testeClube de Leitura: F de Falcão

Por Bruno Leite*

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Desde que foi lançado, tento fazer com que o livro-testemunho de Helen Macdonald se torne a obra escolhida para o clube. Foram três tentativas. Quando soube que ela participaria da Flip, decidi que leria o livro por conta própria — seria uma leitura para a minha vida.

Durante a Flip, perguntei à Helen qual seria a melhor trilha sonora para acompanhar minha leitura de F de Falcão. Ela riu, disse essa que era uma questão elementar na qual ela nunca tinha parado para pensar com cuidado, mas sugeriu algo clássico e moderno. Perguntei se O Pássaro de Fogo (L’Oiseau de Feu), de Stravinski, seria uma boa pedida. Ela acenou com muita empolgação e meio que oficializamos essa como a trilha sonora oficial do livro.

Mês passado, F de Falcão foi finalmente contemplado como o livro do mês para o clube. Corri com ele pelo auditório da Livraria Cultura emulando uma mal-sucedida volta olímpica. Então, se vocês quiserem saber mais sobre o livro, sobre a autora e sobre aves de rapina, apertem o play e venham comigo.

Ao contrário do que o título sugere, o livro não trata apenas de aves. Tudo começa quando a nossa escritora, narradora e protagonista recebe a fatídica notícia de que seu pai havia morrido. Helen escreveu uma das passagens mais bonitas que eu já li sobre luto:

 

Imagine, eu disse na época a alguns amigos na franca tentativa de explicar, imagine sua família inteira em uma sala. Sim, todos eles. Todas as pessoas que você ama. Então, o que acontece é que alguém entra na sala e dá um soco no estômago de cada um. Em todos. Muito forte. Então vocês caem no chão. Certo? O que acontece é o seguinte: vocês compartilham o mesmo tipo de dor, exatamente o mesmo, mas estão ocupados demais experimentando uma agonia total para sentir qualquer outra coisa além de completa solidão. É assim! Terminei meu pequeno discurso de forma triunfal, convencida de ter encontrado a maneira perfeita de explicar como eu me sentia. Fiquei confusa com os rostos piedosos, horrorizados, porque não me ocorreu de maneira nenhuma que um exemplo que colocava as famílias dos meus amigos juntas em salas, apanhando, pudesse carregar um sabor de loucura total.

 

Tentei, mas não consigo me lembrar de uma passagem tão pungente, tão precisa sobre o assunto sem ser piegas ou melodramática. O que vocês acharam dessa passagem? Vocês conseguem dimensionar a dor que a autora propõe?

A partir de então, Helen passa por um processo muito doloroso — embora necessário — de dissociação do mundo ao seu redor. E para além dessa decisão ela se propõe a treinar uma ave de rapina. Não apenas uma ave de rapina, mas um açor (a espécie mais feroz). A dificuldade eminente serve como um atrativo para que Helen se reencontre com o seu eu mais selvagem e, ao mesmo tempo, entenda o poder inalienável da liberdade e de como é importante que ela elabore o seu luto. O que vocês acham dessa decisão? Também gostam de aves de rapina? Vocês fariam a mesma coisa — ainda que com outro animal?

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Aliás, uma questão pertinente ao longo do livro e que muito me encantou foi a relação homem-animal. Os laços criados entre Helen e Mabel, nome do seu açor, são tão complexos quanto os que existem em qualquer relação entre humanos. Vocês acham esse tipo de relação saudável? Também se relacionam assim com o bichinho de vocês?

E por falar em bichinhos, a Helen veio pra Flip participar de uma mesa SOBRE animais. Se você quiser ouvir, a produção da Flip disponibilizou o áudio da mesa. Mas cuidado ao dar play: há spoilers nas falas.

Dia 13 de outubro, quinta-feira, nos reuniremos para falar sobre essas e muitas outras questões no auditório da Livraria Cultura do shopping Bourbon. Para participar basta mandar um e-mail com nome para renato.costa@livrariacultura.com.br. Vejo vocês em breve!

 

Bruno Leite é estudante de Letras, trabalha há 8 anos no mercado editorial e é colaborador no blog O Espanador.

testeClube de leitura: Baseado em fatos reais, de Delphine de Vigan

Por Bruno Leite*

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Quando recebi o e-mail com a sinopse de Baseado em fatos reais, de Delphine de Vigan, pensei: esse é o tipo de livro que é a cara do clube! E dito e feito: ele será o tema do nosso próximo encontro. A obra é de uma complexidade maravilhosa e faz surgir inúmeras questões enquanto você processa os acontecimentos descritos. Para quem ainda não conhece — o livro está quentíssimo, acabou de sair do forno —, Baseado em fatos reais conta a história de uma escritora chamada Delphine (sim, a personagem tem o mesmo nome da autora). Ela se encontra consumida pela insegurança e a ansiedade após o sucesso de seu último romance, até que conhece a encantadora e amistosa L., uma mulher que transformará sua vida. A partir daí, começamos uma grande brincadeira: a busca pelo fio que distingue onde começa a realidade e onde começa a ficção. O jogo da autoficção.

Esse estilo, embora não seja novo, vem sendo explorado constantemente por autores da nossa geração. O gênero começou possivelmente com os iluministas, como Rousseau e suas Confissões e Chateaubriand com Memórias de além-túmulo, e continua se reinventando com autores como Gertrude Stein em A autobiografia de Alice B. Toklas, Françoise Sagan em Bom dia, Tristeza e, mais recentemente, O mapa e o território, de Michel Houellebecq. Na autoficção, uma história a princípio verídica pode ter nomes adulterados e passagens mais exageradas ou comedidas, uma vez que não existe compromisso com fatos reais, e sim com uma boa história. O que vocês acham desse tipo de narrativa? Já leram algum desses autores? Eu me esqueci de alguém que vocês consideram um escritor que se utiliza da autoficção em seus livros?

