testeUma bailarina presa pelo regime soviético

Em Trilha sonora para o fim dos tempos, Anthony Marra apresenta personagens marcantes, cujas vidas se entrelaçam de maneira comovente e imprevisível. O livro é dividido em nove contos apresentados como faixas de uma fita cassete mostrando diferentes perspectivas de uma mesma história.

Eleito pela revista Granta  como um dos escritores norte-americanos mais promissores da década, o autor explora a beleza das relações humanas nas situações mais improváveis e mostra que os crimes do passado podem causar cicatrizes permanentes.  

Leia a história de Galina:

As netas

Kirovsk, 1937-2013

Melhor começar pelas avós. A avó de Galina era a estrela do campo de trabalhos forçados, enquanto as nossas eram seu público. As nossas tinham sido confeiteiras, datilógrafas, enfermeiras e operárias antes que a polícia secreta batesse a sua porta no meio da noite. Deve ser algum erro, pensaram elas, algum engano burocrático. Como poderia a jurisprudência soviética permanecer infalível, se falhasse em reconhecer a inocência? Algumas se aferravam à descrença enquanto se espremiam nos trens que atravessavam a estepe siberiana rumo ao leste, os nomes de prisioneiras anteriores assombrando em giz borrado as paredes internas dos vagões. Algumas ainda se mantinham descrentes enquanto eram empurradas à força a bordo de barcaças e transportadas para o norte em vapores que singravam o Ienissei. Mas, ao desembarcarem na tundra vitrificada, sua ilusão era consumida pelo brilho intenso do infindável sol de verão. Em cidades distantes, eram expurgadas de suas próprias histórias. Nas fotografias, passavam a ostentar máscaras de nanquim. Nunca as conhecemos, mas somos a prova de que existiram. Cem quilômetros ao norte do Círculo Ártico, elas construíram o nosso lar.

E pronto, já estamos falando de novo sobre nós mesmas. Vamos começar pela avó de Galina, primeira-bailarina do Kirov por cinco temporadas antes de ser presa por envolvimento com uma rede polonesa de sabotadores. Era uma farpa longa e magra de beleza cravada no insípido tom cinzento de qualquer rua movimentada da nossa cidade. Embora tenha percorrido os mesmos trilhos e rios que as nossas avós, seu destino não foi ir às minas. O diretor do campo de trabalhos forçados era um connaisseur de balé, além de ser um sociopata com olhos que brilhavam de malícia. Tinha visto a avó de Galina interpretar Raymonda em Leningrado dois anos antes e fora um dos primeiros espectadores a ficar de pé para ovacioná-la. Quando viu o nome dela na lista de prisioneiros, sorriu — ocorrência rara em sua linha de trabalho. Fez seu copinho de vodca tinir contra o de seu assistente e propôs um brinde:

— Ao poder da arte soviética, que de tão grande chega até o Ártico.

Durante seu primeiro ano no campo de trabalhos forçados, a avó de Galina foi tratada mais como hóspede que como prisioneira. Seu quarto privativo era austero mas limpo, com uma cama de solteira, uma cômoda para suas roupas, uma fornalha a lenha. Várias vezes por semana, o diretor do campo a convidava para um chá em seu escritório. Sentados em lados opostos de uma mesa abarrotada de fichas, papelada relativa a cotas, circulares e diretivas, conversavam sobre o método Vaganova, sobre o comprimento que devia ter o fêmur de uma primeira-bailarina, se Tchaikovsky tivera mesmo tanto medo de perder a cabeça enquanto regia que a segurara com a mão esquerda. Galina definia o diretor do campo como “um leal cidadão da República Popular da Estupidez” por sua insistência em afirmar que O lago dos cisnes continha o mais sofisticado dos pas de deux de Marius Petipa. Ninguém mais, além do sobrinho de seis anos do diretor, atrevia-se a falar com ele de maneira tão brusca, mas nem assim ele reduzia as rações da avó de Galina ou lhe metia nove gramas de chumbo na cabeça. Limitava-se a oferecer-lhe mais chá e sugeria que poderiam chegar a um consenso na semana seguinte, o que a fazia responder que “o consenso é o objetivo dos idiotas”. Não temos como não amar esta mulher, pelo menos um pouco. Assim como também não podia evitar o diretor do campo.

No ano seguinte, ele pediu a avó de Galina que criasse e ensaiasse uma pequena companhia de balé, e dançasse com ela para seu deleite pessoal e para levantar o moral do campo. O conjunto ensaiou três meses antes de estrear. Algumas integrantes tinham feito aulas de balé na infância, e o restante tinha alguma experiência com danças camponesas. Depois de muitas tardes longas, o diretor do campo e a avó de Galina optaram por uma apresentação resumida de O lago dos cisnes. A companhia ensaiou passos designados por um francês questionável até que todas ficassem com os pés tomados por bolhas. A memória muscular ia se reeducando à medida que a avó de Galina, valendo-se de intimidações verbais, forçava aquelas inimigas do povo a incorporar a elegância. Foi ficando cada vez menos claro se ela era uma interna, a captora ou as duas coisas. Depois que músculos distendidos ficaram mais firmes e os dedos inchados dos pés finalmente recuperaram sua forma, depois que a cortina se ergueu e um dos holofotes de vigilância do campo iluminou a extremidade oposta da cantina, ficou evidente para todos que o palco estava armado para algo extraordinário.

Nossas avós se acomodaram nos bancos da cantina que formavam a plateia, e a produção foi, como se pode imaginar, um fiasco. A orquestra mais próxima estava a 1.800km dali, de maneira que a música vinha do cone empoeirado de um gramofone, usado até então para guardar cebolas. A coreografia demandava dezenas de bailarinas; o conjunto formado tinha dez, quatro das quais usavam bigodes pintados a carvão para representar Siegfried, Von Rothbart e os vários lacaios, tutores e cavalheiros da corte.

