testeQuem eram esses jovens capazes de arriscar suas vidas

Meu pai caminhava apreensivo e tenso pelas ruas de Vitória, no Espírito Santo, numa noite de 1969. Ele estava indo se encontrar com uma pessoa que impactaria sua vida: o líder regional de um partido clandestino durante o regime militar.

Era seu primeiro “ponto” — como eram chamados os encontros secretos dos esquerdistas contrários à ditadura — de dezenas que se tornariam cada vez mais frequentes. À medida que Marcelo Netto crescia como líder estudantil, mais ele faria caminhadas perigosas.

Escolhi começar meu livro Em nome dos pais assim porque costumava pensar nessas andanças solitárias. Em 1969, ninguém tinha dúvida: a extrema direita estava no poder e a linha dura dentro dela havia vencido. Era o tempo do Ato Institucional Número 5 (AI-5), que durou dez anos.

Milhares de jovens fizeram caminhadas solitárias e arriscadas num tempo em que os militares torturaram, assassinaram e ocultaram cadáveres de opositores. Que tipo de jovens eram eles?

Entrevistei vários, e cada um tem sua maneira de ver aquele momento da história brasileira, mas todos concordam sobre os absurdos do período mais opressivo do regime, após a instauração do AI-5, que entrou em vigor em dezembro de 1968 e só deixou de vigorar em janeiro de 1979.

Na produção do livro, e também no lançamento na capital capixaba, encontrei vários desses jovens da década de 1970. Em determinado momento da noite de autógrafos, minha mãe, Míriam Leitão, me chamou para uma foto com muitos deles. Instintivamente, agachei-me, em sinal de respeito.

Hoje eles têm mais de sessenta anos e vivem vidas das mais distintas: atuam como médicos no interior do país, engenheiros em grandes empresas de construção e jornalistas de destaque, como minha mãe, que trabalha na imprensa nacional há mais de quarenta anos.

O médico Guilherme Lara Leite, por exemplo, me emocionou bastante durante uma entrevista para o livro. Quando o encontrei na sua sala de paredes brancas e com ampla varanda, o ex-militante se lembrou de uma história importante e que o marcou. Um dia, seu neto, ainda muito jovem, o perguntou sobre o motivo de sua prisão durante a ditadura. “Você já foi preso? O senhor é bandido?”, perguntou ao avô. Nesse instante da entrevista, Guilherme começou a chorar, a fala travou e ele soltou a seguinte frase:

— Fico até emocionado. Falei para ele que tinha sido preso e que não era nenhum bandido, que tinha lutado pela liberdade do Brasil e o que eu tinha feito era isto: escrever “Abaixo a ditadura”, trazer alguns filmes e shows para Vitória.

Quando descobri que meus pais haviam sido presos e torturados, ainda um pré-adolescente, a notícia me atordoou. Também fiz a pergunta a mim mesmo: será que eles fizeram algo de errado?

Em nome dos pais parte de uma história familiar e faz um retrato de parte de uma geração que viveu o dilema entre se calar diante das arbitrariedades da ditadura, o cerceamento de direitos civis, ou resistir. O grupo de Vitória decidiu gritar em meio ao deserto.

Nenhum deles pegou em armas para lutar contra o regime militar. Eram muito novos. Faziam reuniões, greves, panfletagens, pichações, atendimentos médicos em favelas e peças de teatro “engajadas”, com leitura de versos clássicos de Castro Alves.

Por isso, foram presos por meses, torturados por dias e, alguns, punidos novamente, como meu pai, expulso de todas as universidades por três anos, além de perder para sempre os quatro anos de estudos de medicina que cursara. Tudo debaixo do guarda-chuva da Lei de Segurança Nacional, sob a justificativa de que eram subversivos.

Às vezes, tento imaginar o que eles pensavam nessas caminhadas solitárias ao encontro do risco. Será que tinham noção do perigo que os rondava? Eles dizem que sabiam, mas eram muito jovens.

