testeA PF deve focar só em corrupção?

 Antônio Cláudio Mariz de Oliveira

O advogado Antônio Cláudio Mariz de Oliveira (fonte)

O jornal Folha de S.Paulo dedica sua manchete de hoje a uma entrevista com o advogado Antônio Cláudio Mariz de Oliveira, que chegou a ser cotado para assumir o ministério da Justiça num possível governo de Michel Temer, mas que já foi “descartado” por suas declarações a respeito da Lava Jato.

Numa de suas respostas, Oliveira é taxativo. Diz que “a Polícia Federal precisa ter outros focos paralelos à corrupção”, que “o crime organizado está tomando conta do país”, e assim por diante.

Há quem veja nesse posicionamento uma perigosa mensagem subliminar de esvaziamento da Operação Lava Jato. Pessoalmente, espero que não. Mas, na posição de quem estuda crimes contra a arte há cinco anos, vejo na entrevista uma brecha para os brasileiros finalmente cobrarem mais atenção, por exemplo, à investigação do roubo do Museu da Chácara do Céu, ocorrido no Rio de Janeiro em fevereiro de 2006.

Há dez anos — dez! — o inquérito está aberto, sofrendo sucessivas ampliações de prazo. Há quem pense que esse é um assunto menor, menos importante, algo que não mereceria destaque no horizonte de um eventual novo ministro. Lembro, no entanto, que roubo de arte movimenta 6 bilhões de dólares por ano em todo o mundo e que só perde em dimensão para o tráfico de drogas e armas.

Não me move o debate sobre se haverá ou não um novo governo, ou se Oliveira ocuparia ou não o cargo de ministro da Justiça. O que me move é lutar para que a investigação do maior roubo de arte do país — um dos dez maiores do mundo, segundo o FBI — avance. Cobre você também.

Para saber mais sobre essa história, leia um trecho de A arte do descaso.

testeRecomeçar

Recomeçar é uma arte, tipo aqueles quadros que não entendemos direito, mas que não conseguimos parar de contemplar. A cada olhar, um novo traço, como se o pintor o tivesse colocado em tempo real, diante de nossos próprios olhos, tornando aquela uma nova história a ser admirada.

Recomeçamos todos os dias e nunca somos os mesmos do dia anterior, pois estamos mais vividos, rodados e calejados. Recomeço não existe sem, e rima com, tropeço. “Tropeçar de novo e contar comigo: vai valer a pena ter amanhecido”, cantaria Ivan Lins. Recomeçar é se dar a chance de tropeçar quantas vezes forem necessárias. “Existe um milagre em cada recomeço”, disse Herman Hesse. Roubo do mestre a ideia: existe um milagre em cada tropeço.

Recomeçamos projetos que eram para ontem ou anteontem. Ideias que chegaram espetaculares e inovadoras, mas que pararam na falta de um recurso natural chamado vontade. Recomeçamos, todos os anos, os planos para uma vida inteira. Esquecemo-nos de que a vida inteira do ano passado era maior do que a vida inteira que hoje nos resta. E o plano perde em relevância.

Recomeçamos a malhação, a dieta, o sonho, a reforma da casa, o estudo, a ajuda aos necessitados, a conversa que ficou no ar, a visita aos pais, o controle dos gastos, o telefonema não atendido, a viagem ao redor do mundo, o trabalho dos sonhos.

Recomeçamos histórias de amor, o maior de todos os desafios. Amar é recomeçar, reaprender e renovar. É tropeçar.

Recomeçar é uma arte. Ser um artista do recomeço, aquele pintor que coloca o traço diante da plateia: isso é viver.

testeRoubo de arte também é coisa para jovem

fsharetweetgpluspin
fsharetweetgpluspin
B

“Le jardin du Luxembourg”, 1905, Henri Matisse.

