teste[SITUAÇÃO CRÍTICA]

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Um pugilista que não aguenta um soco não deve subir ao ringue. Um marujo que não suporta uma tempestade não deve desbravar o mar. Da mesma forma, um autor que não consegue lidar com a crítica não deve publicar sua obra. Alguns poetas parecem intocáveis. Pior: alguns poetas julgam suas poesias inquestionáveis, o suprassumo da beleza lírica, o ápice da perfeição métrica, o topo do que se pode escrever em matéria de plasticidade. Quando a crítica pega um pouco mais pesado, esse poeta-intocável se torna leviano. Toda a delicadeza dos seus versos vira raiva. Na minha opinião — e não na minha crítica —, são meninos mimados que deixaram a barba crescer e o cabelo branco escurecer o bom senso. Isso quando ainda têm cabelo…

Se você não quer dar a cara (ou o poema) a tapa, por favor, não apareça, não poste — assim não há quem não goste! Publique sua genialidade na opção SOMENTE EU. Sim, caros amigos, há essa opção ególatra nas redes sociais, apesar de eu não enxergar sentido nisso. Uma rede social para socializar com você mesmo? #WTF! Ninguém merece seu chilique pós-crítica. Somos maduros ou não? Um autor que não encara com humildade uma crítica deve engavetar definitivamente seus escritos. Mas uma coisa garanto: a gaveta também pode reservar duras palavras, meu nobre poeta.

Uma crítica é uma opinião madura, bem planejada, estruturada e embasada. E não simplesmente um achismo jogado ao vento, ao blog ou ao jornal. A imagem que me vem à cabeça é a da construção de uma casa. A casa, como metáfora da obra realizada, só pode se dizer finalizada quando o artista (arquiteto?) entende cada elemento que a sustenta. A crítica é um desses elementos fundamentais para o nosso crescimento. Sem crítica, a casa (a gente) não se sustenta. Ela sobe, sobe, sobe, sobe e, sempre inacabada, desmorona com facilidade.

A crítica é o que nos dá resistência para aguentar um soco, suportar uma tempestade. A crítica não é o soco. Muito menos a tempestade, prezado poeta. Muitas vezes, é por ela que abrimos a gaveta, entramos no mar e criamos músculos para encarar o oponente no ringue. O crítico não é nosso oponente. Ele é, muitas vezes, nosso técnico. Talvez por julgá-lo adversário, o poeta-intocável se afoga e é nocauteado. O papel do crítico não é dar um tapinha no ombro, inventar qualidades… Tem que pegar pesado mesmo! O crítico faz halterofilismo com as obras já publicadas. Ele dosa o peso das palavras em função da experiência. Carinho recebo dos meus amores. Dos meus críticos, quero críticas. Para ser poeta tem que aguentar.

Não é só no campo da arte que colhemos os frutos críticos. Qualquer um pode ser alvo. Gestos, atitudes, forma de andar, jeito de comer, de se vestir, de rir — tudo é avaliado de alguma forma, por alguém, em algum momento. Já recebi inúmeras críticas pesadas, mas a leveza da minha consciência é o que me faz querer melhorar sempre. Não sou intocável; ninguém deve sê-lo. O tato da dureza de um crítico coerente com a doçura de um leitor inocente é o que dosa nossa prosa, equilibra nossa poesia e molda minha estrada poética. Levei alguns ganchos, mas continuo de pé à espera da próxima luta. Tomei alguns caldos, mas sigo nadando à espera da próxima margem. Amo o que faço, e isso não há quem desfaça.