teste7 livros infantis com mensagens importantes

Diversas pesquisas já comprovaram a importância de ler desde a infância. O hábito amplia o vocabulário, auxilia o desenvolvimento cognitivo, aproxima pais e amigos, gera empatia e,  acima de tudo, ajuda a formar novos leitores.

Em um mundo com tantos estímulos, é difícil encontrar histórias capazes de competir com TV, videogame etc e que encantem os pequenos. Para ajudar os pais e professores, listamos sete livros ilustrados que transmitem mensagens divertidas e importantes.

A partir de 3 anos:

Somos todos extraordinários — Inspirado na história original de Extraordinário, livro que conta a vida de Auggie, um garoto com deformidade facial que vai  frequentar a escola pela primeira vez, esta obra totalmente ilustrada aborda temas importantes como inclusão, gentileza e aceitação.

Extraordinário foi adaptado para os cinemas e estreia em 23 de novembro.

 

Para crianças entre 4 a 6 anos:

Minha professora é um monstro (Não sou, não)  — Nem sempre as pessoas são o que parecem — é o que você vai descobrir nessa obra totalmente ilustrada!

Beto tem a pior professora do mundo. Ela ruge, bate o pé e deixa sem recreio as crianças que gostam de jogar aviõezinhos de papel. Ela é um monstro! Por sorte, Beto sempre tem os fins de semana para se divertir e brincar no parque. Até que um dia… ele encontra sua professora justamente em seu lugar preferido.

Peter Brown é autor também de Robô Selvagem e Sr. Tigre solto na selva 

 

Para crianças entre 6 a 10 anos:

João e MariaNeil Gaiman recria o clássico com a ajuda do brilhante ilustrador Lorenzo Mattotti.  Familiar como um sonho e perturbador como um pesadelo, o conto narra a saga de dois irmãos que, em tempos de crise e falta de esperança, são abandonados pelos próprios pais e precisam enfrentar os perigos de uma floresta sombria.

 

Para leitores a partir de 10 anos:

Pax Esse talvez seja um dos livros mais emocionantes da lista, afinal, Pax conta a história de amizade entre um menino e seu bichinho de estimação.  Peter e sua raposa, Pax, são inseparáveis desde que ele a resgatou, órfã, ainda filhote. Um dia, o inimaginável acontece: o pai do garoto vai servir na guerra e o obriga a devolver Pax à natureza. Ao chegar à distante casa do avô, onde vai morar por um tempo, Peter reconhece que não está onde deveria: seu verdadeiro lugar é ao lado de Pax.

 

Para crianças entre 10 a 14 anos:

Vovô deu no péO novo livro de David Walliams fala sobre a forte relação entre um avô e o neto.  Na história, Jack tem doze anos e sua pessoa preferida no mundo inteiro é o avô. Vovô foi piloto durante a Segunda Guerra Mundial e, até hoje, o que mais gosta de fazer é falar sobre aviação.  Só que vovô tem andado confuso e esquecido. Para evitar mais trapalhadas, os pais de Jack decidem internar vovô em um lar para idosos muito esquisito e com enfermeiras sinistras. Jack então decide embarcar na maior aventura de sua vida para salvar o avô. Emocionante e divertido ao mesmo tempo! 

 

Para leitores entre 12 a 14 anos:

Percy Jackson e os olimpianos — A mais famosa série de Rick Riordan é uma excelente maneira de começar a aprender sobre mitologia grega com muito humor e personagens divertidos! Rick foi professor de história e decidiu criar histórias para seu filho mais velho, que foi diagnosticado com Transtorno de Déficit de Atenção com Hiperatividade. Seu personagem principal, Percy Jackson, tem o mesmo problema, mas descobre que é tudo consequência de ter um deus do Olimpo como pai!

 

O menino de vestido David Walliams mostra mais uma vez a importância de respeitar as pessoas que têm gostos diferentes da gente.

Só existem duas coisas que fazem Dennis feliz: jogar futebol e ler revistas de moda. Mas sua vida so­fre uma reviravolta quando ele conhece Lisa, dois anos mais velha, que sonha ser esti­lista. Com Lisa, Dennis se permite explorar seu lado diferente sem medo que o condenem por isso. Uma história atual e necessária!

testeConheça a coletânea com doze contos de terror da aclamada Mariana Enriquez

Histórias curtas, sombrias e perturbadoras: assim são os doze contos de As coisas que perdemos no fogo, da aclamada Mariana Enriquez. Com cenas fortes que não saem da cabeça, o livro mistura terror e suspense em narrativas que parecem normais no primeiro momento, mas são macabras e emocionantes.

Na coletânea, o leitor encontra histórias sobre um menino assassino, uma garota que arranca as unhas e os cílios na sala de aula, amigos que parecem destinados à morte, mulheres violentadas que ateiam fogo em si mesmas, casas abandonadas, magia negra e sumiços inexplicáveis. Os personagens e os lugares enganam o leitor o tempo todo ao se mostrarem comuns, mas revelam o horror do cotidiano.

Os contos também abordam temas como desigualdade e violência com um forte teor político. Nascida e criada em Buenos Aires, na Argentina, Mariana Enriquez não ignora fatos do passado — como a ditadura militar no país — e o contexto local em suas obras.  

