testeO carnaval é pop! Confira nossas ideias de fantasias

O carnaval começa amanhã e para quem ainda não pensou na fantasia perfeita, separamos algumas ideias inspiradas em filmes, séries, livros, e no melhor país do mundo: a internet! Esses assuntos rendem fantasias muito criativas, práticas e, principalmente, divertidas!

La Casa de Papel

Novo fenômeno da Netflix, La casa de papel é uma série estilo novelão que prende a atenção desde o primeiro episódio. A trama gira em torno de assaltantes ousados que invadem a Casa da Moeda, na Espanha. Eles se escondem por trás de máscaras do Salvador Dalí e um macacão vermelho. Rende uma fantasia de grupo incrível!

 

Eleven

Muito querida pelo público (e muito mulherona da p*rra mesmo), todo mundo usou vestidinho com jaqueta e peruca loira da Eleven quando Stranger things estreou, lá em 2016. Com a segunda temporada da série, surgiram mais opções de looks. Um deles é a versão punk: calça jeans, botas (coturnos), uma jaqueta preta e muito gel no cabelo. E lembrem que amigos não mentem.

 

Me chame pelo seu nome

Esse livro e esse filme já se consagraram como um ícone. E a fantasia é muito simples: um amigo, uma camisa listrada, florida, ou bem verão e, claro, o famigerado pêssego. Para conhecer o livro clica aqui!

 

Vai, Malandra

Tem fita isolante e um shortinho? Pronto, já pode ir para as ruas no melhor estilo Vai, malandra, o clipe sensacional da Anitta que já alcançou mais de 185 milhões de visualizações no YouTube (Caramba!). Promete ser “o” hit do carnaval.

 

Choque de cultura

(Reprodução Buzzfeed)

Achou que não ia ter fantasia do Choque de Cultura? Achou errado, OTÁRIO! Essa ideia é ótima para sair em grupo e não precisa gastar (quase) nada. É só ir lá no armário do seu pai, avô, tio, ou qualquer conhecido que ainda tenha roupas com um clima bem anos 70, 80 e 90. Lança um bigode, junta uns amigos da zoeira e você tem o seu próprio rolê carnavalesco do Choque de cultura.

 

“Bitch” coin

A moeda do momento já rendeu algumas fantasias bem espirituosas. Essa da foto faz um trocadilho com a palavra “bit”. É simples também: capriche no dourado e faça um arco de moedas. 

 

Valentina e Enzo

Dois jovens geniais vestiram – literalmente – esse maravilhoso meme brincando com os nomes da moda. E o melhor de tudo: uma das fantasias mais fáceis para montar! Arrasaram.

 

Sereia

O sereismo continua ocupando as ruas em formatos diversos. Vale investir em qualquer item que remeta a um clima aquático: conchas, pérolas, estrelas do mar, cauda de sereia, escamas. As cores costumam ser azul, verde, branco, rosa-claro etc. Mergulhe nessa ideia e solte a imaginação! Que tal pegar uma inspiração com A forma da água?

 

Na completa falta de tempo, fica essa ideia de fantasia literária auto-explicativa. Bom carnaval a todos!

testeLivros para um carnaval literário

Seja você um folião recluso ou alguém que gosta de curtir o bloco na rua, separamos dicas de leituras incríveis para aqueles (poucos) momentos de descanso durante o Carnaval:

A sutil arte de ligar o f*da-se, de Mark Manson

Poucas épocas do ano pedem tanto o botão do f*da-se ligado quanto o Carnaval, não é mesmo? Em A sutil arte de ligar o f*da-se, Mark Manson usa toda a sua sagacidade e seu olhar crítico para propor um novo caminho rumo a uma vida melhor, mais coerente com a realidade e consciente dos nossos limites. Como um verdadeiro amigo, Mark se senta ao seu lado e conta umas piadas aqui, dá uns exemplos inusitados ali, joga umas verdades na sua cara e pronto, você já se sente muito mais alerta e capaz de enfrentar esse mundo cão.

Saiba seus limites, aproveite a festa, e, para o resto, ligue o f*da-se até a Quarta-Feira de Cinzas!

