testeUma jornalista sem palavras

Confesso que, depois de escrever Todo dia a mesma noite, senti medo. Não sabia qual seria a receptividade do livro. Tive receio dos julgamentos, apesar de estar muito convicta do trabalho que tinha feito e de tudo que vivenciei no processo de apuração para escrever esta obra. Agora, vendo o livro ganhar o país e o coração dos leitores, me sinto imensamente confortada ao perceber que a leitura está provocando uma profunda reflexão sobre a forma de nos relacionarmos com o outro. Sobre o livro, Samuel Lima, professor da Faculdade de Jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina, me escreveu:

“Dani, querida, li em dois dias, fazendo pausa em alguns capítulos. Acabei há pouco, na realidade, comovido e profundamente tocado pelo que transborda de humanidade da sua narrativa arrebatadora! (…) Quero te dizer que o resgate do drama humano, com detalhes novos e entrevistas inéditas com personagens fundamentais para recontar a tragédia da Kiss (caso da equipe médica e outras fontes que só falaram com você), é também um baita resgate do jornalismo como forma social de conhecimento (…) Sua obra é prova viva de um jornalismo cujo alcance social e histórico transcende a fugacidade do presente!”

A mensagem de Samuca, como Samuel é conhecido por seus alunos, está entre as centenas de textos tocantes enviados para o meu e-mail ou pelo Facebook. Como a do médico gaúcho que, mesmo lidando diariamente com o sofrimento humano, se diz tocado pela narrativa:

“Mesmo passando grande parte do meu tempo dentro de um hospital, vendo o sofrimento dos pacientes, por várias vezes não consegui conter as lágrimas enquanto lia Todo dia a mesma noite. Teu livro me fez pensar na minha profissão, no meu papel de filho, no meu futuro papel de pai, nas vítimas e sobretudo no sofrimento sem fim daqueles que hoje carecem de algum filho, pai ou mãe que se foi de forma inesperada. Me fez pensar nas minhas relações diárias e o quanto somos passageiros nesse mundo, o quanto os problemas que consideramos o ‘fim do mundo’ são simples e facilmente resolvíveis. Me fez sentir saudade dos meus pais que estão em Pelotas. Me fez pensar o quanto já devem ter sofrido quando eu, ainda adolescente, saía para boates; o quanto o trabalho de pai é sem dúvida o mais difícil e desgastante que alguém pode ter, mas também o melhor. Que este livro possa relembrar a todos que 242 vítimas não podem ser esquecidas.”

Quando lancei a obra em Santa Maria, diante de um teatro lotado e emocionado, pude perceber que o livro cumpre um papel importante que vai além de suas páginas. Ver os pais se encontrando com os socorristas do Samu e estes confraternizando com os profissionais de saúde mental que, por sua vez, abraçaram os médicos do Exército e os enfermeiros da Brigada Militar me reconfortou. Me deu a certeza de que a história não contada da boate Kiss precisava ser narrada. Não só porque esses 242 filhos do Brasil precisam ser conhecidos e lembrados, mas porque precisamos reencontrar a nossa humanidade. 

Lá no Rio Grande do Sul, ao me despedir de Silvio Beuren, um pai marcado pela ausência do filho, ouvi dele a frase que carregarei para sempre na memória:

 — Guria, saiba que você tem um lar em Santa Maria!

  Dizer obrigada é muito pouco. Às vezes, até uma jornalista fica sem palavras…

testeDo Hippopotamus ao museu

Zózimo Barrozo do Amaral (1941-1997) era um homem do mundo, onze entradas em Paris carimbadas no passaporte apenas em 1989, e sempre com visitas obrigatórias a museus tradicionais e galerias contemporâneas.

Durante vinte anos, entre 1965 e 1985, ele foi casado com Márcia Barrozo, artista plástica conceituada pela crítica, marchand e dona de galeria de arte contemporânea. Enfim, Zózimo era um homem cercado de cultura e gostava disso — mas seu sorriso sobre todos os valores consagrados era incorrigível.

