testeEu prefiro amar

Coluna32_Eu prefiro amar

O amor é uma coisa tão doida, tão viva, tão inquieta. Qualquer tipo de amor. Amor carnal, amor maternal, amor fraterno. O amor está sempre ali, palpitando, palpitando, como um outro coração dentro do coração da gente. O amor não é cerebral, ele apenas corre no sangue, lateja, provoca reações inesperadas, surge alopradamente na esquina de um momento e transforma tudo. O amor faz a gente sair do grito para o beijo, e do beijo para o grito. O amor não é fácil, é voluntarioso em sua ânsia, mas cheio de sabedoria na sua perseverança. O amor pode amornar, serenado durante meses, até mesmo anos, e depois tornar a crescer, expandindo-se da semente escondida, ainda viva, apenas latente. Como um desses vulcões adormecidos que, de repente, entra em erupção em fogo e lava, sacudindo tudo ao redor.

O ódio é irmão do amor, o seu negativo. Que palavra feia“, dizia minha avó. Traz más energias“. E a gente gastava a palavra: eu odeio isso, eu odeio aquilo – a professora ranzinza, a chuva no sábado, o castigo da mãe. Era fácil odiar, assim como era fácil amar. Uma coisa que não existe no coração da criança (se ela é saudável e vive a sua vida infantil) é o rancor. Criança não sente rancor. Rancor é o ódio a frio – muito mais terrível. É o ódio que resistiu, cristalizado. Desde sempre, respeitei o rancor como quem respeita um vírus grave – com medo.

Enquanto o amor e o ódio são vivos e estão em constante mutação, enquanto o amor e o ódio são fogo que arde, o rancor é a cinza. O rancor é uma espécie de fim em si mesmo – eu já vi o rancor nos olhos de algumas pessoas, e ele nubla a íris como uma doença. Sai pra lá, rancor. Prefiro amar, prefiro até mesmo odiar, eventualmente, infantilmente, a abrigar em mim o famigerado rancor. Na longa e sinuosa estrada das emoções humanas, o rancor é o fim do caminho.

 

LETICIA WIERZCHOWSKI é autora de Sal, primeiro romance nacional publicado pela Intrínseca, e assina uma coluna aqui no Blog.

Nascida em Porto Alegre, Leticia estreou na literatura aos 26 anos e publicou 11 romances e novelas e uma antologia de crônicas, além de cinco livros infantis e infantojuvenis. Um de seus romances mais conhecidos é A casa das sete mulheres, história que inspirou a série homônima produzida pela Rede Globo e exibida em 30 países.

teste[A poesia está na mesa!]

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Esses últimos dias, eu tive a oportunidade de participar do Fórum das Letras, na cidade histórica de Ouro Preto, em Minas Gerais. Entre ladeiras e oratórios, igrejas suntuosas e bucólicos cães, sotaques carismáticos e chopes artesanais, pude entender um pouco mais sobre o que está acontecendo no mundo literário.

Escrita em transe foi o tema central abordado em praticamente todas as conversas. Autores nacionais consagrados, personagens centrais da história do Brasil e figurões típicos daquela região sentaram para debater sobre essa fase de transição que o mundo e, mais especificamente, a literatura está passando.

Pela primeira vez, tive a oportunidade de conversar com o público sobre temas específicos que envolvem a minha arte sem precisar ficar atento aos ponteiros do relógio. Nas noites de autógrafos fica impossível conversar com todo mundo que comparece. E é mais uma troca de carinho e agradecimento. Já ali, houve uma troca de ideias determinadas, definidas. Pude mostrar que por trás de cada postagem virtual existe um autor real. Pude atestar que por trás de cada perfil de seguidor existe um leitor realmente interessado na minha forma de expressão. Tive duas comprovações que, na teoria, podem parecer óbvias:

1) O autor e o leitor também existem na internet e têm os mesmos sentimentos em relação à palavra do que qualquer outro autor ou leitor;

2) A Literatura de Internet não existe. Existem alguns formatos que funcionam melhor nos meios digitais, mas literatura é literatura em qualquer plataforma, em qualquer meio, de qualquer forma. Dou a minha palavra!