Leonardo da Vinci, de Walter Isaacson

Filho ilegítimo, à margem da educação formal, gay, distraído e, por vezes, herético, o Leonardo desenhado na biografia de Walter Isaacson é uma pessoa real, extraordinária pela pluralidade de interesses e pelo prazer que tinha em combiná-los.

Depois de conhecer a pessoa por trás das obras de arte, temos certeza que Da Vinci adoraria conhecer o Carnaval brasileiro.

Mais escuro, de E L James

E L James revisita Cinquenta tons mais escuros com um mergulho mais profundo e sombrio na história de amor que envolveu milhões de leitores em todo o mundo.

O relacionamento quente e sensual de Anastasia Steele e Christian Grey chega ao fim com muitas acusações e sofrimento, mas Grey não consegue tirar Ana da cabeça. Determinado a reconquistá-la, ele tenta suprimir seus desejos mais obscuros e sua necessidade de controle absoluto, aceitando a amar Ana nos termos estabelecidos por ela.

 

Me chame pelo seu nome, de André Aciman

A casa onde Elio passa os verões fica em um verdadeiro paraíso da costa italiana. Filho de um importante professor universitário, ele está bastante acostumado à rotina de, em todos os verões, hospedar na casa da família um novo escritor que, em troca da boa acolhida, ajuda seu pai com correspondências e outras tarefas. Quando chega Oliver, o novo hóspede, acontece uma revolução na vida de Elio. Me chame pelo seu nome explora a paixão com delicadeza inigualável, em uma narrativa magnética, inquieta e sensual.

 

Pequenas grandes mentiras, de Liane Moriarty, e Como eu era antes de você, de Jojo Moyes

Esse é o Carnaval do poder feminino! Para entrar no clima, indicamos duas leituras com mulheres incrivelmente fortes, cada uma a sua maneira: Pequenas grandes mentiras, de Liane Moriarty – que inspirou a premiadíssima série da HBO, Big Little Lies -, e Como eu era antes de você, de Jojo Moyes, que lançou o desfecho da trilogia no último dia 8, Ainda sou eu!

 

Mindhunter, de John Douglas e Mark Olshaker

Um fascinante relato da vida de um agente especial do FBI e da mente dos mais perturbados assassinos em série que ele perseguiu. A história de Douglas serviu de inspiração para a série homônima da Netflix, que conta com a direção de David Fincher (Garota Exemplar e Clube da Luta) e um elenco formado por Jonathan Groff, Holt McCallany e Anna Torv.

 

Ordem Vermelha: Filhos da Degradação, de Felipe Castilho

Que tal viajar para a última cidade do mundo durante o feriado?  Conheça Untherak, seus becos e histórias que farão qualquer bloco superlotado parecer tranquilo. Localizada aos pés do monte Ahtul, ao lado dos Grandes Pântanos, a cidade abriga humanos e kaorshs, gigantes e anões,  gnolls e sinfos que vivem para servir à deusa Una.

Cumprindo sua missão milenar, eles coexistem em relativa paz. Até que a kaorsh Yanisha descobre um segredo capaz de abalar as estruturas do Palácio. Junto com a esposa, Raazi, ela arquiteta um plano tão corajoso quanto arriscado, que terá como cenário o Festival da Morte.

 

Tartarugas até lá embaixo, de John Green

O mais pessoal de todos os livros do autor de A culpa é das estrelas, Tartarugas até lá embaixo é recheado de frases sublinháveis, amizades cativantes, fanfics de Star Wars e – por que não? – peculiares répteis neozelandeses. Um livro sobre as mais incríveis surpresas que surgem ao longo da vida de todos nós.

A história acompanha a jornada de Aza Holmes, uma menina de 16 anos que sai em busca de um bilionário misteriosamente desaparecido – quem encontrá-lo receberá uma polpuda recompensa em dinheiro – enquanto lida com o transtorno obsessivo-compulsivo (TOC).

Extraordinário, de R. J. Palacio

Auggie Pullman é um menino com uma severa deformidade facial que precisa enfrentar o estranhamento e o preconceito de crianças e adultos. O livro, que foi adaptado para os cinemas em 2017, se tornou uma ode à empatia, à tolerância e à gentileza. “Escolha ser gentil”: um mantra, uma atitude, uma mensagem valiosa para a atualidade.

