testeO livro que mudou minha vida

Todo leitor tem um livro que mudou sua vida, um livro que fez com que ele se tornasse leitor. Talvez você se lembre do seu, ou talvez você não tenha ideia. Eu me lembro perfeitamente de quando a chavinha da leitura virou na minha cabeça e eu comecei a devorar todos os livros que via pela frente: foi quando li o primeiro livro da Meg Cabot, em 2006. Eu costumava anotar a data em que eu começava e a data em que eu terminava cada livro, então, pelo registro do primeiro Meg que li, vocês já conseguem ver que foi paixão à primeira vista:

Não me entenda mal: eu já lia muito, desde sempre. Minha mãe vivia reclamando comigo, porque eu só pedia livros de presente e terminava de ler todos muito rápido. Nunca vou me esquecer do dia em que ela comprou Menino Maluquinho e eu terminei em uma tarde (e ela não acreditou, rs). Apesar de sempre ter lido muito, foi O diário da princesa que me fez perceber que eu tinha um tipo de livro favorito. E daí fui devorando todos que apareceram pela frente.

Summer Things GIF

Não é difícil achar livros que tocaram gerações e se tornaram verdadeiros clássicos. Nem estou falando de Machado de Assis, me refiro aqui a fenômenos editoriais contemporâneos, que vimos nascer e ganhar os corações em tempo real. Minha geração é a geração Harry Potter (ainda que eu seja a geração Meg Cabot), acompanhei de perto e participei dos surtos coletivos de outras sagas e livros, como Crepúsculo. Comprei todos os volumes na pré-venda, assisti a todos os filmes na estreia e berrei feito uma fã injuriada na cena da batalha de Amanhecer – Parte 2. Cheguei até a sonhar que eu era a Bella nessa cena do gif abaixo:

         

É engraçado, porque tem o livro que muda nossa vida e nos torna leitores, mas também tem outros livros no caminho, aqueles que nos marcam profundamente. Sejam esses fenômenos coletivos, best-sellers que viram filme e tudo mais, ou livros meio indie, de que ninguém ouviu falar, mas que por algum motivo vieram parar nas nossas mãos. Parece que eles solidificam nosso amor, tornando-o ainda mais profundo e tangível. É claro que Crepúsculo foi um desses para mim. Um dia, do David Nicholls, também. A série Os heróis do Olimpo, de Rick Riordan, idem. Alucinadamente feliz, da Jenny Lawson, mais um. Até hoje me vejo cativada por alguns enredos, a ponto de terminar as leituras, fechar os livros e pensar: “Uau, é por isso que eu amo tanto ler. É essa sensação que eu busco.”

Beauty And The Beast Books GIF by Disney

Não sei dizer por que esses livros em especial foram capazes de me marcar nesse nível, nem por que O diário da princesa foi o livro que mudou minha vida. Não existe um padrão, nem o “livro certo” para te fazer gostar de ler, ou um livro que vai fazer “todo mundo” se apaixonar. Cada pessoa tem o seu livro especial, aquele que tocará o fundo do seu coração e fará com que você se transforme em leitor. E a gente tem que ter um pouquinho de paciência com o pessoal que diz que “não gosta de ler” – provavelmente eles ainda não acharam o livro especial deles. Cabe a nós tentar apresentar a nosso amigo não leitor aquele livro que achamos a CARA dele e, quem sabe, convencê-lo a entrar nesse mundo doido e mágico.

Na minha caminhada literária, pessoas já me falaram que livros meus foram “o livro que mudou a vida delas”, e eu sempre fico ao mesmo tempo surpresa e emocionada. Saber que algo que eu escrevi foi responsável por fazer alguém se apaixonar por ler me deixa imensamente feliz. E faz com que meu trabalho como escritora me dê a mesma sensação de quentinho no coração que terminar de ler um livro incrível me dá. Espero que As férias da minha vida possa gerar essa paixão em muitos leitores – não só porque seria uma honra, mas especialmente porque quero que o máximo de pessoas possível se apaixone pela leitura. Porque, convenhamos, não há nada melhor!

testeUma estrada chamada 2017

Queridos leitores, queridas leitoras, tudo em paz com vocês? Aproveitei estas últimas semanas de 2016 para fazer alguns testes nas minhas redes sociais, principalmente no Instagram e no Facebook. Por isso, muitas publicações ficaram sem ordem, meio desorganizadas — uma verdadeira bagunça, admito. Mas uma bagunça necessária. Precisei pisar em vários atalhos até encontrar o caminho que mais me agradava. Acho que finalmente encontrei uma trilha bacana para me renovar sem perder minha essência. Acho que finalmente consegui programar meu GPS criativo para essa nova estrada que começará a ser percorrida em 2017.