Uma das informações que mais me chocaram desde que comecei a trabalhar em A arte do descaso apareceu num livro de arte francês, desses muito bem acabados. Publicado em 2009, Le musée invisible: les chefs-d’oeuvres volé traz uma contabilidade assustadora das obras de arte roubadas por aí. São pelo menos 551 Picassos, 43 Van Goghs, 174 Rembrandts, 209 Renoirs, um Vermeer, um Caravaggio, um Cézanne e um El Greco. Isso citando apenas alguns dos pintores mais famosos. O livro crava: o museu mais completo do mundo seria o das obras de arte desaparecidas. Imagine a beleza que nossos olhos não alcançam…

Enganam-se aqueles que pensam que roubo de arte é um crime fora de moda. Eles estão em plena ascensão. Segundo dados oficiais dos Carabinieri, a força policial mais bem preparada do mundo para defender o patrimônio histórico e cultural, só na Itália são feitos, todos os anos, mais de 20 mil registros desse tipo de crime. No mundo, são cerca de 50 mil.

A taxa de subnotificação de roubos de arte ainda é altíssima porque, em geral, as pessoas não acreditam que a polícia será capaz de desvendar um caso e reencontrar o que foi roubado. Sempre há homicídios em aberto esperando solução. Quem se preocuparia com uma “simples pintura” diante disso?

Faço aqui um convite. Navegue pela galeria de imagens a seguir e pense no prazer de ver essas obras — todas elas desaparecidas — expostas por aí.

1

Picture 1 of 14

“La nativité avec saint François et saint Laurent”, Caravaggio, 1609 Roubado em 17 de outubro de 1969 de um convento franciscano em Palermo, na Itália.

testeQuem foi Castro Maya

Castro Maya (fonte)

Castro Maya (fonte)

O Museu da Chácara do Céu é um dos lugares mais bonitos do Rio de Janeiro. Fica no alto de Santa Teresa, num terreno de 25 mil metros quadrados com paisagismo assinado por Roberto Burle Marx. De seu pátio, a vista da baía de Guanabara é deslumbrante. Em linha reta, no horizonte ao longe, o Pão de Açúcar fica à direita; a Ponte Rio-Niterói, à esquerda; e, no centro, todo o vaivém de aviões do Aeroporto Santos Dumont. Graças ao bambuzal, que funciona como uma espécie de isolante acústico, o silêncio por ali é absoluto.

A Chácara do Céu, antes de ser um museu federal — e palco do maior roubo de arte do país até hoje —, serviu de residência ao empresário e mecenas franco-brasileiro Raymundo Ottoni de Castro Maya, uma figura igualmente deslumbrante e que também caiu no mais profundo esquecimento. Presto aqui minha homenagem.

Castro Maya nasceu em 1894, em Paris, e foi um dos milionários mais conhecidos do Rio de Janeiro na década de 1920. Era filho do diplomata maranhense Raymundo de Castro Maya e da mineira Theodozia Ottoni e passou os primeiros anos de vida na França. Em 1905, mudou-se para o Rio de Janeiro, ingressou num colégio jesuíta da Zona Sul da cidade (o Santo Inácio, em Botafogo) e, até ficar adulto, morou numa casa erguida no Alto da Boa Vista e batizada de Mansão do Açude.

Castro Maya se formou em direito, mas, apesar do título de bacharel, viveu a vida como empresário. Sustentava todo o seu luxo e os seus gastos vendendo tecidos e óleos que suas empresas fabricavam para uso doméstico e industrial. Segundo anotações deixadas por amigos, Castro Maya era tão vanguardista que pode ter sido a primeira pessoa a praticar esqui aquático no Brasil. Cultivava um gosto especial pela pescaria. Tinha um barco, com o qual gostava de zarpar com amigos em busca de peixes, mas não os comia em hipótese alguma. Também tinha paixão por organizar festas e cuidava com rigor de absolutamente todos os detalhes de cada uma.

Enquanto levantava dados sobre ele para A arte do descaso, encontrei alguns artigos de jornal interessantíssimos. Num deles, publicado no Diário da Noite, o jornalista contava a soirée do dia 8 de janeiro de 1931. Castro Maya e os amigos haviam se reunido para celebrar o Dia dos Reis Magos. O evento foi suntuoso, registrou o jornalista Marcos André: “As mesas […] estavam cobertas de lírios, com uma preciosa peça de prata antiga e um abajur. Perto da fonte, havia um tablado para danças, e a iluminação discreta permitia aos convidados admirar o luar.” No ar, notas de jazz. Nos lábios, champanhe. “Dentro do bolo de reis, a senhorita Helena Guimarães teve a grande sorte de encontrar uma linda pulseira de ouro e platina. Foi aclamada la reine de la soirée.”

