testeUma noite assustadora com Freddy

Por Talitha Perissé* e Bruno Machado**

Originalmente, o texto dessa semana sobre Five Nights at Freddy’s: Olhos prateados seria escrito pela Talitha. No dia 16 de maio, ela me mandou uma mensagem falando que ia ler um pouco do livro antes de dormir e desde então não apareceu mais na editora.

Toda informação que temos é a série de mensagens que ela me enviou naquela noite. Segue abaixo o registro da nossa editora de aquisições:

20h – QUE PORCARIA É ESSA QUE ESTOU LENDO?

20h45 – Caraca, essas criaturas são bizarras. Gezuis, vão matar essa menina

21h02 – Não entre no quarto, os animatrônicos vão te matar. Você nunca viu Chucky, o boneco assassino, miga?

As criaturas que a Talitha menciona são os quatro robôs de quase dois metros que ‘habitam’ a pizzaria abandonada Freddy Fazbear – Freddy, Chica, Foxy e Bonnie (ex̵i̵st͜ę u̸m̷ ͡q͡ui̷ntǫ). O curioso é que dez anos após o desaparecimento de cinco crianças no restaurante, as criaturas ainda estão funcionando. Estranho, não?

22h – Migos maneiros. Parece a galera do Scooby-Doo só que com mortes. Pera, mortes?!

23h  –  Ok, estou confusa. O que está acontecendo?

00h01 – Ainda não entendi bem só sei que é uma péssima ideia o que eles estão fazendo.

E a turminha do barulho é o grupo de amigos de Charlie, filha do (ex) dono da pizzaria. Depois do sumiço de um de seus amigos, a patota se separou e alguns até saíram da cidade. Eles se reúnem uma década depois para homenagear o desaparecido, Michael. M̸al̷͓̲ ̸̣̗͇̭s̥̯͕ͅa̶b̢̪i҉͙a̺̺ḿ̜ ̞͠e͔͖ļ̻̠̼̗e̯̕s͖̥͕̪ o҉͉̗͉̗̪n̺̞̳̯̻d̶͇̳̙e̟͔͚̯̭̖̜ ͏͉͚̬ḙ̯̗̗͓͖ͅs̴͖̗t̵̮̯̭͔̩̦̻a̞̘v̵̗a̗̻̬͈͕͙ṃ̵̼̞̠͇͉̖ ̥̥̰̦ͅs̫̬e̼̕ ̹̻̪̙̱̫m̟͔̖̗͇̜͇e̴̠t̷̖̟͕͎̥̦̩e͚̫͚n̦͍̣̩̕d͘o̗̱̥̙..̝̰̯̟̳͓.̲͎̭

00h30 – Eu não consigo parar de ler esse livro e está tudo escuro. QUE SOMBRA É ESSA QUE EU VI

00h45 – Ufa, a sombra era só minha camisa pendurada no cabideiro. Tudo bem, estou segura. Meu cobertor vai me proteger. Lerei no escuro em paz e nada de mau vai me acontecer.

01h00 – Meu pé escapou da coberta. EU SENTI ALGO ENCOSTANDO EM MIM. FREDDY, É VOCÊ??? QUEM TEVE ESSA IDEIA ESTÚPIDA DE LER NO ESCURO?

01h30 – Já estou mais calma. Posso voltar para leitura

02h00 – Meu Deus, o que vai acontecer com essa turminha do barulho?

02h48 – Por que as pessoas sempre se separam? Não se separem!

03h – N͞ão.͡consi̸go.par͝àr.͜de.̕ler̴.mànd͢e̷m͠.̢aju̷da ̸

Bom, isso é tudo que sabemos sobre o paradeiro da jovem Talitha. Se você tiver notícias dela, pedimos que entre em contato nos comentários deste post. Qualquer ajuda é bem-vinda.

E, se você gosta de histórias assustadoras sobre uma galerinha da pesada se envolvendo em confusões sobrenaturais, ou se já conhece a série de jogos Five Nights at Freddy’s e quer entender melhor a história por trás dos sustos, leia um trecho de Olhos prateados.

