby.

— Marte — respondi, com um sorriso.

— Que coincidência. Bowie também.

Antes de irmos à festa, paramos em um dos grandes descampados que a Barra tinha na época e Baby tirou da bolsa um presentinho que recebera um dia desses — um baseado. Ela confessou que era virgem nessa área — o que, óbvio, valia para mim também. Entre tossidas e cuspidinhas de erva, ela me beijou. Primeiro, um toque rápido nos lábios; depois, nossas línguas se entrelaçaram de forma atrapalhada, mas intensa, cada vez mais intensa. O elástico frouxo do meu short foi vencido por minha energia adolescente. Deixei-me levar, não podia parar. Quando dei por mim, havia sujado todo o painel do carro de Baby.

Ela olhou para mim espantada, pois nem havíamos nos tocado. Também nunca havia presenciado coisa semelhante. Em seguida, não conseguia parar de rir.

Corações em disparada, ainda mais porque, por algum motivo, a música estava ligada no último volume. Bowie cantava Changes. Enquanto nos olhávamos, nossas respirações se acalmavam. Soltei um riso nervoso. A vida começava ali.