testeO bom amor é gentil

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A caminho de casa, ela viu um daqueles cartazes prometendo amarração para o amor. Por um instante, a ideia de pagar só após o resultado lhe pareceu boa. Estava tão fora de si, tão apaixonada, que a chance de ter um amor submisso, de ficar no controle da situação, lhe dava certo conforto.

Concordar, mesmo por alguns segundos, com um projeto tão estapafúrdio como amarrar alguém, ainda que metaforicamente, foi suficiente para ela entender que era hora de dizer adeus. Precisava dar um basta na situação. Apagou o número de telefone dele e sentiu-se bem por um momento.

Só havia um problema: ela sabia de cor os nove dígitos. Sempre fora boa em aritmética, mas nunca soubera fazer as contas do quanto deveria amar. Desenvolveu um sistema que parecia funcionar. Se decorasse o número do pretendente, era sinal de que gostava dele. Caso lhe escorregasse da mente, seria melhor desistir.

Fez as contas e concluiu que não vinha sendo honesta sobre seus sentimentos havia pelo menos três meses. Na semana anterior, descontrolara-se ao contatá-lo em três ocasiões diferentes, um número além do saudável para uma relação não exclusiva. Sinal de que era hora de sair de cena sem fazer barulho.

Antes do fim, uma dúvida: dizer algo ou calar-se? Se não falasse nada, suas chances de sucesso seriam zero. Caso expusesse seus sentimentos, haveria a possibilidade, ainda que matematicamente desprezível, de reciprocidade. Poderia aceitar a derrota calada ou apostar suas fichas na vitória.

Decidiu esperar que aparecesse, o que sempre fazia quando ela menos esperava. Se ele nunca mais lhe telefonasse, o acaso decidiria a situação. Duas vagarosas semanas se passaram, e ele reapareceu. Doce como sempre, como se os dois se tivessem visto no dia anterior.

Ela tivera tempo de praticar o discurso, que seguiu com rigor. Sem ficar emocionada, porém tomando a precaução de não soar fria, disse que talvez fosse melhor se eles deixassem de se ver. O motivo: estava começando a gostar demais dele e não queria mais partilhá-lo com ninguém.

À medida que seus sentimentos atingiam o ponto de fervura, retirar-se parecia a coisa certa a fazer. Ele ficou mudo, sem saber o que dizer. Gaguejou e se despediu. Não lhe desejou boa sorte nem felicidades, não disse nenhuma frase de efeito.

Ela não havia segurado ou dominado seu amor. E não queria forçar ninguém a amá-la, buscava algo gentil. Se fosse necessário esperar um pouco mais até conseguir o que desejava, tudo bem. Uma garrafa de vinho poderia ser aberta imediatamente para ajudá-la a passar o tempo. Seria uma pequena fonte de alento.

Enquanto procurava o saca-rolhas, ouviu insistentes batidas em sua porta. Ele chamava seu nome. Ao abrir, olhou nos olhos dele, sem dizer nada. Era o mesmo homem, mas estava mudado. Quase sem fôlego, pois havia subido três andares correndo pelas escadas, ele fez só uma pergunta:

– Então, como é que a gente vai fazer?

teste[O MENINO QUE QUEBROU O SILÊNCIO*]

Ilustração: Pedro Gabriel

Sempre achei que a minha vida fosse uma releitura da música “Paratodos”, do Chico Buarque. Com algumas variações naturais, é claro. Afinal, cada um de nós carrega a própria voz e a partir dela recita, como bem entender, os fonemas de uma nova história.

Meu pai passou a infância em Coira, uma comuna da Suíça onde a língua oficial é o alemão. Uma língua que dizem ser muito eficaz para adestrar os cães. Que maldade! Com o tempo, aprendi a ouvir com prazer a sua estrutura silábica, que até então parecia uma sequência sem fim de xingamentos. E pasmem: tenho conseguido latir algumas doçuras germânicas.

