testeUm convite para a Nova York de A grana

Por João Lourenço*

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capa_agrana_pQuando começo a leitura de um livro, espaço e tempo são os elementos da narrativa que costumam me seduzir primeiro. Personagens e trama vêm depois. Gosto de ler sobre lugares que conheço e que tenho vontade de conhecer — e também sobre lugares imaginários que nos fazem sonhar.

Em A grana, somos transportados para um lugar muito real: a Nova York atual, caótica, multifacetada, onde a ganância é algo quase palpável. A autora, Cynthia D’Aprix Sweeney, por meio de ricas descrições, revela em detalhes os muitos segredos da Big Apple. Se você já desembarcou na cidade que nunca dorme ou está planejando viajar para lá, A grana pode ser a sua leitura de bordo. Anote tudo e embarque nessa viagem. 

 

Oyster Bar 

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Nova York é a cidade do novo, do moderno, do rápido. Yes! Mas também há espaço para a tradição. É o caso do Oyster Bar, um restaurante de frutos do mar fundado em 1913. Localizado no nível inferior da Grand Central Station, o espaço tem 440 lugares disputados diariamente por pessoas de várias partes do mundo. Tamanho sucesso se deve aos produtos frescos que podem ser apreciados em um menu que se reinventa constantemente. Mas se frutos do mar não agradam o seu paladar, não se acanhe: o Oyster Bar também é um ótimo lugar para “ver e ser visto”, saboreando um drinque antes de pegar o trem para a próxima aventura. 

 

West Village

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Ruas largas, sossegadas e arborizadas. Cafés com mesas na calçada, lojas de grifes locais e independentes e uma grande variedade de restaurantes e bares que ficam movimentados até o amanhecer. West Village também é conhecido como Little Bohemia, devido à predileção noturna de seus moradores. O bairro é um dos poucos lugares em Nova York onde ainda prevalece aquela sensação de estar em uma cidade pequena. Por lá, todo mundo parece se conhecer. Moderno e agitado, não é movido à pressa insana que vemos no centro de Manhattan. Um dos diferenciais do bairro são as famosas feiras de garagem e mercados de pulga, onde é possível garimpar relíquias e antiguidades que você nem sabia que existiam.  

 

Museu de História Natural

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Programa clássico na lista de todos que visitam Nova York, recebe em média 4 milhões de visitantes por ano — cerca de 10 mil por dia! O museu tem cinco andares e narra a história da humanidade, além de ter o maior acervo de fósseis de dinossauro do planeta. Embora seja um museu antigo, o que lhe dá um aspecto um tanto antiquado, o espaço tem a maior tela de cinema de Nova York, que apresenta filmes e documentários sobre história natural. Falando em cinema, o museu já apareceu em diversos sucessos de bilheteria, como A Lula e a Baleia e Uma Noite no Museu. Desde 2014, lá acontece a noite do pijama: uma espécie de festa noturna com visita guiada, banda ao vivo e apresentações especiais — além de uma chance incrível de dormir rodeado de esqueletos de baleias gigantes e animais raros. Para geek nenhum botar defeito. 

 

Dumbo

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Abreviação de “Down Under Manhattan Bridge Overpass”, a região fica debaixo do viaduto da ponte de Manhattan, no Brooklyn. Antes, Dumbo era uma área de fábricas e prédios industriais. Devido ao aluguel barato, o lugar costumava ser habitado por universitários e jovens artistas em ascensão. Mas, nos últimos 15 anos, Dumbo começou a ganhar novo status com a chegada de grandes empresas de tecnologia e multimarcas internacionais. Hoje, a região é uma das que mais crescem em Nova York. Jovens, artistas e universitários ainda circulam por lá, mas já não podem se dar ao luxo de morar nos prédios industriais que hoje funcionam como playgrounds para diretores e funcionários das maiores start-ups da Costa Leste. O pequeno bairro ainda tem uma vista sensacional de Manhattan. Dumbo também é o lugar perfeito para quem é fã de papelaria e livros “diferentes”. Por lá, as livrarias parecem parque de diversões para adultos. Destaque para The Penthouse Arenna, mistura de livraria, boutique, papelaria e galeria de arte e fotografia. 

 

Píer 45

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Em Nova York, assim como em qualquer grande metrópole, os lugares públicos são bastante disputados. Nos meses quentes, todo mundo procura um cantinho distante do barulho do dia a dia. Além da vista privilegiada do rio Hudson, no Píer 45 há opções de lazer para todos os gostos. Entre a primavera e o verão, o parque que rodeia o píer recebe festivais de música e gastronomia. Um ótimo lugar para caminhar, refletir, encontrar os amigos e apreciar a vista de New Jersey e do skyline de Manhattan. 

