testeLeonardo, o mais humano dos gênios

Por João Carvalho*

Quando pensamos em Leonardo Da Vinci a primeira palavra que nos vêm à cabeça é gênio. Da Vinci era genial, isso é um fato posto. Afinal, estamos falando do cara que pintou a Mona Lisa e A Última Ceia. Um homem que cinco séculos atrás desenhou projetos de helicópteros e escafandros. Um sujeito que era a um só tempo tão versado em pintura e geologia quanto em anatomia e engenharia. Mas o que significa ser um gênio?

A palavra gênio tem sua origem no latim genius, que era o espírito guia ou deidade pessoal que acompanhava cada um de nós, quase uma versão pagã do anjo da guarda. Como aqueles que conseguiam atingir grandes feitos eram considerados possuidores de um grande genius, a palavra passou a significar também inspiração. Em sua acepção moderna o termo bebe de duas fontes latinas. Genius, que já explicamos, e ingenium, que, por sua vez, significa talento, capacidade natural, dom.

Ou seja, genial seria aquele que tem um enorme talento ou dom que se manifesta quase que metafisicamente através de uma dádiva recebida de um espírito guia, ou, após o surgimento da cristandade, de Deus. Assim, o gênio se torna um inspirado, alguém fora do convívio humano, um predestinado que já nasceu preparado para surpreender a todos com seu talento sobrenatural. Se essas são as qualidades de um gênio, ironicamente, Da Vinci foi tudo, menos isso.

A Última Ceia (Fonte)

Da Vinci era acima de tudo um polímata, um homem do Renascimento. Seus interesses eram tão diversos quanto difusos: óptica, perspectiva, anatomia, engenharia hidráulica, arquitetura, engenharia militar, pintura, música, teatro, geologia, botânica, enfim, pense em um ramo da ciência que alguém pode buscar conhecer e você achará alguma página dos inúmeros cadernos de Da Vinci contendo notas a respeito. Mas a genialidade de Da Vinci não era algo inato. Seu maior dom era sua curiosidade infindável e seu desejo de conhecer o ser humano em absolutamente todas as suas facetas.

Estudos de Adoração dos Magos por Leonardo da Vinci (1452-1519), drawing 436E recto.

Da Vinci tinha a curiosidade de uma criança, a obstinação em angariar conhecimento de um Hércules e o foco de um Husky Siberiano, não à toa ele é o “gênio das obras inacabadas”. Muitas de suas descobertas fantásticas tiveram que ser redescobertas após a sua morte porque ele não chegou a divulgá-las, devido ao afã de aprimorá-las, fossem as artísticas, fossem as científicas. E é no fascinante mundo mental do mais humano de todos os gênios que a biografia de Walter Isaacson nos convida a mergulhar.

Isaacson é um dos biógrafos mais renomados de nossa geração. Dele também temos o apanhado da vida de Steve Jobs, de Benjamin Franklin e de Albert Einstein. Talvez o que torne Isaacson um biógrafo tão espetacular seja sua capacidade de a um só tempo apresentar uma pesquisa científica digna de um doutorado em uma linguagem aberta e atraente como se fosse um livro de ficção. Além disso, faz algo que é raro entre os biógrafos: ele se aproxima mais do estilo de um narrador, quase de um jornalista e não de um apologista, e podemos ver o melhor da sua escrita na biografia de Leonardo.

Isaacson nos traz em um livro luxuosamente bem editado um mergulho no universo mental de Leonardo Da Vinci, a partir de uma pesquisa de anos na quase totalidade do corpus de suas obras e, principalmente, de seus escritos que sobreviveram até os nossos dias. Ao final, Isaacson consegue pintar um Da Vinci tão fascinante e misterioso quanto o sorriso da Mona Lisa.

É com enorme prazer que eu te convido a fazer essa jornada fantástica e conhecer mais a fundo um dos homens mais fascinantes que caminhou sobre essa Terra. A biografia de Leonardo é sobretudo um convite ao aprendizado, à observação e à curiosidade. Leonardo desperta em nós perguntas que fazíamos quando éramos crianças e nos convida a olhar o mundo de uma forma mais profunda e ao mesmo tempo mais singela.

Obviamente a grande maioria de nós não pintará uma nova Mona Lisa ou descobrirá a quadratura do círculo ao fim da leitura, mas, certamente, aquele que ler sua biografia perceberá que o mundo a nossa volta se tornou mais colorido, mais encantado e cheio de novas perguntas e descobertas a cada dia.

Quinhentos anos após a sua morte Leonardo continua vivo a cada vez que nos perguntamos acerca da natureza que nos cerca bem como tentamos entender a nossa própria natureza humana. Sua genialidade, forjada no molde da observação e da experimentação, nos convida a nos maravilharmos com o mundo e torna Leonardo o mais humano de todos os gênios.

 

* João Carvalho é podcaster pelo DecrépitosAnticast Revolushow. Formado em História e Letras Clássicas e mestre em História Social, trabalha no Ministério das Relações Exteriores desde 2009.

testeMindhunter: em livro e na TV, a mente de um caçador de serial killers

Por Marco Barbosa*

Quase 40 anos se passaram, mas o caso dos assassinatos de crianças em Atlanta, acontecidos entre 1979 e 1981, ainda assombra o imaginário de muita gente nos Estados Unidos. Foram confirmadas 30 vítimas; 24 eram menores de idade, entre elas uma menina de 7 anos e três garotos de 9. Facadas, estrangulamentos, tiros. A série de crimes ganhou notoriedade internacional, motivou campanhas humanitárias e foi retratada em filmes de ficção e documentários. E também representou a primeira oportunidade de exposição pública para o agente especial John E. Douglas: o investigador que revolucionou o método de rastreamento e captura de assassinos seriais do Bureau Federal de Investigações, o FBI.

“Tudo começou silenciosamente um ano e meio antes, de maneira quase imperceptível. Antes de terminar — se é que realmente terminou —, essa perseguição se tornou a maior e possivelmente mais difundida da história dos Estados Unidos, politizando uma cidade inteira e polarizando todo o país, com cada etapa da investigação mergulhada em polêmica”, conta Douglas em Mindhunter: O primeiro caçador de serial killers americano, escrito em parceria com Mark Olshaker. No livro que inspirou a nova série da Netflix, Douglas emprega uma calculada mescla de suspense policial e realismo brutal (com uma ou outra lição fisgada de Truman Capote, Vincent Bugliosi e outros experts no gênero true crime), com um resultado inquietante.

Estudante medíocre, reservista da Força Aérea, bom nos esportes, a vida de Douglas começou a mudar em 1970, quando foi convencido a tentar uma vaga no FBI. Ele sempre teve um dom inato para, através de uma observação cuidadosa, prever atitudes e entender as motivações das pessoas. Ao aplicar essa capacidade sobre o que aprendeu na Unidade de Ciência Comportamental do FBI, já em meados da década de 1970, desenvolveu técnicas — praticamente — infalíveis para identificar suspeitos e determinar padrões de comportamento de criminosos.

 

Chamado para colaborar no caso das mortes em Atlanta, cravou: o criminoso é um jovem negro, dono de um pastor-alemão, provavelmente ex-policial ou segurança particular. Wayne B. Williams, negro, 21 anos, foi preso em junho de 1981. Ele era obcecado por procedimentos policiais e possuía um pastor-alemão. Não admitiu os crimes, mas foi condenado à prisão perpétua por conta do grande volume de provas contra ele, como testemunhas e fios de cabelo e fibras de tecido deixadas nas cenas dos crimes.

Não havia mágica nas deduções de Douglas. Havia método. Como o próprio descreve, em uma cena passada ainda no começo de sua carreira: “Havia algo inerente e profundo no psiquismo de um criminoso que o levava a fazer as coisas de determinada maneira. Mais tarde, quando comecei a estudar a mente e as motivações de assassinos em série, e depois, quando passei a analisar cenas de crimes à procura de pistas comportamentais, sempre procurava por aquele elemento isolado ou o conjunto de elementos que levavam o crime e o criminoso a se destacarem do resto, que representava aquilo que ele era.”

