testeAinda Adhemar de Barros

Adhemar de Barros

Adhemar de Barros (fonte)

Na época em que era interventor de São Paulo (1938-1941), Adhemar de Barros foi responsável pela outorga ao governo de seu estado para a concessão e construção de um porto na cidade de São Sebastião. Era 1939 e a iniciativa representava uma ameaça ao monopólio que, na prática, a família Guinle mantinha com o porto em Santos, conforme conto em Os Guinle — e eles lutaram muito por esse monopólio.

Em 1945, logo após a Segunda Guerra Mundial, o porto de Santos, como todas as grandes instalações portuárias do mundo, entrou em colapso, por conta do ritmo intenso da retomada do comércio internacional. As discussões sobre a capacidade dos Guinle de administrar o porto, nada moderno e até meio decadente, voltaram à baila e atingiram o auge. E mais uma vez quem estava no comando do estado era Adhemar.

O principal argumento para a construção de um terminal marítimo em São Sebastião era o comércio de petróleo que, em breve, exigiria uma ampliação radical das instalações em Santos. No nível federal, abriu-se até mesmo uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para discutir o futuro da concessão concorrente. Seu resultado foi favorável à família Guinle e a ideia da construção do porto em São Sebastião foi deixada de lado.

Político conhecido pelo slogan “Rouba, mas faz”, Adhemar adorava empreendimentos que envolviam grandes obras e relações não ortodoxas com empreiteiras. Tanto que, em 1956, foi condenado pelo Tribunal de Justiça de São Paulo a dois anos de reclusão por peculato (reclusão não cumprida). Apesar de ser casado, Adhemar mantinha um romance com sua secretária, Ana Capriglione. Com o tempo, ela ganhou força política e passou a participar ativamente das decisões do governo. Ana era conhecida nos meios políticos pela alcunha de “Dr. Ruy”.

Assim como o amante, Ana ficou muito rica. Anos mais tarde, em 1969 (ano da morte de Adhemar), ela foi morar no Rio de Janeiro, no bairro de Santa Teresa. O Brasil vivia em plena ditadura militar e uma pequena parte da oposição, de extrema esquerda, pegou em armas para combater o regime de exceção. Um desses grupos, o VAR-Palmares, ficou sabendo que na casa do “Dr. Ruy”’ havia um cofre bem fornido. Tendo em seus quadros militantes que se tornariam personagens de nossa história – Dilma Rousseff, Carlos Lamarca, Carlos Minc, entre outros –, o VAR-Palmares conseguiu roubar o cofre e o episódio causou enormes constrangimentos, já que em seu interior, segundo a agência de notícias France Press, foram encontrados 2,5 milhões de dólares.

Ana, que não podia admitir publicamente que possuía esse valor, disse que o grupo encontrara o cofre vazio. Sobre o roubo, os militares afirmaram tratar-se de “fanfarronada” de Carlos Lamarca. Já a família de Adhemar negou que ele guardasse dinheiro em cofres ou em contas fora do país. Tão constrangedor quanto a existência da quantia foi seu sumiço após o roubo. Entre os militantes até hoje ninguém sabe com quem ficou o dinheiro que, segundo Lamarca, era roubado do povo e ao povo seria devolvido.

testeOs Guinle: entre a Lava-Jato e a CPI

Via Diário do centro do mundo

Os Guinle motivariam uma CPI? (Foto via Diário do centro do mundo)

Durante a gravação do Programa do Jô em que fui entrevistado sobre o livro Os Guinle, ele me perguntou: “Os Guinle teriam dado uma Lava-Jato?” Dois dias depois, no debate do qual sempre participo na rádio Tupi, o comunicador Haroldo de Andrade fez a mesma pergunta. E minha resposta foi igual: “Não.” A Operação Lava-Jato visa desmantelar um esquema de corrupção, ou seja, roubo de dinheiro público. Os Guinle nunca estiveram envolvidos com corrupção, mas não há dúvida de que foram beneficiados por favores políticos. Logo, eles poderiam inspirar uma CPI, isso sim. E inspiraram.

Com o fim da Segunda Guerra Mundial, em maio de 1945, o comércio internacional foi restabelecido e as atividades econômicas se reanimaram de imediato. Como os demais portos do mundo, o de Santos, comandado pelos Guinle, ficou sobrecarregado e entrou em colapso. O monopólio da Companhia Docas de Santos, que os Guinle detinham, sempre fora motivo de questionamento, visto que eles haviam ganhado uma concessão de mais de noventa anos.

No pós-guerra, uma onda democrática varreu diversos países, entre eles o Brasil, pondo fim inclusive à ditadura Vargas. Nesse ambiente, seria normal esperar alguma investigação sobre o colapso no maior porto do país. Não deu outra. No Congresso Nacional foi instalada uma CPI que abriu os trabalhos em 23 de novembro de 1946. Os parlamentares visitaram as instalações portuárias e escutaram especialistas. Um deputado gaúcho, Daniel Faraco, chegou a sugerir a suspensão da concessão. Entretanto, no final, o relatório da CPI concluiu que os problemas financeiros e administrativos em Santos eram apenas conjunturais.

Foi graças ao barulho causado pela CPI que a sociedade brasileira ficou sabendo como Guilherme Guinle geria o principal negócio de sua família. Já em 1938, antes da guerra, ele previra que o porto entraria em colapso e começara a pedir ajuda. O governo não se sensibilizou. Guilherme então arregaçou as mangas e desenvolveu sozinho um ambicioso e caro projeto de ampliação das instalações portuárias.

É evidente que quanto maior fosse o porto maiores seriam os ganhos dos Guinle. No entanto, não era apenas essa ideia que movia Guilherme. Ele sempre teve claro que gerenciava um elemento estratégico para a economia brasileira. Exatamente como os empresários de seu tempo, ele olhava muito para o próprio bolso. Mas, diferentemente dos grandes empreiteiros de hoje, ele se preocupava com o país.