testeEntre o real e o imaginário

Por Elisa Menezes*

“Não quero escutar as histórias de terror do bairro, que são todas inverossímeis e críveis ao mesmo tempo e que não me dão medo, pelo menos de dia.”

 

O trecho acima pertence ao conto “O menino sujo”, o primeiro dos doze que compõem o livro As coisas que perdemos no fogo, da jornalista e escritora argentina Mariana Enriquez. Não deixa de ser também uma espécie de síntese da obra dessa autora tão habilidosa em mesclar o crível e o inverossímil, extraindo aquilo de aterrorizante que existe no cotidiano. Suas histórias se desenrolam com naturalidade, fluidez e altas doses de humor ácido, mas o que provoca calafrios e tira o sono do leitor é justamente o que existe de real nelas. Voltando-se para situações banais — e banalizadas —, ela prova que a violência urbana, a ditadura militar, a recessão econômica e os feminicídios podem ser muito mais cruéis e assustadores do que qualquer monstro ou distopia.

Nascida em 1973 em Lanús, subúrbio a quinze quilômetros de Buenos Aires, Mariana cursou Comunicação Social em La Plata e se mudou para a capital portenha já adulta. A cidade é um personagem constante nas histórias da autora, que se interessa, contudo, pela faceta marginalizada, e não pelos cartões-postais. Com seu “realismo horror” — termo usado pela própria escritora —, Mariana expõe feridas históricas, ainda abertas e visíveis. São bairros cortados por rios contaminados por dejetos industriais, casas abandonadas em zonas violentas que um dia foram habitadas por famílias abastadas, edifícios onde presos políticos foram torturados, mortos ou “desaparecidos”.

A escritora já tinha oito livros publicados quando As coisas que perdemos no fogo foi editado na Espanha, tornando-a conhecida internacionalmente. Desde então o livro foi traduzido para mais de vinte idiomas e em 2017 recebeu o prêmio Ciutat de Barcelona na categoria “literatura castellana”.

Em sua obra mais recente, o romance Este é o mar, que a Intrínseca acaba de lançar no Brasil, a escritora deixa de lado seu terror moderno e investe na fantasia. Em entrevista à Televisão Pública Argentina, ela contou que sentiu vontade de escrever algo mais terno, aproximar-se dos personagens, e de ambientar uma história fora de seu país. Talvez por isso tenha escolhido falar sobre a relação de êxtase e amor que existe entre fãs e ídolos do rock, algo que ela mesma viveu na juventude.

Fascinada por mitologia desde a infância, a escritora se perguntou o que estariam fazendo hoje as musas, sereias e deusas, essas entidades atraentes e perigosas que inspiram e rodeiam artistas e navegantes. Em Este é o mar descobrimos que existem seres femininos que vivem em movimento perpétuo, nunca dormem e se alimentam da devoção das fãs reais por rock stars. Helena, a protagonista, é uma dessas criaturas que fazem parte do Enxame e que tomam forma humana para se misturar às groupies de carne e osso e incentivar a histeria.

Todas as noites iam gritar em algum show, geralmente em países diferentes. Todos os dias tinham de fazer vigília diante de um hotel, da porta de um teatro ou de um estádio, com o rosto pintado com corações e logomarcas, as mãos agarradas a pôsteres, chorando e esperneando. Deviam ler todas as entrevistas e decorar as respostas, repeti-las, citá-las. Tinham de entrar nas redes sociais, nos fóruns e tumblrs e facebooks e snapchats e instagrams e youtube e twittar e postar, deixar comentários, criar boatos, ameaças de suicídio. Deviam fazer amizade com as fãs reais e conseguir para elas objetos valiosos, discos e fotos autografadas, algum RT ou, melhor ainda, um follow, até uma DM.

Como se vê, o trabalho das herdeiras mitológicas é exaustivo. Por isso Helena deseja evoluir à Luminosa, deixar o Enxame e ganhar o direito de viver na Costa, de ter uma Casa. Antes, porém, precisa fazer uma Estrela e transformar essa Estrela em Lenda. Seu escolhido é o jovem e belo James Evans, vocalista da banda Fallen. No que depender dela, James será o próximo Kurt Cobain, o ícone belo, talentoso e de morte prematura (e misteriosa, para quem aprecia teorias da conspiração). Afinal, por trás de cada lenda do rock — Jim Morrison, Jimi Hendrix, Brian Jones —, há uma Luminosa responsável por seu estrelato e por seu fim.