Claramente eu me deixei seduzir e fui guiado pela voz melíflua de L. (Uma das coisas de que eu mais gostei é que L. se pronuncia do mesmo modo que elle, que significa “ela” em francês.) L. é uma tremenda personagem, acho que uma das melhores pessoas da ficção (ops!) que conheci esse ano. Vocês já conheceram alguém tão emblemático e sedutor assim? Será que se permitiriam ser seduzidos por L.?

Durante a leitura, muitas vezes quis bater em Delphine, em outras, quis abraçá-la e dizer: vai dar tudo certo. Passado um tempo, fui pesquisar informações sobre a autora e descobri muitas semelhanças entre Delphine de Vigan e a personagem Delphine, mas, ao mesmo tempo, me deparei com um grande dilema: eu deveria “acreditar” na vida dela ou no que ela escreveu no livro?

Numa dessas pesquisas, descobri que Baseado em fatos reais em breve vai ser adaptado para o cinema pelas mãos de Roman Polanski e Oliver Assayas. Então, me lembrei de alguns filmes cuja temática é parecida:

 

Persona, de Ingmar Bergman

Após perder a voz, uma atriz veterana vai passar um tempo na casa de praia com uma enfermeira e cada uma acaba assimilando a personalidade da outra.

 

A malvada, de Joseph L. Mankiewicz

Uma jovem atriz bem ambiciosa cruza a vida de uma atriz veterana, afetando tanto seu campo profissional como o pessoal.

 

O que terá acontecido a Baby Jane?, de Robert Aldrich

Duas irmãs que tiveram o destino selado por um acidente trágico precisam acertar contas com o passado.

 

Dentro da casa, de François Ozon

Um jovem se enfurna na casa de um colega de melhor condição social e começa a tecer uma série de histórias, seduzindo (e comprometendo) seu professor de redação.

Curioso para discutir esse e outros temas? É só passar seus dados e nome completo para renato.costa@livrariacultura.com.br e comparecer no dia 8 de setembro às 19h no auditório da Livraria Cultura do Shopping Bourbon. Espero vocês lá!

>> Leia um trecho de Baseado em fatos reais

Bruno Leite é estudante de Letras, trabalha há 8 anos no mercado editorial e é colaborador no blog O Espanador.

testeClube de leitura: A visita cruel do tempo

Por Bruno Leite*

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Depois de um ano de clube de leitura, já conversamos sobre várias obras que aguçaram, de muitas formas, nossas percepções do que consideramos “leitura” e do que é “ser leitor”. Muitos livros nos deixaram alucinados, torcendo, chorando, com o coração sangrando e até nos levaram a produzir fanfics — como descobrimos nos nossos encontros sobre os romances de Jojo Moyes, O leitor do trem das 6h27 e A verdade sobre o caso Harry Quebert. Quebramos a cabeça com as intrincadas tramas de Até você ser minha, S., e A febre. Rimos e nos deleitamos com Alucinadamente feliz… Mas acredito que nada nos fará refletir tanto quanto A visita cruel do tempo, de Jennifer Egan.

Mediar um bate-papo sobre o romance de Egan (uma vencedora do Pultizer de Ficção!) será um salto muito grande para mim: engasgo toda vez que tento descrever este livro, as palavras me escapam… Mas vamos lá! Simplificando: A visita cruel do tempo apresenta, por meio de inúmeros pontos de vista, as histórias de um grupo de pessoas que têm algum tipo de ligação com o produtor musical Bennie Salazar. Cada capítulo é narrado por um desses personagens, com uma linguagem e em um tempo diferentes, formando assim um grande painel de relatos e de situações ao longo de quase 50 anos. (Esse cálculo é só um chute. Desculpem-me. Sou de humanas.)

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Existe na obra uma unidade musical e, obrigado, Bennie, por isso! O punk, o post punk, o hardcore, está tudo lá, e a trilha sonora vai permeando o livro de som e fúria, fazendo com que as máculas de cada personagem se transformem em combustível para que eles mesmos façam o romance avançar. E vocês: o que vocês acham da trilha? Foi apropriada? Já conheciam alguns dos artistas citados? Tem algum outro a indicar? Aliás, se vocês ainda não ouviram, eu compilei (quase) todos eles nessa playlist:

>> Leia mais sobre Bennie Salazar

Outra força muito importante do livro são as memórias, que nada mais são do que uma maneira orgânica de trazer o tempo passado para o presente e mostrar seus desdobramentos no futuro. Vocês enxergam isso como um recurso da autora para manifestar o estilhaçamento dos sonhos dos personagens? Vale acreditar que as memórias são cruéis com os personagens por fazer com que eles se conscientizem de suas fraquezas?

>> Leia também: Grandes pausas do rock’n’roll, por Jennifer Egan

Notei que a síndrome de impostor tem sido bem divulgada — a saber, aquela pressão que todo mundo sente ao pensar que talvez os outros não nos considerem tão bons, ou, pior, que na verdade somos pura mentira e carão, o que nos força a fazer mais e melhor — e, no linguajar corporativo, ela faz todo sentido. Mas, transpondo isso para a personagem que mais amo nesse livro, a Sasha, vocês acham que o baú de guardados dela, as pressões e as sabotagens a que ela se presta representam isso? O que vocês acharam da Sasha?

