testeSomos como as águas sob aquela ponte

Por Suelen Lopes*

(Fonte: Cmbynmonet)

É muito difícil admitir para nós mesmos e para o mundo que algo não pôde ser. Ou ao menos que não ocorreu exatamente do jeito que tínhamos planejado. E quando isso acontece na vida afetiva, em geral queremos desaparecer por um tempo, desejamos que as palavras sumam. Cada sílaba é um soco, uma lágrima, uma pressão no peito. Nisso somos todos bem parecidos: queremos que a dor passe. Dizem que o tempo cura tudo, mas o tempo também pode ser cruel.

Em Me chame pelo seu nome, André Aciman nos trouxe Elio e Oliver. Os dois nos fizeram mergulhar num mundo de descobertas, apreensões e deslumbramentos. A primeira paixão de Elio dialoga com algo muito íntimo em nós, e precisamos tomar fôlego e secar as lágrimas para seguir em frente. As inseguranças, obsessões e fantasias que o dominam poderiam ser nossas, são traços de uma relação tão intensa que jamais foi ou será esquecida.

Acompanhamos Elio como se caminhássemos por uma ponte. De um lado, temos os pés firmes no chão. Do outro, algo nos chama. Caminhar por essa ponte é apavorante, pois sabemos que o que há sob ela pode abalar estruturas, lançar sobre nós tudo o que nos desespera e, então, nos afogar. E cada um conhece muito bem os próprios medos. Justamente por isso, ninguém é o mesmo quando chega ao outro lado, e ainda se tornará muitos outros naquela vida prestes a começar. É bem possível que cruzemos essa ponte mais de uma vez. Várias vezes, aliás. A vida é implacável como o tempo.

Em Variações Enigma, André Aciman narra a trajetória de Paul, desde sua juventude, quando se apaixonou pela primeira vez na Itália, até seus relacionamentos caóticos, já adulto nos Estados Unidos. Há mais pontes. Caminhamos com ele em suas tentativas amorosas, deparamos com questionamentos que surgem quando estamos fora dos padrões e nos vemos diante da estranha e incômoda solidão que surge mesmo estando cercados de tantas pessoas e possibilidades. A imprevisibilidade dos acontecimentos e das pessoas nos marcam. Com Paul, constatamos como até mesmo o que não vivemos pode nos construir ou nos corroer. As questões se repetem, novidades chegam, a dor nos abraça, a alegria nos consola. Lidar com o outro é uma caixinha de surpresas, e nós mesmos nos tornamos outros a cada outro que encontramos. Portanto, somos também enigmas. Somos instáveis como as águas sob aquela ponte.

Trabalhar na edição de livros como Me chame pelo seu nome e Variações Enigma faz o tempo passar de um modo diferente. Continuamos lidando com toda a correria do dia a dia, reclamamos de problemas, mas esse novo tempo traz boas emoções à tona. E, no entanto, há sempre algo que dói. Fico extremamente tocada com o traço humano dos personagens de Aciman. Eles apresentam toda sua potência justamente quando assumem suas vulnerabilidades, suas dúvidas, seus sentimentos. A força deles está nesse movimento de se enxergar, de mostrar como amar não é apenas ver o outro. O tempo, de fato, nos dá aquele paliativo para que não lembremos quanto somos quebrados. Então enfaixamos nossas partes despedaçadas na esperança de que voltemos a ser completos.

“Meu lugar era ali, assim como meu lugar era este planeta e suas pessoas, mas com uma condição: sozinho, sempre sozinho”, diz Paul. Estar com o outro e também saber estar sozinho. Editar um livro tem seus momentos solitários. Claro que os colegas estão ali do lado, você pode falar das suas dúvidas e fazer comentários, mas quando editamos convivemos com o texto traduzido e com o original por meses, tomamos decisões, fazemos escolhas, pensamos e sentimos o que todo aquele conjunto envolve. E então nos despedimos, ficamos contentes de ver o livro chegar até vocês. Quando há comentários tão interessantes e emocionados dos leitores, como no caso de Me chame (e já alguns sobre Variações), a voz antes solitária parece enfim ganhar vida. Por isso fica aqui o meu agradecimento por ecoarem essas palavras, por não deixarem morrer as memórias dos dias que vivi junto desses livros, por apaziguarem qualquer crueldade do tempo. Obrigada por me fazerem sentir que ainda vale a pena cruzar essas pontes.

