testeComo rir (sem culpa) de uma neurótica

Cheio de referências pop e eruditas, novo romance da roteirista americana Maria Semple acompanha o dia de uma animadora frustrada que decide mudar a maneira de conduzir a própria vida.

Por Mariana Filgueiras*

Ilustração: Ana Franco

“Uma mãe gambá com sua fileira de filhotes chafurda em uma lixeira, mete a cabeça pontuda em uma embalagem de creme de leite, baixa sua cauda e não se deixa assustar”, diz um trecho do poema “A hora do gambá”, que Robert Lowell, um dos mais importantes poetas norte-americanos do século XX, escreveu para Elizabeth Bishop.

Numa das cenas do romance Hoje vai ser diferente, da escritora Maria Semple (roteirista de sucessos da televisão americana, como Saturday Night Live, Mad About You e Arrested Development), a narradora, Eleanor Flood, está em um café tendo aula particular de poesia. É uma estratégia para aprender a escrever de forma mais concisa, já que ela tem o desafio de colocar no papel uma graphic novel sobre a própria vida. Naquela manhã, entre frutas e torradas com bacon, o professor analisa os melancólicos versos de Lowell, que Eleanor não faz ideia que dizem tanto sobre si mesma.

É uma personagem que chafurda na lixeira dos problemas da classe média americana: animadora de sucesso em Nova York e Seattle, onde mora com o marido, Joe, um cirurgião bem-sucedido que guarda um segredo durante boa parte da trama, e o filho, Timby, de oito anos, que muitas vezes parece mais adulto do que ela, Eleanor vive atarantada por milhões de tarefas. Ora se sente culpada por não dar atenção ao menino, que começa a inventar doenças para chamar sua atenção; ora ao marido, com quem já não leva uma vida sexual muito animada há tempos. Culpa que a deixa irritadiça até com uma das únicas amigas que têm:

Faz dez anos que não consigo me livrar dela. É a amiga de quem não gosto, é a amiga que não sei o que faz da vida porque eu estava entorpecida demais para perguntar da primeira vez e, a essa altura, seria grosseiro perguntar, a amiga com quem não sei ser má para fazê-la entender o recado, a amiga para quem vivo dizendo não, não, não, mas que ainda assim me persegue. Ela parece o mal de Parkinson: não tem cura, só dá para controlar os sintomas.

Eleanor se inscreve em cursos de meditação e falta as aulas, compra roupas escondida e não usa, sente falta da atmosfera “interessante” de Nova York, mas não consegue sustentar um compromisso social em Seattle sem deixar escapar comentários preconceituosos.  

Apesar disso, reage a muitas frustrações como uma boa personagem de sitcom dessas que Semple está habituada a criar: com tiradas tão neuróticas quanto bem-humoradas. Seu livro anterior, o elogiado Cadê você, Bernadette?, tem a protagonista construída sobre as mesmas bases tragicômicas — uma mistura de Mrs. Dalloway, de Virginia Woolf, com Bridget Jones, de Helen Fielding.

Crédito: Ana Franco

Numa das passagens mais engraçadas do romance, Eleanor cita as “toalhas molhadas na cama” deixadas pelo marido e seu hábito peculiar de guardar os pãezinhos que sobram do couvert dos restaurantes dentro da própria meia, levá-los para casa “para não desperdiçar” e esquecê-los dentro da peça de roupa por dias. E enumera também suas manias que mais irritam Joe, como o hábito de passar fio dental deitada na cama, o de entrar no chuveiro com o cachorro para dar banho nele, e o mais curioso: o de não pegar a pipoca do pacote com as mãos, mas “encostando com a ponta da língua e pegando as que grudam”.

Como a gambá do poema, Eleanor chafurda, mas sai da lixeira com a cara enfiada na lata de creme de leite.

“Se eu for obrigada a ser sincera, foi assim que deixei o mundo na semana passada: pior, pior, melhor, pior, igual, pior, igual”, lista ela, antes de tomar a decisão que dispara o gatilho da trama, fazendo todos os acontecimentos se desenrolarem.

É quando Eleanor decide que não dá mais para levar a vida do mesmo jeito. Se fosse brasileira, poderia cantarolar um Roberto Carlos: “Daqui pra frente, tudo vai ser diferente…” Mas acaba fazendo o statement que dá título ao livro:

Hoje vai ser diferente. Hoje estarei presente. Hoje vou olhar no fundo dos olhos de todas as pessoas com quem conversar e vou ouvir com atenção. Hoje vou brincar com Timby. (…) Não vou falar sobre dinheiro. Hoje vou buscar a simplicidade. Vou exibir uma expressão relaxada e um sorriso. Hoje vou irradiar calma. Hoje vou dar o melhor de mim, vou ser a pessoa que sou capaz de ser.