Eu me chamo Antônio é uma história que teve início no balcão de um bar e, logo depois, foi parar na internet. Mais adiante, continuou nas prateleiras das livrarias. Mas ela é, essencialmente, uma ideia que escapou do meu peito e encontrou o coração das pessoas que se dedicam a querer enxergar a beleza dos versos e dos traços além do limite do guardanapo; uma ideia que encantou a alma das pessoas que entendem que cada criação é infinita; uma ideia que condensa em si a coragem de quem contempla o mundo com os olhos da imaginação.

Todos os meus guardanapos, sem exceção, foram criados no Café Lamas, um tradicional bar do Rio de Janeiro. Hoje, são mais de 2 mil criações guardadas com muito carinho em álbuns de fotografia, como se cada guardanapo fosse, de fato, uma retratação do meu mundo interior. Muitas delas foram impressas nas páginas dos meus três livros publicados pela Intrínseca. Livros que me fizeram acreditar que era possível viver daquilo que amo: desenhar e escrever. Cada livro retrata um momento. O primeiro Eu me chamo Antônio (2013) foi marcado pela minha insegurança, um medo danado de não dar certo. O Segundo (2014) já demonstrava uma vontade — mesmo que tímida — de libertar as palavras para além das fronteiras dos guardanapos. Ilustre Poesia (2016) fecha um ciclo que começou a ser desenhado no fim de 2012. Agora, com esta terceira publicação, dou mais um passo em direção à promessa do romance, como anuncia a descrição dessa ideia desde que foi criada: “Antônio é o personagem de um romance que está sendo escrito, vivido.” Pois bem, acho que chegou a hora de começar a estruturar essa promessa, e isso exige ainda mais tempo e dedicação de minha parte. Até então eu vinha vivenciando esse romance. Agora, quero escrevê-lo. E ele será escrito.

Como alguns de vocês sabem, este ano me mudei para São Paulo. Meu ritmo de criação naturalmente diminuiu. Não seria sincero dar vida aos guardanapos em outro lugar que não fosse no Lamas. Por isso, só tenho criado coisas novas quando visito minha família na Cidade Maravilhosa. A vinda para a Terra da Garoa veio no momento certo. Eu precisava buscar novas motivações, novas inspirações, novas técnicas, novas histórias, novas plataformas e novas formas de contar essas tramas. Aqui senti novamente aquele frio na barriga antes de encarar uma página (um guardanapo?) em branco. É como se a vida quisesse me tirar da zona de conforto e me obrigasse a pensar além dos versos curtos, além dos traços confusos. E isso é ótimo! Quem vive de criatividade não pode se acomodar jamais. Quem vive de criatividade também não pode repetir as fórmulas que deram certo. Para um ser criativo, repetir o sucesso é fracasso. Quero ousar mais. Experimentar mais. Experimentar e falhar. Experimentar e acertar. Mas, acima de tudo, experimentar e manter uma linha coerente com aquilo em que acredito. Medo de fracassar? Muito. Mas preciso ser honesto com minha voz interior, com meu feeling. Até escrevi num guardanapo antigo: “Siga sua intuição. Ela é a sua mãe invisível.” Em outro, mais recente, desenhei com minha caligrafia: “Sem esforço, o que é DOM dura pouco.”

Os guardanapos, inconscientemente, me orientaram e ajudaram a tomar algumas decisões. Espero contar com vocês em cada etapa dos meus futuros projetos. Se vão vingar ou morrer na beira da estrada, não sei. Mas podem ter certeza de que, em todas as plataformas que for explorar — música, desenho, palavra —, serei o mais transparente possível com minha sensibilidade. Não posso fugir de quem sou.

O caminho será longo, mas também muito bonito. Minhas pegadas têm muito mais fôlego quando são seguidas pelos passos que vocês dão.

Com amor e poesia,

teste[O LIVRO MAIS DESGASTADO DA MINHA ESTANTE]

leminski

O livro mais desgastado da minha estante usa bigode e tem a pele alaranjada. Leminski, com toda sua poesia, me disse tanto em tão poucas – e não ocas! – palavras. Paulo, com todo seu carisma e sensibilidade, me encaminhou ao lugar mais intenso que um verso livre é capaz de nos levar: ao nosso próprio universo criativo.

