testeO instante antes de tudo

26.03 - clarice freire

O instante antes de tudo. É ali onde moram todos os “ses”. Os conheço tão bem que às vezes penso que moram, na verdade, no sofá da minha sala. Aquele lugar mais surrado, mais usado, o meu favorito. É preciso muita intimidade para sentar ali, ou não conhecer nada das minhas regras. E os meus “ses” as conhecem muito bem.

O instante antes de partir, por exemplo. E se eu não fosse? Se eu não quiser voltar? Moram lá.

Nas cócegas dentro do peito, fica o instante antes do riso aberto. E se eu preferisse me vestir de melancolia fechada em meio a essas risadas tolas, pra você me ver melhor?  Ou prestar atenção em mim, preocupado? Estes “ses” são um tanto carentes.

Na horizontal, está o instante antes do sono. Este é o local de moradia favorito de todos os “ses” do dia inteiro. Aparecem em uma enxurrada, apressados e desorganizados. Se não fosse hora de dormir, seria necessário um grito agudo para se calarem. E se eu tivesse acordado mais cedo? Certamente haveria tempo de terminar todos os meus planos dos “ses” de ontem, antes do sono passado.

Mas e se eu tivesse coragem? E se eu fosse? E se eu soubesse perder? Ah, se eu não temesse sofrer. Eu seria forte. Estes moram no instante antes de assumir. E sumir.

O antes de seguir em frente também é um instante muito procurado pelo mercado imobiliário dos “ses”.  No caso, seria “e se eu desistir” quem pediria moradia. Que bom, neste caso, moradia temporária. Assim esperamos, otimistas.

É ainda um mistério quais são os “ses” inquilinos do instante antes de amar.  São infinitos e tão mutantes que é difícil conhecer o rosto de algum. Ali moram “ses” passageiros, apressados, pesados, maneiros, preguiçosos, ligeiros e todos mudam de ideia, de cara, de vontade. Acredito que o conhecimento deste instante é particular demais. E se eu disser? Pra mim, o instante antes de amar já é amor.

O instante antes. Onde a lógica do presente não faz o menor sentido, porque nele metade de mim é agora e a outra já é amanhã. Lá tudo se decide, lá ainda é possível mudar, lá tudo parece líquido ou gasoso, depende. A pausa do passo para frente ou para trás, aquele segundo congelado naquele filme do Tim Burton, com as pipocas que alguém derrubou flutuando no ar e o mundo parado.  Somente eu me movimento na direção para onde quiser direcionar os pés. E lá vamos nós para o instante depois.

É tão vento esta fração de tempo, quem se lembra do instante antes?

Este lugar dos “ses” e do que poderia ter sido.

Deve ser por isso que ele é um segundo tão fácil

de ser esquecido.

 

testeA ARTEAJUDA

 

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“Para salvar um relacionamento longo da acomodação, podíamos aprender a operar no companheiro a mesma transformação imaginativa que Manet realizou nos aspargos. Deveríamos tentar localizar o bom e o bonito sob as camadas do hábito e da rotina”, explica o filósofo do cotidiano Alain de Botton sobre a pintura Maço de aspargos, deÉdouard Manet, no capítulo “Como fazer o amor durar” de seu novo livro, Arte como terapia.

Botton, em parceria com o historiador da arte John Armstrong, defende que a arte tem uso prático e que uma de suas finalidades é ser um instrumento para ajudar, guiar, incentivar ou consolar o espectador.

Assim, a esperança pode ter a aparência do quadro Dança (II), de Henri Matisse; a dor e a tristeza encontram um lar na peça Fernando Pessoa, de Richard Serra, a sublimação permite que o sofrimento se transforme em beleza, como observa Botton sobre a obra Sioban no meu espelho, de Nan Goldin, que ilustra a homossexualidade feminina, tema incluído no campo da arte apenas recentemente.

 Em uma edição ricamente ilustrada, Arte como terapia discute maneiras de interpretar as produções artísticas. A partir da nova abordagem, não são necessárias muitas informações para entender o sentido de uma obra. A ideia é que a arte ajude a compreender melhor as questões que afligem o dia a dia, quer seja na vida amorosa, na percepção da natureza ou na relação com dinheiro e política. O livro estará nas lojas brasileiras em 1º de novembro de 2014.