Cético radical, debochava de qualquer pose e grandiloquência. Ficaria com certeza muito surpreso ao saber que sua vida e obra serão tema de uma exposição no fim de 2018 no Museu Histórico Nacional, no Rio de Janeiro. Aquele mesmo, o da Praça XV, com uma monumental coleção de carruagens do Segundo Império, canhões da Guerra do Paraguai e toda sorte de documentação sobre esses nossos 517 anos de fuzarca. Usando o bordão que dava a senha para a gargalhada, ele próprio diria: “E o Zózimo, hein? Quem diria. Do Jornal do Brasil para a História do Brasil.”

A exposição levará para os salões do MHN a história do jornalismo no Rio, principalmente a evolução do colunismo social, nicho que Zózimo consolidou a partir de 1969, no Jornal do Brasil, e que, graças a seu estilo refinado, tornou-se um dos pontos mais importantes de leitura na imprensa nacional. No início, o jornalista trabalhava numa redação basicamente masculina — máquinas de escrever, telefones tocando e vozes de repórteres precisando ser aumentadas para sobressair na algaravia. Uma barulheira de esquina de Copacabana, com direito a fumaceira liberada pelos cigarros. Depois Zózimo pegou a redação digitalizada, mais silenciosa, com cigarro proibido e a presença feminina predominando.

Através das notinhas da coluna de Zózimo é possível contar, com bom humor, a história do Rio de Janeiro na última metade do século XX — e este será o foco da exposição. Zózimo era um carioca sem preconceitos. Educado e charmoso dentro de um black tie nos salões de Carmen Mayrink Veiga, transformava-se num rubro-negro fanático no Maracanã — a ponto de seu advogado ter perdido a conta do número de vezes em que precisou ir à delegacia para tirá-lo das consequências de alguma briga com torcedor rival.

Zózimo era um “rato” do Rio. Saía da boemia intelectual do Antonio’s, no Leblon, direto para os inferninhos de sexo ao vivo na rua Duvivier, em Copacabana. Zózimo divertia-se à grande onde quer que fosse. Frequentava o Posto 9, a pista do Hippopotamus. Quem diria, hein? Acabou no museu.

testeVencer é possível

Adriano na comunidade em que nasceu, no Guarujá/SP (Fonte)

A trajetória de Adriano de Souza, contada em Como se tornar um campeão, começou numa favela do Guarujá, longe da praia. A mudança, no entanto, se iniciou cedo, quando ele teve acesso a uma prancha de surfe pela primeira vez e percebeu que seu futuro estaria para sempre ligado às ondas. Adriano pôs na cabeça — não como uma cisma infantil, e sim com a determinação de empregar todos os esforços possíveis — que um dia seria campeão mundial e inventou o próprio caminho. Foi descobrindo, desde os oito anos, que para alcançar seu objetivo precisaria unir obstinação, disciplina, paixão, foco, humildade e ousadia. Juntou todas essas qualidades e mais algumas.

Este aprendizado — que transformou dor em estímulo, precariedade em força e preconceito em superação — faz da vida do atleta uma lição para todos que têm um sonho e pretendem transformá-lo em realidade: aprenda com os melhores, dedique-se mais do que eles, não se abata com suas fragilidades e retire dos preconceitos a força necessária para combatê-los. Não é um caminho fácil, mas a vida de Adriano — menino pobre que é líder de uma geração de surfistas e conquistou o mundo nas ondas de Pipeline, no Havaí — mostra que é possível.

Na infância, ele acumulou vitórias em torneios amadores disputados no Brasil. Aos catorze anos, ganhou seu primeiro prêmio significativo ao vencer uma etapa do Circuito Brasileiro Profissional, no Rio. A ideia era ganhar experiência competindo com adultos mais experientes. O espírito competitivo, uma de suas marcas registradas, porém, fez com que saísse da praia com o título de campeão, uma moto novinha e 4 mil reais em dinheiro — algo equivalente a 12 mil reais em valores atuais, corrigidos pelo IGP-M. A vitória lhe deu a certeza de que poderia ser um surfista bem-sucedido e lhe permitiu dar a entrada numa casa fora da favela para os pais.

 Adriano ganhou fama quando venceu, aos dezesseis anos, o mundial júnior na Austrália. Dois anos depois, conquistou uma vaga na elite. Uma década mais tarde realizou o sonho de sua vida.

