testeBaseado em Fatos Reais ganha trailer oficial. Confira!

O site Adoro Cinema divulgou o trailer oficial de Baseado em fatos reais, inspirado no livro homônimo de Delphine de Vigan. Na trama, a escritora Delphine atravessa uma fase de bloqueio criativo e de depressão após o sucesso de seu último livro. É nesse cenário que ela conhece a ghost-writer L., uma mulher sedutora e misteriosa que aos poucos passa a dominar todas as esferas da vida de Delphine, até que a relação se torna perigosa. A partir daí, começa uma grande brincadeira: a busca pelo fio que distingue realidade e ficção.

A adaptação foi dirigida pelo renomado diretor Roman Polanski, e traz Eva Green como Elle, misteriosa mulher que estabelece uma relação obsessiva com sua escritora predileta, Delphine Dayrieux (Emmanuelle Seigner). Com ecos do clássico Louca Obsessão, baseado na obra de Stephen King, o thriller psicológico é apontado como “magistral” pelo site The Hollywood Reporter. A estreia no Brasil está prevista para 12 de abril. Oh, ansiedade!

Assista ao trailer:

teste11 filmes e séries que você precisa ver em 2018

O ano mal começou e já temos várias promessas de filmes incríveis para 2018, com títulos de todos os gêneros e para todos os gostos. Se você é cinéfilo de carteirinha, vai passar os próximos 12 meses com os olhos vidrados na tela da TV ou do cinema, e se não é, com certeza vai virar! Separamos alguns filmes e séries inspirados nos nossos livros que estreiam em 2018. Confira:

  1. Me chame pelo seu nome

Um dos filmes mais esperados do ano, indicado a três Globos de Ouro e um dos possíveis candidatos ao Oscar, chega aos cinemas brasileiros no dia 18 de janeiro. A atração entre Elio e Oliver é o centro da narrativa. Os dois se conhecem em um verão na paradisíaca costa da Itália e, ao longo de seis semanas deitados à beira da piscina ou se aventurando pelo vilarejo de bicicleta, a química entre eles se torna inegável. A simplicidade e a sutileza dos olhares e toques, contrastados com a sensualidade vibrante do relacionamento, vão fazer com que você se lembre da intensidade do seu primeiro amor. O livro que inspirou o filme estará disponível nas livrarias a partir do dia 5 de janeiro.

Leia um trecho.

  1. A grande jogada

O filme estrelado por Jessica Chastain e Idris Elba, inspirado na biografia de Molly Bloom, recebeu indicações ao Globo de Ouro e ao Critics Choice Awards. Com pouco mais de 30 anos, Molly ganhou as manchetes dos jornais ao ser presa pelo FBI por operar ilegalmente uma das mais milionárias mesas de pôquer do mundo. Foi em Hollywood que ela começou a promover as mesas pelas quais passariam centenas de milhões de dólares em partidas que aconteciam em luxuosas suítes de hotéis para uma seleta lista de convidados, entre eles atores famosos como Leonardo DiCaprio, Tobey Maguire e Ben Affleck. Uma história de glamour e excessos perigosos e surpreendentes. A grande jogada chega às livrarias a partir do dia 12 de janeiro e o filme estreia em 1o de fevereiro.

 

  1. A forma da água

O filme com mais indicações ao Globo de Ouro 2017 se passa durante a época da Guerra Fria, em Baltimore, em um centro de pesquisa aeroespacial que acaba de receber um bem precioso: um homem anfíbio capturado na Amazônia. O novo filme de Guillermo Del Toro acompanha uma angustiante história de amor entre o anfíbio e uma das zeladoras do laboratório, uma mulher muda que usa a lingua de sinais para se comunicar com a criatura. No Brasil o filme estreia em 11 de janeiro e o livro terá lançamento mundial em 27 de fevereiro.

 

  1. Baseado em fatos reais

Roman Polanski, diretor dos clássicos O bebê de Rosemary e O pianista, comanda a adaptação para os cinemas desse empolgante thriller que brinca com os limites entre realidade e ficção. Na obra, a escritora Delphine atravessa uma fase de bloqueio criativo e de depressão após o sucesso de seu último livro. Nesse momento, conhece a ghost-writer L., interpretada por Eva Green, uma mulher sedutora e misteriosa que, aos poucos, passa a dominar todas as esferas da vida de Delphine. O filme estreia no Brasil em 11 de janeiro.