No tarô de Marselha, temos a carta do Juízo Final, que, por mais que tenha esse nome medonho, significa que você terá exatamente aquilo que cultivou, que é a hora de colher os frutos da terra. Vocês acreditam que essa carta representa com perfeição o destino de todos os personagens? Houve pessoas que não mereceram a implacável visita do tempo? Para quem ela foi mais generosa?

Essas e outras impressões serão discutidas com muito pó de ouro — sim, providenciaremos! — no dia 11 de agosto, no auditório da Livraria Cultura do Shopping Bourbon. Para se inscrever, vocês já sabem: basta mandar um e-mail para o renato.costa@livrariacultura.com.br informando nome e colocando logo em baixo a palavra SARDAS, com três exclamações.

 

Bruno Leite é estudante de Letras, trabalha há oito anos no mercado editorial e é colaborador no blog O Espanador.

testeClube de leitura: Alucinadamente feliz, de Jenny Lawson

Por Bruno Leite*

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A regra da boa redação diz que nesse primeiro parágrafo eu deveria apresentar o livro –  a saber, Alucinadamente feliz –, dizer como ele é incrível por libertar o leitor das amarras mais imprecisas, além de impulsioná-lo a fazer algumas coisas no limite do socialmente aceitável. Eu queria ter maneiras de agradecer a Jenny por despertar tantos sentimentos positivos e as mais escandalosas gargalhadas. Para quem ainda não sabe, Jenny é portadora de alguns distúrbios que minam a energia vital dela e a fazem ficar deitada na cama por dias se perguntando a razão de existir. Mas ela é gata, poderosa, lacradora, babadeira, senhora dos HTML. Num dia que indicava ser um dos mais baixos entre seus baixos, ela decidiu que iria perseguir A-L-U-C-I-N-A-D-A-M-E-N-T-E a felicidade, ainda que fosse necessário fazer esquisitices e atropelar – só de leve – o considerado normal. Depois de nos pôr a par do turbilhão que é sua mente, entramos num mundo caótico, frenético, elétrico, engraçado e maravilhoso. Tudo tem uma vibração incrível. Mas esse não é um livro de coisas ~~para se fazer sentido~~. É um livro pra soltar a franga!

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Como Jenny traz a cada momento assuntos desconexos, porém, interessantíssimos, separei uma lista mental do que gostaria de falar livremente e é assim que pretendo que as discussões em torno do livro sigam. Como sempre fui mais despudorado, vou expor algumas peculiaridades da minha persona BEM PERTURBADA com a única finalidade de incentivar vocês a… seguirem seus sonhos. Lembrando que as únicas pessoas que podem me julgar são: Deus & Susana Vieira.

 

Culinária

Uma das coisas que mais me intrigam no mundo culinário é a Селёдка под шубой, uma iguaria russa – pasmem – que à primeira vista parece um bonito bolo preguiçosamente confeitado com glacê púrpuro, mas que na verdade é uma GRANDE SALADA DE ARENQUE COM BETERRABA, BANG! Não é maravilhosa a possibilidade de contorcer as expectativas gastronômicas dos convidados mais desavisados?

 

Música

Eurovision é um campeonato de música entre países europeus e talvez seja essa a maneira mais simples de explicar algo que nem nós, os fãs desse espetáculo de breguice inerente, conseguimos exprimir. Vocês devem se perguntar: “Mas, Bruno, como eles podem julgar uma música com tantas línguas diferentes?” Aí eu te respondo: essa é a graça desse evento! É tudo uma grande questão de feeling onde… Esqueçam tudo isso:  o povo sobe lá e canta tudo em inglês mesmo, exceto os franceses e de vez em quando alguns corajosos que resolvem despejar toda potência linguística exótica que trazem consigo, como essa galerinha da Macedônia que não consegue sustentar UMA ÚNICA NOTA.

 

Cinema

Quando severamente pressionado, meu cérebro simplesmente trava e eu começo a fazer EXATAMENTE ESSES MOVIMENTOS INCORPORANDO LA HEPBURN REALNESS.

 

Televisão

Eu era um entusiasta. Não sei por que acabou.

 

Se você também tem excentricidades para compartilhar, ou sofre de transtornos  e quer ganhar um abraço bem apertado por este que vos escreve, mande um e-mail para o renato.costa@livrariacultura.com.br dizendo “gato, tô a fim de participar” juntamente com o seu telefone porque o amanhã nunca se sabe, lembrando que o encontro ficou marcado para  9 de junho, no mesmo lugar de sempre: auditório da livraria Cultura do Shopping Bourbon.

*Bruno Leite é estudante de Letras, trabalha há oito anos no mercado editorial e é colaborador no blog O Espanador.

testeClube de leitura: Vale-tudo da notícia, de Nick Davies

Por Bruno Leite*


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Bafo, babado, fofoca, boato, intriga, mexerico, maledicência; essas são as palavras de ordem na redação de qualquer tabloide, porém o britânico News of the World as levou às últimas consequências. As manchetes do semanário de Rupert Murdoch eram alimentadas por grampos telefônicos ilegais e envolviam uma série de pessoas em uma gigantesca teia de corrupção, mentiras e especulações. No recém-lançado Vale-tudo da notícia, o jornalista Nick Davies narra de maneira hipnótica sua investigação do monstro especulativo que funcionava num dos maiores conglomerados de notícias do mundo. (E, se preparem, porque hoje tem trilha sonora para acompanhar o post.)

Tramas que abordam os bastidores do jornalismo me comovem: sempre me identifico com os impulsos desses personagens em contar uma boa história custe o que custar.  O vencedor do Oscar de melhor filme desse ano, Spotlight: Segredos Revelados, pertence ao gênero. Vocês gostam desse tipo de filme? Eu, particularmente, sou apaixonado pela cinebiografia desse homem — e por ele também.