Como se tornar um campeão não é um livro só para surfistas ou aficionados do esporte. A improvável vida de Adriano demonstra que é possível agarrar uma oportunidade — no caso dele, uma prancha de surfe — e reinventar o destino. Como ele diz: “A luta pode ser difícil, mas vencer é possível.”

testeNo fundo, somos apenas pais que sofrem e amam

A ONU estabeleceu 2 de abril como o Dia Mundial da Conscientização do Autismo. É uma data em que parentes de pessoas com autismo, terapeutas e interessados fazem campanhas informativas e caminhadas para tornar mais público o tema. Não foi diferente em 2017, principalmente porque caiu num domingo. Foi o início de uma semana de muitas atividades.

Como conto em Meu menino vadio: histórias de um garoto autista e seu pai estranho, sempre admirei a militância a distância, mas nunca consegui me engajar, por timidez e dificuldades de socialização — características afins ao meu filho Henrique, mas com as quais não o ajudo muito.

Não recusei, porém, o convite para participar, no dia 3, de uma mesa na abertura dos eventos da Semana de Conscientização do Autismo realizados pelo Centro Cultural Banco do Brasil no Rio de Janeiro. A instituição tem um ótimo e constante trabalho na área. Participaram duas respeitadas terapeutas ligadas ao método Floortime, Adriana Fernandes e Roberta Caminha, e a atriz Tatiana Henrique, mãe de Apolo. Ele estava no auditório, muito educado e afetuoso.

Depois da fala comovente e contundente de Tatiana, desmoronei. Não consegui me expressar direito, chorei, fui alguém diferente do narrador um tanto cruel que aparece no livro — que é pouco afeito a sentimentalismos, embora emotivo em vários momentos.

Relato isso para dizer que, no fundo do jornalista, do autor de livros, do entrevistado sobre autismo, está o pai inseguro, que quer o melhor para o filho, mas não tem as respostas. É uma procura permanente, com algumas alegrias, mas sofrida.

Ouvindo Tatiana e olhando nos olhos de outros pais e mães que estavam na plateia, senti um misto de proteção e desalento que derreteu minha falsa carcaça de durão. Cada um lida do seu jeito com os autistas que amamos — escrevendo, militando, cuidando. Embora por vezes pareçamos fortes, somos vulneráveis e precisamos de ajuda.

Tentarei estar mais próximo de pessoas que vivem situações semelhantes à minha. Seria bom que muito mais gente se apegasse ao assunto e trabalhasse para um mundo mais tolerante e acolhedor para os autistas. Nossos filhos, e os que ainda virão, merecem.

testePais, autismo e livros, muitos livros

Como os títulos de todos os capítulos de Meu menino vadio: a história de um garoto autista e seu pai estranho são citações de canções brasileiras, pensei escrever um que se chamasse O muito que eu li, o pouco que eu sei. O verso é da música “Mensagem de amor”, de Herbert Vianna. Não escrevi.

O título seria exagerado, pois não li tanto assim sobre autismo. Aliás, li bem menos do que deveria. Fiz, no entanto, o mesmo que muitos pais após receberem o diagnóstico: fui caçando informação às cegas na internet e comprando livros só pelo título — não importava se a abordagem fosse psicanalítica, comportamental ou mesmo espírita.

Caí em muitas arapucas, mas encontrei obras que se mostraram fundamentais para eu começar a entender meu filho. Entre elas, estão Uma menina estranha, autobiografia de Temple Grandin; dois de Oliver Sacks nos quais há capítulos sobre autismo, Um antropólogo em Marte e O homem que confundiu sua mulher com um chapéu; e o romance O estranho caso do cachorro morto, de Mark Haddon.

Por vezes, deparei com livros otimistas demais — ao menos para meu gosto —, como Brilhante, de Kristine Barnett; ou pessimistas demais — até para meu gosto —, como Sinto-me só, de Karl Taro Greenfeld.

Depois de alguns anos, bateu cansaço. Eu andava sem esperanças de ler algo que voltasse a me sacudir quando, em 2015, recebi a indicação de Cartas de Beirute, de Ana Nunes. Trata-se de um livro que influenciou decisivamente o Meu menino vadio. Além dele, claro, há Longe da árvore, de Andrew Solomon, obra monumental que tem um dos capítulos dedicado ao autismo.

Faço, sem constrangimento, propaganda de dois títulos da Intrínseca. O que me faz pular, do adolescente japonês Naoki Higashida, é um relato pungente produzido com a ajuda de um alfabeto de papelão. Aonde a gente vai, papai? é um livrinho repleto de sarcasmo escrito pelo francês Jean-Louis Fournier, pai de dois meninos com deficiência.