 

  1. Touro Ferdinando

Inspirado no clássico infantil, a história acompanha a trajetória de um touro grande e forte, porém inofensivo, que prefere cheirar flores enquanto seus amigos brigam. Um dia, confundido com um animal muito feroz, Ferdinando precisará mostrar que não há nada de errado em ser diferente. No Brasil, Maisa dubla Nina, a menina que cria Ferdinando até ele ser capturado. A animação é dirigida por Carlos Saldanha, criador de Rio e A Era do Gelo, e chega aos cinemas brasileiros em 11 de janeiro.

 

  1. Love, Simon

Simon tem 16 anos e é gay, mas ninguém sabe disso. Ele só não contava que Martin, o bobão da escola, iria chantageá-lo ao descobrir sua troca de e-mails com Blue, o pseudônimo do menino por quem Simon se apaixonou virtualmente. Será que é preciso mesmo sair do armário? Por que, ao contrário dos adolescentes héteros, ele precisa passar por isso? Uma história arrebatadora sobre amadurecimento, amizade e amor. A adaptação do livro que conquistou milhares de fãs no mundo inteiro chega aos cinemas em16 de março nos Estados Unidos, ainda sem data no Brasil. O filme inspirado em Simon vs. a agenda Homo Sapiens conta com Nick Robinson, Katherine Langford, Jennifer Garner e Josh Duhamel no elenco. A produção ficará a cargo da mesma equipe do filme inspirado em A culpa é das estrelas.

 

  1. Cinquenta tons de liberdade

    O terceiro e último filme baseado na trilogia Cinquenta tons de cinza estreia dia 8 de fevereiro nos cinemas. Depois de assumirem um compromisso mais sério, Ana e Christian têm tudo: amor, paixão, intimidade, riqueza e um mundo de possibilidades à sua frente. Mas a vida dos dois reserva desafios que nenhum deles será capaz de imaginar. Ana precisa se ajustar ao mundo de opulência de Grey sem sacrificar sua identidade. E Christian precisa aprender a dominar seu impulso controlador e se livrar dos fantasmas do passado. Para quem está triste com o fim da série, vale conferir Mais escuro, segundo livro na visão de Christian Grey, que chega às livrarias em 19 de janeiro.

 

  1. Aniquilação

Dirigida por Alex Garland, aclamado por Ex-Machina: Instinto Artificial, a adaptação cinematográfica de Aniquilação tem Natalie Portman e Oscar Isaac nos papéis principais. No livro, um grupo de mulheres é enviado na décima primeira expedição a uma região conhecida como Área X, que foi isolada do resto do mundo e onde criaturas e fenômenos bizarros apagaram todos os vestígios da presença humana, exceto um misterioso farol. O filme inspirado no primeiro livro da série Comando Sul, de Jeff VanderMeer, chega ao Brasil em 22 de fevereiro.

 

  1. Mentes sombrias

A história se passa em um mundo apocalíptico. Uma epidemia mata a maioria das crianças e adolescentes da América e os sobreviventes desenvolvem poderes sobrenaturais. Eles são tirados de suas famílias pelo governo e enviados para campos de reabilitação. Interpretada por Amandla Stenberg, Ruby é uma das sobreviventes que consegue escapar com outras crianças em busca de ajuda. O filme tem previsão de estreia para setembro. O livro ainda não tem data de lançamento pela Intrínseca.

 

  1. Objetos cortantes

Com reviravoltas surpreendentes, Objetos cortantes é inspirado no primeiro thriller de Gillian Flynn, que narra o retorno da repórter Camille Preaker, interpretada por Amy Adams, à sua cidade natal para investigar o brutal assassinato de uma menina e o desaparecimento de outra. Hospedada na casa da família, com quem não fala há oito anos, a jornalista precisa lidar com as memórias difíceis de sua infância e adolescência. À medida que as investigações avançam, Camille passa a desvendar segredos perturbadores, tão macabros quanto os problemas que ela própria enfrenta. A minissérie produzida pela HBO estreia em 2018, ainda sem data definida.

