testeAs histórias

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Sempre me perguntam de onde eu tiro as ideias para os meus livros. As ideias vêm da vida. A vida está cheia de tudo. Ah, se você soubesse daquela carta que sua mãe sempre guardou na última gaveta do roupeiro… Se você seguisse a trajetória de vida daquele bebê abandonado dentro de uma caixa de sapatos no último inverno… Os enredos desta nossa vida são imbatíveis. E os personagens? Os personagens, uai, somos nós.

É desta faina que são feitas as histórias. Dessa coisa que da vida se evola e que brilha, brilha. Que vira história contada de pai pra filho. E entra no imaginário da família. Então, que ser escritor é sair espiando a vida, mexendo com ela, deixando-se levar. Calha que sempre gostei dessas histórias que voleiam por aí. Desde menina. Eu ia lá e pedia pro meu avô polonês vô, conta uma história de antes? Antes era a Polônia, aquele outro mundo do qual ele falava. E o avô contava enrolando as palavras, pois que nunca soube se dar com o português. Eu ainda peço, de quando em quando, por histórias. Se bem que as melhores não venham solicitadas, mas flanando. Como outro dia, em que encontrei uma prima na praia e ela me disse, Estou meio perdida por aí. Vim com a minha avó, mas é que ela sumiu com o namorado. Na verdade, são amantes. (A avó da minha prima tem 69 anos, só pra constar.) Amantes?, indaguei. Era uma longa história, que lhes conto brevemente no próximo parágrafo.

Uma moça chilena tem seu noivo chileno. Antes do casório, ela sente umas dúvidas quanto aquele amor. Um amor para o altar, até com enxoval feito. Mas a moça pede um tempo e segue para a Europa com a finalidade de visitar sua irmã que lá vive. É então que conhece outro galã. Eles se apaixonam e, zupt, decidem casar. A prova derradeira daquele amor é que o enxoval feito para o noivo chileno segue válido — ambos os dois rapazes tem nome começado pela mesma letra. Pois, a moça se casa e vem para o Brasil com seu amor que era brasileiro. Vivem felizes e têm seus filhos. Tudo perfeito. Muitíssimos anos depois, o esposo brasileiro vem a falecer. É a vida, e eles viveram juntos durante muito tempo. Ela fica sozinha. Os filhos já estão crescidos, casados. Até que, um dia, toca o telefone e, das fímbrias do passado, surge aquela voz falando espanhol. Lembram do chileno preterido há quarenta anos? Não é que ele conseguiu o telefone da sua eterna paixão? O homem agora está casado, tem filhos e netos, mas pega um avião para rever sua ex aqui no Brasil, e estas viagens viram rotina. Imagino que sua esposa nem sonhe, mas sequer sei detalhes… Sei somente que ambos andam bem felizes e muito passeiam pelo Brasil. Às vezes, calha da senhora dar uma carona pra sua neta. E a neta tem uma prima que escreve.

Leticia Wierzchowski é autora de Sal, primeiro romance nacional publicado pela Intrínseca, e assina uma coluna quinzenal aqui no Blog.

Nascida em Porto Alegre, Leticia estreou na literatura aos 26 anos e publicou 11 romances e novelas e uma antologia de crônicas, além de cinco livros infantis e infantojuvenis. Um de seus romances mais conhecidos é A casa das sete mulheres, história que inspirou a série homônima produzida pela Rede Globo e exibida em 30 países.

testeO desenhador de palavras

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Por Cristiane Costa*

Eu me chamo Antônio se inscreve numa nova tendência literária chamada visual writing, em que tipografia, desenhos e fotos se integram ao texto. Não são meras ilustrações, como nos acostumamos a ver no passado. A grande inovação é que são parte do texto. Leitores e críticos mais conservadores podem ficar perplexos, mas para as novas gerações está claro que o caminho da inovação literária passa pelo rompimento dessa barreira entre texto e visual.