O lago propriamente dito tinha uma população escassa de aves aquáticas; a piada que surgiria mais tarde é que os caçadores da NKVD tinham chegado antes. Houve erros e passos trocados, e em vários momentos a música avançava deixando as bailarinas perdidas em seu rastro. Mas então a avó de Galina, sozinha no palco, entrava deslizando sob um foco de luz. Os cabelos lavados e adornados de plumas, ombros brancos como o verão polar, pés calçados com sapatilhas de cetim verdadeiro. Na plateia, nossas avós estavam em silêncio. Algumas transportadas de volta às salas de concerto, a comemorações de aniversário e flûtes de champanhe de suas vidas passadas. Outras aproveitaram o alívio do momento para cochilar. Mas a maioria, desconfiamos, ficou atônita. Depois de turnos de quatorze horas de trabalho nas minas, inalando tal quantidade de níquel que as fazia espirrar um muco prateado, nenhuma delas podia esperar uma apresentação particular da primeira-bailarina do Kirov.

A despeito dos muitos contratempos, o diretor do campo ficou extasiado. Nos oito anos seguintes, patrocinou apresentações de balé nos solstícios de verão e de inverno; mas ele não tinha ascendido à atual posição que ocupava dando coisas de graça. Para um homem determinado a extrair máxima produtividade de suas prisioneiras antes que morressem, o balé acabou sendo uma forma muito eficaz de coerção. Os lugares na plateia — e, com eles, rações melhoradas — eram reservados àquelas que excedessem suas cotas de trabalho, as quais não paravam de aumentar. A avó de Galina contribuiu para reduzir em vários anos a expectativa de vida de seu público.

Tudo se acabou no nono ano. Restavam à avó de Galina menos de três meses a cumprir antes de sua data de soltura, e o diretor do campo estava apaixonado. Uma pessoa como ele poderia de fato amar outro ser humano? Com algum pesar, admitimos que sim, que era capaz de se iludir a ponto de crer que se tratava disso. Temos alguma experiência com esse tipo de homem, não com os demais burocratas envolvidos com assassinatos em massa, é claro, mas namorados alcoólatras, maridos violentos, desconhecidos que cultivam a percepção errônea de que seus avanços devem ser recebidos como uma lisonja. A avó de Galina era a única mulher num raio de milhares de quilômetros que não sentia cem por cento de repulsa ao ver o diretor do campo. Talvez ele tenha confundido a falta de um desprezo absoluto com paixão? Quaisquer que fossem os seus motivos, ele a convocou ao seu escritório 85 dias antes da data prevista para o fim da sua sentença. A porta da sala fechou-se atrás dela e do que aconteceu depois disso só sabemos graças a rumores espalhados pelos guardas. Houve uma declaração de amor seguida de um momento que ainda surpreende, tantas décadas mais tarde, em que a avó de Galina rejeitou a investida do diretor. A essa altura da história, nossa admiração um tanto murcha por ela torna a se inflar, e nos sentimos um pouco mal por tê-la acusado de colaboracionismo. Mas o diretor do campo estava desacostumado à rejeição. Os guardas ouviram o som abafado de uma luta, um grito, roupas se rasgando. Enquanto o restante do campo dormia, o diretor tornava-se avô de Galina.

Ou talvez eles tivessem dormido juntos aquele tempo todo. Quem somos nós para dizer?

Passaram-se anos. A morte de Stálin, seguida da denúncia dos seus crimes, levou ao fechamento da prisão. Os responsáveis pela administração do campo foram transferidos do Ministério do Interior para o Ministério da Siderurgia, sem sequer trocarem de sala. O níquel continuou a ser extraído da terra pelas mesmas pessoas. Nossas avós se casaram com mineiros, técnicos em fundição, até mesmo antigos guardas da prisão. Permaneceram ali por causa do lucro e por motivos de ordem prática: os salários pagos nas minas de níquel do Ártico estavam entre os mais altos do país e os antigos prisioneiros encontravam dificuldades para obter a licença para voltar a suas terras de origem. A avó de Galina foi uma delas. Criou sua filha e lecionava na escola os princípios básicos do comunismo. O diretor do campo foi rebaixado do cargo e substituído por um figurão do partido. Em seu leito de morte, em maio de 1968, a avó de Galina agarrou o braço da enfermeira de plantão e murmurou: “Estou vendo, estou vendo, estou vendo.” E morreu antes de poder contar à enfermeira exatamente o que via.

Mas a história dela é a das nossas avós. A história de Galina é a nossa.

Leia o conto inteiro aqui:

 

Saiba mais sobre o livro

testeLançamentos de março

Confira as sinopses dos lançamentos do mês. Qual vocês querem ler?

Ikigai: Os segredos dos japoneses para uma vida longa e feliz, de Héctor Garcia e Francesc Miralles

Qual é o seu propósito na vida? Por que existem pessoas que sabem o que querem, enquanto outras definham na confusão? Segundo os japoneses, o segredo é encontrar seu ikigai, conceito que pode ser traduzido como razão para viver. Ter um ikigai claro e definido proporciona a satisfação e o propósito que justificam nossa existência, sendo, para muitos, também a chave para uma vida mais longa.

Os autores foram até Okinawa, a ilha japonesa de população centenária, e reuniram os hábitos e rotinas que mantém em dia a saúde da mente, do corpo e do espírito daquele povo. [Saiba mais]

 

Com amor, Simon, de Becky Albertalli

 

 

Edição com nova capa e novo título da apaixonante história de Simon, que conquistou milhares de leitores ao tratar com naturalidade e bom humor a afirmação e os dilemas de um adolescente gay. Agora, a adaptação do romance chega às telas de cinema com Nick Robinson, de Jurassic World, no papel de Simon, e Katherine Langford, protagonista de 13 Reasons Why.

