testeTecendo os fios da história

Há tempos, eu não abraçava a minha mãe tão longamente. Ela tinha acabado de chegar do Ushuaia, na Argentina, a capital da Província da Terra do Fogo. Ficou 18 dias fora. Lá pelas bandas dos hermanos, mi madre se pôs a ler a coluna dominical que escrevi sobre os talentos culinários dela. Disse que meu texto havia sido o seu presente de Natal e de Ano-Novo. Aqui, juntas novamente, ela afirmou que minha forma de demonstrar amor era “muito linda”. Isso mexeu comigo, porque Dona Sônia estava falando justamente da minha escrita. Se, para ela, cozinhar é um ato de amor, o meu é escrever.

A palavra vibra dentro de mim. Ela me desnuda. Revela uma parte do muito que carrego, porque só através das letras consigo me mostrar. Às vezes, quando não sou entendida em uma conversa, tenho uma vontade imensa de falar: espera aí, deixa eu escrever. Escrevendo, me sinto inteira, pois as palavras são a minha forma de ler o mundo. Quando teço um texto, procuro expressões que possam dizer mais do que sou capaz. Sou como uma bordadeira, que escolhe fio a fio aqueles que vão ornamentar o seu tecido.

Comecei a “fiar”, oficialmente, há 22 anos, quando fui trabalhar em um jornal do interior de Minas Gerais, estado onde nasci. Mas, vasculhando a memória, acho que escrevo desde a infância. Aos 8 anos, fiz meu primeiro livro a respeito de um menino que sonhava em mudar o mundo.

Cresci e o desejo de contar histórias continuou dentro de mim. O jornalismo me deu a chance de tocar as pessoas pela palavra. Por causa dele, conheci mundos habitados por poucos, lugares inacessíveis, onde só se pode entrar se alguém te der a chave. Acessar o interior do outro é uma experiência única, ainda mais quando esse mergulho tem a finalidade de ajudar a construir a memória de um país.

Assim, nesse exercício de revelar o esquecimento, cheguei à história de Holocausto brasileiro, minha estreia na literatura, em 2013. Depois, mergulhei na ditadura para buscar um corpo desaparecido há 35 anos e desvendar o que a história oficial transformou em mentira e mistério. Cova 312 foi minha segunda incursão no mundo literário, em 2015. Com Todo dia a mesma noite, minha nova obra, mergulhei ainda mais fundo para buscar em um universo de dor uma forma de apresentar um Brasil acostumado a esquecer.

Foi o radialista Marcos Moreno, que trabalhava junto ao meu grupo de comunicação em Minas Gerais, quem me despertou para a necessidade de falar sobre a Boate Kiss, incendiada em 27 de janeiro de 2013 em Santa Maria, no Rio Grande do Sul. Na hora, descartei essa “ideia maluca”, afinal, tudo já tinha sido dito. Moreno insistiu: “Você não entende. Precisa contar essa história.” E foi a insistência dele que me fez parar para perguntar por quê. Será que havia alguma coisa que ainda precisava ser falada sobre essa tragédia?

Resolvi me apresentar a alguns pais que encontrei nas redes sociais para saber como estavam. Dias depois de enviar as mensagens, recebi a primeira resposta de uma mãe que perdeu a filha na boate, aonde tinha ido para comemorar o seu aniversário de 22 anos. “Nós precisamos ser ouvidos”, ela escreveu. Isso me intrigou, já que o caso havia ganhado visibilidade mundial.

A fachada da Boate Kiss (Foto de Marizilda Cruppe)

Depois disso, eu precisava ver, de perto, como estava o coração do Rio Grande. Quando desembarquei em Santa Maria, em 2016, encontrei pessoas emocionalmente abandonadas, porque se recusavam a esquecer seus amores. Voltei outras quatro vezes, durante dois anos. Foram 24 meses de escuta. Setecentos e vinte dias de imersão em um luto que jamais passará. Essa experiência foi contada em um livro que tem 55 mil palavras, nenhuma delas é sinônimo de superação. Não se supera a morte de um filho. Pedir superação é uma completa ausência de empatia pelo sofrimento do outro.