Na minha opinião, a maior contribuição de Castro Maya para o Brasil foi o acervo de 22 mil obras de arte, pinturas, esculturas, azulejos, mobílias, pratarias, documentos e livros que ele reuniu e que hoje se dividem entre a Chácara do Céu, atacada em fevereiro de 2006, e o Museu do Açude, no Alto da Boa Vista. Além dos dois Picassos, do Matisse, do Dalí e do Monet roubados há dez anos, a coleção de Castro Maya reúne um material incrível.

É nela que está a maior coleção nacional de obras do francês Jean-Baptiste Debret, que esteve por aqui na primeira metade do século XIX e, com seu traço inigualável, retratou a vida no Brasil daquele tempo. São 451 aquarelas, 58 desenhos e 29 gravuras — material considerado um tesouro da história nacional.

Na coleção da Chácara do Céu há também um grande número de obras do pintor paulista Candido Portinari, que tem trabalhos expostos até no edifício que abriga a Organização das Nações Unidas (ONU), em Nova York. Portinari era amigo de Castro Maya e chegou a fazer seu autorretrato.

E o acervo vai além. Ao longo de sua vida, Castro Maya montou uma coleção com obras de pintores como Di Cavalcanti, Alfredo Volpi, Iberê Camargo, Antônio Bandeira e Manabu Mabe, além de Modigliani, Georges Seurat, Edgar Degas e Joan Miró. Também adquiriu e manteve louças chinesas, pratarias e móveis setecentistas. Hoje esses objetos estão espalhados pelos três andares da mansão de Santa Teresa. Parece que Castro Maya ainda vive por ali.

testeO roubo a museu mais badalado do mundo

The empty frame from which thieves cut Rembrandt's The Storm on the Sea of Galilee remains on display at the Isabella Stewart Gardner Museum in Boston. The painting was one of 13 works stolen from the museum in 1990

O roubo do Isabella Stewart Gardner Museum, em Boston. (fonte)

Se você curte museus e obras de arte, se é admirador de Rembrandt, certamente já ouviu falar do roubo ao Isabella Steward Gardner Museum, em Boston, nos Estados Unidos. O que talvez você não saiba é que a lista de semelhanças entre esse caso e o do Museu da Chácara do Céu, no Rio de Janeiro, é gigantesca.

Na noite de 18 de março de 1990, na véspera do feriado de Saint Patrick’s, um dos mais populares de Boston, uma dupla de ladrões chegou ao Isabella Stewart Gardner Museum e, fazendo-se passar por policiais, convenceu os vigias a abrir as portas da instituição. Os homens alegaram que tinham recebido um telefonema informando que criminosos em fuga haviam entrado ali em busca de refúgio. Ao cruzarem os portões do museu, os assaltantes renderam os seguranças, selaram seus lábios com fitas adesivas e os algemaram aos canos do porão, um local sem qualquer contato com o mundo exterior. Naquele dia, o museu perdeu treze obras de relevância mundial. Entre elas, três Rembrandts, um dos 36 Vermeers existentes em todo o planeta e um belíssimo Manet. Desde 1990, o crime é investigado por FBI, Scotland Yard e um batalhão de detetives particulares.

O roubo da Chácara do Céu também aconteceu na véspera de um feriado, na sexta-feira antes do Carnaval. Os vigias do museu carioca também foram facilmente rendidos e encurralados num ambiente fechado. Na Chácara do Céu, ficaram numa salinha de telefone sem janelas. As duas coleções atacadas foram montadas por mecenas que decidiram deixar seus acervos para usufruto público. Tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos, os bandidos deixaram para trás peças que eram tão ou mais valiosas do que as roubadas. E, por fim, em ambos os crimes a investigação continua aberta, sem nenhuma pista.

Agora as diferenças… Enquanto o museu dos Estados Unidos oferece uma recompensa de US$ 5 milhões por informações que levem à recuperação das obras de arte, a entidade brasileira — junto com o Ministério da Cultura — anunciou em 2006 uma recompensa de R$ 10 mil. Enquanto nos Estados Unidos o assunto é relembrado pela imprensa a cada aniversário, no Brasil foi totalmente esquecido. Por fim, enquanto nos Estados Unidos o roubo do Isabella Steward Gardner Museum já rendeu pelo menos cinco livros, no Brasil só há um: A arte do descaso.

testeO detetive que recuperou “O grito”

Grito 1

O grito, de Edvard Munch (fonte)

Charles Hill, o homem que recuperou “O grito”, de Edvard Munch, é um inglês corpulento, de rosto quadrado e franja ondulada. Em 2013, tomamos um café no sofisticado restaurante do The Wallace Collection, um museu de arte britânica que guarda, em suas 25 galerias, pinturas, mobílias e porcelanas do século XVIII. Hill relembrou sua carreira, esmiuçou o dia a dia do trabalho de detetive de arte e falou sobre suas maiores conquistas.