Talvez seja essa a dificuldade de definir onde se encaixa a minha expressão. Me perguntaram sobre isso. O que eu sei é que desenho palavras em guardanapos. Mas, Pedro, essas palavras desenhadas são poesia? Você escreve autoajuda? São versos isolados? É poesia concreta? É literatura de internet? Sem querer parecer indelicado, eu não me preocupo com definição ou categorização do que faço.  Eu faço o que sou. Eu faço o que sinto. Não me defino. Se para alguns sou isso, serei isso para alguns. Se para outros sou aquilo, serei aquilo para outros. Eu divido com o mundo o que eu quero multiplicar. E vou além: não me considero poeta, nem ilustrador. Sou o que acontece entre os dois. Desenho palavras, apalavro desenhos e coloco a minha verdade em cada sentimento exteriorizado. Talvez por isso aconteça tamanha identificação com o meu leitor ou com a minha leitora.

Dividi uma mesa de debate com Wagner Merije, Mariana Carvalho, Nino Stutz e Clarice Freire. Como entrada, pedimos que as pessoas prestassem mais atenção ao que acontece na internet e que a poesia que nasce lá não nasce exatamente lá. Ela nasce nos poetas: esses seres conectados com a sensibilidade. O prato principal veio com a questão dos direitos autorais no mundo virtual e a importância de creditar o nome do artista às suas obras. A internet não é terra de ninguém. A arte compartilhada naquele espaço tem dono. Por mais que ela pertença um pouquinho a cada um que se sinta tocado, ela tem um criador por trás.  Ouvi muito. Prestei atenção em cada fala. Me senti importante em alguns momentos. Pensei mais do que falei. Me descobri mais do que me revelei. O aprendizado veio como uma sobremesa bem calórica. Daquelas que a gente guarda para sempre o sabor de ter ousado experimentar.

Ah, na verdade foram três comprovações:

3) Ganhei dois quilos de poesia… Que pretendo nunca mais perder.

 

testeA MÚSICA DE CAIO E MARIA AUGUSTA

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A história de amor de Caio e Maria Augusta, pais da escritora e roteirista Adriana Falcão e protagonistas do livro Queria ver você feliz, é embalada por Learnin’ the Blues, um clássico swing-blues, com doses de jazz, dos anos 1950.

Confira a versão feita por Gregório Duvivier e Clarice Falcão em homenagem aos avós dela:

testeAs raízes móveis e a Bienal do Livro de São Paulo – alguma coisa acontece no meu coração

Coluna 8 - As raízes móveis e a Bienal do Livro de São Paulo

Nasci e me criei na cidade dos manguezais. Cresci ouvindo o manguebeat de Chico Science e comendo caranguejo na praia. Ou em um bar qualquer de cadeiras na calçada. Uma paixão da minha mãe.  Já o meu pensamento sempre se demorou no mangue, mais precisamente nas raízes que exibem para fora da lama. Observava e imaginava desde menina que aquelas árvores eram livres como os brinquedos. Todos sabem muito bem que quando apagamos as luzes os brinquedos ganham vida e dominam toda a casa.

O mesmo acontecia com as plantas dos manguezais em minha imaginação patologicamente viajante. Imaginava que aquelas raízes estavam ali, para fora, porque à noite as plantas faziam passeios pelas pontes e vielas recifenses. Eram, como todos nós, boêmias por demais e, por isso, nunca voltavam a tempo para a lama. Hoje isso volta meus olhos para a contradição que as raízes – em geral – me despertam. Gosto de raízes. Sou especialmente apegada às minhas, como todo bom pernambucano.

As raízes que me pertencem são parecidas com as minhas amigas dos manguezais, para fora e móveis, mas elas não gostam de esperar as luzes se apagarem. Passeiam por todos os lugares, iluminados ou não, existentes ou não. E existe inexistência para raízes viajantes? Criei uma receita que diminui a gravidade das coisas e ela foi impressa em forma de livro no Pó de Lua. Pois o tal funciona tão bem que as minhas raízes têm criado ainda mais gosto por voar, além de usar somente as pernas. Supermutantes. Poesia é passaporte de grande porte. Quem não sabe? Pois bem. Da última vez eu fui parar em São Paulo, mais precisamente em um grande evento literário, em pleno sábado da Bienal do Livro e, entre tirar o casaco já colocando novamente, minhas âncoras tiveram muito com o que se surpreender.