Na música daquela época há vários sinais, em linguagem cifrada, de um tempo áspero, como na canção de Tom Jobim cantada por Elis Regina: “É pau, é pedra, é o fim do caminho. É o resto de toco, é um pouco sozinho”. As águas de março fecharam o verão por 21 anos e eles perceberam que eram “um pouco sozinhos”.

testeOs diários da crise anunciada

Em seu novo livro, Míriam Leitão analisa a situação econômica do país

Para Míriam Leitão, a crise poderia ter sido evitada. A jornalista, que faz análises econômicas diariamente sobre o país, vinha alertando sobre as decisões do governo em suas colunas publicadas em O Globo nos últimos seis anos. Em seus textos, Míriam anunciava os riscos que o país estava correndo.

Agora os leitores poderão conferir esse material em A verdade é teimosa: diários da crise que adiou o futuro, livro que chega às livrarias a partir de 10 de fevereiro. Com uma criteriosa seleção de mais de cem colunas, a obra aborda temas como descontrole fiscal, inflação, crise política, a concessão da licença da hidrelétrica de Belo Monte, entre outros fatos que explicam como o país chegou à situação atual.  

Em entrevista ao blog, Míriam Leitão conta por que resolveu reunir o material e como, apesar da crise econômica, ainda devemos ter confiança no futuro. Leia:

Intrínseca: Você analisa diariamente as notícias sobre a economia do país em diferentes mídias. Por que você decidiu reunir as colunas em A verdade é teimosa? Qual foi o critério de seleção desse material?

Míriam: Fazer coluna diária é um trabalho desafiador. Quem escreve tem que ir além do noticiário. É preciso analisar, antecipar as tendências, dar a dimensão dos eventos. Essa é a pior crise da história recente do Brasil e, na coluna, eu fiz muitos alertas sobre os riscos que o país estava correndo. A ideia do livro nasceu de uma conversa minha com Luciana Villas Boas sobre as lições que essa crise traz. Ela poderia ter sido evitada e podemos prevenir outros erros como os que foram cometidos. O critério para tirar 118 colunas das 1.800 analisadas foi exatamente traçar um diário da crise.

Intrínseca: Qual foi o momento que você percebeu a dimensão da crise econômica do país? E por que você acredita que é importante voltar ao passado nesse livro?

Míriam: Em vários momentos. Em 2010 eu escrevi que o governo estava começando a fazer truques contábeis. Ao longo dos anos seguintes mostrei os riscos de alta da inflação, crise de energia, e descontrole fiscal. No começo de 2015, eu escrevi: “Vai ser longo o inverno”, falando da recessão. Estava começando. E ela já foi, até agora, um dos mais longos períodos recessivos da história econômica.

Intrínseca: Como a leitura de A verdade é teimosa  pode compreender melhor a realidade do país?

Míriam: O importante de um livro é ser relevante para o leitor. Por isso minha preocupação é que quem leia tenha uma visão mais ampla da sucessão recente dos eventos. O Brasil tem uma história muito intensa, e por isso é preciso às vezes parar e refletir um pouco. Meu sonho é que o livro seja esse momento de parar e entender como foi que entramos nesse momento tão difícil.

Intrínseca:  Na obra, você diz que “o pior da crise é adiar o futuro”. Você acredita que ainda é possível ter esperança nas análises apresentadas em História do futuro?

Míriam: Claro que sim. Por mais duro que seja este momento, o futuro não foi revogado. Foi adiado apenas. Podemos influenciar nele, podemos explorar melhor todas as nossas chances, podemos evitar novos atrasos. Minha obsessão nos últimos anos tem sido pensar o futuro, o mapa do caminho para realizar nosso projeto do país. Foi isso que fiz em História do futuro, e foi o que de novo fiz em A verdade é teimosa.