 

  1. Big Little Lies

A série Big Little Lies, inspirada em Pequenas grandes mentiras, conta a história de três mulheres que aparentemente têm uma vida comum em uma pequena cidade da Austrália. Madeline é forte e passional, Celeste é dona de uma beleza estonteante e Jane é uma jovem mãe solteira. Os filhos dessas três mulheres estudam na mesma escola, onde acontece uma misteriosa tragédia. Vencedora do Emmy e com várias indicações ao Globo de Ouro, a série da HBO volta para uma segunda temporada em 2018.

testeConcluídas as filmagens da adaptação de Baseado em fatos reais, com Eva Green e Roman Polanski

Por Suelen Lopes direto do Salão do Livro de Paris

As atrizes Eva Green e Emmanuelle Seigner

Vencedor do Prix Renaudot de 2015 e grande sucesso na França, Baseado em fatos reais, livro de Delphine de Vigan lançado no Brasil em 2016, está sendo adaptado para o cinema pelo diretor Roman Polanski. Em debate no último sábado, no Salão do Livro de Paris, a autora, o diretor e o roteirista, Olivier Assayas (Acima das Nuvens e Paris, Te Amo), contaram que as filmagens terminaram nessa sexta-feira, 24/3. 

Delphine de Vigan confessou jamais ter imaginado que seu livro poderia ser adaptado por alguém como Polanski. Mas o diretor afirmou que ficou intrigado pela narrativa desde o primeiro contato. Já o roteirista Olivier Assayas revelou que se sentiu muito feliz em poder adaptar um autor francês contemporâneo e que vê traços no livro de Delphine que lembram filmes como Repulsa ao Sexo (dirigido por Polanski) e O Inquilino (David Ondaatje).

Debate no no Salão do Livro de Paris

Na obra, a escritora Delphine (interpretada por Emmanuelle Seigner) atravessa uma fase de bloqueio criativo e de depressão após o sucesso de seu último livro. Nesse momento, conhece a ghost-writer L., uma mulher sedutora e misteriosa que, aos poucos, passa a dominar todas as esferas da vida de Delphine. L. será interpretada por Eva Green. 

As pistas lançadas ao longo da narrativa constroem um jogo entre realidade e ficção, e Delphine de Vigan e Polanski concordam que não se deve defini-los. “Será que o público quer o jogo da ficção ou o da realidade?”, perguntou o diretor.

Temas como manipulação, dominação, poder e fragilidade não são importantes apenas em Baseado em fatos reais, mas em todos os livros de Delphine de Vigan — para a autora, trata-se de uma questão bastante pessoal, que a constitui como escritora e que marca bastante suas obras. A estreia do filme está prevista para o fim de 2017.

Delphine de Vigan no no Salão do Livro de Paris


*Suelen Lopes
 é editora assistente de livro estrangeiros na Intrínseca. Gosta de chá, cachorros e francês, e acredita que dar voz à vulnerabilidade humana ainda vai mudar o mundo.

testeAs mentiras sinceras da literatura

Por Julia Wähmann*

andrew-matusikAndrew Matusik (Inspiração Rene Magritte)

Já faz uns dez anos que li A hora da estrela, da Clarice Lispector. Coincidiu de Carolina, uma grande amiga, ler ao mesmo tempo que eu, e frequentemente nossas conversas giravam em torno de Macabéa, protagonista do livro. Falávamos dela como se fosse real — e de certa forma ela era, afinal estava presente em nossas vidas de muitas maneiras. Mais ou menos na mesma época, conheci uma livraria famosa de Paris que exibia num dos painéis da fachada a seguinte frase, em tradução livre: “O fato é que Tolstói e Dostoiévski são mais reais para mim que meus vizinhos.” Eu poderia dar mais uma porção de exemplos de como a literatura invade cotidianos: a prima que se pergunta o que Atticus Finch (personagem de Harper Lee em O sol é para todos) diria; os amigos que afirmavam morar em Macondo (cidade imaginária de Gabriel García Márquez, em Cem anos de solidão) numa extinta rede social. Se a vida imita a arte, o contrário não é menos incomum, sobretudo no campo literário.

untitledÉ destas confusões entre realidade e invenção que trata Delphine de Vigan em seu novo livro, Baseado em fatos reais, romance premiado e publicado quatro anos após Rien ne s’oppose à la nuit, relato ficcionalizado de sua relação com a mãe bipolar. O ponto de partida desta nova história é, justamente, a “ressaca” após o estrondoso sucesso e a repercussão da obra anterior, em que expôs familiares e relações que, a princípio, deveriam ficar restritas a um âmbito privado. A narradora/personagem de Baseado em fatos reais, também chamada Delphine, passa por uma grave depressão causada pela incapacidade de escrever quando se vê diante de um novo projeto. Fascinada por reality shows em que pessoas reais e comuns ganham contornos fictícios devido a manobras de edição, ela vê neste universo um possível enredo para um novo trabalho. É quando L., que será tratada apenas pela inicial ao longo da narrativa, cruza seu caminho.