No posto de instrutor de Ciência Comportamental (que, na década de 1970, era uma disciplina desacreditada pelos investigadores veteranos), o agente resolveu encarar os criminosos cujos casos eram citados no material didático. “A maioria desses caras sobre quem discutíamos nas aulas ainda estavam vivos, e a maioria passaria o resto da vida na cadeia. A gente poderia ver se conseguia falar com eles; perguntar por que haviam cometido aqueles crimes, descobrir como havia sido a experiência através dos seus olhos. Poderíamos pelo menos tentar. Não importava se ia funcionar ou não.”

Funcionou. Douglas conversou com assassinos de políticos, maníacos sexuais e torturadores seriais — chegou mesmo a visitar Charles Manson, na prisão de segurança máxima Alcatraz, na Califórnia. Ao final da década, o agente já se tornara especialista em análises de perfis de criminosos a partir de evidências, organizando o conhecimento acumulado e suas experiências pessoais. “E, durante esse período, a análise criminal investigativa entrou na era moderna”, descreve ele, sem falsa modéstia. “O que tento fazer em cada caso é absorver todas as provas com as quais posso trabalhar, como os relatos de caso, as fotos e descrições da cena do crime, os depoimentos das vítimas ou protocolos da autópsia, e depois entrar de forma mental e emocional na cabeça do criminoso.”

Os crimes relatados em Mindhunter impressionam sobretudo porque, como costuma acontecer com assassinos em série, o criminoso pode ser um amigo, um parente, um vizinho… E, sem a capacidade de Douglas, nunca perceberíamos por conta própria.

 

Como o caso de Robert Hansen, um padeiro e caçador amador do Alasca que se cansou de atirar em ursos e passou a alvejar prostitutas (“Eram crimes de ódio. Ele se excitava ao ver suas vítimas implorando pela vida”). Ou do boa-praça George Russell Jr., sujeito popular e charmoso, e também culpado pelo espancamento e estrangulamento de três mulheres em menos de um ano (“Não era o tipo de pessoa que imaginaríamos cometendo esses assassinatos terríveis”). Em outras ocorrências, paciência e análises meticulosas — que poderiam se estender por anos — afinal levavam à captura do matador. Foi assim com o assassinato de Karla Brown, bela jovem de uma cidadezinha do estado americano de Illinois, cujo culpado só foi preso quatro anos depois.

Parece coisa de cinema? Não é, mas acabou se transformando. Douglas foi a inspiração para Jack Crawford, agente ficcional do FBI criado pelo escritor Thomas Harris para sua série de livros sobre o matador canibal Hannibal Lecter. Na tela grande, Crawford foi interpretado por Dennis Farina, em Manhunter, de 1987; Scott Glenn, no multipremiado O Silêncio dos Inocentes, de 1991; e por Harvey Keitel em Dragão Vermelho, de 2002.

Na TV, uma adaptação direta de Mindhunter estreou nesse mês de outubro na Netflix. No comando da série, alguém que, como Douglas, entende de serial killers: David Fincher, diretor de Seven – Os Sete Crimes Capitais e Zodíaco. O seriado condensa o universo sombrio do livro em uma narrativa bem amarrada, dividindo o protagonismo entre dois agentes: o novato Holden Ford (Jonathan Groff) e o veterano Bill Tench (Holt McCallany). A primeira temporada recria as jornadas que Douglas fez de prisão em prisão, entrevistando maníacos, e mostra a dupla de federais aplicando na prática as lições aprendidas. A reconstituição de época — a década de 1970 — e as ótimas performances tornam ainda mais palpáveis as investigações narradas por Douglas.

Leitura recomendada a fãs de seriados com C.S.I. e filmes de serial killers, Mindhunter também é indicado a qualquer apreciador de boa ficção policial. Com um acréscimo: os arrepios gerados pelas narrativas são mais agudos, por se tratar de histórias reais…  Douglas, que depois de se aposentar do FBI recomeçou a vida como consultor jurídico e investigativo, ainda se assusta com as próprias recordações.  Mas é preciso encará-las. “Como um homem desse poderia fazer algo tão terrível? Deve haver algum engano ou agravante. É isso que você dirá a si mesmo caso converse com alguns deles; não há como compreender inteiramente a enormidade dos crimes que eles cometeram (…) Se quiser compreender um artista, olhe para sua obra. É isso que sempre falo para o meu pessoal. Não há como afirmar que você compreende e aprecia Picasso sem estudar suas pinturas.”

>> Leia um trecho de Mindhunter

 

Marco Antonio Barbosa é jornalista desde 1996. Passou pelas redações de Jornal do BrasilExtraVeja Rio e Globo.com, escrevendo sobre cultura, mídia e comportamento. Hoje publica textos inéditos em https://medium.com/telhado-de-vidro.

testeA vida não é filme

Por Elisa Menezes*


Devemos tomar o cuidado de não julgar nossos relacionamentos pelas expectativas que nos foram impostas por um veículo estético que costuma estar equivocado. A culpa é da arte, e não da vida.

Essa é uma das ideias centrais do novo livro do escritor e filósofo Alain de Botton. Em O curso do amor, ele é o primeiro a reconhecer que não se trata de tarefa fácil, dado o bombardeio romântico a que somos submetidos há gerações. Não são poucas as histórias que terminam com a celebração de um casamento, seja nos contos de fada — “e viveram felizes para sempre” —, seja nas novelas da TV. É como se a humanidade inteira fosse embalada por Fábio Jr., que dia após dia repete em nossos ouvidos: “Carne e unha, alma gêmea, bate coração. As metades da laranja, dois amantes, dois irmãos. Duas forças que se atraem, sonho lindo de viver.”

Para dar conta da complexidade do relacionamento amoroso, Botton faz uso da mesma arma com que Shakespeare disseminou o ideal do amor romântico: a ficção. Romeu e Julieta saem de cena e entram Rabih e Kirsten. A tragédia dos jovens amantes que pertencem a famílias inimigas dá lugar aos desafios da convivência cotidiana entre duas pessoas que decidiram viver juntas a grande, difícil, surpreendente, tediosa e por vezes insana experiência do casamento.

Um casamento não começa com o pedido, nem no primeiro encontro. Começa muito antes, com o nascimento da ideia de amor, e, sendo mais exato, com o sonho de uma alma gêmea.

É por isso que o autor inicia sua história com a primeira paixão de Rabih, aos 15 anos, aquela que moldará sua compreensão do amor por décadas. O sentimento não revelado (nem correspondido), alimentado por poucos elementos concretos e muita idealização, deixará uma marca permanente em Rabih, que “continuará acreditando na possibilidade de dois seres humanos se entenderem e sentirem empatia de forma rápida e incondicional, e na chance de um fim definitivo para a solidão”.

Como nem toda produção artística é romântica, vale lembrar que nos anos 1980 os Paralamas do Sucesso já alertavam, em vão: “A vida não é filme, você não entendeu, de todos os seus sonhos não sobrou nenhum. Ninguém foi ao seu quarto quando escureceu, e só você não viu, não era filme algum.”

É justamente aquilo que costuma ficar de fora dos filmes — e que constitui a essência do casamento — que Botton está interessado em mostrar. Trata-se da versão estendida da história de Rabih e Kirsten, na qual assistimos a expectativas e desentendimentos, fantasias e frustrações, solidão e companheirismo, infantilidade e amadurecimento.

São os episódios mais corriqueiros que geram identificação imediata, como o sentimento de injustiça diante da divisão de tarefas domésticas e a mágoa acumulada pelo cônjuge não ser capaz de ler todos os nossos sinais (para nós, evidentes; para eles, dúbios). Compartilhamos as angústias do casal fictício, pois são universais.