Simon Spier tem dezesseis anos e é gay, mas não conversa sobre isso com ninguém. Enquanto troca e-mails com um garoto misterioso que se identifica como Blue, Simon vai ter que enfrentar, além de suas dúvidas e inseguranças, uma chantagem inesperada.

 

Bruce Dickinson: Uma autobiografia, de Bruce Dickinson

 

Vocalista e líder do Iron Maiden há mais de 30 anos, Bruce Dickinson é um homem de muitos talentos. Muito mais do que um ícone do rock, ele é piloto e empreendedor da aviação, cervejeiro, palestrante, roteirista, escritor com dois livros publicados, apresentador de rádio, ator de TV e exímio esgrimista.

Conhecido por não falar da sua vida pessoal, ele compartilha as memórias desde a sua infância, eventos marcantes e até a recente batalha contra um câncer na garganta. A obra contém ainda fotos incríveis da carreira e da vida pessoal de Bruce.

 

O Homem de Giz, de C. J. Tudor

 

Os fãs de Stephen King e Stranger Things vão curtir o thriller que revisita toda a nostalgia dos anos 1980 em uma história sobre assassinato e sinais misteriosos!

Em 1986, Eddie e os amigos passam a maior parte dos dias andando de bicicleta pela vizinhança em busca de aventuras. Os desenhos a giz são seu código secreto: homenzinhos rabiscados no asfalto; mensagens que só eles entendem. Mas um desenho misterioso leva o grupo de crianças até um corpo desmembrado e espalhado em um bosque. Depois disso, nada mais é como antes.

Em 2016, Eddie se esforça para superar o passado, até que um dia ele e os amigos de infância recebem um mesmo aviso: o desenho de um homem de giz enforcado. Quando um dos amigos aparece morto, Eddie tem certeza de que precisa descobrir o que de fato aconteceu trinta anos atrás. [Leia um trecho]

 

Trilha sonora para o fim dos tempos, de Anthony Marra

 

Nesta coletânea de contos, Anthony Marra, aclamado pela imprensa internacional e eleito pela Granta como um dos mais promissores autores da década, reúne histórias que mostram a vida sob o impacto causado pelos regimes brutais que dominaram a Rússia — desde a Leningrado da década de 1930 até a São Petersburgo do século XXI.

Aclamado pela imprensa internacional e eleito pela Granta como um dos mais promissores autores da década, Marra é autor de Uma Constelação de Fenômenos Vitais.

 

Five Nights at Freddy’ (vol.2): Os distorcidos, de  Scott Cawthon e Kira Breed-Wrisley

Em Olhos prateados, primeiro volume da série Five Nights at Freddy’s, Charlie e seus amigos desvendam misteriosos assassinatos que aconteceram na pizzaria Freddy Fazbear’s, um lugar tomado por perigosos animatrônicos.

Em Os distorcidos, um ano se passou e Charlie continua assombrada por pesadelos. Para piorar, uma nova onda de assassinatos começa a acontecer e ela se pergunta: mas se todo o terror foi destruído junto com o que sobrou da pizzaria, o que estará por trás dessas mortes?

 

Segredos do Acampamento Meio-Sangue: O verdadeiro guia do acampamento para semideuses, de Rick Riordan

Neste livro extra da série As provações de Apolo, o leitor será guiado por Percy Jackson e outros residentes do acampamento para sentir na pele como é a vida de um semideus e conhecer curiosidades, segredos e a rotina do acampamento e seus chalés mágicos.

 O livro reúne diversas histórias de feitos heroicos de semideuses que moraram no acampamento ou apenas o visitaram de seguirem seu destino, além das palavras de sabedoria divina do deus Apolo e uma imperdível sessão de perguntas e respostas.

testeOs melhores jovens escritores americanos da década

A cada dez anos, a revista Granta seleciona os autores mais promissores dos Estados Unidos e do Reino Unido com menos de 40 anos. Dentre os 21 escritores da lista divulgada esta semana, três são publicados pela Intrínseca.

 

Aos 28 anos, Emma Cline foi aclamada pela crítica por sua estreia literária. De acordo com a vencedora do Pulitzer Jennifer Egan, As garotas “reverbera com uma prosa surpreendente, brilhante e repleta de vitalidade”. O livro já foi publicado em mais de 35 países e será lançado no Brasil em maio.

A narrativa de Cline foi inspirada no impacto causado pelos assassinatos cometidos pelo culto de Charles Manson nos Estados Unidos na década de 1960 e narra o processo de crescimento pessoal de um grupo de jovens. As garotas é um retrato atemporal das turbulências, das vulnerabilidades e da força das mulheres em sua passagem à maturidade — e de como, com apenas um passo errado, tudo pode acabar terrivelmente mal.

Nascida na Califórnia, Emma Cline tem trabalhos de ficção publicados em importantes veículos como Tin House, Granta e The Paris Review. Em 2014, foi agraciada com o Paris Review Plimpton Prize.

 

Aos 38 anos, Lauren Groff já recebeu diversos prêmios literários e é autora de Destinos e fúrias, romance finalista do National Book Award e que figurou na lista de melhores livros de 2015 do ex-presidente americano Barack Obama.