É um caminho que vem atraindo cada vez mais autores comprometidos com a experimentação literária, como Jonathan Safran Foer, em Extremamente alto & incrivelmente perto, Dave Eggers, em You Shall Know Our Velocity, além de G. H. Sebald em toda a sua obra.

Mas o trabalho de Pedro Gabriel é singular e, de certa forma, radicaliza essa ideia. Não me surpreende o apelo direto que exerce no público jovem. Ele é diferente. Não é apenas um poeta que publica seus textos no Twitter, Instagram ou Facebook. As mídias sociais para ele são muito mais do que uma simples forma de divulgação, tanto que alcança quase 400 mil seguidores, três mil likes a cada post. Essa proposta condensada, fragmentada, altamente visual, que brinca com materiais pouco nobres como os guardanapos que rabiscamos numa mesa de bar, fala diretamente para o sujeito contemporâneo. Ele se identifica com esse universo. Até os arebescos, se repararmos bem, se assemelham à tipografia dos grafites e pichações.

Se retratar sua época é um desafio e tanto para os jovens escritores, mais ainda é para o editor. Poucos têm coragem de enfrentar o desafio. Para começar, qual  porcentagem de fãs virtuais vai migrar para o livro em papel? Isso é uma incógnita quando se trata de autores que são verdadeiros fenômenos da internet como Pedro Gabriel. Como transformar uma literatura born-digital, feita para outro suporte, em algo analógico? Trata-se de um livro de arte ou de literatura?

Pessoalmente, arrisco dizer que será um grande sucesso, um divisor de águas que abrirá as portas para grandes inovações. E que o projeto gráfico criado entra como um terceiro elemento, além do texto e da imagem, enriquecendo ainda mais essa equação.

*Cristiane Costa é pesquisadora em novas estratégias para a mídia digital do Programa Avançado de Cultura Contemporânea, autora de Pena de aluguel: escritores jornalistas no Brasil (Companhia das Letras) e coordenadora do curso de Jornalismo da ECO/UFRJ

testeA avó no casamento

 

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Recentemente assisti a um casamento que me emocionou muitíssimo. Sou do tipo que chora: a noiva de branco, o orgulho do noivo, as promessas todas de uma vida de fidelidade e de dedicação – tudo isso é tão tocante, tão delicado e – por que não? – tão raro nesta vida que vivemos. Dedicar a sua vida a outrem, mesmo que às vezes a intenção não se concretize a longo prazo, é um desejo lindo. Neste casamento, lá estava a bela noiva de branco, e lá estava o noivo, feliz e nervoso de doer. Mas o que derreteu o meu coração foi a avó… Do banco onde eu assisti a cerimônia, vi o padre dirigir-se à noiva e perguntar: “Você não queria que alguém subisse ao altar?” Momento de expectativa entre a assistência, e então ouviu-se a voz da noiva ecoando pela nave: “Sim, a minha avó.” Logo, uma elegantíssima senhora, ainda muito bonita, ergueu-se do seu lugar e, com ajuda, foi conduzida ao altar ao lado dos noivos. Neste momento, pétalas de rosa caíram do teto, e lágrimas desceram pelos rostos de muitas pessoas – entre elas, eu.

Desconheço os exatos motivos que fizeram aquela senhora subir ao altar ao lado da sua neta, mas o amor entre as duas foi uma coisa que iluminou a noite. Quanta dedicação, quanto carinho, quantos conselhos, quantas horas aquelas duas – avó e neta – não dividiram? Ser avô é amar alguém com discrição: cabem aos avós um zelo recatado, um amor por tabela. Também dizem por aí que os avós mimam, que os avós estragam, que os avós liberam tudo. Por outro lado, os avós são aqueles que ficam cansados, ou ficam doentes – os avós ensinam aos netos que a vida também pode ser susto e fraqueza, história e herança. Alguns avós passam em brancas nuvens pela vida dos seus netos, porque moram longe, ou porque estão perdidos nas fímbrias da sua própria vida – ser avô não significa dedicação diária como pai ou mãe. Ser avô é a dedicação eletiva.