Em fevereiro de 1994, dois criminosos quebraram a janela do primeiro andar da National Gallery de Oslo, na Noruega, e, numa ação que durou apenas cinquenta segundos, entraram, arrancaram “O grito” da parede e deixaram no local um bilhete sarcástico em que se lia “Thanks for the poor security” (Obrigado pela segurança precária). Avaliada em US$ 72 milhões, a pintura que mostra um homem com as duas mãos ao redor do rosto, gritando de pavor, estava pendurada por um único fio, bem ao lado da janela, e não dispunha de nenhuma conexão com o sistema de alarme do museu. Desesperada com o ataque, a polícia norueguesa pediu ajuda à Scotland Yard, onde Hill trabalhava, e ele foi convidado a entrar em ação.

O primeiro passo de Hill foi elaborar um disfarce. O inglês encarnou Christopher Charles Roberts, um americano que dizia ser funcionário de alto escalão do J. Paul Getty Museum, uma das mais importantes instituições culturais da Califórnia. Na história fictícia armada por Hill, Roberts estaria disposto a pagar um pomposo resgate para que a obra-prima de Munch fosse devolvida a Oslo e, em seguida, exposta nos Estados Unidos. Hill fez com que a informação circulasse nos becos escuros da criminalidade europeia e esperou.

Enquanto isso, caprichou nos detalhes para dar vida a Roberts. Passou até a usar pasta de dentes e creme de barbear americanos. Quando me contou isso, eu ri, mas ele se defendeu:

— Um marchand californiano não pode marcar um encontro com um criminoso em seu quarto de hotel e ter no banheiro uma pasta de dentes e um creme de barbear tipicamente ingleses. O personagem tem que ser americano do início ao fim, e isso não é uma bobagem. É uma questão de segurança.

Três meses depois, Hill já havia se aproximado do grupo de ladrões e chegou à casa de Oslo onde os criminosos guardavam a obra roubada. Teve poucos segundo para ter certeza de que aquele “O grito” não era falso. Só conseguiu isso porque havia estudado absolutamente tudo sobre a obra e sabia, por exemplo, que ela fora pichada anos antes e levava consigo uma frase quase invisível: “Can only have been painted by a madman” (Isso só pode ter sido pintado por um louco). Horas mais tarde, seguindo instruções do detetive, a polícia norueguesa cercou os criminosos e prendeu a quadrilha em flagrante.

testeUm helicóptero, um submarino e 298 agentes

Coluna Cristina

O esquadrão Tutela Patrimonio Culturale (TPC), a maior força de combate a crimes contra a arte em todo o mundo. (fonte)

“A única coisa que une uma nação é sua cultura. Protegê-la é o mesmo que proteger a nação.” Se você tivesse que adivinhar o autor dessa frase, em quem apostaria? Um curador? Um historiador de arte? Um colecionador? Para a surpresa de boa parte dos brasileiros, ouvi essa afirmação da boca de um policial m-i-l-i-t-a-r: o coronel italiano Giovani Pastore, um carabinieri setentão que, por mais de treze anos, comandou o esquadrão Tutela Patrimonio Culturale (TPC), a maior força de combate a crimes contra a arte em todo o mundo.

Em junho de 2013, enquanto apurava material para o livro A arte do descaso, encontrei Pastore em Roma. Estivemos juntos por algumas horas, passeamos pela cidade, e ele me levou à sede do TPC, um palácio de paredes amarelas que não costuma receber turistas, muito menos jornalistas.

Fundado pela Polícia Militar em 1969 e ligado diretamente ao Ministério da Cultura, a única instância a que responde hoje em dia, o TPC tem em seus quadros nada menos do que 298 agentes distribuídos por doze unidades regionais. Todos eles passam por cursos e são treinados para identificar peças roubadas ou falsificadas. Como se não bastasse, ainda dispõem de um helicóptero e um submarino ultramodernos, que lhes permite realizar operações de campo semelhantes às de Hollywood.