Publicado no Brasil em 2016, Destinos e fúrias narra, a partir de duas perspectivas, as verdades e as mentiras de um casamento e como os segredos podem ser a chave para o sucesso de uma relação. Na obra, Lotto e Mathilde se conhecem ainda jovens, nos últimos meses da faculdade. Perdidamente apaixonados e destinados ao sucesso, antes da formatura já estão casados. Seguem-se anos difíceis, mas românticos. Uma década depois, o caminho torna-se mais sólido: ele é um dramaturgo famoso e ela se dedica integralmente ao sucesso do marido. Mas a vida dos dois, invejada por muitos como a verdadeira definição de parceria bem-sucedida, não é exatamente o que parece.

Nascida em Nova York, Lauren Groff é autora de outros três best-sellers e foi finalista do Orange Prize para Novos Escritores e do L.A. Times Book Prize. Seus contos foram publicados em revistas como The New Yorker, Harper’s Bazaar, Tin House e The Atlantic, assim como em diversas antologias.

 

Anthony Marra tem 32 anos e é autor de Uma constelação de fenômenos vitais. Publicado pela Intrínseca em 2014, o livro narra a vida de um grupo de pessoas que passa por situações extremas.

Interessado em contar uma história de superação, amizade e amor que se passasse em um local devastado pela violência — a Chechênia no período entreguerras —, Marra criou um romance em que nenhum personagem é desprezado e conexões complexas interligam os passados de companheiros extremamente improváveis.

Nascido em Washington, Marra recebeu o Pushcart Prize, o Narrative Prize (ambos em 2010) e o Whiting Award (2012). Em 2014 recebeu o prêmio John Leonard oferecido pelo National Book Critics Circle, além de ter sido finalista em 2013 do National Book Award e do Flaherty-Dunnan First Novel Prize.

Confira a lista completa da Granta.

testeA constelação particular de Anthony Marra

Por João Lourenço*

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Anthony Marra deu várias voltas antes de chegar onde queria. Descobriu a paixão pela literatura durante um curso de escrita criativa para idosos, na época em que morava em Washington, D.C. Cercado de aposentados, aprendeu que poderia modificar o passado e criar um futuro mais interessante apenas com o poder da imaginação.

Em Uma constelação de fenômenos vitais, seu livro de estreia, Marra analisa a vida de um grupo de pessoas que passa por situações extremas. Interessado em contar uma história de superação, amizade e amor que se passasse em uma terra arrasada — a Chechênia no período entre guerras —, criou um romance em que nenhum personagem é desprezado, e todos expõem sua visão de mundo. Em entrevista por Skype, o autor fala sobre o processo de criação da obra.

João Lourenço: Certa vez, o escritor chileno Roberto Bolaño disse que nasceu em uma família preguiçosa e ignorante, em que ninguém gostava de ler. Sozinho, ele descobriu o poder transformador da leitura. Essa é uma discussão interessante, pois antes de ser um bom escritor é preciso ser um bom leitor. Começamos a ler sozinhos ou esse é um hábito que se adquire em casa ou na escola? Como foi o seu processo?

Anthony Marra: Se você recebe uma educação sólida, provavelmente será mais fácil valorizar determinado padrão artístico ou cultural. É importante ter alguém que lhe mostre o caminho, mas nem todos têm as mesmas chances. Logo, creio que essa não é a única maneira de se tornar um bom leitor. Para mim, a leitura veio por meio dos livros de Michael Crichton (O parque dos dinossauros) e Tom Clancy (A caçada ao Outubro Vermelho). Lembro-me de devorá-los quando criança. Fui influenciado um pouco por meus pais, mas eles liam basicamente revistas e jornais.

Não venho de uma família de professores de literatura, de acadêmicos. No entanto, meu pai gostava dos livros de John Grisham e de vários autores best-sellers. Meus pais tinham um sótão enorme, e era lá que guardavam os livros. Minha lembrança mais forte desse período é de subir no cômodo e ficar fascinado pelas formas e aromas daqueles exemplares desconhecidos. Eu costumava carregá-los pela casa, mesmo que não fosse lê-los. Descobri que o objetivo de um bom livro é fazer você se esquecer um pouco da vida. Como leitor, procuro aquele sentimento de ficar alheio a tudo a meu redor, aquele momento em que você fica submerso em algo que outra pessoa sonhou e depois transcreveu e colocou entre duas capas. A capacidade da literatura de fazer você se esquecer de você mesmo é maravilhosa. Então, eu diria que sou responsável pela minha busca artística. Aos poucos, descobri autores que todo bom leitor descobre, como Charles Dickens e outros.

JL: Quando você percebeu que era possível fazer da escrita uma profissão?

AM: Foi após o ensino médio. Não fui para a faculdade de imediato. Na época, eu morava em Washington e trabalhava na agência postal ao lado da casa de meus pais. Todos meus amigos foram para a faculdade e eu não tinha nada para fazer. Então entrei para um curso de escrita criativa em um centro comunitário para idosos e aposentados. Eu era o único jovem lá; provavelmente a diferença mínima de idade entre mim e os demais alunos era de cinquenta anos. Toda semana a gente se encontrava para ler e compartilhar nossas redações. Esses textos me fizeram sentir pela primeira vez que eu tinha alguma chance na literatura. Antes, eu acreditava que seria um cientista, mas sempre fui péssimo em matemática e não conseguia lembrar as fórmulas químicas. Escrever ficção foi minha saída; acredito que me apaixonei por isso ao perceber que a escrita é uma forma de mentira, uma forma de inventar coisas. Lembro-me da sensação de euforia. Sabe, você pode pegar um pedaço de papel na China e um pedaço de papel no outro lado do mundo e eles são iguais; não importa o lugar, o papel e a ideia de transformá-lo com a força da imaginação serão sempre os mesmos. As diversas possibilidades de criar algo inteiramente seu me animaram. Desde então, comecei a escrever mais e mais, mesmo sabendo que era terrível, e nunca perdi de vista essas possibilidades.