Foi minha primeira viagem para lançar o livro longe da minha terra. São Paulo já de antes conhecida, mas, agora, com ares desconhecidos. Na verdade mares, porque não demorou para que eu percebesse o oceano de gente que é a Bienal. Lindo de ver. Uma festa da literatura, pessoas e mais pessoas carregando sacolas e mais sacolas lotadas de … livros. Impressos. Capa e papel. Mas o mundo não é moderno demais? Mas o livro não morreu? Não, amigos e amigas. O vento sopra a favor das páginas sendo carinhosamente passadas pelos nossos dedos que amam tocar o objeto letrado.

Eis a Bienal. Eis uma Clarice na Bienal com seu livro debaixo do braço. Eis o momento da tarde de autógrafos. E a falta de fome. E a falta de sede. E a falta de força nas pernas. Alguma coisa acontece no meu coração. Lá vou eu e, vejam só, me senti em casa: a multidão que se empurrava entre os estandes me fez lembrar dos carnavais de Olinda, quando você, de repente, não sente mais os pés no chão. Minhas raízes experimentando uma nova maneira de voo! A massa humana generosamente me transportou até o estande da editora e eu ouvi uma voz gritar “ela tá aqui!”; instintivamente me virei e tamanho foi o meu susto alegre ao ver que uma pequena parcela daquela multidão segurava meu livro nos braços, formando uma fila sem final aos meus olhos, todos sentados no chão. Acenavam para mim, eu acenava para eles e quando menos esperava já estava em minha mesa transparente como minha alma naquele momento: feliz pra quem quisesse ver.

E São Paulo me deu um abraço oceânico, gigantesco como ela mesma. Passei quase cinco horas trocando sorrisos, abraços e muita gratidão. Cada coisa que ouvi, cada um que reconheci, que me acompanhava desde os primeiros dias de Pó de Lua e fez questão de estar ali para me dar um abraço. Sou eu quem ganho, o prazer é meu, a honra é minha; espero que tenham percebido isso. Foi assim desde o primeiro momento em que cheguei naquela cidade até a hora em que tive de me despedir. Na mala, presentes, carinho, carinho, carinho e uma das minhas raízes neste lugar. São Paulo: obrigada, vocês são únicos. Me deram um dia e noite de lua cheia.

Agora os meus próximos destinos estão em mar aberto, assim como meus braços. Para onde vou? Por mim e minhas raízes, para onde você quiser, elas são móveis, viajantes, eu não falei?

E agora, pra onde você quer que eu vá?

[RESPONDA A ESSA PERGUNTA NOS COMENTÁRIOS!]

teste5 pontos sobre Clarice Freire

Dê o play no link >> e siga a leitura.

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Ao som da banda indie folk Beirut, com sua toada de ritmo marcado como marcha e instrumentos de sopro, Clarice Freire desenha livremente em seu caderno. Uma palavra basta para os traços surgirem e puxarem as rimas, que ditarão o ritmo de cada escrito. E a obra nasce: um verso desenhado; cartuns filosóficos e bem-humorados, conforme descreveu o primo poeta Marcelino. Já falamos sobre o trabalho dela com o Pó de Lua, blog, fanpage, Instagram e agora livro.

Neste post tratemos mais dela, “prima-irmã-gêmea” de Zooey Deschannel, com seu sotaque arretado de pernambucana, nascida em Recife, em junho de 1988, Clarice Freire:

1) é uma das criadoras do Projeto Vincular, ONG ligada à associação católica Comunidade dos Viventes, que atende às populações carentes da capital e do interior do estado de Pernambuco, e cujas ações já se espalham por estados como Alagoas e São Paulo. O grupo constrói casas com mutirão e arrecadação de doações via internet (um exemplo: Uma casa Para…) e realiza atividades recreativas e culturais em escolas públicas e instituições para abrigo de menores em situação de risco. Conheça mais sobre o Vincular.

2) é compositora — consequência da poesia desenhada que cria e  da influência do pai, Wilson Freire, poeta, romancista, cineasta e médico. Escreveu em parceria com Silvério Pessoa a música “Pedra Polida”, ainda não divulgada. A faceta de compositora também é resultado do sucesso do Pó de Lua, já que suas criações vez por outra são musicadas, como no exemplo aqui embaixo.

3) participou do TEDx UFPE, em setembro de 2013, apresentando o Projeto Vincular — que na ocasião havia atendido mais de 600 pessoas em Recife:

4) é irmã mais velha da cantora recifense Sofia Freire. A arte está no sangue da família Freire.

