testeA segunda vinda de Deuses Americanos

Por Bruno Grandis*

Muitos adjetivos já foram usados para descrever Deuses americanos, mas acredito que o que melhor define a essência do livro é: estranho. Talvez essa não seja a melhor forma de apresentar um mundo novo para um desavisado leitor, mas essa é inegavelmente a verdade.

Poucos autores teriam uma ideia como: “E se deuses antigos tivessem vindo para a América junto com os imigrantes e se alimentado das crenças do povo?”, acrescentariam à história uma guerra com os “novos deuses” e concluiriam que isso daria uma saga épica de fantasia urbana. Mas também, poucos autores são como Neil Gaiman, o cara que já imaginou toda uma hierarquia fantástica pelos subterrâneos do metrô de Londres (Lugar nenhum), revolucionou os quadrinhos (Sandman) e ainda nos fez olhar para as lembranças da infância com outros olhos (O oceano no fim do caminho).

Essa estranheza de Deuses americanos ficou ainda mais clara quando, por anos, diversos produtores e estúdios tentaram traduzir a visão de Gaiman para a TV. A HBO chegou a ensaiar uma adaptação, mas acabou deixando a série em um limbo de produção, até finalmente o canal por assinatura Starz se encarregar da primeira temporada de American Gods, que estreou em 2017, com direito a muito sangue, bizarrices e esposas-mortas-revividas-por-acidente-graças-a-uma-moeda-mágica-jogada-em-seu-túmulo (eu falei que a história era estranha!).

Antes da estreia, muitos se perguntavam por que adaptar um único livro em  temporadas de uma série de TV. Deuses americanos não chega nem perto do tamanho dos muitos volumes de Game of Thrones ou A Roda do Tempo, que também deve ganhar uma adaptação televisiva. Mas o que a obra de Gaiman não tem em quantidade compensa em sua densidade incomparável de acontecimentos.

Em um único volume de mais de quinhentas páginas, somos introduzidos a diferentes divindades, panteões, conflitos, resoluções e reviravoltas. A obra é tão rica que seria simplesmente impossível — e contraprodutivo — resumir s saga de Shadow Moon e do sr. Wednesday em poucos episódios. De forma similar, a versão quadrinhos da obra também foi dividida em diversos volumes.

Por isso, a primeira temporada tratou de apresentar o rico universo concebido por Gaiman. Apesar da palavra “deus” denotar certa importância e poder, na série eles são bem mais “humanos” do que imaginamos. Os deuses antigos são muitas vezes caquéticos, sujos, imprestáveis. Suas vidas na América se tornaram miseráveis por conta de uma sociedade que os esquece um pouco mais a cada dia.

Qualquer entidade rejeitada precisa de um inimigo em quem botar a culpa pelo fim dos dias de glória, e na escala divina de Gaiman esses inimigos são a mídia, as drogas, a tecnologia, entre outros, sempre com sua petulância jovial. A série faz uma releitura muito interessante desse “embate” entre os deuses antigos e novos, mostrando  como os deuses antigos estão dispostos a tudo para se manterem relevantes, chegando a mudar de lado e apelar as práticas dos novatos, como armas de destruição em massa e aplicativos.

A segunda temporada da série, que estreou em março deste ano, dá continuidade às linhas narrativas iniciadas na primeira e se aprofunda na história. Já no começo os fãs do livro se deparam finalmente com a glória e a estranheza da House on the Rock , casa de bizarrices perdida em pleno coração dos Estados Unidos e também ponto de encontro das divindades do Velho Mundo.

Como o sr. Wednesday explica, os verdadeiros locais de fé na América não são templos ou igrejas — meras cópias das ideias que os colonizadores europeus trouxeram consigo. A fé americana está melhor representada nas atrações de beira de estrada, que encontramos por acaso, quando viajamos pelo Novo Mundo. Nesses locais, nunca sabemos o que realmente pode acontecer e sempre saímos transformados por sua irrelevância ou bizarrice.

Ao dividir a obra-prima de Gaiman em temporadas, temos tempo para explorar facetas desconhecidas dos personagens e também entender um pouco de seus dilemas e motivações. O passado de Shadow, por exemplo, que na primeira temporada não recebeu tanto destaque, ganha merecido espaço.

Grandiosa e vibrante, American Gods é uma ótima forma de os fãs matarem a saudade da obra-prima de Gaiman, mas também é uma série para qualquer pessoa que goste de uma boa história (com um toque mais do que bem-vindo de excentricidade).