Todo dia a mesma noite não trata apenas da dor de quem perdeu alguém. O livro escancara a nossa humanidade. Com ele, eu entrego a você, leitor, a chave de uma história ainda não contada. Depois de abrir essa porta, meu desejo é que jamais esqueça o que leu. Mas esteja preparado. É que talvez, ao sair, você perceba que alguma coisa mudou na sua forma de olhar.

testeEnquanto o asfalto ainda está quente

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Liga o toca-fitas. Coloca um rock antigo. Se joga na estrada que o asfalto ainda está quente, não dá pra sentir? Tira os sapatos que dá. Eu só dirijo descalça.
Por isso meus sapatos são facilmente tiráveis,
assim como deveriam ser meu medo da chuva, minha cautela exagerada, minhas previsões erradas, minhas caras lavadas de sereno quando escurece e o asfalto perde o quente.
Perde para o calor que bate na alma, num fim de tarde de inverno. Quando em silêncio escuto uma música, namoro a janela
e me sinto eterno.
Também não gosto muito do freio. Nem de nada freia a gente, por isso eu ouso um novo antigo, muito antigo, de abrir a mente, segurar o quente.
Mas é claro que falo do amor, é ele somente
que eterniza as tardes de inverno. Diviniza as noites de inferno.
Aumenta o volume do rock antigo, quem sabe ele não fala mais alto que as más lembranças e embala em boa melodia as belas esperanças.
Cantarola alto como se a gente não morresse, como se você não fosse.
Lá se vai o Sol por entre duas colinas cheias de cana-de-açúcar:
o dia seguinte vai ser doce!
Coloca um jeans jogado se aproveita do amor enquanto ele ainda está quente. E sereno.
Se eu fosse um chão, seria estrada. Se um adjetivo, alada, mas sempre descalça para não estranhar a dureza do asfalto.
E amaria o silêncio nas madrugadas de verão.
Viajaria
com o pensamento preso
no sonho mais alto.

Clarice.

testeA crise da OSB e a incompetência da elite política do país

Muitos amigos meus têm dificuldade de reconhecer que a crise moral, ética, política e econômica no Brasil é fruto da incompetência da elite política do país. A enrascada em que nos metemos foi um veneno para dois setores sensíveis: educação e cultura. Recentemente, foram divulgados os dados do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica, o Ideb, e os resultados foram decepcionantes. Na área cultural, o quadro não está diferente.

No Rio de Janeiro a crise atingiu em cheio a Orquestra Sinfônica Brasileira (OSB). Com um rombo de R$ 15,5 milhões, os músicos não recebem em dia e o pagamento de seus planos de saúde também está atrasado. A fundação mantenedora da OSB chegou a pensar em cancelar a parte final da temporada de 2016, mas, após votação, decidiu-se por seguir mantendo parcialmente a agenda. Alguns concertos no Theatro Municipal, por exemplo os destinados a estudantes da rede pública, foram cancelados por falta de recursos para o aluguel do teatro.

O prefeito do Rio, Eduardo Paes, se prontificou a dar uma ajuda de R$ 2,5 milhões e a interferir junto ao BNDES. É bom lembrar que se trata de uma ajuda que não resolve o problema.