5) é essa que segura cartazes do Pó de Lua:

 

testeO Pó de Clarice

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 Aos 26 anos, a recifense Clarice Freire é uma aluada. Ela mesma se descreve assim na biografia que consta em seu blog Pó de Lua, uma janela de poesia e traços leves na internet. Ou, como bem definiu o primo Marcelino Freire, espécie de cartuns filosóficos e muito bem-humorados. Com mais de um milhão de curtidas— sendo que 920 mil foram conquistadas nos últimos nove meses — o sucesso da página do Facebook comprova o talento da moça, que será transformado em livro pela Intrínseca.

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Quando menina, se admirava ao ver a mãe desenhar e brincava de completar os versos do pai. Cresceu cercada de arte por todos os lados, filha da desenhista, pintora e assistente social Lucia Souza e do escritor, compositor, cineasta e médico Wilson Freire. Publicitária, era redatora e, para ter ideias, escrevia. Escrevia páginas e páginas e, depois, jogava tudo fora para não acumular papel. Até que uma amiga se revoltou com aquele desperdício criativo, e fez o blog. Pronto. Desde novembro de 2010 o Pó de Lua existe pra diminuir a gravidade das coisas.

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O livro, previsto para agosto, terá o formato de um caderno e será composto de desenhos inéditos em espaços e tamanhos absolutamente novos, um novo encantamento para quem consome o Pó de Lua — Pra diminuir a gravidade das coisas na internet.

teste[saudade devidamente atualizada]

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De uns tempos pra cá, tenho acordado no susto. Sempre com a estranha sensação de estar atrasado para um compromisso que não existe. Sempre com aquela angústia desnecessária de estar devendo ao mundo um poema que nunca será escrito. Olho na agenda, nada marcado. Coloco meus óculos e confirmo nitidamente que não tenho realmente nada agendado para os próximos dias, quiçá meses. Devo estar atrasado comigo, com o meu passado. Alguma saudade que eu deixei para trás está cobrando minha companhia, como se fosse um chope ou uma dúzia de bolinhos de bacalhau que eu deixei em alguma conta pendurada no balcão do meu bar predileto.

Regra número 1: a saudade sempre volta para apertar o peito e acertar as contas.

Ela se infiltra nos meus sonhos, pelas janelas fechadas dos nossos olhos, e fica ali, quietinha, até se apoderar com força descomunal das nossas fraquezas. Acho que é assim que nascem as nossas lágrimas. Lágrima é a nossa saudade em estado líquido.

Meu despertador é testemunha sonora da minha vontade de continuar sonhando. Só mais um pouquinho, por favor.  “NÃO!” – temos tanta intimidade que parece que ele me dá esporro em bom e velho português. E toca mais alto e mais alto e mais alto e mais alto… Não tem mais jeito: preciso levantar.

Uma secretária imaginária parece ter programado o meu dia:

6h: abrir os olhos

6h40: acordar

7h30: sair da cama

9h: tomar café

9h01: despertar.

Sim! Acho que o primeiro sinal de que o tempo passou é quando a gente descobre que existe diferença entre abrir os olhos, acordar, sair da cama e despertar. Quando menino, eu já abria os olhos com o coração a mil por hora, elétrico, chutando uma bola imaginária. Tadinha da luminária!

10h: responder e-mails de ontem

12h: reunião com o meu organismo para saber se estou com fome

13h: pagar a conta do almoço

14h35: ligar para o meu pai. Será que a voz dele mudou nesses quatro anos e meio? E-mail não tem timbre…

15h: desenhar guardanapos

16h: lembrar que esqueci que a agência bancária acabou de fechar e eu não paguei meu plano de saúde

17h50: caminhar pela orla

19h: responder os e-mails de hoje

21h: pensar em sobreviver da minha arte

23h: continuar pensando no que eu estava pensando às 21h

23h59: deitar

1:15: pedir encarecidamente para pararem de comentar “segue de volta” e “troco likes”

2h: iniciar o processo de sono e se preparar para sonhar

Que tédio! Nossos sonhos não podem virar rotina, um programa sem audiência embutido na grade horária da nossa realidade. Nossos sonhos não podem ser uma resposta automática do nosso corpo quando a luz se apaga, como estender as mãos para cumprimentar ou retrair os pés para se despedir. Onde aperto o botão, querida secretária imaginária? Preciso atualizar o meu sistema operacional.