*Suelen Lopes é editora assistente de livro estrangeiros na Intrínseca. Gosta de chá, nuvens e francês, e acredita que dar voz à vulnerabilidade humana ainda vai mudar o mundo.

testeO que aprendemos com Me chame pelo seu nome

 

  1. É melhor falar do que morrer

 

Elio se encanta por Oliver quase à primeira vista, mas acredita que o jovem americano o despreza. Semanas se passam até que Elio tenha coragem de relevar seus sentimentos, que, para sua surpresa, são correspondidos.

 

  1. Nossos corações e corpos nos são dados apenas uma vez

Viva intensamente sem ter medo. Agimos como se tivéssemos duas vidas, mas temos apenas uma, e precisamos aproveitá-la ao máximo.

 

  1. Se houver dor, cuide dela

“Arrancamos tanto de nós mesmos para nos curarmos das coisas mais rápido do que deveríamos, que declaramos falência antes mesmo dos trinta e temos menos a oferecer a cada vez que iniciamos algo com alguém novo.”

Por mais que doa, não podemos nos obrigar a parar de sentir, não podemos nos transformar em seres indiferentes e letárgicos. Precisamos dos momentos de dor para valorizar nossa felicidade.

 

  1. Às vezes nós somos nosso maior obstáculo 

É comum em romances LGBTQ+ que a narrativa foque no conflito familiar, mas às vezes o maior conflito acontece dentro de nós mesmos. Talvez seja muito difícil colocar o que sentimos em palavras, já que o processo de aceitação pessoal é algo muito intenso e individual.  

 

  1. Nosso primeiro amor molda nossas futuras relações

Assim como a Basílica de São Clemente, nossas relações são construídas sobre as ruínas de relações passadas. Nós somos quem somos em parte graças às nossas perdas.  Nada permanece igual, talvez alguns caminhos sejam destruídos para sempre, talvez outros sejam construídos em seu lugar.

 

  1. Às vezes o grande amor não dura para sempre

A relação pode terminar, mas a experiência deixará sua marca.

“Veio. Foi. Nada mais tinha mudado. Eu não tinha mudado. O mundo não tinha mudado. Ainda assim, nada seria igual. Tudo o que nos resta é o sonho e a estranha recordação.”

Me chame pelo seu nome

 

testeMe chame pelo seu nome mostra como não estamos sozinhos

Por Rodrigo Austregésilo*

Eu sabia que ler Me chame pelo seu nome, livro de André Aciman sobre a primeira paixão de um homem por outro, mexeria comigo. O livro causa uma identificação inegável para qualquer um que já se apaixonou. Mas se você é gay, toda essa assimilação transborda num leque maior de sentimentos. Nem todos positivos, mas todos incríveis.

Amar alguém do mesmo sexo vem, ao mesmo tempo, com dois tipos de emoção: a felicidade de se perceber inteiro e o luto.

Nossa capacidade de amar de todo o coração é o que nos posiciona no mundo. É o que nos faz acreditar que, como humanidade, somos diferentes, especiais, melhores. Amar nos engrandece, nos completa. Mas quando você é um homem que ama um homem, uma mulher que ama uma mulher, alguém que pode amar sem distinção de gênero, ou até mesmo que não se identifica com o gênero com o qual nasceu, o mundo não te vê assim. Nesse caso, o mundo faz você se sentir errado. Você não é especial por amar, até porque as pessoas não enxergam isso como amor. Você é sujo, promíscuo, pecador.

Assim, experimentamos duas noções paralelas: “Essa é a melhor coisa que eu já vivi” e “Estou morto”.

Me percebi diferente ainda criança. Havia um personagem em minha alma que eventualmente tomava o palco e remexia tudo em mim. Mas com 15 anos eu soube, sem chance de contestação: eu amo outro homem. Em Me chame pelo seu nome, Elio se pergunta quando exatamente constatou sua paixão. Tanto para ele quanto para mim, tudo estava se construindo muito antes, desde sempre, mas o golpe da consciência vem sem aviso. Seguido de “O que eu vou fazer?”.

No meu caso, decidi que mataria aquilo. Por anos, tentei esconder que era gay. Não havia a menor possibilidade de eu não ser o que esperavam de mim: o primeiro filho, o primeiro neto, o primeiro sobrinho homem. Aquele que casaria com uma mulher, teria uns três filhos galegos e morreria patriarca.