 

Eventos de lançamentos de A verdade é teimosa

Rio de Janeiro

Data: 15/02/2017 (quarta-feira)
Horário: 20h
Local: Livraria da Travessa Leblon
Míriam Leitão participa de um bate-papo com a jornalista Carolina Morand, editora assistente de país de O Globo, antes da sessão de autógrafos, às 19h. 
Confirme sua presença

São Paulo

Data: 22/02/2017
Horário: 19h
Local: Livraria Saraiva Higienópolis
Confirme sua presença

Curitiba
Data: 10/03/2017
Horário: 19h30
Local: Livrarias Curitiba ParkShopping Barigui 
Confirme sua presença

testeTesouras afiadas na alta sociedade

A modelo Marina Montini (Fonte)

Jean-Luc Bernard, o cabeleireiro francês que morreu nesta quarta-feira, dia 8 de fevereiro, aos sessenta e sete anos, foi trazido de Paris para o Rio de Janeiro na década de 1970 por Zózimo Barrozo do Amaral, um de seus clientes no famoso salão Carita, no Faubourg Saint-Honoré.

O colunista apresentou Jean-Luc a Jambert, o espanhol naturalizado brasileiro que era o preferido das cabeças elegantes do high society carioca. Adoraram-se. A favor da permanência de Jean-Luc no Rio, havia o fato de ele ser fanático por caça submarina. Jean-Luc virou sócio de Jambert e abriu o braço masculino da grife. Foram felizes por alguns anos até que, grandes divas das tesouras, brigaram. Cada um com suas brilhantes carreiras, mas solo, foram em frente.

Jean-Luc mantinha até morrer um salão na rua Aníbal de Mendonça, em Ipanema. Dizia que por várias vezes tentou tirar o bigode de Zózimo, mas sem sucesso. Sua tesoura descia até o ombro do colunista, que tinha o tórax muito cabeludo.

Cabeleireiros — e não só Jambert e Jean-Luc — brigavam muito, mas pelo menos mantinham a elegância de deixar as tesouras de lado.

O cabeleireiro Silvinho (Fonte)

Jambert esteve envolvido em outra briga com um colega. Seu oponente dessa vez era Silvinho, que ficou famoso por ter cabelos enormes, ser muito bonito e participar do júri do programa do Chacrinha na TV. Silvinho era funcionário do salão de Jambert. Não se conformava que, embora popular na mídia, não conseguisse colocar em sua cadeira as madames vipadas que se entregavam às mãos de tesoura do patrão. Jambert conversava em francês enquanto cortava. Já a grande cliente de Silvinho era Elke Maravilha.

Finalmente rompido com Jambert, Silvinho foi em frente com salão próprio. Na busca pelo crédito de qualidade, reconheceu em Zózimo um inimigo. Achava que nas suas notinhas o colunista era mais generoso com Jambert. Silvinho aliou-se a outros jornalistas.

Num dos rounds dessa pugna, ele teve como parceira a modelo Marina Montini, famosa por posar nua para uma série de mulatas pintada por Di Cavalcanti. Quando o pintor morreu, ela tentou vender alguns desses quadros e Zózimo publicou os preços alardeando espanto, pois os julgava muito acima do mercado. A intenção comercial de Marina fracassou e ela resolveu se vingar do colunista juntando-se ao amigo cabeleireiro.

Silvinho fez nela um penteado bem ao estilo anos 1980, com um enorme aplique que dava ao cocoruto de Marina ares de uma juba de pantera, a grande moda escandalosa do período. Quando um repórter de uma revista de celebridades perguntou a Silvinho qual o nome daquela sua nova obra, ele não teve dúvida:

— O penteado chama-se Cascata Zózimo Barrozo do Amaral, porque pra fazer um é preciso muita imaginação.

Não era uma homenagem, mas uma tesourada de humor mau. Como se sabe, em gíria jornalística, colunista que inventa notícia é chamado de “cascateiro”.

testePor que é tão difícil inovar no Brasil

l_img8_instagram_blog_01a_semtextoUm típico empreendedor brasileiro: preso no labirinto da burocracia

Repare que o título desta coluna é uma afirmação, não uma pergunta. Afinal, tal constatação já se tornou praxe. Mas é raro encontrar explicações. Vamos a elas.

