testePrecisamos falar sobre roubo de arte

“Com tanto assunto para você escrever por aí — corrupção, assassinatos, tráfico de drogas, crise econômica — você foi escolher logo roubo de arte?” Foi assim, diante de um comentário ácido sobre o que viria a ser A arte do descaso, que, em 2011, tive a comprovação definitiva da importância daquilo que tanto digitava em meu computador. No Brasil, pouco se sabe — e pouquíssimo se estuda — sobre roubo de arte. Padecemos de uma ignorância que nos compromete. Roubo de arte é um tipo de crime que gira cerca de US$ 6 bilhões por ano em todo o mundo. Só perde em lucratividade para o narcotráfico e o comércio ilegal de armas. Essas estimativas — tidas como conservadoras — não são minhas, mas do Federal Bureau of Investigation (FBI). Não é hora de prestarmos mais atenção ao assunto?

artedodescasograndeA arte do descaso, minha estreia no mercado editorial, pela Intrínseca, reconta minuto a minuto o maior roubo de arte do Brasil. Trata-se do ataque ao Museu da Chácara do Céu, entidade administrada pelo Ministério da Cultura e situada no bairro carioca de Santa Teresa, em fevereiro de 2006. Há dez anos, o caso aparece na lista dos dez maiores crimes cometidos contra a arte em todo o mundo. É o único latino-americano no ranking disponível no site do FBI para quem estiver disposto a conferir. Mas nós, brasileiros, levamos uma década ignorando isso.

Foi no primeiro semestre de 2011, quando o crime completava cinco anos, que resolvi revisitá-lo. Na época, trabalhava como repórter de cultura do jornal O Globo, no Rio de Janeiro, e me causava grande desconforto saber que as tentativas para elucidar o caso haviam sido frustradas. Não me parecia razoável o nível de descaso com o fato de que uma coleção de arte pública perdera para o crime dois Picassos, um Matisse, um Dalí e um Monet, então avaliados em US$ 10 milhões.

Também me causava certa vergonha ler reportagens que apontavam nosso país como um dos territórios mais propícios à ação de quadrilhas que roubam arte. Em 2007, um estudo da empresa americana RCI-First, especializada em análise e gestão de riscos e em contraespionagem, fez circular pela imprensa nacional, com certo alarde, a informação de que o Brasil ficava em quarto lugar na lista de países com mais roubos desse tipo. Entre 1995 e 2007, afirmava o estudo, ao menos 934 peças tombadas haviam sido furtadas, sendo que apenas oitenta delas tinham sido anteriormente catalogadas. Dois terços desse patrimônio, pontuava a análise, jamais foram sequer fotografados.

Debrucei-me sobre os três volumes e as mais de 700 páginas do inquérito referente ao roubo da Chácara do Céu — que segue aberto. E não demorou muito para que eu percebesse que A arte do descaso seria um livro para mostrar por que o Brasil não avança na investigação. Convido você para essa aventura. A partir de agora, todos atrás de “Marine” (Monet), “Les deux balcons” (Dalí), “La danse” (Picasso) e “Le jardin du Luxembourg” (Matisse)!