testeSonhos partidos constroem corações mais fortes

Por Suelen Lopes*

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Existe alguém que nunca teve o coração partido ou um sonho que foi por água abaixo? Acho que a resposta é não. Se por acaso eu estiver enganada e você pertencer ao seleto grupo de pessoas que, até agora, passou impune pela vida, sinto muito, mas isso não é motivo para comemorações. Desejo apenas boa sorte, porque quanto mais tarde essa hora chegar, pior. O sofrimento faz parte da vida. Ainda bem.

As nossas memórias — e o esquecimento — muitas vezes nos protegem do sofrimento. Ninguém quer se lembrar o tempo todo de uma situação ruim. E isso é normal. O importante é nos darmos conta de como nossas lembranças são construídas, pois é comum termos a impressão de que a memória é algo quase documental, como um jornal antigo que fica guardado em uma gaveta que você pode abrir a qualquer momento. Não é bem assim. Talvez não haja nada mais pulverizado e ficcional do que a memória.

sonhospartidosgrandeEm Sonhos Partidos, de M. O. Walsh, o narrador, já adulto, parte de suas lembranças da adolescência para contar como o passado influenciou sua vida. A construção da memória foi importante para que ele se tornasse quem é. Nossas lembranças são subjetivas, não uma simples fixação da realidade; basta pensar que uma mesma situação pode ser irrelevante para uma pessoa e marcar para sempre a vida de outra. Quem nunca ouviu alguém contar uma história que também presenciou e começou a se perguntar se realmente haviam estado no mesmo lugar, na mesma hora?

A narrativa de Walsh se passa em Baton Rouge, capital do estado da Louisiana, nos Estados Unidos. E no verão de 1989, Lindy Simpson, uma das garotas mais bonitas do bairro, é estuprada perto de casa. Os subúrbios bucólicos de Baton Rouge aparentemente também têm um lado obscuro, assim como nossa memória. Guardamos entre nossas lembranças diversos acontecimentos alegres e lúdicos: brincadeiras de infância, saídas com amigos, viagens, amores. No entanto, há também, em um canto sombrio, as recordações obscuras: os entes queridos que se foram, a família destruída, violência, decepções, tristezas, traições, pessoas que te abandonaram — levando uma parte sua junto. É a combinação desses dois lados que constrói nossa personalidade.

Um dos melhores livros que li nos últimos tempos, Sonhos partidos também arrebatou o coração de pessoas da equipe e de outros departamentos da editora. Apesar da linguagem simples, as reflexões de Walsh estão longe de qualquer simplicidade. Enquanto trabalhava no texto, eu separava diversas frases, porque sabia que era o tipo de obra que não se lê apenas uma vez. O narrador nos transporta para uma vida que não é nossa, mas que qualquer um poderia ter vivido. Crime, sexualidade, culpa, bullying, paixão, medo, descobertas, família, obsessão, amor. É um livro sobre viver.

Tudo que foi vivenciado provavelmente ainda está em você. Cada cena, cada frase, cada pessoa. Nada passa sem nos tocar de alguma forma. Assim, criamos nossas próprias narrativas. E vida e linguagem caminham lado a lado, confluem, para esgotar tabus, dor, e possibilitar as vivências em toda a sua natureza humana. As vulnerabilidades são elementos fundamentais para a nossa força e sensibilidade, e não há nada mais paralisante que o medo de errar. O medo da possibilidade de sofrer. Evitar o sofrimento é evitar a felicidade. A verdade é que a gente nunca sabe o que vai acontecer lá na frente. Ainda bem.

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Leia um trecho do livro

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*Suelen Lopes é editora assistente no setor de ficção estrangeira da Intrínseca. Gosta de chá, golden retriever e francês, e acredita que dar voz à vulnerabilidade humana ainda vai mudar o mundo.

testePare de sentir culpa: a mulher perfeita não existe

Por Vanessa Mello*


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“Dez passos para perder aquela gordurinha localizada” ou “cinco dicas para estar linda em qualquer situação”. Quantas vezes já nos deparamos com chamadas como essas em revistas femininas? Quantas vezes já nos sentimos mal por estar fora do padrão estético imposto pela sociedade? A busca infinita para ser a “mulher ideal” traz sérios problemas e só causa frustração.

Em defesa das mulheres de verdade — sem retoques de Photoshop —, as irmãs gêmeas Anne-Sophie Marie-Aldine Girard decidiram escrever um livro para falar do assunto. E foi essa descrição que chamou a minha atenção na reunião que fazemos na editora para discutir os lançamentos do mês.

Decidi ler o livro porque fiquei curiosa com o título. No primeiro momento, parecia ofensivo. Porém eu estava disposta a entender como as autoras poderiam falar de um tema tão sério com ironia. Já perdi a conta de quantas vezes estive em uma mesa de bar com as minhas amigas e ouvi: “Preciso perder uns cinco quilos.” Para não ser hipócrita, assumo que também já falei (e falo) que eu deveria perder peso para me sentir melhor.

Capa_mulherperfeitavaca_300dpiMas é cansativo viver assim. Ter um corpo maravilhoso, resistir aos doces, estar sempre arrumada e lutar o tempo inteiro para ser perfeita só nos deixa… chatas! Nunca seremos como as modelos ou como as blogueiras do Instagram que acordam às 5h para “treinar”. Eu, por exemplo, não tenho a menor vocação. Sou baixinha, como chocolate todos os dias, pago os maiores micos, nunca faço as unhas e ainda não sei me equilibrar em sapatos de salto.

E por que eu teria que saber? Com muito bom humor, as autoras mostram que eu sou normal, e isso é incrível! Elas apresentam situações com que qualquer garota pode se identificar. Quem nunca inventou uma desculpa para ficar em casa assistindo ao reality show preferido? Quem nunca disse que ia começar a academia na segunda-feira, desistiu e ficou tudo bem depois?

Com testes, listas e frases engraçadíssimas (e algumas impublicáveis aqui), as gêmeas nos lembram de como é importante aceitar nossas bizarrices e celulites. E o principal: ensinam a se divertir, sem medo, porque a mulher perfeita não existe. Ela é uma vaca.

Confira as listas:
Lista de músicas vergonhosas, mas que amamos mesmo assim
Como saber se você tem uma vida de merda


Vanessa Mello
é assistente de mídias sociais no departamento de Marketing. Ama Nutella, praia, histórias emocionantes e viagens. E só quer continuar sendo uma mulher normal quando crescer!