Se em As coisas que perdemos no fogo os contos são narrados de forma distanciada e às vezes cruel, explorando o terror do cotidiano, em Este é o mar Mariana Enriquez dedica um olhar generoso, compreensivo, às fãs adolescentes, essas musas contemporâneas que inspiram os artistas e os elevam à categoria de deuses. Há ironia, mas também um desejo de mostrar os laços formados entre essas meninas, como eles geram senso de pertencimento, desdobrando-se em experiências coletivas intensas de afeto.

Novamente, a autora costura com maestria o real e o imaginário, jogando com o que existe de surreal nesses sentimentos tão exacerbados e apontando a humanidade que reside no inusitado universo sobrenatural que ela criou. Helena precisa matar o músico escolhido, torná-lo Lenda, para garantir a sobrevivência de sua espécie. Porém, ao conhecê-lo melhor, perceberá que não está imune às emoções que julgava exclusivamente humanas.

O resultado é um romance curto e ágil, repleto de referências mitológicas e da cultura pop, povoado por personagens femininas fortes — com espaço para uma história de amor. Este é o mar é um livro que fala do fim de uma era em vários sentidos. É uma espécie de adeus da autora à sua juventude e também ao tempo em que os ídolos eram universais.

 

*Elisa Menezes traduziu Este é o mar. É jornalista, editora e tradutora.

testePor que o livro de Mariana Enriquez dá palpitações no leitor

Por Mariana Filgueiras*

As coisas que perdemos no fogo transforma personagens comuns e temas contemporâneos em protagonistas de contos magnéticos e sinistros

Num dos contos de As coisas que perdemos no fogo, três jovens amigas se divertem dentro da caçamba sacolejante de um furgão em alta velocidade. “Nós gritávamos e caíamos uma em cima da outra; era melhor que montanha-russa e que álcool. Esparramadas no escuro, sentíamos que cada pancada na cabeça podia ser a última e, às vezes, quando o namorado de Andrea tinha que parar porque algum sinal vermelho o detinha, nos procurávamos no escuro para comprovar se ainda estávamos vivas. E ríamos aos gritos, suadas, às vezes ensanguentadas. O interior do furgão cheirava a estômagos vazios e cebola, às vezes também ao xampu de maçã que compartilhávamos.”

É como nos sentimos ao ler o primeiro livro publicado no Brasil da escritora argentina Mariana Enriquez: esparramados no escuro, suando de nervoso, dando cabeçadas no teto de um carro a toda a velocidade.

O que logo chama a atenção é como a força de sua literatura é física. O livro nos domina, como se o leitor fosse subitamente agarrado pelos calcanhares, depois olhasse para o chão e não visse nada. Impossível atravessar as 192 páginas sem ouvir uma porta ranger, sem checar possíveis feridas nas pontas dos dedos ou sem sentir palpitações no peito. Em algum momento, vai acontecer, é só uma questão de tempo.

A autora usa com habilidade temas muito discutidos atualmente, como o bullying, o crack, os desaparecidos políticos, a violência doméstica, o gaslighting e a crise econômica (caso do conto “Os anos intoxicados”, citado acima), para criar um ambiente magnético e sinistro em seus contos de terror. Os personagens não são monstruosos ou irreais: são pessoas com as quais cruzamos na vizinhança, no pátio da escola, na sala de espera do dentista. A banalidade que introduz as histórias as torna tão factíveis quanto surpreendentes.

E Mariana o faz com o cuidado de não deixar os personagens presos a estigmas ou a lugares-comuns. Num meio-termo bem imaginado entre o realismo e a fantasia, a autora constrói sobre os dramas citadinos um mundo à parte, cheio de reflexão existencial e crítica política.

No conto “O menino sujo”, por exemplo, o terror vivido pela narradora se revela mais na culpa por não ter ajudado uma criança de rua do que na descrição do ambiente repugnante em que vivia ou na própria ação que culminaria no sumiço do menino. “Tive vontade de sacudi-lo e, em seguida, me envergonhei. Ele precisava de ajuda; eu não tinha por que saciar minha curiosidade mórbida. E, mesmo assim, algo no silêncio dele me irritava. Queria que fosse um menino amável e encantador, não aquele áspero e sujo que comia o arroz com frango lentamente, saboreando cada garfada, e arrotava depois de terminar seu copo de Coca-Cola.”