Tentei empreender dois projetos: o primeiro com uma startup de impressão 3D e o segundo com uma empresa de mapeamento indoor. Desisti de ambos no meio do caminho. O primeiro foi para a frente, de forma tímida, depois da minha saída. O segundo desapareceu. Independentemente do sucesso ou do fracasso posterior, por que caí fora, sem arrependimentos?


1.

Por um fator simples: é difícil fazer negócios éticos no Brasil. Por exemplo, no meio do caminho para lançar a startup de impressoras 3D, que seriam acopladas à mão, surgiu um problema. Como tudo no país, mesmo para uma empresa tida como startup — logo, como seria no Vale do Silício, algo meio que “de garagem”, que mereceria facilidades —, é preciso, antes de operar, ter aprovações mirabolantes, que passam por contadores, advogados, cartórios… No meu caso, descobrirmos vários obstáculos.

Em teoria, precisaríamos de uma licença específica para instalar uma empresa de fabricação de qualquer coisa, de qualquer escala. E a nossa não poderia ser na região de São Paulo em que estávamos (o Centro!). Tudo isso custaria MUITO para ser superado. Algo que uma startup não conseguiria encarar. Em meio ao papo com outros sócios, surgiram formas de se esquivar da questão. A maioria exigia o “jeitinho brasileiro”. Sou contra “jeitinho” e achava adequado não correr o risco, ainda mais por ser tão apaixonado por escrita e jornalismo — não queria que essas minhas facetas fossem afetadas pelos problemas de empreendedor. Logo, optei por não me meter em qualquer provável futura lama.


2.

Rixas entre os sócios é algo típico em startups, mas que poderia ser superado. Porém, olhando agora com a devida distância temporal, percebi que as brigas tinham muito a ver com o fato de não podermos nos dedicar ao que queríamos, ao nosso trabalho, às nossas ideias. Na maior parte do tempo só discutíamos empecilhos burocráticos, leis e por aí vai. A parte chata. Nada a ver com o core do negócio. Isso não só me desmotivou como fez nascerem as rixas. Esse panorama brasileiro, de 70%, 80%, por vezes 90% do tempo — e da massa cerebral — do empreendedor iniciante ser gasto com cartórios e afins, por meses, destrói vontades e parcerias.

 

3.

Ah, e o principal. Descobri que não queria me dedicar tanto assim a impressoras 3D e mapeamento indoor. Minha praia é comunicação (e contar histórias: escritas, visuais, como forem). Se um dia regressar a esse mundo empreendedor — sobretudo se for para enfrentar as chatices brasileiras —, provavelmente me voltarei a áreas relacionadas a essa paixão. Entre nós, esse foi o fator decisivo. Se não fosse por isso, teria enfrentado, com muita raiva e inveja dos colegas americanos do Vale do Silício — com suas devidas facilidades que fazem de lá o maior polo de inovação do planeta —, as questões 1 e 2.

 

Porém, vamos sair do pessoal

graava clip

Graava, uma câmera que edita automaticamente os vídeos feitos: mais uma bela ideia de brasileiros, mas realizada no Vale do Silício

É regra.: todo empreendedor que conheço reclama da estupidez da burocracia brasileira. Municipal, estadual ou federal. Tanto faz. Há burrice em todas as alçadas. E o ecossistema nacional de negócios, principalmente os digitais — que exigem agilidade para se adequar, garantir a inovação e competir de igual para igual com a concorrência —, sofre com isso. Até os gigantes.

Vejamos, por exemplo, o caso do Google. Há dois anos, em papo com Hugo Barra, mineiro de grande renome em sua área e então vice-presidente da marca (hoje está na chinesa Xiaomi), perguntei: “Por que, apesar do interesse das grandes empresas pelo mercado brasileiro, os melhores smartphones e tablets demoram a chegar por aqui?” A resposta: “Queremos entrar no Brasil e vender produtos baratos. Mas é extremamente difícil fazer negócios neste país. A complicada e burocrática legislação brasileira coloca barreiras únicas no mundo para quem quer investir ou empreender. Há práticas fiscais e logísticas, além de leis protecionistas exageradas, que não são vistas em outras nações. Nesses quesitos negativos, o Brasil é incomparável.”