testeReno e a Cidade

Soho 1976

Até meados dos anos 1970, em uma época que Nova York vivia um dos piores momentos de sua história, marcado pelos altos índices de criminalidade e desemprego, o bairro do SoHo era apenas reduto de antigas fábricas e grandes galpões, sem infraestrutura para ser habitado. O oposto da luxuosa região do downtown, onde viviam artistas como Andy Warhol e Jasper Johns. Para jovens artistas sem dinheiro, o SoHo era o local perfeito para viver e trabalhar. Disposta a transformar em arte seu fascínio por motocicletas e velocidade, Reno, personagem de Os lança-chamas, decide se mudar para a cidade em 1976.

galpão Soho - estúdio

Galpão transformado em ateliê no SoHo em 1976

Transformados em ateliês e lofts, os galpões do SoHo abrigaram uma geração de artistas que se contrapunham à pop art e que incorporavam elementos da cidade em seus trabalhos, fossem eles dança, performance, instalação ou música. Esses artistas criavam obras politicamente engajadas, feitas de material descartado. Dessa geração se destacaram Laurie Anderson, Gordon Matta-Clark, Trisha Brown, Philip Glass e muitos outros. “Trabalhávamos com frequência nas obras uns dos outros e as fronteiras entre as formas de arte eram tênues. Sabíamos que estávamos criando um movimento completamente novo”, disse Laurie Anderson em 2011, em uma exposição de arte do período.

Tisha Brown

A artista Tisha Brown em performance

Em Nova York, Reno convive com um grupo de artistas da região e se apaixona por Sandro Valera, herdeiro de um império italiano de motocicletas. Quatorze anos mais velho que ela, a influência dele na vida de Reno é grande: ela admite que aprendeu mais sobre arte com Sandro do que na faculdade, em Nevada.

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Em visita à família do namorado na Itália, Reno se vê envolvida com membros de movimentos radicais que tomaram conta daquele país, e uma traição a jogará no submundo da clandestinidade.

Ao questionar o entusiasmo juvenil e suas consequências, Rachel Kushner se lança em uma investigação sobre a mística do feminismo, da arte e do terrorismo. Os lança-chamas é um grande romance de uma escritora de talento e imaginação espetaculares.

testeDesigner da Boa Arte

 Faça boa arte (Capa)

Palavras sobrepostas, em cor gritante, na capa. O texto dança nas páginas, de todos os lados, para qualquer sentido, sem restrições, margens, equilíbrio ou regras, seguindo apenas o fluxo bruto de ideias. Quando os leitores brasileiros abrirem o livro Faça boa arte verão as palavras do famoso discurso de Neil Gaiman proferido a uma turma de formandos da University of The Arts da Filadélfia, em 2012, transpondo os limites do papel e ganhando a liberdade que o próprio autor descreve. Todo e qualquer padrão é rompido em prol da consonância entre o conteúdo do pronunciamento e a identidade do livro.


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Eis a contribuição do icônico designer americano Chip Kidd para o pronunciamento sobre criatividade artística. A decisão de qual artista gráfico daria vida ao discurso não poderia ser mais acertada: assim como Gaiman, Kidd é dono de múltiplos talentos, é escritor, desenhista, cantor e compositor. Trabalhando no mercado editorial desde 1986, o designer já criou mais de 1.500 capas de livros e foi chamado de “rockstar” pelo jornal USA Today. Uma de suas criações mais famosas é a ilustração na logo do filme Parque dos dinossauros.

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testeOs outros livros da criadora de “Destrua este diário”

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A artista canadense Keri Smith, autora de Destrua este diário, ministra palestras e aulas, é ilustradora de jornais como The Washington Post e The New York Times e publica livros que são verdadeiras obras de arte e fazem com que os leitores sejam peças fundamentais no processo de criação.

Conheça alguns desses títulos:

Finish This Book: após encontrar algumas páginas abandonadas em um parque, Keri resolveu juntá-las para tentar entender melhor o que significava aquilo. Para ajudá-la a desvendar o mistério, ela passa a tarefa adiante e dá ao leitor a missão de encaixar as peças, conduzindo-o por um treinamento inteligente e secreto.

How to Be an Explorer of the World: trata-se de um guia que encoraja o leitor a explorar o mundo como artista/cientista. Todos os detalhes do dia a dia são observados e documentados, e é importante agir como se o mundo à nossa volta fosse completamente novo. É um livro de descobertas!

Living Out Loud: relembrando os momentos de infância, a obra faz o leitor enxergar a vida com admiração. No livro é encontrada a receita para uma vida alegre e criativa, incluindo jogos, projetos, atividades e tarefas lúdicas, que nos envolvem numa aventura emocionante e inspiradora.