6h: abrir os olhos…

Talvez seja só uma conclusão saudosa e um menino que se esqueceu de despertar, talvez seja só uma afirmação ranzinza de um adulto que não se lembrou dos seus sonhos, mas essa saudade que volta para apertar o nosso peito e acertar as nossas contas é a nossa infância buscando compatibilidade com a nossa realidade. Por que carrega essa amargura, Pedro? Por que você deixou de lado a ternura, Antônio? Onde está essa criança, Gabriel?

Regra número 2: a poesia sempre nasce para que essa saudade não passe.

testeO batismo de Paulina

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A ideia de escrever Tempos extremos chegou para Míriam Leitão de forma inesperada e arrebatadora. Mesmo passando todo o dia absorvida por suas atividades jornalísticas, no meio da noite a autora era procurada pelos personagens, para que a história fosse escrita. A inspiração surgia com facilidade. Os nomes de cada personagem foram se apresentando, exceto o de Paulina, a escrava que almejava a liberdade.

O curioso é que a solução aconteceu durante uma visita guiada à exposição Registros privados da escravidão, apresentada na Casa Rui Barbosa, no Rio de Janeiro. Na última hora, quando o processo de desmontagem já havia começado, Míriam foi recebida na instituição e guiada pelas vitrines que exibiam documentos que muito revelavam sobre as condições de vida dos escravos nos lares brasileiros.

Ela se deparou com documentos, como a carta da sinhá que escrevia ao marido pedindo a alforria de sua escrava como presente de aniversário de casamento. Um nome se destacou entre os papéis e a escritora teve o insight. A escrava que não aceitara ser chamada de Efigênia (como Míriam pensara inicialmente) já tinha um nome: nascia Paulina, que carregaria consigo a esperança pela tão sonhada alforria, que só seria poderia se concretizar à custa de muito tempo e sofrimento.

testeUm breve tempo com Míriam Leitão

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Era uma tarde de sábado em 2011. Como raras vezes costuma acontecer, Míriam Leitão estava sem ter o que fazer. Seu próximo livro de não ficção, A história do futuro (a ser publicado pela Intrínseca em 2015), começava apenas a ser planejado. De repente, ela entreviu em sua cabeça uma cena aparentemente banal, uma mulher que vislumbra um vulto na escuridão. Sem se conter, pôs-se a escrever. Pronto. Naquele instante, teve origem o conflito que a consumiria pelos próximos meses: conseguiria uma consagrada jornalista e escritora de não ficção embarcar na linguagem da fantasia e escrever um romance?

Enquanto aprofundava suas pesquisas para o livro sobre economia, que examina as possibilidades para o futuro – Míriam se sentia insistentemente cobrada pelos seus personagens de ficção a desenvolver cada vez mais suas histórias. E assim, começou a criar paralelamente duas narrativas que são, no fundo, complementares por tratar do mesmo país, porque não há compreensão possível do futuro sem que seu passado seja conhecido. E o Brasil, como já se viu em diversos momentos, tem dificuldade em lidar diretamente com acontecimentos de um passado doloroso, que costumam ser varridos para debaixo do tapete e que voltam sempre a nos assombrar.

Em Tempos extremos, romance de estreia dessa mineira de Caratinga, o leitor desvendará as histórias que se desenrolam em diferentes tempos cronológicos em uma fazenda imponente escondida nas serras de Minas Gerais. Mistérios que chegam de forma inesperada, revelando passados diversos a uma família dividida por conflitos afetivos e políticos durante uma reunião para comemorar os 88 anos da matriarca. Larissa, a insegura protagonista criada por Míriam, viverá uma estranha jornada na qual perseguirá sombras e segredos para entender os próprios sonhos.

Míriam Leitão conversou conosco sobre Tempos extremos, que chega às livrarias a partir de 8 de maio.