Ao esmiuçar o casamento de Rabih e Kirsten, Botton demonstra como as experiências pessoais, a infância e a relação com os pais estão na essência de muitas atitudes que tomamos em nossos relacionamentos amorosos. Transferimos aos parceiros as expectativas que tínhamos em relação aos nossos progenitores, aqueles seres que por anos se dedicaram a cuidar, limpar, alimentar, ensinar e (tentar) compreender cada desejo dos filhos. “Aceitar os riscos dessa transferência”, diz Botton, “significa dar prioridade à empatia e à compreensão em detrimento da irritação e do julgamento”. E completa: “Duas pessoas podem vir a entender que os súbitos acessos de ansiedade ou hostilidade podem nem sempre ter sido causados diretamente por elas — e, portanto, nem sempre deveriam suscitar fúria ou orgulho ferido.”

O autor entremeia a história do casal com comentários e reflexões — como os trechos em itálico deste texto e as aspas do parágrafo anterior — pautados na psicologia, na filosofia e na história, criando assim uma narrativa que mescla ensaio e ficção.

O nascimento dos filhos é terreno fértil para o surgimento de novos desafios, e é alvo também da franqueza certeira de Botton, que aponta os sentimentos ambíguos que podemos nutrir em relação àqueles que mais amamos. “Tudo é incrível — da primeira vez”, diz o autor, referindo-se ao deleite do casal diante da novidade de cada ínfima ação de seus filhos, como engolir um pedaço de banana ou segurar um copo. “Nem Kirsten nem Rabih jamais conheceram essa mistura de amor e tédio”, conclui.

A chegada das crianças não apenas modifica a dinâmica do casal como impõe a Kirsten e Rabih papéis até então desconhecidos: mãe e pai. Naturalmente, a intimidade entre os dois é afetada, o desejo muitas vezes fica soterrado pelas novas responsabilidades; a culpa passa a ser uma espécie de bumerangue que marido e mulher jogam um para o outro. Novamente, a crença no amor incondicional nos leva a ter os piores tipos de comportamento justamente com quem amamos.

O nível de exigência que infligimos ao parceiro e a busca fantasiosa por um casamento perfeito — em vez de satisfatório — são mais uma cortesia do ideal do amor romântico. E não adianta pensar que o problema está no outro: a perfeição simplesmente não existe, é difícil que uma paixão resista ao cotidiano de louça suja, estresse no trabalho ou aperto financeiro. Mesmo a pessoa mais interessante, autêntica, compreensiva e gentil é incapaz de passar no teste da vida a dois sem revelar manias irritantes, fetiches esquisitos ou falhas de caráter. Já dizia Caetano Veloso: “De perto, ninguém é normal.”

Mais do que somente narrar os altos e baixos de uma relação, O curso do amor oferece um olhar empático a cada um dos cônjuges. Ao investigar as motivações, anseios e inseguranças por trás de atitudes que soam incompreensíveis no dia a dia, o autor nos convida a refletir e a perdoar — a nós mesmos e ao outro. Apesar de todos os efeitos físicos e emocionais que provoca, o amor, afinal, não é mágica, e sim mais uma habilidade que podemos (e devemos) desenvolver. Ao final, Kirsten e Rabih aprendem a apreciar as pequenas doses de felicidade e sentem que juntos são muito mais fortes e capazes de enfrentar qualquer desafio.

 

Elisa Menezes é jornalista, editora e curadora do Garimpo Clube do Livro.

teste3 conselhos sobre a Síria

Por Ivan Mizanzuk*

Foto por Gabriel Chaim

“Eu quero morrer na Síria.” Foram essas as palavras de um refugiado sírio que entrevistei em 2016.

Naquele ano, eu realizava uma série de entrevistas com brasileiros que tiveram algum contato com os recentes conflitos do Oriente Médio. Era parte de uma espécie de documentário para o meu podcast, Projeto Humanos, e tinha como objetivo fazer um mosaico dessas histórias, começando no 11 de Setembro até a (ainda corrente) Guerra da Síria. Em algum momento, me vi conversando com sírios que moravam no Brasil — o Ahmed e o Elia, para ser mais preciso. O primeiro, um jovem dentista muçulmano de Damasco que veio para o Brasil, em 2013, como refugiado, fugindo da guerra; o segundo, um atleta cristão de Aleppo, que veio como imigrante na década de 1970 porque era fã do Pelé.

Antes de entrevistá-los, fiz a lição de casa: li muito sobre a Guerra da Síria, sobre os abusos realizados pelos dois últimos ditadores, Hafez al-Assad e Bashar al-Assad, os únicos dois presidentes que o país teve nos últimos quarenta anos. A julgar pelas informações fornecidas pela mídia ocidental, era óbvio que minhas entrevistas com Ahmed e Elia seriam descrições completas sobre quão horríveis os governos da família Assad eram e são.

Mas Elia e Ahmed gostavam de Assad. E isso inutilizou todo o meu preparo. “Sim, as eleições são fraudulentas. Mas Assad é um presidente forte, e todos querem a Síria. Todos! EUA, Israel, Arábia Saudita, todos querem tomar nosso país. Por isso, precisamos ser protegidos.” Por pouco, quase cometi o erro gigantesco de querer ensinar a história da Síria aos próprios sírios, mas consegui me calar a tempo e ouvir as histórias deles.

E este é o primeiro conselho que dou àqueles que se interessam pela Síria: esqueça tudo que você entende de política, costumes e seu modelo de sociedade ideal. Apenas ouça. Quanto antes você se livrar dessas noções “ocidentais”, mais rápido vai começar a entender. E daí você vai perceber o que eu percebi: que em todo lugar do mundo há quem goste de seu presidente, há quem o critique e o chame de ditador e há quem seja pragmático e pense: “Se não ele, quem?” A verdade, se é que ela existe, está em algum desses espectros.

O segundo conselho: após deixar de lado tudo que você pensa saber e ouvir atentamente as histórias dessas pessoas, volte e comece a construir pontes com o Ocidente. No caso de nós, brasileiros, por termos sido colônia portuguesa, estamos acostumados com um modelo de Estado em que, a certa altura, a religião passou a atuar mais na esfera privada do que na pública (ao menos é o que se espera na teoria). É o modelo que “herdamos” da Revolução Francesa, no final do século XVIII, no qual Estado e Igreja são instituições que devem ser independentes. Hoje, esse é o modelo de sociedade que desejamos. Mas imagine que o estabelecimento de um Estado laico não tenha ocorrido séculos atrás, que, em vez de cristã, a população fosse em sua maioria muçulmana e que a separação entre religião e política tivesse sido imposta por um governo que subiu ao poder na base da força, na segunda metade do século XX.

Foi o que aconteceu na Síria, com o agravante de que isso tudo foi durante a Guerra Fria, um momento em que dificilmente um país conseguiria sobreviver se não escolhesse um lado . Como tantos países no Oriente Médio nesse período, os alinhamentos não eram tanto uma questão de ideologia, e sim de sobrevivência.

No imaginário ocidental, temos o péssimo costume de reduzir o Oriente Médio inteiro às questões religiosas, taxando-os de fanáticos. E, ao fazermos isso, deixamos de notar como a religião ganha conotações políticas na região, especialmente na Síria, já que esse modelo ocidental de separação das duas esferas é nosso pressuposto. Quando Hafez al-Assad subiu ao poder, na década de 1970, passou a impor políticas de secularização, proibindo, por exemplo, mulheres de usarem o véu, uma recomendação no islamismo. Parte da população o acusa de forçar uma ocidentalização dos costumes, o que gerou conflitos internos já naquela época.

E, sendo um governo autoritário, parte da população (especialmente os camponeses e os mais pobres nos centros urbanos) usou o discurso religioso como forma de resistência, como foi o caso de mulheres que faziam questão de usar o véu. Entender a religião como expressão política pode nos parecer estranho, mas é possível compreender se fizermos algumas pontes históricas. Não sei se aqui há formas “certas” ou “erradas” de agir. Apenas foi assim que aconteceu.

E quando começamos a ver como é difícil entender a Síria, lanço meu terceiro conselho: ouça as histórias do seu povo. Só através delas entenderemos melhor esses conflitos e suas contradições. À primeira vista, tudo pode parecer muito exótico e diferente, mas a realidade é que muitas das questões são bastante familiares.