Considerada uma das principais jovens autoras contemporâneas da América Latina, Mariana vem conseguido destaque internacional. Além de As coisas que perdemos no fogo, traduzido para mais de vinte países, já publicou outros setes livros que conquistaram o público e a crítica. Veículos internacionais como New Yorker, Granta e Electrice Literature já a elegeram como uma das escritoras mais corajosas e surpreendentes da atualidade.

Em entrevistas, Mariana costuma afirmar que suas inspirações vêm de autores como Henry James, Lafcadio Hearn, Emily Brontë e Stephen King, mas também das experiências que vivencia como jornalista. Por isso suas obras mesclam elementos de horror e sobrenatural com o cotidiano.

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testeOs melhores verões da vida

 

Os verões são repletos de histórias inesquecíveis. E Aconteceu naquele verão é o livro ideal para mostrar como a estação mais quente do ano pode ser única. Seja em um cinema em vias de fechar, em um loop temporal, ou em um acampamento com os amigos, o livro mostra, em doze histórias apaixonantes de escritores queridos pelo público jovem, como Stephanie Perkins, Cassandra Clare e Veronica Roth, que o amor não escolhe hora nem lugar para acontecer.

Para listar algumas das histórias incríveis do livro, pedimos a ajuda de nossos blogueiros parceiros. Confira:

 

Amor é o último recurso – Jon Skovron

Jon Skovron criou um narrador que engana o leitor de tal maneira que, ao terminar o conto, é impossível não ficar com um sorriso no rosto.

A grande lição de “Amor é o último recurso” é destinada às pessoas que acham que o amor é baboseira, inútil, fútil, quando, na realidade, é ele o responsável por ligar tantas culturas diferentes e tornar nosso mundo e nossa existência mais fáceis de suportar. E se estar apaixonado é tolice, que sejamos tolos, “porque se formos todos tolos, talvez haja alguma sabedoria nisso que chamamos de amor”.

(Fonte: De cara nas letras)

 

Em noventa minutos, vá em direção a North – Stephanie Perkins

Marigold e North, protagonistas do conto, também aparecem em O presente do meu grande amor, e eu fiquei supercuriosa para saber o início da história desses dois. A intensidade dos sentimentos deles é cativante, e o modo como a autora consegue mostrar, pelos olhares e gestos de cada um, o quanto eles se gostam me tocou profundamente. Eu compreendi toda a insegurança de Marigold e fiquei com o coração apertado durante toda a leitura. Depois de sentir tudo o que senti ao ler esse texto, fui obrigada a colocá-lo na lista.

(Fonte: Conjunto da obra)

 

Inércia – Veronica Roth

“Inércia” se passa em um mundo distópico onde as pessoas que estão prestas a morrer têm a chance de reviver suas memórias com algum ente querido escolhido por ele. Mais especificamente, quando alguém vai passar por um procedimento cirúrgico e tem grandes chances de morrer, o paciente escolhe uma pessoa e, momentos antes da cirurgia, se conecta à ela através das memórias. Essa tecnologia é chamada de Última Visita.

Esse conto me encantou principalmente por dois motivos: o primeiro deles é a questão do pano de fundo distópico, mesmo que sendo apenas um detalhe no romance principal. Faz muito tempo que não leio distopias, mesmo sendo um dos meus gêneros favoritos. O segundo ponto é o fato de falar sobre doenças psicológicas.

Não é segredo pra ninguém que qualquer livro que traga visibilidade aos neuroatípicos entra fácil na minha lista de indicações, e esse conto é um deles. Mais uma vez me vi muito na personagem da Claire e nos conflitos que ela passou quando se descobriu depressiva, e também na aceitação que foi rolando aos poucos.

(Fonte: Poesia destilada)

 

Nova atração – Cassandra Clare

Meu conto preferido foi “Nova atração”, escrito por Cassandra Clare. Podem me julgar, mas eu nunca tinha lido nadinha dela nessa vida. E, meu Deus, que experiência maravilhosa!

A história desse conto se passa em um parque de terror itinerante, com atrações bem peculiares e uma pequena variedade de brinquedos. Nesse parque vive Lulu, filha do dono do parque. Porém, o pai dela some misteriosamente, e como o lugar estava passando por problemas financeiros, Walter, tio da jovem, passa a administrar o negócio da família. Lulu acaba se aproximando de Lucas, enteado de Walter, e juntos eles vivem as mais diversas aventuras.

O que mais gostei nessa história foi o fato de se passar em um parque de terror. Sou extremamente medrosa, mas mesmo assim eu tenho vontade de conhecer um parque desses. Além disso, Cassandra escreveu seu conto com maestria, nos mostrando que às vezes os monstros são mais reais do que a gente imagina.

 (Fonte: Procurei em sonhos)

 

O mapa das pequenas coisas perfeitas – Lev Grossman

Fechando o livro com chave de ouro, temos “O mapa das pequenas coisas perfeitas”, de Lev Grossman. Começando de maneira clichê, fazendo inclusive alusão a um dos meus filmes favoritos, Feitiço do Tempo, nesta história conhecemos Mark, um adolescente que está preso em um loop temporal em que todo dia é 4 de agosto.