A publicação exposta na minha prateleira é uma edição recente, de 2013. As traças não tiveram tempo de corroer aqueles haicais impressos em papel pólen soft. A inspiração é que tomou conta da minha cabeça ao ler infinitas vezes cada verso curto: finito visualmente, eterno na mente. É essa sensação de permanência que a poesia nos dá após ler um poema que determina a longevidade de uma obra poética. Paulo Leminski, em mim, é para sempre. Quando leio seus livros me sinto livre. Sem as amarras acadêmicas. Sem as algemas métricas. Sem o rigor da poesia tradicional.

Toda Poesia me acompanhou tantas vezes nas idas e vindas ao trabalho – um percurso que começava no Flamengo e terminava na Barra da Tijuca. Para quem não mora no Rio de Janeiro, essa distância equivale, mais ou menos, do planeta Terra até a lua. Em dias de chuva, esse trajeto aumenta consideravelmente.

Muitos condenam os leitores que rabiscam ou interferem graficamente nos livros. Eu já acho que um livro marcado é um livro vivido. É sinal de que aquela leitura, de alguma forma, foi importante naquele momento. É a prova de que a relação leitor-autor foi realizada com sucesso. O livro te marcou tanto que você retribuiu deixando marcas também.

A minha letra tremida, resultado de uma parceria maligna entre as curvas da Av. Niemeyer e da velocidade desnecessária do motorista do ônibus, é presença garantida em todas as 424 páginas do livro. Sim, rasurei cada uma delas. Todas têm uma intervenção minha: seja um desenho desengonçado, seja um traço incompleto, seja um esboço de uma possível ideia que não dará em nada. O importante é escrever. A escrita não pede explicação. Ela exige apenas que o poeta escreva.

As anotações datam de 3 anos atrás. Os registros da lapiseira 0.5mm já estão um pouco apagados pelo tempo e pela fricção constante das páginas, umas nas outras. O tempo é realmente uma borracha lenta. Alguns guardanapos esquecidos mudaram de função e hoje servem como marcadores de páginas aleatórias. Sempre gostei e proteger minhas criações dentro de livros marcantes.

Dessas leituras, não nasceram os meus melhores versos, mas, sem dúvida, os meus melhores raciocínios. Por exemplo, na página 147, leio a minha caligrafia: “Poesia é quando o sujeito verbaliza o silêncio que há em si”. Um pouco antes, na página 313, minhas mãos escreveram “Longo caminho para um logo destino”. Já a página 394 revela uma curiosidade. Ou um desespero. É a Única mensagem escrita em caneta preta. Talvez para eternizar esse verso: “Eu também quis que o infinito se acabasse em nós”.

Um livro inspirador nunca termina na última página. Ele continua para sempre na sensibilidade do leitor. Afinal, o que se desgasta é o objeto físico. A alma do livro, a cada releitura, é renovada. Desgastado pelas traças, pelos raios solares, pelas rasuras de todos os lápis que já passaram por ele, o meu Toda Poesia continua mais vivo do que nunca na minha estante, alimentando constantemente os meus novos espasmos criativos.

E, você, qual o livro mais desgastado da sua estante?

testeO verso da criação – a colisão, o nó e as palavras

img_20160819_102805011

Todo livro, no fundo, é uma tentativa de responder a uma grande pergunta. Uma pergunta muitas vezes invisível, inconsciente, escondida em nós. As páginas é que vão desenhando aos poucos – e por conta própria – as nossas respostas até então desconhecidas.  

Para onde vão os nossos silêncios quando deixamos de dizer o que sentimos? Esse foi o meu ponto de partida na hora de estruturar as diferentes partes do meu novo livro, Ilustre Poesia. As respostas que foram surgindo internamente, me ajudaram a moldar os caminhos que acabaram impressos nas 224 páginas do livro. Ilustre Poesia está dividido em três partes. Cada uma com sua personalidade, sua força, sua fraqueza. Cada uma com suas cores, seus temas, seus sentimentos. Cada uma com sua aparente independência. Digo aparente porque nenhuma é capaz de sobreviver por muito tempo sem a existência da outra.