CAPA_ValeTudoDaNoticia_destaque_pLendo os relatos de Nick Davies, fiquei impressionado com a quantidade de pessoas (de áreas tão diversas) que participaram dessa enorme teia de corrupção. Mas acho que podemos iniciar a discussão a partir de alguns personagens centrais.

Rebekah Brooks: editora do jornal The Sun. Conseguiu a proeza de, em onze anos, passar de secretária a editora do News of the World.

Andy Coulson: editor do News of the World após a saída de Brooks, também teve uma carreira meteórica no mundo da News Corp. e era conhecido pelo seu apetite voraz no “café da manhã das estrelas do rock”.

Clive Goodman: primeiro jornalista do News of the World a ser pego. Com uma carreira estagnada para os padrões alucinantes do NOTW, investiu em grampos contra a família real — sua última e mais arriscada cartada.

Greg Miskiw: editor do noticiário, um verdadeiro garotão — pelo menos no espírito. Era o gerenciador do esquema de escutas e dono de uma penosa ansiedade que o fazia bater a cabeça contra a parede em momentos de tensão.

Glenn Mulcaire: espião contratado inicialmente por Miskiw, era uma verdadeira sombra capaz de se esgueirar por entre companhias telefônicas, delegacias e afins.

James e Rupert Murdoch: filho e pai, são donos do maior conglomerado de mídia do mundo, a News Corp. e, consequentemente, donos do NOTW.

PCC (Press Complains Commission): agência reguladora da imprensa britânica que deveria prezar pela qualidade e solidez dos periódicos no Reino Unido.

Alan Rusbridger: editor do jornal The Guardian, amigo e chefe do autor, foi ele quem estimulou Nick a ir atrás da matéria.

Agora vamos aos personagens secundários! Ainda que tenham atitudes altamente condenáveis, a excentricidade dessas pessoas despertou minha simpatia logo de cara. Entre eles, temos Benji, o homem do lixo que vagava pelas noites revirando monturos atrás de algo que pudesse vender aos tabloides; Michael Boddy, o Micky the Mouse, um ex-viciado em heroína mestre em rastreamentos; e Phil Winton, o dono de uma agência de investigações louco por carros velhos e gatos que convenceu o conselho municipal a trocar o nome da ruela atrás de seu escritório para <3 Siamese Mews <3.

E vocês? Conseguiram gostar de algum personagem?

O processo de instalação de escutas e a invasão insana de privacidade promovida nos bastidores do jornal expõem pessoas em uma série de situações com desfechos imprevisíveis. Alguns momentos, como quando as mensagens do príncipe Charles para sua amante à época, Camila Parker Bowles, foram divulgadas, me deram uma vergonha alheia muito grande e me fizeram repensar quantas vezes eu gero pageviews ou endosso esse tipo de comportamento por parte do jornalismo. Vocês também se sentiram incomodados com as informações que surgem ao longo do livro? Conseguem se colocar no lugar dessas pessoas? Já pensaram se os áudios que vocês enviam vazassem sem nenhuma justificativa?

Outro fator que me chocou foi o nível de corrupção dentro de instituições que deveriam promover a segurança (como a Scotland Yard) e a qualidade do ofício jornalístico (como o PCC). Vocês fizeram um paralelo com a história recente do nosso país? Também veem nesse esquema um modelo de como instituições podem ser corrompidas e que processos assim são mais comuns do que imaginamos?

Essas e outras perguntas — e é claro, o julgamento disso tudo — serão levantadas no dia 14 de abril, às 19h30 no auditório da Livraria Cultura do Shopping Bourbon. Para se inscrever, basta enviar um e-mail para renato.costa@livrariacultura.com.br informando nome e telefone para contato. Se você não puder ir, não tem problema; você também pode participar do clube de discussão on-line.

 

Bruno Leite, é estudante de letras, trabalha há oito anos no mercado editorial e é colaborador no blog O Espanador.

testeClube de leitura: O leitor do trem das 6h27

Por Bruno Leite*

Como os livros mudaram a sua vida? Qual o impacto da leitura no seu cotidiano? Para um apaixonado por livros, provavelmente essas são as perguntas mais difíceis de se responder. Às vezes nem nos damos conta, mas a literatura tem um poder restaurador, é capaz de dar cores à nossa vida e despertar sensações que talvez nunca tivéssemos experimentado se não fosse por ela. A paixão pela leitura nos torna pessoas potencialmente mais sociáveis, simpáticas e humanas. E é sempre muito difícil medir o impacto desse exercício cotidiano em nossas vidas — na verdade, é praticamente impossível. O clube de leitura de dezembro vai abordar exatamente isso: a paixão que nutrimos pelos livros e o afeto que um personagem específico sente por eles. Vocês precisam conhecer Guylain Vignolles, protagonista de O leitor do trem das 6h27.

Guylain é um homem tímido, pacato, um pouco sonhador, mas que, acima de tudo, deseja passar despercebido — ele já sofreu demais por causa dos trocadilhos feitos com seu nome ao longo da vida.

14

Os incompreendidos, François Truffaut (1959)

Por isso, Guylain só quer ser mais um na multidão, passar incólume, e aparentemente não tem vocação para ser o centro das atenções. Mas parece não haver mal nisso.