Não tenho palavras para descrever esse conto, que me deu um soco no estômago. Foi golpe baixo mencionar um filme que tanto amo, e ainda por cima inserir no enredo essa busca por momentos perfeitos, que foi incrível demais. Adorei os questionamentos levantados pelos personagens sobre o que acontece no resto do mundo todo santo dia, a cada minuto, enquanto levamos a nossa vida. Além disso, eles também refletem sobre o que é possível fazer quando se tem tempo de sobra e quando as nossas ações não geram consequências. Certamente uma trama para nos fazer pensar e que irá conquistar todos vocês.

(Fonte: Recanto da Mi)

 

E você? Qual o seu conto favorito de Aconteceu naquele verão?

testeCoisas que nunca te disse

Otis Redding cantava Stand by me no volume mais alto que o nosso rádio mono permitia, Robert Redford era o homem mais lindo do mundo e eu gostava de imaginar que você se parecia com ele. Vinte e cinco anos depois, nada me parece mais distante da realidade. Talvez eu gostasse de pensar assim porque se você fosse Redford, Frank Sinatra ou Warren Beatty eu poderia ser Mia Farrow. Ou Natalie Wood. Ou Faye Dunaway.

Cortei o cabelo curtinho, igual ao da Mia, para me sentir como uma estrela de cinema. O amor é assim. Eu tinha um marido bem-sucedido, morava na Zona Sul, e agora me parece impossível entender como passei incólume pelo AI-5, pelos amigos de colégio que desapareceram, pelas marchas nas ruas. Almoço, jantar, cuidados com o filho pequeno, babá para ir ao cabeleireiro, três matérias na faculdade para me sentir útil.

Os sinais de que não éramos perfeitos eram abafados assim que surgiam. Lembro-me de ter ficado furiosa quando você me disse que Bob & Carol & Ted & Alice era uma pouca-vergonha. Acabei acreditando que estava errada, que uma esposa não deveria levar o marido para assistir a um filme como esse. Mas, quando você saiu no meio de Taxi driver, finalmente entendi. A ambiguidade o assustava.

Lutar por algo abstrato, que não virasse apartamento, carro ou casa em Petrópolis, estava além de sua compreensão. Seu irmão foi preso, exilado e, mesmo em uma situação de muito pouco risco, você negou abrigo quando ele voltou ao Brasil. Era 1978. Depois de sete anos sem vê-lo, você preferiu colocá-lo num hotel. Eu e Otávio fomos visitá-lo sozinhos.

Quanto medo: grades na janela para se proteger de bandido, secretária para filtrar as ligações, um muro de indiferença para não ter de lidar com o filho. Máscaras de realidade: jogo de golfe, almoço no Jockey Club, cigarros cubanos, vestidos caros, Bourbon doze anos, carpete novo, papel de parede com estampas florais, sorrisos falsificados, fotografias em belos cenários.

Cabem tantas palavras no espaço das coisas que eu nunca lhe disse… Mas agora que estamos próximos, aqui nesta noite quente de festa, dez anos depois da última vez que nos falamos, algo me impede. Não quero quebrar o silêncio. De uma maneira estranha, quero poupar você. Eu poderia dizer coisas horríveis sobre sua nova esposa, só que nem penso que ela seja tão ruim assim. É adequada. Parece uma boa pessoa, posso vê-la de longe, nos acompanhando. Percebo ciúme, apego e temor.

A pista de dança está vazia. Uma espécie de sineta toca. É assim que começa Under the boardwalk. Você gostava que eu lhe ensinasse inglês traduzindo essa música. Era uma das nossas músicas. Tão curtinha. Dois minutinhos só. Então você faz o inesperado e quebra o silêncio.

— Você quer dançar? — pergunta-me.

Eu estendo minha mão em sua direção. Uma canção boa é sempre boa. E dança é muito diferente de sexo: é bem mais difícil encontrar quem saiba dançar de verdade. Estamos perto dos cinquenta anos, meio gastos, e imagino por um segundo que somos astros de cinema que envelheceram bem. Não chegamos a ser Paul Newman e Joanne Woodward. Nem de longe. Mas tudo bem.

Enquanto você me conduz, sinto seus braços e entendo que nossa existência simples foi, durante um bom tempo, feliz. Porém, a vida fora das telas de Hollywood é assim: um dia, de repente, deixa de ser perfeita, de ser fácil. Os últimos acordes dessa canção, tão definitivos, me retiram dos devaneios adolescentes e me arremessam diretamente para o que sou hoje.

Eu escolhi a verdade. E, mesmo que tivesse a chance de voltar atrás, rodopiar pelo salão com você me fez compreender que alguns instantes no passado são suficientes para mim. Enfrentei as pedras e tempestades que a vida me jogou. Eu vi o mundo exatamente do jeito que ele é, feio e lindo ao mesmo tempo. É complicado, é ambíguo. Prefiro assim.

Não quero perder tempo nem explicar nada a você. Jamais me entenderia. Aceito isso também.

testeHistórias inéditas de Jojo Moyes em fevereiro!

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A Intrínseca começa 2017 com uma boa notícia: o lançamento de uma obra inédita de Jojo Moyes! Em fevereiro chega às livrarias Paris para um e outros contos, coletânea com dez histórias emocionantes da autora do best-seller Como eu era antes de você. E a nossa edição vai ser imperdível: além de uma capa exclusiva, cada conto contará com uma ilustração de abertura caprichada, seguindo o estilo das outras obras da autora.