Minha mãe veio ao mundo abençoada pelos braços abertos do Cristo Redentor. Carioca da gema, como dizem. No Rio de Janeiro, mais do que o português, fala-se o carioquês. Um dialeto em que se puxa o s e se estica o r e que se desdobra em uma variante invejável de expressões que formam pequenos chiados. Uma espécie de rádio mal sintonizada, sempre em busca de uma programação carismática.

Meus pais se conheceram na faculdade, em Lausana, cidade da Suíça que fica na parte francófona do país. Lá, obviamente, se fala francês. Mas não o francês-francês. Quem reina soberano é o francês com sotaque helvético. Um francês um pouco mais lento, talvez preguiçoso. E foi ali, naquele idioma, que eles encontraram a paz para se comunicar, se aproximar, se apaixonar e enfrentar o destino. Ele, em francês com aquela sonoridade quase autoritária (um latido?). Ela, em francês com sotaque tropical, daqueles que só se encontram em dias de verão.

Casados, eles se mudaram para a África. Mais precisamente para o Chade, um país com duas línguas oficiais: o árabe e o francês. Mas não o francês-francês. Ali, se ouvia o francês extremamente musical — característico das antigas colônias. Isso sem mencionar os incontáveis dialetos entre etnias, tribos e aldeias da região. Eu, que ainda não tinha saído da barriga da minha mãe, já estava tentando entender como iria me entender no mundo. Minhas irmãs devem ter sofrido o mesmo dilema.

Na dúvida entre ladrar ou chiar, me encontrei no silêncio. Nasci tímido. Não me vem à memória ter chorado nas mãos da parteira. Não me lembro de ter causado grandes escândalos típicos de um recém-nascido. O que me recordo é que eu passava horas dormindo, tentando entender a linguagem dos meus sonhos. Meu pai diz que fui o primeiro bebê branco a ver a luz naquele hospital durante a guerra civil que tomou conta do país e nos obrigou a fazer as malas novamente. Destino: Cabo Verde. A língua oficial: crioulo. Moramos cinco anos naquelas ilhas. Até a separação dos meus pais. Minha mãe voltou para a sua cidade natal. Meu pai fez o mesmo e foi para a dele. Eu segui os passos maternos, e o mundo passou a ser a minha imensa sala de aula.

Que língua, afinal, eu tinha que adotar para a vida? Eu pertenço a qual idioma? Eu parecia não falar. Vivia enfiado no meu mundo. Passava o dia inteiro abrindo gavetas internas para encontrar alguma frase, algum assunto, algum papo bacana para soltar em alguma conversa, em alguma mesa… Em vão! Algumas palavras simplesmente não querem sair. Parecem morar em nós, amarradas, acorrentadas, trancafiadas.

Cheguei ao Brasil ainda sem saber como alinhar minha traqueia, sem saber como calibrar as cordas vocais, sem saber a envergadura correta da boca, sem saber o formato ideal dos lábios, sem saber como dizer ao meu cérebro que agora preciso apenas pronunciar um simples “obrigado” em bom e velho português. A língua sempre foi um obstáculo na minha casa. Eu tenho certeza de que muitas desavenças nasceram desse sentimento de dialogar em uma língua em que não se tem o pleno domínio das emoções, da gramática, das ironias, do humor, dos sentidos.

Passei muito tempo tentando descobrir qual era a palavra que me cabia. A poesia, muitas vezes fragilizada, foi a força que encontrei para quebrar o meu silêncio. Cada verso que pus no mundo foi para reler a minha infância. Cada rima que coloquei no papel foi para amparar a saudade. Minha poesia é a soma de tudo o que vivi. Neutra e bonita feito a Suíça. Criativa e carismática feito o Brasil. Leve e satírica feito a França. Melancólica e esperançosa feito a África. Minha poesia é minha língua. Minha língua é meu caminho. Já diz a canção: “Vou na estrada há muitos anos, sou um artista brasileiro.”

*Crônica publicada no projeto 25 Cronistas falam de superação, organizado por Luciana Medeiros