Os deuses estão esperando.   

*Bruno Grandis é uma dessas pessoas que fazem de tudo um pouco nesse mundo, entre podcasts, publicidade e outras coisas estranhas no geral, setenta por cento disso aprendido quando era assistente de mídias sociais na Intrínseca.

testeGarra: como despertar a vontade de vencer?

Por Letícia Calhau*

Aos 27 anos, Angela Duckworth deixou um emprego conceituado para ser professora de matemática em uma escola pública. A transição, porém, não foi simples. Sua vida financeira mudou de maneira drástica; os almoços com executivos foram substituídos por lanches rápidos durante exaustivas jornadas de trabalho e suas roupas passaram a ser as mais confortáveis possíveis, já que agora ela passava muitas horas em pé dando aulas para alunos do 7º ano.

No livro Garra, Angela divide suas experiências com o leitor a fim de explicar que a garra (e não apenas o talento ou a genialidade) pode ser um diferencial para a conquista de objetivos pessoais, e que essa habilidade pode ser aprendida e desenvolvida. Seu interesse por saber como se dá o processo de aprendizagem, e por que algumas pessoas perseveram em uma meta, enquanto outras não obtêm bons resultados ou abandonam projetos, orienta uma pesquisa promissora no campo da aprendizagem.

Sua teoria de que a garra é mais eficaz que o talento na busca pelo sucesso joga por terra a tão difundida ideia de que esforço e empenho são importantes. Por meio de estudos, a autora demonstra como perseverança e paixão podem ser os principais combustíveis na corrida por resultados. Duckworth usou em suas pesquisas a rotina alunos, militares e funcionários de grandes empresas, aplicando questionários a aspirantes a cargos e vagas disputadas, avaliando quais deles teriam mais chance de conseguir o posto e mais tarde comparando suas análises com o resultado final da seleção.

Por conta própria, você pode aumentar sua garra “de dentro para fora”: pode cultivar seus interesses; pode adquirir o hábito de praticar todos os dias a superação de dificuldades; pode ligar seu trabalho a um objetivo que vá além de si mesmo; e pode aprender a manter a esperança quando tudo parecer perdido.

Com tantas diferenças entre os estudantes, tantas carências materiais, tantas crenças sobre quem é capaz ou quem está destinado ao fracasso, entender um pouco mais sobre como contribuir para que os jovens tenham chances mais igualitárias de sucesso em seus estudos se torna de grande ajuda para quem atua diretamente com educação. Por mais que saibamos que não existem fórmulas perfeitas sobre como ensinar, é possível aproveitar ideias e resultados das pesquisas que Angela Duckworth mostra em Garra.

Por que os outros são tão importantes? Em primeiro lugar, eles nos dão estímulo e informação essenciais para que gostemos de alguma coisa cada vez mais. E também porque — de maneira mais evidente — o retorno positivo nos faz sentir felizes, competentes e seguros.

O livro é dividido em três partes. A primeira nos ajuda a entender o que a pesquisadora chama de garra e sua relação com o tão idealizado talento. Ela explica que a garra pode ser desenvolvida, diferente do que imaginamos sobre talento, e que para isso bastam investimentos pessoais. Na segunda parte, aprendemos como cultivar a garra internamente. Angela usa vários exemplos de pessoas que desenvolveram a garra, com algumas ideias de trabalho como a prática disciplinada. A autora faz referência a Carol Dweck, que desenvolveu uma teoria muito interessante que talvez seja um dos caminhos de resposta para os questionamentos que Angela coloca. Carol trabalha com a mentalidade de crescimento.

1. Sua inteligência é um elemento básico, e você pouco pode fazer para alterá-la.
2. Você pode aprender coisas novas, mas não pode aumentar sua inteligência.
3. Seja qual for o nível de sua inteligência, você sempre pode modificá-la um pouco.
4. Você sempre pode modificar substancialmente sua inteligência.
Se você concordou com as duas primeiras afirmações e negou as duas últimas, Carol diria que você tem uma mentalidade mais rígida.

No último capítulo, Angela aborda o papel dos educadores para a conquista da garra e dá dicas de como cultivar a garra de fora para dentro. É uma das partes mais impactantes para pessoas que atuam no ensino e na educação.

O que posso fazer para despertar a garra nas pessoas que são importantes para mim? Ouço essa pergunta ao menos uma vez por dia. Às vezes, quem pergunta é um treinador esportivo; outras vezes, é um empreendedor ou o CEO de uma empresa.