 Simon vs. a agenda Homo sapiens, de Becky Albertalli

Simon tem dezesseis anos e é gay, mas ninguém sabe. Sair ou não do armário é um drama que ele prefere deixar para depois. Tudo muda quando Martin, o bobão da escola, descobre uma troca de e-mails entre Simon e um garoto misterioso que se identifica como Blue e que a cada dia faz o coração de Simon bater mais forte. Martin começa a chantageá-lo, e, se Simon não ceder, seu segredo cairá na boca de todos. Pior: sua relação com Blue poderá chegar ao fim, antes mesmo de começar.

testeAs mulheres do meu livro III

Rita Hayworth em Gilda (fonte)

Rita Hayworth (fonte)

Rita Hayworth (1918-1987) era considerada por muitos a mulher mais bela do cinema americano. Com sua atuação em Gilda, de 1946, ela se tornou um mito do cinema mundial. No filme, em uma cena marcante, faz um falso striptease e tira lentamente uma luva comprida de um dos braços. Rita foi casada cinco vezes. Entre seus maridos estavam o príncipe e playboy Aly Khan, o cantor Dick Haymes e o cineasta Orson Welles. Já na lista dos homens que namorou, consta o nosso maior playboy, Jorginho Guinle.

O namoro foi até longo, durou dois anos. Em sua biografia, ele relata que o affaire teve início em 1962, no Rio de Janeiro. Rita viera passar o Carnaval na cidade e ficara hospedada no Copacabana Palace, de Octávio Guinle, tio de Jorginho. Mas foi no Baile do Havaí, no Iate Clube, que tudo começou. Ela já não estava tão em alta, andava depressiva e bebia muito. No fim da noite, os dois foram para um dos barcos ancorados no deque.

Durante o Carnaval, badalaram na boate Blue Angel, em Copacabana, se esbaldaram nos bailes do Copa e do Theatro Municipal (ela, de baiana). Também foram ver os desfiles e Rita, toda de vermelho, sambou na frente de uma das escolas e desfilou por uns cem metros. O público delirou.

Jorginho não revela muitas intimidades sobre ela. Mas as poucas histórias que narra, do início da carreira da atriz, ainda como Rita Cansino, até sua fase mais decadente, são, no mínimo, saborosas. Eles já se conheciam desde a década de 1940 e, segundo o playboy, ela era “xucra”. Jorginho era amigo de Aly Khan, portanto recebeu informações de quem convivera bastante com ela.

Em sua biografia, ele menciona alguns “escandalosos incidentes” protagonizados pela beldade, quase todos relacionados com o excesso de bebida. Já no livro Os Guinle, eu falo sobre a capacidade intelectual de Rita. Aparentemente, ela tinha dificuldades de se relacionar com os homens. Tanto que, conta-se, justificava seus vários fracassos amorosos com a seguinte frase: “A maioria dos homens se apaixona por Gilda, mas acorda comigo.”

testeOs Guinle e o carnaval de rua

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O carnaval de rua no Rio de Janeiro antigamente (fonte)

Este ano vou passar o carnaval na avenida, ou seja, estarei os quatro dias de folia no Sambódromo do Rio. As rádios MEC, Nacional e Roquette-Pinto me chamaram para atuar como comentarista e por isso participarei da transmissão do evento das rádios públicas cariocas. Não sou um homem de carnaval, mas fui obrigado a estudá-lo para escrever Os Guinle.

Quando o livro foi lançado, muitos leitores se surpreenderam com o envolvimento dessa família de milionários com a cultura popular. Arnaldo e Carlos financiavam sambistas que, no início do século passado, não gozavam de boa reputação justamente por serem artistas do povão. Já o elegante e sofisticado Octávio, dono do Copacabana Palace, ajudou a transformar o carnaval carioca na maior festa popular do mundo.

Transcrevo aqui um trecho do livro: “Em janeiro de 1932, [Octávio] foi convidado a integrar a Comissão Executiva de Organização do Carnaval Carioca, que aconteceria em fevereiro. Não houve tempo hábil para muitas mudanças, mas, pela primeira vez na história da cidade, o evento foi pensado de forma pragmática, seguindo a tese de Octávio Guinle: ‘O carnaval é uma fonte de riqueza pública, como sãos os lagos e as montanhas suíças, as ruínas das civilizações extintas na Itália, e assim por diante’.” Segundo o jornal A Noite, naquele ano o carnaval “assumiu aspectos inéditos de brilhantismo e animação”.