A principal ferramenta de trabalho do TPC é, no entanto, uma gigantesca base de dados virtual instituída por lei, em 2004, na gestão do presidente Carlo Ciampi. É o Leonardo. Só os carabinieri têm acesso a ela:

— Temos aqui mais de 3 milhões de registros (de peças desaparecidas), 530 mil com fotos — disse Pastore, de peito inflado, mostrando-me a tela de um computador do TPC. — O banco de dados do FBI tem poucos milhares de registros. O do Art Loss Register, que atua de forma privada no Reino Unido, cerca de 400 mil. Estamos muito à frente.

“Marine” (de Monet), “Les deux balcons” (de Dalí), “La danse” (de Picasso) e “Le jardin du Luxembourg” (de Matisse), pinturas roubadas do Museu da Chácara do Céu, no Rio de Janeiro, em fevereiro de 2006, estão lá. Quando vi, não acreditei.

— O Leonardo está conectado à base de dados da Interpol — explicou Pastore. — Se essas obras que você busca aparecem aqui é porque a Interpol foi avisada e fez todo o processo de registro da forma como estabelecemos.

O trabalho diário dos agentes do TPC consiste em comparar os mais diversos catálogos de leilão, de feiras de arte e de exposições em geral com os registros do Leonardo. Quando os policiais fazem um cruzamento, muito mais comum do que podemos imaginar, cortam a cidade às pressas e dão início à investigação.

Pastore já foi chamado para ministrar aulas sobre como montar uma equipe policial especializada no combate ao roubo de arte em Cuba, Equador, Colômbia, México, Rússia, Canadá e Croácia. Jamais foi convidado para vir ao Brasil.

Em suas palavras, o primeiro passo para conseguir algo assim é “que o poder público queira isso”.

— É o poder público que, por lei, define o que é o patrimônio cultural de um país e estabelece as punições aos que agirem contra ele. Também é o poder público que tem os instrumentos necessários para criar e equipar uma unidade voltada para esse assunto. É ele, por fim, que fixa as linhas mestras do trabalho policial. Então o primeiro passo (da criação de uma força capacitada como o TPC) é convencer o governo. Depois, o Congresso.

A boa notícia diante de tudo isso é que, ainda de olho no Leonardo, Pastore prometeu:

— Se algum dia essas pinturas forem vistas na Itália, voltarão para o Rio imediatamente.

testeQuem rouba obras de arte?

Desde que lancei A arte do descaso, escuto de amigos e leitores uma mesma pergunta: “Mas, afinal, quem rouba arte?”

A.J.G. Tijhuis é um advogado holandês que dá aula de criminologia na VU University Amsterdam. É um dos membros fundadores da Association for Research into Crimes against Art (Arca), think-tank que tanto me ajudou na investigação do meu primeiro livro. Tijhuis tem um estudo recente intitulado “Who is Stealing all Those Paintings?”, no qual tenta responder a essa pergunta que todo mundo se faz.

A pesquisa de Tijhuis consiste na análise de cinquenta casos de roubo de arte que foram solucionados na Europa entre 1960 e 2003. Quando iniciou seu trabalho, o objetivo do professor era encontrar um traço em comum entre todos os criminosos, mas ele acabou detectando sete perfis possíveis.

Ao contrário do que se possa imaginar, o número de casos do tipo Dr. No, que envolve um milionário interessado em arte, é pífio. Tijhuis encontrou apenas um, e quem estuda o tema a sério luta para derrubar esse mito de que roubo de arte é algo patrocinado por um grande colecionador milionário. Contra nós, no entanto, está Hollywood, com filmes como 007 contra o satânico Dr. No (1962) e Thomas Crown: a arte do crime (1999), além de ícones da literatura, como Arsène Lupin.

O segundo perfil de ladrão detectado por Tijhuis é bem mundano: cleptomaníacos. Nele estão pessoas que roubam por impulso e pelo simples prazer de fazê-lo. Não há nesse grupo interesse de revender as peças ou obter lucro. A graça é outra.