Por isso, O árabe do futuro é um tesouro. Sendo o povo árabe um grupo que em geral preserva muito sua privacidade, a autobiografia de Riad Sattouf é corajosa ao expor a intimidade da família. Filho de pai sírio e de mãe francesa, o autor consegue estabelecer as pontes necessárias para que compreendamos a complexidade do desenvolvimento da Síria, do pan-arabismo e das promessas e sonhos que habitavam as mentes daquela época, naquela região.

Não vou dizer aqui que todo sírio ama seu país, pois seria uma generalização perigosa, mas, quando Riad mostra como o pai amava a Síria, entendo melhor o Ahmed, o refugiado sírio que entrevistei, quando ele disse que, apesar de tudo, deseja ser enterrado em sua terra natal.

O árabe do futuro é uma história em quadrinhos (ou graphic novel, para os que preferem termos mais chiques) que até o momento conta com três volumes. O primeiro foi lançado em 2015 aqui no Brasil, e a Intrínseca acabou de lançar o terceiro. A cada vez que o volume que estou lendo termina e vejo “Continua…” na última página, abraço minha edição e digo “até breve”. Não à toa, em 2014, ano da publicação original, o primeiro volume ganhou o Grande Prêmio no festival de quadrinhos de Angoulême, uma das premiações mais importantes do mercado Europeu. Além de colecionar esse e vários outros prêmios no currículo, o autor Riad Sattouf também foi um dos colaboradores do polêmico jornal satírico Charlie Hebdo, entre 2004 e 2014.

***

Em 2011, a Síria possuía em torno de 20 milhões de habitantes. Estimativas variam, mas acredita-se que a guerra no país já tenha matado cerca de meio milhão de pessoas. Até 2017, o número de refugiados já passava dos 5 milhões. Se contarmos os que se deslocaram internamente, percebemos que mais da metade do país teve sua estrutura de vida afetada. É a maior crise humanitária desde a Segunda Guerra Mundial.

Certa vez, conversando com Carlos Reiss, diretor do Museu do Holocausto de Curitiba, ele me disse: “Quando falamos sobre o Holocausto, é importante humanizarmos aqueles números. Foram 6 milhões de judeus que morreram nos campos, sim, mas temos que ver isso como 6 milhões de histórias que deixamos de contar.”

Para aqueles que pretendem humanizar esses números sírios, a obra de Riad é mais do que recomendada, pois nos lembra que, ao menos desde 1978, havia casais se apaixonando, sonhos sendo construídos, famílias se desentendendo e corações batendo.

 

Ivan Mizanzuk é de Curitiba e tem 34 anos. Além de professor e escritor, é também host dos podcasts AntiCast e Projeto Humanos, nos quais debate frequentemente sobre política, artes, religião e coisas estranhas.

Twitter: @Mizanzuk

 

testeCultos e mortes na década do paz e amor

Por Clarissa Wolff*

Em As garotas, Emma Cline se inspira em uma trágica história real para falar do amadurecimento feminino.

As garotas da vida real, durante o julgamento da “família” Manson (fonte)

Os anos 1960

Dos meus 10 aos 16 anos (tá bom, talvez 26), meu sonho era participar de uma sociedade secreta. Fui fundadora de umas três ou quatro, com nomes em latim ou em francês, e cuja única integrante era eu mesma. A sociedade secreta que deu mais ou menos certo foi no quinto ou sexto ano da escola. Usei todo o conhecimento roubado da minha mãe, que é médica, e levava informações sobre a puberdade para minhas colegas. Juntas, estudávamos o estagiamento de Tanner, comparávamos o tamanho dos seios e calculávamos o tempo para que cada uma menstruasse. O grupo se chamava G.A.S.P. (Garotas Avançando no Saber da Puberdade — eu não era tão criativa nessa época) e tinha dez regras em uma lista impressa em papel azul e fonte Garamond — pela qual eu estava obcecada após descobrir que era a usada na edição de Harry Potter. Lembrei-me recentemente dessa pérola em uma viagem para a casa dos meus pais, em Porto Alegre.

A pré-adolescência e a juventude são a epítome da necessidade de pertencer, de ser aceito, e, mais que isso, de ser especial. Como diria The Killers, “it’s only natural”. Hoje temos grupos no Facebook e no WhatsApp que saciam essa ânsia, mas nos anos 1990 nada disso existia. Nos Estados Unidos dos anos 1960 e 1970, muito menos.

Os anos 1960 viram o país sair do torpor pós-Segunda Guerra Mundial e mergulhar na realidade da Guerra Fria e da Guerra do Vietnã, o que levou os movimentos de esquerda de paz e amor ao enfrentamento. A década presenciou a morte dos heróis do movimento negro em 1965 (Malcolm X) e 1968 (Martin Luther King Jr.) e o surgimento dos Panteras Negras. Viu o feminismo se desenvolver como movimento político a partir da publicação em 1963 de A mística feminina, de Betty Friedan, e crescer e se fortalecer nas mãos de heroínas como Angela Davis, Shulamith Firestone e Andrea Dworkin, que lutavam pelo fim do estupro, da pornografia e pelo direito ao aborto (finalmente alcançado em 1973). Viu o Verão do Amor em 1967 e o Woodstock em 1969.

Esse era o momento de encontrar um propósito, um lugar para pertencer, sua religião e seu messias. E foi a década de 1960 que viu nascer Charles Manson.

 

O culto mais famoso do mundo

Minto. Na verdade, Charles Manson nasceu em 1934. Mas me refiro ao mito: aquele sobre quem vemos referências nos nomes de bandas e artistas como Kasabian e Marilyn Manson, na literatura de Thomas Pynchon e Joan Didion, em filmes e em músicas. Esse sim nasceu nos anos 1960.

No Brasil, muita gente não faz ideia de quem é Charles Manson — e, mesmo assim, as chances de termos deparado com uma versão distorcida de alguma referência a ele em filmes exibidos na “Tela Quente” ou na “Sessão da Tarde” são bem grandes. Mas lá fora Manson definiu uma geração. Vendido ainda pequeno pela mãe alcóolatra em troca de uma garrafa de vodca, ninguém esperava que ele se tornasse um cidadão exemplar. Manson acreditava que era um messias, usava técnicas de manipulação inteligentíssimas, drogava seus seguidores com LSD e anfetamina, obrigava suas seguidoras a transar com ele e era tão perturbado quanto foi poderoso para aquele grupo. Dezenas de biografias, estudos, documentários e reportagens tentaram desvendar e entender a mente por trás do culto mais famoso do mundo: a família Manson.

O carismático líder acreditava na supremacia branca e que as mulheres deviam atender suas necessidades. É natural que, como produtos de uma sociedade patriarcal que treina mulheres à submissão e ensina-lhes que seu valor reside na opinião de um homem, elas sejam as presas mais fáceis. Ainda assim, a família contava com um ou dois homens entre os mais ou menos 15 integrantes que acreditavam plenamente no discurso de Manson.

Apesar disso, o que ele realmente queria era ser famoso. Em uma era pré-reality show, Manson recorria a seu suposto talento como músico e a sua ligação com Dennis Wilson, do Beach Boys, para que seu sonho se tornasse realidade. Não conseguiu. Frustrado, raivoso, descontrolado, instruiu que seus seguidores invadissem a casa onde acreditava que morava o produtor musical que o havia rejeitado. Eles deveriam matar quem encontrassem. Havia quatro pessoas, inocentes, sem ligação com a vítima desejada: entre elas estava a atriz Sharon Tate, na época mulher do diretor de cinema Roman Polanski, grávida de oito meses. O transe não acabou, e os assassinatos continuaram até somarem nove vítimas.

Era, de fato, o fim da paz e do amor na Califórnia.

Sharon Tate, na época casada com o diretor Roman Polanski, foi a vítima mais conhecida do culto de Manson. (Fonte)

 

As garotas de Manson

Apesar dos múltiplos relatos sobre o terrível homem por trás disso tudo, pouco se fala sobre as garotas que estrelaram esses acontecimentos. Havia Linda Kasabian, a integrante do culto que finalmente foi até a polícia e revelou detalhes dos crimes, horrorizada com o que tinham feito, e Patricia Krenwinkel, atualmente a mulher presa há mais tempo no sistema penitenciário dos Estados Unidos. Mas as garotas que atraíam olhares de verdade não eram elas.