Neste capítulo, a autora desenvolve uma teoria bem interessante sobre os perfis de pessoas que têm mais chance de desenvolver ou contribuir para o desenvolvimento de garra. Entre pais e educadores, é comum a dúvida sobre qual é a melhor atitude no momento de orientar jovens em sua jornada de crescimento. Qual seria o melhor perfil, o compassivo ou o exigente? O que vale mais: a cobrança contínua por padrões mais altos após um bom resultado ou um abraço carinhoso depois de uma derrota?

Em Garra, Angela Duckworth foi capaz de reunir histórias, referências e ideias provocadoras sobre tudo o que ouvimos sobre educação, trabalho e realização pessoal. Sua linguagem extremamente didática é capaz de alcançar qualquer pessoa que tenha interesse por conhecimento e aprendizagem. Seu livro não é do tipo que dá as respostas prontas, mas certamente nos incentiva a pensar diferente sobre como aprendemos e como estamos educando.

>> Leia um trecho

 

* Letícia Calhau é professora da área de educação, mestranda e pesquisadora na área de inclusão em educação pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Carioca, nascida no subúrbio do Rio de Janeiro, blogueira e criadora de hortas caseiras.

testeAs mentiras sinceras da literatura

Por Julia Wähmann*

andrew-matusikAndrew Matusik (Inspiração Rene Magritte)

Já faz uns dez anos que li A hora da estrela, da Clarice Lispector. Coincidiu de Carolina, uma grande amiga, ler ao mesmo tempo que eu, e frequentemente nossas conversas giravam em torno de Macabéa, protagonista do livro. Falávamos dela como se fosse real — e de certa forma ela era, afinal estava presente em nossas vidas de muitas maneiras. Mais ou menos na mesma época, conheci uma livraria famosa de Paris que exibia num dos painéis da fachada a seguinte frase, em tradução livre: “O fato é que Tolstói e Dostoiévski são mais reais para mim que meus vizinhos.” Eu poderia dar mais uma porção de exemplos de como a literatura invade cotidianos: a prima que se pergunta o que Atticus Finch (personagem de Harper Lee em O sol é para todos) diria; os amigos que afirmavam morar em Macondo (cidade imaginária de Gabriel García Márquez, em Cem anos de solidão) numa extinta rede social. Se a vida imita a arte, o contrário não é menos incomum, sobretudo no campo literário.

untitledÉ destas confusões entre realidade e invenção que trata Delphine de Vigan em seu novo livro, Baseado em fatos reais, romance premiado e publicado quatro anos após Rien ne s’oppose à la nuit, relato ficcionalizado de sua relação com a mãe bipolar. O ponto de partida desta nova história é, justamente, a “ressaca” após o estrondoso sucesso e a repercussão da obra anterior, em que expôs familiares e relações que, a princípio, deveriam ficar restritas a um âmbito privado. A narradora/personagem de Baseado em fatos reais, também chamada Delphine, passa por uma grave depressão causada pela incapacidade de escrever quando se vê diante de um novo projeto. Fascinada por reality shows em que pessoas reais e comuns ganham contornos fictícios devido a manobras de edição, ela vê neste universo um possível enredo para um novo trabalho. É quando L., que será tratada apenas pela inicial ao longo da narrativa, cruza seu caminho.

L. é uma ghost-writer, ou seja, quem efetivamente escreve textos e livros que são assinados por outra pessoa, normalmente alguém digno de ter sua biografia publicada, como grandes artistas ou políticos. L. é, portanto, a pessoa que mais conhece a vida, a intimidade e os detalhes da celebridade em questão; a pessoa que tem acesso, às vezes irrestrito, aos hábitos de seu objeto; a pessoa que se coloca no lugar do outro para dar voz às suas memórias, e também aos feitos e superações.

L. se aproxima de Delphine e logo se mostra confiável, disponível e sensível ao período turbulento que a escritora enfrenta. Também se revela uma grande crítica das ideias de Delphine para o novo livro, quebrando seus argumentos acerca do valor da ficção que planeja escrever. Para L., os leitores não estão mais interessados em tramas e personagens imaginados e construídos com base em pesquisa: eles querem a “Verdade”, com letra maiúscula. A discussão em torno dessa “Verdade” é o primeiro de alguns embates entre a personagem Delphine e L. Enquanto a escritora afirma que a verdade (com minúscula) não existe, L. defende que apenas ela importa para o leitor, e usa como evidência a crescente produção de obras — no cinema, no teatro, na literatura — que trazem em destaque a informação de serem inspiradas em fatos reais. Enquanto Delphine deseja escrever uma história que soe crível, L. levanta a bandeira da morte da ficção.