Sim, é de chorar. E a visão cruel sobre o ambiente de empreendedorismo brasileiro é uniforme entre os que aqui batalham para inovar.

Em almoço com Alex Tabor, CEO do Peixe Urbano, ele recordou como foi uma tormenta abrir seu negócio inovador de vendas on-line de cupons de ofertas. “No Brasil, às vezes demora meses só para conseguir o CNPJ (o registro inicial da empresa; ou seja, só para dar o start)”. Agora, quando ele foi abrir uma holding nos Estados Unidos, tudo se mostrou fácil. “Lá são exigidos só os documentos que fazem sentido serem apresentados e o processo leva dias”, completou.

Não é coincidência eu ter ouvido algo similar de Nelson Mattos, brasileiro que foi vice-presidente do Google e que hoje atua como consultor no Vale do Silício, sendo membro da renomada BayBrazil, organização que promove conversas entre inovadores brasileiros e californianos. Para ele, “não faltam mentes criativas em nosso país”. O problema é que “essas cabeças não conseguem trabalhar no Brasil devido a tantos impedimentos governamentais. Muitas vezes, as pessoas precisam se mudar para criar uma empresa inovadora”.

capa_OCliqueDeUmBilhaoDeDolares_WEBEm outras palavras, os labirintos surrealistas à la Franz Kafka à frente de qualquer empresário iniciante acabam expulsando os brasileiros de sua própria nação. Para onde eles levam suas ideias criativas — e, muitas vezes, fonte de milhões de dólares (que poderiam ser reais)? Vão para os Estados Unidos, para Israel, para a Inglaterra, para o Canadá etc. — ambientes que recebem os inovadores de portas abertas.

É para onde foi, por exemplo, Marcelo do Rio, outro brasileiro inovador, que criou em terras tupiniquins a cervejaria Devassa, vendida depois para a Schincariol. Após se admirar com o mundo tecnológico, ele se mudou para o Vale do Silício. Lá, com dois brasileiros, fundou a Graava, que fabrica uma interessante câmera filmadora capaz de editar automaticamente os vídeos feitos. Se for um fracasso, ou um sucesso maior que o da GoPro, pouco importa para o contexto desta coluna. O fato é que o Brasil perdeu Marcelo do Rio e a bela ideia da Graava. Disse ele em conversa que tivemos: “Não tenho a menor dúvida da competência do empreendedor brasileiro, extremamente criativo, habilidade que usa até para compensar a ineficiência do Estado. Não faltam mentes no Brasil. Falta estrutura.”

Não à toa há mãos brasileiras em diversas empreitadas reconhecidas em todo o mundo como de extrema criatividade. Caso do Facebook e do Instagram, sobre o qual escrevi este livro . Pena que esses cérebros não sobreviveriam — ao menos não da mesma forma saudável — em sua terra natal.

link-externoLeia um trecho de O clique de 1 bilhão de dólares

testeDos amigos e da literatura

livros

Acumulo leitores há anos. Em lugares que desconheço, leitores que desconheço. Alguns deles, eventualmente, aparecem na minha vida em eventos literários, sessões de autógrafos e redes sociais, em corredores de supermercados e bancos de praça. Aparecem em meio à bruma dos dias, com um comentário, uma alegria, um elogio, um carinho inusitado, inesperado — nunca me sinto à altura. Como pode alguém que não me conhece gostar assim de mim? Gostam, é claro, dos meus personagens: Apolinário, Gardênia, Bibico Nunes, Manuela, Flora, Heloísa, Orfeu, Macumba, Miti, Augusto Serrat, o avô Jan. Todos eles têm mais graça do que eu. Todos eles volitam por aí, espalhando encantos em salas, praças, apartamentos, ônibus e parques, em noites de chuva e tardes de sol. Todos eles têm histórias, amores e tragédias para contar. Eles nascem de mim, mas não são eu.