Para quem está no início da jornada, recomendo que, antes de estourar o cartão de crédito comprando tudo o que aparecer, faça duas coisas: respire e peça orientação. Ler muito é importante sempre, mas ler bons livros é mais importante ainda. Do pouco que li, é o muito que sei.

testeEu vou usar óculos

Meu pai usa óculos. Como uma porção de coisas faz parte do show de Cazuza, os óculos fazem parte do charme do meu pai. Ele fica com aquele jeito sou-inteligente-porém-desleixado-que-você-respeita.

Minha mãe, míope. Não tenho nenhuma lembrança dela sem suas lentes enfeitando o momento da leitura. As grandes armações também estão nas fotos antigas, em preto e branco, nas quais ela aparece riponga — claro, de óculos. O modelo vai mudando com o passar dos anos, mas ele está sempre lá.

Minha irmã mais nova usa óculos. Como é pianista, fica sempre com aquele ar de superioridade quando os põe para, veja bem, ler partituras.

Não sei ler partituras.

Mal aprendi a ler uma cifra quando tentei, sozinha, aprender violão.

Os oito anos que me separam da minha irmã e que deveriam me trazer sabedoria se apagam quando ela põe aquele ar intelectual no rosto.

Todos os meus avós usam óculos. Amigos, amigas, Harry, todos.

Menos eu.

E eu nunca soube lidar muito bem com essa fatalidade.

Na infância desejamos coisas estranhas, de fato. Quebrar o braço para usar gesso e tê-lo assinado pelos coleguinhas: sinal de popularidade.

Tem também o desejo de usar aparelho. Essa vontade nunca entendi e até hoje não compreendo, mas me lembro de pegar tiras de papel alumínio, enrolar, colocar na frente dos dentes e passar horas diante do espelho admirando o resultado.

Todos esses desejos foram a típica vontade que “dá e passa”. Realmente, tudo passou, menos meu gosto pelos óculos. Nunca me conformei com o fato de não precisar deles e achava que deveria haver algum engano aí.

Quantas oftalmologistas já marquei! E em todas as consultas eu cogitava mentir sobre as letrinhas miúdas que enxergava sem um pingo de dificuldade. Mas meus escrúpulos me permitiam, no máximo, hesitar antes de dar a resposta certa, por uma questão de dignidade por estar ali tomando o tempo da moça.

Minha vista sempre foi perfeita. Impecável. E assim segui adiante.

Até semana passada.

Nos últimos meses sentia dores de cabeça, olhos queimando, doendo e dificuldade para ver coisas miúdas. Marco a oftalmologista e ela me diz: “Você precisa de óculos.”

Realização.

Envio mensagens para os grupos com minha frase tão esperada para ser escrita “Vou usar óculos” e saio em busca deles. Confesso, foi difícil. Ao contrário dos óculos de sol, esses precisam ficar o tempo todo no rosto, ou seja, viram praticamente uma parte de você.

Depois de uns dias em busca de qual seria finalmente o meu, vejo, de repente, ainda mais pessoas usando as lentes corretoras de mundo ao meu redor. Parece que os míopes se multiplicaram, e se antes eu achava que todos precisavam de óculos, esse número dobrou — claro, porque passei a prestar mais atenção.

Lembrei-me, então, de uma criança de uns cinco anos que conheci numa biblioteca de uma comunidade carente a que fui, no Recife, como escritora convidada. Ela me perguntou:

— O que é preciso para ser poeta?

Fiquei pensando no que responder para que ela compreendesse:

— Você precisa usar os óculos mágicos do poeta.

— Óculos mágicos?

— Sim. Primeiro você imagina que ele existe, e magicamente ele vai existir em seus olhos. Quando você coloca esses óculos, não enxerga mais com os olhos, mas com o coração.

— Como assim?

— O coração é a casa do amor no corpo. Quando você se lembrar de usar esses óculos, vai ver o mundo diferente. Vai ver a poesia que está escondida nas pessoas, nas coisas, porque ela está em todos os lugares, mas a gente não enxerga.

Saí de lá pensando nesses tais óculos, depois me esqueci deles. Afinal, eles foram apenas uma pequena metáfora para crianças. Acontece que esses dias, passando por tantas óticas, eles me voltaram à lembrança.