De um tempo para cá, a maioria dos autores que escreveram obras que guardam alguma semelhança com suas biografias foram confrontados com a pergunta: seu livro é autobiográfico? O termo “autoficção”, hoje quase um gênero por si só, foi cunhado no fim da década de 1970. Ambas as definições provocam rixas e debates acalorados entre estudiosos e pesquisadores, então a expressão “escritas de si” acena como possível conciliadora, abrangendo as duas classificações. Dentre leitores, jornalistas, entrevistadores e mediadores de conversas, muitos enveredam pela investigação que procura confirmar a veracidade de fatos contados no âmbito da ficção e que coincidem com o que sabemos da vida de seus autores – seja um nome, uma data ou uma cidade. É fácil enxergar possíveis espelhos em livros, e muitos autores tiram proveito dessas interseções, fornecendo pistas escorregadias e atuando como verdadeiros performers de si, o que atiça ainda mais a curiosidade do público. No século XVIII, ao contrário, escritores buscavam uma prosa que representasse o senso comum, um retrato da época, então a individualidade, quando entrava em cena, questionava esse cenário mais amplo de uma “verdade” social.

de-vigan-delphine-2011-nbc-delphine-jouandeauA escritora Delphine De Vigan (Foto: Delphine-Jouandeau)

Delphine De Vigan destrincha todos esses aspectos em Baseado em fatos reais ao longo das conversas da personagem Delphine com L., que começam em tom cordial e logo ganham tintas mais sombrias, um tom que a amizade de ambas também começa a aparentar. L. torna-se cada vez mais obstinada em convencer Delphine a voltar-se para si mesma. A tensão aumenta proporcionalmente à obsessão de L. A certa altura, comecei a me perguntar o que Atticus Finch – aquele personagem lá do começo deste texto – faria diante de uma figura tão engenhosa.

Como leitora, pouco me importa o grau de realidade que eu possa conferir a uma história que me é contada de maneira convincente, com a qual eu estabeleça uma relação de confiança, empatia. Se L. é real ou não, isso não muda o fato de que, enquanto tomava conhecimento de suas características e ações, ela me apavorava em escala galopante, e pude vê-la com todo o espanto que me causava. Mesmo que me provassem por A + B que a história de Delphine é fruto de sua imaginação — ou o contrário —, o caminho já estaria percorrido, e o maior prazer de ler um livro está no virar das páginas, na ânsia pelo próximo capítulo, nas reações que temos diante de cada detalhe que se torna quase palpável. Assim como toda vida pode ser floreada e ligeiramente modificada, seja pela natural seleção do que se escolhe contar ou pelo exagero de certos aspectos dela, toda ficção pode estar impregnada de elementos do real, todo personagem pode ter trejeitos de pessoas que “existem”.

“Tudo que não invento é falso”, diz um verso de Manoel de Barros. Um outro lado dessa imagem está em uma das falas de Delphine no livro, uma citação do escritor francês Jules Renard: “Quando uma verdade tem mais de cinco linhas, é um romance.” Em alguma esfera, tudo é falso; em outra, é tudo verdadeiro. Quando a verdade tem as 256 páginas do romance de Delphine de Vigan, é bom se preparar para passar tardes ao telefone com sua melhor amiga em conversas sobre L.

 

Julia Wähmann é escritora. Em 2015 publicou Diário de Moscou (Megamíni/7 Letras) e André quer transar (Pipoca Press), e em 2016, Cravos (Record). Ela coordena o serviço de curadoria Garimpo Clube do Livro.

testeSilenciar sentimentos implode a alma

Por Pedro Martins*

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Com mais de 200 mil cópias vendidas e milhões de seguidores on-line, o “desenhador de palavras” Pedro Gabriel lançou no mês passado seu terceiro livro, Ilustre Poesia, fechando a trilogia de pré-romance do seu alter ego, Antônio, personagem que há quatro anos vem sendo “escrito, vivido”.

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Frente a uma pilha enorme de pequenos papéis, usados e depois rasgados, Pedro Gabriel, das profundezas de sua alma, deu à luz Antônio, dando corpo às angústias vivalmas: coragem, rancor, liberdade, amor — e à sua ilustre poesia.