A sensação é de morte, de fato. É como se você fosse um inseto que alguém mantém agonizando sob o sapato, esmagando aos poucos. Não tem romantismo nisso. Só tristeza.

Em algum momento, entretanto, me dei conta de que lutar contra aquilo era uma batalha perdida. Eu morreria tentando, morreria infeliz. O mundo que apontava o dedo para mim seguiria impassível. Eu iria embora. Lutar contra o amor é desafiar sua essência. Como eu poderia me excluir de mim mesmo?

O que penso hoje é que meu eu adolescente merecia ter lido um livro como Me chame pelo seu nome. Toda pessoa LGBTQ+ merece saber que não está sozinha. Que não ama sozinha. Amar e ser correspondido, nessa hora, é saber que milhões pelo mundo também amam, vivem, sentem como você. E livros como o de André Aciman nos fazem sentir pertencimento.

Quando matei todos os meus demônios, notei que ser gay e fazer parte desse grupo gigantesco de pessoas é a melhor parcela de mim, porque é a minha essência. Se amar nos torna especiais, amar alguém do mesmo gênero e enfrentar tudo por isso nos torna divinos. Quando Elio finalmente se permite sentir e viver seu amor, descreve de forma impecável o sentimento. “Deste momento em diante… tive, como nunca antes, a nítida sensação de ter chegado a um lugar muito estimado, de querer aquilo para sempre, de ser eu, eu, eu, eu e mais ninguém, só eu (…) como se aquilo fizesse parte de mim a vida inteira”.

É isso. Eu nasci para amar dessa forma. Fui feito para isso. É minha iluminação. Minha missão. E eu não estou sozinho.

André Aciman remonta todos os sentimentos de amar uma pessoa do mesmo gênero com uma fidelidade quase cruel. Mas necessária. Merecemos livros como Me chame pelo seu nome. Merecemos não estar sozinhos. E, como cada ser humano que já pisou nessa Terra, merecemos a chance de ser feliz e exercer o melhor em nós.

*Rodrigo Austregésilo é publicitário, escritor, cantor em treinamento e mais orgulhoso de ser gay do que cabe numa bio nesse blog.

teste7 filmes LGBTQ+ que você precisa assistir

Sabemos como é difícil encontrar bons romances LGBT por aí, principalmente sem os ofensivos estereótipos tão comuns em Hollywood. Então resolvemos facilitar a sua vida e separamos os filmes que você precisa ver nesse fim de semana. Confira:

Moonlight: Sob a luz do luar

 

Vencedor do Oscar de melhor filme em 2017, Moonlight é o primeiro da temática LGBT a ganhar nessa categoria. O longa acompanha os desafios de Chiron ao confrontar sua própria identidade e sexualidade, passando por várias fases de sua vida. Morador da periferia de Miami e filho de uma mãe viciada em crack, o personagem também encara a tentação do universo do crime e das drogas.

Azul é a cor mais quente

  

O filme retrata a primeira paixão da jovem Adèle pela estudante de artes Emma. Acompanhando a passagem da adolescência para o dia a dia adulto, Azul é a cor mais quente capta com honestidade a primeira experiência amorosa e as dificuldades encontradas quando duas pessoas crescem juntas em um relacionamento.  

Me chame pelo seu nome

 

O indicado ao Oscar 2018 de melhor filme não poderia faltar nessa lista. Elio sempre passa seus verões em sua casa de campo paradisíaca, enquanto divide seu tempo entre leituras e música. Mas quando o novo convidado da família chega para passar uma temporada na casa, tudo muda. Elio encontra no confiante escritor os primeiros sinais de desejo e de uma paixão avassaladora, que os marcará para o resto da vida. Inspirado no romance de André Aciman, Me chame pelo seu nome é uma narrativa na qual se reconhecem as mais delicadas e brutais emoções da juventude.

Leia um trecho do livro

Carol

  

Em Nova York nos anos 1950, a vendedora Therese troca olhares com a rica dona de casa Carol, interpretada por Cate Blanchett. Atraídas quase instantaneamente, as duas desenvolvem uma forte amizade que poderá ter sérias consequências quando o marido de Carol desconfia dos verdadeiros sentimentos da relação. Além da história de amor, o filme retrata as dificuldades de um relacionamento lésbico dentro de uma sociedade machista e conservadora.