Leslie Van Houten era linda, tinha cabelos pretos, a pele clara e traços aristocráticos. Era a mais nova integrante do culto. Com um sorriso perfeito, um olhar penetrante e naturalmente sensual, de corpo altivo e elegante, Leslie era uma mulher confiante mesmo aos 19 anos. Ficava difícil desviar o olhar de alguém como ela. As entrevistas posteriores vão aos poucos mostrando a menina se tornando mulher, primeiro em 1977, depois em 1994, e finalmente em 2015, cada vez mais humana, o remorso explícito, tentando ela mesma entender o que tinha se passado.

Havia ainda Susan Atkins, assustadora em cada entrevista subsequente, com o rosto alongado, a voz e os traços infantis mesmo com 30 anos. Assistir às entrevistas de 1976 é ter certeza de que estamos frente a frente com uma bruxa. É impossível desviar os olhos, e é impossível continuar olhando. O arrepio que acompanha a voz de timbre agudo, meio sussurrada, recontando cada momento dos assassinatos, vai subindo pela coluna até eriçar cada pelo do corpo. Susan parece continuar num estado permanente de apatia, como se ainda não tivesse acordado do torpor das drogas. Mesmo em 2009, já de cabelos brancos, a voz permanece a mesma.

Mas as três garotas que entraram rindo diante do juri para responder aos crimes de 1969 também tiveram histórias antes da família Manson, foram produtos da sociedade e do abuso psicológico, físico e emocional de seu líder.

Elas também não deixam de ser vítimas.

 

Um grande livro de estreia

A culpa e a inocência são conceitos abstratos quando existem estruturas capazes de levar indivíduos a determinadas situações. Tendo em vista que a sociedade, o contexto e a opressão influenciam as pessoas, como é possível julgar quem é culpado e quem é inocente?

As garotas de Manson são os dois.

É nesse cenário nebuloso que se passa As garotas, de Emma Cline. O romance de estreia acompanha a vida de uma protagonista apaixonada por sua versão ficcional, uma mistura de Leslie e Susan. Entramos sem convite no mundo de drogas e abuso do culto mais famoso do mundo — mas, acima de tudo, entramos no mundo de uma adolescente que está crescendo e se formando como ser humano, aprendendo o que realmente significa viver e amar.

A narrativa sublime, o cuidado com os detalhes, o impacto de imagens poderosas e as metáforas estranhas e precisas parecem, às vezes, nos enganar: tal qual Vladimir Nabokov em Lolita, Cline às vezes nos faz esquecer de que estamos lendo uma história de horror. O domínio da linguagem nos faz pensar em uma Donna Tartt jovem, mas a capacidade de mergulhar nas ânsias, nos medos e na essência do sentimento adolescente pode nos remeter a um John Green um pouco macabro. E nesse cenário de beleza e repulsa encontramos, mais que uma resposta, a pergunta que faz sentido: o que define nossa inocência, senão o acaso?

>> Leia um trecho de As garotas

 

*Clarissa Wolff escreve desde pequena e já contribuiu para Rolling Stone, UOL e VICE, entrevistando bandas e escritores. Mantém um blog sobre cultura em geral e um canal no YouTube sobre literatura.

testeAntes da queda: quando a sobrevivência é a nossa última escolha

Por João Lourenço* 

“Senhores passageiros, sejam bem-vindos e obrigado por escolherem a nossa companhia aérea.” 

Durante o aviso que antecede os voos, costumo prestar atenção na reação das pessoas ao meu redor. Algumas não conseguem esconder o nervosismo, param o que estão fazendo e ficam atentas; outras simplesmente ignoram. Sou do segundo time. Prefiro acreditar que jamais vou precisar seguir aquelas “dicas” de sobrevivência. Afinal, se houver mesmo um acidente, quais serão as minhas chances?

Notícias de quedas de aviões sempre reacendem o nosso medo de voar. Eu, como não tenho estômago para acompanhar depoimentos de pessoas que perderam amigos e familiares em desastres aéreos, prefiro ouvir as histórias daqueles que por alguma razão — sorte? destino? — deixaram de embarcar no último minuto. 

Em Antes da queda acontece o contrário. Scott Burroughs, um pintor fracassado, entra no avião quando a porta da aeronave já está para fechar. Neste caso, não se trata de um voo comercial, mas de um jato particular que transporta apenas onze passageiros, entre eles alguns dos homens mais influentes dos Estados Unidos. O voo, de aproximadamente 50 minutos, é entre a exclusiva ilha de Martha’s Vineyard e Nova York. Mas, dezoito minutos após a decolagem, o avião cai no oceano Atlântico. Enquanto tenta domar o pânico, pensando em uma forma de sobreviver, Scott escuta o choro e o pedido de socorro de uma criança. É J.J., filho mais novo do diretor do canal de notícias mais assistido nos EUA, a ALC News. O desejo de sobreviver vence o frio e o medo de Scott. Mesmo com o ombro deslocado, ele nada por cerca de 18 quilômetros até a praia, puxando J.J. com a ajuda de uma corda e uma almofada de flutuação. 

Esse poderia ser um breve resumo do livro: duas pessoas tentando sobreviver após a queda de um avião. Mas esse trecho está apenas nas primeiras páginas do novo thriller de Noah Hawley

Após o acidente, Antes da queda segue em capítulos que se dividem entre o passado dos personagens que não sobreviveram e o presente de Scott e J.J. Mesmo salvando a vida de um menino de quatro anos, Scott provoca questionamentos na mídia e na população: seria ele um herói ou um farsante? O motivo: a última série de pinturas de Scott é sobre desastres, como imagens de aviões em chamas. Além disso, os personagens que morrem no acidente são pessoas influentes, endinheiradas e invejadas, o que levanta muitas suspeitas sobre a queda do avião.

Âncora do programa mais assistido da rede ALC News, o sensacionalista Bill Cunningham ficou famoso graças a David, diretor da emissora e pai de J.J. Inconformado com a morte do chefe, o jornalista está disposto a descobrir a qualquer custo o que realmente aconteceu de errado no voo — mesmo que para isso ele tenha que grampear telefones de autoridades e pessoas poderosas.  

Antes da queda também relata momentos honestos de compaixão, como a relação que Scott desenvolve com o menino J.J. Abalado com o acidente, o garoto quase não fala mais, abrindo exceção apenas quando está ao lado de quem o salvou. São muitas emoções que o livro proporciona e, quando se trata de deixar o público na expectativa, o autor Noah Hawley não decepciona. 

Além de escritor, Noah também é roteirista, diretor e produtor das séries mais badaladas da TV americana, como Bones, Fargo e Legion — essa última já é a série mais comentada deste ano. Em artigo para a revista Vanity Fair, que considerou Noah o homem que representa o futuro de Hollywood, o autor afirma que tenta separar e distinguir as mídias durante o processo criativo, mas, no final, uma coisa acaba levando à outra. Ele explica: “Eu quero que o livro seja um livro. Mas, então, percebo que o que escrevi pode se tornar um filme e isso é ótimo. Mas esse não era o meu objetivo quando comecei a escrever o livro.” Não era o objetivo, mas Antes da queda vai virar filme. Antes mesmo de chegar às livrarias, os direitos de adaptação cinematográfica do livro foram comprados pela produtora Sony. 

O autor de Antes da queda, Noah Hawley (Fonte)

Considerado pelo The New York Times um dos melhores suspenses de 2016, Antes da queda explora temas bastante pertinentes da nossa vida cotidiana. O autor nos lembra que vivemos em uma sociedade em que Fake News e Click Bait já estão inseridos na maneira como consumimos notícia e conteúdo em geral — e isso é perigoso. 