The Guerilla Art Kit: segundo Keri, pequenos atos artísticos podem começar uma revolução. Nesse livro, o leitor liberta a sua criatividade, que pode ser expressada tanto em um simples pedaço de papel quanto em um muro todo branquinho. Na obra é encontrado tudo que a pessoa precisa para divulgar a sua mensagem para o mundo.

This Is Not a Book: esse é um livro curioso, envolvente e divertido, um guia que convida o leitor a exercitar a criatividade de várias maneiras diferentes.

E você, diga aqui nos comentários qual outro título da autora gostaria que publicássemos?

teste[Escrevo para você que me ensinou a escrever]

Ensinar liberta.

Ensinar liberta.

Você me ensinou a escrever. E a ler. E eu escrevia, em letras minúsculas. E eu lia, em voz baixa. Sempre fui tímido, você sabe. Eu só gostava de ouvir, de ouvir, de ouvir. Acho que repetia duas ou três palavras apenas, não mais. Talvez “bonjour, maman”, talvez “nez”, talvez “bouche”, talvez “rouge”. Não sei.

Só sei que, ali, em casa, era a melhor sala de aula do mundo. Era impossível chegar atrasado, afinal, eu dormia a dois quartos da mesa de estudo. Eu nunca era mandado para a sala do diretor por um motivo simples: não havia diretor. Não havia a necessidade de usar uniforme, mas eu andava sempre impecável, o primeiro botão da camisa arrebentado, os cadarços ainda por fazer e o cabelo, bagunçado como se tivesse sido penteado por mãozinhas nervosas (até hoje ele continua assim, descabelado). Mesmo assim, você dizia que eu era o menino mais lindo da sala. E tinha razão. Não havia concorrência. Não havia também os meus aliados para jogar bolinhas de papel molhado na nuca das inimigas da fileira da frente. Aliás, nem havia a menina mais bonita da turma. Minto. Você era a menina mais bonita da turma.

Eu lembro que eu acordava ainda com sono, tomava um copão de leite e sentava ao seu lado. Você, como mãe e não como professora, naquele momento, pedia gentilmente para eu me levantar e escovar os dentes antes do início da aula. E era exatamente o que eu fazia. E voltava, et voilá, a aula podia, enfim, começar. Você dizia coisas que agora eu não vou conseguir lembrar. Acho que era o princípio das coisas: a letra A, o número 0 – que eu achava tão parecido com a barriga do vovô. Eu, mesmo sem saber contar, só contava as horas para o recreio. Não que as aulas fossem infernais, mas naquela idade cada segundo livre tem um quê de paraíso.

No intervalo, eu corria para a rua vazia e imitava aviões: meus braços, pequenos, eram as asas, pequenas. Talvez um ultraleve. Mas ele ia longe, longe, longe, juro! Eu podia tocar o céu e sentir a fofura das nuvens branquinhas, branquinhas, branquinhas. O motor era som que saía da minha boca que ainda aprendia as primeiras letras, os primeiros números. Eu, agora um pássaro metálico, espantava sem medo os lagartos que bronzeavam nas pedras do jardim. Mas eles não se intimidavam. E era eu quem acabava fugindo deles, correndo, voando, com as mesmas pequenas asas, com o mesmo motorzinho bucal. Graças a Deus, Deus não dá asa a lagartos. E eu conseguia escapar e pousar, são e salvo, de novo na minha pequena cadeira com duas almofadas: uma laranja com estampas de máscaras africanas e a outra de uma cor que eu não lembro, talvez invisível. Sim, quando se é criança, o invisível é uma cor tão bonita. Talvez ela tivesse a cor e o formato da minha imaginação. Mas era confortável, não tão confortável quando seu colo, mãe. Mas era confortável.

Hoje, eu aprendi a ler e a escrever. Sou um homem que pode exigir alguma liberdade, mesmo ilusória. E essa liberdade que tanto procuro ainda precisa daquelas pequenas asas para voar, voar, voar para longe e continuar do seu lado, naquela mesma sala de aula, sentado naquela mesma pequena cadeira confortável com duas almofadas, correndo naquele mesmo imenso jardim, espantando aqueles mesmos imensos lagartos, imitando aqueles mesmos pequeninos aviões, querendo alcançar aquele mesmo céu e tocar naquelas nuvens idênticas, fofas, para escrever com aquelas mesmas pequenas mãos: talvez “bonjour, maman”, talvez “nez”, talvez “bouche”, talvez “rouge”, mas, principalmente, obrigado.
(Ela se chama Carmen. Hoje é o Dia do Professor. E foi ela quem me ensinou a ler e a escrever. Obrigado, mãe.)