CAPA_UmaConstelacaoDeFenomenosVitais_300dpiJL: Uma constelação de fenômenos vitais se passa no período entre as guerras da Chechênia, um lugar não muito explorado pela literatura. Por que a Chechênia? 

AM: Fiz intercâmbio em São Petersburgo, na época de faculdade, e frequentemente me deparava com grupos de cadetes marchando para todos os lados, sempre em uniformes impecáveis. Às vezes eles passavam por uma estação de metrô que tinha se tornado uma espécie de ponto de encontro dos veteranos de guerra russos. A diferença de idade entre os cadetes e os veteranos, que tinham servido nas guerras da Chechênia, era mínima. Os veteranos se aglomeravam na estação para mendigar tostões nas horas de movimento. Também vestiam uniforme, mas não tão alinhados como o dos cadetes. A cena me marcou. Era como se os mais jovens vissem neles o futuro, cheios de incerteza e medo ao ver os colegas derrotados pela guerra — muitos voltaram mutilados da Chechênia. Em contrapartida, os mais velhos recordavam o passado e a juventude que precisaram abandonar ao ir para a guerra. Nesse momento, imaginando o que separava esses dois grupos, passei a me interessar pelos conflitos que ocorreram na Chechênia.

JL: Você chegou a visitar a Chechênia. Como foi seu processo criativo?

AM: Por um tempo, li tudo que encontrei sobre os conflitos, mas não pensava em escrever. Estava obcecado por aquele canto esquecido do mundo. Anos mais tarde, fiz uma oficina de escrita em Iowa e comecei a considerar a hipótese de escrever uma história que se passasse na Chechênia. Tentei encontrar um romance, em língua inglesa, que tivesse a região como cenário e abordasse o período entre as duas guerras, mas não achei nada. Isso me motivou a escrever. Comecei então a trabalhar no que veio a ser Uma constelação de fenômenos vitais. De certa forma, escrevi o livro que gostaria de ler, que gostaria de encontrar nas prateleiras. Quando estava escrevendo, não pensava em um romance histórico; minha ideia era mais voltada para algo pós-apocalíptico, como A estrada, do Cormac McCarthy. Fiz várias tentativas frustradas de visitar a Chechênia, e só consegui quando estava terminando o livro.

JL: No livro há vários flashbacks. Apesar de a ação principal ocorrer em um período de apenas cinco dias, você voltou no tempo para apresentar a vida dos personagens. Foi uma escolha intencional fugir da narrativa linear?

AM: Acho que dois motivos me fizeram desistir da estrutura linear. Em primeiro lugar, senti que contar uma história sobre pessoas que tiveram a vida devastada em uma estrutura de começo, meio e fim não funcionaria. Pense só: quando há guerra e acontecimentos dramáticos, a sensação de passagem de tempo também é interrompida. E em segundo lugar, talvez a razão mais importante tenha sido a de que, no fundo, eu não achava que fosse conseguir manter o ritmo da trama em um romance que cobrisse linearmente um período de dez anos — desde o começo da primeira guerra na região do Cáucaso até o final da segunda. Acredito que quanto mais abrangente a trama, maior a chance de o autor deixar pontas soltas e falhas, maior a chance de ele se perder na narrativa. Percebi que ir e voltar no tempo me ajudaria a cobrir as áreas de aspecto emocional e psicológico dos personagens. Dessa forma, narrei todo o período de tempo que tinha em mente e não corri tanto risco.

JL: Em seu livro não há super-heróis nem a noção clara de bem e mal. Todos foram arrasados pela vida. Apesar de se tratar de um romance realista e recheado de detalhes daquele canto desconhecido do mundo, não é didático. Você concorda?

AM: Sim, com certeza. É engraçado, pois comecei a escrever em 2008, apenas quatro anos depois de os eventos narrados no início do livro terem terminado. Talvez por isso eu nunca tenha considerado escrever um romance histórico. Para mim, é uma ficção bastante contemporânea. Nada destrói mais o brilho de um livro de ficção do que você sentir que está tendo uma aula de história. E acredito que o mesmo acontece quando você acha que os personagens estão seguindo uma cartilha de comportamento, que basicamente costuma variar entre herói e vilão. Mas eu só fui entender isso, que esse tipo de personagem não iria funcionar no livro, já imerso na história. No primeiro rascunho, Akhmed era uma espécie de herói. Depois que li, percebi que ele não era interessante. É muito mais interessante ver alguém que está lutando, que falhou e percebeu que a vida está sendo uma grande decepção, que não está conseguindo atender às próprias expectativas. Foi importante tratar os personagens como seres humanos, com interiores complexos e vidas ricas, sem julgá-los.

JL: Costuma-se dizer que há uma maldição em um romance de estreia que faz sucesso. Você já sente essa pressão?

AM: Esse é um daqueles problemas bons de se ter. É melhor conviver com as expectativas do que não ter nenhuma. Sinto que muitos leitores aqui nos Estados Unidos, e espero que no Brasil também, apostaram no livro; apostaram na leitura de um romance que se passa em um tempo e espaço bastante desconhecidos da maioria. Em muitos casos, a surpresa tem sido positiva entre os leitores e tudo o que desejo é alcançar o mesmo êxito no próximo livro.