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Com o sucesso inusitado nas redes sociais, veio o primeiro livro: Eu me chamo Antônio, uma antologia do início de sua criação, revelando o boêmio apaixonado que era Antônio a discorrer sobre a vida com o pesado traço a nanquim. Após algum tempo, veio o Segundo, quando o personagem sai dos bares em direção ao mundo dos sonhos, enquanto Pedro se aventura timidamente na prosa, valendo-se de parágrafos curtos e isolados. Por fim, entretanto, algumas palavras simplesmente não cabiam mais dentro das fronteiras dos guardanapos. Nem as ilustrações. E, como na primeira vez em que Antônio viu a luz do dia, o poder de encanto de Ilustre Poesia é único.

Se com os dois livros anteriores Pedro Gabriel já havia mudado a concepção de poesia para muitos — especialmente jovens —, algo que acreditavam ser necessariamente acadêmico, chato e distante demais de si mesmos, desta vez fica ainda mais evidente a importância de sermos poetas, ainda que apenas da nossa própria vida.

Ao longo de pouco mais de duzentas páginas, criador, criatura e leitor dialogam uma prosa filosófica sobre a importância de “usar os olhos da imaginação, interagir com a inconsciência e dialogar com o inexplicável”, pois “quem acredita só no que vê não dá espaço à própria poesia”.

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Como o Universo, todos temos buracos negros nas profundezas da alma. Tolo, porém, é aquele que confunde silenciar com exterminar. Como dizia Lavoisier, no auge do século XVIII: “Na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma.” Apesar de serem substantivos abstratos, não seria diferente com os sentimentos: mandá-los para buracos negros não os faz se dissipar. Na vida, basta uma faísca para que eles explodam. Silenciar sentimentos implode a alma. E, para discorrer sobre o assunto, Pedro Gabriel chega a se transformar num metamorfo de profissões.

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Universo, galáxias, planetas, estrelas, o Sol e a Lua. Em “À espera de uma colisão”, primeira parte do livro, Pedro assume o lugar de um ilustre astrônomo. Talvez o de um astronauta, também. E por que não o de um editor de astros?

“No céu poético, a galáxia é o poema; as estrelas são as palavras; os planetas, os versos; os asteroides, as sílabas; e o átomo é a letra.”

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Céu, pássaros, mares, oceanos e o corpo humano. Em “A força de um nó frágil”, capítulo subsequente, o poeta se mostra um talentoso geólogo, oceanógrafo e biólogo refletindo: já que o corpo humano é composto por mais de 70% de água, por que não mergulhar dentro de si mesmo?

“Para muitos, existem cinco oceanos em nosso planeta. A poesia discorda. Ela acredita que, se cada pessoa tem a capacidade de fazer transbordar seus sentidos, o mundo deveria ter, além dos seus grandes mares, mais 7 bilhões de pequenos oceanos.”

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Por fim, a própria Ilustre Poesia — Antônio — nos mostra “O destino das palavras”, personificando sentimentos das angústias anteriores à sua criação, quando era usado para limpar mãos engorduradas e logo após descartado — “ah, se soubessem quanto dói…” —, e à felicidade dos dias atuais, por ter conhecido alguém que mostrasse ao mundo sua capacidade de servir também como tela final para uma obra de arte, e não mais apenas um rascunho.

“Eu me chamo Antônio, mas poderia me chamar Esperança. Eu me chamo Antônio, mas poderia me chamar Saudade. Coragem. Amor. Distância. Na fragilidade da minha pele, qualquer delicadeza deixa marcas.”

E você, como se chama? Já parou para dar voz à sua Ilustre Poesia?

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Pedro Martins, viciado em livros, filmes e séries, descobriu a magia por meio dos escritos de J.K. Rowling aos oito anos. Com muita dedicação, essa paixão o tornou webmaster do Potterish.com e o possibilitou escrever sobre literatura para diversos portais, incluindo o britânico The Guardian. Agora, ele tem mais um lugar onde se aventurar: o blog da Intrínseca.

testePor que visitar Lugar Nenhum

Bem-vindo à Londres de Baixo!

Por Larissa Helena*

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Ilustração de Juliette Arda (Fonte)

Se você está morrendo de vontade de tirar férias e precisa de ideias para uma viagem fantástica, pode parar de procurar: seu próximo destino está aqui! Quer dizer, na livraria mais próxima.

O que dá para garantir: emoção, aventura e surpresas em todas as paradas.

O que não dá para garantir: sua segurança. Ou sua antiga vida de volta.