 

João Lourenço é jornalista. Passou pela redação da FFWMAG, colaborou com a Harper’s Bazaar e com a ABD Conceitual, entre outras publicações estrangeiras de moda e design. Atualmente está em Nova York tentando escrever seu primeiro romance.

testeGanância em família

Por João Lourenço*

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“Todas as famílias felizes se parecem; cada família infeliz é infeliz à sua maneira.” Você não precisa ter lido Anna Karenina para saber disso. Antes mesmo de aprender a ler, eu ouvia minha avó dizer algo semelhante ao que escreveu Tolstói no século XIX. Com um sotaque italiano carregado, ela repetia que família só muda de sobrenome e endereço. A grana, livro de estreia de Cynthia D’Aprix Sweeney, confirma essa máxima: família é tudo igual — principalmente quando há dinheiro envolvido.

Em A grana, acompanhamos a saga dos Plumb, uma típica família de classe alta de Nova York. São quatro irmãos de meia-idade, que não convivem bem entre si, e uma mãe distante e excêntrica. A história tem início quando o primogênito, Leo, escapa embriagado de uma festa de casamento com uma jovem garçonete e acaba provocando um constrangedor acidente de carro — eventualidade que transformará drasticamente o destino de toda a família.

A única coisa que une os Plumb é a ânsia pela distribuição do “pé-de-meia”. Trata-se de um fundo de investimento criado pelo patriarca, Leonard, que só poderia ser entregue aos filhos quando Melody, a caçula, completasse 40 anos. O dinheiro, depois de ter rendido muito bem em um fundo de investimento, serviria para assegurar um futuro mais confortável para eles, no entanto, grande parte do montante acaba sendo gasto para remediar os problemas causados pelo acidente de Leo. E é claro que seus irmãos tinham outros planos.

Ignorando o conselho do pai (“nunca conte com o ovo no fiofó da galinha”), os filhos passaram anos acumulando dívidas e listando projetos para o dia em que recebessem sua fatia do “pé-de-meia”. Melody, esposa e mãe de gêmeas adolescentes, tem uma hipoteca cara e duas mensalidades universitárias se aproximando; Jack, dono de uma loja de antiguidades, escondeu do marido que a casa de verão foi usada como garantia de empréstimo para pagar dívidas; Beatrice é uma escritora em decadência que teve que devolver o adiantamento do seu livro após não cumprir os prazos da editora.

Depois do acidente, a trama acompanha Leo por uma Nova York fria e chuvosa em uma peculiar tentativa de acalmar o ânimo de seus irmãos. Há anos os quatro não passavam nem os feriados juntos e a questão da grana acaba os obrigando a se reencontrar.

A grana é recheado de cinismo, com personagens afiados em suas narrativas autodepreciativas, e atraiu a atenção de nomes como a comediante Amy Poller, da série de TV Parks and Recreations. Poller descreveu o livro como intoxicante: “Não consegui parar de ler e de me preocupar com essa família disfuncional.” O destaque cômico fica para a personagem Francie, a mãe dos Plumb, que parece ter saído de um reality show como The Real Housewives of New York. Francie é daquelas socialites de língua afiada, que fazem comentários nada corretos e passam o dia de quimono de seda, afogando as mágoas em taças de martíni.

A grana é dividido em capítulos curtos e Sweeney intercala a trama principal com pequenas histórias de personagens secundários. Entre as desventuras da família Plumb, a autora encaixa capítulos que funcionam como contos que poderiam ser lidos isoladamente. É como se ela convidasse o leitor a fazer pausas para respirar. O capítulo 11, por exemplo, é uma das histórias mais honestas e comoventes sobre as consequências dos atentados de 11 de Setembro que já li.

De modo geral, o livro é uma carta de amor a Nova York, onde a autora morou por mais de 20 anos. A experiência de Sweeney pode ser percebida em uma escrita que descreve fielmente o mood da cidade. Com uma gama impressionante de detalhes, ela nos transporta para parques, restaurantes, hotéis e bares conhecidos de Nova York. O livro é um prato cheio para quem já está habituado com as ruas e segredos da Big Apple e também para quem pretende um dia visitar a cidade. A autora vai além dos cartões-postais e aborda temas como fama, poder, gentrificação, segurança pública, rede de ensino, cultura de mídia e, claro, ganância.

Mãe de dois filhos e casada com o braço direito do apresentador de TV Conan O’Brien, Cynthia D’Aprix Sweeney, depois de mais de duas décadas em Nova York, foi para Los Angeles com a família e abandonou uma carreira sólida no mundo da publicidade para estudar escrita criativa. Na etapa final do curso, incentivada por um professor, ela transformou o conto que já vinha trabalhando havia meses em romance. Assim nasceu A grana.

O título foi adquirido por uma quantia milionária, fato cada vez mais raro entre romances de estreia. Vai virar filme e, de acordo com a Amazon e o The New York Times, foi um dos livros mais vendidos em 2016. Agora, Sweeney prepara o roteiro para a adaptação cinematográfica do livro, que já conta com Jill Solloway, da série de TV Transparent, como diretora e produtora do projeto.

 

João Lourenço é jornalista. Passou pela redação da FFWMAG, colaborou com a Harper’s Bazaar e com a ABD Conceitual, entre outras publicações estrangeiras de moda e design. Atualmente está em Nova York tentando escrever seu primeiro romance.