O terceiro tipo de criminoso revelado por Tijhuis apareceu em 14% dos casos analisados. É o dos narcotraficantes ou criminosos que normalmente atuam em outro setor e que, em determinado momento, resolvem roubar arte. As obras de arte levadas por esses indivíduos não são vistas por eles como bens históricos ou culturais; servem como moeda de troca em negociações travadas no mercado, no modelo de escambo. Há registros policiais de arte roubada sendo trocada por carregamentos de cocaína, heroína e até de plutônio, elemento químico utilizado na fabricação da bomba atômica.

O quarto perfil é aquele que rouba para marcar uma posição política. Em 1974, o IRA roubou da Kenwood House, em Londres, o quadro “The Guitar Player” (A violinista), de Johannes Vermeer. Em troca, exigiu a libertação de diversos integrantes do grupo presos.

O quinto tipo de ladrão é o funcionário da entidade vitimada. Em seu estudo, Tijhuis cita um levantamento feito pelo FBI, em 1998, que conclui que 83% dos casos de roubo de arte por eles solucionados tinham contado com o envolvimento criminoso de empregados da instituição-alvo. Os funcionários geralmente facilitam o acesso dos bandidos em troca de vantagem econômica.

O sexto perfil traçado pelo professor é o do ladrão comum, aquele que não tem qualquer interesse em arte e rouba de tudo. Nessa categoria, enquadram-se os endividados e os viciados em drogas, que precisam fazer dinheiro a qualquer custo. Há casos incríveis que ilustram esse tipo de ladrão. Entre eles o roubo de uma estátua de bronze de Henry Moore que pesava duas toneladas e que foi roubada para ser derretida. Os ladrões queriam seu bronze.

Por fim, o último tipo de ladrão é o mais popular de todos. Com onze exemplos na mostra de cinquenta, refere-se ao sequestrador de obra de arte. Em A arte do descaso explico com detalhes o que os especialistas sugerem que seja feito frente a um pedido de recompensa.

testePrecisamos falar sobre roubo de arte

“Com tanto assunto para você escrever por aí — corrupção, assassinatos, tráfico de drogas, crise econômica — você foi escolher logo roubo de arte?” Foi assim, diante de um comentário ácido sobre o que viria a ser A arte do descaso, que, em 2011, tive a comprovação definitiva da importância daquilo que tanto digitava em meu computador. No Brasil, pouco se sabe — e pouquíssimo se estuda — sobre roubo de arte. Padecemos de uma ignorância que nos compromete. Roubo de arte é um tipo de crime que gira cerca de US$ 6 bilhões por ano em todo o mundo. Só perde em lucratividade para o narcotráfico e o comércio ilegal de armas. Essas estimativas — tidas como conservadoras — não são minhas, mas do Federal Bureau of Investigation (FBI). Não é hora de prestarmos mais atenção ao assunto?

artedodescasograndeA arte do descaso, minha estreia no mercado editorial, pela Intrínseca, reconta minuto a minuto o maior roubo de arte do Brasil. Trata-se do ataque ao Museu da Chácara do Céu, entidade administrada pelo Ministério da Cultura e situada no bairro carioca de Santa Teresa, em fevereiro de 2006. Há dez anos, o caso aparece na lista dos dez maiores crimes cometidos contra a arte em todo o mundo. É o único latino-americano no ranking disponível no site do FBI para quem estiver disposto a conferir. Mas nós, brasileiros, levamos uma década ignorando isso.

Foi no primeiro semestre de 2011, quando o crime completava cinco anos, que resolvi revisitá-lo. Na época, trabalhava como repórter de cultura do jornal O Globo, no Rio de Janeiro, e me causava grande desconforto saber que as tentativas para elucidar o caso haviam sido frustradas. Não me parecia razoável o nível de descaso com o fato de que uma coleção de arte pública perdera para o crime dois Picassos, um Matisse, um Dalí e um Monet, então avaliados em US$ 10 milhões.

Também me causava certa vergonha ler reportagens que apontavam nosso país como um dos territórios mais propícios à ação de quadrilhas que roubam arte. Em 2007, um estudo da empresa americana RCI-First, especializada em análise e gestão de riscos e em contraespionagem, fez circular pela imprensa nacional, com certo alarde, a informação de que o Brasil ficava em quarto lugar na lista de países com mais roubos desse tipo. Entre 1995 e 2007, afirmava o estudo, ao menos 934 peças tombadas haviam sido furtadas, sendo que apenas oitenta delas tinham sido anteriormente catalogadas. Dois terços desse patrimônio, pontuava a análise, jamais foram sequer fotografados.