1
A chinesa, Jean-Luc Godard (1967)

Operário de uma usina que destrói encalhe de livros, Guylain vive imerso em uma rotina extremamente mecânica e ordenada. Uma de suas poucas diversões é ler todos os dias, em alto e bom som, no trem a caminho do trabalho, trechos das páginas que salvou da destruição no dia anterior. O conteúdo nem sempre é animador: são fragmentos de livros que podem conter qualquer coisa, como receitas, clássicos da literatura, romances eróticos, artigos de botânica…

2
Zazie no metrô, Louis Malle (1960)

Mas que trabalho é esse? Bem, Guylain opera uma máquina que devora livros, picotando-os página por página, para serem reciclados. E o novo papel se transforma em novos livros.

3

O demônio das onze horas, de Jean-Luc Godard (1965)

Para operar a máquina, é preciso não apenas de uma licença, mas também conhecer o temperamento do gigantesco equipamento, entender sua fome e sua vontade incontrolável por mais e mais papel — e, eventualmente, também por ratos.

12

Le Jeu de la mort, de Robert Clouse (1978)

O trabalho de Guylain é desestimulante, pois é muito ruim lidar com pessoas que não apenas não se importam com nada, como desejam o tempo inteiro o seu infortúnio — Félix Kowalski, seu chefe, é um glutão que só pensa em toneladas e produtividade, e Brunner é um sujeito tão malicioso quanto ambicioso. Os dois parecem querer a cabeça de Guylain.

4

Delicatessen, Marc Caro e Jean-Pierre Jeunet (1991)

Ele sempre se sente deprimido quando para por breves instantes e observa a papa formada pelos papéis mastigados pela máquina, todas aquelas histórias desperdiçadas, os livros vitimados, um verdadeiro mar de possibilidades perdidas.

5

Fahrenheit 451, François Truffaut (1966)

Contudo, nesse ambiente desolador, há quem leia e viva pela literatura: Yvon é literalmente um guardião que protege não só a usina, mas também, com muita devoção, os clássicos do teatro francês e os versos alexandrinos.

6

Os sonhadores, Bernardo Bertolucci (2003)

Uma das piores partes do trabalho de Guylain é se esgueirar para dentro da máquina, limpar suas engrenagens, livrar dos martelos aniquiladores os fragmentos de livros que teimam em viver, além de tentar reunir tudo o que sobrou das finadas publicações.

8

O fabuloso destino de Amélie Poulain, Jean-Pierre Jeunet (2002)

Seria lastimável se alguém sofresse um grave acidente e tivesse uma parte do corpo decepada, obrigando-o a viver numa cadeira de rodas, não é mesmo? Mas a máquina é implacável.

9

Intocáveis, de Olivier Nakache e Éric Toledano (2011)

Talvez esteja na hora de nosso pobre Guylain sair um pouco da mesmice e se permitir viver novas emoções, experimentar o que o mundo tem a oferecer. Imagine se ele começasse a ler para outras pessoas…

13

Minhas tardes com Margueritte, de Jean Becker (2010)

E se ele encontrasse algo por acaso? Alguma coisa que lhe rendesse novas histórias? Será que o objeto foi deixado ali de propósito para ele? Quem será o autor desses textos?

10

O pianista, de Roman Polanski (2002)

Essa pessoa seria capaz de mudar a vida medíocre de Guylain? Quem sabe não teria sido enviada pelo destino para lhe encher de cor, ânimo e… vivacidade?

11

A datilógrafa, de Régis Roinsard (2012)

No dia 10/12 discutiremos esses e muitos outros aspectos do romance de estreia de Jean-Paul Didierlaurent. O último clube de leitura de 2015 acontece no auditório da Livraria Cultura do Shopping Bourbon. A inscrição pode ser feita pelo e-mail renato.costa@livrariacultura.com.br, enviando nome completo, CPF e contato. Se não puder comparecer, por favor, deixe sua opinião aqui nos comentários.

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Leia um trecho de O leitor do trem das 6h57

 

*Bruno Leite, 26 anos, é estudante de Letras, trabalha há 8 anos no mercado editorial e é colaborador no blog O Espanador.

testeClube de Leitura: Um mais um, de Jojo Moyes

Por Bruno Leite*

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Embora nunca tivesse lido nenhuma obra da Jojo Moyes, sempre ouvi falar muito bem de seus livros. Foi com muita curiosidade que iniciei a leitura de Um mais um para o clube de leitura e acabei me surpreendendo com a narrativa da autora.

O romance conta a história de Jess, uma mulher que se casou depois de engravidar muito nova. Quando o marido sai de casa para tratar a depressão na casa da mãe, Jess precisa acumular dois trabalhos para sustentar a família composta por Tanzie, a filha que é um prodígio da matemática, Nicky, o enteado emo, e um gigantesco cachorro babão. Para garantir a educação e o futuro de Tanzie, Jess vai ter de recorrer a um geek milionário e fazer uma road trip cheia de surpresas.

Cada capítulo é narrado por um personagem, mas Jess rouba toda e qualquer atenção como protagonista dessa história, pois representa um sem-número de mulheres que cuidam dos filhos sozinhas e que trabalham muito para manter os alicerces de uma casa sem enlouquecer! Enquanto lia o livro, ouvi essas músicas em homenagem à Jess:

Com muita garra e generosidade, Jess é capaz de conciliar o inconciliável. Surpreendentemente, ela mantém a sanidade na maior parte do tempo e consegue lidar com os inúmeros problemas que insistem em tirá-la dos eixos. A cada reviravolta, a personagem revela um material humano riquíssimo, um misto de boa vontade e ímpeto realmente invejável. E, vocês? O que acharam da Jess? Também se apaixonaram por ela?

Acredito que eu não seja o único a pensar que esse impulso de tentar, a qualquer custo, dar um futuro melhor para os filhos não é uma característica singular da personagem: conheço muitas mulheres que se esforçam todos os dias para oferecer a seus filhos tudo aquilo que não tiveram. Vocês conseguem estabelecer semelhanças entre Jess e alguma mulher conhecida?