Hoje eu quero voltar sozinho

 

O delicado filme brasileiro conta a história de Leonardo, um adolescente cego em busca de independência diante da superproteção dos pais. Sua rotina muda com a chegada do novo aluno na escola, com quem rapidamente faz amizade. A medida em que os dois se aproximam, Leonardo encontra nessa amizade a coragem para se libertar. Além de lidar com as inseguranças e medos de qualquer adolescente, Leonardo vai experimentar algo até então inédito para o menino: se apaixonar por alguém. 

Direito de amar

  

Dirigido por Tom Ford, Direito de amar percorre um dia na vida de um professor universitário homossexual abalado pela morte do companheiro, com quem viveu por 16 anos. Grandes nomes como Colin Firth, Julianne Moore e Nicholas Hoult dão vida ao enredo que discute temas difíceis, como a aceitação dos relacionamentos homossexuais pelas famílias e pela sociedade americana dos anos 1960. As roupas, a iluminação e principalmente as cores transmitem a inquietação, o desejo e por vezes a esperança que o personagem sente ao longo do dia.

Brokeback Mountain

  

O clássico romance retrata o relacionamento de dois caubóis do interior dos Estados Unidos ao longo de 18 anos. Enquanto trabalham juntos na isolada montanha de Brokeback, no Wyoming, os dois iniciam uma relação secreta que trará dificuldades, alegrias e tragédias e que os acompanhará pelo resto de suas vidas.

Boys

 

Sierger é um adolescente competidor de atletismo treinando para o campeonato. A rotina é alterada pela chegada de um novo membro da equipe, Marc. Ele e Marc se tornam amigos próximos, até perceberem que possuem sentimentos um pelo outro. Tentando reprimir sua atração por Marc, Sieger começa a se envolver com uma menina.

 

testeOuça a playlist de Me chame pelo seu nome

Me chame pelo seu nome conquista fãs por onde passa. O livro de André Aciman que narra todas as fases do primeiro amor inspirou o filme de Luca Guadagnino. O longa já recebeu prêmios em vários festivais internacionais, inclusive o de melhor filme no Gotham Awards.

Elio passa seus verões com os pais no norte da Itália, onde conhece Oliver, um acadêmico que se hospeda na casa da família para trabalhar em seu livro. O que se passa nas seis semanas em que os jovens convivem é não só um processo de descoberta, mas o florescer das mais intensas emoções do primeiro amor. A delicadeza e precisão do autor ao descrever o turbilhão de sentimentos que atormentam Elio deixam a narrativa ainda mais sedutora.

Pensando nisso, fizemos uma playlist especial para você ouvir (e chorar) enquanto devora o livro. Ouça agora:

 

Me chame pelo seu nome já está disponível nas livrarias!

testeLançamentos de janeiro

Ano novo pede leituras novas! Confira as sinopses dos lançamentos do mês:

Me chame pelo seu nome, de André Aciman

Livro que inspirou o premiadíssimo filme homônimo, dirigido por Luca Guadagnino, e um dos favoritos ao Oscar 2018, narra a primeira paixão do jovem Elio. Filho de um importante professor universitário, ele está bastante acostumado à rotina de, em todos os verões, hospedar na deslumbrante casa da família um novo escritor que, em troca da boa acolhida, ajuda seu pai com correspondências e papeladas. Quando chega Oliver, o novo hóspede, acontece uma revolução na vida de Elio.

Com rara sensibilidade, André Aciman constrói uma viva e sincera elegia à paixão, em um romance no qual se reconhecem as mais delicadas e brutais emoções da juventude. Me chame pelo seu nome explora a paixão com delicadeza inigualável, em uma narrativa magnética, inquieta e sensual. [Leia +]

A grande jogada, de Molly Bloom

Livro que deu origem ao filme de Aaron Sorkin, com indicações ao Globo de Ouro e ao Critics Choice Awards de melhor atriz (Jessica Chastain) e melhor roteiro (Aaron Sorkin). Em A grande jogada, Molly Bloom conta como ganhou as manchetes dos jornais ao ser presa pelo FBI por operar, ilegalmente, uma das mesas de pôquer mais exclusivas do mundo.

A “Princesa do Pôquer”, como ficou conhecida, parecia mais uma estrela de Hollywood que uma criminosa confessa. Foi lá que ela começou, do zero, a promover as mesas pelas quais passariam centenas de milhões de dólares. Em partidas que aconteciam em luxuosas suítes de hotéis, esteve uma seleta lista de convidados que incluia astros como Leonardo DiCaprio, Tobey Maguire e Ben Affleck, mandachuvas da indústria do entretenimento, líderes estrangeiros, grandes magnatas e até mesmo a máfia russa. 