L. é uma ghost-writer, ou seja, quem efetivamente escreve textos e livros que são assinados por outra pessoa, normalmente alguém digno de ter sua biografia publicada, como grandes artistas ou políticos. L. é, portanto, a pessoa que mais conhece a vida, a intimidade e os detalhes da celebridade em questão; a pessoa que tem acesso, às vezes irrestrito, aos hábitos de seu objeto; a pessoa que se coloca no lugar do outro para dar voz às suas memórias, e também aos feitos e superações.

L. se aproxima de Delphine e logo se mostra confiável, disponível e sensível ao período turbulento que a escritora enfrenta. Também se revela uma grande crítica das ideias de Delphine para o novo livro, quebrando seus argumentos acerca do valor da ficção que planeja escrever. Para L., os leitores não estão mais interessados em tramas e personagens imaginados e construídos com base em pesquisa: eles querem a “Verdade”, com letra maiúscula. A discussão em torno dessa “Verdade” é o primeiro de alguns embates entre a personagem Delphine e L. Enquanto a escritora afirma que a verdade (com minúscula) não existe, L. defende que apenas ela importa para o leitor, e usa como evidência a crescente produção de obras — no cinema, no teatro, na literatura — que trazem em destaque a informação de serem inspiradas em fatos reais. Enquanto Delphine deseja escrever uma história que soe crível, L. levanta a bandeira da morte da ficção.

De um tempo para cá, a maioria dos autores que escreveram obras que guardam alguma semelhança com suas biografias foram confrontados com a pergunta: seu livro é autobiográfico? O termo “autoficção”, hoje quase um gênero por si só, foi cunhado no fim da década de 1970. Ambas as definições provocam rixas e debates acalorados entre estudiosos e pesquisadores, então a expressão “escritas de si” acena como possível conciliadora, abrangendo as duas classificações. Dentre leitores, jornalistas, entrevistadores e mediadores de conversas, muitos enveredam pela investigação que procura confirmar a veracidade de fatos contados no âmbito da ficção e que coincidem com o que sabemos da vida de seus autores – seja um nome, uma data ou uma cidade. É fácil enxergar possíveis espelhos em livros, e muitos autores tiram proveito dessas interseções, fornecendo pistas escorregadias e atuando como verdadeiros performers de si, o que atiça ainda mais a curiosidade do público. No século XVIII, ao contrário, escritores buscavam uma prosa que representasse o senso comum, um retrato da época, então a individualidade, quando entrava em cena, questionava esse cenário mais amplo de uma “verdade” social.

de-vigan-delphine-2011-nbc-delphine-jouandeauA escritora Delphine De Vigan (Foto: Delphine-Jouandeau)

Delphine De Vigan destrincha todos esses aspectos em Baseado em fatos reais ao longo das conversas da personagem Delphine com L., que começam em tom cordial e logo ganham tintas mais sombrias, um tom que a amizade de ambas também começa a aparentar. L. torna-se cada vez mais obstinada em convencer Delphine a voltar-se para si mesma. A tensão aumenta proporcionalmente à obsessão de L. A certa altura, comecei a me perguntar o que Atticus Finch – aquele personagem lá do começo deste texto – faria diante de uma figura tão engenhosa.

Como leitora, pouco me importa o grau de realidade que eu possa conferir a uma história que me é contada de maneira convincente, com a qual eu estabeleça uma relação de confiança, empatia. Se L. é real ou não, isso não muda o fato de que, enquanto tomava conhecimento de suas características e ações, ela me apavorava em escala galopante, e pude vê-la com todo o espanto que me causava. Mesmo que me provassem por A + B que a história de Delphine é fruto de sua imaginação — ou o contrário —, o caminho já estaria percorrido, e o maior prazer de ler um livro está no virar das páginas, na ânsia pelo próximo capítulo, nas reações que temos diante de cada detalhe que se torna quase palpável. Assim como toda vida pode ser floreada e ligeiramente modificada, seja pela natural seleção do que se escolhe contar ou pelo exagero de certos aspectos dela, toda ficção pode estar impregnada de elementos do real, todo personagem pode ter trejeitos de pessoas que “existem”.