Aqui em casa, meu marido diz que a melhor parte da sua infância foi a sua avó Nádia. Os sonhos, os banhos de tanque, os pastéis da avó Nádia, a polonesinha de olhos de céu, todas essas lembranças ainda hoje embargam a voz do meu marido. Meu avó Jan foi o primeiro personagem que conheci, e penso que só comecei a escrever por causa dele: Jan era uma história que eu queria contar (e contei). Aquela avó no casamento da Caroline e do Julio entrou para a minha lista dos avós memoráveis. Certamente, ela foi muito além da dedicação eletiva… O que ela fez pela sua neta, isso eu não sei. Mas ficou claro que foi muito e que foi fundamental. Que ela sempre esteve na vida daquela neta, assim como estava no altar naquela noitinha de sábado.

 

*Crônica publicada originalmente no jornal Zero Hora, em 14/10/2013.

Leticia Wierzchowski é autora de Sal, primeiro romance nacional publicado pela Intrínseca, e assina uma coluna quinzenal aqui no Blog.

Nascida em Porto Alegre, Leticia estreou na literatura aos 26 anos e publicou 11 romances e novelas e uma antologia de crônicas, além de cinco livros infantis e infantojuvenis. Um de seus romances mais conhecidos é A casa das sete mulheres, história que inspirou a série homônima produzida pela Rede Globo e exibida em 30 países.

teste[a primeira vez a gente sempre escreve]

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Muitos me perguntam como nasceu o primeiro guardanapo. Outros querem saber o que estava escrito naquele primogênito pedacinho de papel descartável. Confesso que a minha memória anda um pouco confusa, afinal hoje já são mais de mil guardanapos. Escrever este texto me fez voltar no tempo, mergulhar nas lembranças e nas lambanças. Dou-me conta de que a página está chegando ao seu primeiro ano de vida on-line. Reforço vida on-line porque tenho palavras engavetadas desde sempre e um ano na internet ecoa com a intensidade de dez fora dela.

Ontem, abri a minha inseparável maleta amadeirada e revi, um por um, todos os guardanapos procurando aquele que me deu o impulso de começar e continuar a escrever. Sim, até hoje, quando me sinto inseguro, releio aquelas poucas palavras e elas me ajudam a entender um pouco o ciclo das coisas. São elas: Primeiro, o encanto. Depois, o desencanto. Por fim, cada um pro seu canto. Apesar de sugerir um fim, esse verso sempre ressoa em mim como uma melodia que me faz voltar ao primeiro encantamento. Sempre.

Lembrei o mês exato em que ele nasceu. O dia, não. Mas era outubro do ano passado. Eu trabalhava na Barra da Tijuca. Minto. Um pouco depois. Trabalhava no inferno. Minto. Um tiquinho antes. Mas era sexta-feira. Isso é verdade. O trânsito era caótico (continua sendo!). A verdade prossegue. Ah, e pra melhorar: chovia torrencialmente. Assim que desci do ônibus, após quase quatro horas de viagem, parei no bar e pedi um chope para me acalmar.

Observo:

Do lado de dentro, o cheiro de fritura, a fartura exposta: carne assada, pernil, rosbife… A TV sintonizada em alguma programação inútil. O palpite do jogo de futebol. Quem ganhou? Quem perdeu? Às vezes, tudo parece empate. Na vitrine, o olho de sogra troca olhares com os casadinhos. Os brigadeiros enfileirados, como se fossem bater continência para um general inexistente, voam para o céu da boca do freguês mais corpulento (não sou eu!). Sentido! A guerra dos doces só termina na última bomba de chocolate (e é minha! Pra viagem, por favor!).

Do lado de fora, amigos de infância parecem rejuvenescer a cada gargalhada entonada entre um gole e outro entornado. Outra rodada, garçom! Senhores viram a noite jogando baralho. O barulho dos cascos vazios, visivelmente desconfortáveis na montanha de engradados, não parece incomodar a sobriedade dos passantes. Que engraçado! Um bêbado divide a calçada consigo mesmo. Direita, esquerda, opa!, um tropeço… Que dó, com tanta boca pra beijar, quase beijou o chão.