O Método TB12, de Tom Brady

Aclamado como um dos nomes mais importantes do futebol americano e conhecido internacionalmente como o marido de Gisele Bündchen, Tom Brady é um dos poucos jogadores que ainda está na ativa aos 40 anos. Em seu livro de estreia, ele divide com o público alguns dos segredos de sua bem-sucedida e longa carreira.

O Método TB12 é uma leitura estimulante, repleta de fotos sobre a vida do jogador, gráficos e imagens instrutivas que facilitam a prática do programa. Dividida em dez capítulos, esta bíblia atlética inclui uma explicação mais detalhada sobre os princípios do método, treinos, exercícios, orientações para o repouso pleno do corpo, regras de nutrição e de hidratação.

Cinquenta tons de liberdade – edição capa de filme, de E L James

O episódio final do romance que conquistou milhões de corações românticos ganha nova versão com capa inspirada nos filmes. Em Cinquenta tons de liberdade, Ana e Christian têm tudo: amor, paixão, intimidade, riqueza e um mundo de possibilidades à sua frente. Mas Ana sabe que o relacionamento terá desafios que nenhum deles seria capaz de imaginar. Ana precisa se ajustar ao mundo de riqueza de Grey sem sacrificar sua identidade. E ele deve aprender a dominar seu impulso controlador e se livrar dos fantasmas do passado. Enquanto tentam vencer obstáculos, o destino muda mais uma vez, e os piores medos de Ana podem se tornar realidade.

O filme chega aos cinemas no dia 8 de fevereiro, com direção de James Foley e produção da própria E L James. [Leia +]

Todo dia a mesma noite, de Daniela Arbex

Uma das mais impressionantes tragédias do Brasil, o incêndio da boate Kiss em 2013, fez com que a cidade de Santa Maria perdesse bruscamente 242 vidas. Com delicadeza ímpar, a jornalista Daniela Arbex escreveu um livro-reportagem sobre este crime, ainda impune, baseado em centenas de horas dos depoimentos inéditos de sobreviventes, familiares das vítimas, equipes de resgate e profissionais da área da saúde.

Arbex reafirma seu lugar como uma das profissionais mais relevantes do país, veterana em reportagens de fôlego – premiada duas vezes com o Jabuti. A autora construiu um memorial para homenagear as vítimas desta noite assustadora e nos transporta até o momento em que tudo aconteceu, somado a depoimentos dos sobreviventes e relatos dos dias seguintes, mostrando as consequências de descuidos banalizados por empresários, políticos e cidadãos.

Todo dia a mesma noite é uma dolorosa e necessária tomada de consciência, um despertar de empatia pelos jovens que tiveram seus futuros destruídos. [Leia +]

Mais escuro, de E L James

Um dos livros mais aguardados dos últimos tempos, Mais escuro revisita Cinquenta tons mais escuros com um mergulho profundo na história de amor que envolveu milhões de leitores em todo o mundo, dando voz ao personagem Christian Grey. Nesta sequência, E L James revela o lado inseguro e sensível do protagonista enquanto desvenda suas diversas camadas. No fundo, ele não passa de um romântico, mais apaixonado do que nunca por Anastasia, e precisa lidar com os dilemas de seus sentimentos.

O sucesso da série Cinquenta tons de cinza é indiscutível. Os livros de E L James já venderam 7 milhões de cópias só no Brasil, e mais de 150 milhões de exemplares no mundo. Lançado originalmente em novembro na Inglaterra, Mais escuro alcançou o topo da lista de mais vendidos em apenas uma semana. [Leia +]

testeVocê se lembra da sua primeira paixão? Leia um trecho de Me chame pelo seu nome

A casa onde Elio passa os verões é um verdadeiro paraíso na costa italiana, parada certa de amigos, vizinhos, artistas e intelectuais de todos os lugares. Filho de um importante professor universitário, sua família hospeda um escritor diferente a cada verão. Uma cobiçada residência literária que já atraiu muitos nomes, mas nenhum deles como Oliver. Esse é o início de Me chame pelo seu nome, livro que inspirou um dos filmes mais elogiados do ano.