Acontece que Lugar Nenhum é uma daquelas jornadas sem retorno: depois de passar pelas portas secretas que levam à Londres de Baixo, de conhecer o Mercado Flutuante e descobrir o verdadeiro perigo que se esconde entre o trem e a plataforma do metrô, fica muito, muito difícil voltar à superfície como se nada tivesse acontecido. Mesmo que você se esforce bastante.

Veja o caso de Richard Mayhew. Ele tem um emprego. Um apartamento. Uma noiva. Talvez seja meio esquecido, mas sua vida parece perfeitamente nos eixos: ocasionais visitas indesejadas ao museu para acompanhar sua alma gêmea, cervejas para discutir assuntos burocráticos com os colegas de trabalho… Tudo bem, talvez ele também tenha um coração mole. Mole demais para morar numa capital em que há pedintes em cada esquina, e “se você dá atenção, eles se aproveitam”, como bem lhe lembra a noiva. Mas ele não consegue fazer como todo mundo e simplesmente fingir que não os vê.

Tudo isso é razoavelmente perdoável, até o dia em que uma menina ensanguentada brota de uma parede bem na frente dele, a minutos de um jantar crucial. O que Richard pode fazer senão ajudá-la, contra a vontade da noiva e o próprio bom senso? Para ele, é assim que tudo começa.

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Lugar Nenhum, aliás, também começou como uma espécie de rebeldia. Neil Gaiman era jornalista, já publicara algumas histórias em quadrinhos e começava a realizar seu sonho de escrever ficção para várias plataformas quando foi convidado pela BBC para desenvolver o roteiro para uma série para a TV. Só que muitas de suas ideias foram cortadas ou alteradas para caber no orçamento e no formato do programa e ele resolveu escrever este livro, “para manter a sanidade mental”.

O resultado foi uma espécie de “versão do diretor” (só que, no caso, do roteirista). Controle total: quando uma cena não entrava na série, ia parar no livro, e, ao longo de muitos anos, ele ainda pôde cortar e acrescentar informações, até culminar na edição definitiva, que chega pela primeira vez às prateleiras brasileiras — com direito a uma introdução do autor, um prólogo original e um conto inédito. Além disso, parte do motivo para Neil Gaiman gostar bem mais desta versão é que o texto funciona tanto para os que estão familiarizados com o mapa do metrô de Londres quanto para quem não sabe nada sobre a capital.

Eu era justamente do grupo dos novatos quando tudo começou para mim. Uma adolescente fascinada pela Inglaterra, e também obcecada por ordens cronológicas, por isso Lugar Nenhum foi o primeiro livro do Neil Gaiman que li. Eu esperava embarcar num livro, e acabei numa viagem a Londres. Mas não era bem a Londres que eu sonhava conhecer; aquela era excêntrica, sombria e convidativa, e ao mesmo tempo perigosa e fascinante como uma besta.

Tudo começa com portas.

Tudo começa com portas. (Fonte: BBC)

E ficou retida no meu imaginário de um jeito tão vívido que mais tarde, quando fui de fato a Londres (à de cima, afinal, vocês ainda conseguem ler o que eu escrevo… né?), encarava as estações me perguntando o que haveria ali embaixo, por trás e ao redor, invisível sob o nevoeiro da cidade.

Foi quando entendi a dimensão do que o Gaiman tinha feito. Andando por Londres, é difícil não misturar ficção e realidade, caminhar sem evocar fantasmas de Sherlock Holmes, da Alice ou do Doctor Who pairando sobre a paisagem. Em seu primeiro romance, ele chegou já com o pé na porta, inscrevendo seu nome no rol dos notáveis que adicionaram mais uma camada de significado inteirinha, original e fresca (modo de falar, porque a Londres de Baixo é bolorenta e tem cheiro de esgoto) a uma cidade que já parecia saturada de referências. Gaiman provou que sempre há espaço para mais.

Além de tudo isso, Lugar Nenhum é uma épica fantasia urbana com pitadas de contos de fadas, surpreendentemente adulta e ao mesmo tempo capaz de evocar o sentimento de fascinação infantil de quando fomos apresentados pela primeira vez a histórias fantásticas. Guiados pela história de Richard, conseguimos vislumbres pontuais de um universo de infinitas possibilidades, que se expande para muito além dos limites do livro, na tradição dos clássicos como os de Lewis Carroll ou C. S. Lewis.