O sensacionalismo perpetrado por Bill Cunningham não é muito diferente daquele que se encontra em diversos canais — vide o número de matérias falsas e sem fundamento que foram ao ar durante a corrida presidencial americana. No caso de desastres aéreos, isso tende a piorar. Não há limite para a invasão de privacidade dos familiares daqueles que não tiveram a mesma sorte de Scott e J.J. Uma das questões levantada por Noah é a seguinte: se há tanto sensacionalismo na mídia, a culpa é de quem produz a informação ou de quem a consome? 

Em Antes da queda, somos confrontados com os bastidores da vida, com tudo aquilo que a TV não está interessada em mostrar. Afinal, por trás de qualquer desastre ou escândalo, existem pessoas. Ao lado de Scott, aprendemos que o tecido da vida é frágil e que a questão da sobrevivência não tem apenas a ver com riqueza financeira ou força física. Como diz Jack LaLanne, guru do mundo fitness e herói pessoal de Scott, tudo é possível, tudo é alcançável. Você só tem que querer muito! 

 

*João Lourenço é jornalista. Passou pela redação da FFWMAG, colaborou com a Harper’s Bazaar e com a ABD Conceitual, entre outras publicações estrangeiras de moda e design. Atualmente está em Nova York tentando escrever seu primeiro romance.

testeComo Cinquenta tons de cinza nos trouxe liberdade

Por Nina Lopes*

Cinquenta tons de cinza foi lançado em 2012. Em 2017, a adaptação cinematográfica do segundo livro da série acabou de chegar aos cinemas. Ou seja, cinco anos depois Grey continua com tudo. Porque, vamos combinar, ele é eterno, doa a quem doer. E para entender um pouco melhor sobre sua permanência nas listas de mais vendidos e a importância dessa obra é preciso voltar um pouco no tempo.

Vamos começar no Antigo Regime, que cobre um período entre os séculos XV até início do XVIII. Nessa época, os livros com conteúdo erótico não tinham permissão da Igreja e do Estado para serem publicados, portanto eram vendidos de forma clandestina. As poucas escritoras femininas preferiam o anonimato e o uso de pseudônimos para evitar o julgamento alheio e a perseguição que sofriam caso assumissem a autoria. Inclusive, elas eram consideradas incapazes de descrever cenas sensuais com a mesma precisão que os homens. Acreditavam que só eles entendiam do assunto e por isso eram os únicos aptos a escrever sobre o tema. Chocante, né?

Já no século XVIII, as mulheres tinham muito tempo livre em casa e gostavam de ler romances. Nesse momento, o gênero já sofria críticas por ser uma leitura de diversão. No século seguinte, o romantismo se expandiu com a chegada dos folhetins e passou a ser chamado de “literatura de massa”, atingindo as camadas populares. Mas nem tudo é fácil e a crítica não deixava barato, afinal de contas a elite intelectual não aceitava ter a mesma preferência literária que os emergentes.

A temática do sexo já fazia sucesso, mas esses livros eram chamados de “romances para homens”. Não era bem-visto que as mulheres lessem essas histórias, pois eram consideradas má influência. Mas elas não eram bobas e compravam escondidas ou liam o exemplar do marido enquanto ele não estava em casa. Contudo, era impensável assumir que gostavam desse gênero ou ler esses livros em público.

No século XX, a sexualidade foi incorporada pelo capitalismo para gerar lucro. E a mulher, nesse novo contexto, passou a ser vista como objeto sexual, sem voz ativa. Mas nem tudo estava perdido e no final do século conquistamos a libertação feminina, e a literatura erótica passou a ser majoritariamente produzida por mulheres. Porém, essa produção ficava confinada aos livros de bolso vendidos em bancas de jornal, nada de destaque nas vitrines das livrarias ou aposta nos catálogos das editoras. E foi só no século XXI que Cinquenta tons de cinza tirou a literatura erótica desse “esconderijo” e a colocou sob os holofotes.

Portanto, fica claro que o obsceno na literatura sempre foi condenado e repreendido. Além disso, a visão do homem era predominante. A produção feminina começou tarde e enfrentou desafios, e quem quebra paradigmas é sempre criticado. A crítica mantém sua postura, afinal não quer perder a autoridade intelectual. Mas já está na hora de entender que o público leitor é heterogêneo.

Foi com a coragem de autoras como E L James que conseguimos transgredir uma repressão que durou muito tempo, nos permitindo alcançar a liberdade que temos hoje. Cinquenta tons de cinza retrata o momento em que vivemos ao contar uma história romântica moderna, com as mulheres assumindo a autoria, as fantasias e lendo textos eróticos em público.

Acima de tudo, E L James decidiu contar uma história de amor. O problema é que o prazer e o amor são simples, e por isso mesmo desprezados. Mas não só no campo literário, como em outros aspectos da vida, o ato de espalhar o amor precisa ser mais valorizado. Então, que chorem as inimigas, que chorem os críticos, eu tenho muito orgulho de fazer parte da geração que dá voz às mulheres, que coloca uma escritora falando tão abertamente sobre amor e sexo no topo das listas de mais vendidos do mundo todo. Segue o show, Grey!

 

*Nina Lopes é editora assistente no setor de ficção da Editora Intrínseca e é dessas que se apaixonam pelos personagens dos livros que lê.

testeA nova mitologia de Deuses americanos

Por Alexandre Matias*

campanha_deusesamericanos2

Ainda não chegou o tempo em que olharemos para trás e reconheceremos que Deuses americanos foi um marco na literatura fantástica mundial. O livro que lançou a carreira de Neil Gaiman como escritor para além dos quadrinhos completa quinze anos em 2016, e sua adaptação para série de TV já está sendo filmada e estreia em 2017. O aniversário traz de volta a versão integral que Gaiman mandou a seu primeiro editor, que podou dezenas de páginas. Nessa  Edição Preferida do Autor as páginas extras são resgatadas, além de outros textos de Gaiman sobre o livro, como uma nova introdução e uma entrevista.

Em Deuses americanos, Gaiman explora a possibilidade de mitologias acompanharem seus povos em migração. A história se passa na virada do milênio, mas também volta no tempo para mostrar os Estados Unidos em formação, explicando como cada povo e cada tribo deixou a Europa rumo à América levando consigo suas crenças — e como estas foram se transformando no novo continente, que, ao mesmo tempo, via o nascimento de novos deuses.

Assim como acontece na extensa saga em quadrinhos Sandman, publicada entre 1989 e 1996, a sombra que Deuses americanos projeta sobre a fantasia atual ainda está em lento crescimento, sendo apresentada a novos públicos e espalhando-se para além daquele momento inicial de seu lançamento.

Na nova introdução, Neil Gaiman explica que concebeu o título do livro antes mesmo de saber sobre o que escreveria. E, ao apresentá-lo para sua editora, recebeu de volta uma capa já pronta com a clássica imagem do relâmpago ao longe, no horizonte de uma estrada. A imagem icônica surgiu antes mesmo de Gaiman determinar exatamente qual história queria contar e qual tom daria à nova saga.

De certa forma, Deuses americanos pode ser visto como uma continuação do universo que Gaiman começou a explorar em Sandman, embora por outro ponto de vista. Com a série da DC Comics, o autor britânico escolheu um personagem de terceiro escalão da editora e foi em sua essência, descobrindo que o nome Sandman estava vinculado ao personagem do sonho em todas as mitologias. Criou um universo no qual sete irmãos — os Perpétuos — atravessam todas as narrativas da história humana. Eles são entidades que existem desde a aurora dos tempos — Destino, Morte, Sonho, Destruição, Desejo, Desespero e Delírio (todos com D, em inglês) — e cuja interação afeta diretamente a vida dos seres humanos. Sandman era um enorme xadrez da eternidade, em que diferentes deuses e personagens fantásticos brincavam com a mortalidade humana.

campanha_deusesamericanos

Deuses americanos nos faz ver esses universos mitológicos do ponto de vista mortal. O protagonista, Shadow, cruza os Estados Unidos de carro em busca de divindades de outras culturas que estiveram na base da formação do país, mas que aos poucos foram perdendo a importância, ao mesmo tempo em que viram o nascer de novos deuses, aqueles que batizam o livro. E, mesmo que tenha uma história fechada, o universo de Deuses americanos acabou por invadir e dar origem a outros livros de Neil Gaiman, que aos poucos vai desenhando seu próprio universo ficcional.