Quem já leu o livro Os Guinle sabe que os problemas de custeio da OSB são antigos. Quem ainda não leu, terá a chance de conhecer a luta de Carlos e Arnaldo Guinle em prol dos músicos populares e eruditos brasileiros. Os dois irmãos sempre se preocuparam em criar um ambiente favorável ao desenvolvimento musical no Brasil. E, independentemente da crise, hoje o país carece de empresários com esse tipo de preocupação.

testeO verso da criação – a escolha do nome

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Queridos leitores, queridas leitoras, sei que me ausentei de minhas colunas nestes últimos meses. Confesso que cada terça-feira que passava em branco meu coração apertava um tanto. Eu queria contar novidades e detalhes do que estava criando em segredo, mas preferi esperar o momento certo para revelar o motivo de tamanha demora. Eu estava mergulhado na estrutura do meu novo livro, que hoje, por coincidência, começa a ser distribuído pelas principais livrarias de todo o país.

Na última semana, tive a oportunidade de ver pela primeira vez Ilustre Poesia impresso. Foi uma emoção rara; passou um filme na minha cabeça. Lembrei-me de todas as reuniões demoradas (e fundamentais!), de todos os guardanapos descartados, de todas as noites em branco. Tive, então, a ideia de dividir o roteiro desse filme com vocês. Trata-se, porém, de uma película estática, gravada apenas em palavras. O movimento fica por conta da emoção de cada um ao abrir, ver, ler e fechar o livro.

Contarei um pouco dos bastidores do nascimento das páginas, algumas curiosidades que aconteceram durante o parto e, principalmente, o processo criativo dessa espécie de trilogia de um pré-romance — que são os livros Eu me chamo Antônio. Resolvi chamar essa série de textos de O verso da criação.

Hoje e nas minhas próximas três colunas falarei exclusivamente sobre o Ilustre Poesia. Combinado?

Vou começar pela escolha do nome. Para alguns, Ilustre Poesia pode soar um pouco prepotente, como se eu quisesse colocar minha poesia num patamar mais nobre, superior. Muito pelo contrário. A intenção foi justamente desmitificar o peso que há por trás da palavra poesia, trazê-la um pouquinho para o chão, mostrar que cada um de nós é capaz de caminhar — a passos largos ou a curtas pegadas — nessa estrada da criação poética.

Ilustre é um adjetivo de dois gêneros que qualifica uma pessoa estimada, que se destaca por ser conhecida, que tem qualidades dignas de apreço. Ilustre também adjetiva o que é nobre. Logo, ser ilustre é ser digno, é ser importante, é ter destaque. Mas ilustre também representa a primeira e a terceira pessoas do singular do verbo “ilustrar”. Ilustrar nada mais é do que tornar ilustre, esclarecer, elucidar ou adornar algo com ilustrações.

Poesia é tudo o que desperta sentimentos, emoções. No meu primeiro livro, defini o que ela representa para mim: “Poesia é tudo o que não cabe no poeta.” Todas as palavras que não consigo mais proteger, todos os desenhos que não tenho mais coragem para apagar, viraram poesia. Foi exatamente isto que me propus a fazer quando comecei a rascunhar as primeiras ideias desse projeto: eu quis ilustrar minha sensibilidade, dar vida à minha imaginação, transcrever de alguma forma meus silêncios.

Ilustre Poesia é um diálogo constante entre a sílaba e o traço. É uma colisão sensível entre a fantasia e a realidade. Uma conversa silenciosa entre o mar e o espaço. Um caminho onírico de um poeta desconhecido em busca do seu chão, da sua personalidade.

testeSobre o fim do amor

 

The Way We Were

Você passa anos com uma pessoa. Anos. A ponto de misturar-se a ela. Vocês já são um híbrido de si mesmos, como duas cores que formam uma terceira. Como dois elementos da tabela periódica se misturam formando um novo, vocês são reativos, afins, um desdobramento. Às vezes ela pensa numa ideia, mas nem pode mais concluir sozinha se a ideia é boa. Precisa dele. Às vezes ele quer dormir, mas não consegue pegar no sono, porque ela não está. Não é só o corpo; é o calor. Vocês estão acostumados um com o outro, como o colchão está acostumado com os dois. Ele começa a frase, ela termina. Ele compra o livro, mas quem lê é ela. As brigas também são assim. A culpa é ora de um, ora de outro. Vocês se complementam no amor e na guerra.