No que diz respeito à obra de Gaiman, Lugar Nenhum serve ao mesmo tempo como introdução e relicário. Para quem não conhece outros livros dele, é a oportunidade para desvendar a especialidade do autor: construir um mundo extraordinário curiosamente coerente e sinistramente próximo do nosso, reconhecível através de indícios e que deixa uma impressão clara e duradoura na mente do leitor. Para os que já são fãs do autor, a experiência é gratificante por outros motivos: vasculhando bem, dá para encontrar referências claras a Will Eisner, um humor com gostinho de Douglas Adams e uma infinidade de temas que voltam a aparecer nas histórias de Shadow ou dos Perpétuos, para citar alguns exemplos.

Para mim, quando a Londres de Baixo entrou em cena de novo, muitos anos depois que tudo começou, fiquei tão fascinada quanto da primeira vez. E novamente, na vida real como na história de Richard, foi a cidade de cima que ficou invisível para mim: enquanto eu lia, percorrendo nas páginas os caminhos subterrâneos de Londres, passei reto várias vezes da estação de metrô em que precisava saltar.

>> Leia um trecho de Lugar Nenhum

 

*Larissa Helena teve certeza de que queria trabalhar com literatura há dez anos, quando começou sua pesquisa acadêmica sobre Neil Gaiman. Hoje ela é editora, e já teve o prazer de negociar e editar livros do autor. Também é tradutora e pesquisadora especializada em literatura fantástica ou voltada para o público jovem adulto.

testeA justiça selvagem de Hugh Glass

Por Marcelo Costa*

THE REVENANT

THE REVENANT © 2016 Twentieth Century Fox Film Corporation. All Rights Reserved.

The Revenant, título original de O regresso, romance de Michael Punke que a Intrínseca publica agora no Brasil, diz respeito, segundo o dicionário Michaelis, “a uma pessoa que retorna após longa ausência” ou ainda “àquele que volta do túmulo, um espírito, um fantasma, uma aparição”. Na primeira edição do livro, lançada nos Estados Unidos em 2002, um subtítulo colocava um pouco mais de lenha na fogueira: “A Novel of Revenge”, um romance sobre vingança. Juntando os cacos espalhados até agora já é possível imaginar a trama que conduz a narrativa de O regresso, mas é importante observar que os fatos (verídicos) relatados no romance aconteceram nada menos que dois séculos atrás (193 anos para ser mais exato). Ainda que o sentimento que a palavra “vingança” evoca tenha permanecido imutável durante todos esses anos, o mundo mudou drasticamente — e o ambiente é um personagem coadjuvante de extremo valor nessa história.

Com isso em mente, o cineasta Alejandro González Iñárritu e o diretor de fotografia Emmanuel Lubezki — responsável pelas imagens dos filmes Árvore da Vida (2011), Gravidade (2013) e Birdman (2014), entre outros — capricharam na estética do “personagem coadjuvante”, e se a adaptação cinematográfica (que colocou o livro novamente nas prateleiras) faturou três estatuetas no Globo de Ouro (melhor filme, diretor e ator), é fácil imaginar untitledque a fotografia também tenha destino certo na premiação da Academia. Aliás, O Regresso pode entrar para a história do cinema como o filme que dará a Leonardo DiCaprio seu primeiro Oscar (foi seu terceiro Globo de Ouro de melhor ator — os anteriores haviam sido por O Aviador, em 2005, e O Lobo de Wall Street, em 2014). Mas, ainda que isso aconteça, é importante frisar: esse é mais um caso clássico de livro muito melhor do que o filme. Ou quase isso.
Quase porque, na verdade, livro e filme vêm da mesma fonte, mas são obras distintas, com qualidades particulares. Se o filme tem a força da imagem (Lubezki choca a paisagem à contraluz de Árvore da Vida com os longos planos sequência de Birdman, num resultado arrebatador) e das grandes atuações, o livro é impactante por remeter a um diário romanceado dos pensamentos do personagem Hugh Glass, o homem de currículo invejável que sempre sonhou viver em alto-mar até ser sequestrado por um pirata lendário e ter seu futuro com uma bela mulher nublado. É este homem de coração partido que vagueia nas páginas do livro, perdido em um Novo Mundo, que cria pouco a pouco o mapa que conhecemos hoje, mas que, em 1820 (quando a história real se passa), era apenas um rabisco fruto da memória de vários caçadores.