Analiso:

Foi no meio desse caos urbano e boêmio que nasceu este guardanapo. Não foi o primeiro que postei nas redes sociais, mas foi o primeiro que me fez enxergar que mais pessoas poderiam valorizar a poesia do descartável. O traço ainda era sem personalidade definida. As letras ainda eram mais tímidas do que eu e pareciam querer se encolher, sumir naquele pedacinho de papel.

Concluo:

Entrei para tomar um chope. Saí com uma ressaca de poesia.

teste[Escrevo para você que me ensinou a escrever]

Ensinar liberta.

Ensinar liberta.

Você me ensinou a escrever. E a ler. E eu escrevia, em letras minúsculas. E eu lia, em voz baixa. Sempre fui tímido, você sabe. Eu só gostava de ouvir, de ouvir, de ouvir. Acho que repetia duas ou três palavras apenas, não mais. Talvez “bonjour, maman”, talvez “nez”, talvez “bouche”, talvez “rouge”. Não sei.

Só sei que, ali, em casa, era a melhor sala de aula do mundo. Era impossível chegar atrasado, afinal, eu dormia a dois quartos da mesa de estudo. Eu nunca era mandado para a sala do diretor por um motivo simples: não havia diretor. Não havia a necessidade de usar uniforme, mas eu andava sempre impecável, o primeiro botão da camisa arrebentado, os cadarços ainda por fazer e o cabelo, bagunçado como se tivesse sido penteado por mãozinhas nervosas (até hoje ele continua assim, descabelado). Mesmo assim, você dizia que eu era o menino mais lindo da sala. E tinha razão. Não havia concorrência. Não havia também os meus aliados para jogar bolinhas de papel molhado na nuca das inimigas da fileira da frente. Aliás, nem havia a menina mais bonita da turma. Minto. Você era a menina mais bonita da turma.

Eu lembro que eu acordava ainda com sono, tomava um copão de leite e sentava ao seu lado. Você, como mãe e não como professora, naquele momento, pedia gentilmente para eu me levantar e escovar os dentes antes do início da aula. E era exatamente o que eu fazia. E voltava, et voilá, a aula podia, enfim, começar. Você dizia coisas que agora eu não vou conseguir lembrar. Acho que era o princípio das coisas: a letra A, o número 0 – que eu achava tão parecido com a barriga do vovô. Eu, mesmo sem saber contar, só contava as horas para o recreio. Não que as aulas fossem infernais, mas naquela idade cada segundo livre tem um quê de paraíso.

No intervalo, eu corria para a rua vazia e imitava aviões: meus braços, pequenos, eram as asas, pequenas. Talvez um ultraleve. Mas ele ia longe, longe, longe, juro! Eu podia tocar o céu e sentir a fofura das nuvens branquinhas, branquinhas, branquinhas. O motor era som que saía da minha boca que ainda aprendia as primeiras letras, os primeiros números. Eu, agora um pássaro metálico, espantava sem medo os lagartos que bronzeavam nas pedras do jardim. Mas eles não se intimidavam. E era eu quem acabava fugindo deles, correndo, voando, com as mesmas pequenas asas, com o mesmo motorzinho bucal. Graças a Deus, Deus não dá asa a lagartos. E eu conseguia escapar e pousar, são e salvo, de novo na minha pequena cadeira com duas almofadas: uma laranja com estampas de máscaras africanas e a outra de uma cor que eu não lembro, talvez invisível. Sim, quando se é criança, o invisível é uma cor tão bonita. Talvez ela tivesse a cor e o formato da minha imaginação. Mas era confortável, não tão confortável quando seu colo, mãe. Mas era confortável.