Imediatamente e sem perceber, Elio se encanta pelo americano de vinte e quatro anos, espontâneo e atraente. Por seis semanas, Oliver e Elio dormirão separados apenas por uma parede, compartilhando olhares, dúvidas e segredos. Em meio às lindas paisagens regadas a sol, praias e penhascos, os dois descobrem a beleza e a intensidade da primeira paixão, confusa, amedrontadora e profundamente atordoante. Uma experiência inesquecível, que os marcará para o resto da vida.

Com rara sensibilidade, André Aciman constrói um universo no qual se reconhecem as mais delicadas e brutais emoções da juventude. Uma narrativa magnética, inquieta e profundamente tocante.

Aclamado nos festivais de cinema de Berlim, Toronto e no Sundance, o filme homônimo foi indicado ao Globo de Ouro e é apontado como forte candidato a concorrer ao Oscar de melhor filme em 2018. A adaptação cinematográfica que estreia dia 18 de janeiro no Brasil foi dirigida pelo italiano Luca Guadagnino e tem sido comparada com O segredo de Brokeback Mountain. O livro já está em pré-venda e chegará às livrarias a partir do dia 5 de janeiro.

 

 

Leia um trecho:

 

“Até depois!”

As palavras, a voz, a atitude.

Eu nunca tinha ouvido alguém dizer “até depois” para se despedir. Parecia brusco, seco, desdenhoso, pronunciado com a indiferença velada de uma pessoa que talvez não se importe se vai revê-lo ou saber de você novamente.

É a primeira lembrança que tenho dele, e parece que ainda hoje consigo ouvi-lo. “Até depois!”

Fecho os olhos, pronuncio as palavras e estou de volta à Itália, tantos anos atrás, descendo a entrada arborizada, observando-o sair do táxi com uma camisa azul esvoaçante, o colarinho bem aberto, óculos escuros, chapéu de palha, muita pele à mostra. De repente ele está apertando minha mão, me entregando sua mochila, tirando a bagagem do porta-malas do táxi, perguntando se meu pai está em casa.

Poderia ter começado bem ali, naquele momento: a camisa, as mangas arregaçadas, os calcanhares escapando das alpargatas desgastadas, ansiosos para tocar o caminho de cascalho quente que levava à nossa casa, cada passo como se já perguntasse: Para onde fica a praia?

O hóspede da vez. Mais um chato.

Então, quase sem pensar, e já de costas para o carro, ele acena com a mão livre e solta um Até depois! desatento para o outro passageiro, com quem provavelmente dividiu a corrida ao sair da estação. Sem dizer seu nome, sem fazer uma gracinha que suavizasse o incômodo da parada, nada. A despedida típica dele: rápida, ousada e direta — pode escolher o adjetivo, para ele tanto faz.

Pode esperar, pensei, é exatamente assim que ele vai se despedir de nós quando for embora. Com um Até depois! abrupto e despreocupado.

Até lá, nós teríamos que suportá-lo durante seis longas semanas.

Fiquei totalmente intimidado. Ele era do tipo inacessível. Talvez eu fosse gostar dele. Do queixo aos calcanhares. Então, em alguns dias, aprenderia a odiá-lo. O mesmo homem cuja foto no formulário de inscrição havia se destacado meses antes com promessas de afinidade imediata.

Receber hóspedes no verão era o modo como meus pais ajudavam jovens escritores a revisar um manuscrito antes da publicação. Por seis semanas, todo verão, eu tinha que desocupar meu quarto e me mudar para o quarto ao lado no corredor, muito menor, que um dia pertencera ao meu avô. Durante os meses de inverno, quando estávamos na cidade, aquele cômodo temporariamente virava um quartinho de ferramentas, depósito e sótão onde, diziam, meu avô, meu homônimo, ainda rangia os dentes no sono eterno. Os hóspedes de verão não precisavam pagar nada, podiam usufruir de toda a casa e praticamente fazer tudo o que quisessem, desde que passassem por volta de uma hora por dia ajudando meu pai com sua correspondência e papelada em geral. Eles se tornavam parte da família e, depois de quinze anos fazendo isso, tínhamos nos acostumado à enxurrada de cartões-postais e presentes que recebíamos não só perto do Natal, mas durante todo o ano, enviados por pessoas leais a nós e que, quando estavam na Europa, saíam de seu caminho o quanto fosse preciso para passar um ou dois dias em B. com a própria família e fazer uma visita nostálgica ao velho alojamento.