“Tudo que não invento é falso”, diz um verso de Manoel de Barros. Um outro lado dessa imagem está em uma das falas de Delphine no livro, uma citação do escritor francês Jules Renard: “Quando uma verdade tem mais de cinco linhas, é um romance.” Em alguma esfera, tudo é falso; em outra, é tudo verdadeiro. Quando a verdade tem as 256 páginas do romance de Delphine de Vigan, é bom se preparar para passar tardes ao telefone com sua melhor amiga em conversas sobre L.

 

Julia Wähmann é escritora. Em 2015 publicou Diário de Moscou (Megamíni/7 Letras) e André quer transar (Pipoca Press), e em 2016, Cravos (Record). Ela coordena o serviço de curadoria Garimpo Clube do Livro.

testeUma marionete nas linhas habilidosas de Delphine de Vigan e Gillian Flynn

Por Liciane Corrêa*

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Uma é L., apenas L. A outra só conhecemos pelo apelido: Nerd. L. é ghost-writer de biografias; Nerd é uma devoradora de livros, com uma queda especial por histórias de fantasmas. Ambas são mulheres fortes, com bastante sensibilidade para ler pessoas.

Se as duas fossem vizinhas, provavelmente se tornariam amigas. Talvez passassem noites em claro discutindo literatura, L. defendendo que só a não ficção importa, porque as pessoas estão cansadas de histórias sem autenticidade, produzidas por farsantes. Mas L. e Nerd nunca se conheceram, pois não fazem parte do mesmo universo. Nós, leitores, podemos conhecer as duas através das obras de Delphine de Vigan e de Gillian Flynn.

untitledQuem nos apresenta a L. é Delphine, narradora de Baseado em fatos reais. Elas são como aquelas amigas que a gente costuma ter na adolescência: vão juntas ao cinema, ao mercado, à padaria, trocam mensagens a toda hora. L. encontra sempre as palavras certas para consolar e acalmar Delphine. O mesmo tipo de palavras certas que Nerd, protagonista com que Gillian nos presenteia no conto O adulto, tem para as mulheres que vão até ela pedindo uma luz porque estão com a vida desmoronando — a diferença é que Nerd é paga para isso.

Com frequência Nerd tem que ler nas entrelinhas dos relatos das clientes e preencher as lacunas para lhes contar o que está escrito nas estrelas. Já o papel de L. na vida de Delphine é preencher os espaços vazios deixados pela ausência de inspiração criativa. Acho que qualquer leitor gostaria de ter uma amiga dedicada como L. se, de cara, Delphine já não deixasse tão claro que a outra é a responsável por seu fracasso.

Mas comecemos do início: Delphine havia lançado um livro em que abordava a relação com a mãe bipolar e suicida — uma história que lhe deixou cicatrizes, assim como se espera de qualquer história que envolva mães problemáticas, quer ela vire livro ou não. Depois de uma obra tão pessoal, sobre o que Delphine poderia escrever? É nesse período da vida, quando está refletindo sobre seu próximo livro, que ela conhece L.

Logo as duas descobrem muitas afinidades e a irresistível e espirituosa L. com sua beleza e confiança, tem todos os predicados para ser uma pessoa inspiradora. Mas não adianta: Delphine não consegue mais escrever. A princípio, o bloqueio criativo parece fruto do sentimento de culpa que Delphine já experimentou antes, ao se afastar de um livro publicado e partir para uma nova história. Mas a situação piora e, em certo ponto, ela começa a sentir dor só de pensar em se sentar ao computador. Sorte dela que L. está sempre a seu lado, sempre vem ao seu socorro. Delphine torna-se, então, refém de alguém tão próximo, tão familiar, tão íntimo.

adultograndeSe por L. a gente já é induzido a sentir antipatia desde o primeiro capítulo, sem nem mesmo saber o que exatamente ela fez para merecer isso, Nerd conquista nossa empatia logo no início. Sabe aquela pessoa por quem a gente torce mesmo sabendo que é vilã, tipo Carrie White em Carrie, a estranha? Esta é Nerd: ganha a vida ludibriando pessoas, mas ainda assim é difícil resistir a ela. Afinal, seu destino foi moldado pela infância de mentiras criada pela mãe.

Ela aprendeu a ler e conhecer as pessoas como a palma da própria mão e usa isso para tirar proveito de quem está fragilizado. Mas um dia, quando a dona de uma casa mal-assombrada chega para uma consulta, o feitiço se vira contra Nerd e ela se vê envolvida em uma trama de tirar o fôlego. Enquanto L. e Delphine compartilham afinidades que acabam por sufocar a relação, Nerd encontra sua redenção na mais improvável das pessoas.