São 12 histórias, numa edição que cresce pouco a pouco em dramaticidade e guarda as mais violentas para o final. A última dá nome ao livro, “As coisas que perdemos no fogo”, e fala sobre mulheres que ateiam chamas ao próprio corpo em protesto coletivo. “Quando de fato as mulheres começaram a se queimar, ninguém acreditou nelas. (…) Achavam que elas estavam protegendo seus homens, que ainda tinham medo deles, que estavam traumatizadas e não podiam dizer a verdade; foi difícil admitir a existência das fogueiras. Mesmo agora, que havia uma fogueira por semana, ninguém sabia o que dizer nem como detê-las, exceto com o de sempre: controles, polícia, vigilância.”

Há uma característica comum a todos os contos: a narração é sempre de mulheres adolescentes ou adultas, o que a autora garante ser mero acaso, um fio condutor espontâneo das narrativas. Pista já presente na epígrafe do livro, tirada do romance O morro dos ventos uivantes, de Emily Brontë: “Queria ser de novo uma menina, meio selvagem e durona, e livre.” Os textos de personagens mais jovens fazem lembrar a delicada tensão de As virgens suicidas (romance de Jeffrey Eugenides adaptado para o cinema por Sofia Coppola em 1999) e os primeiros textos de Stephen King, principal referência literária da autora, principalmente Carrie, a estranha (também levado ao cinema, dessa vez por Brian de Palma, em 1976).

Editora do jornal argentino Página/12, e com textos publicados pela revista The New Yorker, Mariana mostra na sua ficção uma das melhores heranças do jornalismo: o talento para contar boas histórias.

=> Leia um trecho de As coisas que perdemos no fogo

 

Mariana Filgueiras é jornalista cultural e mestranda em Literatura na Universidade Federal Fluminense (UFF).

testeConheça a coletânea com doze contos de terror da aclamada Mariana Enriquez

Histórias curtas, sombrias e perturbadoras: assim são os doze contos de As coisas que perdemos no fogo, da aclamada Mariana Enriquez. Com cenas fortes que não saem da cabeça, o livro mistura terror e suspense em narrativas que parecem normais no primeiro momento, mas são macabras e emocionantes.

Na coletânea, o leitor encontra histórias sobre um menino assassino, uma garota que arranca as unhas e os cílios na sala de aula, amigos que parecem destinados à morte, mulheres violentadas que ateiam fogo em si mesmas, casas abandonadas, magia negra e sumiços inexplicáveis. Os personagens e os lugares enganam o leitor o tempo todo ao se mostrarem comuns, mas revelam o horror do cotidiano.

Os contos também abordam temas como desigualdade e violência com um forte teor político. Nascida e criada em Buenos Aires, na Argentina, Mariana Enriquez não ignora fatos do passado — como a ditadura militar no país — e o contexto local em suas obras.  

Considerada uma das principais jovens autoras contemporâneas da América Latina, Mariana vem conseguido destaque internacional. Além de As coisas que perdemos no fogo, traduzido para mais de vinte países, já publicou outros setes livros que conquistaram o público e a crítica. Veículos internacionais como New Yorker, Granta e Electrice Literature já a elegeram como uma das escritoras mais corajosas e surpreendentes da atualidade.

Em entrevistas, Mariana costuma afirmar que suas inspirações vêm de autores como Henry James, Lafcadio Hearn, Emily Brontë e Stephen King, mas também das experiências que vivencia como jornalista. Por isso suas obras mesclam elementos de horror e sobrenatural com o cotidiano.

=> Veja também 31 livros incríveis que você precisa conhecer 

testeLançamentos de maio

Confira as sinopses dos lançamentos do mês: 

A profecia das sombras, de Rick Riordan Não bastava ter perdido os poderes divinos e ter sido enviado para a Terra na forma de um adolescente espinhento, rechonchudo e desajeitado. Não bastava ter sido humilhado e ter virado servo de uma semideusa maltrapilha e desbocada. Nããão. Para voltar ao Olimpo, Apolo terá que passar por algumas provações. A primeira já foi: livrar o oráculo do Bosque de Dodona das garras de Nero, um dos membros do triunvirato do mal que planeja destruir todos os oráculos existentes para controlar o futuro.

Em sua mais nova missão, o ex-deus do Sol, da música, da poesia e da paquera precisa localizar e libertar o próximo oráculo da lista: uma caverna assustadora que pode ajudar Apolo a recuperar sua divindade — isso se não matá-lo ou deixá-lo completamente louco.