É uma virada que aconteceu na própria vida da autora, que não esconde a proximidade entre suas protagonistas e si mesma. Maria Semple já disse em entrevistas que, se em Cadê você, Bernadette? ela trabalhou com uma versão idealizada de si, em Hoje vai ser diferente quis explorar a versão realista. “Eu carrego muita culpa por ter sido neurótica na frente da minha filha. Metade das falas de Timby são frases que minha filha disse para mim. A personagem não é má ou sarcástica, ela apenas é verdadeira”, disse a autora ao jornal The Guardian, quando o livro foi lançado nos Estados Unidos.

Para contar a história da animadora de meia-idade Eleanor Flood — que será vivida por Julia Roberts na série da HBO inspirada no livro —, a autora usa um recurso clássico de narrativa: a ação toda se passa em apenas um dia. Assim como acontece em Ulisses, de James Joyce, e na já citada Mrs. Dalloway, de Virginia Woolf.

No caso de Hoje vai ser diferente, no entanto, a solução de contar as 24 horas na vida de uma personagem do universo pop americano ajuda a acomodar, sem muitos sobressaltos, a colagem de referências que  enriquecem a  trama. E que vão muito além da poesia moderna de Lowell e Bishop, incluindo outros clássicos como as canções do Radiohead, os bordões dos Simpsons, o traço de Robert Crumb ou o clima indie de Daniel Clowes.

 

Mariana Filgueiras é jornalista cultural e mestranda em Literatura na Universidade Federal Fluminense (UFF).

testeAs vantagens de “ficar para titia”

Por Julia Wähmann*

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(fonte)

Quase toda família, tradicional ou não, tem em seu elenco a “tia solteirona”. Ela é aquela que não se casou, não teve filhos, e que provavelmente passou a vida escutando dos avós, tios e primos a pergunta mais temida por todas as mulheres que chegam sozinhas — ou ao menos sem a lacuna “casada” preenchida em formulários que pedem informações sobre estado civil — a celebrações de Páscoa, Natal ou a qualquer almoço de domingo: “Mas como você ainda está sozinha?” Estão implícitas certa pena, desconfiança e a constatação de que, em algum nível, determinados status de relacionamento são uma sentença de fracasso. Se você é ou está prestes a se tornar a solteirona da família, ou se de alguma maneira já se percebe como depositária dessa herança, então precisa conhecer Kate Bolick.

Jornalista e editora americana, Bolick despertou em mim empatia imediata, assim como Bridget Jones o fez, mais de uma década atrás. Se a britânica e atrapalhada Bridget — lutando contra os quilos a mais e desafinando em frente à TV em um pijama ridículo num sofá soterrado por lenços de papel e vodca — é a personagem fictícia que deu a mão a várias mulheres solteiras, Bolick é uma figura real que repete o gesto através de Solteirona: O direito de escolher a própria vida, seu primeiro livro.

capasolteironagrandeEla começa por esclarecer as origens do termo solteirona, ou spinster, em inglês: na Europa do século XV, o termo era usado para descrever as tecelãs não casadas. O ofício era um dos poucos destinados às mulheres que impunha respeito, e a partir do século XVII outras mulheres que não exerciam a profissão também passaram a ser chamadas, honrosamente, de spinsters. É na América Colonial que a designação muda de tom e que a palavra solteirona começa a soar pejorativa e ofensiva. Atualmente, boa parte dos dicionários americanos reconhece o caráter depreciativo do termo. Ao resgatar a etimologia da palavra, Kate Bolick já estabelece que não há por que se envergonhar de pertencer a esse grupo.

O caminho literário de Kate foi marcado por cinco escritoras, sendo a mais velha nascida em 1860 e a mais nova em 1917, que ela considera suas “despertadoras”. Neith Boyce, Maeve Brennan, Charlotte Perkins Gilman, Edna St Vincent Millay e Edith Wharton deixaram obras em prosa e verso, inspiraram movimentos feministas e tiveram vidas que jamais poderiam ser definidas ou regidas por um casamento, ainda que algumas delas tenham sido casadas. As “despertadoras” são pontos de partida para que Kate desenvolva uma pesquisa mais ampla sobre o casamento no decorrer dos séculos XIX e XX e sobre como a instituição trata os gêneros masculino e feminino com uma diferença que acaba por atuar como uma sentença cruel para o segundo.