Os contos do livro trazem histórias leves e apaixonantes, nas quais é possível desfrutar do melhor das obras de Jojo Moyes. Ela apresenta ao leitor personagens fortes e verdadeiros e insere um pouco de magia e romantismo aos seus cotidianos. Ainda há um prelúdio de A garota que você deixou para trás: no conto “Lua de mel em Paris” podemos acompanhar o início do romance de Sophie e Édouard em 1912 e, cem anos depois, de Liv e David, e então descobrimos como a história das duas personagens se entrelaça. Todos os contos criam laços românticos, formando uma coletânea irresistivelmente divertida e emocionante.

testeAs memórias afetivas de Neil Gaiman

Por Mário Feijó*

Neil Gaiman

Neil Gaiman (Fonte)

Neil Gaiman é desconcertante, às vezes incômodo. Quem o acompanha desde os anos 1980 sabe disso. Dos quadrinhos para os livros, da fantasia adulta para a literatura infantil, umas poesias aqui, uns roteiros e contos ali, lá vai Gaiman escrevendo sobre a vida, que é imensa e complicada e não dá nenhum alerta antes de nos ferir. De vez em quando, ele reúne algum material disperso, geralmente contos, e procura seu editor. Assim ganhamos Fumaça e espelhos e, depois, Coisas frágeis. Mas Alerta de risco, publicado em agosto deste ano pela Intrínseca, é melhor. E não só porque nessa antologia Gaiman resolveu mostrar toda a sua versatilidade literária… Cara, tem Doctor Who e Sherlock Holmes!
Todos têm histórias guardadas na memória. Nascemos e crescemos imersos em narrativas mesmo antes de sermos alfabetizados ou de conquistarmos autonomia como leitores. Com o tempo, fazemos releituras, reinterpretamos, permitimos dúvidas e perguntas inconvenientes sobre os personagens que conhecemos tão bem, sobre os universos que amamos. Ou seja, nossas narrativas fundamentais se transformam constantemente, desde a infância até a velhice, e essas transformações podem nos enriquecer de múltiplas formas ­– mas são perturbadoras. Assim como nossas lembranças de família.

Nesta nova antologia, o que o criador de Sandman e Coraline faz é compartilhar lembranças afetivas de suas leituras, usando o estilo precioso e preciso que tanto gosto de elogiar. Na introdução do livro, ele explica a origem de cada texto, de onde veio cada inspiração. Como ele mesmo resume, autores moram em casas construídas por outros autores.

Jack Vance, Ray Bradbury, Arthur C. Clarke, Conan Doyle… A lista de influências é ótima. Como estamos falando de Neil Gaiman, claro que os contos de fada estão lá. Malévola, Branca de Neve e Bela Adormecida habitam o mesmo mundo, em reinos vizinhos. Assim sendo, as personagens podem ultrapassar as montanhas e se encontrar. Os eventos que começam em “Respeitando as formalidades” continuam nas páginas seguintes, em “A Bela e a Adormecida”. No primeiro conto, temos o ponto de vista de Malévola sobre a ofensa recebida da família de Aurora. Esqueça que ela é uma bruxa, ou fada má; pense nela como uma de suas tias. Leia com atenção e carinho, pois isso poderá lhe poupar muitos aborrecimentos um dia desses. Lembre-se das pequenas formalidades nos batizados, casamentos, divórcios e funerais.

No conto seguinte, que se passa muito tempo depois, a maldição do sono iniciada por Malévola está se espalhando para além das fronteiras, ameaçando o reino de Branca de Neve. Por ter sobrevivido a um feitiço semelhante, ela goza de imunidade. Como boa heroína, vai com seus melhores anões cumprir o dever de uma rainha e resolver um mistério. Não se assuste com os sonâmbulos envoltos em teias de aranha; zumbis são bem piores. Essa história, aliás, está disponível em edição ilustrada por Chris Riddell. O mesmo ocorre com A verdade é uma caverna nas Montanhas Negras, com ilustrações de Eddie Campbell.

Ah, “Um calendário de contos” também faz parte desta seleção. Anos atrás, a BlackBerry convocou artistas para desenvolverem projetos multimídias em parceria com os clientes da empresa. Gaiman entrou no jogo, propondo ideias para microcontos, um para cada mês, a partir das quais os fãs elaboravam frases, que eram retomadas por Gaiman para a construção de sua narrativa. Trabalho colaborativo. Um resultado bastante interessante. E badaladíssimo nos estudos de comunicação e cultura, considerado um marco no uso das mídias sociais para a criação artística.

capa_alertaderisco_webAo mesmo tempo que faz das memórias afetivas sua base de trabalho nesta antologia, o autor não perde a oportunidade para explorar lembranças falhas, imperfeitas ou incompletas. São aquelas histórias guardadas no passado de cada um, ou porque eram segredos ou porque não houve a oportunidade certa para contar. Pode acontecer com seu pai, vide “História de aventura”. Descobrir um pai diferente daquele que você julgava conhecer mudaria sua perspectiva da vida? Nada assustador, veja bem. Ele continuaria a ser o cara legal de sempre, entretanto… Dá para imaginar que o sujeito mais pacato de todos foi um Indiana Jones? Não são os pterodátilos, os astecas ou a garota alemã (que não era alemã) que perturbam o narrador: o impacto é você descobrir que não conhecia o próprio pai, que jamais desconfiou da verdade. De repente, sua vida é uma bolha de ilusões. Os outros sabiam, você não. Uma típica sacanagem de família.