Tantos míopes de sentido no mundo, meu Deus! Todos, todos precisam de óculos. Inclusive eu.

Deixamos de enxergar a poesia das coisas, de usar a propriedade fundamental das lentes para a vida: corrigir as falhas no mundo.

Uma vez, lendo um livro do Jostein Gaarder, vi a frase: “Tudo o que precisamos para ser bons filósofos é a capacidade de nos maravilharmos com as coisas.” Ele explica que crianças são capazes de se impressionar com o fato de que estamos agora, neste momento, flutuando no espaço, e nós, velhos — por dentro, na minha opinião —, nos acostumamos com o extraordinário.

Em outras palavras: precisamos usar óculos porque estamos ficando cegos, ceguetas, não somos capazes de ver o que eu disse para aquela criança — a poesia escondida nas coisas. Ou a injustiça gritante em outras, o que consegue ser ainda mais sério.

Às vezes acho que a vista das pessoas é monotemática: si mesmo, si mesmo, si mesmo. Existe alguma doença que nos deixa “monovisionários”?

Sim. Creio que sim.

Andamos olhando para baixo: nossos celulares, nossos próprios passos, nosso umbigo. Ninguém se lembra de olhar o céu ou se sustenta nos olhos de alguém sem desviar-se.

Um amigo estava numa livraria dia desses e percebeu que dezenas de livros falam sobre se lembrar de respirar, parar, ouvir.

O essencial, o básico, virou desconhecimento, ficou invisível, embaçado e turvo. Estamos no escuro?

Voltando aos filósofos da história, eles eram filósofos porque simplesmente observavam. Observavam a natureza, os astros, as pessoas e os mistérios da vida.

Precisados estamos de oftalmologistas que receitem colírios de maravilhamento três vezes ao dia, lentes — não descartáveis — de empatia e que, por favor, alguém apague todo o cinza que estão nos obrigando a enxergar. Quem sabe alguma lente especial não devolva nossas cores, descolore as dores e pinte de novos amores nossa cegueira.

Não sei vocês, mas…

Eu vou usar óculos.

testeDiga-se de passagem

 

Quando eu era criança, sonhava ser atriz.

Essa vontade durou até um pouco depois da infância, não pelo desejo da fama ou pela glória diante de todos — talvez até fosse secreta e inconscientemente. Eu era tão tímida que talvez desejasse ver a fama cuidando do trabalho de fazer amizades por mim, mas apenas por um grande motivo: eu queria ter a possibilidade de viver várias vidas numa só.

Uma atriz quase literalmente incorpora diversas pessoas ao longo da sua — curta demais, por que a vida é tão fugaz? — existência. E isso parecia a solução perfeita para o fato de que, sim, eu seria uma só, com uma vida só, com escolhas mutáveis e as assustadoramente definitivas.

Monótono, igual, previsível, eu achava.

Via os atores mirins, os da minha época: Macaulay Culkin, Elijah Wood, Mara Wilson, todos os Batutinhas ou os maravilhosos do Castelo Rá-Tim-Bum apareciam de repente com outras roupas, em outros filmes ou sendo entrevistados em programas de auditório com um novo jeito de falar, andar, olhar, outro cabelo… Eram outras pessoas. Tinha de fato algo de mágico ali, e, nossa, eu os invejava de todo o coração.

Invejava também as aventuras que viviam: florestas geladas, fugas com cachorros, magia, perigo — com a certeza, obviamente, de que tudo daria certo — e uma vida emocionante. Tudo aquilo, até certa idade, era real para mim. Quando entendi que era atuação, trabalho, luz, câmera, ação, eu achava que fingir já estava ok. Tudo bem, aceito. Confesso que me conformei rapidamente. Melhor isso do que a previsibilidade da vida normal, eu achava. Em outras palavras, melhor isso do que uma vida só.

Até fiz um tempo, maravilhoso, de teatro, que ajudou a me encontrar como gente, mas não segui em frente. A vida me levou por outros caminhos e fui para a plateia mesmo, que é um lugar brilhante. A plateia do teatro, do cinema ou a cadeira de casa, onde abrimos um bom livro e somos transportados para longe.

Gosto de ser plateia. Adoro ser leitora. Sempre gostei de ler. Assistir é bom.

