testeQuando o FBI entrou para a máfia

Por Lucas Baranyi*

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Histórias de máfia sempre se destacam por dois motivos: a ultraviolência dos criminosos envolvidos em um grupo quase sempre formado por questões familiares ou geográficas, e a importância da união entre esses integrantes.

É por motivos assim que a trilogia O poderoso chefão, criada pelo americano Mario Puzo (1920-1999), se fez tão importante no imaginário popular quando o assunto era a tal máfia: o respeito pela família, a tradição, a revolta com informantes e traidores e a obsessão paradoxal com a igreja e os bons costumes.

Whitey Bulger, americano de ascendência irlandesa, é o tipo de mafioso que transitou por todos esses universos, mas que em nada se assemelha ao famoso Don Vito Corleone, imortalizado no cinema pelo inesquecível Marlon Brando. Whitey, como revela o livro Aliança do crime e sua adaptação homônima para as telas, era visceral, violento e imprevisível. Um homem que beirava a loucura, deixando seus frios olhos azuis ainda mais lúdicos e intimidadores. Durante anos, Bulger foi informante do FBI, e seu plano era simples: fornecer informações para derrubar a máfia italiana, assumir o controle da parte sul de Boston em que cresceu e não ser incomodado pelos agentes federais americanos.

A história por trás da ascensão de Bulger chama atenção justamente pelo escândalo em que o FBI se envolveu: como um dos órgãos mais respeitados do governo americano iria se curvar frente a um mafioso que fez gato e sapato da instituição? A resposta a essa pergunta é tão poética quanto verdadeira: lealdade.

Nascido James Joseph Bulger Jr, Whitey já era uma figura que impunha respeito desde a adolescência, e isso fez com que o jovem John Connolly, da mesma ascendência irlandesa e criado nas mesmas ruas que ele, nutrisse desde cedo respeito e admiração pelo criminoso. A ironia do destino é que, enquanto Whitey fez sua carreira no mundo da ilegalidade, Connolly tornou-se um importante investigador do FBI — o tipo de aliado que um chefão do crime precisa para prosperar.

E é justamente nesse ponto tão importante, a amizade e lealdade que envolve a máfia de Boston, que o livro escrito por Dick Lehr e Gerard O’Neill se sobressai ao filme dirigido por Scott Cooper (que esteve por trás do ótimo Coração louco, com Jeff Bridges). Não que o filme seja ruim — muito pelo contrário: mesmo em um ano com ótimas produções de diversos estilos (Corrente do mal, Mad Max: Estrada da fúria, Divertida mente, Ex-Machina: Instinto artificial e Beasts of no nation, só para citar algumas), Aliança do crime se destaca por tratar de um gênero clássico sem perder a linha. Mas isso não é o suficiente.

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E não é suficiente pela própria história que é contada: uma das passagens mais interessantes, contida ainda no prólogo do livro — e vital para entender a relação quase familiar, em alguns momentos, entre Connolly e Bulger — não aparece nas telonas. É o momento que mostra o nascimento da fixação do agente do FBI pelo mafioso, quando eram ainda crianças: Connolly hesitou em aceitar um sorvete comprado por Jimmy [apelido pelo qual o chefão gostava de ser chamado].

Então, [Jimmy] deu ao garoto uma lição rápida e crucial sobre a história e linhagens: os ancestrais dos dois eram irlandeses. Eles não eram estranhos um ao outro. “De que sabor você quer?”, perguntou Whitey (…) Foi a primeira vez que John viu Whitey. Muitos anos depois, ele diria que a emoção de encontrar Bulger por acaso nesse dia foi como a de “conhecer Ted Williams”, o então famoso rebatedor do Boston Red Sox, time de beisebol da cidade.

Esse simples relato é suficiente para justificar, anos depois, a aliança realizada por FBI e Whitey. E, por mais que pareça loucura, estamos falando de uma realidade fria e violenta, na qual esse tipo de relação, que parece simplória aos olhos da realidade, pesava muito. Assim como, em contrapartida, a ausência de figuras femininas nas obras do gênero escancara o pequeno papel reservado às mulheres nesse tipo de negócio (o que também se repete em todas as outras grandes obras sobre a máfia nos Estados Unidos).

Para completar a tríade de poderes, a força política do irmão de Whitey (Johnny Depp, que tira uma folga das já tediosas parcerias com Tim Burton para entregar um personagem no tom certo, assustador e real) também se faz muito presente através de Billy Bulger (Benedict Cumberbatch, que derrapa no sotaque sulista graças ao seu inglês shakespeariano), irmão de Jimmy e político democrata que se tornou presidente do Senado de Massachusetts. Sua presença, mais contida no filme do que no livro, é de alguém que utiliza menos influência do que poderia para facilitar a vida de seu irmão, mas que ainda assim impressiona.

capa_alianca_do_crime_GÉ preciso fazer um mea-culpa, porém, ao comparar as duas obras: seria muito difícil adaptar Aliança do crime para o cinema com fidelidade, graças ao ótimo trabalho desenvolvido por Dick e Gerard: todos os fatos extraordinários que fazem o leitor questionar a linha tênue entre ficção e realidade, considerando a situação fora do comum em que o FBI se enfiou (e é tudo verdade) são muito bem amarrados por fatos históricos, como reportagens especiais do tradicional jornal The Boston Globe.