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As crianças em Um mais um são um espetáculo à parte! Tanzie é construída de maneira brilhante e lembra muito algumas crianças extraordinárias da literatura contemporânea, como Thomas Schell, de Extremamente alto, incrivelmente perto, e Christopher Boone, de O estranho caso do cachorro morto. A predisposição da garota para o impensável, sua sinceridade e sua meiguice fazem dela uma referência numa família nada usual. Além de suas habilidades excepcionais, Tanzie apresenta um comportamento contemplativo diante da situação financeira da família — sem contar a serenidade com que ela encara o desafio de vencer uma olimpíada de matemática cujo prêmio pode garantir seu futuro.

Tanto a mãe quanto a filha são mulheres fortes — característica que não atribuo somente ao instinto, mas às situações por quais passaram. Vejo como se ambas fossem pressionadas, de certa forma, a serem mais assertivas. Vocês conseguem enxergar essa peculiaridade em Tanzie? Que outras características de Jess vocês reconhecem em sua filha prodígio?

Nicky, o rejeitado, manifesta de diversas maneiras as dores de ser fruto de um relacionamento fracassado — ele é praticamente a personificação do que é ser largado a própria sorte. A relação entre ele e Jess envolve muita cautela e carinho. Aliás, a palavra carinho é a tônica do relacionamento entre os dois.

Destaco dois momentos em que Nicky se sobressai: o primeiro é quando Jess entra em seu quarto e sente um forte cheiro de maconha — ela acaba lidando de maneira muito natural e complacente com a situação. A segunda é o vazio cortante do capítulo cinco. Vocês também se encantaram com as crianças? Aliás, é possível chamar o Nicky de criança? O que acharam do comportamento de Nicky e Tanzie durante a viagem? Conseguem se imaginar na situação de algum deles?

Apesar de não ter sido nominalmente citado na minissinopse, Ed é um personagem elementar na história. Ele está exilado em sua casa de veraneio após um grande processo especulativo envolvendo sua empresa. Jess trabalha em uma agência de limpeza e presta serviços para Ed. Num dado momento, ele concorda em levar a família de Jess para a Escócia, onde a pequena Tanzie participará da olimpíada de matemática. Charmoso por ser um desastrado emocional, o personagem cresce ao longo do livro e revela várias outras nuances interessantes. Qual foi a reação de vocês ao ler as passagens de Ed? Achavam mais monótonas ou mais divertidas do que as de Jess? Como vocês encaram a evolução da relação dele com as crianças? E o que acham da ex-mulher dele? Eu esperava ansiosamente por passagens dela! E se Jess teve música tema, por que Ed também não teria?

Essas e outras tantas questões serão abordadas no dia 12 de novembro no Clube de Leitura, a partir das 19h30, no auditório da Livraria Cultura no Shopping Bourbon. A inscrição é feita pelo e-mail renato.costa@livrariacultura.com.br, enviando nome completo, CPF e contato. Caso você não possa comparecer, deixe nos comentários suas impressões sobre esse livro da Jojo e, por favor, me indique outros, pois ela ganhou um novo fã!

link-externoLeia um trecho de Um mais um

 

Bruno Leite, 26 anos, é estudante de Letras, trabalha há 8 anos no mercado editorial e é colaborador no blog O Espanador.

testeClube de Leitura: Nós

Por Bruno Leite*

David Nicholls

Quem já fez viagens em família sabe que esse tipo de programa sempre envolve discussões, brigas e gritaria (e talvez resida aí a graça em viajarmos todos juntos). E é exatamente uma viagem em família que David Nicholls nos apresenta em seu último livro.

Em Nós, pai, mãe e filho partem em um tour pela Europa para conhecer obras icônicas da história da arte enquanto tentam se (re)conciliar. A premissa parece simples, mas o romance vai muito além do óbvio. A seguir, uma pequena lista com os momentos mais apaixonantes dessa história.

É impossível não falar sobre uma característica fundamental dos livros de Nicholls: a identificação imediata entre leitores e personagens. Então, vamos começar com uma análise que Douglas Petersen, o narrador de Nós, faz de sua juventude:

Para a maioria das pessoas, os vinte anos representam um tipo de nível máximo de sociabilidade, à medida que embarcam em aventuras no mundo real, encontram uma carreira, têm um vida social ativa e emocionante, se apaixonam e mergulham no sexo e nas drogas. Eu estava ciente de que isso estava acontecendo ao meu redor. Eu sabia das boates, das inaugurações de galerias, dos shows e das manifestações; reparava nas ressacas, nas roupas repetidas vários dias no trabalho, nos beijos no metrô e nas lágrimas no refeitório, mas observava tudo através de uma espécie de vidro grosso.

O que vocês acham das descrições de Nicholls? Ao ler isso, sinto como se conversasse com um amigo.

Outra coisa que admiro muito nos romances de David Nicholls é que você pode odiar as ações e as atitudes dos personagens — mas dificilmente odiará os próprios personagens. Uma das grandes habilidades do autor está justamente em criar tipos singulares, mas ao mesmo tempo verossímeis e carismáticos. O que vocês acham da construção de seus personagens? Amaram todos, como eu, ou acabaram desgostando de algum no meio do caminho?