Como duas partes de uma mesma coisa, existe um lado que encaixa, outro que desencaixa. Nem os dois lados de um mesmo rosto são totalmente simétricos. Nem os dois seios de uma mulher. As duas nádegas de um homem têm certa diferença. As digitais da mão esquerda não são iguais às da direita. Porque toda igualdade guarda uma desigualdade. Como a vida guarda a morte. Como do dia é que vem a noite. O que se complementa, se desdobra, se recria, se transforma. E, às vezes, se desencaixa.

Você passa anos com uma pessoa e, então, bum! Os grandes romances estão cheios disso. O cinema faturou milhões. De repente você tem que se redescobrir — literatura e cinema já falaram disso também. E muito. Do que você gostava mesmo: massa ou carne? Tolstói ou Eça de Queiroz? Dormir até tarde ou correr de manhã cedo? Um travesseiro ou dois? Serra ou mar? Vinho ou cerveja? Você passa anos com uma pessoa e, de uma hora para outra, a vida dá uma guinada — os anos e as pessoas nos transformam. Ainda bem. Mas, sob o verniz do outro, você ainda é o que é. Atrás de todas as lembranças, de todas as viagens, de todo o sexo na sala e de todas as brigas no quarto. Você ainda é o que é. E o outro também.

Cada um irá para o seu lado, levando metade das coisas e a própria versão da história. E o tempo vai passar. Você vai evitar algumas esquinas. Alguns amigos o evitarão. Certas datas serão um saco. Algumas noites serão incríveis. Mas, numa madrugada — talvez chuvosa, talvez enluarada —, num supermercado ou numa caminhada à beira-mar, num jardim entre roseiras ou num coquetel em meio a desconhecidos, a saudade vai bater. Como um soco na cara, uma dor no peito, um infarto, uma lágrima de sal. Ou não.

Os grandes romances estão cheios disso. O cinema faturou milhões. Compositores inspiram-se nisso todos os dias. Mas só você sabe como é. E como não é.

 

Imagem: Nosso amor de ontem (The Way We Were – 1973), filme dirigido por Sydney Pollack, com Barbra Streisand e Robert Redford. Separe alguns lenços, mas vale a pena.

testeNo tempo do afiador de facas

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Foto: Bill Brand

Cruzava por uma rua com meu filho mais velho quando ouvimos um barulhinho característico — raro hoje em dia —, que evocou minha infância. Foi assim, meio sem pensar, que eu disse: “Olha o afiador de facas!” Meu filho me olhou com espanto — afinal, quis saber ele, eu estava falando do quê? Hoje em dia quase ninguém espera o afiador de facas. Creio que a maioria das pessoas simplesmente compre uma faca nova quando a sua perde o fio ou que as facas de hoje tenham um “fio eterno”. Seja lá como for, é incomum ouvir a musiquinha do afiador, como ouvia antes, quando eu era menina — aquelas notas entravam pela janela, e lá se ia minha mãe pela porta.

Ante o espanto do meu menino, fiz uma pequena e saudosa digressão sobre minha infância. Naquele tempo, havia o afiador de facas, o moço que vendia casquinhas (outro barulhinho típico, mas, dessa vez, eram as crianças que ficavam eufóricas), o vendedor de puxa-puxas. Havia, de fato, a rua e a interação diária e pacífica com aquela onde a gente morava. Todo mundo brincava na calçada depois da aula e ganhava as próprias moedas para comprar casquinhas e puxa-puxas. Meu filho ouviu a história com um sorriso. Um lampejo de curiosidade perpassou seus olhos bonitos, e voltamos à vida real. Ele quer ganhar um negociozinho eletrônico no seu aniversário. Reatamos, ainda na rua, as tratativas a respeito. Dentro de mim, no entanto, confesso que ficou uma tristeza… Não que meu menino tenha demonstrado inveja da minha infância pendurada no portão, mastigando puxa-puxas. Afinal, quem pode sentir saudade daquilo que não conhece? Mandar nossos filhos (criados nas perigosas metrópoles brasileiras) para a calçada, com uma bola e algumas horas de liberdade, pode soar-lhes tão estranho quanto abrir, no meio da floresta, a gaiola de um bichinho nascido em cativeiro.