Mas cá estou eu aqui, neste momento, escrevendo, não lendo.

De repente percebi que escrevo.

Hoje em dia, talvez, tanto quanto ou mais do que leio, sinceramente. Escrevo e escrevo e escrevo histórias, poesias, pensamentos, esta coluna…

…Escrevo a minha única vida.

Do dia para a noite você não é mais aquela criança sonhando com aventuras em florestas mágicas, mas uma bem crescida criatura vencendo a selva. Do mundo e da sua própria alma, diga-se de passagem.

Ei, você, me leu? Diga-se de passagem!

Estamos aqui de passagem.

Imaginemos agora uma estação de trem. Milhares de pessoas apressadas indo e vindo, entrando e saindo… O que guardam nas mãos e nos bolsos? Passagens. Nos aeroportos, milhares de passagens. No meu relógio mais velho que a fome, o tempo também está de passagem. E como passa depressa!

Não mais que do dia para a noite, eu me percebo vivendo, como previa, uma vida só. E normalmente minhas passagens são só de ida — poucos passos na vida real têm um retorno —; raro ser ida e volta. Mas as voltas existem. Claro, graças a Deus elas existem. Mas as voltas, a palavra já fala por si só, já foram a algum lugar. Então trazem o cheiro do vento, a marca do sol, a poeira nos pés, a memória de onde foi. A volta, afinal, foi a algum lugar, e nunca voltamos os mesmos quando vamos a algum lugar.

Gente, até as voltas já passaram.

Mas, reconheço, estar de passagem tem a sua maravilha: estamos magicamente em transformação.

Uma espécie de mutação constante que às vezes evolui e outras retrocede, verdade, mas é dinâmica, viva, nunca parada… Sempre e sempre

de passagem.

A vida até me deu hoje amigas atrizes. Brilhantes atrizes! Adoro assisti-las porque sei como são na vida real e isso tem um gosto bom; volto à minha infância. Acho fantástico observar aquela pessoa normal que almoça comigo segurando uma espada, travando batalhas com um amor proibido, vivendo outra vida. Acho o máximo.

Eu na plateia, elas em cena.

Quando a cena acaba, somos todos “povo 1”, “multidão 3” ou “transeuntes da rua 4” mesmo. Pela rua, em casa, vivendo a passagem da vida normal.

Elas e eu. E você, caro leitor.

Saí dos palcos, dei um jeito de escrever. O que me tira da “total plateia”, talvez?

Escrevo um papel e ao vento também. Todos os dias, quando acordo, escrevo sem papel o roteiro do dia, na verdade dos próximos segundos do dia, e eles normalmente não obedecem ao que está no script. Os atores da nossa “uma vida só” são demasiadamente livres, criativos e surpreendentes para se deixarem guiar por um roteiro, ainda que ele seja fantástico, porque vão dar um jeito de inventar um ainda mais mirabolante, inimaginável, surpreendente. E bota surpreendente nisso!

Nossa vida está de passagem; estamos passando, sim. Somos passageiros de um trem sem destino certo. O destino: mistério. O caminho: aventura, drama, romance e, por favor, grandes doses de fé e coragem.

As aventuras do meu hoje em dia superam — ô, como superam — a emoção daquelas histórias fantásticas do cinema.

Diga-se sempre: estou de passagem! Diga-se de passagem.

E tudo ganha vida própria. Muito mais de mil vidas numa só.

Acho que perdi a inveja dos meus queridos atores mirins.

Do fundo do meu coração.

testeAdeus, Buenos Aires

Depois de dez meses escrevendo neste espaço semanalmente, chegou, junto com a virada do ano, a hora da despedida. É o momento de me dedicar a uma nova história, a diferentes personagens e de ter a coragem de me arriscar novamente a começar um novo livro. Testei algumas possibilidades de trama para este novo projeto aqui no blog da Intrínseca. As reações foram tão boas que tenho segurança de estar com mais uma boa história em mãos.

Um autor fica um pouco órfão de seus personagens quando publica um livro. Este blog foi especial porque tive a oportunidade de revisitar e trocar impressões sobre Hugo, Eduardo, Carolina, Charlotte, Pedro, Daniel e Martín com os leitores. Cada e-mail que recebo, cada contato no Facebook, mostra que as pessoas entenderam a proposta de celebrar todas as formas de amor em um livro. Sinto que dei uma pitada de leveza ao pesado ano de 2016.