Durante as refeições, sempre havia mais dois ou três convidados, às vezes vizinhos ou parentes, às vezes colegas, advogados, médicos, os ricos e famosos que davam uma passada para ver meu pai a caminho de suas casas de veraneio. Às vezes até abríamos a sala de jantar para um ou outro casal de turistas que tinha ouvido falar da antiga villa e queria apenas entrar para dar uma olhada. Pessoas que ficavam encantadas quando as convidávamos para comer conosco e lhes pedíamos que nos contassem tudo a seu respeito. Mafalda, avisada em cima da hora, era obrigada a redistribuir a comida. Meu pai, reservado e tímido, amava ter um especialista precoce de qualquer área que mantivesse a conversa fluindo em algumas línguas, enquanto o sol quente de verão, depois de algumas taças de rosatello, trazia a inevitável sonolência da tarde. Chamávamos a tarefa de labuta prandial — e, depois de um tempo, a maioria dos nossos hóspedes também.

Pode ser que tenha começado logo que ele chegou, durante um daqueles almoços tediosos, quando sentou-se ao meu lado e finalmente percebi que, apesar do leve bronzeado adquirido durante a breve estadia na Sicília no início do verão, as palmas de suas mãos tinham a mesma cor da pele clara e macia da sola de seus pés, de seu pescoço e da parte interna dos antebraços, que praticamente não haviam sido expostos ao sol. Quase um rosa-claro, a pele reluzente e macia como a barriga de um lagarto. Íntima, pura, intocada, como o rosto corado de um atleta ou a insinuação do alvorecer em uma noite de tempestade. Dizia coisas sobre ele que eu jamais pensaria em perguntar.

Pode ser que tenha começado durante aquelas horas intermináveis depois do almoço, quando todos ficavam à toa dentro e fora da casa usando roupas de banho, corpos esparramados por toda parte, matando o tempo à espera de que alguém finalmente sugerisse que fôssemos até as pedras dar um mergulho. Parentes, primos, vizinhos, amigos, amigos de amigos, colegas ou qualquer pessoa que aparecesse no portão perguntando se podia usar nossa quadra de tênis — todos eram bem-vindos para relaxar, nadar e comer e, se ficassem tempo suficiente, usar a casa de hóspedes.

Ou talvez tenha começado na praia. Ou na quadra de tênis. Ou durante a primeira caminhada juntos no primeiro dia, quando pediram que eu lhe mostrasse a casa e os arredores e — uma coisa levou à outra — consegui levá-lo para além do antigo portão de ferro fundido e do interminável terreno baldio em direção aos trilhos abandonados que costumavam ligar B. a N.

— Tem alguma estação de trem abandonada por aqui? — perguntou ele, olhando através das árvores sob o sol escaldante, provavelmente tentando fazer a pergunta certa para o filho do proprietário.

— Não, nunca teve estação aqui. O trem simplesmente parava quando as pessoas pediam.

Ele estava curioso a respeito do trem; os trilhos eram muito estreitos. Era um trem de dois vagões com a insígnia real, expliquei. Mas, desde a época em que minha mãe passava o verão na cidade quando jovem, a estrutura servia de casa para alguns ciganos. Eles haviam levado os dois vagões descarrilhados mais para longe da praia. Ele queria vê-los?

— Depois, talvez.

Uma indiferença cortês, como se tivesse percebido minha preocupação despropositada em agradá-lo e estivesse me dispensando de imediato.

Só que me afetou.

Em vez de ir ver o trem, ele queria abrir uma conta em um dos bancos de B., e depois visitar a tradutora italiana que sua editora na Itália tinha contratado para seu livro.

Decidi levá-lo de bicicleta.

A conversa sobre duas rodas não foi melhor do que a pé. No caminho, paramos para beber alguma coisa. O bar-tabacaria estava totalmente escuro e vazio. O dono limpava o chão com um produto que exalava um forte cheiro de amônia. Saímos o quanto antes. Um melro-preto solitário, empoleirado em um pinheiro mediterrâneo, cantou algumas notas que foram logo abafadas pelo canto das cigarras.

Tomei um bom gole de uma garrafa grande de água mineral, passei a garrafa para ele e depois dei mais um gole. Derramei um pouco de água nas mãos e esfreguei o rosto, passando os dedos molhados no cabelo. A água não estava gelada nem gaseificada o suficiente, deixando uma sensação de sede não saciada.