Quanto aos segredos, quanto um garoto pode revelar de verdade sobre sua primeira namorada?  Cassandra é apaixonante, um sonho. Boa demais para ser real? O único jeito de saber é lendo “Detalhes de Cassandra”. Aliás, esta é a prova de que há enredos perfeitos para narrativas curtas.

Quando estiver com Cassandra, lembre que cada um de nós percebe a realidade ao redor de maneira diferente (pois cada um possui uma vivência individual, única e exclusiva). Ainda assim, no entanto, nos esforçamos para construir uma realidade coletiva onde possamos habitar juntos ― quem sabe até ter certa sensação de bem-estar ou alguém a quem amar, alguém que possa corresponder ao nosso amor de preferência. A realidade em que estamos inseridos, portanto, é uma criação coletiva de nossas imaginações, linguagens e narrativas. Criação que começa a ser construída na primeira infância. Ou seja, sacanagens de família importam.

Família sacana é a do Shadow, protagonista do último conto da antologia e também do clássico Deuses americanos (que foi relançado em outubro deste ano, em edição preferida do autor). Se você ainda não leu o romance que mudou a trajetória de Gaiman, tudo bem. “Cão negro” tem unidade de ação, é completo em si mesmo, com início, meio e fim. Aposto que Conan Doyle e Edgar Allan Poe apreciariam, pelo equilíbrio entre mistério, terror e morte. Allan Moore, Stephen King e Clive Barker também. É a única trama inédita da antologia, escrita especialmente para fechar o livro.

Se você ainda não leu Deuses americanos, leia assim que puder. Foi uma revolução em termos de literatura fantástica e quebra de paradigmas. Para os leitores de Sandman, foi a chance de reencontrar o labirinto infinito de mitologias onde todas as divindades coexistem simultaneamente. Para quem descobriu Gaiman nesta obra, Odin e Loki ganharam muito mais significado do que a Marvel pode proporcionar. Pois é, até as famílias de Asgard são sacanas.

É por causa de “Cão negro” que sugiro, ao terminar “Alerta de risco”, aproveitar o embalo e ler (ou reler) “O barril de amontillado”, de Poe. Todo bom escritor remete a outro; estão sempre interligados de alguma maneira. Daí Gaiman fazer questão de Shadow citar Watson ao examinar as pegadas de um gigantesco cão de caça.

Tenho endereço certo em Londres: Baker Street, 221B. Assim sendo, cometi o pecado de não ler a antologia na sequência concebida pelos editores, fui direto para “Caso de morte e mel”, a versão Gaiman para Sherlock Holmes. Foi inevitável imaginar o hilário diálogo entre Mycroft e Sherlock interpretado pelos atores Mark Gatiss e Benedict Cumberbatch. Foi gratificante embarcar na pergunta fundamental: por que Holmes dedicou sua velhice à apicultura? Por que mel seria algo tão importante? Aqui cabe meu próprio alerta: quem leu O último adeus de Sherlock Holmes (His last bow) conhece o desfecho dado por Doyle para a vida de desafios de seu detetive. Gaiman, portanto, começa de onde o cânone parou. Entretanto, aqueles que leram apenas as primeiras aventuras, ou as mais famosas, talvez se surpreendam com as premissas usadas em “Caso de morte e mel”. Desnecessário. Deixem para se surpreender no final.

Gaiman nos bastidores da série britânica Doctor Who (Fonte)

Quanto ao nosso longevo Doutor Who, este é o décimo primeiro, aquele que foi interpretado por Matt Smith. O autor faz questão de definir em qual momento exato da cronologia do Senhor do Tempo seu conto é ambientado. Como fã desde menino da série da BBC e, mais tarde, um de seus roteiristas, Neil estava em casa, na boa — e se divertindo —, ao escrever “Hora nenhuma”. Embarque na TARDIS, pois é hora de salvar o continuum. Mesmo quem não é britânico ou fã de ficção científica vai curtir a viagem.

Sim, Gaiman é desconcertante, por mexer tanto em memórias e famílias; é incômodo quando perturba nossos afetos, questiona o que sabemos sobre as pessoas que amamos – vivas ou mortas. Mesmo assim, ele nos faz querer confiar, querer acreditar. Viver não é mera existência, embora alguns precisem estar no limite, ou diante do sobrenatural, para entender isso. A vida pede sentido e propósito, o que garante bastante complicação para qualquer um de nós. Para isso, é preciso escolher o que lembrar ou o que esquecer. Eis um dilema fundamental, que fica cada vez mais evidente ao longo da jornada. A literatura de Gaiman pode ser excelente companheira e conselheira, mas não espere encontrar nela um lugar seguro.

 

* Mário Feijó é doutor em Letras e professor da Escola de Comunicação da UFRJ, onde ministra a disciplina complementar “Gaiman: do terror ao infantil”.

testeTrecho de Contos peculiares

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As histórias que as crianças peculiares escutavam da srta. Peregrine, as pistas para a localização das fendas temporais, o livro dentro dos livros. Contos peculiares, coleção inédita de contos e fábulas independentes relacionadas à série O lar da srta. Peregrine para crianças peculiares, chega às livrarias a partir de 03 de setembro.