 

*Talitha Perissé é editora assistente de aquisições, acredita que gifs deveriam ser uma maneira formal de comunicação e que cobertores são armaduras mais protetoras que adamantium.

Seu paradeiro no momento é desconhecido. Se alguém a vir, ela gosta de chocolate e sorvete de pistache. Cuidado ao se aproximar.

**Bruno Machado é assistente de redes sociais e certa vez chegou na editora com cicatrizes bizarras e estranhos olh̨͘o̡s ͏̢́ṕ̶͘r̵̛̕a̛͘t͘҉̶e̸̕͠a̷d͜͠o̴s̶͝.

testeO universo não se importa. Ainda bem.

Por Bruno Machado*

Buracos negros não se importam com nada. (Fonte)

É comum acreditar que, quando todas as coisas parecem dar errado, existe alguma conspiração universal focada em acabar com os seus planos. Tudo parece desandar, as pessoas horríveis surgem a todo momento e o pessimismo cresce com força total. Nessas horas, é importante lembrar: o universo não está dando a mínima para o que acontece na Terra, e é maravilhoso que ele funcione assim.

Essa informação parece um convite ao pessimismo, mas na verdade é uma verdadeira bênção. Se somos insignificantes perante a magnitude do cosmos, é de se pensar que conspirações, sejam elas divinas ou meramente mundanas, não se apliquem a nós, humanos. E que tudo que fazemos ou deixamos de fazer não depende de sorte ou crença, e sim de trabalho árduo. Lendo o novo livro do físico Stephen Hawking, Buracos negros, é possível perceber que a nossa melhor característica para a galáxia é a irrelevância.

Em duas palestras à BBC, Hawking apresenta uma informação interessante: buracos negros não se importam com nada, e você deveria ser um pouco assim. Depois de anos de teses, artigos, livros, palestras, o objetivo do físico é o mesmo: mostrar que a ciência pode não ser tão complicada assim.

“Dizem que às vezes a realidade é mais estranha que a ficção. Em nenhum lugar isso é mais verdadeiro que no caso dos buracos negros. Os buracos negros são mais estranhos que qualquer coisa já sonhada por escritores de ficção científica, mas são fatos do mundo da ciência.”

No livro, o autor/cientista explica que, até que seja provado o contrário, nada passa despercebido por um buraco negro. Mesmo a luz fica presa no horizonte de eventos (de uma forma resumida, é a “borda” do buraco negro). E o que está dentro de uma dessas estruturas espaciais? Ninguém sabe com certeza. O físico até aponta que, se buracos negros expelissem qualquer tipo de informação, seria algo tão aleatório que a chance de sair uma nave espacial, uma enciclopédia em capa dura ou um vaso de plantas é exatamente a mesma.

Brincadeiras à parte, Hawking explica que a ciência dos buracos negros é algo tão complexo e colossal que, se um dia formos capazes de entender o funcionamento de uma dessas coisas, a humanidade dará início a uma nova era, na qual a compreensão e o debate sensato substituirão o espetáculo de sandices e absurdos que vivemos hoje.

Então, enquanto a ciência não conseguir explicar algo que mais parece saído de um livro de ficção científica, seguiremos flutuando pelo espaço em nosso planeta quase-não-tão-azul-assim. Nossas brigas, disputas e sentimentos continuarão não importando nem um pouco, e talvez seja uma boa ideia repensar o tamanho daquela discussão que você teve com seus pais ou o quanto o estresse do trabalho influencia a sua vida. Enquanto isso, o universo segue seu caminho como o esperado. Ainda bem.

>> Leia um trecho de Buracos negros

 

* Bruno Machado é um ser da espécie Homo sapiens que habita o planeta Terra e que por acaso trabalha como assistente de mídias sociais na Intrínseca e nunca conseguiu ir num planetário mesmo que a editora seja do lado de um. Coincidência, não?

testeA Chegada: até onde vamos para entender o diferente?