Hoje, eu aprendi a ler e a escrever. Sou um homem que pode exigir alguma liberdade, mesmo ilusória. E essa liberdade que tanto procuro ainda precisa daquelas pequenas asas para voar, voar, voar para longe e continuar do seu lado, naquela mesma sala de aula, sentado naquela mesma pequena cadeira confortável com duas almofadas, correndo naquele mesmo imenso jardim, espantando aqueles mesmos imensos lagartos, imitando aqueles mesmos pequeninos aviões, querendo alcançar aquele mesmo céu e tocar naquelas nuvens idênticas, fofas, para escrever com aquelas mesmas pequenas mãos: talvez “bonjour, maman”, talvez “nez”, talvez “bouche”, talvez “rouge”, mas, principalmente, obrigado.
(Ela se chama Carmen. Hoje é o Dia do Professor. E foi ela quem me ensinou a ler e a escrever. Obrigado, mãe.)

testeDa infância

Da_infância

Dia lindo de verão, e meu filho de seis anos vem correndo pela areia e diz: “Mãe, estou com um psicólogo no pescoço.” Dá vontade de tascar um beijo nesse rosto bronzeado e vivaz, mas eu apenas respondo sorrindo: “Psicólogo, não, meu filho. Você está é com um torcicolo.” “E o que é psicólogo então?”, ele quer saber depressa. “Psicólogo é um médico que ajuda as pessoas a resolverem seus problemas e medos.” Ao que ele retruca: “Ah, mas por que elas não falam essas coisas com os pais delas?”

No exato momento em que você lê esse texto, imagino que milhares de consultas terapêuticas estejam sendo pagas por pacientes ávidos em resolver seus traumas com os progenitores. Mas, aos seis anos, essa é a lógica da vida: apertou, chame o pai ou a mãe. E que delícia viver isso, equilibrar essa responsabilidade nos ombros, com seus momentos difíceis e suas glórias. Neste final de férias, os problemas do meu filho se resumem à temperatura da água, ou à falta do picolé predileto. O que não posso resolver (quem sou eu pra ter alguma incidência sobre a temperatura da água nessas paragens?), eu driblo. O mar está ruim, vamos jogar frescobol. Haverá certamente um tempo em que serei apenas observadora dos problemas do meu menino, e provavelmente meus conselhos nem serão levados em consideração. Mas, por enquanto, massageio o seu pescoço dolorido, e vamos juntos tomar um picolé de morango, que não há dor infantil que resista a tal delícia.

Faz algum tempo, pensando numa personagem que eu queria compor, cheguei em casa com dois baralhos de tarô novos em folha. Sentada no chão do meu quarto, comecei a mexer naquelas cartas grandes e bonitas, brincando de adivinhar o futuro nos seus signos, de olho fixo num pouco confiável manual que acompanhava o baralho. Meu filho entrou no quarto e se interessou imediatamente pela função. Perguntou-me que jogo era aquele, e respondi que eram cartas muito antigas que adivinhavam coisas. A gente fazia uma pergunta, cortava o baralho assim e assado, e lá vinha a resposta que queríamos. Ele quis jogar. Embaralhei as cartas, e pedi que cortasse o bolo em três e se concentrasse numa pergunta. Nada de dúvidas profundas nem curiosidades transcendentais. Meu filho fechou os olhinhos, respirou fundo e, cortando o baralho conforme a minha indicação, perguntou aos Arcanos em voz alta e expectante: “Baralho, eu queria saber quantas sementes têm uma laranja.” Veio um oito de paus e ele se deu por satisfeito. E depois eu me pergunto por que a gente cresce.

Leticia Wierzchowski é autora de Sal, primeiro romance nacional publicado pela Intrínseca, e assina uma coluna quinzenal aqui no Blog.