untitled

A primeira, À espera de uma colisão, traduz o lado onírico do Antônio. É a busca pelo mundo da inspiração, da imaginação. É o despertar da poesia dentro do personagem. Ele descobre que o espaço, às vezes, se expande para dentro de nós. Somos maiores quando nos encolhemos em nosso próprio universo.

untitled

A segunda, A força de um nó frágil, aborda assuntos mais confusos, imprecisos: o caos da criação. As ideias chegam feito ondas gigantes. Elas precisam de calmaria. Os traços surgem feito correntezas incontroláveis. Eles necessitam de tranquilidade. Essa parte representa a busca pelas referências no processo criativo. A própria imagem do mar reforça essa ideia de movimento constante, de bagunça infinita, de rumo impreciso, mas sempre em busca de algo preciso. A originalidade? Talvez…

untitled

Já a terceira, O destino das palavras, é a parte mais consciente do livro e é marcada por um desfecho inesperado que abre infinitas possibilidades sobre o futuro do Antônio – o personagem – e do Poeta Desconhecido – o narrador desse final. 

Todo livro, no fundo, é uma tentativa de responder a uma grande pergunta. Ilustre Poesia não busca respostas, mas, sim, mais e mais e mais perguntas. Não me pergunte por quê. 

testePor trás da poesia

POESIA

A poesia, por mais escancarada e rasgada que seja, ainda é fachada.
Disse aí acima a minha própria declaração polêmica.
Como dizer algo tão rasteiro do sagrado que é o poético?
Mas não é raso, veja bem. A palavra que é pequena, coitada, diante de mim, de nós, pouco tem. Infelizmente é preciso reconhecer que até a minha estimada, amada, palavra se parece comigo: limitada.
Um verso é só o que está por fora, o que sobrou, o que foi escolhido para tradução. Tradução de uma língua não falada. Existe um universo por trás da poesia, sabia?
Por trás da poesia há carne e osso. Alma e gosto. Desalma e desgosto.
Por trás da poesia há palavras empoeiradas que foram jogadas debaixo do tapete. Há também umas conversas jogadas fora, outras de pé do ouvido.
Há um sonho inteiro, um amor dividido.
Por trás da poesia há um filme de terror visto por uma pessoa só, de olhos fechados. O filme tem participação especial de outro, fantasioso, e uns takes de comédia.

Por detrás de cinco estrofes existe um romance de mil páginas. Barroco, moderno, policial e eterno. Um tratado, umas cartas quilométricas molhadas em lágrimas e beijinhos de batom, como aquelas feitas pelos adolescentes, dedicadas aos seus ídolos — isso ainda existe?
Escondidos na poesia existem uma criatura e as milhões que moram nela. Sangue, lágrima e coisas não substanciosas. Coisas intangíveis. Umas visões delirantes como beleza no vento, grandeza numa folha caindo amarelada, admiração por um velho de bengala atravessando a rua e carregando suas próprias compras.

Por detrás da poesia existe uma alma analfabeta.
Com esforço, ela junta as sílabas das artérias, as vogais dos olhares e as frases soltas do mundo. Com dificuldade, insere as consoantes que aprendeu na vida acadêmica e lá vem um verso tímido. E outro e outro e outro. A poesia final é como uma janela para quem está passando pela rua poder dar uma espiadela dentro da alma analfabeta e se surpreender com o que a iletrada ensina.
O universo se esconde num verso, as palavras são frágeis como o ar.
E a poesia só mostra que todo esse meu caos infinito
pode rimar.

testeO verso da criação – uma abertura sonora

IMG_20160511_194917 (1)Imagens do processo de criação de Ilustre Poesia

No começo do livro, a ideia foi apresentar aos que ainda não conhecem ou aprofundar um pouco mais aos que já conhecem a história do personagem Antônio. A linguagem das primeiras páginas — a letra da música — é uma espécie de graphic novel em guardanapos.

Nessa abertura, eu quis manter uma linguagem bem próxima dos meus dois primeiros livros para que o leitor fosse percebendo aos poucos o meu amadurecimento tanto na junção dos traços quanto na formação das sílabas. O livro marca o início de uma nova fase criativa sem perder a mesma sensibilidade de sempre. Minha intenção ao unir o silêncio de uma página impressa com a sonoridade da palavra cantada foi oferecer aos meus leitores uma nova experiência com o universo de Eu me chamo Antônio.

ilustre poesia

Essa nova experiência só foi possível graças aos amigos que encontrei pelo caminho. A composição é uma parceria musical com a banda Versos que Compomos na Estrada. Eu já era fã do Versos antes de eles me chamarem para desenhar a capa do primeiro disco, de 2014. Logo depois veio o convite para ilustrar a arte do novo compacto do grupo, “Desate” (2015). Nossa relação deu muito certo porque temos uma sensibilidade muito parecida ao valorizar as coisas simples da vida.  Usamos a linguagem da alma; acreditamos que só ela é capaz de tocar o coração dos meus leitores e/ou dos ouvintes do Versos. No meio da canção, o ator e poeta Gero Camilo faz uma participação mais do que especial.