A adaptação do livro para a TV amplia ainda mais as fronteiras desse universo. A princípio produzida pela HBO, a série passou para o canal fechado Starz e conta com nomes como Bryan Fuller (da série Hannibal) e Michael Green (que fez Heroes e Kings e atualmente produz Gotham e escreve a continuação de Blade Runner), além do próprio Neil Gaiman, que acompanha de perto o projeto desde o início. Gaiman já admitiu ter participado do roteiro dos primeiros episódios da série, que teve seu primeiro teaser exibido — e recebido com aplausos — na Comic Con de San Diego deste ano, o principal evento de cultura pop do mundo.

Ao chegar à TV durante uma grande entressafra que coincide com a fase final do fenômeno de fantasia Game of Thrones, há uma grande chance de a série encontrar um público ávido por novas histórias que misturem mitologia e realidade. Em Deuses americanos, assim como em toda obra de Neil Gaiman, os fãs encontrarão um enorme manancial de contos, fábulas e épicos.

Mas ainda há muito pela frente. Outras obras fantásticas — como O senhor dos anéis, Harry Potter e o próprio Game of Thrones — só atingiram o auge da popularidade quando saíram do papel e chegaram às telas do cinema e da TV, sendo que apenas os autores dos dois últimos — J.K. Rowling e George R.R. Martin — puderam curtir o ápice de popularidade e alcance de suas criações, ajudando-as a crescer nesta transição. A nova edição de Deuses americanos e a iminente série são as primeiras provas de que esse universo pode — e deve — ser bem explorado nos próximos anos.

 

Alexandre Matias, 41 anos, é jornalista e cobre cultura e tecnologia há vinte anos, com base em seu site, Trabalho Sujo (www.trabalhosujo.com.br).

testePor que é tão difícil editar séries de fantasia?

Por Flora Pinheiro*

abcc8zgpp01uagxiav9f

Traduzir séries de fantasia é um desafio. (Fonte)

Quando a Intrínseca resolveu apostar na série A Roda do Tempo, a felicidade foi grande. Não só da parte dos fãs que já conheciam a obra, mas também dentro da própria editora. Trabalhar com livros sempre foi o sonho de muitos de nós. Trabalhar com os livros que a gente sempre teve vontade de ler é melhor ainda.

Entretanto, não é simples editar uma série de 14 volumes. Não só pelo tamanho de cada livro, mas principalmente pela riqueza do universo. Como optar pela tradução específica de um termo fictício, que pode repercutir três ou cinco livros depois, quando ainda estamos nos familiarizando com esse novo mundo? Além disso, autores de fantasia amam profecias que aparecem no comecinho da história e só vão se concretizar lá nos últimos volumes. E elas não podem ser claras e compreensíveis, óbvio, ou seriam spoilers, não profecias. E aí, como se resolve isso?

rodadotempo5-copiaNossa saída foi a seguinte: além de escolher com todo o cuidado a equipe “tradicional” que trabalha no livro (tradutor, preparador de texto, revisores etc.), decidimos investir também em uma consultoria técnica para a série. Às vezes, nem as maravilhosas enciclopédias dão conta de todas as nossas dúvidas, então é importante ter o pitaco de alguém que ama e conhece profundamente a série. Isso já nos salvou muitas vezes!

Um desafio ainda maior neste caso são as padronizações. Temos muitas pessoas trabalhando juntas com o objetivo de levar o melhor livro possível para o leitor. Às vezes, algum termo ou nome de personagem está traduzido de um jeito e, depois de debatermos o assunto, a gente encontra uma solução mais adequada e muda de ideia. E lá vamos nós de novo, passar mais um pente-fino no texto para que não escape nenhuma ocorrência antiga. Depois do tradutor, pelo menos mais três pessoas leem o livro, prestando atenção nesse tipo de detalhe. Afinal, se no primeiro livro a Nynaeve pede para ser poupada desses homens que pensam com os cabelos do peito, a expressão não pode mudar no volume seguinte (se dependesse de mim, essa expressão dela apareceria até na capa dos livros, logo embaixo do título).

Sempre apareço creditada como editora nos livros de Roda do Tempo. Isso significa que, além de trabalhar no texto, também faço a ponte entre todas as outras pessoas envolvidas no projeto (tradutores, preparadores de texto, revisores, diagramadores, designer…), e costumo dialogar com os colaboradores as dificuldades que aparecem durante o trabalho. Depois da faculdade de produção editorial, minha especialização foi em tradução. E lá nas minhas aulas de tradução, havia um tema muito discutido: o intraduzível. Sotaques, muitas vezes, ficam pelo caminho. Afinal, não dá para botar uma pessoa da área rural dos Estados Unidos falando com o sotaque do interior do Brasil, por exemplo. E os teóricos da tradução diziam (de um modo bem mais acadêmico): aceita que dói menos. Algumas coisas sempre se perdem de uma língua para a outra. Vida (e livro) que segue.

Só que a nossa equipe é teimosa. E então pensamos: e se a gente tentar traduzir os sotaques? Não é sempre que as editoras fazem isso. Mas nosso raciocínio foi: uma das coisas mais legais nos livros do Jordan é o próprio universo construído pelo autor. Cada povo tem um sotaque, cada personagem tem seu jeitinho de se expressar. Alguns falam piratês (ao contrário dos países de língua inglesa, nós não temos piratês consolidado em português, infelizmente), outros vivem citando ditados populares envolvendo peixes (meu conhecimento sobre peixes, reais ou imaginários, aumentou muito desde que comecei a trabalhar na série) e certos povos adoram “falar bonito” e soam meio pedantes.

Isso faz com que a nossa equipe troque e-mails meio inusitados. “Que tal se o povo tal não começar as frases pelo sujeito? E se aquele povo que erra a negativa no original em inglês não usar a palavra ‘não’? Vocês acham que ficar repetindo “no caso” é um bom vício de linguagem? “O senhor, no caso, é um cabeça de lã!” E assim por diante.

Parece meio detalhista e esquisito, né? Bem-vindos ao mundo editorial! Já são três anos dedicados à série, imersa em todos esses detalhes. Fico muito feliz por poder me aprofundar no universo do Jordan a cada livro (e ouvir novos ditados da Nynaeve). Assim como os fãs, mal posso esperar pelo próximo.

 

*Flora Pinheiro é editora, revisora, tradutora e, ora ora, escritora.

testeComo convencer seus amigos a ler A Roda do Tempo

*Por Flora Pinheiro e Rayssa Galvão

Se você é fã de A Roda do Tempo que nem a gente, já deve ter passado por esta situação: um amigo vem perguntar sobre a série, mas não é o tipo de pessoa para quem basta dizer que ela é muito boa. A pessoa precisa de mais incentivos para se interessar pela história. Então, na tentativa de explicar, você se embanana um pouco, e o resultado sai confuso e desinteressante, e seu amigo se afasta bem devagarinho, se perguntando como é que você consegue amar uma série sobre…

Um menino que é o escolhido para lutar contra o mal e umas mulheres que fazem magia, mas aí o menino descobre que também faz magia, só que homem não pode fazer magia… a não ser no caso dele, que veio para salvar o mundo… isso se ele não acabar matando todo mundo primeiro…mas também tem um personagem que é muito engraçado, e eles descobrem que… opa, não posso falar que é spoiler. Mas é muito legal, você devia ler!

tumblr_nmsximr0jf1rxhp7xo1_400

Bem, seus problemas acabaram! Nós já publicamos uma matéria com 14 curiosidades bem bacanas sobre os livros, mas agora vamos explicar por que todo mundo deveria ler essa série.

Senta que lá vem textão!

 

sentaquelavem

É uma série inovadora de fantasia

As pessoas se embananam para explicar do que se trata a série porque A Roda do Tempo é uma história bem original, que vai além da boa e velha jornada do herói — sabe, aquela história que todo mundo já conhece (mas que continua sendo recontada de jeitos maravilhosos) sobre uma pessoa comum que recebe um chamado e, mesmo sem querer, acaba se tornando o salvador do mundo.