Hoje, eles têm internet, iPad, computadores nas salas de aula, videogames, DVDs, celulares. Têm o mundo num toque de dedos. Trancados em casa — com portaria 24 horas, cercas elétricas e o diabo a quatro —, podem ir a qualquer lugar e usam e abusam da virtualidade. Mas nós… Nós tínhamos a rua, a calçada, as praças. Tínhamos o aqui e o agora.

Olhei meu filho uma vez mais; seus olhinhos brilhavam na expectativa do presente. Ele é um garoto inteligente e estudioso. Joga futebol na escola, mas nunca na rua. Enfim, talvez tudo esteja certo — e os puxa-puxas tenham sido mesmo o paraíso da cárie. Afinal, nós, humanos, sempre fomos assim: metade nostalgia do passado, metade ânsia do futuro.

teste[AS RAMIFICAÇÕES DE UM DESTINO ALEATÓRIO]

07.28 - coluna

Observar árvores imensas encolhido debaixo da sombra das folhas é um passatempo que ultimamente tenho escolhido para descansar meu passo, ocupar meu tempo. Parece que Deus está lá em cima. Às vezes, Ele é só uma folha que cai no outono. Noutras, é a totalidade, a floresta inteira. Além da beleza poética, há uma beleza filosófica nesse gesto contemplativo. Muitas questões humanas foram decididas ou resolvidas com um simples (e gratuito) ato de olhar a natureza. A queda de uma maçã, por exemplo, levantou uma dúvida na cabeça de Newton. Ali brotou a inspiração para formular a famosa teoria da gravitação. A humanidade inteira colheu esse fruto.

Enraizado feito menino diante de um armário de brinquedos que nunca alcança, imagino histórias. Se essa árvore fosse uma pessoa, será que ali, em cada percurso de madeira, haveria uma estrada de sacrifícios e de amores? E se as árvores mudassem suas ramificações em função de cada um que passa a admirá-las, como se projetassem ao vivo a nossa história? Se fossem como uma espécie de holograma natural dos nossos sentimentos, uma árvore genealógica, mas que não se limitasse aos nossos antepassados, à nossa família? Se não fosse simplesmente uma representação gráfica para mostrar nossas conexões afetivas? É como se as ramificações dos galhos fossem o epicentro de todos os nossos destinos. O esqueleto da nossa vida. Uma parábola da existência humana. A tecnologia da natureza com sua invejável estrutura de dados. Cada galho, uma escolha. Cada bifurcação escolhida, um destino diferente. Lá em cima, na copa, a esperança balança com o vento. Ela pode se desprender a qualquer momento. Uma saudade antiga vai à esquerda. Uma dor boba se enfia à direita. Viver é seguir em frente.

O amor é o caule que permite o bom funcionamento de toda essa estrutura. Alimentado pelos bons modos e pelas gentis lembranças, resiste a tempestades, flexibiliza-se para não quebrar. Quando quebra, descobre-se que não era tão amor assim. Era algo menor: uma pequena paixão, talvez. Ou ainda uma queda por alguém. Uma quedinha, daquelas que machucam só um tiquinho. Mas acho que a gente exagera na dor que sente. Parece aqueles tropeços na hora do recreio: um tombo cinematográfico no meio do pátio lotado. A gente chora muito mais pela vergonha de ser visto cair do que pela dor do próprio tombo. Os amantes choram pela vergonha de não ter sido amor. Os amores verdadeiros não choram por pequenos arranhões. Dizem que quando somos traídos nascem galhos em nossa cabeça. Bobagem. É no coração de quem trai que nascem espinhos.