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Intrínseca: Como você descobriu a literatura? Sua família incentivava a leitura? Qual o primeiro livro que leu e qual o romance mais marcante da sua vida?
Míriam Leitão: Embora a cidade de Caratinga, no interior de Minas Gerais, não tivesse bibliotecas públicas (tive apenas a biblioteca da minha escola), meu pai era um leitor ávido. Ele ascendeu da pobreza extrema por meio da educação e os livros sempre tiveram um papel importante na casa. Eu sou a sexta filha de um total de doze crianças e, logo na saída do quarto das meninas — onde habitávamos eu e mais quatro irmãs — havia uma grande estante de coleções de livros de contos de fadas. Junto a eles, ficavam todos os títulos de Monteiro Lobato e todos os títulos da coleção Tesouro da Juventude…

Desde pequena, portanto, tinha estímulo a ler. Até mesmo por isso, não me lembro qual o primeiro livro que li, mas da sensação da primeira leitura. Logo que fui alfabetizada, peguei um volume na estante e li. Mas terminei sem entender nada. Sabe quando você lê as palavras, mas não as compreende? Não fiquei satisfeita e me pus a ler novamente. Cinco vezes. Por fim, entendi a história. Essa foi a minha primeira leitura.

Aos oito anos o livro As aventuras do Barão de Munchausen me marcou muito. Até hoje uso algumas expressões da história! No início da adolescência, por volta dos 11 anos, entreguei-me aos clássicos: Jane Eyre, Dom Casmurro… Meu pai disse que era cedo para entrar no Realismo, muito pesado para uma mente ainda jovem demais. Deixei Machado de Assis de lado e li todos os livros de José de Alencar, por sugestão dele. Depois, terminei toda a obra de Machado de Assis.

A leitura mais marcante da minha vida, sem dúvida, aconteceu aos 16 anos: Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa — que até hoje tenho em minha cabeceira. Eu me lembro que, ao terminar de ler, deixei o livro para a minha irmã com um bilhete dizendo assim: “Guimarães Rosa escreve colorido.”

Intrínseca: Seu romance, Tempos extremos, transporta o leitor a diferentes períodos históricos com fluidez e sensibilidade e retrata parte do folclore do interior do Brasil com episódios sobrenaturais, algo muito característico da literatura latino-americana. Quais seriam os autores que mais a marcaram?
Míriam: Toda a minha geração ficou enamorada com o realismo fantástico — li e guardo com carinho Cem anos de solidão, de Gabriel García Márquez, entre outros escritores latino-americanos. Mas também li Tolstoi, Dostoiévski, Hemingway, Graciliano Ramos (aos 14 anos, li Vidas secas pela terceira vez), Doris Lessing, Simone de Beauvoir.

Intrínseca: Você é premiada como jornalista e como escritora de não ficção, quando decidiu que era o momento de escrever um romance?
Míriam:
Ao contrário de muita gente, entrei para o jornalismo por gostar de notícia mesmo, não por querer ser escritora. Temia, apesar de querer muito, escrever livros. O livro é um objeto tão sagrado… Disse a um professor, aos 11 anos de idade, que queria ser escritora — essa foi a única vez que confessei esse desejo, essa fantasia.
Esse primeiro romance não foi premeditado. Eu não sentei e decidi escrever uma ficção. Ela se impôs. Numa tarde de sábado, em 2011, após o lançamento do Saga (a não ficção Saga Brasileira), imaginei uma cena e, como não estava fazendo nada, resolvi pô-la no papel. Então, pensei: vou escrever um conto. Segui escrevendo e os personagens continuavam comigo — e comecei a me enamorar com as ideias de escrever sobre o passado. Não era um conto, era um romance.

Eu parava a todo momento, pois já estava trabalhando na próxima não ficção. No início, fiquei muito insegura, mas duas pessoas me incentivaram a ir em frente: meu marido (o cientista político Sérgio Abranches) e Ana Maria Machado que, em uma palestra indicou a leitura de A verdade das mentiras, de Vargas Llosa, um livro de ensaios que analisa a criação literária e me ajudou a enxergar a possibilidade da construção de uma verdade nas mentiras da ficção.

Esse livro foi uma necessidade minha — precisava escrevê-lo, não tive escolha. E nem sempre queria, tinha de parar por causa de outros compromissos. Mas quando sentava para continuar a escrever, continuava de onde parava, sem titubear. Assim nasceu esse romance.

Intrínseca: Como foi escrever uma ficção tão densa, com muitos personagens, dois períodos históricos complexos e ainda seguir com a rotina atribulada da sua vida pessoal e profissional no jornalismo? Que conselho que você daria para quem tem interesse em se tornar um escritor?
Míriam:
Às vezes, as coisas brigavam, não tinha jeito: entre televisão, rádio, jornal, livro de não ficção e o romance, ficava semanas sem tocar em Tempos extremos. Mas em outras ocasiões, trancava-me por cinco horas afastada de todos e apenas escrevia.