A Roda do Tempo representa um ciclo temporal de diversas Eras (a nossa inclusive), e a série conta justamente a história de uma delas. Há uma guerra do bem contra o mal, claro, mas é muito mais que isso. Na série, o girar da Roda do Tempo (e, portanto, o passar das Eras) é impelido pela magia da Fonte Verdadeira, que é composta de duas metades opostas que se complementam: a feminina (Saidar) e a masculina (Saidin).

Mas qual é a história, afinal?

Tudo começou quando um cara chamado Lews Therin (conhecido como o Dragão) liderou seus homens numa guerra contra as Forças das Sombras, encabeçadas pelos 13 seguidores mais fortes de uma entidade maligna conhecida como Tenebroso. Esse ser havia sido confinado em sua prisão pelo Criador no momento da criação, mas uma abertura na prisão estava permitindo que ele estendesse sua influência pelo mundo.

Lews conseguiu selar a prisão do Tenebroso, confinando os 13 seguidores junto de seu mestre. No entanto, o contra-ataque das forças das Trevas criou uma mácula na metade masculina (Saidin) da Fonte Verdadeira, que era o poder que os homens precisavam acessar para fazer magia. Isso levou todos os homens que acessavam Saidin à loucura, e eles destruíram cidades e mataram muita gente… O resultado do ataque de sujeitos tão poderosos acabou reformulando o mundo, criando montanhas onde existiam planícies e abrindo mares onde só havia deserto. Essa mácula ainda existe, e é por isso que os homens não podem fazer magia.

Milhares de anos depois, o selo da prisão começa a enfraquecer, e aqueles 13 seguidores que estavam presos com o Tenebroso escapam e começam maquinações para libertar seu mestre. Só que isso já estava profetizado (as Eras são cíclicas, elas volta e meia se repetem), e um dos grandes indícios dessa tragédia seria o renascimento de Lews Therin. A Roda faz o herói das forças do bem ressurgir, trazendo o Dragão Renascido (porque Lews Therin era o Dragão, sacou?) para salvar o mundo (e, infelizmente, destruir esse mundo enquanto tenta salvá-lo).

giphy

Pronto, essa é a premissa. É bem fundamentada nos elementos que todo fã de fantasia adora: a ideia do bem contra o mal, de um vilão dado como derrotado renascer das cinzas para atazanar a vida alheia, de um escolhido… Isso é tudo parte da jornada do herói. Só que ao mesmo tempo em que conta a jornada do herói, a série narra muitas tramas paralelas e suas ramificações, criando uma teia de destinos e decisões que deixa todo mundo desesperado pra saber o que vai acontecer.

Não é porque tem um dragão que você vai ver lagartões gigantes cuspindo fogo

Estamos bem acostumados com a mitologia europeia, cheia de elfos e anões, mas nesse ponto Jordan inovou bastante. A magia é um dos pilares da trama, e até tem monstros que lembram os trolls e nazgûl de O Senhor dos Anéis, mas os dramas e os personagens são majoritariamente humanos. Há muitos povos diferentes, cada um querendo derrotar as forças das trevas do próprio jeito, e seres humanos com boas intenções podem se revelar tanto heróis quanto vilões.

A construção dos povos é muito variada, o que deixa a história multifacetada

Grande parte do livro sofre influências mitológicas de culturas e religiões com as quais não estamos muito acostumados. Dois dos exemplos mais bacanas — e mais diametralmente opostos — são os Aiel e os Thuata’an.

Segundo o autor, os Aiel foram inspirados em uma mistura das culturas zulu, apache, beduína e japonesa, e Jordan inclusive declarou que a ideia original era fazer um povo com uma mistura de cultura árabe, mas de descendência irlandesa. Os Aiel são divididos primeiro em núcleos familiares, depois em clãs, num paralelo à cultura irlandesa, mas a dinâmica social foi muito baseada nos beduínos. E embora os Aiel usem lanças em vez de espadas, consideram a luta (que chamam de “dança das lanças”) algo sagrado, regido por um complexo código de ética, o que remete à cultura samurai.

Ao contrário dos Aiel, que são um povo guerreiro, os Thuata’an (também chamados de Latoeiros) seguem o “Caminho da Folha”, que tem suas raízes no jainismo (uma antiga religião indiana). Eles se recusam a praticar qualquer ato de violência, não importa a situação (mesmo que seja para salvar a própria vida), e até tocar em armas é considerado tabu. Os Thuata’an viajam pelo mundo em trajes e carroções que lembram muito os ciganos, inclusive por sofrerem preconceito e terem a má fama de serem ladrões.

A mistura de culturas e religiões vai além dos povos

Apesar de à primeira vista a história apresentar o clássico dualismo cristão, com a ideia de um criador benevolente que tenta afastar o mal e da chegada de um fim apocalíptico, não é necessário se aprofundar nas culturas dos povos para encontrar mais e mais referências. Basta um olhar mais atento para reparar na mescla de religiões e filosofias orientais.

Quer um exemplo? Todos os livros começam com um parágrafo muito parecido, que sempre termina assim: “O vento não era o início. O girar da Roda do Tempo não tem inícios nem fins. Mas era um início.”

Soa até meio absurdo para a gente, porque no Ocidente estamos acostumados com a progressão linear do tempo, com eventos que se encaixam em passado, presente e futuro. Mas Jordan se inspirou no conceito de tempo cíclico dos hindus. Como é uma noção de um tempo que se desloca em círculos, infinitamente, o presente, assim como o futuro, já aconteceu em algum momento do passado. A serpente que morde a própria cauda, a principal imagem da série, é símbolo da eternidade.

h

Como o tempo da série funciona diferente, não dá para a gente dizer que é uma fantasia medieval. Primeiro porque, apesar de ter reis, rainhas e castelos, logo percebemos que o clima é um pouco diferente (e o próprio Jordan já falou que desejava criar um mundo similar ao nosso, mas em que a pólvora nunca tivesse sido inventada), inclusive com menções ao “antigo costume de lutas com espadas”, que dão a entender que o tempo dos grandes cavaleiros já passou. Ao longo dos livros dá para notar uma série de referências, como o esqueleto ancestral de um animal mitológico de pescoço longo (uma girafa) e até as ruínas de um silo com um símbolo muito similar ao que usamos para indicar radiação (ou seria uma usina?). A ideia é que a nossa era já passou, mas que, um dia, ela vai voltar.

Se pararmos para pensar, essa noção de tempo cíclico é um pouco contrária à finitude de um evento apocalíptico, como nas histórias que já conhecemos. Será que é uma dica de que a luta do bem contra o mal nunca vai acabar? (A gente também não sabe, viu? Também estamos lendo a série!)

Tem tanto detalhe bacana que não caberia num texto só

Não é por acaso que a série faz tanto sucesso e é considerada um marco da fantasia. Lembra o conceito de opostos se complementando, que mencionamos lá atrás? Aquela história de que a força que move a Roda do Tempo vem da Fonte Verdadeira, que tem duas metades? Então, Saidin e Saidar formam o Poder Único, duas forças opostas que se complementam para formar uma única força que move o mundo. Dá uma olhada no símbolo. Lembra alguma coisa?

zero_sign

Se você gosta de caçar referências, essa série é para você. E se não gosta, também é. Nós duas adoramos tentar descobrir de onde cada autor tira suas ideias e sempre passamos muito tempo teorizando sobre as histórias, mas nada disso é tão bom quanto enfiar a cara no livro e mergulhar na leitura. Já temos 5 volumes publicados em português, venha se juntar à gente nesse universo!

 

*Flora Pinheiro e Rayssa Galvão

Flora e Rayssa são melhores amigas desde o terceiro volume de Harry Potter. Elas se conheceram trocando teorias, e até hoje se divertem conversando e teorizando sobre suas séries favoritas. Elas nunca deixaram de amar os livros de fantasia.