João Lourenço
é jornalista. Passou pela redação da FFW MAG!, colaborou com a Harper’s Bazaar e com a ABD Conceitual, entre outras publicações estrangeiras de moda e design. Agora, está em NYC tentando escrever seu primeiro romance.

testeA Chechênia, segundo Anthony Marra

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Anthony Marra nasceu em Washington, Estados Unidos. Fascinado pelo Leste Europeu, foi estudar literatura chechena na Rússia. Em São Petersburgo, descobriu que o país era muito mais que um lugar frio, rico em história e marcado por conflitos políticos. Em 2006, após o assassinato de Anna Politkovskaya, jornalista opositora do governo de Putin, que cobria a guerra separatista entre Rússia e Chechênia, Marra observou que não existia literatura norte-americana sobre a região e sua história. Surgiu daí a inquietação que levou à criação de seu premiado romance de estreia, Uma constelação de fenômenos vitais, lançado recentemente pela Intrínseca.

O título da obra, segundo o autor, é inspirado na definição do dicionário médico para a palavra “vida”. Ao estabelecer como cenário de seu livro as guerras, ocupações e insurgências que arruinaram a região da Cáucaso desde a década de 1990, Marra transforma um dos períodos mais terríveis da história em uma trama profunda e marcante sobre amizade, perda e laços.

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Uma constelação de fenômenos vitais conta a história de Havaa uma menina de oito anos que observa seu pai ser levado no meio da noite por soldados russos que o acusam de colaborar com rebeldes chechenos. De forma surpreendente, o livro equilibra momentos de violência e extrema delicadeza, experiências traumáticas e lembranças felizes.

Best-seller do The New York Times e do The Washington Post no ano passado, a obra encantou anônimos e famosos, como a atriz Sarah Jessica Parker, que o recomendou em clube de livros, nos Estados Unidos. Além do sucesso de vendas, Anthony Marra recebeu prêmios importantes como o John Leonard, oferecido pelo National Book Critics Circle, e foi finalista em 2013 do National Book Award e do Flaherty-Dunnan First Novel Prize. Marra também ganhou o Pushcart Prize, o Narrative Prize (ambos em 2010) e o Whiting Award (2012).

testeLANÇAMENTOS DA BIENAL DO LIVRO DE SÃO PAULO 2014

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Em sua quarta participação na Bienal Internacional do Livro de São Paulo a Intrínseca publicará sete livros inéditos, entre eles Flash Boys, do jornalista norte-americano Michael Lewis; além da reedição de sucessos como a série infantojuvenil Percy Jackson e os Olimpianos e o livro interativo Destrua este diário com novas capas.

Os autores nacionais também marcarão presença: além do lançamento de Pó de lua, de Clarice Freire, também haverá sessões de autógrafos com Isabela Freitas; autora de Não se apega, não, com Pedro Gabriel, autor de Eu me chamo Antônio, e com a vencedora do Jabuti Míriam Leitão, que autografa Tempos extremos, sua estreia na ficção.

 Confira os lançamentos:

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Pó de lua, de Clarice Freire

Em 2011, discretamente, a publicitária Clarice Freire criou no Facebook uma página para reunir seus escritos e desenhos.  Batizou-a como Pó de Lua,  sua receita infalível “para diminuir a gravidade das coisas”. Desde então, ela vem conquistando uma legião de fãs fiéis e engajados, que se encantaram com a delicadeza de seus pensamentos, seu humor sutil e o traço despretensioso, que combina desenhos e até fragmentos de palavras. Da internet para as páginas de um livro, foi mais um salto para a jovem autora recifense, de apenas 26 anos. Ela surpreende seus admiradores com uma proposta diferente. Pó de Lua, o livro, tem o formato de um dos cadernos moleskine em que Clarice exercita sua criatividade. Inspirada pelas quatro fases da lua – minguante, nova, crescente e cheia –, ela trata em frases concisas e certeiras de sentimentos como a saudade, o medo, a paixão e a alegria, sempre em sua caligrafia característica, repleta de belas ilustrações.

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Percy Jackson e os Olimpianos, de Rick Riordan ― novas capas

Os cinco livros da série são relançados em edição limitada e com design exclusivo: as cinco lombadas dos livros compõem, juntas, uma ilustração especial de John Rocco. Em O ladrão de raios, Percy Jackson, o menino que aos doze anos descobre que é um semideus, filho de Poseidon, precisa impedir uma guerra entre os deuses que destruiria a civilização ocidental; em O Mar de Monstros, ele e os amigos se envolvem em uma perigosa aventura para defender o acampamento dos semideuses; em A maldição do titã, Percy descobre que o Senhor dos Titãs despertou e está disposto a destruir a humanidade; em A batalha do Labirinto, o semideus vai combater o perigoso titã no temido Labirinto de Dédalo; e em O último olimpiano, Percy tem que lidar não só com o exército de Cronos, mas também com a chegada de seu décimo sexto aniversário — e, assim, com a profecia que determinará seu destino.

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Flash Boys  revolta em Wall Street, de Michael Lewis

Descontrolado e invisível, o mercado financeiro atual, concebido para beneficiar apenas algumas pessoas, segue uma única lei: a velocidade. Tudo pode mudar num piscar de olhos, e há corretores de alta frequência que venderiam a própria avó em troca de um microssegundo de vantagem. EmFlash Boys, Michael Lewis volta a Wall Street para revelar como um punhado de indivíduos excêntricos e brilhantes está determinado a expor a verdade ao público. Esta é a história surpreendente de como um pequeno grupo decidiu enfrentar todo o sistema e declarar guerra contra algumas das pessoas mais ricas e poderosas do mundo.