*Por Bruno Machado

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Cena de A Chegada (Fonte)

Quando fomos informados de que A Chegada, adaptação de um dos contos da coletânea História de sua vida e outros contos seria o filme de abertura do Festival do Rio de 2016, a reação na editora foi de grande surpresa. Não pela qualidade do texto que serviu de inspiração para a produção cinematográfica, e sim pelo fato de um filme de ficção científica ter sido escolhido para a sessão de gala do festival.

frente_historia-da-sua-vida_pt-br-pNão é uma declaração bombástica dizer que a ficção científica é um gênero de nicho, seja ele literário ou cinematográfico. Claro, muitas pessoas consideram Star Wars ficção científica, mas não basta para o sci-fi que uma história seja contada no espaço. A saga da família Skywalker é muito mais próxima de uma fantasia que aconteceu “Há muito tempo atrás, em uma galáxia distante”.

Animada com o prestígio dado ao filme, lá foi a equipe da Intrínseca para a Cidade das Artes, assistir ao filme em meio a atores globais e toda sorte de profissionais do cinema nacional. Dirigido por Denis Villeneuve (de Sicario: Terra de Ninguém e Os Suspeitos), a produção já surpreende nos primeiros minutos. Não há naves espaciais bonitas, alienígenas assustadores nem um discurso emocionante do presidente dos Estados Unidos no Quatro de Julho. A Chegada é basicamente uma história sobre mãe e filha.

No filme, doze objetos voadores não identificados que se assemelham a gigantescos monólitos ovais surgem em cantos aleatórios do planeta. A chegada das naves não é detectada por nenhuma agência do mundo, e elas se mantêm impressionantemente estacionadas no céu, como se esperassem por algo. Rapidamente os governos dos países “visitados” começam a tomar providências, e China e Rússia são as duas nações mais propensas a atacar primeiro e perguntar depois.

Enquanto isso, nos Estados Unidos, uma linguista – interpretada por Amy Adams, que aparentemente vai estrelar todas as adaptações dos livros da Intrínseca (vide Tony & Susan que se chamará Animais Noturnos, e Objetos cortantes) – é convocada para ajudar a decifrar o que as criaturas pretendem em nosso planeta. Ao longo da história, vemos como seria o trabalho de tentar entender criaturas que não pensam, não se comportam e nem parecem conosco. E quanto mais próximo da grande revelação do filme – que não falaremos aqui, obviamente –, mais percebemos que as criaturas sequer existem da mesma forma que nós. E apenas a linguista parece compreender isso, com consequências surpreendentes para a trama.

Como assisti ao filme antes de ler o conto “História da sua vida”, a reviravolta do enredo me pegou completamente de surpresa. É daqueles momentos como em O Sexto Sentido, Planeta dos Macacos ou Clube da Luta, no qual uma revelação muda sua ideia do filme por completo. E a forma como Chiang faz isso na prosa e Villeneuve no filme são igualmente emocionantes. Foi impossível chegar ao fim da sessão sem ficar com os olhos cheios d´água, precisando de um tempo para pensar na experiência que acabou de acontecer, como em outro recente sci-fi, Interestelar.

Uma das principais características da ficção científica é provocar reflexão. Seja ao atravessar um buraco de minhoca para encontrar um novo mundo para a raça humana ou tentar entender o incompreensível, o gênero é responsável por nos fazer pensar em limites. Até onde você estaria disposto a ir para entender o diferente? Quanto você gostaria de aprender para ser alguém melhor? Seja em A Chegada, “História da sua vida” ou nos outros contos da coletânea de Ted Chiang, boas histórias definitivamente nos tornam pessoas melhores.

> Leia um trecho de História da sua vida e outros contos.

 

* Bruno Machado é assistente de mídias sociais no departamento de Marketing e acha que só faltam alienígenas aparecerem por aqui para 2016 ser o ano mais louco de todos os tempos.

testeDe volta, e acompanhado

Por Bruno Machado*

Cena do filme Ele está de volta (fonte)

Cena do filme Ele está de volta (fonte)

Timur Vermes teve a coragem de escrever um livro sobre Adolf Hitler que foge completamente ao tema da Segunda Guerra Mundial. Em Ele está de volta, o autor subverte a lógica e coloca uma das figuras mais perigosas da história na Berlim moderna, repleta de imigrantes e governada por uma mulher.