Debrucei-me sobre os três volumes e as mais de 700 páginas do inquérito referente ao roubo da Chácara do Céu — que segue aberto. E não demorou muito para que eu percebesse que A arte do descaso seria um livro para mostrar por que o Brasil não avança na investigação. Convido você para essa aventura. A partir de agora, todos atrás de “Marine” (Monet), “Les deux balcons” (Dalí), “La danse” (Picasso) e “Le jardin du Luxembourg” (Matisse)!

teste[SITUAÇÃO CRÍTICA]

IMG_20150630_163613 (2)

Um pugilista que não aguenta um soco não deve subir ao ringue. Um marujo que não suporta uma tempestade não deve desbravar o mar. Da mesma forma, um autor que não consegue lidar com a crítica não deve publicar sua obra. Alguns poetas parecem intocáveis. Pior: alguns poetas julgam suas poesias inquestionáveis, o suprassumo da beleza lírica, o ápice da perfeição métrica, o topo do que se pode escrever em matéria de plasticidade. Quando a crítica pega um pouco mais pesado, esse poeta-intocável se torna leviano. Toda a delicadeza dos seus versos vira raiva. Na minha opinião — e não na minha crítica —, são meninos mimados que deixaram a barba crescer e o cabelo branco escurecer o bom senso. Isso quando ainda têm cabelo…

Se você não quer dar a cara (ou o poema) a tapa, por favor, não apareça, não poste — assim não há quem não goste! Publique sua genialidade na opção SOMENTE EU. Sim, caros amigos, há essa opção ególatra nas redes sociais, apesar de eu não enxergar sentido nisso. Uma rede social para socializar com você mesmo? #WTF! Ninguém merece seu chilique pós-crítica. Somos maduros ou não? Um autor que não encara com humildade uma crítica deve engavetar definitivamente seus escritos. Mas uma coisa garanto: a gaveta também pode reservar duras palavras, meu nobre poeta.

Uma crítica é uma opinião madura, bem planejada, estruturada e embasada. E não simplesmente um achismo jogado ao vento, ao blog ou ao jornal. A imagem que me vem à cabeça é a da construção de uma casa. A casa, como metáfora da obra realizada, só pode se dizer finalizada quando o artista (arquiteto?) entende cada elemento que a sustenta. A crítica é um desses elementos fundamentais para o nosso crescimento. Sem crítica, a casa (a gente) não se sustenta. Ela sobe, sobe, sobe, sobe e, sempre inacabada, desmorona com facilidade.

A crítica é o que nos dá resistência para aguentar um soco, suportar uma tempestade. A crítica não é o soco. Muito menos a tempestade, prezado poeta. Muitas vezes, é por ela que abrimos a gaveta, entramos no mar e criamos músculos para encarar o oponente no ringue. O crítico não é nosso oponente. Ele é, muitas vezes, nosso técnico. Talvez por julgá-lo adversário, o poeta-intocável se afoga e é nocauteado. O papel do crítico não é dar um tapinha no ombro, inventar qualidades… Tem que pegar pesado mesmo! O crítico faz halterofilismo com as obras já publicadas. Ele dosa o peso das palavras em função da experiência. Carinho recebo dos meus amores. Dos meus críticos, quero críticas. Para ser poeta tem que aguentar.

Não é só no campo da arte que colhemos os frutos críticos. Qualquer um pode ser alvo. Gestos, atitudes, forma de andar, jeito de comer, de se vestir, de rir — tudo é avaliado de alguma forma, por alguém, em algum momento. Já recebi inúmeras críticas pesadas, mas a leveza da minha consciência é o que me faz querer melhorar sempre. Não sou intocável; ninguém deve sê-lo. O tato da dureza de um crítico coerente com a doçura de um leitor inocente é o que dosa nossa prosa, equilibra nossa poesia e molda minha estrada poética. Levei alguns ganchos, mas continuo de pé à espera da próxima luta. Tomei alguns caldos, mas sigo nadando à espera da próxima margem. Amo o que faço, e isso não há quem desfaça.