Acho que O amor segundo Buenos Aires será sempre um marco em minha vida. Nunca recebi tantas mensagens positivas relativas a algo que tenha feito. Tive a oportunidade de falar sobre os personagens em rede nacional, na última temporada do Programa do Jô. O livro foi analisado por um professor de literatura no jornal O Estado de S. Paulo. Blogueiros de literatura fizeram lindas declarações de amor ao livro. E, pela primeira vez, pude entrar numa livraria e ver algo escrito por mim na seção de mais vendidos.

Este post é, para mim, uma despedida emocionante e também uma oportunidade de agradecer todo o carinho que recebi. E, para fechar esse ciclo, retorno aqui ao começo. Deixo meu “até logo” com as palavras que abrem O amor segundo Buenos Aires. Creio nelas profundamente.

“Se você já amou demais

Brigou e perdoou

E conseguiu esquecer um grande amor

Mas ainda se lembra quando ouve aquela música

(E é uma lembrança doce)

Se de vez em quando se permite mais do que o necessário

Se não resiste a um chocolate

Se já encontrou Jesus

Ou o deus das pequenas coisas

Se já se revoltou e renegou o divino

Só para se arrepender no momento seguinte

Se acredita que todo amor vale a pena

Que todos têm o direito de amar

Que cada um é de alguma forma especial

E percebe detalhes bonitos

Mesmo em um mundo que pode ser muito feio

Se acredita que as pessoas são eminentemente boas

Se teve a coragem de se desculpar com um beijo

Ou de se abrir ao poder de um abraço

E já sentiu tanto amor que teve vontade de chorar

Se pensou sobre todas essas coisas

Em muitas delas, em algumas delas ou mesmo em uma só delas

Este livro é para você

Ele foi feito com amor e é sobre todas as formas de amor”

testeA boa mesa carioca

O restaurante La Fiorentina (Fonte)

A geografia carioca que percorre as páginas de Enquanto houver champanhe, há esperança já se foi quase toda, infelizmente. A cidade onde Zózimo Barrozo do Amaral nasceu continua linda, embora com as praias mais poluídas e as matas invadidas pelo crescimento das favelas. Mas, os endereços que foram construídos e ajudaram a aumentar o glamour do Rio de Janeiro, esses vão desaparecendo aos poucos.

Num dos capítulos do livro, Zózimo circula por quase três dezenas de restaurantes estrelados na segunda metade da década de 1970. Letreiros de referência da vida noturna, estão todos desaparecidos, caso de Le Bec Fin, Flag, Chiko’s Bar, Nino, Michel, Open, Le Bistrô, Antonino, Concorde, Balaio, Máfia. Sobreviveram monumentos da gastronomia, como La Fiorentina e o Café Lamas, mas é muita perda patrimonial em tão pouco tempo.

Zózimo, um homem cultivado pelas boas mesas internacionais, foi um dos responsáveis, através de suas notas positivas, pela afirmação no Rio de assinaturas nobres, como a de Bocuse, que chegou aqui no final dos anos 1970 e se instalou no antigo hotel Le Méridien. As notas negativas, críticas, ajudaram a antiga capital do país a se civilizar. Zózimo debochava, por exemplo, da mania jeca de o carioca gostar de sobremesas flambadas e criticava esses mesmos restaurantes por não oferecerem em seus cardápios frutas da estação ou, debaixo da canícula insuportável dos trópicos, sorvetes com essas mesmas frutas, tão deliciosas quanto baratas.

Fala-se agora na reabertura do Hippopotamus, um dos ícones da cidade entre as décadas de 1970 e 80, pelos empresários Ricardo Amaral e Omar Catito Peres. Em tempos de crise, quando só se ouvem notícias sobre casas que fecham, seria a confirmação de que estava certa a frase que Zózimo colocou na parede de sua sala, na redação, e que acabou no título de sua biografia: “Enquanto houver champanhe, há esperança.”

testeExiste amor em Cabul

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Cabul nos anos 1960. (Fonte)

Parece um tempo muito distante, mítico, irreal. Às vezes penso que o inventei. Mas não. Eu, Miriam, vivi numa era de minissaias e vestidos tubinho, cabelos bem arrumados e brincos, homens e mulheres sentados lado a lado nos ônibus sempre apinhados de Cabul. Uma cópia contrabandeada de Dr. Strangelove (Dr. Fantástico) de Kubrick, com um dos rolos faltando, para ser exibida em um cineclube. O homem que se apaixonou pela bomba. Era 1969. As possibilidades pareciam infinitas, mas não demoraria muito para que o Afeganistão logo vivesse seu próprio caso de amor com as bombas.