Desde que comecei a ministrar oficinas, porém, um milagre aconteceu: tenho feito amigos. Além dos personagens e dos enredos que escrevi, tenho encontrado pessoas. Pessoas que gostam de livros, que amam a literatura e as viagens que ela nos proporciona. Pessoas com paciência para os jogos lúdicos da construção literária, para as horas à beira do rio das narrativas, naquela espera silenciosa e tensa, tentando pescar uma história, um laivo de um personagem ainda incipiente, a palavra certa, o discurso ideal.

Tenho passado manhãs, tardes e noites com pequenos grupos de homens e mulheres que gostam de escrever. Homens e mulheres de variadas idades e profissões, de sonhos e ansiedades diversos — e me sinto tão feliz (cansada, rouca e ansiosa por transmitir um pouco disso que, não sendo conhecimento exato, eu poderia chamar de experiência, ou intuição…). Todos esses encontros me lembram daquelas tardes de sexta-feira na PUC em Porto Alegre, em 1998, quando aprendíamos com o Assis Brasil. Era tão bom ficar lá no fundo da aula escutando o grande professor falar… E tem sido bom também estar lá na frente: trocando sonhos, sonhando ficção e fazendo vários novos amigos.

testeCONFRARIA DOS FERIDOS

b

Imagem: Charles Bukowski

 

não é tua barba
meio suja e suada

ou teus cabelos
com rabo de cavalo

não é tua careca
de menino mau

nem tuas tatuagens
docemente demoníacas

não é o barato
dessas tuas drogas

menos ainda o álcool
nosso de cada dia

não é o domínio
de muitos idiomas

ou o lento cultivo
de leituras difíceis

não é a manhã de sol
ou a noite terrível

não é o amor fiel
ou as mil conquistas

também não o teu saber
ou a ignorância fingida

o que faz o poeta
é vestir-se de feridas

ter no corpo palavras
que são como escaras

escrever: escancará-las

testeAbrace sua insegurança

capas

Ah, a tal da insegurança! O medo de não ser aceita, de não ser suficiente, de não atender às expectativas dos outros…  Estou sempre me cobrando: do momento em que acordo e me olho no espelho até a hora em que repouso a cabeça no travesseiro e me entrego ao mundo dos sonhos.

Esses dias divulguei a capa de Não se iluda, não (meu novo livro que dá continuação à história de Não se apega, não) em minhas redes sociais e a resposta foi estrondosa. E quando digo estrondosa, eu me imagino com todas as pessoas que comemoraram o anúncio dentro do Maracanã lotado gritando GOL! Foi esse o sentimento que me invadiu. O de que todos estávamos comemorando uma conquista minha, NOSSA. Fiz o gol e o dediquei a vocês. E em troca ganhei um arrepio na espinha que talvez eu nunca consiga esquecer.

É. Eu nunca vou esquecer.

Um dia me disseram que eu nunca escreveria um livro. Depois que o primeiro foi lançado, disseram que tudo bem, eu havia escrito um livro. Mas que seria só esse. E é bem provável que depois do segundo eu vá ouvir algo do tipo “Ah, foram só dois. Ela não vai conseguir mais.” E tudo bem, tudo bem mesmo. Porque essas críticas só me incentivam a ser cada vez melhor. Não para provar algo a alguém, mas por mim. Quero mostrar a mim mesma do que sou capaz. E que sou capaz de muitas coisas.

Não quero alardear minha felicidade — vai que a inveja está lendo esse texto?! Brincadeiras à parte, hoje posso dizer que sou muito grata a todos que me acompanham e que me dão forças quando acordo me sentindo a garota mais insegura do mundo. É bom quando alguém confia no seu potencial, mesmo que você própria não tenha tanta certeza assim. Sempre que começo a vacilar na corda bamba, me seguro em vocês e sei que vai ficar tudo bem. E fica.