Com belas ilustrações do artista Andrew Davidson, em estilo de xilogravura, a obra traz um complemento para a trilogia de Ransom Riggs. Compilado por Millard Nullings, o menino invisível acolhido no lar da srta. Peregrine, o livro inclui contos sobre um garoto que vira gafanhoto, a primeira ymbryne, uma princesa com língua de cobra à procura de um príncipe com quem se casar, canibais ricos que comem braços e pernas de peculiares, entre outros personagens que povoam o imaginário dos peculiares.

ContosPeculiares_MAINLeia um trecho:

“Se você é da classe dos peculiares (e, se leu até aqui, espero, sinceramente, que seja), então este livro não necessita apresentação. Estas histórias provavelmente foram uma parte muito importante e querida de sua formação, e, enquanto crescia, você as leu ou as ouviu serem contadas com tanta frequência que poderia recitar as suas preferidas palavra por palavra. Se, entretanto, você está entre aqueles que tiveram a infelicidade de descobrir sua peculiaridade há pouco tempo ou de crescer em circunstâncias em que não havia literatura peculiar disponível, ofereço este breve compêndio.

 Contos peculiares é uma coletânea de nosso folclore mais estimado. Passadas de geração em geração desde tempos imemoriais, as narrativas são, além de históricas, parte conto de fadas e parte ensinamentos morais destinadas a jovens peculiares. Procedem de partes diversas do globo, de tradições tanto orais quanto escritas, e passaram por transformações surpreendentes ao longo dos anos. Sobreviveram por todo esse tempo porque são amadas por seus méritos como histórias, mas não apenas por isso. São portadoras de um conhecimento secreto. Codificadas nestas páginas estão as localizações de fendas ocultas, a identidade secreta de certos peculiares importantes e outras informações úteis para a sobrevivência de um peculiar neste mundo hostil.

Sei disso por minha própria experiência: é graças aos Contos que hoje estou vivo para escrever estas histórias. Eles preservaram não apenas minha vida, mas também a de meus amigos e de nossa querida ymbryne. Eu, Millard Nullings, sou prova viva da perene utilidade destas histórias, embora tenham sido escritas muito tempo atrás.

Por isso é que me dediquei a sua preservação e disseminação, assumindo a tarefa de organizar e comentar esta edição especial dos Contos. Não é de maneira alguma integral e definitiva (a edição que cresci lendo era um calhamaço de três volumes que, juntos, pesavam mais que minha amiga Bronwyn), mas contém minhas histórias preferidas, e tomei a liberdade de incluir notas com informações históricas e contextualizadas, para que peculiares de toda parte possam se beneficiar do meu conhecimento. Também tenho a esperança de que esta edição, por ser mais concisa que as anteriores, se torne uma companheira fácil em suas viagens e aventuras, desse modo se revelando tão útil para você como foi para mim.

Então, por favor, aproveite estes Contos — de preferência, diante de um fogo crepitante em uma noite fria, com um urxinim roncando a seus pés —, mas lembre-se do caráter delicado de seu conteúdo, e, se for lê-los em voz alta (coisa que recomendo fortemente), que seja para um público de peculiares.” [Leia +]

                                                                                                  Millard Nullings

                                                                                                Fidalgo Escudeiro

testeUma nova vida, depois do túnel

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Otávio acordou naquele dia com o claro entendimento a respeito de algo que todo o resto do mundo já sabia. Nenhum astro de cinema interpretaria a história de sua vida, sua vida não daria um livro, ele jamais ouviria um estádio aplaudindo seu talento para a dança, a música ou os esportes. Queria tempo, mas oitenta anos não parecia ser bastante, cento e vinte também parecia pouco para entrar para a história. Almejava desesperadamente ser lembrado.

Tempo é relativo. Quanto é suficiente para dançar todas as danças que queremos, ouvir todas as músicas que ninguém sequer cantou, comemorar novos anos sem sentido? Parecia impotente, pequeno, como se as grandes expectativas que sempre tivera em torno de si mesmo fossem só ilusão. Carregava um orgulho que desarmava qualquer um que quisesse lhe dizer o contrário. E agora lutava para mantê-lo.

Toda a empáfia e confiança eram, na realidade, fachada para o medo. Ali, no escuro do seu quarto, o sol de meio-dia do Rio de Janeiro espalhando câncer de pele lá fora, percebeu que o tempo se esvaía e um assunto esquecido, dado por terminado, não lhe saía da cabeça. Jurara que, toda vez que pensasse no pai, imediatamente afastaria a imagem de Roberto da cabeça. Comeria um brigadeiro, escreveria um poema, assistiria a um desenho animado. Funcionou por cinco anos.

Mas hoje, não. Tinha coisas a resolver; tempo era um bem precioso e ele dispunha de muito para si. Não fora difícil descobrir o endereço novo de Roberto, sabia que era na Barra. Odiaria atravessar aquele túnel, ainda mais naquele calor. Com a informação do bairro, foi fácil enganar a secretária do advogado que lidava com o divórcio para obter a informação de que precisava. Fazendo-se passar pelo pai, exigiu que a moça recitasse o endereço completo, com CEP, alegando que os documentos estavam indo parar na casa de sua ex-mulher, em Laranjeiras.

Nesses cinco anos, a mãe de Otávio evitava falar de Roberto. Não fazia isso como as mulheres de Isabel Allende; não havia feito uma promessa tácita de jamais dizer o nome dele novamente. As tragédias que Selma enfrentava não se transformavam em um estilo de vida, uma convicção. Ao descer do ônibus, já na Barra, Otávio não teve dificuldade em encontrar a nova casa do pai. O edifício onde ele morava era alto, de fartas janelas, eram apartamentos espaçosos para famílias numerosas.