No ano seguinte, o prefeito Pedro Ernesto convocou Octávio mais uma vez. E o resultado não foi diferente. Conforme descrevi em Os Guinle, “a avenida Rio Branco foi decorada e no sábado de carnaval, dia 25 de fevereiro, foi fechada para o desfile de blocos. Banhos de mar a fantasia foram organizadas na ‘linda praia de Ramos’, na Zona Norte, houve ‘prélios de serpentinas na rua 28 de Setembro, em Vila Isabel, baile infantil no Teatro João Caetano, no Centro, batalha de confete, ma rua Carlos de Vasconcellos, na Tijuca. Em homenagem a Lamartine Babo, escola de samba desfilaram na praça Onze e os bailes nas ruas Maxwell, Bela, Santa Luzia, 24 de Maio, José Higino, São Clemente e Gonzaga Bastos’”.

Para quem não é do Rio de Janeiro, vale a seguinte observação: as escolas de samba ainda hoje desfilam na praça Onze, e no sábado de carnaval a avenida Rio Branco sempre foi interditada ao trânsito, até ser fechada, em 2015, para obras. Na avenida Sapucaí, os Guinle serão lembrados de modo indireto este ano, pois a escola de samba Grande Rio vai homenagear a cidade de Santos (SP), cujo porto, o maior do Brasil, foi construído pelos Guinle. O patrocinador da agremiação, curiosamente, é o atual gestor do porto santista. Entretanto, na sinopse do enredo da Grande Rio os Guinle não são mencionados. Será possível contar a história de Santos sem falar nessa família?

testeO baile do Copa

Data da foto: 1962 Wilson Figueiredo, jornalista, (centro) ao lado da mulher Lourdes no Carnaval de 1962, no baile do Copacabana Palace, fotografia do livro "E a Vida Continua", da Editora Ouro sobre Azul.

O Baile do Copa de 1962 (fonte)

Quem já leu o livro Os Guinle sabe que existe uma estreita relação entre a família e o carnaval carioca. Em 1931, por exemplo, o carnaval de rua na então Capital Federal foi organizado por Octávio Guinle; na década de 1950, Jorginho Guinle começou a trazer as estrelas de Hollywood para abrilhantar a folia. E uma “invenção” dos Guinle acabou se transformando em ícone, de fato: o baile do Copacabana Palace.

De forma pioneira, o hotel sempre explorou o lado comercial do carnaval. Seu primeiro baile aconteceu em 1924 e, segundo o jornal O Paiz, “o Rio ganhou uma festa nova para o carnaval, nova e mais bela que qualquer outra”. Nas últimas décadas, pouquíssimos bailes promovidos em espaços fechados sobreviveram no Rio de Janeiro, nenhum com o mesmo glamour do baile do Copa, que, aos 92 anos de idade, é o mais tradicional da cidade.

Ainda hoje, passar os folguedos de momo hospedado no hotel é uma experiência e tanto. O pacote pode custar até 22 mil dólares, com direito ao uso da sofisticada suíte do sexto andar e de um camarote no baile. Quem não se hospeda também pode participar, desde que se disponha a pagar 660 dólares pelo ingresso e vá vestido em traje de gala (smoking para os homens e longo para as mulheres).

O baile, realizado no lendário Golden Room, tem sempre um tema, que, em 2015, se inspirou nos movimentos artísticos Surrealismo e Dadaísmo. Outra bossa é a eleição da rainha. Já foram coroadas Luiza Brunet, Guilhermina Guinle, Grazi Massafera e, ano passado, Luana Piovani.

Quem vai ao baile tem a chance de conhecer os locais mais emblemáticos do hotel, como a varanda do primeiro andar, de onde se avista a praia de Copacabana, e o restaurante Pérgula, onde, no dia seguinte de manhã, é servido um luxuoso café da manhã e de onde se vê a piscina mais famosa do Rio de Janeiro.