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Circuito de mentiras, de Juliet Macur

Juliet Macur, premiada repórter do New York Times, acompanhou durante quase dez anos a incrível trajetória de Lance Armstrong, o ciclista que em 2006 atingiu o recorde de maior vencedor do árduo Tour de France ao conquistar sete títulos consecutivos, mas transformou-se num dos maiores párias da história esportiva devido a denúncias de que ele sempre teria recorrido ao doping para competir. Macur foi uma das poucas pessoas a ter acesso ao ciclista: obteve a versão do próprio Armstrong e reuniu relatos de centenas de testemunhas para revelar a dimensão do escândalo que transformou o ciclismo mundial. Em Circuito de mentiras, ela revela em detalhes o sistema elaborado por Armstrong e imposto aos atletas de sua equipe. O resultado é uma trama rica e abrangente sobre a ascensão de um homem para a fama e sua surpreendente queda.

 Novas capas

Destrua este diário, de Keri Smith ― duas novas capas

 Um diário costuma servir para anotar ideias, memórias ou registros do cotidiano. Keri Smith, ilustradora e artista canadense, inventou um tipo diferente de diário, que exige do usuário uma interação mais lúdica e inusitada. Com a proposta de estimular a criatividade e questionar convenções sobre a forma como lidamos com os objetos, Destrua este diário nos convida a rasgar páginas, rabiscar, pintar fora das linhas, manchar e até mesmo levar o livro para o banho. Com o sucesso da primeira edição brasileira, Destrua este diário volta com duas novas capas, aumentando ainda mais as possibilidades destrutivas para o leitor.

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Termine este livro, de Keri Smith

Um livro de conteúdo profundamente misterioso foi abandonado em um parque. As páginas, soltas, foram embaralhadas pelo vento, e a capa, quase ilegível, exibia as palavras Manual de instruções. Keri Smith, autora de Destrua este diário, oferece ao leitor um novo desafio — decifrar o que há por trás dessa história e completar o conteúdo desconhecido da obra. E é claro que Smith não deixaria o leitor desamparado: a fim de realizar a missão, ele passará por um treinamento intensivo nas artes da espionagem e aprenderá a desvendar códigos secretos, reconhecer padrões ocultos no ambiente e usar a criatividade para dar a objetos comuns utilidades extraordinárias.

 
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A busca, de Daniel Yergin

Daniel Yergin demonstra que a questão energética é o motor de transformações políticas e econômicas globais da atualidade. A busca é um relato arrebatador sobre um problema que afeta o mundo contemporâneo: onde encontrar a energia de que tanto necessitamos? Neste livro, o autor aborda as formas de energia tradicionais sobre as quais nossa civilização se ergueu e as novas fontes que prometem substituí-las. Das ruas engarrafadas de Pequim ao litoral do mar Cáspio, dos conflitos no Oriente Médio até o Capitólio e o Vale do Silício, Yergin revela as decisões que estão moldando o futuro.

 


untitledUma constelação de fenômenos vitais
, de Anthony Marra

Em uma vila coberta de neve na Chechênia, Havaa, de 8 anos, observa seu pai ser levado no meio da noite por soldados russos que o acusam de colaborar com rebeldes chechenos. Do outro lado da rua, Akhmed, um amigo da família, vê a cena e teme pelo pior quando os soldados ateiam fogo à casa da menina. Ao encontrar Havaa escondida na floresta com uma estranha mala azul, Akhmed decide buscar refúgio num hospital abandonado onde a única médica remanescente, Sonja, trata os feridos — uma decisão que irá mudar a vida dos três para sempre. Ao retratar o poder transcendente do amor em meio à guerra, Anthony Marra constrói, em Uma constelação de fenômenos vitais, um romance profundo e marcante sobre amizade, perda e os laços inesperados que as pessoas são capazes de construir.

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A 25ª hora, de C. Virgil Gheorghiu

Escrito durante o cativeiro do autor — preso pelas tropas americanas no fim da Segunda Guerra Mundial —, A 25ª hora conta a história de Iohann Moritz, um camponês romeno que é equivocadamente denunciado como judeu por um gendarme que lhe cobiça a esposa. Moritz cai nas garras dos nazistas, iniciando um périplo por diversos campos de concentração da Europa. Ao fugir com outros detentos para a Hungria, país “onde a vida é menos dura para os judeus”, acaba detido como espião romeno e é torturado. Deportado para a Alemanha, na condição de “trabalhador húngaro voluntário”, é examinado por um médico nazista que o considera um espécime excepcional da linhagem ariana. Ambientado num cenário irrespirável, A 25 a hora revela-se uma condenação não só do nazismo, como de todo tipo de totalitarismo. Um romance emocionante, com reflexões atuais e necessárias.

 

 

testeESTANTE INTRÍNSECA – LANÇAMENTOS DE AGOSTO

Mosaico

 

 

Pó de lua, de Clarice Freire

Em 2011, discretamente, a publicitária Clarice Freire criou no Facebook uma página para reunir seus escritos e desenhos.  Batizou-a como Pó de Lua,  sua receita infalível “para diminuir a gravidade das coisas”. Desde então, ela vem conquistando uma legião de fãs fiéis e engajados, que se encantaram com a delicadeza de seus pensamentos, seu humor sutil e o traço despretensioso, que combina desenhos e até fragmentos de palavras. Da internet para as páginas de um livro, foi mais um salto para a jovem autora recifense, de apenas 26 anos. Ela surpreende seus admiradores com uma proposta diferente. Pó de Lua, o livro, tem o formato de um dos cadernos moleskine em que Clarice exercita sua criatividade. Inspirada pelas quatro fases da lua – minguante, nova, crescente e cheia –, ela trata em frases concisas e certeiras de sentimentos como a saudade, o medo, a paixão e a alegria, sempre em sua caligrafia característica, repleta de belas ilustrações.