Não demorou muito para Roberto sair acompanhado de duas crianças, meninos de uns dez, onze anos. Foi tão fácil que Otávio riu. Não eram filhos biológicos dele, isso dava para ver, o pai não mantivera uma segunda família em segredo. Eram loiros, possivelmente filhos do primeiro casamento de sua nova esposa. Depois do túnel, Roberto fora transferido a uma nova dimensão. Calçadas largas, prédio com piscina, garotos saudáveis sempre pedindo um sorvete.

Os meninos circulavam de bicicleta, com a ordem de jamais irem além do posto de praia, onde podiam ser avistados por Roberto. Obedeciam, e ele gostava disso, apreciava ser ouvido. Pareciam ser a antítese de Otávio, que sempre vinha com uma pergunta, uma questão, uma urgência. Mas o pai não bateu em retirada ao ver o filho de vinte e poucos anos chegando. Não se moveu.

Otávio sentou-se na ponta oposta do banco de praia. Entre ele e Roberto, duas pessoas poderiam se sentar, um tanto apertadas, se assim quisessem. Roberto olhou o filho, estava ainda mais parecido com ele próprio. Tinha uma fragilidade ali que ele não conseguia explicar, como uma estrutura forte com rachaduras. Olhos pequeninos, negros. Talvez um dia ele também terá de usar remédio para calvície, pensou. Via-se como num espelho distorcido, um reflexo esquisito.

O filho entendeu que o pai seguira adiante na vida e percebeu que, embora tenha negado a existência de Roberto por tanto tempo, agora precisava dele por perto. Queria ouvir os conselhos que ignorara ou, pelo menos, ter a coragem de dizer alguma coisa. Sentia ciúme dos garotos saudáveis, obedientes e estudiosos que pedalavam felizes de um lado para o outro. Guardava um sentimento de posse que jamais associara ao pai.

Estava em desvantagem. Otávio, que sempre tinha algo a dizer, uma piada na ponta da língua, via-se em silêncio. Sobre aquele retrato perfeito da família carioca, possuía apenas uma vantagem. Apenas uma. Algo imutável, inquestionável, único, verdadeiro e também belo: os dois sentavam-se exatamente na mesma posição, com as mesmas mãos peludas, a mesma cabeça redonda.

E nada diziam. Roberto estava um tanto surpreso de Otávio ter desenvolvido a capacidade de apreciar o silêncio, de calar-se quando não se precisa falar nada. Por uns segundos, gostou da companhia para ouvir o barulho do mar e do trânsito. Antes de levantar-se, o filho finalmente chegou um pouco mais perto e teve a coragem de dar o primeiro passo.

— Eu sou seu filho.

Então levantou-se e foi até o ponto de ônibus, que não ficava muito distante. Olhou para ele, de longe. E entrou no primeiro coletivo que passou.

Roberto quis levantar-se, dizer algo. Mas nada fez.

 

>> Leia um trecho de O amor segundo Buenos Aires

testeNo saguão do aeroporto, um homem carrega um livro

O livro que ele carrega capta minha atenção no saguão de bagagens. A capa está ali, vermelha, como não via há anos. Será que ele encontrou essa edição antiga no fundo de um baú, perdida em meio a memórias do passado? Me pergunto se ele lê a história pela primeira vez, mas vejo o aspecto meio gasto de seu exemplar e me convenço de que se trata de um reencontro.

Ele agarra sua mala na esteira mantendo o livro bem seguro em uma das mãos, como se este fosse um ponto que lhe mantivesse o equilíbrio. Aos poucos relembro a trama do romance, um tênue fio narrativo esquecido por décadas. Um amor perdido, um homem revisitando sem parar um momento do passado. Tentando, em vão, mudar um desfecho já definido.

Não consigo tirar os olhos das mãos dele, não posso. Me pergunto se ele percebe o efeito que aquele livro tem sobre mim. Por que ele resolveu tirar a poeira dessa história justamente agora? Estaria, ele próprio, pensando em um amor do passado? Teria vindo aqui para retomá-lo ou apenas fitá-lo de longe, como o personagem principal da narrativa?

Ele se afasta e, ao mesmo tempo que o acompanho de longe, vejo que minha bagagem se aproxima na esteira. Temos mais ou menos a mesma idade, então é impossível que este seja seu primeiro contato com este livro antigo. Não me lembro de uma edição mais recente. O personagem passeia por um parque de diversões decadente numa cidadezinha que quase sumiu do mapa após o fechamento de uma fábrica.

Decido segui-lo. Ele passa, calmo, pela multidão que espera entes queridos no aeroporto. É algo comum nesse período de férias de inverno: cartazes ora espirituosos, ora cafonas, pais que esperam filhos, filhos que esperam pais, amigos que consolam amigos, um namoro recente que se consolida. Livro na mão, ele desvia, um ponto dissonante nessa confluência de alegrias. Busca algo que parece inalcançável, como nosso protagonista.