O carnaval pensado por Octávio Guinle na década de 1930 virou uma realidade nos dias de hoje, quando os foliões se divertem, conforme ele idealizava, em diferentes níveis: nas ruas e em salões mais exclusivos.

testeGrande Gala no Municipal

Espetáculo de reinauguração do Theatro Municipal do Rio de Janeiro © Pedro França

Espetáculo de reinauguração do Theatro Municipal do Rio de Janeiro
© Pedro França

Em boa parte do século XX, o belíssimo Theatro Municipal do Rio de Janeiro foi palco de grandes estreias. Fundado em 1909 como uma das joias da reforma urbana implementada na cidade pelo prefeito Pereira Passos, era o teatro mais importante do Brasil, atraindo estrelas internacionais que iam do bailarino russo Nijinski e da cantora lírica americana Maria Callas ao pianista polonês Arthur Rubinstein.

A primeira noite de um espetáculo era chamada de Grande Gala. Além de o preço do bilhete ser mais elevado do que o habitual, a sofisticação imperava: as mulheres tinham de ir de longo e os homens, de smoking. Nessas noites em que a alta sociedade carioca se reunia no foyer da casa para ver e ser vista, os Guinle eram presença obrigatória.

Aliás, a relação deles com o Municipal foi intensa. A matriarca Guilhermina não perdia a oportunidade de subir suas escadarias, em plena Cinelândia. Carlos Guinle, no fim da vida, se ocupou do patrocínio de alguns espetáculos. Arnaldo mantinha em seu nome uma das frisas como se fosse uma cadeira cativa de estádio de futebol. E foi no majestoso restaurante do Theatro, o Assírius (hoje Café do Theatro), uma réplica do estilo assírio, que Arnaldo conheceu o músico Pixiguinha, em cuja carreira investiu.

O Theatro era tão associado ao mundo do divertimento sofisticado que, na década de 1950, passou a sediar o baile de Carnaval mais exclusivo do país. A banda ficava no palco e as cadeiras da plateia eram retiradas para dar espaço ao salão da festa. Foi nesses bailes, cuja cobertura, pela imprensa, fazia as delícias da classe média, que o playboy Jorginho Guinle, filho de Carlos, apareceu várias vezes acompanhado de charmosas atrizes do cinema americano.

Outro marca do baile era a realização dos concursos de fantasia de alto luxo. O evento emprestava ao Carnaval carioca um certo clima europeu, pois muitas dessas fantasias lembravam as vestimentas dos foliões do famoso Carnaval de Veneza.

Os tempos mudaram e, com ele, um dado muito positivo: a preocupação com a preservação do espaço, não mais se permitindo carnavais em seu interior. Por outro lado, perdeu-se também boa parte do glamour e do encantamento que envolvia o Theatro. E o que é pior: encolheu-se a agenda das atrações internacionais. Em 2014, a imprensa especializada criticou a qualidade de sua temporada e considerou sua vida artística mais fraca que a dos teatros de São Paulo, Buenos Aires e Santiago do Chile.

O Municipal ainda busca se manter como uma casa de espetáculos diferenciada, impondo regras de conduta, como a proibição do uso de bermudas em suas dependências, e não tolerando com atrasos dos  espectadores. Em outras cidades, as Grandes Galas seguem existindo com esplendor. Mas, no Rio de Janeiro, elas acabaram, levando com elas inúmeras histórias, assim como a era dos Guinle.

testeAlgumas Cores e Máscaras Cinzas

18.02 - carnaval2

Ei, mascarado!

A máscara vira o rosto e coloca o indicador no peito, inclina a cabeça para frente, hesitante. A imagem me causa um certo embrulho no estômago. Ainda não sei se bom ou ruim.

– Sim, você.

A máscara caminha até o meu chapelão. Quase se arrastando em melancolia, chuta serpentinas e confetes que jaziam de ressaca no chão. As cores já pareciam desbotadas com a mistura de lama, areia e cerveja que tinham virado a esta altura do dia. Uma papa carnavalesca. Espero meio congelada vendo aquela cena em câmera lenta. Melhor falar.

– Te vi ano passado, passando pela rua da Aurora, nessa hora, andando sem demora. Não te alcanço por um triz.

A máscara nada diz.

– Toda quarta-feira você é cinza assim?

A máscara faz que sim.