Pinto meu cabelo de vermelho desde que me lembro. Foi uma tradição que comecei e nunca mais larguei. Primeiro por gosto, depois como sinal de resistência. Era como se essa decisão tão trivial, tomada em 1967 — a de usar a hena com a qual os homens tingiam a barba para mudar meu cabelo e realçar o meu rosto —, fosse uma forma de me segurar ao passado. Hoje, com as  pernas cheias de varizes, reflexo de anos de trabalho em pé nessas joalherias de Manhattan, decidi voltar às origens.

Quando disseram que eu poderia mudar de nome, logo que cheguei, pedi algumas sugestões e decidi por Jones — afinal, Jennifer Jones era minha atriz favorita quando eu era menina. Tinha um fogo que as outras estrelas de cinema não conseguiam forjar, nem Grace Kelly nem Marilyn Monroe. Mas estou perdendo o fio da meada. Vou voltar para a minha terra. Quando disse ao rapaz da agência de viagens que queria comprar uma passagem para Cabul, ele não conseguiu esconder o espanto. “Por quê?”, perguntou. “Porque nasci lá.”

Não tenham pena de mim, juro que não foi nada mau. Sim, todos os problemas estavam lá. Mas havia rios e montanhas e também esperança. Um Parlamento que funcionava. Mulheres que votavam e que, justamente no ano em que completei 13 anos, ganharam direitos idênticos aos dos homens. Eu poderia ser o que quisesse: médica, advogada, deputada e até dona de casa. Pai e mãe sorriam. Como não tiveram filhos homens, estavam resolutos a dar tudo o que estivesse disponível no mundo para mim e para a pessoa mais linda que jamais vi, minha irmã Soraya.

Um jornalista britânico veio certa vez à nossa escola secundária para nos entrevistar, falar sobre o futuro do país. O Afeganistão, com uma boa dose de licença poética, foi descrito na revista como a “Paris do Oriente”. Dois anos depois, ingressei na Universidade de Cabul. Queria ser jornalista. A imprensa ainda não era exatamente livre, mas tudo indicava que um dia seria. Na loja de discos, as músicas que anunciavam um novo tempo chegavam com um pouco de atraso, de dois ou três anos. Foi lá que conheci Abbas. Ele me disse que essa espera era boa. Depurava o que era ruim. Assim, só precisávamos gastar nosso dinheiro com o que realmente viera para ficar.

À medida que os anos 1970 avançavam, no entanto, o nosso mundo andava para trás, no lugar de seguir adiante. Acho que nós, jovens e descuidados, fomos longe demais e despertamos a ira dos fundamentalistas. Eu trabalhava como fotógrafa e Abbas editava um jornal escrito em inglês. Reuniões políticas, bebida alcoólica e saias acima do joelho. Tudo o que antes estava às claras passou a ficar escondido, cada vez mais escondido, sem que nos déssemos conta. Envoltos pelo cotidiano, aceitamos quase tudo como normal. Abbas, Soraya e eu. De repente, tínhamos os três uma opção ou outra: ficar ou sair. Abbas decidira-se por Cabul, eu fui obrigada a deixar o país. Não digo que não tive alternativa, pesei todas as variáveis — medo, amor e compaixão, por Soraya e por meus pais — e segui o meu caminho.

Era 1978. De repente, vestidos curtos e cabelos vermelhos eram um pecado passível de punição máxima. Revoluções internas, intervenções externas. Tudo rápido demais, não havia mais tempo para observar a placidez do rio. Tudo era desespero, era preciso agir, fazer escolhas. Decisões de vida e morte em um só minuto, sem tempo de preparação. Sim e não. Casamento, filhos, pedras preciosas, viuvez, netos. Passou tanto tempo e só uma coisa não mudou: comprei a passagem ainda pensando em Abbas. Sei que é insano, mas é essa busca que me move. A procura por uma época em que existiu amor em Cabul.