Nosso destino será sempre um caminho inalcançável. Quando chegamos, descobrimos que já é hora de partir. O importante é aproveitar cada escolha, da primeira folha à última falha. Afinal não é todo dia que uma maçã cai em nossa cabeça.

teste[AS RU(G)AS DA INFÂNCIA]

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Não cresci com a presença física dos meus avós. Tanto por parte de mãe quanto por parte de pai, eles sempre foram distantes do meu convívio. Por muito tempo em minha vida, se é que podemos chamar de vida esses primeiros anos de entendimento silencioso da própria existência (sim, a infância é a idade da Filosofia. É o período do espontâneo, no qual nossas ideias ainda não estão corrompidas pelo medo da aprovação. Pena que não nos lembramos de anotar nada, pena que nos esquecemos de registrar tudo. As frases mais bonitas nascem das crianças), em que não se faz nada além de comer e brincar, brincar e comer, meus avós eram espíritos psicografados pela minha imaginação, saídos diretamente dos livros de André Luiz e das mãos de Chico Xavier para o nosso lar, para o meu lar. Ir à rua era, de alguma forma, caminhar até o desconhecido. Era me locomover até o sofá da sala de um apartamento em que eu ainda não vivia. Era ser o gibi da Turma da Mônica de uma banca no Leme que eu ainda não conhecia. Era ser o relógio Swatch com os ponteiros coloridos (o sonho de todo petit suisse!) vendido no quiosque de um país que um dia eu visitaria.

Na avenida Doutor Ênnio, soltávamos pipa até os pés sangrarem e mancharem o chão com a tinta vermelha do esforço da nossa diversão. Só depois de muito tempo é que fui descobrir que as bolhas malcuidadas tinham criado uma cicatriz igualzinha àquela que decora seu nariz, vô.

Na viela Dona Wanda, brincávamos de amarelinha e aos poucos nos convencíamos de que jogar uma pedra no céu é o que a gente passa a fazer eternamente na idade adulta. A brincadeira é exatamente a mesma. As coisas é que mudam de nome. A pedra passa a ser o nosso medo. Tentamos a todo custo evitá-la. O céu agora é o nosso sonho. Só o realiza quem conseguir pular sem perder o equilíbrio (a nossa coragem?) e sem PISAR nos limites das casas (a nossa estrutura?). Ganha quem alcançar o sonho primeiro.

Na estrada Herr Toni quem reinava era o futebol-moleque com a criançada dos bairros vizinhos. O jogo só tinha uma regra: o dono da bola deveria ser paparicado ad aeternum enquanto durasse a partida. Meu time nunca perdeu de sete a um para os alemães, como até hoje são chamados os adversários. A infância não sabe perder porque nela simplesmente não há derrota. Tudo entra na soma de compartilhar a molecagem. Hoje, o Pedrinho me pergunta: será que um dia o Brasil vai voltar a jogar futebol?

Na alameda Frau Lina, uma turma queria ser ladrão, outra desenhava uma estrela dourada no peito e se autoproclamava xerifes do pedaço. Eu sempre ficava do lado da lei. Não sei me esconder e confesso que tenho uma preguiça incalculável de ser perseguido por pequenos agentes de menos de um metro e meio para tomar uma lição de moral. Na moral, o que é moral? E outra coisa: lição se faz na escola. Não na rua. A rua é sagrada. A rua é consagrada aos deuses da brincadeira.