Essa semana a pré-venda on-line de Não se iluda, não vai começar! Quem comprar na pré-venda receberá o livro e vai conhecer as novas aventuras de Isabela antes de todo mundo. Espero que gostem. Espero que eu consiga atender às expectativas de vocês. Espero ouvir de novo aquele grito estrondoso de GOL no Maracanã lotado.

testePRÉ-NATAL

escrevendo2 (3)

Crédito: Américo Nunes

Algumas vezes é preciso par-AR para respirar novas palavras, novos poemas, novas sílabas e até, quem sabe, uma prosa quentinha, temperada com novos ares aromáticos.

Uma pausa pode também mudar de cara, antes de mudar de ares. E por isso estou agora mergulhada em um oceano profundo de novidades: um novo livro está vindo ao mundo e o pré-natal é exigente. Porque o nascimento dessa espécie é sempre uma gravidez de risco. Óbvio, lógico. A poesia só nasce dos riscos, ela detesta monotonias. Monocromatismos. Monoqualquercoisa. Seus significados são sempre pluralíssimos! Graças a Deus.

Por isso esta coluna querida, na qual escrevo sempre uns devaneios loucos, vai dar uma pausa por um tempo. Breve tempo, claro. Para que o pré-natal do novo livro seja feito com todos os novos ares necessários, mesmo estando mergulhado em um oceano profundo. Será que dá para me entender? Se sim, me escreva por obséquio. Venho me esforçando para atingir tal feito, o da autocompreensão. E uma mãozinha viria a calhar. Ou a calar. Nunca se sabe.

Porém, contudo, todavia, não consigo calar de vez. Uma poesia, um desenho, um sinal de fumaça, vai passar por aqui quinzenalmente. Viva! E vocês também me acompanharão em umas idas ao médico do meu pré-natal: um ultrassom aqui e ali. Compartilharei um pouco desse processo, das primeiras feições do livro que vem. As novidades, as angústias, quem sabe. As madrugadas, com certeza. As palavras temperadas. Todo mundo junto, família reunida, como as coisas devem ser. E vamos em frente.

testeBiografia de um livro: O romance entra em cena

Quando uma narrativa que foi tão longa e solitariamente meditada está prestes a ir para as livrarias, o romancista é tragado pelo mundo paranoico que ele mesmo criou.

CapaAberta_SegundaPatria_Site

 

6 de fevereiro de 2015 – sexta-feira

Cheguei ao Rio para uma reunião com a equipe da Intrínseca sobre o lançamento de A segunda pátria. Todos estavam muito bem-informados sobre o livro e fizeram comentários pertinentes. Vamos alimentar o blog da editora com material sobre o romance, haverá booktrailers, marcadores e folders para distribuição nas livrarias. Dedicarei o semestre à divulgação do livro. Nunca pude fazer isso.

9 de fevereiro de 2015 – segunda-feira

Escrevi a primeira colaboração para o site da Intrínseca. Esta seção vai se chamar “Biografia de um livro” – só com trechos destes diários.

13 de fevereiro de 2015 – sexta-feira

Semana de tumulto. Greve dos professores e funcionários estaduais do Paraná. Reuniões, debates, conversas. A ficção se torna um grande desafio ao escritor. Deixar de lado todos os problemas e criar horários vagos para habitar o mundo da imaginação. Por mais difícil que seja, esta é uma provação necessária. Ou escrevemos mesmo quando o temporal destrói nossa casa ou não somos de fato escritores.

Jornais manifestam interesse por A segunda pátria. Hoje saiu o release da editora. O que for soará, como diz Dalton Trevisan.

18 de fevereiro de 2015 – Quarta-feira de Cinzas

Trabalhando no carnaval, mesmo meio adoecido. Concluí a seleção inicial dos trechos deste diário sobre A segunda pátria. Serão sete blocos, um para cada fase da escrita.

23 de fevereiro de 2015 – segunda-feira

Saiu hoje no site da Intrínseca o primeiro conjunto de entradas deste diário sobre a escrita do romance. O livro entra em cena agora.

Às vezes, tenho pesadelos reais, muito intensos, em que estou sendo perseguido por conta desta história. Como se os nazistas por mim inventados ainda estivessem no poder.