A trama de O regresso começa no primeiro dia de setembro de 1823, uma segunda-feira sombria, embora, naquela época e no meio do Velho Oeste norte-americano, dias da semana não servissem para muita coisa. Mas, mesmo assim, é esse o dia em que Hugh Glass é abandonado por dois “companheiros” que, não bastasse a traição, ainda levam o que ele tinha de mais precioso: a espingarda e a faca. Nas condições em que se encontrava, um corpo absolutamente detonado, na fina fronteira entre a vida e a morte, após ter sido atacado por um imenso urso-cinzento (que, milagrosamente, ele conseguiu matar — ainda que tenha quase morrido junto), Glass não precisaria mais do armamento, justificaria Fitzgerald, um dos dois homens “escalados” para enterrar o companheiro, dando a ele uma despedida digna.

Colocadas as cartas na mesa, O regresso narra o processo de recuperação solitária do caçador Hugh Glass, que integrava a Companhia de Peles Montanhas Rochosas, após o ataque quase fatal do urso, e seu desejo de vingança, que o faz lutar por sobrevivência, enfrentando índios e o tempo cruel para concluir seus planos. A história verídica atravessou séculos e ganhou ares míticos. O romancista Michael Punke pesquisou a fundo a trajetória do caçador e alerta que o eixo central da trama é exato: o ataque do urso, o pobre homem deixado para trás pelos amigos em péssimas condições e o inevitável desejo de vingança. E o que há de ficção no romance é exatamente o que faz do livro uma obra mais interessante do que o filme: ao acompanhar a saga de recuperação de Hugh Glass, o leitor está confinado em seus pensamentos, e tudo que surge impressiona.

Mais interessante ainda é a recriação de época, algo que o filme compartilha, mas que o livro também exibe com força, pois se trata de hábitos há muito tempo deixados de lado por uma sociedade cada vez mais distante da natureza e dos enfrentamentos tão comuns daquele período. Outro ponto positivo da leitura: Michael Punke aprofunda vários personagens, numa reconstrução histórica que coloca em cena, por exemplo, o pirata corsário francês Jean Lafitte, que aterrorizou o Golfo do México no mesmo período em que Hugh Glass viveu e deixou a península de Galveston em chamas ao partir (a propósito, Nic Pizzolatto, o homem responsável pela série True Detective, escreveu um ótimo romance que se passa em Galveston, também publicado pela Intrínseca).

Você pode não acreditar em espíritos, fantasmas ou aparições, mas é bom ficar de olhos abertos, pois, como frisou o filósofo Francis Bacon em On Revenge, um dos capítulos de seu livro Ensaios, de 1625: “a vingança é uma espécie de justiça selvagem”, incutindo no ser humano uma inteligência crítica que às vezes faz falta. Segundo Bacon, a vingança é uma perversão da lei (o que, por sinal, tem a ver com o final do livro de Punke enquanto diverge de Iñárritu, que acrescenta elementos extras para tornar o ato mais factível). E ainda que Hugh Glass tenha atuado como pirata, sua busca por vingança é mais fruto dos desencontros da vida do que de maldade. Há diferença, mas a perversão da lei é a mesma… ainda hoje.

THE REVENANT

THE REVENANT © 2016 Twentieth Century Fox Film Corporation. All Rights Reserved.

Livro e filme, apesar de tratarem do mesmo tema, vingança, têm conclusões diferentes. Punke tentou ser o mais fiel possível à história real, enquanto Iñárritu apresentou uma história com início, meio e fim — não é à toa que o filme começa exibindo uma batalha anterior à narrativa do livro —, mas ambos criaram o personagem que acreditaram ser o mais plausível. O leitor, por sua vez, tem em mãos um diário de época incrível, retrato de um período histórico pouco explorado e muitas vezes esquecido. O resultado final é uma obra cujo texto pode ser complementado pelas imagens de Iñárritu e que transporta o leitor/espectador para um tempo distante, quando as regras da sociedade eram bem diferentes. Sombrio, agonizante e violento, O regresso utiliza um mundo que não existe mais para falar de um sentimento atemporal.

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Marcelo Costa é editor do site Scream & Yellum dos principais veículos independentes de cultura pop do país. Já passou pelas redações do jornal Notícias Populares, e dos portais Zip.NetUOLTerra e iG, além de ter colaborado com as revistas Billboard BrasilRolling Stone e GQ Brasil, entre outras. Participou da Academia do VMB MTV, do júri do Prêmio Multishow e do júri do Prêmio Bravo. Desde 2012 integra a APCA (Associação Paulista dos Críticos de Arte).