Em Nós, minha grande paixão é Connie, a esposa de Douglas. Adoro sua vitalidade e coragem. Após ouvir um desabafo da esposa, Doug admite:

Connie recuperara a capacidade de falar e me contou sobre sua grande e desleixada família, a mãe, uma ex-hippie, volúvel, bêbada e emotiva, o pai biológico havia muito ausente, deixando-lhe nada além do sobrenome. Que era? Moore. Connie Moore — um nome fantástico, pensei, como uma aldeia na Irlanda. O padrasto não poderia ser mais diferente, um empresário cipriota que dirigia algumas questionáveis lojas de kebab em Wood Green e Walthamstow, e ela era agora uma anomalia em sua família: a artista, a inteligente.
(…)
As biografias que damos de nós mesmos nesses momentos nunca são neutras, e a imagem que ela escolheu para me apresentar era a de uma alma muito solitária. Ela não estava sendo piegas ou expressando autopiedade, de modo algum, mas, passada a bravata, parecia menos confiante, menos certa de si, e me senti lisonjeado por sua honestidade.

Com elegância, Connie carrega essa honestidade por toda a história. Vocês também tiveram essa impressão? Acreditam que Doug de fato tinha motivos para ser perdidamente apaixonado por essa mulher mesmo após vinte anos casados ou acha que ele estava apenas acomodado?

Sobre a estrutura narrativa: David Nicholls alterna passado e presente. Em cada capítulo, Doug narra as descobertas da família em uma das cidades do tour e relembra momentos decisivos de sua história com Connie. Esses ganchos, presentes nos finais dos capítulos, poderiam confundir a cabeça do leitor, mas, na verdade, enriquecem o livro. Será que sou o único que teve essa impressão?

Uma das minhas surpresas durante a leitura foi o fato de Doug gostar de Billy Joel. Para quem não sabe, Billy Joel é um dos grandes hit makers dos Estados Unidos, um Elton John americano com um pouco menos de… glamour. Aproveito a oportunidade para inserir aqui uma de suas melhores músicas — e que tem tudo a ver com o tour da família Petersen.

Essa é a música perfeita para o Doug, sem sombra de dúvidas. E por falar em nosso narrador/protagonista, vamos discutir agora o seu humor, uma ironia aveludada com um toque de autodepreciação nada piegas. Nicholls é corajoso ao adotar um tom leve e divertido para falar sobre o fim de um casamento — e essa escolha faz com que sua história escape do dramalhão e ganhe ares libertadores.

Não é impossível terminar um relacionamento com bom humor. Todos sabemos que é uma experiência sofrida, mas já tive o prazer de ter alguém tão incrível ao meu lado que até nossa despedida foi inesquecível.

Acho que já me alonguei demais, mas ainda gostaria de saber: por acaso você conhece alguém que seja parecido com o Albie? Já esteve em algum dos museus citados no romance?

No dia 10 de setembro nos reuniremos na Livraria Cultura no Shopping Bourbon, às 19h30, para discutir sobre essas e outras questões. Para participar, basta enviar um e-mail para renato.costa@livrariacultura.com.br informando o nome, CPF e telefone para contato. Se você não puder ir, não tem problema. Participe do clube de discussão on-line sobre Nós.

 

Leia também: Clube de Leitura de Até você ser minha

Bruno Leite, 26 anos, é estudante de Letras, trabalha há 8 anos no mercado editorial e é colaborador no blog O Espanador.

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Por Bruno Leite*

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Em Até você ser minha, a escritora inglesa Samantha Hayes nos apresenta três personagens femininas em momentos cruciais de suas vidas: Claudia Morgan-Brown, uma mulher obstinada em ser mãe; Zoe Harper, a babá sempre solícita e inteligente — com um passado nebuloso; e Lorraine Fisher, investigadora de polícia que apura uma série de ataques violentos a gestantes e que enfrenta crises em seu casamento e no relacionamento com as filhas. Tudo o que for dito além disso pode estragar o prazer da leitura desse thriller psicológico poderoso. Mas essa apresentação já é o suficiente para iniciarmos a discussão da obra.

O trunfo do livro é o fato de ele ser narrado por três vozes diferentes que se revezam na tarefa de nos apresentar a história. Um estilo de construção narrativa que lembra muito o recurso empregado por Gillian Flynn em Garota exemplar. Ou seja: para quem gostou da incrível Flynn, Hayes é um prato cheio!

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Dentre as três perspectivas, cabe às personagens Claudia e Zoe explicar como é a vida entre as paredes da casa dos Morgan-Brown. Há ainda um narrador que observa panoramicamente a investigação empreendida por Lorraine e sua dificuldade em lidar com o esfacelamento de sua família. A cada capítulo temos um novo ponto de vista e é da mistura desses ângulos variados que vão surgindo as pistas de quem está por trás dos ataques às gestantes.

Outro ponto marcante da obra é a pressão social sofrida por essas mulheres — análoga a tantas que conhecemos:

Claudia é o exemplo clássico de mulher desesperada para engravidar e que está sentindo o ressoar do relógio biológico. Ela ainda não sabe direito como conciliar sua carreira com os assuntos relativos à família e, em alguns momentos, sente-se culpada por não ter priorizado a maternidade.

Zoe, ao contrário, decidiu se dedicar aos filhos dos outros. Ela preza por sua liberdade e é constantemente julgada e cobrada pela decisão.

Fechando o ciclo, temos Lorraine, personagem que ilustra como criar filhos, lidar com problemas conjugais e, ao mesmo tempo, devotar-se a uma carreira tornam a mulher moderna uma verdadeira malabarista emocional. Mesmo que ainda não tenha faltado com nenhuma de suas obrigações sociais, ela se dá conta de que essa jornada começa a desgastá-la.

E para você? Quais são os pontos e questões mais relevantes de Até você ser minha?