A letra da música é a apresentação do personagem Antônio. É como se as primeiras páginas do livro (da 7 a 37) fossem musicadas. Nela, falo de como o personagem nasceu, o que ele representa, o que deseja, o que sonha. Espero que gostem 😉

>> Leia um trecho de Ilustre Poesia


Letra: Pedro Gabriel
Música: Pedro Gabriel e Versos que Compomos na Estrada
Vozes: Lívia Humaire, Markus Thomas e Gero Camilo
Violão: Markus Thomas
Violino: Nicolas Krassik
Violoncelo: Bruno Serroni
Produção musical e mixagem: Lucas Mayer
Masterização: Rodrigo Deltoro
Gravado no Studio Dahouse, São Paulo

testeO Solar dos Abacaxis

Solar

O Solar dos Abacaxis (Fonte)

Leio no jornal que a velha casa rosa, ornada com 14 abacaxis verdes de ferro fundido, na rua Cosme Velho, perto da entrada do túnel Rebouças, na Zona Sul do Rio de Janeiro, será, enfim, recuperada. Conhecido como Solar dos Abacaxis, o imóvel data de 1843 e foi projetado por Jacinto Rabelo, discípulo do famoso Grandjean de Montigny (1776-1850). A propriedade pertence aos 13 herdeiros do casal Marcos Carneiro de Mendonça e Ana Amélia Queiroz. Apesar de ser tombada pelo Instituto Estadual do Patrimônio Cultural (Inepac), está em péssimo estado de conservação, além de não ter água nem gás.

Torço para que prospere o projeto – liderado pelo arquiteto Adriano Carneiro de Mendonça, o professor Bruno Balthazar e os curadores Bernardo Mosqueira e Ulisses Carrilho – de transformá-la em espaço cultural. Afinal, este sempre foi o sonho de seus antigos proprietários. Ana Amélia era poetisa e foi fundadora da Casa do Estudante do Brasil e da Associação Brasileira de Estudantes. Marcos Carneiro, além de goleiro da Seleção e do Fluminense, dizia-se “heurista” (aquele que sabe encontrar solução para os problemas) e foi um grande colecionador de documentos e livros sobre a história do Brasil. Portanto, faz todo sentido erguer ali um centro de cultura.

Meu livro Os Guinle nasceu nessa casa, ao longo da convivência que tive a sorte de ter com Marcos Mendonça. Não faço parte da família, mas sou herdeiro intelectual do Solar dos Abacaxis. Sempre que estou na rua Cosme Velho e passo à sua frente, sinto dó. Independentemente da minha ligação com o casarão, acho importante que a cidade se mobilize não só para recuperar o Solar dos Abacaxis, mas também o vizinho Largo do Boticário, duas joias da arquitetura carioca.

testeIemanjá disse não

Vista do Arpoador

Vista do Arpoador, de Rafael Mussel

O ano-novo começara havia seis minutos quando os aparelhos apitaram e os batimentos cardíacos do meu melhor amigo viraram traço. Inerte, mas ainda com os olhos abertos, ele não largou minha mão ao partir. Tive de fazer força para me soltar e, com cuidado, mover suas pálpebras e esconder sua expressão de medo e espanto.

Selma não aguentaria. Essa mulher envelhecera tanto nos últimos dois anos que parecia ter ficado vazia, oca. Seu rosto fora puxado em várias direções pelo sofrimento. Ela agora lembrava uma pintura expressionista ou uma instalação abstrata. Eu precisava manter a calma, organizar tudo.

Enfrentei, no centro funerário, o calor do primeiro dia do ano. Um homem queimara cem por cento do corpo com fogos de artifício, outro morrera atropelado, a adolescente não sobrevivera à primeira experiência com drogas pesadas. E, sim, o velho que estava em coma havia anos resolvera desistir do mundo no mais inconveniente dos momentos.