Nascida em Porto Alegre, Leticia estreou na literatura aos 26 anos e publicou 11 romances e novelas e uma antologia de crônicas, além de cinco livros infantis e infantojuvenis. Um de seus romances mais conhecidos é A casa das sete mulheres, história que inspirou a série homônima produzida pela Rede Globo e exibida em 30 países.

testeO Museu do Filho

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Marina Silva disse num artigo publicado na Folha de São Paulo que, se a internet mudou nossa concepção de viajar, de estudar, de nos comunicarmos e fazermos compras, inevitavelmente ela também mudaria a nossa concepção de fazer política (Marina falava das manifestações de rua no país). Pois é nesse espírito — a internet está aí pra revolucionar a vida, e para melhor — que a Tetê Pacheco, publicitária gaúcha radicada em São Paulo, teve uma ideia genial: o Museu do Filho. Tudo começou dentro de casa, com Bento e Otto, os filhos da Tetê. Mas este espaço digital, seguro e organizado, logo ganhou a participação dos filhos dos amigos e amigos dos amigos, numa corrente que se multiplica com a velocidade que só a internet — aliada a uma boa ideia — é capaz de gerar.

Afinal, quem é pai sabe que não existe gaveta no mundo que possa abarcar os trabalhos artísticos que nossos filhotes fazem ao longo da vida. As cores, os traços, a ousadia, as marcas pessoais que as nossas crianças, amadurecendo e desbravando este mundo maluco e incrível, deixam no papel podem ser maravilhosas para além de qualquer corujice. É por isso que vale a pena conferir o Museu do Filho — tudo que é postado passa pela Tetê Pacheco: são obras de pequenos artistas, selecionadas com critério de curadora e carinho de mãe. O Museu do Filho é uma gaveta digital. Uma gaveta sim, mas também uma vitrine do mundo que palpita dentro das cabeças dos nossos filhotes. Tetê criou o Museu para guardar e para mostrar, mas também para valorizar a arte dentro de casa, no convívio entre pais e filhos. A gente fica louco de orgulho quando uma obra entra para o acervo e pode ser vista e compartilhada por um monte de gente. Resultado? Tem filho aí saindo das gavetas para o mundo (como bem disse a Tetê, os pais são gavetas de lembranças das suas crianças). Vale a pena conhecer, mesmo se você não é o orgulhoso papai de um Picasso de fraldas.

O Museu do Filho tem uma fanpage em que, além das obras, a Tetê dá dicas de exposições, arte e cultura pelo mundo afora. Há também uma conexão entre artistas, que participam contando dos seus começos, tropeços e experiências mis. O Museu do Filho está no Facebook, no Instagram e no Pinterest, cumprindo a sua missão de aproximar a arte dos adultos do olhar infantil, e a arte infantil do olhar adulto. É lindo de ver. É emocionante de participar.

 

Leticia Wierzchowski é autora de Sal, primeiro romance nacional publicado pela Intrínseca, e assina uma coluna quinzenal aqui no Blog.

Nascida em Porto Alegre, Leticia estreou na literatura aos 26 anos e publicou 11 romances e novelas e uma antologia de crônicas, além de cinco livros infantis e infantojuvenis. Um de seus romances mais conhecidos é A casa das sete mulheres, história que inspirou a série homônima produzida pela Rede Globo e exibida em 30 países.

Este texto foi publicado originalmente no jornal Zero Hora, no dia 16/09/2013.

testeTodas as cartas de amor são ridículas

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Caiu-me nas mãos recentemente um pequeno livro organizado por Ursula Doyle, editado em Portugal pela Bertrand Editora, cujo título é Cartas de amor de grandes homens. Divertido e curioso livrinho onde reis, músicos, escritores, matemáticos, físicos, ministros e poetas derrapam nas curvas sinuosas da paixão. Hoje, ainda, quando as cartas tornaram-se tristemente obsoletas, e afirmamos nossos amores por mensagens eletrônicas as mais variadas (tão variadas quanto são os amores, que não duram muito hoje e, mostra o livro, em muitos casos também pouco duravam outrora) — as cartas desses grandes homens apaixonados valem como testemunho atemporal dos estragos e glórias que o amor pode causar até nas criaturas mais reticentes.