Agora e para sempre, Lara Jean, de Jenny Han Em Para todos os garotos que já amei, as cartas mais secretas de Lara Jean — aquelas em que se declara às suas paixonites platônicas para conseguir superá-las — foram enviadas aos destinatários sem explicação, e, em P.S.: Ainda amo você, Lara Jean descobriu os altos e baixos de estar em um relacionamento que não é de faz de conta. Na aguardada conclusão da série, Agora e para sempre, Lara Jean, a jovem vai ter que tomar as decisões mais difíceis de sua vida.

Em nome dos pais, de Matheus Leitão — Resultado de suas incansáveis investigações, que começam pela busca do delator e seguem com a localização dos agentes que teriam participado das sessões de tortura de seus pais. Passado e presente se entrelaçam nessa obra, que reconstitui com rigor eventos do início dos anos 1970 e, ao mesmo tempo, apresenta a emocionante peregrinação do autor pelo Brasil atrás de respostas. Uma história sobre pais e filhos, sobre reconciliação e responsabilidade, sobre encontros impossíveis. É também uma história sobre um país que ainda reluta em acertar as contas com um passado obscuro. 

As coisas que perdemos no fogo, de Mariana Enriquez — Macabro, perturbador e emocionante, o livro reúne contos que usam o medo e o terror para explorar várias dimensões da vida contemporânea. Em um primeiro olhar, as doze narrativas do livro parecem surreais. No entanto, depois de poucas frases, mostram-se estranhamente familiares: é o cotidiano transformado em pesadelo. Uma das escritoras mais corajosas e surpreendentes do século XXI, Mariana Enriquez dá voz à geração nascida durante a ditadura militar na Argentina.

As garotas, de Emma Cline — Considerada pela Granta uma das melhores jovens autoras americanas da década, Emma Cline se inspirou no impacto causado pelos assassinatos cometidos pelo culto de Charles Manson, no fim da década de 1960, para escrever As garotas. O livro narra o processo de crescimento pessoal de um grupo de jovens — um retrato atemporal das turbulências, das vulnerabilidades e da força das mulheres em sua passagem à maturidade.

O caminho da porcelana, de Edmund de Waal — Do autor de A lebre com olhos de âmbar, uma jornada para entender a obsessão humana pela arte, pela riqueza, pelo talento e pelo poder. Através de um material tão precioso e inesperado quanto a porcelana, Edmund de Waal desenha um mapa do melhor e do pior da humanidade em diferentes séculos e continentes. Uma investigação que perpassa acontecimentos sombrios – como a produção de porcelana para os nazistas em um campo de concentração – e gloriosas – como a alquimia desastrada que reinventou a porcelana e deu origem à primeira fábrica do Ocidente.

O projeto desfazer, de Michael Lewis Em O projeto desfazer, o renomado autor de Moneyball e Flash boys conta a história da colaboração entre dois homens absolutamente diferentes, percorrendo a gênese da teoria que mais tarde, publicada em livro, se tornaria o best-seller Rápido e devagar: Duas formas de pensar. Daniel Kahneman e Amos Tversky escreveram uma série de estudos originais desfazendo todas as suposições da época sobre o processo humano de tomada de decisão. Os ensaios e artigos escritos por eles mostraram como nossa mente sistematicamente se engana quando obrigada a fazer escolhas em situações de incerteza.

Razões para continuar vivo, de Matt Haig  O mundo de Matt ruiu quando ele tinha pouco mais de 20 anos. Ele não conseguia achar uma maneira de continuar vivo. Essa é a história real de como Matt passou pela crise, triunfou sobre a doença que quase o destruiu e aprendeu a viver novamente. Uma análise comovente e delicada sobre como viver melhor, amar melhor e se sentir mais vivo, Razões para continuar vivo é mais do que um livro de memórias. É um livro sobre como aproveitar seu tempo no planeta Terra.

Deixei você ir, de Clare Mackintosh Partindo de vários pontos de vista, Clare Mackintosh faz em Deixei você ir um retrato preciso de uma grande investigação policial. Com habilidade singular, ela desenvolve personagens memoráveis e uma análise arrebatadora das excentricidades da vida no interior. Mas seu verdadeiro talento é a maneira como incorpora reviravoltas em uma trama cheia de mistérios. Mesclando suspense e thriller psicológico, Clare disseca a mente de seus personagens enquanto tece entre eles inesperadas conexões.