Tínhamos pressa, Selma e eu. Olavo se tornara radioativo, as pintas de dálmata em seu corpo não eram nada adoráveis. Dava até para entender o receio dos enfermeiros. Ele virara um esqueleto humano cujo suor exalava cheiro de carne podre. Só amando muito para aguentar. Quando vi meu reflexo no espelho, percebi que também perdera peso, meu cabelo estava enorme. Parecia um palhaço faminto.

Foi preciso pagar um extra para que o colocassem no saco preto, como lixo tóxico. Selma perguntou se era mesmo necessário, queria ainda vê-lo, despedir-se mais uma vez. Não, era melhor fazer isso agora — não sei como reuni coragem para dizer essas coisas a ela. O último adeus da mãe, zíper fechado.

Embalado no saco preto, dentro do caixão, a sete palmos embaixo da terra. Cemitério central, enterro às duas e meia da tarde de 1o de janeiro. Pouca gente compareceu. Tavinho era quase tão temido quanto as crianças radioativas de Chernobyl. Ninguém queria chegar perto. O medo é o maior inimigo da compaixão.

Exigi do médico pílulas para pôr Selma para dormir. Levei-a para casa, a receita dizia uma pílula para induzir oito horas de sono. Dei-lhe logo três. Ela bem que podia perder uns dias dormindo. Vasculhei o resto da casa, tirei todos os medicamentos e levei comigo o frasco que trouxera. Só depois me dei conta de que havia deixado facas afiadas na cozinha. Além disso, se ela quisesse acabar com a própria vida, poderia simplesmente se atirar da janela.

Voltei para casa de ônibus, não tinha como pagar táxi. A praia estava suja, Iemanjá devolvera todos os presentes vagabundos que lhe deram na noite anterior. Os garis já haviam revirado a areia, mas tudo ainda fedia a perfume barato e mijo.

Era fim de tarde, o tempo estava fechado, chuviscava e o Arpoador estava quase vazio. Então me joguei das pedras direto na água, algo que sempre quisera fazer. Ao perder o medo de morrer, a gente ganha coragem para tudo. Não nadei, não tentei boiar, entreguei-me como uma oferenda atrasada.

Queria virar uma pedra pequenina, perdida no fundo do mar. Mas as ondas me jogaram, em uma questão de segundos, de volta à praia. Eu pertencia à mesma categoria dos vidros de alfazema e das palmas murchas. Iemanjá também me cuspira.

Não era hora, como Tavinho bem me avisara. Uns dias atrás, naquele meio do caminho de vida e morte em que ele se encontrava, havia reunido forças para, olhando nos meus olhos, proferir uma sentença. O tipo de verdade que só os moribundos são capazes de captar:

— Você vai morrer quando for um homem velho. Muito velho.

testeO bom amor é gentil

1234

A caminho de casa, ela viu um daqueles cartazes prometendo amarração para o amor. Por um instante, a ideia de pagar só após o resultado lhe pareceu boa. Estava tão fora de si, tão apaixonada, que a chance de ter um amor submisso, de ficar no controle da situação, lhe dava certo conforto.

Concordar, mesmo por alguns segundos, com um projeto tão estapafúrdio como amarrar alguém, ainda que metaforicamente, foi suficiente para ela entender que era hora de dizer adeus. Precisava dar um basta na situação. Apagou o número de telefone dele e sentiu-se bem por um momento.

Só havia um problema: ela sabia de cor os nove dígitos. Sempre fora boa em aritmética, mas nunca soubera fazer as contas do quanto deveria amar. Desenvolveu um sistema que parecia funcionar. Se decorasse o número do pretendente, era sinal de que gostava dele. Caso lhe escorregasse da mente, seria melhor desistir.

Fez as contas e concluiu que não vinha sendo honesta sobre seus sentimentos havia pelo menos três meses. Na semana anterior, descontrolara-se ao contatá-lo em três ocasiões diferentes, um número além do saudável para uma relação não exclusiva. Sinal de que era hora de sair de cena sem fazer barulho.

Antes do fim, uma dúvida: dizer algo ou calar-se? Se não falasse nada, suas chances de sucesso seriam zero. Caso expusesse seus sentimentos, haveria a possibilidade, ainda que matematicamente desprezível, de reciprocidade. Poderia aceitar a derrota calada ou apostar suas fichas na vitória.