Dos cruzamentos dos avós nascem pais. Das esquinas dos pais nascem os filhos. Só fui conhecer o alívio de ser neto aos doze anos. Até então, eu era um neto parcelado. Ora nas férias. Outrora aos domingos. Mas fazer o quê? A bonança de ser criança também tem suas consequências. Alguém que vive espalhado no mundo não firma base em lugar algum. E nem por isso os amei menos. E nem por isso fui menos amado. É apenas o destino traçando sua cartografia afetiva. Ora aproxima. Outrora distancia. Talvez por isso não bajule companhias nem idolatre presenças. Sempre escolhi me encolher no meu mundo. Quem se encolhe também colhe coisas bonitas. Dentro da gente existe uma plantação de coisas incríveis. Nossas ruas poderiam estar mais próximas, de fato. Mas pense bem: nossos caminhos também poderiam nunca ter se cruzado. Hoje, tenho a mais absoluta certeza de que minha infância ainda brinca nas ru(g)as de trás dos meus avós.

testeDo básico ao acabamento

Escritório onde escrevo meus livros

Escritório onde escrevo meus livros

Nos últimos dias, o trabalho em cima do novo livro foi intenso. Terminamos a edição hoje, após o pingue-pongue com a editora, e estou realmente feliz com o resultado. Acho, sinceramente, que os leitores vão gostar da história. Aguardem que setembro está logo ai!

Mas um fantasma ficou me atormentando: eu precisava escrever o texto para a coluna do blog e o envolvimento com a história não me deixava pensar em nada. Eu andava acordando e dormindo com os personagens, realmente não sabia o que escrever. Só que a ideia da coluna estava bem à minha frente e ainda bem que percebi a tempo… Por que não falar um pouco sobre o caminho percorrido pelas histórias publicadas? Refiro-me ao caminho que começa na mente do autor e termina nas prateleiras das livrarias. Acho que muita gente não faz ideia do processo, então vou tentar condensar, em poucos passos, como funciona mais ou menos a coisa.

Vamos lá.

Passo 1: Escrever. Aqui, uma sequência quase interminável (só não é interminável porque há uma coisa chamada “prazo”) de verbos: ter a ideia, colocar no papel, revisar, apagar tudo, começar de novo, voltar, embriagar-se pelas cenas incríveis e pelos brancos da mente, rabiscar, imprimir, chorar, dar risada, ter insônia, digitar, deletar, ajeitar, completar, finalizar e, enfim, chegar à conclusão, meses depois, que foi bom enquanto durou, valeu, isso foi o melhor que pude fazer. Em geral, esse passo termina em um porre, numa comemoração na maior parte das vezes solitária.

Passo 2: O produto daquele esforço descomunal segue para leitores beta, que são pessoas escolhidas a dedo para criticar, elogiar e procurar incoerências que o “gênio” deixou passar. O beta é o peixe mais invocado do mundo, e acho que vem daí o nome. O beta deve, obrigatoriamente, ser alguém sem papas na língua e, se for preciso, alguém capaz de humilhar o autor com frases como: Você tá maluco? Como tem coragem de escrever uma atrocidade dessa? Importante lembrar que escritores de verdade não terminam amizades com seus betas, ainda que às vezes desejem encher-lhes a cara de socos. Xinguem o autor, mas não o livro, meu povo, porque livros são filhos e pelos filhos a gente vira bicho!

Passo 3: Nesse momento, o passo 1 é revisitado. Provavelmente sem o porre final.

Passo 4: Após a certeza de que está no ponto, o livro enfim é enviado para a editora. É, aqui, a primeira hora da verdade: quando os editores vão ler e decidir se vale a pena publicar aquilo com a sua logo na capa. Caso o livro seja considerado uma bomba (no mau sentido) e recusado, haverá motivo para novo porre do autor, dessa vez com consequências imprevisíveis. Se, por outro lado, o livro for considerado uma bomba (no bom sentido), é festa.

Passo 5: Festa? Os editores cumprirão seu papel e, independentemente do quão genial o autor se ache, vão meter a colher, sugerir cortes, alterações e inclusões, ou até trucidar o “gênio”, caso tenha passado despercebido (pelo “gênio” E pelo beta) um menas ou um ancioso (em momentos assim, é provável que até considerem a hipótese de cancelar o contrato, mas todo mundo merece uma segunda chance). Caso a relação profissional não termine em divórcio litigioso, o livro seguirá para o próximo passo.