Mergulhar nas obras de Delphine e de Gillian é como estar em um mar tranquilo e de repente se ver sendo tragado pela correnteza para depois ser jogado de volta, atordoado, na areia. Em entrevista, Gillian Flynn já afirmou que gosta de personagens complexos, e de fato ela sempre nos brinda com personalidades que nunca deixam o leitor entediado.

>> Leia também: As mulheres de Gillian Flynn

A narrativa extremamente convincente das duas autoras nos faz acreditar em qualquer coisa. E depois desacreditar. E, em seguida, acreditar de novo. E Delphine vai além: interessada na fronteira entre a razão e a loucura, ela extrapola os jogos narrativos comuns a thrillers psicológicos quando brinca não apenas com os personagens, mas também com o leitor. A autora compartilha com a protagonista o nome, os filhos, o marido, o suicídio da mãe. A todo tempo nos perguntamos o que mais a autora Delphine de Vigan emprestou à personagem Delphine. Mas nem tudo é o que parece, e os fatos reais do título talvez sejam tão reais quanto as visões que Nerd tem sobre o futuro de suas clientes.

Durante a leitura dos dois livros, eu me senti manipulada como uma marionete nas linhas habilidosas de Delphine e Gillian. Não são apenas as personagens Delphine e Nerd que perdem o controle da própria vida à medida que as páginas avançam: nós, leitores, também somos seduzidos a acompanhar a tensão de cada cena com a mesma intensidade que Delphine precisa de L. em sua vida.

>> Leia também: Eva Green está no elenco da adaptação de Baseado em fatos reais, novo filme de Roman Polanski

 

Liciane Corrêa, ao contrário de L., prefere livros de ficção — e, assim como Delphine e Nerd, gosta de Stephen King (de quem já foi editora e cujos livros agora tem o prazer de traduzir) e histórias de fantasma. Também compartilha com Delphine os péssimos hábitos de coçar os olhos quando está de rímel e tropeçar em todos os móveis da casa.

testeEva Green está no elenco da adaptação de Baseado em fatos reais, novo filme de Roman Polanski

eva_green_green-globesEva Green

A perturbadora amizade entre duas mulheres, uma renomada escritora e uma ghost-writer, narrada pela francesa Delphine de Vigan no thriller Baseado em fatos reais chegará ao cinema em uma adaptação de Roman Polanski, diretor dos clássicos O bebê de Rosemary, Chinatown e vencedor do Oscar em 2002 por O pianista.

O filme, em pré-produção, será estrelado por Eva Green, atriz que despontou com Os sonhadores (2003) e viverá a srta. Peregrine no novo filme de Tim Burton, e por Emmanuelle Seigner, de O escafandro e a Borboleta (2007) e A pele de Vênus (2013).

Na trama, Emmanuelle Seigner interpreta Delphine, uma escritora que enfrenta um bloqueio criativo após a publicação de uma controversa obra em que revelava seus segredos familiares. Sua situação de fragilidade é agravada quando ela começa a receber ameaçadoras cartas anônimas e conhece L., a sofisticada e atraente ghost-writer que será vivida por Eva Green.

1-emmanuelle-seignerEmmanuelle Seigner

Com um passado misterioso, L. surge de maneira intempestiva na vida de Delphine e as duas logo se tornam amigas inseparáveis. L. é a amiga perfeita, sempre disponível, e logo passa a interferir nos aspectos mais íntimos da vida de Delphine, a ponto de virá-la de cabeça para baixo.

Com roteiro de Polanski e Olivier Assayas (Acima das Nuvens), a adaptação de Baseado em fatos reais tem previsão de estreia para 2017. As filmagens começam em novembro.

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Recém-publicado no Brasil, Baseado em fatos reais teve mais de 500 mil exemplares vendidos na França e ganhou os prêmios Renaudot e Goncourt des Lycéens. Em uma obra em que o leitor é levado constantemente a questionar o que lhe é apresentado, Delphine de Vigan constrói um clima confessional, sombrio e opressivo para expor a obsessão do mercado editorial e do cinema pelas narrativas baseadas em fatos reais. A linha tênue entre verdade e mentira oscila para enriquecer uma poderosa reflexão sobre o fazer literário e questionar as fronteiras entre aparentes dicotomias, como real e ficção, razão e loucura, público e privado.