A partir da década de 1950, as mulheres solteiras começam a ser mais duramente estigmatizadas e passam a constituir uma dentre diversas outras minorias. Kate observa algumas possíveis categorias para elas. Amo o fato de que a Estátua da Liberdade é citada como exemplo do modelo de solteirona “abnegada” (assim como adoro a observação de Kate a respeito do poliéster inflamável de que são feitas as fantasias de princesas para crianças, e o livro está repleto desses trechos de humor sutil e afiado).

Entre as “excêntricas adoráveis”, rol em que provavelmente também transita a “louca dos gatos”, está Mary Poppins. A Mulher Maravilha e Joana d’Arc são reconhecidamente as “poderosas”. Independentemente do rótulo, a solteirona é com frequência vista como uma anomalia, afinal desde cedo as mulheres aprendem que ter um marido é tão natural quanto possuir dentes. Parecia antinatural, portanto, que Kate evitasse o casamento, mesmo quando estava seriamente envolvida com candidatos ideais e portadores de excelentes credenciais.

Ao revelar a própria trajetória profissional em paralelo a suas histórias afetivas, Kate recorre às “despertadoras”, cujas biografias pouco atenderam às expectativas convencionais de épocas distintas, e mostra como os padrões culturais e sociais de comportamento aprisionaram e ainda aprisionam mulheres que não compartilham dos sonhos da maioria. A certa altura do livro, ela afirma que “quase toda escritora que conheço teve de decidir em algum ponto se aceitaria um trabalho para escrever sobre sua vida afetiva, um dilema que quase nunca é apresentado aos homens”. As imposições de um pensamento arraigado em valores machistas e patriarcais atuam com a mesma violência com que os espartilhos machucavam os corpos das mulheres, levando-as a acreditar que o problema está nelas mesmas, e não nas pressões externas.

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Felizmente, ao optar por retraçar o próprio caminho, Kate o faz com o objetivo de desmistificar as lendas, dosando memórias e experiências pessoais com uma pesquisa de grande relevância para se pensar o lugar da mulher hoje. Gosto muito da passagem em que ela mostra como uma maior autonomia pode ser enriquecedora, e como o estilo de vida de uma solteira pode ser bem mais complexo e interessante do que parece: “Ser solteira é como ser artista, não porque criar uma vida de solteira funcional seja uma arte, mas porque requer a mesma atenção detalhada às necessidades singulares da pessoa, além de vontade e foco para supri-las. Assim como a artista ajusta sua vida em torno da criatividade, sacrificando confortos convencionais e até aceitação social, sono e alimentação de acordo com seus próprios ritmos (…), uma pessoa solteira precisa pensar muito para decifrar o que a deixa mais feliz e satisfeita. Estudos mostram que uma mulher que vive sozinha tem mais probabilidade de ter uma vida social ativa e de manter laços familiares do que suas colegas casadas, não apenas porque ela tem mais tempo à disposição, mas porque são exatamente esses laços que a sustentam.” Não se trata de defender uma existência autocentrada ou reclusa, ao contrário. Trata-se de buscar um autoconhecimento a fim de estabelecer relações (de qualquer natureza) mais sólidas.

Além disso, o livro é uma bela homenagem  às “despertadoras” (de quem quero ler absolutamente tudo), e pode ser interpretado como uma tradução precisa da ideia de sororidade, termo bastante presente em artigos e estudos que tratam de feminismo. Como leitora, me senti convidada a conhecer as obras dessas autoras quase como se fizesse parte de um clube de leitura, de um coro de vozes.

Já faz anos que, em um jantar com casais de amigos em que eu era a única solteira — e por diversas razões venho reafirmando essa escolha —, um dos rapazes fez a piada corriqueira, até por saber do meu gosto por animais de estimação, dizendo que no futuro eles iriam me visitar numa casa espaçosa habitada por muitos gatos. Respondi dizendo que os felinos me dão alergia, e que ficava feliz de ele achar que seria bem-sucedida o suficiente para ter um imóvel que pudesse abrigar uma porção de cachorros. Hoje rimos da história. Meu exemplar de Solteirona, marcado com post-its e dobras, ganhou um lugar especial na estante, colado ao Diário de Bridget Jones, minha solteirona ficcional preferida que, tenho certeza, teria muito o que conversar com Kate.

>> Leia um trecho de Solteirona: O direito de escolher a própria vida

 

Julia Wähmann é escritora. Em 2015 publicou Diário de Moscou (Megamíni/7 Letras) e André quer transar (Pipoca Press). Em 2016 publica Cravos (Record, no prelo).