Encaminha-se para a fila de táxis e eu vou atrás. Não sei como vou descobrir seu destino, não tenho como adivinhar aonde esse desconhecido vai. Todos os táxis são iguais, e quando ele entrar em um deles minha busca chegará ao fim. Quero  segui-lo só mais um pouco. Um relâmpago cruza o céu. O protagonista avista, no parque de diversões, seu amor de infância, a tempo de vê-la abraçar um tipo parecido com Stanley Kowalski. Seu marido?

Sem aviso prévio, aquele desconhecido sai da fila de táxi e  volta ao saguão, livro ainda em punho. Tenho de me apressar para não perdê-lo de vista. Perto, mas não perto demais, consigo vê-lo perfeitamente. Alto, delgado, elegante, ele pousa a mala de couro no chão. Agacha-se para reforçar o laço do cadarço dos sapatos.

Pousa o livro com calma também no chão antes de levantar-se devagar. Casual, como o herói que recheia as páginas com oportunidades nunca levadas a cabo – em frente à banca de tiro ao alvo, seu antigo amor, agora mulher feita e loura platinada, parece olhá-lo com curiosidade. Ele, porém, não reúne forças para dizer algo. Naquele saguão cheio de gente impaciente, o livro fica ali, solitário, no meio do caminho. Corro para resgatá-lo.

Chego mais perto e fico ao lado daquele ponto de vermelho de capa dura, perto o bastante para evitar que as pessoas o pisoteiem. Lembro-me de uma passagem, já próxima do fim, em que aquele tipo infeliz se encanta com as cores das lâmpadas da roda-gigante e se emociona com o tímido show de fogos que o parque realiza pouco antes da hora do fechamento.

O dono do livro, já próximo à porta de saída, vira-se e olha diretamente para mim. Ele sorri. Acho-o bonito, mas não como a maioria das pessoas. Sai pela porta de vidro e, pelo lado de fora, começa a fazer o caminho de volta para o fim da fila dos táxis. Eu me ajoelho devagar e sinto o calor das mãos dele no – agora meu – exemplar.

Folheio rapidamente, como se naquelas palavras conhecidas residisse um segredo. Permaneço um bom tempo na mesma posição e percebo três passagens sublinhadas. Atitudes que o herói se propõe a tomar e não consegue. “Tudo o que você pensar, faça o contrário.” “Telefone para a primeira pessoa que lhe vier à mente.” “O que você faria se um estranho lhe pedisse ajuda com os olhos?”

 

testeUm milhão de beijos perdidos

Ela chegou, sorrateira e bela, para me encontrar. Flutuou pelo quarto, em zigue-zague, sem se impor, mas fazendo-se notar. Suas vestes eram escuras, pesadas. Mesmo assim, mostrava leveza ao andar.

Ela sempre sabe a hora, só existe a hora certa. E ainda não era a hora, era quase a hora. Entendia bem a arte de esperar. Encontro marcado, muitos encontros marcados, e cada compromisso tinha o tempo exato para se concretizar.

Há quem nunca pense nela, há quem pense nela o tempo todo e, numa prova de deselegância, faça-a chegar abrupta e sem se preparar. Agora que a vejo de perto, cada vez mais perto, tento, em vão, decifrar seus contornos. Quero me lembrar.

A essa dama muito sábia é impossível enganar. Não tolera atrasos. Por vontade própria ou pelo mais completo acaso, encontros como este podem até se adiantar, porém nunca – repito: nunca – se adiar.

Para mim, foi sempre como se ela nunca existisse, admito que sempre a ignorei, nela jamais pensei. Eu e tantos outros somos assim. Nos últimos tempos, soube que estava próxima. No entanto, apesar de tudo, de toda a dor, não ansiei por sua presença.

Eis que ela chegou. E veio a caráter, pois é dia de festa. Não tem pausa, não tem feriado, faz o que manda o seu relógio pontual. Que bom, os fogos já começaram, vejo as luzes cor-de-rosa pela janela. Inácio ganhou a aposta. Disse que eu veria o Ano-Novo.

Ele olha para mim e diz alguma coisa. Seu hálito é doce. Cheira a bala soft de caramelo, aquela bem grudenta, e milk-shake do Bob’s. Inácio prometeu-me um milhão de beijos se eu ficasse. O único homem desta cidade que nunca beijei, o amor da minha vida.

Inácio, que sempre foi menino, agora se tornou homem. Sorte que o garoto de olhos grandes, ainda bem, insiste em fazer seu retorno, justamente agora. Ele se encanta com as cores do foguetório da orla, se distrai.

O som dos fogos fica, para mim, cada vez mais distante. Ela se levanta, sai de seu canto e se aproxima. Quero resistir só um pouco, porém tenho medo de que me leve de repente. Não quero ser teimoso, quero me render, ir em paz.

Os estouros lembram-me da infância, pipoca que arrebenta na panela. Os primeiros minutos do ano explodem como derradeiros grãos de milho que insistem em se metamorfosear mesmo depois que a panela já saiu do fogo.

Não estarei aqui para ouvir o aparelho que monitora meus batimentos cardíacos mostrar um traço e apitar. Não poderei consolar Inácio em seu desespero. Não verei os enfermeiros correrem quarto adentro e, inerte, não lhes darei chance de me ressuscitar.

Oba, outra pipoca estourou. Acho que é a última. Que privilégio, mais um segundo para mim. De vida. E mais outro. Então ela toca meu braço e vejo seu rosto. Estende-me a mão e eu aceito. Seus olhos são vazios, tristes, mas estranhamente compassivos.