Em um enredo peculiar, o autor cria uma ácida sátira dos costumes europeus contemporâneos, e foi apenas questão de tempo até a história se transformar em filme. A produção, que estreou recentemente na Netflix, tem algumas diferenças do enredo original com o objetivo de ampliar a crítica feita pelo ditador aos seus conterrâneos do século XXI.

Alternando uma história sobre um funcionário desesperado de um canal de TV a cabo e interações de Hitler com transeuntes no estilo “Mockumentary” – a aparência de um documentário, mas sem uma história real, que ficou famoso com Borat –, o filme é considerado uma das maiores surpresas do cinema alemão dos últimos anos.

Curioso para saber como seria um filme alemão que abordasse um tema considerado tabu e com o aval da minha chefe para escrever no blog da Intrínseca minha opinião, decidi desligar a votação do Impeachment pela Câmara dos Deputados e assistir ao filme. Mal sabia que o Hitler de 2014 me ensinaria algo sobre o Brasil de 2016.

Começando com uma cena constrangedora na qual o (ex) Füher reclama com um professor de etiqueta sobre como as pessoas não o cumprimentam corretamente nas ruas, a história de Hitler logo se mistura com a do canal fictício MyTv. Uma disputa interna entre os diretores do canal acabará levando o ditador de volta ao centro das atenções, como parte de um programa já polêmico no qual um comediante faz críticas políticas usando blackface para imitar o presidente americano Barack Obama e uma burca e um fuzil para falar do mundo árabe.

A chegada de Hitler, que é considerado por todos apenas um ator muito bom que se recusa a sair do papel, parece apenas mais um degrau na decadência na qualidade das produções televisivas alemãs. O público não acha absurdo e começa a rir do discurso que 70 anos atrás motivou o Holocausto. Ao assistir essa cena, me senti compelido a pausar o filme, sair da Netflix e por alguns minutos voltar à votação que era transmitida ao vivo para o país.

Enquanto deputados alegavam os motivos mais absurdos para dar seu voto, muitas vezes aplaudidos pelos colegas quando, por exemplo, defendiam torturadores da ditadura e vaiados caso se posicionassem a favor de minorias, tive a impressão de que uma figura como o Sr. Hitler – como ele prefere ser chamado – não seria um estranho no ninho por ali. Depois de alguns minutos, desisti de acompanhar a política nacional e voltei ao filme. Ironicamente, foi como se tivesse previsto a continuação da saga moderna de Adolf.

Durante sua jornada ao lado do produtor que descobre o polêmico “comediante”, é possível ver que a figura de Hitler ainda desperta muita empatia na população. Enquanto algumas pessoas acham engraçado tirar uma selfie com o ditador nazista, outras dão depoimentos preconceituosos, como se a presença do cover do ditador as isentasse de qualquer crítica.

O que começa apenas como uma comédia que imita o estilo de documentários vai se tornando uma crítica direta aos costumes atuais. Adentrando cada vez mais a metalinguagem, os minutos finais de Ele está de volta mostram a produção do filme dentro do próprio filme, e os comentários feitos por Adolf Hitler ficam mais próximos da nossa sociedade. Em determinada cena, o filme alterna trechos de vídeos reais, alucinações de um dos personagens e viradas inesperadas de roteiro, que surpreendem em um filme que inicialmente parecia uma comédia polêmica um tanto boba.

A fala final de Hitler mostra como podemos ser pessoas ruins se nos reduzirmos a opiniões egocêntricas e à falta de empatia. Pode ser que um ditador da primeira metade do século passado não ressurja nos dias de hoje, mas o filme faz um excelente trabalho em mostrar que talvez tenhamos figuras perigosas defendendo a moral e os bons costumes do povo.

Seja em Berlim ou em Brasília.

 

* Bruno Machado é assistente de mídias sociais no departamento de Marketing e, assim como boa parte das pessoas na internet, não aguenta mais textão sobre política no Facebook.