Se você mora em São Paulo, convidamos para o Clube de Leitura dedicado ao thriller que acontecerá na próxima quinta-feira, dia 13 de agosto, a partir das 19h30 no auditório da Livraria Cultura no Shopping Bourbon. Estaremos esperando vocês para falarmos dessas e outras tantas questões. Basta se inscrever pelo e-mail renato.costa@livrariacultura.com.br, enviando nome completo, CPF e contato.

Mas se você não for da cidade — nem estiver em São Paulo no dia — não tem problema! Deixe aqui seus comentários para discutirmos sobre essas e outras partes do livro, como os gêmeos arteiros (e muito fofos) Oscar e Noah, a personagem Pip (que abrilhanta o livro), o desfecho de tirar o fôlego, o prólogo e epílogo que são enlouquecedores, os maridos Adam e James… Enfim, sinta-se à vontade para compartilhar conosco suas impressões sobre essa história arrebatadora.

 

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Bruno Leite, 26 anos, é estudante de Letras, trabalha há 8 anos no mercado editorial e é colaborador no blog O Espanador.

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Por Bruno Leite*

Dexter

Diálogo ficcional entre Douglas Petersen, um dos protagonistas de Nós, e Dexter Mayhew, do romance Um Dia, ambos do escritor britânico David Nicholls.

 

Hey, Dexter. De uns tempos para cá tenho visto muitas pessoas nos comparando, algumas chegam ao ponto de me dizer que eu seria você mais velho. Espero que não fique ofendido com o que vou dizer, mas, francamente? Eu rio muito. Em geral, quem diz isso não nos conheceu pessoalmente e têm uma ideia vaga de como somos em um relacionamento. Ultimamente tenho passado por alguns momentos, digamos, amedrontadores, e, bem, se as pessoas estiverem minimamente certas quanto às comparações, queria aproveitar o ensejo e te deixar algumas dicas, sete, pois soa cabalístico. São elas:

1 – Permita-se ser gostado:

Sempre que alguém me aborda, vêm à tona nossa incrível semelhança em deturparmos o bem querer de quem nos gosta, a maneira meticulosa como subvertemos um elogio e a audácia em menosprezar qualquer gesto amistoso que recebemos. Aprendi muito sobre mim vendo isso em você — pelo que dizem, claro —, e com base nessa consideração, esse é meu primeiro conselho: aprenda com o amor dos outros; se alguém por completa desventura vier a gostar de nós é porque não somos tão fracassados na vida quanto acreditamos ser, nós valemos sim alguma coisa e um pouco mais para quem nos quer bem. Respeite e cuide disso, Dexter! Vai ser muito importante durante a sua caminhada.

2 – Ame seus filhos:

É difícil. Na verdade, é horrível na maioria das vezes. Existe um limite para a genética e a maior parte é um grande acaso, para o meu desespero. Mas compensa, eu garanto. Não há nada melhor que ser pai, existe uma gratificação enorme em ver alguém crescer, evoluir, te contrariar e até mesmo colecionar canecas imundas na soleira da janela. É um amor que liberta sentimentos que você jamais imaginaria. Não desista, apenas insista e lembre: permita-se ser amado por essa criaturinha, os modos são bem peculiares, mas pode ter certeza de que esse sentimento mora lá, debaixo de uma coleção de meias que quero acreditar que servirão para um estudo de desenvolvimento de fungos em ambientes urbanos.

3 – Demonstre seu amor:

Tão importante quanto se permitir amar é demonstrar que gosta, e, acredite, demorei muito para perceber isso. Não deixe sua partner acreditar que ama sozinha, que pensa por dois sozinha — é horrível. Demonstre com sutileza a cada dia que aquela é decididamente a pessoa e que você se importa tanto com ela quanto com a sua própria existência. Não é difícil e, ao longo do tempo, você vai perceber que a arte de seduzir quem se ama é um exercício maravilhoso. Divirta-se!

4 – Tenha um relacionamento estável:

Ok, meu jovem, você é bonito, popular e faz sucesso com o mulherio. Não te julgo, mas, acredite, a vida requer um momento de pausa e reflexão. Existem inúmeras possibilidades num relacionamento que você não se dá conta agora, mas a vida vai se encarregar de te ofertar, confie em mim.

5 – Assuma suas responsabilidades:

Eu erro, você erra, ele erra e todos nós erramos, fique tranquilo quanto a isso, mas melhor ainda é identificar o erro, tentar não repeti-lo e, principalmente, admitir suas falhas. Não deixe problemas rotineiros minarem sentimentos preciosos e também não permita em hipótese alguma que isso machuque quem te ama.

6 – Aprenda a lidar com dificuldades:

Dexter, entenda que a vida não é um grande open bar e nem sempre as pessoas estão ali para te servir. Eu gosto muito de uma palavra: revés — e esses reveses acontecem o tempo todo. Ainda bem, pois é bom sair de vez em quando do nosso eixo gravitacional para enxergarmos as coisas de uma maneira mais rica. Acredite em mim, não sei se minhas experiências valeram de algo, mas, se valeram, quero muito que sejam úteis para você também.

7 – Não menospreze os problemas alheios:

Apenas não faça isso. Não menospreze os caminhos que as pessoas escolheram, não desvalorize as falhas dos outros, não desmereça seus momentos de fraqueza. Pelo contrário, tente entender e se esforce para se colocar no lugar da pessoa e ajudá-la da melhor maneira possível.

Dexter, espero mesmo que você tenha sucesso, que seja feliz e fique em paz consigo mesmo. Se eu pudesse te dar um presente seria este: paz de espírito. Ou isso ou uma vela perfumada.

 

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Bruno Leite, 26, é estudante de Letras, trabalha há 8 anos no mercado editorial e é colaborador no blog O Espanador.