>> Confira a entrevista concedida por Delphine de Vigan ao jornal O Globo

>> Leia mais sobre Baseado em fatos reais

testeClube de leitura: Baseado em fatos reais, de Delphine de Vigan

Por Bruno Leite*

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Quando recebi o e-mail com a sinopse de Baseado em fatos reais, de Delphine de Vigan, pensei: esse é o tipo de livro que é a cara do clube! E dito e feito: ele será o tema do nosso próximo encontro. A obra é de uma complexidade maravilhosa e faz surgir inúmeras questões enquanto você processa os acontecimentos descritos. Para quem ainda não conhece — o livro está quentíssimo, acabou de sair do forno —, Baseado em fatos reais conta a história de uma escritora chamada Delphine (sim, a personagem tem o mesmo nome da autora). Ela se encontra consumida pela insegurança e a ansiedade após o sucesso de seu último romance, até que conhece a encantadora e amistosa L., uma mulher que transformará sua vida. A partir daí, começamos uma grande brincadeira: a busca pelo fio que distingue onde começa a realidade e onde começa a ficção. O jogo da autoficção.

Esse estilo, embora não seja novo, vem sendo explorado constantemente por autores da nossa geração. O gênero começou possivelmente com os iluministas, como Rousseau e suas Confissões e Chateaubriand com Memórias de além-túmulo, e continua se reinventando com autores como Gertrude Stein em A autobiografia de Alice B. Toklas, Françoise Sagan em Bom dia, Tristeza e, mais recentemente, O mapa e o território, de Michel Houellebecq. Na autoficção, uma história a princípio verídica pode ter nomes adulterados e passagens mais exageradas ou comedidas, uma vez que não existe compromisso com fatos reais, e sim com uma boa história. O que vocês acham desse tipo de narrativa? Já leram algum desses autores? Eu me esqueci de alguém que vocês consideram um escritor que se utiliza da autoficção em seus livros?

Claramente eu me deixei seduzir e fui guiado pela voz melíflua de L. (Uma das coisas de que eu mais gostei é que L. se pronuncia do mesmo modo que elle, que significa “ela” em francês.) L. é uma tremenda personagem, acho que uma das melhores pessoas da ficção (ops!) que conheci esse ano. Vocês já conheceram alguém tão emblemático e sedutor assim? Será que se permitiriam ser seduzidos por L.?

Durante a leitura, muitas vezes quis bater em Delphine, em outras, quis abraçá-la e dizer: vai dar tudo certo. Passado um tempo, fui pesquisar informações sobre a autora e descobri muitas semelhanças entre Delphine de Vigan e a personagem Delphine, mas, ao mesmo tempo, me deparei com um grande dilema: eu deveria “acreditar” na vida dela ou no que ela escreveu no livro?

Numa dessas pesquisas, descobri que Baseado em fatos reais em breve vai ser adaptado para o cinema pelas mãos de Roman Polanski e Oliver Assayas. Então, me lembrei de alguns filmes cuja temática é parecida:

 

Persona, de Ingmar Bergman

Após perder a voz, uma atriz veterana vai passar um tempo na casa de praia com uma enfermeira e cada uma acaba assimilando a personalidade da outra.

 

A malvada, de Joseph L. Mankiewicz

Uma jovem atriz bem ambiciosa cruza a vida de uma atriz veterana, afetando tanto seu campo profissional como o pessoal.

 

O que terá acontecido a Baby Jane?, de Robert Aldrich

Duas irmãs que tiveram o destino selado por um acidente trágico precisam acertar contas com o passado.

 

Dentro da casa, de François Ozon

Um jovem se enfurna na casa de um colega de melhor condição social e começa a tecer uma série de histórias, seduzindo (e comprometendo) seu professor de redação.

Curioso para discutir esse e outros temas? É só passar seus dados e nome completo para renato.costa@livrariacultura.com.br e comparecer no dia 8 de setembro às 19h no auditório da Livraria Cultura do Shopping Bourbon. Espero vocês lá!

>> Leia um trecho de Baseado em fatos reais

Bruno Leite é estudante de Letras, trabalha há 8 anos no mercado editorial e é colaborador no blog O Espanador.

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Confira sinopses e trechos dos livros que publicaremos neste mês:

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Coleção Como Lidar, de J. A. Hazeley e J. P. Morris – Explicando desde questões clássicas da vida adulta (Os encontros, A ressaca) até as mais incompreendidas tendências (O hipster), incluindo volumes especialmente didáticos chamados “Manual do usuário” (Manual do usuário – O marido, Manual do usuário – A esposa), a Coleção Como Lidar ironiza os percalços da maturidade, seus estereótipos e absurdos, com muito sarcasmo e sem pena. Imagens e textos não poderiam ser mais apropriados para colocar – ou tirar de vez – você do eixo. Porque, convenhamos: a vida adulta não precisa ser tão adulta assim.