Flash Boys
revolta em Wall Street, de Michael Lewis

Descontrolado e invisível, o mercado financeiro atual, concebido para beneficiar apenas algumas pessoas, segue uma única lei: a velocidade. Tudo pode mudar num piscar de olhos, e há corretores de alta frequência que venderiam a própria avó em troca de um microssegundo de vantagem. Em Flash Boys, Michael Lewis volta a Wall Street para revelar como um punhado de indivíduos excêntricos e brilhantes está determinado a expor a verdade ao público. Esta é a história surpreendente de como um pequeno grupo decidiu enfrentar todo o sistema e declarar guerra contra algumas das pessoas mais ricas e poderosas do mundo.

Circuito de mentiras, de Juliet Macur

Juliet Macur, premiada repórter do New York Times, acompanhou durante quase dez anos a incrível trajetória de Lance Armstrong, o ciclista que em 2006 atingiu o recorde de maior vencedor do árduo Tour de France ao conquistar sete títulos consecutivos, mas transformou-se num dos maiores párias da história esportiva devido a denúncias de que ele sempre teria recorrido ao doping para competir. Macur foi uma das poucas pessoas a ter acesso ao ciclista: obteve a versão do próprio Armstrong e reuniu relatos de centenas de testemunhas para revelar a dimensão do escândalo que transformou o ciclismo mundial. Em Circuito de mentiras, ela revela em detalhes o sistema elaborado por Armstrong e imposto aos atletas de sua equipe. O resultado é uma trama rica e abrangente sobre a ascensão de um homem para a fama e sua surpreendente queda.

 Destrua este diário, de Keri Smith ― duas novas capas

 Um diário costuma servir para anotar ideias, memórias ou registros do cotidiano. Keri Smith, ilustradora e artista canadense, inventou um tipo diferente de diário, que exige do usuário uma interação mais lúdica e inusitada. Com a proposta de estimular a criatividade e questionar convenções sobre a forma como lidamos com os objetos, Destrua este diário nos convida a rasgar páginas, rabiscar, pintar fora das linhas, manchar e até mesmo levar o livro para o banho. Com o sucesso da primeira edição brasileira, Destrua este diário volta com duas novas capas, aumentando ainda mais as possibilidades destrutivas para o leitor.

Termine este livro, de Keri Smith

Um livro de conteúdo profundamente misterioso foi abandonado em um parque. As páginas, soltas, foram embaralhadas pelo vento, e a capa, quase ilegível, exibia as palavras Manual de instruções. Keri Smith, autora de Destrua este diário, oferece ao leitor um novo desafio — decifrar o que há por trás dessa história e completar o conteúdo desconhecido da obra. E é claro que Smith não deixaria o leitor desamparado: a fim de realizar a missão, ele passará por um treinamento intensivo nas artes da espionagem e aprenderá a desvendar códigos secretos, reconhecer padrões ocultos no ambiente e usar a criatividade para dar a objetos comuns utilidades extraordinárias.

A busca, de Daniel Yergin

Daniel Yergin demonstra que a questão energética é o motor de transformações políticas e econômicas globais da atualidade. A busca é um relato arrebatador sobre um problema que afeta o mundo contemporâneo: onde encontrar a energia de que tanto necessitamos? Neste livro, o autor aborda as formas de energia tradicionais sobre as quais nossa civilização se ergueu e as novas fontes que prometem substituí-las. Das ruas engarrafadas de Pequim ao litoral do mar Cáspio, dos conflitos no Oriente Médio até o Capitólio e o Vale do Silício, Yergin revela as decisões que estão moldando o futuro.

Uma constelação de fenômenos vitais, de Anthony Marra

Em uma vila coberta de neve na Chechênia, Havaa, de 8 anos, observa seu pai ser levado no meio da noite por soldados russos que o acusam de colaborar com rebeldes chechenos. Do outro lado da rua, Akhmed, um amigo da família, vê a cena e teme pelo pior quando os soldados ateiam fogo à casa da menina. Ao encontrar Havaa escondida na floresta com uma estranha mala azul, Akhmed decide buscar refúgio num hospital abandonado onde a única médica remanescente, Sonja, trata os feridos — uma decisão que irá mudar a vida dos três para sempre. Ao retratar o poder transcendente do amor em meio à guerra, Anthony Marra constrói, em Uma constelação de fenômenos vitais, um romance profundo e marcante sobre amizade, perda e os laços inesperados que as pessoas são capazes de construir.

A 25ª hora, de C. Virgil Gheorghiu

Escrito durante o cativeiro do autor — preso pelas tropas americanas no fim da Segunda Guerra Mundial —, A 25ª hora conta a história de Iohann Moritz, um camponês romeno que é equivocadamente denunciado como judeu por um gendarme que lhe cobiça a esposa. Moritz cai nas garras dos nazistas, iniciando um périplo por diversos campos de concentração da Europa. Ao fugir com outros detentos para a Hungria, país “onde a vida é menos dura para os judeus”, acaba detido como espião romeno e é torturado. Deportado para a Alemanha, na condição de “trabalhador húngaro voluntário”, é examinado por um médico nazista que o considera um espécime excepcional da linhagem ariana. Ambientado num cenário irrespirável, A 25 a hora revela-se uma condenação não só do nazismo, como de todo tipo de totalitarismo. Um romance emocionante, com reflexões atuais e necessárias.

Os legados do Número Cinco, de Pittacus Lore

Nesse lançamento exclusivo em e-book, a origem do Número Cinco é revelada. Antes de se aliar aos maiores inimigos dos lorienos, antes de se infiltrar na Garde, antes de cometer a traição final, Cinco estava escondido. Quando seu Cêpan morre, o garoto é forçado a lutar sozinho pela sobrevivência. Ansioso para finalmente experimentar a liberdade e conhecer o mundo, Cinco se envolve com o tipo errado de pessoas — os mogadorianos.