O que as pessoas fazem por essas bandas?

Nada. Esperam o verão acabar.

O que as pessoas fazem no inverno, então?

Ri da resposta que estava prestes a dar. Ele captou o espírito da coisa e disse:

— Não me diga… Esperam o verão chegar, certo?

Eu gostava quando liam meus pensamentos. Ele se acostumou à labuta prandial mais rápido do que os hóspedes anteriores.

— Na verdade, no inverno fica tudo muito cinza e escuro.

A gente vem no Natal. Fora isso, é uma cidade fantasma.

— E o que mais vocês fazem no Natal por aqui além de torrar castanha e beber gemada?

Ele estava fazendo piada. Ofereci o mesmo sorriso de antes. Ele entendeu, não disse nada, nós rimos.

Perguntou o que eu fazia. Eu jogava tênis. Nadava. Saía à noite. Corria. Transcrevia músicas. Lia.

Ele disse que também corria. Logo cedo. Onde as pessoas costumavam correr?

No calçadão, principalmente. Eu podia levá-lo até lá, se quisesse.

A resposta me atingiu em cheio, bem quando eu estava começando a gostar dele:

— Depois, talvez.

Eu tinha deixado a leitura por último em minha lista, pensando que, pela atitude deliberada e insolente que vinha demonstrando até o momento, seria a última na dele. Horas depois, ao descobrir que ele tinha acabado de escrever um livro sobre Heráclito e que a “leitura” provavelmente não era algo insignificante em sua vida, percebi que precisava voltar atrás de um jeito inteligente e insinuar que meus reais interesses correspondiam aos dele. O que me inquietou, no entanto, não foi a manobra sofisticada necessária para me redimir. Foi a incômoda desconfiança que senti ao finalmente perceber, tanto ali como na conversa despreocupada perto dos trilhos do trem, que o tempo todo, sem que parecesse, sem nem mesmo admitir, eu já estava tentando — sem sucesso — conquistá-lo.

Quando me ofereci — porque todos os visitantes amavam a ideia — para levá-lo à igreja de São Tiago e subir até o topo do campanário que apelidamos de “de morrer”, eu devia ter pensado antes em uma resposta à altura. Pensei que conseguiria convencê-lo apenas levando-o lá e deixando que assimilasse a vista da cidade, do mar, da eternidade. Só que não. Depois!

Mas talvez tenha começado bem mais tarde do que acredito, sem que eu percebesse. Você vê a pessoa, mas não a enxerga de verdade, ela simplesmente está por ali. Ou até enxerga, mas nada bate, nada “chama a atenção” e, antes mesmo que você perceba uma presença ou algo incômodo, as seis semanas que lhe foram oferecidas já passaram e a pessoa já foi embora ou está prestes a ir, e você fica lutando para aceitar algo que, sem que você soubesse, vinha ganhando forma bem debaixo do seu nariz, trazendo consigo todos os sintomas daquilo que só pode ser chamado de desejo. Como eu não percebi? Você se pergunta. Sei reconhecer o desejo — desta vez, no entanto, tinha passado completamente despercebido. Eu me saía com meu sorriso misterioso, que fazia o rosto dele se iluminar toda vez que lia meus pensamentos, mas tudo o que eu queria era pele, apenas pele. 

Assista ao trailer do filme inspirado em Me chame pelo seu nome

 

testeMe chame pelo seu nome, livro que inspirou um dos fortes candidatos ao Oscar, será publicado ano que vem

Aclamado nos festivais de cinema de Sundance, Berlim e de Toronto, o filme Me chame pelo seu nome é apontado como forte candidato a concorrer ao Oscar de melhor filme em 2018. O longa foi inspirado no livro homônimo de André Aciman, que chega às livrarias no ano que vem.

Na história, Elio é um adolescente habituado a receber os hóspedes de seu pai, anfitrião de residências literárias na paradisíaca costa da Itália, em meados dos anos 1980. O rapaz, no entanto, não estava preparado para conhecer Oliver, por quem se apaixona perdidamente, inebriando-se de desejo e da possibilidade de finalmente entrar na vida adulta.

 

A adaptação cinematográfica foi dirigida pelo italiano Luca Guadagnino e tem sido comparada com O segredo de Brokeback Mountain. Me chame pelo seu nome está confirmado na programação do Festival do Rio 2017, que começa em 5 de outubro.