Decidiu esperar que aparecesse, o que sempre fazia quando ela menos esperava. Se ele nunca mais lhe telefonasse, o acaso decidiria a situação. Duas vagarosas semanas se passaram, e ele reapareceu. Doce como sempre, como se os dois se tivessem visto no dia anterior.

Ela tivera tempo de praticar o discurso, que seguiu com rigor. Sem ficar emocionada, porém tomando a precaução de não soar fria, disse que talvez fosse melhor se eles deixassem de se ver. O motivo: estava começando a gostar demais dele e não queria mais partilhá-lo com ninguém.

À medida que seus sentimentos atingiam o ponto de fervura, retirar-se parecia a coisa certa a fazer. Ele ficou mudo, sem saber o que dizer. Gaguejou e se despediu. Não lhe desejou boa sorte nem felicidades, não disse nenhuma frase de efeito.

Ela não havia segurado ou dominado seu amor. E não queria forçar ninguém a amá-la, buscava algo gentil. Se fosse necessário esperar um pouco mais até conseguir o que desejava, tudo bem. Uma garrafa de vinho poderia ser aberta imediatamente para ajudá-la a passar o tempo. Seria uma pequena fonte de alento.

Enquanto procurava o saca-rolhas, ouviu insistentes batidas em sua porta. Ele chamava seu nome. Ao abrir, olhou nos olhos dele, sem dizer nada. Era o mesmo homem, mas estava mudado. Quase sem fôlego, pois havia subido três andares correndo pelas escadas, ele fez só uma pergunta:

– Então, como é que a gente vai fazer?

testeDas brancas madrugadas

a-baricco

Dia destes fui buscar, numa pequena cidade do interior, uma amiga que chegava num ônibus ao alvorecer. Saí da cama às cinco da manhã, mergulhando naquele mundo mágico das coisas desacordadas — um mundo silencioso, estático e gelatinoso, como que preso num feitiço, tal qual o reino onde a princesa, vítima de uma malévola bruxaria que uma feiticeira lhe lançou ainda no nascimento, é posta a dormir depois de tocar com o dedo uma roca proibida. A essa hora da madrugada as casas cerradas guardam o sono dos seus donos; o tempo anda de chinelas e pisa leve, na ponta dos pés, como uma daquelas tias velhas dos poemas de Mario Quintana.

Acordar no meio da noite — para mim, que sempre desperto com o sol alto — não para sossegar o filho preso num sonho ruim, amamentar o bebê no berço ou trocar sua fralda e sentir a delícia do seu corpinho cálido, mas para sair à rua, é uma experiência estranha. A rua não é a mesma durante a noite. A cidade não é a mesma nem ampara nas suas calçadas os mesmos habitantes diurnos. Tudo é da lua e das estrelas. Até o mar é outro à noite. Misterioso e amarelado, é uma colcha espessa que geme como um grande animal que subitamente perde o sono.

Assim me fui, naquela madrugada, dirigindo o carro pelas ruas desertas. O trajeto foi feito em cinco minutos — no meio da noite, a cidade entrega-se sem receios. Na rodoviária, os únicos laivos da vida: as caras insones dos dois guardas; o rosto triste, acabrunhado, da moça no balcão da companhia me dizendo que o ônibus chegaria em dez minutos; e uns poucos e ruidosos adolescentes desfeitos de alguma festa que passavam pela calçada cantando alto por poucos instantes — logo suas vozes morreram, apagaram-se como uma fogueira na qual se joga um balde de água. Até para eles o silêncio imponderável da cidade adormecida causou estranheza. O grupo seguiu outra vez quieto pela rua deserta, enquanto eu buscava um banco onde me acomodar.

Os dez minutos transformaram-se em quarenta, uma eternidade de silêncios e bruma. A madrugada arrastou-se preguiçosamente na sua esteira de segredos. De repente, como um aviso ou uma mágica, uma criança chorou no prédio em frente, e o choro, agudo e sincrônico, abriu caminho para a vida: lá para os lados do horizonte, uma nesga de vermelho se incendiou, trazendo consigo a primeira luz da manhã, e numa esquina dobrou o ônibus que eu esperava. Enfim, o dia finalmente começou. Em seu quarto na rua em frente, a criança parou misteriosamente de chorar.

 

Na legenda — falando em madrugadas e seus mistérios: Alessandro Baricco, autor de Três vezes ao amanhecer, livro delicado e inesquecível que passeia pela bruma dos amanheceres. Emocionante.