A quem deseja escrever minha recomendação é: leia muito. Leia tudo. Leia sempre. Leia os clássicos, pois estruturam o pensamento e, apesar de apresentarem outra linguagem, enriquecem o vocabulário. As palavras têm música — leia poesia!

testeEntre o passado e o futuro

Míriam escrevendo

Um vento leve entra pela janela aberta em frente à mata. Os pássaros já fizeram seu festival mais cedo, mas da mata saem os sons diversos da natureza viva. Minha mesa de trabalho fica encostada na janela. Ao lado, na tampa de um baú pintado de azul colonial, espalhei livros e pastas de consulta, organizados, pelos vários temas. Ao meu redor, HDs e tablets, onde tenho arquivos digitalizados, inclusive das entrevistas que já fiz. É parte do material que tenho estudado no trabalho de escrever meu próximo livro de não ficção.

Assim estou passando a maior parte das minhas férias. O silêncio, só quebrado pelos sons da mata, me ajuda na rotina de escrever e ler. Vou entrando e saindo dos capítulos, como se eles fossem quartos de um casarão.

Sei que a conjuntura brasileira está intensa nos últimos dias, com a prisão dos condenados pela Ação Penal 470. Vão se confirmando as previsões de baixo crescimento de 2013. Há alertas sobre os indicadores fiscais brasileiros. Em pontos do lugar onde estou, a internet é melhor e assim capturo notícias e me comunico com o mundo. Não quero estar longe dele, mas preciso desse distanciamento.

Ontem, a estante de livros de ficção me chamou de forma sedutora, mas resisti. Apenas peguei, por homenagem, o Carnê Dourado de Doris Lessing (que faleceu no último domingo, dia 17 de novembro). Mulheres Livres é o título do primeiro capítulo. Nós ainda estamos tentando, querida Doris. Com ela aprendi muito sobre o absurdo do racismo.

Depois manuseei um dos meus velhos amores. “É muito fundo o poço do passado.” Com essa frase Thomas Mann começa a tetralogia José e seus irmãos. Tem tanto significado! Apesar de o escritor alemão começar a coleção romanceando a história de Jacó, o pai de José e outros onze, aquela frase é perfeita, pensei. José conheceu o fundo do poço, literalmente, ao ser jogado lá pelos irmãos. Ele depois foi, como nos conta a Bíblia — texto no qual Mann se inspirou —, capaz de falar do futuro.

Dias atrás, sentei-me com Livia e Kathia (editora e preparadora da Intrínseca), no Rio, para olhar o trabalho de revisão de um capítulo de Tempos extremos, meu primeiro romance, que vai sair em maio. O livro é surpresa para mim também; eu não sabia que escreveria ficção algum dia, mas houve um momento em que a história se impôs. Ela se passa nos tempos atuais, mas é visitada por dois passados. E como é fundo, às vezes, o poço do passado!

Mas agora estou trabalhando com um olhar que tem que sobrevoar a conjuntura e fazer perguntas para o futuro. Será meu novo livro de não ficção, também a ser lançado pela Intrínseca. O trabalho em que estou mergulhada é imenso, desafiador e estimulante. Tenho que olhar para a frente. Às vezes, instintivamente, busco o horizonte levantando os olhos para a janela. Deparo-me com o verde sem fim e de vários tons das árvores da mata. Agora, a manhã vai alta, a mata fica mais silenciosa e Silvana me traz uma goiaba.

Alguns amigos me perguntaram se nas férias eu não deveria descansar, apenas, da rotina intensa do trabalho jornalístico em várias frentes: jornal, TV, rádio. Mas é assim que quero o meu tempo livre. Escrever é o que eu mais gosto. Escrever e ler. Esse livro que preparo agora exige muito: tenho prazo até o meio do ano para entregar e Bruno Porto, meu editor, tem feito perguntas delicadamente. Há capítulos com mais obstáculos que outros, admito. É um livro complexo, o que escolhi escrever, que exige que eu leia, entreviste, consulte dados e pense intensamente. Por isso, estas férias, que serão um pouco mais longas na televisão, me permitirão avançar. É a melhor chance que eu tenho, longe do inquieto cotidiano do jornalismo.

Escrever é prazer, mas é também uma difícil carpintaria. Há momentos em que você duvida que seja capaz. O segredo é nunca parar nas horas de dúvidas; e nunca parar de duvidar de si.