10 de março de 2015 – terça-feira

Dedico-me aos contatos jornalísticos sobre o lançamento. Respondi a uma entrevista sobre o romance. As entrevistas são uma obra literária em paralelo.

11 de março de 2015 – quarta-feira

Nesta madrugada, tive outro sonho terrível do qual não me lembro bem, mas em que eu sofria a perseguição dos nazistas. Acordei em pânico, com taquicardia, tendo que tomar remédio.

Antes de dormir, ontem, revisei a entrevista e devo ter ficado muito preso às cenas do livro. O pesadelo e a crise de pânico criaram o receio quanto à repercussão do romance, que pode ser julgado sem ser lido. Só me livrei deste receio à tarde, quando concluí que a única resposta a este tipo de leitura literal é que o meu é um livro de literatura, uma história de amor inter-racial em um tempo de crença na eugenia.

teste[VOLTA ÀS ILHAS] Parte I

[A SAUDADE É UMA NOTA VERMELHA NO MEU BOLETIM]

coluna pedro

Recentemente, estive de volta a Cabo Verde, um arquipélago de dez ilhas, na África, onde passei boa parte da minha infância. Dessa vez, um pouco mais adulto, coloquei outros olhos em cada nova paisagem, em cada novo cenário que se desenhava à minha frente. Foi como se eu desfilasse novamente por aquelas ruas, onde outrora jogava bola e bolinha de gude, onde corria até a sola dos sapatos se confundir com a sola dos meus pés, onde comprava pombos só para libertá-los.

A lanchonete do Toni, onde eu comprava toda semana uma barra de chocolate Mars, não existe mais. Eu sempre achava que fazia um bom negócio. Afinal, eu dava uma moeda e recebia três moedas de troco. Para a matemática infantil, três é sempre maior do que um. Quando a gente cresce, a vida nos obriga a calcular de outra maneira. A minha primeira casa perdeu a cor rosa da fachada e ganhou novos moradores: franceses de cara fechada. Lembrei quando eu e minhas irmãs nos pendurávamos no terraço do terceiro andar, amarrados apenas por faixas de judô. Tínhamos uma certeza: a faixa amarela era mais resistente que a branca. Afinal, ela enfeitava a cintura de um aprendiz de judoca um bocadinho mais experiente do que um iniciante nessa arte marcial milenar. A faixa preta, então, devia ser mais firme que o Kevlar. Imitávamos paraquedistas sem paraquedas. Sorte nossa que nosso voo era, de certa forma, estático. Vez ou outra, batia um vento forte. Nessas horas, o judoca-aprendiz-de-paraquedista se tornava religioso nato no ato. Quando se é pequeno não se mede a grandeza dos medos. Aquele desespero que me deu, hoje, com 30 anos, ao pensar que eu fazia aquilo tudo sem pensar nas consequências, só comprova que o tempo tira a nossa coragem, nos torna covardes.

O armazém do Seu Careca, onde todos os dias comprava o pão do café da manhã, agora é uma casa residencial. Deu um nó na garganta. O prédio da minha antiga escola virou um estabelecimento comercial, se não me engano. Não tive coragem de entrar. Não quero perder a imagem que se desenha agora na minha imaginação. Raoni leva a bola para o recreio. Maxime me escolhe pro seu time. As meninas também entram no jogo, mas não porque nós, meninos, éramos open mind ou tínhamos um pensamento avançado pro nosso tempo. Simplesmente não havia garotos o suficiente para iniciar a partida. Eu sei, eu sei, os meninos às vezes são cruéis. Será que o professor Santiago, um francês que dava aula de história e sonhava em ser pintor, ainda espera meu dever de casa? Sempre tive dificuldade com deveres de casa. Para mim, deveres devem ser feitos na escola. Em casa, meu único dever deveria ser brincar de inventar brincadeiras. Em vão, tento explicar aos meus pais o meu desempenho escolar.

A saudade é uma nota vermelha no meu boletim.

link-externoLeia também: [O passado é uma cidade esquecida]