Cartas tediosas, engraçadas, vulgares ou doces — há de um tudo nesse livro. Mas, convenhamos, colocar o amor em palavras não é para qualquer um, e até mesmo grandes literatos derrapam nessa escorregadia façanha. É o caso, por exemplo, do genial Eça de Queirós. As cartas do Eça são em tudo diferentes da sua literatura: pernósticas e chatésimas, deviam colocar a senhorita Emilia de Castro Pamplona à beira do fastio, enquanto o leitor somente avança entre bocejos, vencendo parágrafos de narrativas desinteressantes e recheados de expressões em francês e inglês. E depois o coitado do Eça ousava reclamar que sua pobre Emília não lhe respondia as missivas com o devido fervor… Já Wolfgang Amadeus Mozart cometia duvidosas piadinhas escatológicas nas cartas onde reafirmava seu amor pela esposa, Constanze. Nojentinhas, mas divertidas cartinhas apaixonadas recebia madame Constanze. E o que dizer do amor entre dois freis portugueses da Ordem de São Jerônimo, moradores do famoso convento de Belém, com suas missivas de um amor completamente impudico, onde um chamava o outro de meu feitiçozinho e meu cãozinho e meu coraçãozinho, e ansiavam ambos trocar ardentes beijos de língua e ainda outras coisas quase impublicáveis? Essas cartas, mais deliciosas que o mais delicioso dos pasteizinhos de Belém, são as minhas preferidas, juntamente com as alegres e malucas cartas de amor que Fernando Pessoa e seus heterônimos escreviam para Ofélia, sua eterna namorada. Enfim, entre traições, mentiras, paixões ardentes, desenganos terríveis e vexames os mais diversos, as cartas de amor atravessaram os séculos, e algumas sobreviveram para a posteridade. Como bem disse o próprio Pessoa enquanto Álvaro de Campos, “as cartas de amor, se há Amor,/ têm de ser ridículas./ Mas, afinal,/ só as criaturas que nunca escreveram/ cartas de amor/ é que são ridículas”. Perdoemos, enfim, o pobre Eça de Queirós.

Leticia Wierzchowski é autora de Sal, primeiro romance nacional publicado pela Intrínseca, e assina uma coluna quinzenal aqui no Blog.
Nascida em Porto Alegre, Leticia estreou na literatura aos 26 anos e publicou 11 romances e novelas e uma antologia de crônicas, além de cinco livros infantis e infantojuvenis. Um de seus romances mais conhecidos é A casa das sete mulheres, história que inspirou a série homônima produzida pela Rede Globo e exibida em 30 países.

testeE-book gratuito: Aqueles tempos, de Edney Silvestre

Aqueles temposPara apresentar ao leitor um pouco mais do universo criado em Vidas provisórias, o escritor Edney Silvestre abre os arquivos de suas pesquisas em um e-book gratuito que já pode ser baixado nas principais livrarias digitais do país. Aqueles tempos acompanha o lançamento do novo romance de Silvestre, que acontece terça-feira, dia 13 de agosto.

Em Aqueles tempos, Edney Silvestre explora as histórias por trás do enredo de Paulo e Barbara, os protagonistas de Vidas provisórias. É possível conhecer melhor quais foram as inspirações do autor para reconstruir as sensações desses dois imigrantes brasileiros, forçados a deixar o país em momentos históricos diferentes.

Em 1970, Paulo é perseguido pela ditadura militar. Preso e torturado, refugia-se no Chile e depois segue até a Suécia. Bárbara deixa o Brasil em 1991 — durante o governo Collor — fugindo da crescente violência urbana, e instala-se nos Estados Unidos como imigrante ilegal.

Edney Silvestre também expõe como entrelaçou sua própria história com a trama do romance, como sua prisão durante a ditadura militar, os doze anos que viveu nos Estados Unidos atuando como correspondente internacional, sua experiência na cobertura dos atentados de 11 de Setembro e da Guerra do Iraque.

Leia um trecho de Vidas provisórias, novo romance de Edney Silvestre

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