Meu chapelão e eu sentimos por aquela figura misteriosa estranho interesse. Ou seria pena? Não dá para ter certeza em meio a tantas plumas. E cães sem plumas lambendo reflexos nas poças de alguma coisa no chão.

– Por quê?

A máscara dá de ombros e se vai, chutando mais latinhas no chão. Não consigo dizer se foi indiferença o que sentiu por mim. Seria mesmo indiferença? Acho que não.

O som do alumínio na pedra ecoa pelas ruas velhas, na cidade antiga, na linda paisagem para se construir uma cidade. Oh, linda!

O chapelão se acha estranho por achar bonito um rosto que nem viu – ele me diz –  quando o tiro da cabeça mesmo com vergonha dos cabelos amassados. Eu entendo.

Nem viu. Me sinto um tanto cinza também agora.

Para onde vão todas essas cores depois da festa?

Do mascarado, só o mistério resta. E se demora.

E, na ponte, uma fresta

que dá para o rio Capibaribe.

Ah, quarta-feira ingrata, chega tão depressa!

Deixa a pressa,

Para o próximo Carnaval.

Quem sabe ano que vem

Não vejo cores de fitas

Que findam finitas

na quarta-feira.

Depois da festa, da fresta, da pressa,

continua, o mistério, sendo

o que interessa.

Eu tiro o meu chapéu.

 

teste[AGORA POSSO SORRIR NOVAMENTE]

 Foliã joga confetes em festa de carnaval de 1961 – Foto: Arquivo/AE

Foliã joga confetes em festa de carnaval de 1961 – Foto: Arquivo/AE

Queridos leitores, queridas leitoras,

Pedro foi visto fantasiado de panda ao lado de uma colombina embriagada e de dois bebês quarentões em algum bloco na belíssima cidade do Rio de Janeiro. Por motivos de força menor, hoje quem assume a coluna sou eu. Nada mais justo.

Eu estive presente em praticamente todos os carnavais do mundo. Sempre respeitada e acolhida com muita, mas muita alegria. Alguns dizem que nasci na Itália, no final do século XVII. Mas lá era eu era feita de açúcar. Adoçava a vida de quem ameaçava desfilar amargurado pelos bailes. Outros juram que vi a luz pela primeira vez em Paris, em 1892. Ulalá! Divergências à parte, eu sou a parte mais feliz do carnaval. Já fui, inclusive, exclusiva na elite carioca, no início da febre dos bailes de carnaval. Quando participava dos sofisticados eventos, também conhecidos como Batalhas das Flores, da recém-inaugurada avenida Beira-Mar (1905), no Rio de Janeiro. Com muito orgulho, hoje posso dizer que sou pop. Talvez a figura mais pop da festa mais popular do mundo!

Boa parte do ano vivo esmagada, quase sufocada ao lado das minhas amigas coloridas em um saco plástico. Talvez por isso, em fevereiro ou março, eu exploda de alegria quando resolvem me libertar desse sufoco! Sou uma espécie de garantia estendida de momentos inesquecíveis. Quando a sua felicidade não cabe no seu corpo, querido folião, ela extravasa em mim: nessas múltiplas partículas multicolores que bombardeiam o céu de rosa e amarelo e roxo e azul e verde e laranja. Confesso: fico ainda mais sorridente quando estou ao lado da serpentina. Ela me entende. Somos feitas do mesmo material. Fomos criadas com o mesmo objetivo. Ela é um pouco maior, mais crescidinha. Parece que viveu mais, sabe? Fico feliz. Sinal que alegrou mais gente do que eu até agora. Não há concorrência desleal quando dois destinos nasceram com um único propósito: ter a capacidade de fazer o outro feliz.

Sou jogada pra cima, amassada, e, depois de usada por três dias sem parar, sou abandonada ao lado de um banheiro químico ou de um bueiro aberto ou de uma long neck vazia. Ameaço chorar, mas lembro que é para isso que vim ao mundo. Guardo minhas últimas cores para alegrar a quarta-feira de cinzas e espero, ao vento, alguém me levar para casa. Os dentes de piaçava da vassoura do homem de laranja me fazem cócegas. Agora posso sorrir novamente.

Saudações carnavalescas,

Confete