Para tentar demonstrar toda a colcha de retalhos em que se transformou Boston sob o reinado de Whitey, o filme usa o recurso de flashforward, acelerando a narrativa para mostrar depoimentos dos comparsas do mafioso. A lista de falcatruas é imensa: de tráfico de drogas até prostituição, passando por casas ilegais de apostas e assassinatos por encomenda, era como se a máfia de Boston só se importasse realmente com lucrar e manter o sul da cidade sob domínio dos irlandeses, sempre repudiando informantes — e a ironia de Whitey ter sido escancarado como um dos principais informantes da história do FBI é tão cruel que só poderia ter saído de uma história real.

Outro personagem que também merecia um destaque maior é Fred Wyshak (Corey Stoll, eternamente marcado por seu papel na série House of Cards, da Netflix), o advogado que peita Connolly e metade do FBI para conseguir derrubar o império de Whitey. A impressão que o filme transmite é quase como se Wyshak fosse uma força imparável, que chegou do nada e, com dois golpes de sorte, desmontou todo o esquema que existia — e o livro mostra que a história foi, na verdade, bem mais complexa. Ainda assim, não é possível dizer que a adaptação de Aliança do crime não é bem realizada — o problema é que a obra literária se sobressai justamente por ser mais rica em detalhes e entregar o tipo de história que, seja transmitida por um projetor de cinema ou pelas linhas corridas de um livro, ainda parece fantasiosa demais para ter acontecido. Mas aconteceu — e deixou marcas no FBI que não irão desaparecer tão cedo.

link-externoLeia também: o elenco de Aliança do Crime

 

Lucas Baranyi é repórter do site da VIP. Começou a carreira jornalística na revista Sexy cobrindo cultura, sexo e comportamento para depois trabalhar em diversas agências de publicidade com conteúdo e social media. Já colaborou para blogs como Casal Sem Vergonha e Entre Todas as Coisas e escreveu para publicações como Viagem e Turismo, Mundo Estranho e Superinteressante.

testeA redenção de Johnny Depp

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Calvo e enrugado, um irreconhecível Johnny Depp encarna “Whitey” Bulger, mafioso que chegou a ocupar o segundo lugar na lista de homens mais procurados pelo FBI — atrás apenas de Osama bin Laden —, em Aliança do crime, thriller que estreia em 12 de novembro nos cinemas brasileiros.

Aclamada nos festivais de Veneza e de Toronto, a atuação de Depp já desponta como candidata ao Oscar 2015 e marca uma reviravolta na carreira do ator de 52 anos. Após uma série de fracassos, ele acabou eleito, em 2014, o segundo ator menos rentável de Hollywood pela revista Forbes.
capa_alianca_do_crimeBaseado no livro homônimo dos jornalistas Dick Lehr e Gerard O’Neill que chega às livrarias em outubro, Aliança do crime discute tradição, lealdade e honra. Como pano de fundo, o maior escândalo da história do FBI.

Na década de 1980, James “Whitey” Bulger aterrorizou a cidade de Boston praticamente sem ser importunado pela lei. Assassino notório, chegou a cumprir nove anos em prisões federais — alguns deles em Alcatraz. No entanto, desde seu retorno a Boston, em 1965, não foi autuado uma única vez, nem sequer por infrações de trânsito.

Enquanto se transformava no maior gângster da cidade, seu irmão mais novo, Billy Bulger, seguia um caminho igualmente brilhante. Vivido no cinema pelo indicado ao Oscar Benedict Cumberbatch (O jogo da imitação), Billy se tornou o político mais influente de Massachusetts, presidente do Senado Estadual com o mandato mais longo da história da casa. Mesmo em áreas tão diferentes, os irmãos Bulger tinham reputação semelhante, eram astutos e inescrupulosos.

Mas o anjo de James, responsável por sua ficha imaculada, tinha outro sobrenome: Connolly. Interpretado por Joel Edgerton (O grande Gatsby), o agente em franca ascensão do FBI John Connolly foi criado junto com os Bulger num conjunto habitacional no isolado bairro irlandês de South Boston — também conhecido como “Southie”.

Era a época da caça à Cosa Nostra, e, após muitas tentativas, Connolly conseguiu o que parecia impossível: transformou James Bulger em informante. Com dados privilegiados, o gângster não só colaborou com o desmantelamento da Máfia italiana como também manobrou uma série de assassinatos e passou a comandar o tráfico de drogas da cidade.

No vídeo de divulgação publicado pela Warner Bros., o diretor Scott Cooper (Coração louco)  resume: “Fiquei interessado nesse filme por causa da dinâmica entre dois irmãos: Billy Bulger, que é o político mais poderoso do estado de Massachusetts, e “Whitey” Bulger, informante do FBI desde 1975 e considerado o criminoso mais cruel da cidade. Aliado a isso, John Connolly, um amigo de infância e agente do FBI que permitiu que ‘Whitey’ Bulger tocasse o horror na cidade de Boston.”

Aliança do crime tem ainda Dakota Johnson (Cinquenta tons de cinza) e Kevin Bacon (The Following) no elenco.

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