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Baseado em fatos reais, de Delphine de Vigan – Em uma obra em que o leitor é levado constantemente a questionar o que lhe é apresentado, Delphine de Vigan constrói um clima confessional, sombrio e opressivo para expor a obsessão do mercado editorial e do cinema pelas narrativas baseadas em fatos reais. A linha tênue entre verdade e mentira oscila para enriquecer uma poderosa reflexão sobre o fazer literário e questionar as fronteiras entre aparentes dicotomias, como real e ficção, razão e loucura, público e privado. Um livro brilhante, que joga com os códigos da autoficção e do thriller psicológico. [Leia +]

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Alerta vermelho, de Bill Browder – Ao mesmo tempo uma aventura no mundo financeiro, um thriller criminal e uma cruzada com casos de polícia, Alerta vermelho é a história de um homem que foi contra todas as probabilidades em busca de mudar o mundo. E foi a partir daí que encontrou, mesmo sem esperar, um sentido para a sua vida. [Leia +]

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As mil noites, de E. K. Johnston – É impossível que alguém nunca tenha ouvido falar sobre Ali Babá e seus quarenta ladrões, ou sobre Aladim e o gênio da lâmpada. Ou sobre Sherazade, a mulher sagaz e inteligente que se casou com um homem cruel, e, por mil e uma noites, driblou a morte narrando contos de amor e ódio, medo e paixão, capazes de dobrar até mesmo um rei. Em As mil noites, a história se repete, mas com algumas diferenças… [Leia +]

EstanteIntrinseca_Agosto16_BLOG_Pa¦üginasInternas

Os Dois Terríveis ainda piores, de Jory John e Mac Barnett, ilustrado por Kevin Cornell – A dupla mais terrível de Vale do Bocejo está de volta, e agora os dois amigos precisarão ser mais inteligentes e desordeiros do que nunca se quiserem dar fim a um vilão alérgico a brincadeiras e felicidade. [Leia +]

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As Chamas do Paraíso, de Robert Jordan – Antigas instituições caem por terra e novas alianças se formam, pois o Dragão Renascido provoca mudanças por onde passa. Heróis lendários se juntam à história no novo volume de A Roda do Tempo, uma das mais extraordinárias séries já escritas. [Leia +]

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Biblioteca de Almas, de Ransom Riggs – último volume da celebrada trilogia iniciada com O lar da srta. Peregrine para crianças peculiares. Neste terceiro livro, depois de sofrer com a morte do avô, conhecer crianças com habilidades peculiares em uma fenda temporal e partir pelo mar em uma busca desesperada para curar a srta. Peregrine, Jacob vai finalmente enfrentar a inevitável conclusão dessa turbulenta jornada. [Leia +]EstanteIntrinseca_Agosto16_BLOG_Pa¦üginasInternas2

Alerta de risco, de Neil Gaiman – Um escritor sofisticado cujo gênio criativo não tem paralelos, Gaiman hipnotiza com sua alquimia literária e nos transporta para as profundezas de uma terra desconhecida em que o fantástico se torna real e o cotidiano resplandece. Repleto de estranheza e terror, surpresa e diversão, Alerta de risco é um tesouro que conquista a mente e agita o coração do leitor.EstanteIntrinseca_Agosto16_BLOG_Pa¦üginasInternas3

Ilustre Poesia, de Pedro Gabriel – Desta vez, Antônio procura escapulir do confinamento nos quadradinhos de papel dos guardanapos e ganhar a liberdade. Ao mesmo tempo, Pedro Gabriel explora galáxias, as profundezas do mar e os confins da terra em textos de prosa poética que podem ser lidos como uma espécie de correspondência com o personagem. O senso de humor, a irreverência e o gosto pelos trocadilhos são compartilhados pelo personagem e seu poeta. [Leia +]

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Garra: O poder da paixão e da perseverança, de Angela Duckworth – Em um livro obrigatório para todos que desejam alcançar o sucesso, a psicóloga Angela Duckworth mostra para pais, estudantes, educadores, atletas e empreendedores que o segredo para realizações incríveis não é o talento, mas uma mistura de paixão e perseverança que ela chama de “garra” – a capacidade de não desistir e produzir resultados além do puro talento, da sorte ou das eventuais derrotas.