Passo 6: Capa, diagramação, foto do autor, textos de apoio e estratégias de lançamento. Há autores que não se envolvem muito (à exceção do momento da foto, é óbvio), e há outros que tentam dar pitaco em todos os detalhes. Como fui independente, tenho costume de fazer tudo. Eu era como loja de material de construção: do básico ao acabamento. Mas, como estou em uma editora experiente e parceira, confio na criatividade da turma e sei que virá um produto final de qualidade. (A propósito, dentro de poucos dias conhecerei a capa do livro. “Ansiedade define”, como dizem por aí).

Passo 7: Esse último passo compreende, finalmente, os eventos de lançamento e a chegada do livro à prateleira. É a segunda hora da verdade: a do crivo dos leitores.

O ciclo então recomeça, com uma ideia para o próximo livro, novas alegrias, angústias e muito trabalho. Mas é claro que o próximo só existirá se a última parte do Passo 7 for satisfatória. Afinal de contas, é para os leitores que escrevemos.

Bom, mas isso já é polêmica para outra coluna.

teste[A POESIA É MEU CASULO*]

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Tenho a sensação de que a poesia é uma espécie de casulo que nos acompanha ao longo da vida. Onde nossos medos podem repousar sem medo, a coragem busca forças sem brigas e a imaginação se solta e se liberta como quando éramos criança. E gritar e gritar e gritar pelo quintal. E criar e criar e criar pelas páginas em branco, que tal? Na escrita, fragilidade e brutalidade moram no mesmo lugar. Dor e sacrifício se multiplicam para dividir o mesmo espaço. Sensibilidade e incerteza duelam no corredor entre o quarto de dormir e a sala de estar (acordado?). É como se eu morasse com as minhas palavras e elas não quisessem jantar comigo.

Se a certeza não dá certo, eu me enfio nesta carcaça de seda e peço à vida que não ceda. Se perco a esperança, me recolho nesta camada frágil e protetora e espero o tempo trazer uma nova mudança. É como se os braços da minha mãe me chamassem para contar histórias infantis. Já não sei quantas vezes escutei: “Era uma vez…” A foto do meu pai na mesa de cabeceira me faz rir. Ele se parece tanto comigo… Meu pijama de Super-homem espera o sono. À noite, quero sonhar de ser herói e espantar de vez a página em branco. Meu avô toca a campainha. Eu me emociono com a companhia dele. Nas mãos, rugas dos seus quase 60 e figurinhas da Copa de 90. Oba! Vamos passar a vida todinha colando a infância neste álbum.

Todo poeta é um pouco covarde. Esconde-se na própria obra porque não consegue se abandonar. Deseja colo, mas faz poema. Ele quer solo, mas poesia é nuvem. Sempre me refugiei nas minhas sentenças para apaziguar conflitos. Um exílio ilusório, pois nunca saio de mim. Daqui, de dentro deste casulo, vi o amor bater à porta, sempre sem avisar. Entra sem bater. Bate sem entrar. Bagunça nossa tranquilidade. Quer morar com a gente. Quer morar na gente. Volta e meia, ele dá meia-volta. Já a saudade é mais discreta: ela se apossa dos cômodos aos poucos e deixa marcas em cada ambiente até que se despede sem dizer adeus nem dar sinal de ida. Deixa apenas uma fresta aberta para a solidão. A melancolia é o quarto vazio no andar de cima.

Pela janela, vejo o tempo escapar. Quero ser menino outra vez. Soltar a minha imaginação até romper este casulo com a poesia e sair pelo quintal para desenhar com as cores daquela borboleta a palavra liberdade. Pode sair. A asa é sua!

*Crônica publicada na edição de julho da revista Arquitetura&Construção.